6.9.17

Luis Feria (As palavras)





LAS PALABRAS


Las palabras están vivas, y por lo
tanto traicionan; lo que expresan
hoy como verdadero y puro, ma-
ñana es falso y está muerto.
(L. CERNUDA)


Acaso no debiéramos escribir nunca más
sobre una página
pues las palabras son
mayores que la vida
y como a ellas tendríamos
que sostenerlas con el brazo
hasta que llegue el día que el cansancio lo
doble.

Las palabras son siempre más anchas que los labios,
mayores que la ausencia y que la infamia.
Tal vez debamos siempre escribir en los aires,
que el sol en los caminos las incendie un momento
y las vuelva a la nada,
al silencio
y al polvo,
las integre a la noche
y a su germen,
intocables y puras como una antorcha viva.


Luis Feria




Talvez não devêssemos escrever nunca mais
sobre a página,
já que as palavras são 
maiores do que a vida
e teríamos de segurá-las com o braço
até ao dia de o cansaço o vergar.

São sempre mais largas que os lábios, as palavras,
maiores do que a infâmia ou a ausência.
Talvez devêssemos escrever sobre o ar,
para o sol dos caminhos incendiar as palavras um instante
e as fazer voltar ao nada,
ao silêncio 
e ao pó,
devolvê-las à noite
e ao seu germe,
intocáveis e puras como uma tocha viva.


(Trad. A.M.)


.

5.9.17

Raúl Zurita (Diálogo chileno)





DIÁLOGO DE CHILE



Verás un mar de piedras
Verás margaritas en el mar
Verás un Dios de hambre
Verás el hambre
Verás figuras como flores
Verás un desierto
Verás el mar en el desierto
Verás tu odio
Verás un país de sed
Verás acantilados de agua
Verás nombres en fuga
Verás la sed
Verás amores en fuga
Verás el poco amor
Verás flores como piedras
Verás sus ojos en fuga
Verás cumbres
Verás margaritas en las cumbres
Verás un día blanco
Verás que se va
Verás no ver
Y llorarás


Raúl Zurita





Verás um mar de pedras
Verás margaridas no mar
Verás um Deus da fome
Verás a fome
Verás figuras como flores
Verás um deserto
Verás o mar no deserto
Verás o teu ódio
Verás um país da sede
Verás falésias de água
Verás nomes em fuga
Verás a sede
Verás amores em fuga
Verás o pouco amor
Verás flores como pedras
Verás seus olhos em fuga
Verás cumes
Verás margaridas nos cumes
Verás um dia claro
Verás que se vai
Verás não ver
E chorarás


(Trad. A.M.)


>>  Memoria chilena (tudo+algo) / Scielo (10p) / Arte poetica (8p) / Wikipedia

.

4.9.17

Alexandre O'Neill (Se eu pudesse)





Se eu pudesse dizer-te: - senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém - Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo amor seria.
Não este descerrar a mão vazia!


Alexandre O'Neill



 .

3.9.17

Claudio Bertoni (Cancro)





CANCER



El cáncer
es tan profundo
que ni siquiera el cáncer a la piel
es superficial. 

Claudio Bertoni




O cancro
é tão profundo
que nem mesmo o cancro de pele
é superficial.


(Trad. A.M.)

.

2.9.17

Luis Cernuda (No meio da multidão)





EN MEDIO DE LA MULTITUD



En medio de la multitud le vi pasar, con sus ojos tan rubios como la cabellera. Marchaba abriendo el aire y los cuerpos; una mujer se arrodilló a su paso. Yo sentí cómo la sangre desertaba mis venas gota a gota.

Vacío, anduve sin rumbo por la ciudad. Gentes extrañas pasaban a mi lado sin verme. Un cuerpo se derritió con leve susurro al tropezarme. Anduve más y más.

No sentía mis pies. Quise cogerlos en mi mano y no hallé mis manos; quise gritar, y no hallé mi voz. La niebla me envolvía.

Me pesaba la vida como un remordimiento; quise arrojarla de mí. Mas era imposible, porque estaba muerto y andaba entre los muertos.

Luís Cernuda




No meio da multidão vi-o passar, os olhos tão loiros como o cabelo. Rasgava ao andar o ar e os corpos; uma mulher ajoelhou-se-lhe à passagem. Eu senti o sangue desaparecer-me das veias gota a gota.

Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava-me ao lado sem ver-me. Um corpo ao tropeçar em mim derreteu-se com um sussurro ligeiro. Andei e andei.

