ELLA
Yo diré que es mentira,
que no he visto sus ojos,
y que no la conozco.
Diré que no estuvo en mi casa,
que no me robó nada.
Diré que dueña soy de un sueño
que no me arrebató
y mi amante me espera
cada noche en la cama
y entre sus brazos
sigo durmiendo yo.
Ella, tan engreída,
de su poder presume.
Pero, a decir verdad,
al fin y al cabo,
sólo una vez nos llega
la solemne visita.
Y mientras que la vida,
cada mañana,
su sonrisa me ofrezca,
me sentiré más rica,
más dueña de lo mío.
No la conozco, no.
Y no le tengo miedo.
Cuando llame a mi puerta,
la dejaré pasar.
Pero hasta entonces
no puede arrebatarme
lo que tan dentro llevo,
lo que conmigo va.
Ángeles Mora
Direi que é mentira,
que não lhe vi os olhos,
nem sequer a conheço.
Direi que não me entrou em casa,
nem tão pouco me roubou.
Direi que dona sou de um sonho
que não me arrebatou
e meu amante me espera
à noite na cama
e nos seus braços
continuo eu a dormir.
Ela, toda soberba,
presuma de seu poder.
Mas, a falar verdade,
ao fim e ao cabo
só uma vez nos faz
sua solene visita.
E enquanto a vida me der,
em cada manhã,
seu franco sorriso,
hei-de sentir-me mais rica,
mais dona daquilo que é meu.
Eu não, não a conheço,
nem mesmo lhe tenho medo,
quando me bater à porta,
deixá-la-ei passar.
Mas até esse momento
ela não pode arrebatar-me
o que tenho dentro de mim,
aquilo que vai comigo.
(Trad. A.M.)
