22.10.19

Gil T. Sousa (Aguarela)





AGUARELA



a beleza da árvore
que finge seguir o vento
quando ele passa

e os muros caiados
que guardam o sol
para quando nos falta

a água fresca
a respiração da janela larga
sobre o campo

e este caminho
que cresce tanto
até ser estrada

as mãos ainda abertas
para os frutos
e para as flores

os pássaros e o mundo
o tempo a rasgar-se
no corpo

no meu, no teu corpo


Gil T. Sousa

[Canal de poesia]

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21.10.19

Silvina Ocampo (Pressentimento)





PRESENTIMIENTO



Durante muchos días me seguiste.
En el canto del pájaro, en las sombras,
en las modulaciones del espacio:
aprendí a conocerte.
Yo sentía tu luz atravesarme
como una flecha de oro envenenada.
Te desobedecía arrepentida.
Me hablabas en secreto.
En los espejos rotos, en la tinta
azul de los cuadernos que dejabas
sobre la mesa de mi dormitorio.
Yo temblaba al mirarte, yo temblaba
como tiemblan las ramas reflejadas
en el agua movida por el viento.
Ahora que conozco tus señales,
tu piel y tus orejas, tu semblante,
no trataré de desobedecerte,
y me arrodillaré frente a tu imagen,
implacable sibila que me sigues.


Silvina Ocampo




Durante muitos dias me seguiste.
No canto do pássaro, nas sombras,
nas modulações do espaço:
aprendi a conhecer-te.
Sentia a tua luz a trespassar-me
como uma flecha de ouro envenenada.
Desobedecia-te contrafeita.
Murmuravas-me em segredo.
Nos espelhos quebrados, na tinta
azul dos cadernos que deixavas
sobre a mesa do meu quarto.
Estremecia ao ver-te, estremecia
como estremecem os galhos reflectidos
na água movida pelo vento.
Agora que conheço os teus sinais,
tua pele, tuas orelhas, teu semblante,
não intentarei desobedecer-te,
e venerarei a tua imagem,
implacável sibila que me segues.


(Trad. J.E.Simões)

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19.10.19

Rosario Castellanos (Agonia além do muro)





AGONIA FUERA DEL MURO



Miro las herramientas,
el mundo que los hombres hacen, donde se afanan,
sudan, paren, cohabitan.

El cuerpo de los hombres, prensado por los días,
su noche de ronquido y de zarpazo
y las encrucijadas en que se reconocen.

Hay ceguera y el hambre los alumbra
y la necesidad, más dura que metales.

Sin orgullo (¿qué es el orgullo? ¿Una vértebra
que todavía la especie no produce?)
los hombres roban, mienten,
como animal de presa olfatean,
devoran y disputan a otro la carroña.

Y cuando bailan, cuando se deslizan
o cuando burlan una ley o cuando
se envilecen, sonríen,
entornan levemente los párpados, contemplan
el vacío que se abre en sus entrañas
y se entregan a un éxtasis vegetal, inhumano.

Yo soy de alguna orilla, de otra parte,
soy de los que no saben ni arrebatar ni dar,
gente a quien compartir es imposible.

No te acerques a mí, hombre que haces el mundo,
déjame, no es preciso que me mates.
Yo soy de los que mueren solos, de los que mueren
de algo peor que vergüenza.

Yo muero de mirarte y no entender.


Rosario Castellanos

[Emma Gunst]




Olho as ferramentas,
o mundo que os homens fazem, em que se empenham,
suam, parem, coabitam.

O corpo dos homens, esmagado pelos dias,
sua noite de ronco e patada
e as encruzilhadas em que se reconhecem.

Há cegueira e a fome ilumina-os
e a necessidade, mais dura do que metal.

Sem orgulho (orgulho o que é? uma vértebra
que a espécie ainda não produz?)
os homens roubam, mentem,
farejam como predadores,
devoram e disputam ao outro a carniça.

E quando bailam, ou escorregam
ou fintam a lei, ou quando
se fazem ruins, sorriem,
abrem os olhos levemente, contemplam
o vazio a abrir-se-lhes nas entranhas
e dão-se a um êxtase vegetal, inumano.

Eu sou de alguma beira, de outra parte,
sou dos que não sabem dar nem tomar,
para quem partilhar não é possível.

Não te chegues a mim, homem que fazes o mundo,
deixa-me, não é preciso matares-me.
Eu sou daqueles que morrem sozinhos,
de algo pior que a vergonha.

Eu morro de te olhar e não entender.


(Trad. A.M.)

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17.10.19

Fernando Pessoa (Dai-me rosas e lírios)





Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.

O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.

A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?


Fernando Pessoa

[Arquivo Pessoa]

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16.10.19

Roque Dalton (Altas horas da noite)





ALTA HORA DE LA NOCHE



Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre
porque se detendrá la muerte y el reposo.

Tu voz, que es la campana de los cinco sentidos,
sería el tenue faro buscado por mi niebla.

Cuando sepas que he muerto di sílabas extrañas.
Pronuncia flor, abeja, lágrima, pan, tormenta.

No dejes que tus labios hallen mis once letras.
Tengo sueño, he amado, he ganado el silencio.

No pronuncies mi nombre cuando sepas que he muerto
desde la oscura tierra vendría por tu voz.

No pronuncies mi nombre, no pronuncies mi nombre,
cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre.


Roque Dalton

[Desde la ciudad sin cines]




Quando souberes que morri não digas o meu nome
porque a morte se deterá e o repouso.

Tua voz, campainha dos cinco sentidos,
ténue farol buscado por minha névoa.

Quando souberes que morri, diz sílabas estranhas,
diz flor, abelha, lágrima, tormenta, pão.

Não deixes os lábios acharem minhas onze letras,
tenho sono, amei, ganhei direito ao silêncio.

Não digas o meu nome, não digas o meu nome,
quando souberes que morri não digas o meu nome.


(Trad. A.M.)

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14.10.19

Roger Wolfe (A invenção)





EL INVENTO



Organizas las palabras, las pones
una encima de otra, una debajo de otra,
una detrás de otra, como en una desenfrenada orgía
en la que por fin fornicas con quien quieres.
Por un momento tienes
al mundo por el cuello. Por un
momento. Es maravilloso.
Éste es el invento.
El invento.


Roger Wolfe




Organizas as palavras, põe-las
uma por cima de outra, uma por baixo de outra,
uma por trás de outra, como orgia desenfreada
em que por fim fornicas com quem queres.
Por um momento tens
o mundo pelo galete. Por
um momento. É maravilhoso.
Esta é a invenção.
A invenção.


(Trad. A.M.)

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13.10.19

Margaret Atwood (Noite alta)




LATE NIGHT



Late night and rain wakes me, a downpour,
wind thrashing in the leaves, huge
ears, huge feathers,
like some chased animal, a giant
dog or wild boar. Thunder & shivering
windows; from the tin roof
the rush of water.