Não sentia os pés. Quis apanhá-los na mão e não encontrei as mãos; quis gritar e não encontrei a voz. Envolvia-me a névoa.

Pesava-me a vida como um remorso; quis afastá-la de mim. Mas era impossível, porque estava morto e andava por entre os mortos.

(Trad. A.M.)


 .

1.9.17

Mário de Carvalho (Discurso indirecto livre)





Se não era giro, mano, a lagoa?
Ah, a lagoa, claro.
Tinha reparado nos patos-bravos, com o papo verde brilhante?
Ah, sim, os patos.
Olhasse a seguir, com atenção, depois da curva.
Estava a ver?
Uma azinheira enorme, velhíssima, raríssima naquelas paragens.
"Pois, Marta, a azinheira."
Ia dizendo que sim a tudo, fingindo partilhar o espanto: cegonhas nos postes de electricidade, corvos a voejar com batimentos certos e mecânicos, melros a debicar na borda da estrada, montados a perder de vista, extensões de urzes e papoilas.
Belíssimo país!
Sim, sim, mana.


MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-V
(2008)

.

31.8.17

Luis Alberto de Cuenca (Abre todas as portas)





ABRE TODAS LAS PUERTAS



 Abre todas las puertas: la que conduce al oro,
 la que lleva al poder, la que esconde el misterio
 del amor; la que oculta el secreto insondable
 de la felicidad, la que te da la vida
 para siempre en el gozo de una visión sublime.
 Abre todas las puertas sin mostrarte curioso
 ni prestar importancia a las manchas de sangre
 que salpican los muros de las habitaciones
 prohibidas, ni a las joyas que revisten los techos,
 ni a los labios que buscan los tuyos en la sombra,
 ni a la palabra santa que acecha en los umbrales.
 Desesperadamente, civilizadamente,
 conteniendo la risa, secándote las lágrimas,
 en el borde del mundo, al final del camino,
 oyendo cómo cantan los ruiseñores,
 no lo dudes, hermano: abre todas las puertas.
 Aunque nada haya dentro.

Luis Alberto de Cuenca




Abre as portas todas, a que conduz ao ouro,
a que leva ao poder, a que esconde o mistério
do amor; a que oculta o segredo insondável
da ventura, a que a vida te oferece
para sempre no gozo de uma visão sublime.
Abre as portas todas, sem te mostrares curioso,
nem prestar importância às manchas de sangue
que salpicam as paredes das salas
proibidas, nem às jóias que cobrem os tectos,
nem aos lábios que na sombra buscam os teus,
nem à palavra sagrada que espreita no umbral.
Desesperadamente, civilizadamente,
contendo o riso, enxugando as lágrimas,
no limiar do mundo, ao fim do caminho,
não hesites, meu irmão: abre as portas todas.
Embora não haja nada dentro.

(Trad. A.M.)

.

30.8.17

Lucas Rodríguez (Marco Polo)





MARCO POLO



Soy un hombre de mundo
mis calzoncillos están hechos en China
mis pantalones en Tailandia
mis botas en Arnedo
el reloj que consulto es de Taiwan
y mi bolso fue cosido en la India
como el Marco Polo del siglo XXI
pero en versión imbécil.


Lucas Rodríguez

[Elkoalapuesto]




Eu sou um homem de mundo
os calções são feitos na China
as calças na Tailândia
as botas em Arnedo
o relógio que consulto é de Taiwan
e o bolso foi cosido na India
como o Marco Polo do séc. XXI
mas em versão imbecil.


(Trad. A.M.)

.

29.8.17

Amadeu Baptista (No aniversário da morte do Ruy Belo)





NO ANIVERSÁRIO DA MORTE DO RUY BELO



faz hoje anos que o ruy belo morreu.
nem imagino o que seja morrer um homem
a despenhar-se na cama, recém-chegado do mar

com o seu fato de mergulhador e os olhos cheios de peixes.
não imagino o que seja deixar de respirar um poeta,
ainda que saiba que sofrerei a mesma paragem

respiratória e também cairei de bruços sobre a cama.
faz hoje anos que o ruy belo morreu.
nunca o vi, nunca lhe ouvi a voz, nunca observei

a caprichosa sinuosidade da sua caligrafia, mas
amei este homem muito mais que amei meu pai
e minha mãe, digo-o tal como o sinto, sempre o senti

assim e assim o escrevo para que ressoe através de mim
como uma palavra sussurrada no capacete de um escafandrista
ou num coração. faz hoje anos que o ruy belo

