8.9.06

Carlos Drummond de Andrade (Amor)









O que é o amor?
O amor é assim:
Hoje beija-se,
amanhã não se beija,
Depois de amanhã é domingo
e segunda-feira
ninguém sabe o que será…




Carlos Drummond de Andrade




BIOGRAFIA

Carlos Drummond de Andrade nasceu a 31 de Outubro de 1902 em Minas Gerais, na cidade de Itabira.
Em 1918 mudou-se para Friburgo onde estudou num colégio interno, de onde acabou por ser expulso.
Começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas.
Em 1925 formou-se em Farmácia, por exigência da família, no entanto nunca chegou a exercer a profissão.
No mesmo ano, fundou, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista A Revista.
Deu aulas de História e Geografia em Itabira.
Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde no governo Vargas. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã.
Em 1945 abandonou o seu cargo público e tornou-se co-director do jornal de Luís Carlos Prestes. Mais tarde passou a trabalhar no então Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional.
Aposentou-se em 1962.
Apesar de ter começado a escrever bastante cedo, publicando Alguma Poesia em 1930, só a partir de 1950 passou a dedicar-se quase exclusivamente à produção literária.
Publicou livros de poesia, contos, crónicas, Literatura infantil.
Dedicou-se ainda à tradução.
Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro, em 1987.

Fonte (Bio): Um-buraco-na-sombra

Outros lugares: Sítio oficial (tudo+algo) / Um-buraco-na-sombra (28p. + Bio + Foto + linques) / Releituras (Bio + poemas e prosa / As Tormentas (99p. + Bio) / Memória viva (105p. + Bio e mais) / Vidas lusófonas (Bio + Poemas) / Jornal de Poesia (21p. + Críticas + e mais) / Colégio S. Francisco (Vida + 67 poemas) / Casa do Bruxo (134p. + Prosa + Bio) / Veja on-line (Bio + Entrevista + Imagens + Poemas + e mais) / Arlindo Correia (26p. eróticos) / Poesia-net (40 poemas, com variedades + Foto)

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4.9.06

Cristóvão de Aguiar (Recado)





(Recado)




Às golfadas de magma que o vulcão da memória foi expelindo em dias e noites de tragédia e terramoto dei o nome de Vindima de Fogo.

Uma ilha de palavras foi a pouco e pouco aflorando à superficie enegrecida das águas em fervedouro. Aqui está ela, já fria e apagada, com suas crateras tranquilas, cobertas de junça e bagacina, tão longe e diferente da erupção que lhe deu origem.

Que me perdoe a outra ilha, a ilha-mulher que recolhi à sombra do sangue no princípio do tempo e se estendeu para todo o sempre nos meus sonhos e pesadelos. É nela que vou mergulhando a pena e estas minhas raízes sem chão para lhe implorar uma gota de água e de frescura.

Ficou escrito que serei sempre um vagabundo interior, procurando a ilha-mulher nas coordenadas morrinhentas do meu corpo insulado. Entrego-te todavia este coágulo de sonho dia a dia estrangulado e fielmente reacendido. Toma-o em tuas mãos basálticas e, se sentires o rumor distante de uma erupção pretérita, empresta-lhe um pouco do teu fogo ainda não vindimado.



- CRISTÓVÃO DE AGUIAR, Vindima de fogo, abertura, da trilogia Raiz Comovida.

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Eugénio de Andrade (Tenho o nome de uma flor)







Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei



Eugénio de Andrade


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31.8.06

Fernando Assis Pacheco (Kleine nachtmusik)







KLEINE NACHTMUSIK




Enquanto a minha filha Ana estuda geometria descritiva
para ver se tem mesmo bossa de arquitecta estou eu
babando a barbilha à máquina como um boi de lavoura
que no fim de tudo o matadouro esperasse


sugiro que vá deitar-se apague a luz pare
de uma vez mas ela é tão obstinada como eu
e até projectar não sei que miudeza ouvirei
como raspa raspa com a caneta de aparo


ditosos pais que nas filhas se revêem pudesse este
nutrir-se de boas quentes domésticas palavras
do género ah ganda Fnando já chega olha o coirão
quando a verdade é que aguento um semieixo partido


Ana são horas no meu relógio com lampadazinha dentro
e depois isto dos versos
passados anos já não passam de enganos
manda-me lá embora queres que te aqueça leite?