I lie askew under the net,
tangled in damp cloth, salt in my hair.
When this clears there will be fireflies
& stars, brighter than anywhere,
which I could contemplate at times
of panic. Lightyears, think of it.

Screw poetry, it's you I want,
your taste, rain
on you, mouth on your skin.


Margaret Atwood

[Exceptindreams]




Noite alta acordo com a chuva, uma bátega,
o vento açoitando a folhagem, orelhas
enormes, enormes cabelos,
como animal perseguido, um cão gigante
ou porco selvagem. Trovões, e as janelas
a estremecer; do telhado de zinco
um dilúvio.

Estou na cama, por baixo da rede, deitada de lado,
enrolada numa manta, o cabelo cheio de sal.
Quando passar o temporal haverá pirilampos
e estrelas, mais brilhantes que alhures,
onde eu podia olhá-las em tempos de pânico.
Anos-luz, imagine-se.

Que se lixe a poesia, é a ti que eu quero,
o teu sabor, a chuva
em ti, minha boca em tua pele.

(Trad. A.M.)
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11.10.19

Rogelio Guedea (Sol de outra herança)





SOL DE OTRA HEREDAD



estoy en la entrada del centro comercial
al que solíamos venir los domingos
mientras escribo este poema sin destino,
este poema que cae de mi mano como las hojas
de los árboles abatidos por la lluvia,
miro entrar y salir a gente que no conozco,
es gente del país extranjero, tan desconocidos que entran
o salen, cada cual en su mundo de ipods y emepetrés,
y resulta que nadie se da cuenta que estoy
pensando en ti, en nuestros hijos que disfrutaban la sección
de juguetes o películas infantiles, mientras tú aprovechabas
para perderte entre blusas azules o vestidos de verano,
y yo – nunca lo supiste porque procuraba que nadie lo notara –
los observaba desde un rincón o esquina, una rendija
entre los anaqueles y el cielo, y me llenaba con la dicha de verlos felices,
ajenos a mis preocupaciones de empleado universitario,
o ciudadano de a pie, o, acaso, y tan solo, hombre triste,
uno más entre los hombres tristes que alguna vez, como ahora,
esperan verte salir o entrar al centro comercial
como lo solíamos hacer los domingos de cualquiera día,
y entonces, sin que te des cuenta, seguirte hasta la sección
de damas, y ahí contemplar la absoluta redondez
de tu blancura, todo eso sin adelantar mi mano para tocarte
un hombro, tu cuello o pelo, y luego decirte
–decirte arteramente– todo eso que mis
noches empiezan a contarme de ti.


Rogelio Guedea




estou à entrada do centro comercial
onde costumávamos vir ao domingo
enquanto escrevo este poema sem destino,
este poema que me cai da mão como as folhas
das árvores abatidas pela chuva,
observo pessoas que não conheço a entrar e a sair,
são pessoas do estrangeiro, desconhecidos que entram
ou saem, cada qual no seu mundo de Ipods e MP3,
e ninguém nota que eu estou
a pensar em ti, nos nossos filhos que entravam
na secção de brinquedos ou filmes infantis,
enquanto tu aproveitavas
para te perder no meio de blusas azuis ou vestidos de verão,
e eu – sem que soubesses, porque procurava escondê-lo –
os observava de um canto ou esquina, uma fresta
entra as estantes e o céu, e consolava-me
de os ver felizes,
alheios às minhas preocupações de funcionário,
de vulgar cidadão, ou talvez tão só de homem triste,
um mais entre outros homens tristes que às vezes, como agora,
esperam ver-te saindo ou entrando no centro comercial
como nós costumávamos ao domingo,
e então, sem dares conta, seguir-te até à secção
de mulher, contemplando ali o redondo absoluto
da tua brancura, isto sem estender a mão para te tocar
no ombro, pescoço, cabelo, e depois dizer-te
– dizer-te, matreiro – aquilo tudo que as noites
começam a contar-me de ti.

(Trad. A.M.)

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9.10.19

Octavio Paz (Aqui)





AQUÍ



Mis pasos en esta calle
resuenan
     en otra calle
donde
     oigo mis pasos
pasar en esta calle
     donde
sólo es real la niebla

Octavio Paz




Meus passos nesta rua
ressoam
      em outra rua
onde
      oiço meus passos
passar nesta rua
      onde
só é real a névoa

(Trad. A.M.)

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8.10.19

Manoel de Barros (Sem título)





SEM TÍTULO



Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que
apareceu 'Flores do Mal'. A beleza e a dor. Essa antítese
o acalmou.)

As antíteses congraçam.


Manoel de Barros

[Acontecimentos]

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6.10.19

Fabián Casas (Advertência)





ADVERTÊNCIA



A poesia
quando não dá no alvo
gera ressentimento.
Nunca dá no alvo.


Fabián Casas

(Trad. A.M.)

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4.10.19

Montserrat Álvarez (Alta suciedade)




ALTA SUCIEDAD



En estas negras calles se trasnocha
y se bebe aguardiente con las putas
No me baño hace meses
Sé que carezco de principios
y que frecuento los abismos
mientras vosotros yacéis
en limpios, decentes lechos,
entre lujosas sábanas, con la conciencia recta
Pero más celeste es mi corazón que el vuestro
En mi alma llevo versos, y no estiércol


Montserrat Álvarez




Tresnoita-se por estas ruas escuras
e bebe-se aguardente com as putas
Banho não vejo há meses
Sei que não tenho princípios
e frequento os abismos
enquanto vós todos jazeis
em limpos, decentes leitos,
entre lençóis de luxo, com a consciência direita
Mas mais celeste é meu coração que o vosso
Na alma eu tenho versos, não esterco

(Trad. A.M.)

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3.10.19

Luciano de Giovanni (O paraíso)




(XX)


Penso
che il paradiso
sia ciascuno di noi
quando dimentica
il suo nome

Luciano de Giovanni




O paraíso
eu acho que
é cada qual
depois de esquecer
seu nome

(Trad. A.M.)

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1.10.19

Miriam Reyes (A dureza do todo)





La dureza del todo resulta
de la dureza de las partes.

Parece compacta la tierra
bajo nuestros pies.

Debajo de la tierra: roca.
Dentro de la tierra: roca.

Y aún así raíces insectos.


Miriam Reyes




A dureza do todo resulta
da dureza das partes.

Parece compacta a terra
sob os nossos pés.

Por baixo da terra, rocha.
Dentro da terra, rocha.

E mesmo assim raízes insectos.

(Trad. A.M.)

