15.12.12

João Araújo Correia (Linguagem popular)






Aprecio, desde que me entendo, a linguagem popular.

Tenho de memória inéditos vocábulos e modos-de-dizer ouvidos à gente inculta em todo o Portugal.

Em lugares da mesma freguesia, notei variações de fonética salientes.

Quando li o Fernão Lopes, há um ror de anos, descobri com alvoroço que eram irmãs a sua sintaxe e a do povo da minha aldeia natal.

Duas regras escritas do punho de vizinho meu pareciam arrancadas à crónica de Pedro.



- JOÃO DE ARAÚJO CORREIA, Sem Método, XVIII.


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Joaquín Giannuzi (Crenças de jardim)





CREENCIAS DE JARDIN



La última línea de sol
desciende de hoja en hoja. La luz desfallece
hacia el extremo de una escala tardía.
Ambos sufren en el jardín de la retórica
de ese drama mecánico. Ella dice:
mira, eso es el tiempo encarnado
que alimenta su medida; él asiente,
verifica con un anhelo estremecido
el naufragio del día y de los cuerpos.
Entonces callan bajo una especie de sacrificio.
Convierten esta hora delgada y ambigua
en la herida de una religión aterradora.
Y aunque el viento es suave y las flores repiten
un probable manifiesto de resurrección
ellos esperan la oscuridad nocturna para mentirse
sobre la mutación de las cosas y su sentido.


Joaquín Giannuzi




A última linha do sol
vai descendo de folha em folha.
A luz desfalece até ao ponto último
de uma escala tardia.
Ambos sofrem no jardim da retórica
desse drama mecânico. Ela diz:
olha, este é o tempo encarnado
que lhe alimenta a medida; ele assente,
constatando o naufrágio do dia e dos corpos
com um suspiro estremecido.
Então calam-se, numa espécie de sacrifício.
Convertem essa hora estreita e ambígua
na ferida duma religião aterradora.
E apesar do vento suave e de as flores anunciarem
um manifesto provável de ressurreição
ambos esperam o escuro da noite
para se mentirem sobre
a mutação das coisas e do seu sentido.


(Trad. A.M.)

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14.12.12

Charles Bukowski (Sim, claro)





SIM, CLARO



há coisas piores do que
estar só
mas em geral leva décadas
a perceber-se
e frequentemente
quando se percebe
é tarde de mais
e nada há pior
do que
demasiado tarde.


Charles Bukowski

(Trad. F.Carvalho)


[Revista TriploV]

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13.12.12

Jesús López Pacheco (A Noma e Wes Flint)





A NOMA Y WES FLINT



Canadá, página de nieve. Empiezo
lentamente a escribir en ti los pasos
de la segunda parte de mi vida.
Casi temo mancharte la blancura
con huellas del dolor que me he traído.
Para escribir en nieve versos nuevos
yo quisiera ser blanco. Pero tengo
el color de la vida que he vivido.


Jesús López Pacheco




Canadá, página de neve. Começo
a escrever em ti, lentamente, os passos
da segunda parte da minha vida.
Quase temo manchar-te a brancura
com rastos da dor que me trouxe.
Para escrever em neve versos novos
eu queria ser branco. Mas tenho
é a cor da vida que vivi.


(Trad. A.M.)



>>  Filosofia (nota bio) / Palabra virtual / Wikipedia


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12.12.12

Olhar (120)






Terceira>Açores

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Rosario Castellanos (Destino)





DESTINO



Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca.
Ninguno está tan cerca. A ningún otro hiere
un olvido, una ausencia, a veces menos.
Matamos lo que amamos. ¡Que cese ya esta asfixia
de respirar con un pulmón ajeno!
El aire no es bastante
para los dos. Y no basta la tierra
para los cuerpos juntos
y la ración de la esperanza es poca
y el dolor no se puede compartir.


El hombre es animal de soledades,
ciervo con una flecha en el ijar
que huye y se desangra.


Ah, pero el odio, su fijeza insomne
de pupilas de vidrio; su actitud
que es a la vez reposo y amenaza.