Fernando Assis Pacheco

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Sophia (São gostos)






SÃO GOSTOS




Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti eu criarei um dia puro
livre como o vento e repetido
como o florir das ondas ordenadas.



Sophia de Mello Breyner Andresen



BIOGRAFIA
Sophia de Mello Breyner Andresen foi, sem sombra de dúvida, um dos mais emblemáticos poetas portugueses contemporâneos, pela originalidade sem precedentes da sua expressão formal – um nome que se transformou, em Portugal, num sinónimo de poesia pura e, ao mesmo tempo, numa espécie de musa da própria poesia.
Sophia nasceu no Porto, em 1919, no seio de uma família aristocrática de ascendência dinamarquesa.
A sua infância e adolescência decorrem entre o Porto e Lisboa, onde cursou Filologia Clássica. Após o casamento com o advogado e jornalista Francisco Sousa Tavares, fixa-se em Lisboa, passando a dividir a sua actividade entre a poesia e o activismo cívico contra o regime de Salazar. A sua poesia ergue-se então como uma espécie de "voz de liberdade".
Profundamente mediterrânica na sua tonalidade, a linguagem poética de Sophia de Mello Breyner denota, para além da sólida cultura clássica da autora e da sua paixão pela cultura grega, a pureza e a transparência do signo na relação da linguagem com as coisas, a luminosidade de um mundo onde intelecto e ritmo se harmonizam na forma melódica, perfeita, do poema.
A sua expressão profundamente única e pessoal falam de um desejo de comunhão com a essência do real, de uma tentativa humilde e solene de ser veículo para a revelação da secreta beleza das coisas.
O universo poético de Sophia de Mello Breyner está assente sobre o sonho jamais perdido de um mundo em justo equilíbrio como seria o mundo dos deuses gregos na antiguidade clássica, um mundo inundado pela luz e pelo mar, em que tudo se conjuga numa ambiência extremamente íntima e quase mágica.
Luz, verticalidade e magia estão, aliás, sempre presentes na obra de Sophia: quer na obra poética quer na importante obra para crianças que, inicialmente destinada aos seus cinco filhos, rapidamente se transformou num clássico da literatura infantil em Portugal, marcando sucessivas gerações de jovens leitores com títulos como O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana ou A Menina do Mar.
Sophia foi ainda tradutora para português de obras de Claudel, Dante, Shakespeare e Eurípedes, tendo sido condecorada pelo governo italiano pela sua tradução de O Purgatório.
Acima de tudo, Sophia é ainda a minha própria musa, aquela cuja obra me guia e me sustenta através de todos os meus percursos interiores, como uma espécie de fio de Ariadne através do labirinto do Minotauro.
Sophia de Mello Breyner Andresen morreu a 2-Julho-2004.



Fonte (Bio): Lugar das palavras


Outros lugares: Porto de Abrigo (+ 40 poemas) / As Tormentas (53 poemas + Bio + Fotos) / Jornal de Poesia (8 poemas e mais, com foto) / Lugar das palavras (80 poemas + Bio) / Poesia - TriploV (Poemas + Crítica e mais + Foto) / Poesia e prosa (45 poemas) / nEscritas (Homenagem) / Um-buraco-na-sombra (Bio +37 poemas) / Centro V. Camões (nota Clara Rocha) / Palavras d'Ouro (Bio + 15 poemas)

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28.8.06

Um verso (18)


Um verso de Dámaso Alonso
(com sequência, pode?):




“O vento é um cão vadio
(a lamber a noite imensa)”.









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António Ramos Rosa (Uma voz na pedra)






UMA VOZ NA PEDRA




Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.



António Ramos Rosa


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22.8.06

Amalia Bautista (Enigma)











ENIGMA








El primero dia que salí contigo
dijiste que era estraño tu trabajo.
Nada más. Sin embargo, yo sentía
que mi piel se rasgaba hecha jirones
cada vez que tus manos me rozaban,
y que tus ojos eran como aceros
que hacían que los míos me dolieram.
En adelante siempre fue lo mismo:
Tú te enorgullecías de tu arte,
más sutil y directo cada día,
y yo no comprendía nunca nada.
Ahora lo sé. Conozco ya tu ofício:
Lanzador de cuchillos. Has lanzado
contra mi corazón el más certero.