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30.9.19

Meira Delmar (Reminiscência)





REMINISCENCIA



Un breve instante se cruzaron
tu mirada y la mía.
Y supe de repente
—no sé si tú también—
que en un tiempo
sin años ni relojes,
otro tiempo,
tus ojos y mis ojos
se habían encontrado,
y esto de ahora
no era más que un eco,
la ola que regresa,
atravesando mares,
hasta la antigua orilla.

Meira Delmar

[Sureando]




Um breve instante se cruzaram
o teu olhar e o meu.
E eu soube de repente
- não sei se tu também -
que em um tempo
sem anos nem relógios,
outro tempo,
teus olhos e meus olhos
se haviam encontrado,
e isto de agora
não era mais do que um eco
a onda que regressa,
atravessando o mar,
à antiga beira.

(Trad. A.M.)

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28.9.19

António Cabral (Arte poética)




ARTE POÉTICA



Palavra que não se invente
não é quente.

Palavra que não tem dente
não é gente.

Flor que (fruti) fique no ramo
todo o ano

e o vergue para o chão
ao alcance da mão


ANTÓNIO CABRAL
Entre o azul e a circunstância
(1983)



>>  Antonio Cabral (sítio of.) / Projecto Vercial (bio-biblio) / Wikipedia

.

27.9.19

Juan Manuel Villalba (Estado de contas)





ESTADO DE CUENTAS



Es mejor confesar el gran vacío
que soy, formular una promesa que asuste
porque pueda cumplirse alguna vez,
y asomarme a la vida
con un gesto de firme indiferencia,
o de virtud perdida, o de sarcasmo
ante el abismo que me engulle.

Es mejor no saber nada ante el río
del desorden: la bestia cotidiana
que mata igual que besa. Y saberse miserable,
puro, como ese ciego que perdido
avanza a duras penas bajo el sol.

Juan Manuel Villalba

[Facebook]




É melhor confessar o grande vazio
que sou, fazer uma promessa que assuste
porque talvez possa cumprir-se,
e fazer-me à vida
com um gesto de firme indiferença,
ou de virtude perdida, ou sarcasmo
ante o abismo que me engole.

É melhor não saber nada ante o rio
da desordem, a besta quotidiana
que mata assim como beija. E saber-me mísero,
puro, como aquele cego que perdido
avança a duras penas aob o sol.

(Trad. A.M.)

.

25.9.19

Rocío Wittib (Às vezes, perdiam-se barcos)





a veces en el horizonte se perdían barcos
que no habían partido de ningún puerto
y yo preguntaba si eso era como haberte conocido
antes de encontrarte
antes de tu nombre
antes aún de la palabra antes


Rocío Wittib




às vezes perdiam-se barcos no horizonte
que não tinham partido de nenhum porto
e eu perguntava se tal era como ter-te conhecido
antes de te encontrar
antes de teres nome
antes mesmo da palavra antes

(Trad. A.M.)

.

21.9.19

Roberto Juarroz (A mão estende-se)




La mano se extiende,
pero a mitad de camino
la detiene una imagen.
Y se marcha entonces con ella,
no para poseerla
sino tan sólo para entrar en su juego.
La mano ha comenzado a enamorarse en el camino
y así la posesión y el don se le escapan.
La mano ha cambiado su destino
por un vuelo que no es el vuelo del pájaro,
sino un abandono a las mareas que no tienen costa
o a los desequilibrios de una sabiduría diferente.
La mano ha renunciado a su objeto
y ha adquirido el valor de su distracción.
La mano ha renunciado a salvarse.

Roberto Juarroz



A mão estende-se,
mas a meio do caminho
uma imagem a detém.
E com ela se vai,
não para a possuir
mas só para entrar no jogo.
A mão apaixonou-se no caminho
e assim fogem-lhe o dom e a posse.
A mão trocou o seu destino
por um voo que não é voo de pássaro,
mas um abandono às marés sem costa
ou aos desequilíbrios de uma sabedoria outra.
A mão renunciou a seu objecto,
adquirindo o valor de sua distracção.
A mão renunciou a salvar-se.

(Trad. A.M.)

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20.9.19

Roberto Bolaño (Passeias solitário)





Ahora paseas solitario por los muelles
de Barcelona
Fumas un cigarrillo negro y por
un momento crees que sería bueno
que lloviese
Dinero no te conceden los dioses
mas sí caprichos extraños
Mira hacia arriba:
está lloviendo

Roberto Bolaño




Passeias solitário pelos molhes
de Barcelona
Fumas um cigarro negro e achas
por um momento que seria bom
que chovesse
Dinheiro não te dão os deuses
só estranhos caprichos
Olha para o ar:
está a chover

(Trad. A.M.)

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18.9.19

Louise Glück (Viúvas)





WIDOWS



My mother's playing cards with my aunt,
Spite and Malice, the family pastime, the game
my grandmother taught all her daughters.

Midsummer: too hot to go out.
Today, my aunt's ahead; she's getting the good cards.
My mother's dragging, having trouble with her concentration.
She can't get used to her own bed this summer.
She had no trouble last summer,
getting used to the floor. She learned to sleep there
to be near my father.
He was dying; he got a special bed.

My aunt doesn't give an inch, doesn't make
allowance for my mother's weariness.
It's how they were raised: you show respect by fighting.
To let up insults the opponent.

Each player has one pile to the left, five cards in the hand.
It's good to stay inside on days like this,
to stay where it's cool.
And this is better than other games, better than solitaire.

My grandmother thought ahead; she prepared her daughters.
They have cards; they have each other.
They don't need any more companionship.

All afternoon the game goes on but the sun doesn't move.
It just keeps beating down, turning the grass yellow.
That's how it must seem to my mother.
And then, suddenly, something is over.

My aunt's been at it longer; maybe that's why she's playing better.
Her cards evaporate: that's what you want, that's the object: in the end,
the one who has nothing wins.


Louise Glück

[Sibilas y pitias]




Estão a jogar às cartas, minha mãe e minha tia,
Rancor e Malícia, o passatempo da família, o jogo
que minha avó ensinou às filhas.

No pino do Verão, muito calor para sair de casa.
A minha tia está na mó de cima, hoje, com sorte nas cartas,
minha mãe um pouco arrastada, com falta de concentração,
ainda não se habituou à cama nesta época.
No ano passado não teve problema
sequer em habituar-se ao sobrado, aprendendo a dormir
no chão para ficar ao pé do meu pai.
Que estava a morrer, numa cama especial.

A minha tia não desarma, nem perdoa sequer
ao cansaço da irmã.
Foram criadas assim, brigar é mostrar respeito,
deixar correr é um insulto para o adversário.

Cada jogadora tem um monte do lado esquerdo, com cinco cartas na mão.
Sabe bem ficar em casa, por causa do fresco,
em dias assim.
E este jogo é melhor do que outros, o solitário por exemplo.