El ciervo va a beber y en el agua aparece
el reflejo de un tigre.
El ciervo bebe el agua y la imagen. Se vuelve
- antes que lo devoren - (cómplice, fascinado)
igual a su enemigo.


Damos la vida sólo a lo que odiamos.


Rosario Castellanos




Matamos aquilo que amamos. O resto
nunca esteve vivo.
Ninguém está tão perto assim. Ninguém
se fere com um olvido, uma ausência, às vezes menos.
Matamos aquilo que amamos. Cesse já esta asfixia
de respirar com um pulmão alheio!
O ar não é bastante
para os dois. E não basta a terra
para os corpos juntos
e é parca a ração de esperança
e a dor não pode partilhar-se.


O homem é animal de solidão
cervo que foge e sangra
com uma flecha na ilharga.


Ah, mas o ódio, essa fixidez insone
de pupilas de vidro, essa atitude
ora repouso ora ameaça.


O cervo vai a beber e na água aparece
o reflexo de um tigre.
O cervo bebe a água e a imagem. Torna-se
- antes que o devorem – (cúmplice, fascinado)
igual ao seu inimigo.


Damos vida àquilo só que odiamos.


(Trad. A.M.)



> Outra versão: Raposas a sul (António Cabrita)

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11.12.12

Carlos Drummond de Andrade (Elegia 1938)





ELEGIA 1938



Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.


Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.


Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.


Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.


Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.



Carlos Drummond de Andrade

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10.12.12

Roger Wolfe (A tortura)





LA TORTURA, VIEJO Y LITERARIO GÉNERO...



Me hablaba
del cielo de Esmirna,
de las doradas cúpulas
que alumbraba la tarde veneciana,
del aire perfumado y cómplice de ciertas
umbrosas callejuelas tunecinas, la belleza
inenarrable de Florencia,
y –cómo iba a faltar–
de ese cafetín donde en Lisboa
martirizaba los versos el Poeta...


Hay gente en ocasiones que desea
que fuera un libro, para así
poder cerrarla con un sonoro y seco
golpe de la mano, sin marcar la página,
y devolverla luego para siempre
al lugar en que por derecho
corresponde:
los mustios anaqueles
de una rancia biblioteca.


Roger Wolfe


[Apología de la luz]




Falava-me
do céu de Esmirna,
das cúpulas de ouro
iluminadas pela tarde veneziana,
do ar perfumado e cúmplice de certas
ruelas sombrias de Tunes, a beleza
indizível de Florença,
e – como poderia faltar –
aquele cafézinho em Lisboa
onde o Poeta martirizava os versos...


Há pessoas por vezes que
deviam ser um livro, para
podermos fechá-las com um seco e
sonoro gesto da mão, sem marcar a página,
e restitui-la para sempre
ao lugar que por direito lhes cabe,
a estante murcha
de uma biblioteca antiga.


(Trad. A.M.)

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9.12.12

Um verso (113)





Um verso de Camões
(repetido, mais uns pós):




Vinde cá meu tão certo secretário
dos queixumes que sempre ando fazendo,
papel, com que a pena desafogo!




Luís de Camões

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Patricio Rascón (Neve -b)





NIEVE (B)



Sólo tengo 19 años
Pero no puedo levantarme

Estoy tirado en la acera
Sobre la nieve
Y no puedo levantarme

La gente pasa de largo

Dos colegas se detienen
Uno me ofrece café
Otro
Un porro

Pero lo único que necesito
Es que me ayuden a levantarme

Lo mismo que quería
Antes de emborracharme


Patricio Rascón


[Escritores sucios]




Tenho só 19 anos
Mas não consigo levantar-me

Estou estirado no passeio
Em cima da neve
E não consigo levantar-me

As pessoas passam ao largo

Dois colegas param
Um oferece-me café
Outro
Um charro

Mas o que eu preciso
É que me ajudem a levantar

O mesmo que queria
Antes de me embebedar


(Trad. A.M.)