Amalia Bautista






No primeiro dia que saí contigo
disseste que o teu trabalho que era estranho.
Mais nada. Todavia, eu sentia
a pele a rasgar-se como trapos
de cada vez que me tocavas com a mão.
E os teus olhos pareciam-me punhais
a fazer-me doer os meus.
Daí para a frente foi sempre a mesma coisa:
tu orgulhavas-te da tua arte,
mais subtil e directo em cada dia
e eu nunca percebia nada.
Mas agora sei. Já conheço o teu ofício:
Atirador de facas. A mais certeira
atiraste-ma ao coração.

(Trad. A. M.)



BIOGRAFIA
Amalia Bautista nasceu em Madrid em 1962.
Jornalista de formação, trabalha como redactora no gabinete de Imprensa do Conselho Superior de Investigações Científicas.
Publicou La mujer de Lot y otros poemas (Llama de amor viva, Málaga, 1995), Cárcel de amor (Renacimiento, Sevilha, 1988), Cuéntamelo otra vez (La valeta, Granada, 1999), La casa de la niebla. Antología 1985-2001 (Universitat de les Illes Baleares, 2002), Estoy ausente (Pré-Textos, Valência, 2004), Pecados, com Alberto Porlan (El Gaviero, Almería, 2005) e Tres deseos, Antologia) (Renacimiento, Sevilla, 2006).
Podemos encontrar poemas seus nas seguintes antologias: Una generación para Litoral (Litoral, Málaga, 1988), Poesia espanhola de agora (Relógio D’água, Lisboa, 1997), Ellas tienen la palabra (Hiperión, Madrid, 1997), Raiz de amor (Alfaguara, Madrid, 1999), La generación del 99 (Nobel, Oviedo, 1999) e Trípticos Espanhóis-3º, (Relógio D’água, Lisboa, 2004).



Fontes: Bio+foto / Mais poemas

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18.8.06

Cesário Verde (De tarde)






DE TARDE





Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.


Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.


Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.


Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.


Cesário Verde



Outros lugares: Palavras d'Ouro / Projecto Vercial / As Tormentas (19 poemas) / Arlindo Correia / Jornal de Poesia / Porto de abrigo / nEscritas

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15.8.06

Cristóvão de Aguiar (A respeito dos machos)









A respeito dos machos, tanto arrocho não havia, não-senhor.

Sempre se alcançava mais uma aberta — um home é um home, tem carta branca — isto apesar de os pais dalgum tempo serem mesmo muito téstos no tocante à hora do recolher.

As Trindades eram sagradas, mas havia sempre maneira de uma pessoa se escapulir ao arrocho da cilha.

Os que, numa comparação, iam dar o dia pra o Sul não tinham hora certa de chegar, a viagem era mais comprida que uma missa cantada e em chegando um home ao Canto da Fonte, as mais das vezes já noite fechada, metia cobiça ficar ali uma nica à conversa, ou escutando um caso engraçado da boca do senhor Manolinho da Ponte, sempre atarraxado de abafadinhos, mas muito divertido e cheio de piihéria, ou intance, se o tempo ardava lagoeiro, ia-se emborcar um calzins de cachaça da terra, por via de não se apanhar alguma resfriage.

Uma vez por outra, se acaso havia alguma serrilha no fundo da algibeira, mercava-se seis vinténs de favas assadas, nesse tempo dava uma mancheia, os pinotes é que eram mais caros e não se lhes podia chegar, só uma vez por festa é que se mercava uma serrilha deles pra se ir trincando pela tarde de domingo adiante.



- CRISTÓVÃO DE AGUIAR, A semente e a seiva, cap. XXIII, abertura, da trilogia Raiz Comovida.

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11.8.06

Fernando Assis Pacheco (Chula das fogueiras-2)






CHULA DAS FOGUEIRAS-2



Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas


pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas


em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas


estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma


tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio


fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado


mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia



Fernando Assis Pacheco

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10.8.06

Al Berto (Ofício de amar)