A minha avó pensou bem, soube preparar as filhas,
têm as cartas, têm-se uma à outra,
não precisam de mais companhia.

O jogo dura a tarde toda, mas o sol nem se mexe,
continuando a castigar, até secar a relva.
Assim deve ter visto a minha mãe
e, então, de repente, algo se acaba.

A minha tia está mais batida, talvez por isso joga melhor.
As cartas evaporaram-se-lhe, é o que se pretende, é esse o fito:
no final, quem não tiver nada é que ganha.


(Trad. A.M.)

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16.9.19

Raúl Nieto de la Torre (Se não te conhecesse)





SI NO TE HUBIERA CONOCIDO



Cuando llegue la gran pregunta
o nos salga de dentro, acuérdate
de que un día
elegimos ser libres y amarnos.

Acuérdate de eso –te digo–
porque los restos...
porque las cáscaras vacías...
porque qué otra cosa no arrojar a este pozo
enfrente del que vamos desnudándonos.

Qué ansiedad la del hombre
que se mira en la nada
y encuentra en ella su reflejo.


Raúl Nieto de la Torre




Quando vier a grande questão
ou nos saltar cá de dentro,
lembra-te que um dia
escolhemos ser livres e amar-nos.

Lembra-te disso – digo-te eu –
porque os restos...
as cascas...
que outra coisa não atirar a este poço
junto ao qual nos vamos desnudando.

Que ânsia a do homem
que se mira no nada
e nele encontra seu reflexo.

(Trad. A.M.)

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15.9.19

Raúl Gustavo Aguirre (Reúno teus rostos)





Yo reúno tus rostros tus gestos tus palabras
vivo de tus imágenes como el agua del cielo
yo te devuelvo al sol a las glicinas
al reino tuyo a tu calor
yo te desato de la noche que te olvida
te devuelvo a los días más bellos de la tierra
esta tierra que quiere ser parecida a ti
y que te necesita para maravillarme.


Raúl Gustavo Aguirre




Reúno teus rostos gestos palavras
vivo da tua imagem como a água do céu
devolvo-te ao sol às glicínias
a teu reino a teu calor
desato-te da noite que te olvida
devolvo-te aos dias mais belos da terra
esta terra que quer parecer-se contigo
e precisa de ti para me maravilhar.

(Trad. A.M.)


13.9.19

José Paulo Paes (Acima de qualquer suspeita)





ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA



a poesia está morta

mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
los drummond de andrade manuel bandeira murilo
mendes vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto
paul éluard oswald de andrade guillaume apollinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro
araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece
nunca ter existido

nem eu


José Paulo Paes

.

11.9.19

Raúl Gómez Jattín (O deus que adora)




EL DIOS QUE ADORA



Son un dios en mi pueblo y mi valle
No porque me adoren Sino porque yo lo hago
Porque me inclino ante quien me regala
unas granadillas o una sonrisa de su heredad
O porque voy donde sus habitantes recios
a mendigar una moneda o una camisa y me la dan
Porque vigilo el cielo con ojos de gavilán
y lo nombro en mis versos Porque soy solo
Porque dormí siete meses en una mecedora
y cinco en las aceras de una ciudad
Porque a la riqueza miro de perfil
mas no con odio Porque amo a quien ama
Porque sé cultivar naranjos y vegetales
aún en la canícula Porque tengo un compadre
a quien le bauticé todos los hijos y el matrimonio
Porque no soy bueno de una manera conocida
Porque amo los pájaros y la lluvia y su intemperie
que me lava el alma Porque nací en mayo
Porque mi madre me abandonó cuando
precisamente
más la necesitaba Porque cuando estoy enfermo
voy al hospital de caridad Porque sobre todo
respeto solo al que lo hace conmigo Al que trabaja
cada día un pan amargo y solitario y disputado
como estos versos míos que le robo a la muerte.

Raúl Gómez Jattín




Sou um deus na minha terra
Não porque me adorem Mas porque o faço eu
Porque me inclino diante de quem me oferece umas romãs
Ou porque vou mendigar uma moeda ou uma camisa
aos meus conterrâneos e eles dão-me
Porque vigio o céu com olhos de gavião
e o nomeio em meus versos Porque sou sozinho
Porque dormi sete meses numa cadeira de baloiço
e cinco nos passeios de uma cidade
Porque a riqueza olho-a de lado
mas não com ódio Porque amo quem ama
Porque sei cultivar laranjeiras e vegetais
mesmo na canícula Porque tenho um compadre
a quem baptizei os filhos todos, além do casamento
Porque não sou bom de um modo conhecido
Porque amo os pássaros e a chuva e a intempérie
que me lava a alma Porque nasci em Maio
Porque minha mãe deixou-me quando precisamente
mais a carecia Porque quando estou doente
vou ao hospital de caridade Porque sobretudo
respeito só quem me respeita a mim
E a quem trabalha todos os dias
um pão amargo e solitário e disputado
como estes versos meus que eu roubo à morte.

(Trad. A.M.)

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10.9.19

Fabián Casas (Às escuras, sem chaves)





SIN LLAVES Y A OSCURAS



Era uno de esos días en que todo sale bien.
Había limpiado la casa y escrito
dos o tres poemas que me gustaban.
No pedía más.

Entonces salí al pasillo para tirar la basura
y detrás de mí, por una correntada,
la puerta se cerró.
Quedé sin llaves y a oscuras
sintiendo las voces de mis vecinos
a través de sus puertas.
Es transitorio, me dije;
pero así también podría ser la muerte:
un pasillo oscuro,
una puerta cerrada con la llave adentro
la basura en la mano.


Fabián Casas




Era um dia desses em que tudo sai bem,
tinha limpado a casa, escrevera
dois ou três poemas a gosto.
Não pedia mais.

Então saí pelo corredor para pôr o lixo
e atrás de mim, com uma rabanada de vento,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras,
sentindo as vozes dos vizinhos
para lá das portas.
É transitório, lembrei-me,
mas a morte também podia ser assim:
um corredor escuro,
uma porta fechada com a chave por dentro,
o lixo na mão.

(Trad. A.M.)



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8.9.19

José Miguel Silva (Às vezes trazes para casa uma tristeza)





Às vezes trazes para casa uma tristeza
velha, feita de cansaços que apenas supõe
quem tem o privilégio de te amar.
Despes o casaco, apertas contra o rosto a Mia,
a tua mão procura às cegas o meu ombro,
e nas tuas pestanas descidas leio um apelo
a que nem sempre sou capaz de responder.
A tua indefensão ocupa o seu lugar à mesa,
quase sem ânimo para segurar o garfo.

Eu tento animar-te com as últimas desgraças
do mundo, dou-te um resumo do telejornal,
faço-te notar que a sopa está quente, vou
depressa ao café comprar-te chocolates,
mergulho-os em vinagre, uno as gatas
pela cauda e digo-te: anda ver como termina
um casamento, deixo cair na sanita o comando
do vídeo, ameaço convidar-te para o meu funeral.