morreu. deve ter sido num dia de muito calor, igual a este.
a coberta em que repousou a cabeça seria como esta,
verde-esmeralda, espessa e clara na exiguidade da cama

em que caiu. amei este homem, amo este homem
como a um irmão. presto homenagem
às suas dores mais dilacerantes, iguais às minhas, talvez,

ainda que um tudo nada mais graves, um tudo nada
mais agudas as que manteve, enquanto a pátria,
a serôdia pátria que tudo amesquinha,

lhe fazia o ninho atrás da orelha
e lhe espetava a faca nas costas com a habitual
agilidade com que a pátria mata os seus poetas,

o ruy belo e uns outros tantos, inumeráveis,
que o rol é demasiado grande para tão pequena pátria.
faz hoje anos que o ruy belo morreu. presumo

que uma nuvem lhe subiu à boca e lhe turvou o olhar,
uma nuvem de mar, ou de peixes, uma nuvem
verde-esmeralda. tudo foi instantâneo e quieto,

um alvoroço parado, uma tranquila vertigem.
essa nuvem inundou-lhe o quarto, a cama, a carne, a boca, os olhos,
enquanto pensava que deveria escrever algumas cartas

que esperava o não levassem à desonra de ter que roubar para comer,
num país que desde sempre mata à fome os seus poetas.
faz hoje anos que o ruy belo morreu. todo o silêncio é pouco para assinalar

esta perda, por mais que uns poucos a venham alardear
na configuração da noite que aqui se pôs, sem qualquer esperança
de manhã. eis o que digo tal e qual como sinto esta morte, ainda que

não seja escafandrista e tenha visto a consolação ao longe,
suspensa de um nevoeiro de abismos, demasiadamente perto
da nau dos corvos da nossa existência, uma praia cheia do nosso esterco,

cheia da nossa solidão, onde sempre nos caberá mergulhar
na morte para que a cabeça penda sobre o peito, sobre
a cobertura da cama verde-esmeralda, enquanto tudo em volta

não é mais que uma noite que nos fecha os olhos e a interrogação
inapelável nos confirma que de tudo morremos, vencidos
mas não convencidos de que o último inimigo seja a morte,

porque há ainda o que se não concilia, o que nos confronta na barbárie,
o que redime das sombras e põe um enunciado de estrelas
no que se escreve. faz hoje anos que o ruy belo morreu,

entra agosto nos seus inícios como um mês comum à nossa morte,
não mais que uma circunstância para forçar a guarda, levantar
as mãos acima da cabeça e, por uma vez, objurgar

quem lança um olhar estranho sobre nós sem que saiba
que os poetas não morrem, por mais que o lixo se amontoe
à nossa volta e o que é ignóbil nos magoe.


Amadeu Baptista


____________________

> Cantando o mesmo, a morte de R.B., aqui:
- Fernando Assis Pacheco
- Eugénio de Andrade

.

28.8.17

Leopoldo María Panero (O circo)





EL CIRCO



Dos atletas saltan de un lado a otro de mi alma
lanzando gritos y bromeando acerca de la vida:
y no sé sus nombres. Y en mi alma vacía escucho siempre
cómo se balancean los trapecios. Dos
atletas saltan de un lado a otro de mi alma
contentos de que esté tan vacía.
Y oigo
oigo en el espacio sonidos
una y otra vez el chirriar de los trapecios
una y otra vez.
Una mujer sin rostro canta de pie sobre mi alma,
una mujer sin rostro sobre mi alma en el suelo,
mi alma, mi alma: y repito esa palabra
no sé si como un niño llamando a su madre a la luz,
en confusos sonidos y con llantos, o bien simplemente
para hacer ver que no tiene sentido.
Mi alma. Mi alma
es como tierra dura que pisotean sin verla
caballos y carrozas y pies, y seres
que no existen y de cuyos ojos
mana mi sangre hoy, ayer, mañana. Seres
sin cabeza cantarán sobre mi tumba
una canción incomprensible.
Y se repartirán los huesos de mi alma.
Mi alma.
Mi hermano muerto fuma un cigarrillo junto a mí.


