26.12.24

Ricardo Silvestrin (Eu)




EU 

 

Véu que revela
e oculta
conforme a vontade
do vento.
Sombra do som,
senda no sonho,
aqui se esconde um eu
livre de mim e de você. 

Aonde ele vai,
por que ele é assim,
ninguém pode saber.
Um eu em terceira pessoa.
Senhor absoluto
da sua casa de papel.
 

Ricardo Silvestrin

 .

24.12.24

José Agustín Goytisolo (Os reais motivos)




OS REAIS MOTIVOS DO CASO

 

Uma noite qualquer do verão passado
aquele homem quis acabar com tudo
e depois do jantar
bebeu mais de um litro de café 
para empurrar as pastilhas
de quatro ou cinco frascos de um sonífero
com que adormeceu normalmente,
chegando à morte sem dar conta. 

Só certos rumores tentaram
dar explicação a tal evento, 
garantindo-se que estava muito doente,
que uma prima o ameaçara
de contar tudo ao marido,
que os negócios não iam bem,
que sofria de insónia 
ou que a amante não lhe ligava nenhuma. 

Mas na verdade
as coisas eram bem mais simples, 
acontecendo que ele era um solitário,
que a vida deixou de sorrir-lhe,
que nessa noite fez um calor de abafar
e que ele era muito inteligente.
 

José Agustín Goytisolo 

(Trad. A.M.)

.

23.12.24

Marilyn Contardi (Lendo poemas)

 



LEYENDO POEMAS

 

Me he sentado a leer los poemas
el mate recién preparado en la mano. 

De golpe el viento abre la ventana
y me distrae. Me levanto a cerrarla. 

Insistiendo, la gata me llevó recién
a abrirle la puerta. La corriente
de aire arremolina mis pensamientos
y las hojas del libro,
todo está de nuevo mezclado y confuso. 

Una pareja de mariposas blancas
vuela sobre la hiedra. 

No dejo de mirarlas, no sea que
del vaivén de sus alas surja
de nuevo el hilo de mis pensamientos
dispersos.
 

Marilyn Contardi 

[Emma Gunst]  

 

Sentei-me a ler os poemas,
o mate na mão ainda fresco. 

De repente o vento abre a janela
e distrai-me, e eu levanto-me a fechá-la. 

A gata, insistindo, obriga-me entretanto
a abrir-lhe a porta. A corrente
de ar arremoinha-me os pensamentos
e as folhas do livro,
ficando tudo novamente misturado e confuso. 

Um par de borboletas brancas
voa por cima da hera. 

Não deixo de olhar para elas,
não vá surgir do vaivém das suas asas,
novamente, o fio dos meus pensamentos 
dispersos.
 

(Trad. A.M.)

 .

21.12.24

Pier Paolo Pasolini (Sexo)



Sesso, consolazione della miseria!
La puttana è una regina, il suo trono
è un rudere, la sua terra un pezzo
di merdoso prato, il suo scettro
una borsetta di vernice rossa:
abbaia nella notte, sporca e feroce
come un'antica madre: difende
il suo possesso e la sua vita.
I magnaccia, attorno, a frotte,
gonfi e sbattuti, coi loro baffi
brindisi o slavi, sono
capi, reggenti: combinano
nel buio, i loro affari di cento lire,
ammiccando in silenzio, scambiandosi
parole d'ordine: il mondo, escluso, tace
intorno a loro, che se ne sono esclusi,
silenziose carogne di rapaci.

Ma nei rifiuti del mondo, nasce
un nuovo mondo: nascono leggi nuove
dove non c'è più legge; nasce un nuovo
onore dove onore è il disonore...
Nascono potenze e nobiltà,
feroci, nei mucchi di tuguri,
nei luoghi sconfinati dove credi
che la città finisca, e dove invece
ricomincia, nemica, ricomincia
per migliaia di volte, con ponti
e labirinti, cantieri e sterri,
dietro mareggiate di grattacieli,
che coprono interi orizzonti.