Tantas faço que consigo, finalmente,
transformar em zanga a tristeza que trazias.
E enquanto tu me chamas inútil, e palerma,
eu sorrio interiormente, noto com agrado
a contracção no teu pescoço, sou eu próprio
quem te guia até às facas na gaveta, e nem sequer
me desvio quando vejo a garrafa de Favaios
a voar na direcção desta minha tão salobre,
tão esperta cabeça, filha do ardil e da penúria.


José Miguel Silva

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6.9.19

Raúl Ferruz (Interrupções)





INTERRUPCIONES



qué es lo que más me gusta de la vida.
la vida, en sí misma, supongo.
los cubitos en el vaso de café, irisado
a contraluz. el sexo. el cáncer en los
niños. reconocer un olor de la infancia.
la forma de algunos pétalos. las
muertes súbitas. los magos malos. la
ausencia de aire en el espacio
exterior. la crueldad innata. los
nombres rayados en las mesas de
madera. la perfección de la envidia.
acercar una boca a una boca. escribir
alma sin entender qué es el alma. lo
edificante de la decepción. el olor de la
sangre vaginal en las manos.
contemplar una burbuja de aceite
aislada en agua hirviendo. los
escritores que se adelantan a la
muerte. la vaga intención de la religión
por convencernos de algo. la tristeza
de los ventrílocuos. la hipotermia en un
cuerpo con sabor salitre. mi miedo
absoluto a cualquier forma humana.
las margaritas. las habitaciones en las
que nadie debería atreverse a
pernoctar en el hotel de tu cabeza.
fingir que escribir puede servir de algo.
dejarse caer. asumir el dolor, la
pérdida, y la derrota. el agüjero
del subconsciente. qué es lo que
más me gusta de la vida. la vida, en sí
misma, supongo. con su sucesión de
microorgasmos y violaciones. que en
ningún caso son tan importantes. sólo
interrupciones.


Raul Ferruz





o que é que eu mais gosto da vida.
da vida, em si mesma, acho eu.
dos cubinhos no copo de café, irisado
em contra-luz. do sexo. do cancro nas
crianças. de reconhecer um cheiro da infância.
da forma de algumas pétalas. das
mortes súbitas. dos mágicos maus. da
ausência de ar no espaço
exterior. da crueldade inata. dos
nomes riscados nas mesas de
madeira. da perfeição da inveja.
de chegar uma boca a uma boca. de
escrever alma sem entender o que é alma.
do edificante da decepção. do cheiro do
sangue vaginal nas mãos.
de contemplar uma borbulha de azeite
isolada na água a ferver. os escritores
que se adiantam à morte. a vaga intenção
da religião de nos convencer de algo. a tristeza
dos ventríloquos. a hipotermia num
corpo com sabor a salitre. o meu medo
absoluto a qualquer forma humana.
as margaridas. os quartos
em que ninguém devia atrever-se
a pernoitar no hotel da tua cabeça.
fingir que escrever pode servir para algo.
deixar-se cair. assumir a dor, a perda
e a derrota. o buraco do subconsciente.
o que é que mais gosto na vida. a vida,
em si mesma, suponho. com sua sucessão
de micro-orgasmos e violações. que
não são importantes em nenhum caso. apenas
interrupções.

(Trad. A.M.)

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5.9.19

Rafael Cadenas (Disjuntiva)





DISJUNCTIVA



Yo quería escribir
un poema,
luego tuve la intención
de no tener intención
y el poema se quedó allí
detenido,
atrapado,
carbonizado entre la chispa
de las dos intenciones
y aquí
lo dejo.


Rafael Cadenas




Eu queria escrever
um poema,
depois tive a intenção
de não ter intenção
e o poema ali ficou
detido,
apanhado,
carbonizado entre a chispa
das duas intenções
e aqui
assim
o deixo.

(Trad. A.M.)

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1.9.19

Piedad Bonnett (Os estudantes)





LOS ESTUDIANTES



Los saludables, los briosos estudiantes de espléndidas sonrisas
y mejillas felposas, los que encienden un sueño en otro sueño
y respiran su aire como recién nacidos,
los que buscan rincones para mejor amarse
y dulcemente eternos juegan ruleta rusa,
los estudiantes ávidos y locos y fervientes,
los de los tiernos cuellos listos frente a la espada,
las muchachas que exhiben sus muslos soleados
sus pechos, sus ombligos
perfectos e inocentes como oscuras corolas,
qué se hacen
mañana qué se hicieron
qué agujero
ayer se los tragó
bajo qué piel
callosa, triste, mustia
sobreviven.


Piedad Bonnett

[Noctambulario]





Os saudáveis, briosos estudantes de sorriso esplêndido
e faces macias, os que acendem um sonho em outro sonho
e respiram seu ar como recém-nascidos,
os que buscam recantos para melhor se amar
e docemente eternos jogam roleta russa,
os estudantes ávidos e loucos e ferventes,
os de tenro pescoço oferecido à espada,
as moças que exibem suas carnes curtidas de sol,
seus seios, umbigos perfeitos
e inocentes como escuras corolas,
o que fazem
amanhã o que é que fizeram
que abismo
ontem os tragou
sob que pele
calosa, triste, murcha
sobrevivem.

(Trad. A.M.)

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31.8.19

Pedro Salinas (À noite perdeu-se-me)





Anoche se me ha perdido
en la arena de la playa
un recuerdo
dorado, viejo y menudo
como un granito de arena.
¡Paciencia! La noche es corta.
Iré a buscarlo mañana…
Pero tengo miedo de esos
remolinos nocherniegos
que se llevan en su grupa
—¡Dios sabe adónde!— la arena
menudita de la playa.


Pedro Salinas

[Trianarts]




À noite perdeu-se-me
na areia da praia
uma recordação
dourada, antiga
e pequenina
como um grãozinho de areia.
Paciência! A noite é curta,
amanhã vou procurá-la…
Mas tenho receio daqueles
remoinhos nocturnos
que levam consigo
- sabe-se lá para onde! -
a areia miudinha da praia.

(Trad. A.M.)

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29.8.19

Jorge Sousa Braga (O poema do cortador de relva)





O POEMA DO CORTADOR DE RELVA



Lê-me disse ela o poema do
cortador de relva mas eu já

me esquecera do poema
apenas que era de manhã

havia um rasto de erva cortada
de fresco e o cortador de relva

eléctrico no meio do jardim sem que
ninguém conseguisse explicar

como fora ele lá parar


Jorge Sousa Braga

[Bibliotecario de Babel]

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27.8.19

Pedro César Alcubilla (Cuidado com os dedos)





CUIDADO CON LOS DEDOS



Abre dos mil puertas,
sal por ellas tranquilamente,
vuelve a cerrarlas de nuevo
y seguramente no recordarás
haberlo hecho.
Pero píllate los dedos
una sola vez con una de ellas
y tu memoria te los pillará
las próximas dos mil veces
que intentes volver a hacerlo.