Leopoldo María Panero




Dois atletas saltam-me de um lado a outro da alma
contentes de ela estar tão vazia.
E ouço
ouço ruídos no ar
uma vez e outra o chiar dos trapézios
uma e outra vez.
Uma mulher sem cara canta de pé na minha alma,
uma mulher sem rosto sobre a minha alma no chão,
minha alma, alma minha: e repito a palavra,
como criança, não sei, chamando a mãe para a luz,
com prantos e ruídos confusos, ou muito simplesmente
para mostrar que não faz sentido.
Alma minha. Minha alma
é como terra dura pisada por
cavalos, carroças e pés, seres
que não existem e de cujos olhos
corre o meu sangue hoje, ontem e amanhã.
Seres sem cabeça cantarão na minha campa
uma canção incompreensível.
E dividirão entre si os ossos da minha alma.
Minha alma.
Meu irmão falecido fuma um cigarro a meu lado.

(Trad. A.M.)

.

27.8.17

León Felipe (Ninguém foi ontem)





Nadie fue ayer,
ni va hoy,
ni irá mañana
hacia Dios
por este mismo camino
que yo voy.
Para cada hombre guarda
un rayo nuevo de luz el sol...
y un camino virgen
Dios.


León Felipe




Ninguém foi ontem,
nem vai hoje,
nem amanhã
para Deus
por este mesmo caminho
que eu vou.
Para cada homem tem o sol
um raio novo de luz...
e Deus
um caminho virgem.


(Trad. A.M.)

.

26.8.17

Mário de Carvalho (Marta-2)





Pobre mana imerecida, que tantas vezes lhe suscitava a inconfessável raiva de não estar à altura, e ser incapaz de retribuir a atenção, o feitio e a solicitude. 

Desde sempre a vira sobrecarregada de trabalho, a desdobrar-se nos cuidados com os outros, com o pai, com a mãe, com o marido, com o filho, agora com o irmão, num sobrepeso de tarefas, ânsias, desvelos e fadigas.

Pela vida, habituara-se a ver mulheres cansadas, estava farto de mulheres cansadas, até por não compreender a assustadora capacidade de se concentrarem em várias ocupações e de violentarem o corpo até à exaustão.


MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-II
(2008)

.

25.8.17

Isabel Bono (O futuro acabará por chegar)





EL FUTURO ACABARÁ POR LLEGAR



malgastábamos el tiempo
ordenando en un álbum las fotos del verano
para mirarlas alguna vez con nostalgia

acumulábamos canicas piedras
libros cartas poemas

aplazábamos así la felicidad, la vida

todavía no sé por qué
todavía no sé para cuándo


Isabel Bono




desperdiçávamos o tempo
a ordenar num álbum as fotos do Verão
para as olhar um dia com saudade

juntávamos berlindes pedras
livros cartas poemas

adiávamos assim a felicidade, a vida

ainda não sei porquê
nem sei para quando


(Trad. A.M.)

.

24.8.17

Laura Wittner (Visto da banheira)





PERSPECTIVA DESDE UNA BAÑERA



Después habrá una discusión.
Por ahora todo es cerrar los ojos,
mantenerlos cerrados a la altura del agua,
respirar, volver a sumergirse.
El límite entre el agua y el aire
coincide con la línea de pensamiento
que lo que hace es fundir y refundir
en cualquier orden
un par de escenas o secuencias, fotografías
tomadas con una cámara automática,
siempre más o menos el mismo material,
- es lo que se ha podido reunir -
animales salvajes avanzando
hasta quedar en primer plano,
alguien que le enseña a una chica
a usar una pistola en el desierto,
o igual una persona en una bañera
- y aquí vendrá la discusión:
quién es la persona,
quién soporta
la línea de pensamiento, o quién
apretó el gatillo,
tomó la foto, quién señaló la posición
donde habría que ubicarse
para obtener una buena vista aérea
de la bañera.


Laura Wittner





Depois haverá discussão,
para já é só fechar os olhos,
mantê-los fechados à flor da água,
respirar, voltar a mergulhar.
O limite entre água e ar
coincide com a linha de pensamento
que tenta fundir e refundir
um par de cenas ou sequências,
fotos tomadas com câmara automática,
sempre o mesmo material mais ou menos
- o que se pôde arranjar -
animais selvagens avançando
até ficarem em primeiro plano,
alguém que ensina uma miúda
a usar pistola no deserto,
ou então uma pessoa numa banheira
- e aí virá a discussão:
quem é a pessoa,
quem suporta
a linha de pensamento, quem
apertou o gatilho,
ou tomou a foto, quem indicou
a posição melhor a tomar
para obter uma boa vista aérea
de banheira.


(Trad. A.M.)

.