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8.12.12

António José Forte (Poema)





POEMA



Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar


António José Forte



>>  Corpo de Ninguém (Poesia toda) / Poesias e prosas (12p) / Modo de usar (6p)

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7.12.12

Rogelio Guedea (Dylan Thomas deu-me o pintassilgo)





dylan thomas me dio su jilguerito para que cantara
mi llorar. el jilguerito de dylan entró por el sol de
una mañana y se quedó parado como una eternidad.
quieto a ras de mi alma. sus alas movían los esqueletos
de mi ser. y mi ser estaba ahogado. sucio. lejos como
un desterrado. qué puede callar un desterrado. qué
no puede reclamar. un desterrado es el más sufridor
del mundo. un desterrado debe tener al jilguerito de
dylan para hacer justicia. para matar la dictadura.
para que no deje de llover. eso es lo único que puede
hacer un desterrado. es decir mi corazón.


Rogelio Guedea




dylan thomas deu-me o pintassilgo para cantar
o meu pranto. o pintassilgo entrou pelo sol
da manhã e ficou ali parado uma eternidade.
quedo ao pé da minha alma. as asas moviam os esqueletos
do meu ser. e meu ser estava afogado. imundo. longe
como um desterrado. e o que pode um desterrado calar.
o que é que não pode reclamar. um desterrado é quem
mais sofre no mundo. um desterrado tem de ter o pintassilgo
de dylan para fazer justiça. para matar a ditadura.
para não deixar de chover. é só isso o que pode
fazer um desterrado. quer dizer o meu coração.


(Trad. A.M.)

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6.12.12

João Araújo Correia (Caminho de Consortes - Vocabulário)






àgora (interj. discordância / àgora malha, fidalgo)

almofaçar (escovar, com almofaça, escova de ferro / ... o lombo dum morzelo era para ele uma volúpia)

andilha (cadeirinha, sobre a albarda / quando sacudia as patas, baloiçava-lhe, no serro, uma...)

botocudo (atarracado, grosso e baixo / homem...)

caminho (... de consortes / caminho de servidão, particular)

carranca (rosto, cara, face / subiu-lhe à... o doairo dum navegador)

desamão (fora de mão, ao lado / fica-lhe um pouco à desamão, mas é o melhor da cidade)

desdar (desfazer / um nó cego que os seus dedos não podiam...)

despedir (sair, partir, ir embora / picou o burro e despediu)

doairo (semblante, ar, jeito / subiu-lhe à carranca o... dum navegador)

engranzado (paus engranzados uns nos outros / enfiados, enganchados, encadeados)

escancha (passada larga / incapaz de dar salto ou... na via amorosa)

mandulho* (o trabalho era pouco: mandulhos e ajudar o patrão / recado, mandalete?)

manjadoira (populismo de ‘manjedoura’)

mazombo (macambúzio, sorumbático / homem...)

morzelo (cavalo preto / almofaçar o lombo dum... era para ele uma volúpia)

mucama (macuma, criada ou escrava / enquanto as mucamas... faziam do terreno calcadoiro)

pinhoca (dim. ‘pinha’, pilha, ruma, monte, conjunto, aglomerado / esta... de casas)

piqué (gira-discos, de ‘pick-up’ / o barulho do... no largo do cruzeiro)

poisona (pouseira, vagarosa, lenta? / muito desembaraço. Há novas mais poisonas)

rebatinha (atirar para o monte, multidão / desperdiçava o milho, jogando-o às rebatinhas sobre os bicos ávidos)

relho (ê) (chicote de três pontas)

topetar (mover o topete, cabeça, parte mais alta / as árvores, topetando, diziam)

triaga (subst. muito amarga, remédio caseiro / não é café. O que me dás é uma...)

trinque (bom estado, esmero / viúva ainda no...)

trombalazana (palerma, ind. ingénuo / era um... grandalhão e mal feito)

valisa (mala pequena / pendia-lhe, da mão direita, uma... de coiro)


______________________

(*) N/encontrado nos dicionários.

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Roberto Juarroz (Há palavras que não dizemos)





Há palavras que não dizemos
e que pomos sem dizê-las nas coisas.