Pedro César Alcubilla




Abre aí duas mil portas,
sai por elas tranquilamente,
volta a fechá-las de novo
e seguramente não recordarás
que o fizeste.
Mas trilha os dedos
uma só vez com uma delas
e a memória vai trilhar-tos
das duas mil vezes seguintes
que voltares a fazê-lo.

(Trad. A.M.)

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26.8.19

Pedro Andreu (Minha casa cheira a morto)





MI CASA HUELE A MUERTO



Hace ya siete años que mi padre
vive muerto en mi casa. Me sonríe sin dientes
cuando pongo la tele, me cambia de canal por fastidiarme.
Me la apaga. Se queja si cocino y no le sirvo plato,
aunque los dos sepamos que los muertos no comen.
Hace ya siete años que me fuma en el baño.
Sus cigarrillos negros apestan el pasillo,
el ascensor, armarios. A pesar de mis súplicas,
mis quejas. ¡Ni en paz cagar se deja en esta casa
a los muertos, pues vaya educación!, me echa en cara.
Hace ya siete años que duerme en el salón.
Mi padre muerto. Sus ronquidos me pueden
y salgo al comedor y grito basta. Él se ríe
y aflojo y terminamos hablando de la vida
hasta las tantas y él me dice esas cosas que dice:
mira, hijo mío, me vivo de la risa
con tus preocupaciones. O si no: mira, hijo,
la muerte no es tampoco para tanto,
mejor tomarla a broma que demasiado en serio.
A veces me lo encuentro en la nevera
echándose la siesta entre yogures.
Es que es verano, dice. Y ya no aguanto más
y exijo que se largue. Pero jamás me escucha,
se pone con sus cosas tan de muerto, se hace el zombi
por sacarme de quicio. Sabe que no me gusta.
Le digo que mamá se enfadaría, que
esto no es muy normal, que debería estar
en una urna negra en casa de su esposa,
como los otros padres que se han muerto.
Pero no me hace caso. Él siempre va a la suya.

Hace ya siete años que revuelve mis cosas,
me esconde los apuntes de Barroco, usa mi ropa,
me vuelve del revés los calcetines, los despareja.
Y si le digo algo, sale por la tangente:
me echa en cara que no lo saco a pasear como antes,
que me entretengo al salir del trabajo,
que no lo llevo al bar cuando juega su Atleti,
que lo echo del cuarto cuando me traigo amigas.
Un par de veces lo he puesto de patitas en la calle.
Pero es testarudo. Se queda tras la puerta,
toca al timbre con esa eterna persistencia de los muertos.
Yo trato de no abrirle, le grito que estoy harto,
que se marche, que se largue de viaje, que me olvide.
Pero no me hace caso. Él nunca me hace caso.
Como un perro se sienta y aúlla hasta que vence
y le ruego que pase. Pero esta vez se fue
como no se fue otras. Discutimos más fuerte.
Le dije que esto y que lo otro, que a veces
fue un mal padre, que faltaron quizás
más tardes junto a mí cuando era un crío,
que si esto y si lo otro y lo de más allá
y no sé qué le dije de cuando era niño
y nos llevó a una playa y nos gastó la broma
de dejarnos allí y largarse en su coche
y hubo que volver caminando hasta casa.
Se ve que le dolió. Que le dolió de veras
como a veces les duelen las cosas a los muertos.
Agachó las orejas, el rabo entre las piernas,
arrojó al cielo raso un puñado de moscas
de su boca. Se me marchó en silencio
escaleras abajo. No esperó el ascensor.

Siete años de tapas levantadas, de mordernos
como se muerden padre e hijo, vivo y muerto,
mañana tras mañana. Y ya van dos semanas
sin que apague mi tele ni cambie de canal por fastidiarme.
Dos semanas sin nadie escondiéndome llaves.
Y ahora echo de menos a los pies de mi cama
sus pellizcos fantasma. Sus ronquidos de noche.

Y me digo que no, que no tenía derecho,
que él era mi muerto y yo su vivo,
que eso es importante. Que le he fallado igual
que me falló él a mí, aquel verano
que me dejó olvidado en una playa.
Hasta he pensado en llamar a mis pobres hermanas,
por si se fue con ellas; preguntar a mi madre,
empapelar el barrio con carteles:
se busca padre muerto. Y me da por llorar
como lloran los vivos cuando pienso en las calles,
que es invierno, que se fue sin chaqueta, que la muerte es helada,
que no tiene dinero para comprar tabaco,
que qué será de él sin mí, que soy su vivo.
Y he llegado a pensar sino será el Gobierno.
Igual han recortado: como recortan sueldos, derechos,
sanidades, educación, cultura, amores… Será eso:
al Gobierno le ha dado por recortar en muertos.
Pero eso sí que no. Eso no. Por ahí no pasamos.
Mañana al levantarme empiezo una. Papá se la merece.
Haré revolución, desmontaré el Estado. Vendrán conmigo
muchos. No estoy solo. Todos tenemos muertos.
No saben lo que han hecho. Que nos tengan cuidado.
Mañana por la tarde triunfará la insurgencia
y luego volveré a casa con mi padre del brazo
a discutir de nuevo, a levantar la tapa él
y yo a bajarla, a robarnos el mando de la tele
el uno al otro, a hablar hasta las tantas,
a emborracharnos y celebrar por fin
que él es mi muerto y yo su vivo, qué carajo,
y que ningún gobierno, ningún mundo asqueroso,
podrá echarnos por tierra siete años.


Pedro Andreu

[Facebook]




Há sete anos já que meu pai
vive morto em minha casa. Sorri para mim
sem dentes quando ligo a TV, muda-me de canal
para me chatear, desliga-ma. Queixa-se se eu cozinho
e não lhe ponho prato, apesar de sabermos ambos
que os mortos não comem.
Há já sete anos que me fuma no banheiro,
e os seus cigarros negros empestam o corredor,
o elevador, os armários. Apesar dos meus rogos
e das minhas queixas. Chiça, atira-me ele à cara,
já nem deixam os mortos cagar nesta casa,
haja educação.
Há sete anos já que dorme na sala,
meu falecido pai. Os seus roncos enervam-me,
abro a porta e grito 'basta'. Ele ri-se,
eu acalmo e acabamos a falar da vida
até às tantas, onde ele me diz aquelas coisas
que diz: olha, meu filho, eu vivo de riso
com as tuas preocupações. Ou então:
olha, filho, a morte também não é nada de mais,
melhor levá-la a brincar que muito a sério.
Às vezes vou encontrá-lo no frigo
a dormir a sesta entre os iogurtes.
É que é Verão, diz ele. Eu passo-me
e exijo que se vá, só que el nunca me ouve,
põe-se com aquelas coisas de morto, faz de zombi
para me tirar do sério, pois sabe que eu não gosto.
Digo-lhe que a mamã se incomodaria, que
isto não é lá muito normal, que ele devia era estar
numa urna preta em casa da esposa,
tal como os outros pais falecidos.
Mas ele não me liga, fica sempre na sua.