OFÍCIO DE AMAR




já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso


um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas


ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo


Al Berto




BIOGRAFIA

Nasceu em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948 e morreu em Lisboa, a 13 de Junho de 1997. Poeta e editor. De seu verdadeiro nome Alberto Raposo Pidwell Tavares, começou a publicar poesia no final da década de 70 (À Procura do Vento num Jardim d'Agosto, 1977), sendo actualmente considerado um dos mais importantes poetas da sua geração e um dos mais originais, possuidor de um universo de características muito próprias no panorama da poesia portuguesa da actualidade. De facto, cultivando uma poesia fortemente lírica e de pendor confessional, como aliás é patente no título, de 1985, Uma Existência de Papel, Al Berto tem vindo a construir um universo poético que foi já considerado "um dos mais melancólicos da nossa poesia recente" por Fernando Pinto do Amaral.
Espelhando vivências de uma juventude errante, em deambulações por uma certa Europa marginal e underground - que o poeta cumpriu vivendo, entre o final da década de sessenta e a década de 70, numa comunidade urbana de Bruxelas e nos bas-fonds de Paris e Barcelona -oscilando entre o excesso da experiência emocional e física e uma melancolia desolada e solitária, a obra de Al Berto reflecte a presença imaginária de Genet e Rimbaud na paixão urgente e dolorosa, na transgressão sexual, na vertigem auto destrutiva, na solidão, na experiência do deserto e da morte.
Ao situar o seu discurso poético a meio caminho entre a extrema lucidez e a ternura, a exposição narcísica e a assunção da literatura como ficção inseparável da vivência, Al Berto tem sido considerado, na tonalidade crepuscular que envolve toda a sua obra, uma voz "entre a subjectividade romântica e a impessoalidade modernista" (Hélder Moura Pereira), num território já pertencente ao domínio da pós-modernidade.


Fonte (Biografia)

Fonte (Poema) - + 267 poemas

Mais poemas: Lídia Aparício / Poesia-e-prosa / nEscritas / Bibliomanias / Wikipedia/ Palavras d'Ouro

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7.8.06

Jaime Sabines (Quando quiseres morrer)






Cuando tengas ganas de morirte
esconde la cabeza bajo la almohada
y cuenta cuatro mil borregos.
Quédate dos días sin comer
y veras qué hermosa es la vida:
carne, frijoles, pan.
Quédate sin mujer: verás.
Cuando tengas ganas de morirte
no alborotes tanto: muérete
y ya.



Jaime Sabines






Quando quiseres morrer
mete a cabeça sob a travesseira
e conta quatro mil carneiros.
Fica dois dias sem comer
e verás que linda que é a vida:
carnuça, os feijões, o pãozinho.
Priva-te de mulher: vais ver.
Quando quiseres morrer
não te alvoroces tanto: morre-te
e pronto.


(Trad. A.M.)


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25.7.06

Cristóvão de Aguiar (De novo a voz do Ti José Pascoal)





De novo a voz do Ti José Pascoal em mim ressuscitada acotovela-me os recantos iluminados da memória e vem guiar-me no labirinto desta escrita estendida nos refegos de uma madrugada cinzenta.

Estendo-lhe a minha voz fraterna e assim, voz na voz, rompemos juntos numa aventura que nos levará ao reino ignorado e deslumbrante onde os habitantes são palavras à espera da varinha mágica que as transfigure no pão e no vinho da nossa fome e da nossa sede.

Na Ribeira Grande, era de um home ir encomendando a alminha ao Criador, pois o que tinha de mais certo era seguir no endireito da terra dos pés juntos.

Esticava o pernil em mentes o diabo esfrega um olho.

Coitado de quem não tinha um chavo de seu pra mandar cantar um cego.

Era a modos que a petinga, todo o peixe la come.

Se acaso um pobretanas qualquer calhava a apanhar um mal ruim, desses que é logo preciso abrir o corpo com a faquinha dos doutores, não tinha outro remédio senão marchar de atestado de pobreza na mão pra a Misericórdia da Vila.

Uma dor de alma (…).



- CRISTÓVÃO DE AGUIAR, A semente e a seiva, cap. XIII, abertura, da trilogia Raiz Comovida.

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23.7.06

Nuno Júdice (Aparição num dia de inverno)






APARIÇÃO NUM DIA DE INVERNO




Um dia, lendo este poema, lembrar-te-ás:
o amor falou através dele.
Ouvirás no seu ritmo
a voz que tantas vezes desejaste;
reconhecerás nos seus versos
o corpo que encheu a tua vida;
tocarás em cada uma das suas palavras
os dedos que te ensinaram a medir os dias
pelas suas contas de ternura.
E o tempo entrará por ti
como esse rio que alagou os campos do inverno.
Olharás à tua volta, vendo a desolação
de uma paisagem inundada.
Algures, porém, uma árvore antiga sobressai;
e os seus ramos verdes
dar-te-ão a esperança de uma nova primavera,
em que voltes a ouvir a voz
que o poema te trouxe
com os seus dedos de música.