E as coisas guardam-nas,
e um dia respondem-nos com elas
e salvam-nos o mundo,
como um amor secreto
em cujos dois extremos
há uma só entrada.


Não haverá uma palavra
dessas que não dizemos
que tenhamos colocado
sem querer no nada?



ROBERTO JUARROZ
Poesia Vertical (Antologia)
Trad. Arnaldo Saraiva
Campo das Letras (1998)

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5.12.12

António Gregório (A relíquia)





A RELÍQUIA



A noite inteira a copiar de um livro para
outro as impressões do uso: ela dobra os cantos
às páginas faz sublinhados tortos por
causa da má postura e aflige o pouquíssimo
cuidado que tem com o café e o chocolate.

Não deu por nada quando lhe devolvi a
cópia – de tão bem feita; talvez o cheiro
diferente a denunciasse mas a isso
de nós apenas eu era ainda sensível.



ANTÓNIO GREGÓRIO
American Scientist
Quasi (2007)


[O melhor amigo]


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4.12.12

Roberto Bolaño (Os cães românticos)





LOS PERROS ROMÁNTICOS



En aquel tiempo yo tenía veinte años
y estaba loco.
Había perdido un país
pero había ganado un sueño.
Y si tenía ese sueño
lo demás no importaba.
Ni trabajar ni rezar
ni estudiar en la madrugada
junto a los perros románticos.
Y el sueño vivía en el vacío de mi espíritu.
Una habitación de madera,
en penumbras,
en uno de los pulmones del trópico.
Y a veces me volvía dentro de mí
y visitaba el sueño: estatua eternizada
en pensamientos líquidos,
un gusano blanco retorciéndose
en el amor.
Un amor desbocado.
Un sueño dentro de otro sueño.
Y la pesadilla me decía: crecerás.
Dejarás atrás las imágenes del dolor y del laberinto
y olvidarás.
Pero en aquel tiempo crecer hubiera sido un crimen.
Estoy aquí, dije, con los perros románticos
y aquí me voy a quedar.


Roberto Bolaño


[Isla Kokotero]




Eu tinha vinte anos então
e estava louco.
Tinha perdido um país
mas ganhara um sonho.
E se tinha esse sonho
o resto não importava.
Nem trabalhar nem rezar
nem estudar de madrugada
com os cães românticos ao pé.
E o sonho vivia no vazio do meu espírito.
Uma casa de madeira,
a meia luz,
num dos pulmões do trópico.
E às vezes virava-me dentro de mim
e visitava o sonho, estátua eternizada
em pensamentos líquidos,
uma bicha branca retorcendo-se
no amor.
Um amor desbocado.
Um sonho dentro de outro sonho.
E o pesadelo dizia-me: crescerás.
Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto
e esquecerás.
Mas nesse tempo crescer seria um crime.
Estou aqui, disse, com os cães românticos
e aqui me vou ficar.


(Trad. A.M.)

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3.12.12

Olhar (119)






Barra>Ílhavo

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Raúl Ferruz (Cinismo)





CINISMO



vivir es un acto de cinismo
puedes follar con alguien pensando en otro alguien
puedes comerte un yogur con muesli
mientras un niño africano se pudre en alta definición
puedes doblegar tus ideales a cambio de metal
incluso, si quieres, puedes escribir
vivir es un acto de cinismo
y esperar a que eso te convierta
en mejor persona
como si la literatura fuera capaz de algo
no me mires con esa cara
rimbaud traficó con esclavos


Raul Ferruz



viver é um acto de cinismo
podes foder com alguém a pensar noutro alguém
podes comer um iogurte com muesli
enquanto uma criança africana apodrece em alta definição
podes vergar os teus ideais em troca de dinheiro
inclusive, querendo, podes escrever
viver é um acto de cinismo
e esperar que isso te converta
numa pessoa melhor
como se a literatura pudesse alguma coisa
não me olhes com essa cara
rimbaud traficou com escravos


(Trad. A.M.)

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2.12.12

Amadeu Baptista (Última geração)





ÚLTIMA GERAÇÃO



O nojo, o nojo visceral, Senhor.