23.8.17

João de Mancelos (Ars poetica)





ARS POETICA



os pequenos incidentes dos dias
não são mais do que dobras e vincos.

poema a poema, passo a alma a ferro. 



João de Mancelos

.

22.8.17

Karmelo C. Iribarren (A condição urbana)





LA CONDICIÓN URBANA



Detesto el autobús. La buena
educación que nos obliga
a ceder el asiento
a esas señoras
que hasta que no se sientan
puede darles
cualquier cosa fatal.
Los empujones. El olor. Que nadie
fume y tenga que aguantar
todos los pormenores
del infarto
que le dio a no sé quién.
Las leyendas que llevan
en los flancos.
Los frenazos. Y muchas
cosas más que ahora me callo
porque me bajo aquí.


Karmelo C. Iribarren




Detesto autocarro. A boa
educação que nos obriga
a ceder o banco
àquelas senhoras
que até se sentarem
pode-lhes dar
qualquer coisa fatal.
Os empurrões. Os cheiros. O não
fumar e o ter de aguentar
os pormenores todos
do enfarte
que deu a não sei quem.
Os reclames nos lados.
As travagens. E muitas
coisas mais que agora não digo
porque desço aqui mesmo.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L.P.)


.

21.8.17

Juanjo Barral (O valor da palavra)





EL VALOR DE LA PALABRA



El otro día me pagaron
por recitar media docena de poemas, algunos
contra el propio sistema bancario.
Es la primera vez que cobro por las miles de horas extra
sin contrato ni derecho a subsidio por desempleo que llevo
desde que me inscribí en el gremio de artesanos del vaho
en esta profesión de vendedores de melancolía

en la que tanto se padece la siniestralidad
–hay versos cojos, poemas que se estrellan contra el cielo–

en la que sufrimos la flexibilidad laboral más dura
–quién no ha tenido que escribir en el autobús, camino del alba–

en la que somos víctimas del acoso moral de uno mismo en el trabajo
–cuántos suicidios ejemplares de los que se tiene constancia.

Así que voy a practicar un poco el absentismo
antes de volver a emplear el tiempo
jugándome la vida
a cuatro euros el poema.


Juanjo Barral





Noutro dia pagaram-me
para dizer meia dúzia de poemas, alguns
contra o próprio sistema bancário.
É a primeira vez que cobro pelos milhares de horas extra
que levo sem contrato nem direito a subsídio de desemprego
desde que me inscrevi no grémio de artesãos do bafo
nesta profissão de vendedores de melancolia

em que se sofrem tantos sinistros
- versos coxos, poemas que se despenham contra o céu –

em que suportamos a mais dura flexibilidade laboral
- quem se não viu obrigado a escrever no autocarro,
a caminho da aurora –

em que somos vítimas de assédio moral
de nós próprios no trabalho
- tantos suicídios exemplares que se conhecem.

Por isso vou entrar um pouco em absentismo
antes de voltar a ocupar o tempo
arriscando a vida
a quatro euros o poema.


(Trad. A.M.)


20.8.17

Mário de Carvalho (Marta)






Bonita que fora mana, doces lhe iam agora e entristecidas as feições, com dois arcos já descaídos melancolicamente sob os olhos, da linha dos lábios, mais resumida e vincada que outrora, nascia um irradiar de breves pespontos, ainda sumidos, não tão flagrantes como a pele do pescoço já a querer desaprumar. 

Ao fim de tantos anos, só agora reparava nos traços da irmã, figura tão naturalmente comparte da sua vida que não considerara sequer a eventualidade de lhe apreciar as feições, mormente pela inutilidade de fazer valer essa avaliação.


MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-II
(2008)


.

19.8.17

Juan Vicente Piqueras (Nomes apagados)





NOMBRES BORRADOS 

             La mente no es un lápiz para tomar apuntes,
             es una goma de borrar.
                                                    (Marko Vesovič)


Mi padre fue perdiendo poco a poco el lenguaje. 
Y empezó por los nombres. Lo primero
que olvidó su cerebro no fueron los adverbios
ni los pronombres no los adjetivos,
como uno estaría tentado de creer,
ni las motas de polvo de las preposiciones,
sino los sustantivos.

La manzana dejó de ser manzana,
el vaso pasó a ser eso,
y quienes se acercaban dejaban de llamarse.

La muerte comenzó su labor minuciosa
robándole los nombres,
borrándolos, poniendo
 
en su lugar un esto o un aquello,
un dame, un balbuceo, un gesto de la mano.