Nuno Júdice
(imagem também daí)

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Fernando Assis Pacheco (Há um veneno em mim)






(VERSOS QUE O AUTOR
MANDOU DE NAMBUANGONGO AO EDITOR)





Há um veneno em mim que me envenena,
um rio que não corre, um arrepio,
há um silêncio aflito quando os ombros
se cobrem de suor pesado e frio.


Há um pavor colado na garganta,
e tiros junto à noite, e o desafio
(algures na escuridão) de alguma coisa
calando o fraco apelo que eu envio.


Há um papa que morre enquanto escrevo
estas linhas de angústia e solidão,
há o fogo da Breda, os olhos gastos.


Há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos.



Fernando Assis Pacheco

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22.7.06

Ângelo de Lima (Eu ontem vi-te)






EU ONTEM VI-TE...




Eu ontem vi-te...
Andava a luz
do teu olhar,
que me seduz,
a divagar
em torno de mim.
E então pedi-te,
não que me olhasses,
mas que afastasses,
um poucochinho,
do meu caminho,
um tal fulgor.
De medo, amor,
que me cegasse,
me deslumbrasse
fulgor assim.


Ângelo de Lima





Biografia
Nasceu no Porto em 1872, filho do poeta romântico Pedro de Lima.
Frequentou o Colégio Militar, em Lisboa, de onde foi expulso, e a Academia de Belas Artes do Porto.
Conspirador da revolução republicana de 31 de Janeiro, foi enviado, um pouco antes desta ocorrer, numa expedição militar a Moçambique entre 1891 e 1892 .
Após o seu regresso de África começou a manifestar os primeiros sintomas de loucura, que conduziram ao seu internamento, entre 1894 e 1898, no Hospital Conde Ferreira.
Foi nessa época director artístico de «A Geração Nova».
Continuando a sua actividade poética e artística, foi de novo internado em 1901, em Rilhafoles, onde permaneceu grande parte da sua vida.
Acolhido pela primeira geração modernista, a sua poesia foi revelada pela revista modernista “Orpheu”, que publicou pela primeira vez um conjunto significativo de poemas seus no 2.º número da revista.
Nesses poemas notavam-se já algumas das características mais marcantes da sua poesia, nomeadamente o carácter desviante da sua linguagem e o emprego de vocábulos novos, o que o aproximava da corrente simbolista e modernista.
Ângelo de Lima, nos seus momentos de lucidez, foi compondo poemas que vieram a lume em «Poesias Completas» 1971 .
São notáveis alguns dos seus sonetos.
Na sua obra há sinais precursores da escrita automática dos surrealistas.
Tão vaga era a sua poesia que algumas das suas composições não chegavam a exprimir fosse o que fosse de literal.
A sua linguagem poética parece reflectir a doença mental que o vitimou, e os seus versos, se por vezes dão a sensação de terem sido escritos no mais completo estado de alucinação, conseguem também ser extremamente lúcidos e bem construídos.
Ângelo de Lima faleceu em Lisboa em 1921, no Hospital de Rilhafoles.



Fonte (poema) / Mais poemas

Fonte (biografia) / Outros poemas

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18.7.06

Um verso (17)






Um verso de NSQ
(... não sei quem):





"Nenhum dos meus caminhos guarda a tua sombra".

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Maria Teresa Horta (Masturbação)






MASTURBAÇÃO




Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam - correm
e voltam sem cessar


e então são os meus
já os teus dedos
e são meus dedos
já a tua boca
que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo - conduzo
pensando em tua boca


Ardência funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde


E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde


E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios
que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma



Maria Teresa Horta


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16.7.06

Alexandre Herculano (Porque não adormeço eu)




(Lido aos 18 anos, jamais esquecido…)




Porque não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmúrio das vagas sonolentas, ao sussurro da brisa do norte?

Porque mulher bárbara não entendeu o que valia o amor de Eurico; porque velho orgulhoso e avaro sabia mais um nome de avós do que eu, e porque nos seus cofres havia mais alguns punhados de ouro do que nos meus.

As mãos imbeles de uma donzela e de um velho esmagaram e despedaçaram o coração de um homem, como os caçadores cobardes assassinam no fojo o leão indomável e generoso.

E, todavia, este coração sentia a voz da consciência pregoar-lhe largos destinos!

Porque não emudeceu essa voz quando do pórtico do templo lancei ao mundo a maldição da despedida?

Porque me lembra com saudade, aqui, a estas horas, o tempo das minhas esperanças?



ALEXANDRE HERCULANO, Eurico, o Presbítero, VI, 2.

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