Dai-nos o nojo, Senhor, o sagrado, o supremo nojo
de que se irá decidir a nossa salvação e a salvação dos que, enojados como nós,
antepõem o vómito a esta mansidão de sombras paradas pelo chão.

Dai-nos o nojo, Senhor, o nojo que a marca da repugnância
favorece e docilmente nos vem lamber as feridas.

O nojo, Senhor, a agonia do nojo
para que possamos cuspir sem ressentimentos no rosto
de quem nos cospe no rosto.

Porque o rato pariu uma montanha, Senhor, e como cães assustados
esperamos o impacto do fogo sobre o fogo.

Porque mantemos os sentidos despertos, Senhor, e esperamos
o resgate, o refúgio e o êxtase.

Porque caminhamos nas trevas com extrema paixão e uma ânsia poderosa, Senhor,
dai-nos a náusea,
a abundância da náusea sobre o nosso rancor.

Dai-nos o vómito, Senhor, o vómito
carregado de fel da nossa vida violenta,
do nosso amor violento,
da nossa esperança violenta e violentada
pelo preço de um pão e o suor agónico da nossa face.

Recorremos a Ti, Senhor, neste páramo de ódios,
para que nos dês o alívio do vómito letal do nosso desespero,
esta amargura carregada de amargura
que nos lançaram sobre os ombros e tem o peso do mundo.

Com as lágrimas nos olhos, Senhor, e a cabeça coroada
de espinhos, pedimos-Te a libertação do nojo que ocultamos nos nossos corações,
o nojo intemporal
dos que nos antecederam e que virão depois de nós, o nojo
imensurável que geramos no nosso ventre e ao nosso ventre voltará sob a forma de cal
purificadora.

Dai-nos o nojo, Senhor, essa flor infecta, sanguinolenta e suja
que há-de desabrochar das nossas dores

em Tua glória

e em nome do asco a que fomos submetidos.


AMADEU BAPTISTA
Antecedentes Criminais
Antologia Pessoal 1982-2007
Edições Quasi (2007)


[Amadeu Baptista]


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1.12.12

Piedad Bonnett (De tarde em tarde)





DE TARDE EN TARDE



A mi madre le gusta ir a ese café de sobrias lámparas,
pedir galletas de vainilla,
tomar dos tazas de té negro con parsimonia
como un acto ceremonial.
Hoy la he traído, pues, cediendo al gesto filial mi tarde laboriosa.
Tras los enormes ventanales vemos correr la vida afuera
mientras hablamos de otros días
y la tibieza del lugar sugiere que la felicidad no es más que esto.
De repente
como recuperando las palabras de un sueño
ella dice: “Qué lástima que todo se termina”.
Lo dice con sonrisa liviana, pues sabe
que ser trascendental no conviene a la tarde.
(Mi madre cumplió setenta y cuatro años
y alguna vez fue bella).
Al fondo de las tazas el té pinta sus signos.
Yo no sé que decir.
Miramos la avenida, las caras planas de los transeúntes,
los árboles que callan. Anochece.


Piedad Bonnett





Minha mãe adora ir àquele café de luzes sóbrias,
pedir biscoitos de baunilha,
tomar duas chávenas de chá preto com modos
próprios de uma cerimónia.
Hoje trouxe-a, pois, cedendo ao gesto filial a minha tarde de labor.
Pelas vitrinas enormes vemos correr a vida lá fora
enquanto falamos de outros dias
e o ambiente morno sugere que a felicidade não é mais do que isto.
De repente
como se tomasse as palavras dum sonho
diz ela: “Que pena que tudo se acabe”.
Di-lo com um sorriso ligeiro, sabendo
que o transcendente não diz bem com a tarde.
(Minha mãe foi bela em tempos
e fez já setenta e quatro anos).
O chá no fundo das chávenas desenha os seus sinais.
E eu não sei que dizer.
Observamos a avenida, as caras chãs de quem passa,
as árvores silenciosas. Anoitece.


(Trad. A.M.)

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