Lo último que se pierde son los verbos,
los verbos que se mueven en la sangre
como peces hasta que acaba el mundo,
hasta que ya no puede el cuerpo con su alma.

Los adjetivos son afectuosos,
visten de amor lo que miran
y por eso perviven.

Pero los nombres se esfuman.
Y la sustancia de los sustantivos
es agua de borrajas, niebla, torres de humo.

La manzana deja de ser manzana.
La palabra dolor ,
quién nos lo hubiera dicho.
no significa nada.


Juan Vicente Piqueras






O meu pai foi a pouco e pouco esquecendo a língua.
E começou pelos nomes. O que primeiro esqueceu
não foram os advérbios,
nem os pronomes ou os adjectivos,
como podíamos pensar,
nem os grãos de pó das preposições,
mas os substantivos.

A maçã deixou de ser maçã,
o copo passou a ser isso
e as pessoas que se aproximavam
deixavam de ter nome.

A morte começou seu labor minucioso
por roubar-lhe os nomes,
apagá-los, pondo
no lugar deles um isto ou aquilo,
um dá-me, um balbuceio, um aceno da mão.

O que se perde por último são os verbos
os verbos que se movem como peixes
no sangue até que o mundo se acaba,
até que o corpo já não pode com a alma.

Os adjectivos são afectuosos,
vestem de amor aquilo que visam
e por isso pervivem.

Mas os nomes esfumam-se.
E a substância dos substantivos
não passa de água, de névoa, de onda de fumo.

A maçã deixa de ser maçã.
A palavra dor,
quem nos havia de dizer,
não significa nada.

(Trad. A.M.)


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18.8.17

Juan Luis Panero (Epitáfio diante do espelho)





EPITAFIO FRENTE A UN ESPEJO



Dura ha de ser la vida para ti,
que a una extraña honradez sacrificaste tus creencias,
para ti, cuya única certidumbre es tu recuerdo
y por ello, tu más aciaga tumba.
Dura ha de ser la vida, cuando los años pasen
y destruyan al fin la ilusa patria de tu adolescencia,
cuando veas, igual que hoy, este fantasma
que tiempo atrás te consoló con su belleza.
Cuando el amor como un vestido ajado
no pueda proteger tu tristeza
y motivo de burla, de piedad o de asombro,
a los ojos más puros sólo sea.
Duro ha de ser para tu cuerpo ver morir el deseo,
la juventud, todo aquello que fuiste,
y buscar sin pasión tu reposo
en la sorda ternura de lo débil,
en la gris destrucción que alguna vez amaste.
«Es la ley de la vida», dicen viejos estériles,
«y nada sino Dios puede cambiarlo», repiten,
a la luz de la noche, lentas sombras inútiles.
Dura ha de ser la vida, tú que amaste el mundo,
que con una mirada o una suave caricia soñaste poseerlo,
cuando la absurda farsa que tú tanto conoces
no esté más adornada con lo efímero y bello.
Dura ha de ser la vida hasta el instante
en que veles tu memoria en este espejo:
tus labios fríos no tendrán ya refugio
y en tus manos vacías abrazarás la muerte.

Juan Luis Panero




Dura há-de ser a vida para ti,
que sacrificaste as crenças a uma estranha honradez,
para ti, cuja única certeza é a lembrança
e, por isso, a tumba mais aziaga.
Dura há-de ser a vida, quando os anos passarem
e destruírem por fim a pátria ingénua da tua adolescência,
quando vires, como hoje, este fantasma
que antes te consolou com sua beleza.
Quando o amor, como um vestido rasgado,
não te possa cobrir a tristeza
e seja apenas aos olhos mais puros
um motivo de zomba, piedade ou assombro.
Duro há-de ser para o teu corpo ver morrer o desejo,
a juventude, tudo aquilo que foste,
e procurar sem paixão o repouso
na surda ternura do que é débil,
na destruição que algum dia amaste.
«É a lei da vida», dizem velhos estéreis,
«e só Deus pode o pode mudar» repetem,
à luz da noite, lentas sombras inúteis.
Dura há-de ser a vida, tu que o mundo amaste,
que sonhaste possuí-lo com um olhar ou suave carícia,
quando a absurda farsa que tão bem conheces
não estiver já enfeitada do belo e efémero.
Dura há-de ser a vida até ao instante
em que velares tua memória neste espelho:
não terão já refúgio teus frios lábios
e com as mãos vazias abraçarás a morte.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (José Bento)

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