Há sete anos já que me remexe as coisas,
me esconde os apontamentos de Barroco, me usa a roupa,
vira-me as peúgas do avesso, desparelha-as.
E se eu lhe digo alguma coisa, desvia-se,
atira-me à cara que eu não o levo a passear como antes,
que me entretenho no fim do trabalho,
que não o levo ao bar quando joga o clube dele,
que o imponto do quarto quando venho com amigas.
Um par de vezes pu-lo na rua,
mas é cabeçudo, mete-se à porta
e toca à campainha com a teimosia própria dos mortos.
Eu não abro e grito-lhe que estou farto,
que vá embora, que parta em viagem, que me esqueça.
Mas ele não me liga, ele nunca me liga,
senta-se como um cão, põe-se a uivar até ganhar
a dele e eu dizer-lhe que entre. Mas desta vez ele foi-se
como não se foi das outras. A discussão foi mais longe,
eu disse-lhe isto e aqueloutro, que ele foi
às vezes mau pai, que fizeram falta talvez
mais tardes comigo em criança
e que mais isto e mais aquilo
e nem sei que lhe disse de um dia
nos levar à praia e dar-lhe na bolha
de nos largar ali e ir embora no carro
e nós termos de ir a pé sozinhos para casa.
Via-se que lhe doeu, que lhe doeu deveras,
como às vezes doem as coisas aos mortos.
Baixou as orelhas, de rabo entre as pernas,
atirando da boca um punhado de moscas
para o céu. E foi-me pela escada abaixo,
retirando em silêncio, nem mesmo esperou pelo elevador.

Sete anos de tampas erguidas, de nos ferrarmos
como se ferram pai e filho, um vivo outro morto,
manhã após manhã. E já lá vão quinze dias
sem me desligar a TV ou mudar de canal para chatear,
quinze dias sem me esconder as chaves.
E agora sinto falta dos seus beliscos
aos pés da cama, dos seus roncos de noite.

E digo cá para mim que não, não há direito,
que ele era o meu morto, assim como eu o vivo dele,
e que isso era importante. Que também eu lhe falhei,
como ele me falhou a mim, naquele Verão
em que me deixou na praia esquecido.
Até cheguei a pensar em falar às manas,
se calhar foi com elas; perguntar à minha mãe,
encher o bairro de cartazes:
procura-se um pai morto. E dá-me para chorar
como choram os vivos, quando penso nas ruas,
que é Inverno, que ele saiu sem camisola, que é gelada a morte,
que ele não tem dinheiro para tabaco,
o que será dele sem mim, que sou o vivo dele.
E cheguei a pensar se não será o Governo,
eles cortam tudo, cortam salários, direitos,
saúde, educação, cultura, amores... Se calhar,
deu-lhes agora para cortar nos mortos.
Ah, mas essa não, essa não, aí não admitimos.
Amanhã ao erguer-me vou começar uma (o meu paizinho merece...),
começo uma revolução, desmonto o Estado.
Muitos virão comigo, não estou só, todos nós temos mortos.
Não sabem o que fizeram, que se acautelem,
amanhã tarde vai triunfar a insurreição,
depois virei para casa com meu pai debaixo do braço,
a discutir novamente, a erguer a tampa ele
e eu a baixá-la, a roubar um ao outro
o comando da TV, a parlar até às tantas
a emborrachar-nos, a celebrar por fim
eu ser o seu vivo e ele o meu morto, cum caracho,
e que nenhum governo, nenhum mundo asqueroso,
há-de lançar-nos a terra sete anos.


(Trad. A.M.)

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24.8.19

João José Cochofel (O Verão estala)





(IV)


O Verão estala por todos os poros
da casca das árvores,
da língua dos cães,
das asas das cigarras,
do bico dos peitos das mulheres
tão acerado
que rasga o véu de calor
com um golpe preciso
de lanceta.


João José Cochofel

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22.8.19

Luciano de Giovanni (Verás)





Tu lo vedi, non sono poesie,
non vogliono essere
poesie, vogliono essere
amore
un umile cercare
attraverso parole
di poco conto
quell’unica parola
che ricordiamo
quando non ricordiamo
nulla
e liberi sostiamo
al margine del dire
nell’estasi che ci culla

Luciano de Giovanni




Verás, não são poesias
não querem ser
poesias, querem ser
amor
uma busca humilde
entre palavras
de pouca conta
daquela palavra única
que recordamos
quando não recordamos
nada
e livres paramos
na fronteira do dito
do êxtase que nos embala

(Trad. A.M.)

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21.8.19

Pedro A. González Moreno (O picão da infância)





EL PICÓN DE LA INFANCIA

                                (A mi padre)


Uno de aquellos días de los duros inviernos
de La Mancha, mi padre
me llevó a hacer picón.
Bajo la luz incierta de aquel amanecer
tenía el campo un brillo distinto, un color nuevo
de frío y aventura.
Recogidos los haces
de leña a campo abierto
hicimos una hoguera y, fascinado,
vi levantarse el humo
en una alta columna, más alta que la luz
de la mañana. Supe
después que aquellas llamas
eran un misterioso reflejo del poema;
algo estaba creándose al mismo tiempo que algo
también se destruía.

Con unos cubos de agua, baldeándola a mano,
apagamos las brasas
para que el fuego no las consumiese.
Era preciso el agua en el momento exacto
(un momento anterior a la ceniza)
para que la madera conservase
ese oscuro tesoro de su fuego escondido.
Finalmente, con horcas
íbamos removiendo el montón humeante
hasta que se enfriaba.

Pensé que aquel oficio consistía
tan sólo en extraerle
el humo a la madera,
o tal vez en guardar, para después, la lumbre
que había oculta dentro de las ramas.

Muchos años más tarde
pensé que sólo en eso
consistía el oficio del poeta:
en quemar las palabras muy cuidadosamente
hasta que ardiera toda la hojarasca
y su corteza impura;
en dejar que los versos, ya vaciados de humo,
quedasen reducidos a su ascua,
y pudieran así guardar un poco
de lumbre para el luego.

Después, ya muchos años
después, algunas veces he pensado
que al escribir poemas
sólo seguía haciendo picón con las palabras:
negro picón
para este duro invierno
de la vida.


Pedro A. González Moreno

[Mientras la luz]




Um desses dias dos invernos duros da Mancha, meu pai
levou-me a fazer carvão de brasa.
Na luz incerta desse amanhecer
o campo tinha um brilho distinto, uma cor nova
de frio e aventura.
Apanhados os feixes
de lenha em campo aberto,
fizemos uma fogueira e eu,
fascinado, vi o fumo erguer-se
numa coluna muito alta, mais alta
que a luz da manhã. Soube
depois que essas chamas
eram um misterioso reflexo do poema;
algo se criava ali, ao mesmo tempo
que algo
também se destruía.

Com uns baldes de água, passando-a à mão,
amortecemos as brasas
para o fogo as não consumir.
Era precisa a água no momento exacto
(um momento anterior à cinza)
para a madeira conservar
o escuro tesouro do seu fogo escondido.
Por fim, íamos remexendo
o montão fumegante com paus,
até arrefecer.

Eu pensava que o serviço era apenas
extrair o fumo à madeira,
ou talvez guardar, para depois, o lume
que havia dentro dos ramos.

Muitos anos mais tarde
pensei que era só isso
o ofício do poeta,
queimar as palavras com todo o cuidado
até arder a folharada toda
e a sua impura casca;
deixar que os versos, esvaziados já de fumo,
ficassem reduzidos à sua brasa,
conseguindo assim guardar um pouco
de lume para o fogo.

Depois, já muitos anos
depois, algumas vezes pensei
que ao fazer poemas
continuava só a fazer carvão com as palavras:
negro carvão
para este duro inverno
da vida.


(Trad. A.M.)

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19.8.19

Pablo Neruda (Testamento)





TESTAMENTO



Dejo a los sindicatos
del cobre, del carbón y del salitre
mi casa junto al mar de Isla Negra.
Quiero que allí reposen los maltratados hijos
de mi patria, saqueada por hachas y traidores,
desbaratada en su sagrada sangre,
consumida en volcánicos harapos.

Quiero que al limpio amor que recorriera
mi dominio, descansen los cansados,
se sienten a mi mesa los oscuros,
duerman sobre mi cama los heridos.

Hermano, ésta es mi casa, entra en el mundo
de flor marina y piedra constelada
que levanté luchando en mi pobreza.
Aquí nació el sonido en mi ventana
como en una creciente caracola
y luego estableció sus latitudes
en mi desordenada geología.

Tu vienes de abrasados corredores,
de túneles mordidos por el odio,
por el salto sulfúrico del viento:
aquí tienes la paz que te destino,
agua y espacio de mi oceanía.


Pablo Neruda

[Voar fora da asa]




Deixo aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre
minha casa junto ao mar em Isla Negra.
Quero que ali repousem os maltratados filhos
da minha pátria, saqueada por machados e traidores,
desbaratada em seu sangue sagrado,
consumida em vulcânicos farrapos.

Quero que ao limpo amor que percorreu
meu domínio, descansem os cansados,
sentem-se à mesa os humildes,
durmam os feridos na minha cama.

Irmão, esta é minha casa, entra no mundo
de flor marinha e pedra constelada
que eu ergui lutando em minha pobreza.
Aqui nasceu o som em minha janela
como num búzio,
e depois fixou as latitudes
em minha desordenada geologia.

Tu vens de abrasados corredores,
de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te deixo,
água e espaço de minha oceania.

(Trad. A.M.)

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18.8.19

João Habitualmente (Em toda a casa)





EM TODA A CASA



pelas paredes cheira ainda à tua pele cutânea

mas desde que te foste estar aqui é oco,
cansativo, uma espera. E às vezes (como se
tivéssemos chorado) respirar custa.

sobretudo nada apetece.
sair para a rua? Ir então em frente a repetir
os passos, passear nas avenidas a espaçar as
horas – dispersar a espera?

tudo cinzento. Choverá?
aqui é que não fico. No quarto onde dormimos
o espaço sobra, e cada coisa já morreu ou está a mais.
em toda a casa uma violência subterrânea:
a tua ausência


João Habitualmente

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16.8.19

Pablo García Casado (Publicidade enganosa)





PUBLICIDAD ENGAÑOSA



es cierto reconozco todos los cargos
mentí lo sé lo sabía desde el principio
todos lo hacemos es la manera de vender

el producto qué quieres que te diga no soy
el que andabas buscando sí soy un cerdo
un grandísimo cabrón un hijoputa... pero dime

qué tiene todo eso que ver con el amor?


Pablo García Casado

[Ulises sin Joyce]




certo reconheço as acusações
menti bem sei sabia desde início
todos mentimos é o modo de vender

o produto o que queres que te diga não sou
aquele que tu querias sim sou um porco
um cabrão um filho da puta... mas diz-me

o que tem isso tudo a ver com o amor?

(Trad. A.M.)

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13.8.19

Patrizia Cavalli (O coração nunca está seguro)




Il cuore non è mai al sicuro e dunque,
fosse pure in silenzio, non vantarti
della vittoria o dell’indifferenza.
Rendi comunque onore a ciò che hai amato
anche quando ti sembra di non amarlo più.
Te ne stai lì tranquilla? Ti senti soddisfatta?
Potresti finalmente dopo anni
d’ingloriosa incertezza, di smanie e umiliazioni,
rovesciare le parti, essere tu
che umili e che comandi? No, non farlo,
fingi piuttosto, fingi l’amore che sentivi
vero, fingi perfettamente e vinci
la natura. L’amore stanco
forse è l’unico perfetto

Patrizia Cavalli




O coração nunca está seguro, por isso
não te vanglories, mesmo em silêncio,
da vitória ou da indiferença.
Honra o objecto do teu amor,
mesmo quando sintas não amá-lo já.
Estás tranquila? Satisfeita?
Podias agora, após anos
de inquietação, de incertezas e humilhações,
trocar de papéis, ser tu doravante
a mandar e humilhar? Não caias nessa,
finge antes, finge o amor que sentias
real, finge perfeitamente e vence
a natureza. O amor cansado
é talvez o único perfeito.

(Trad. A.M.)



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11.8.19

Pablo Casares (Catedrais)




CATEDRALES



Construimos nuestras vidas
con pequeñas ficciones,
miedos con los que somos
incapaces de reconciliarnos,
distancias con puntos de fuga infinitos
y frágiles andamios
cubiertos de apariencias.

Monumentales catedrales del fracaso
que levantamos cada mañana
con el pie izquierdo.


Pablo Casares





Construímos nossas vidas
com pequenas ficções,
medos com que não
conseguimos reconciliar-nos,
distâncias com pontos de fuga infinitos
e frágeis andaimes
cobertos de aparências.

Monumentais catedrais do fracasso
que levantamos cada manhã
com o pé esquerdo.

(Trad. A.M.)

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