Nella facilità dell'amore
il miserabile si sente uomo:
fonda la fiducia nella vita, fino
a disprezzare chi ha altra vita.
I figli si gettano all'avventura
sicuri d'essere in un mondo
che di loro, del loro sesso, ha paura.
La loro pietà è nell'essere spietati,
la loro forza nella leggerezza,
la loro speranza nel non avere speranza.
 

Pier Paolo Pasolini 

 

Sexo, consolação da miséria!
A puta uma rainha, seu trono
uma ruína, sua terra uma ração
de um prato merdoso, seu ceptro
uma bolsa de verniz encarnada:
ladra de noite, porca e feroz
como mãe das antigas: defende
sua posse e sua vida.
A chularia, em redor, aos magotes,
inchados e batidos, de bigodes
esticados, são os patrões,
os que mandam: combinam
no escuro, seus negócios de cem liras,
trocando sinais e palavras de ordem:
o mundo, excluído, cala-se em torno deles,
silenciosas carcaças de rapaces.

Mas nas recusas do mundo nasce
um mundo novo: nascem leis novas
onde já não há lei, nasce uma honra
nova onde a honra é a desonra…
Nascem poderes e nobrezas,
ferozes, nos montes de tugúrios,
nos lugares em que pensas
que a cidade acaba, mas onde ela
recomeça, inimiga, recomeça uma
e outra vez, com pontes
e labirintos, estaleiros e aterros,
para lá do marulho dos arranha-céus,
que cobrem o horizonte.

Na facilidade do amor
o miserável sente-se alguém,
ganha confiança na vida, a ponto
de desprezar quem tem outra vida.
Os filhos lançam-se à aventura,
seguros de estarem num mundo
que tem medo deles e do sexo.
A sua piedade é serem impiedosos,
a sua força reside na leveza,
a sua esperança nasce do desespero.


(Trad. A.M.)

.

19.12.24

José Cereijo (Olha)




OLHA

 

Olha a velha porta de madeira
pela qual passaste tantas vezes.
Olha a calçada cinzenta que é o teu caminho,
e em que nem reparas ao pisá-la.
Olha ainda as nuvens desta tarde, 
as árvores adormecidas do passeio, 
os delicados jogos da luz.
Tudo o que acontece para ninguém,
o que é puro abstrair de si mesmo,
como acaso a vida.
Olha por uma vez estas coisas obscuras,
que hão-de perder-se quando as não olhares,
que não serão recordações.
 

José Cereijo 

(Trad. A.M.).

 .

18.12.24

Aurora Luque (Um periscópio com o horizonte)




UN PERISCOPIO CON EL HORIZONTE

 

Si frecuenté los libros, ciertos libros,
fue porque regalaban amistad, 
bálsamos para el mal de la rutina, 
no sé qué compañía en noches duras 
o en el apetecer acantilados, 
tertulias con mujeres y hombres de cien plazas,
consolación en horas 
de asombrosa miseria.  

Sí, frecuento los libros porque ellos me regalan 
formas apasionadas de amistad:
fabulosos veranos envasados, 
el amoroso arte de mirar 
con ojos de palabras, 
llaves para hospedarme en islas mudas 
desnuda cuerpo adentro 
y posibilidades de zarpar 
desde puertos antiguos y canallas 
con la tripulación de los poetas.  

Frecuentaré, abrazándolos, 
los libros que regalen su camaradería 
y un periscopio abierto con todo el horizonte.
 

Aurora Luque 

 

Se frequentei os livros, certos livros,
foi porque me ofereciam amizade,
bálsamos para o mal da rotina,
até companhia em noites duras
ou na atracção dos abismos,
tertúlias com mulheres e homens de cem praças,
consolação em horas
de assombrosa miséria. 

Sim, frequento os livros pois me oferecem
formas de amizade com paixão,
verões fabulosos,
a amorosa arte de olhar
com olhos de palavras,
chaves para me hospedar em ilhas mudas
desnuda corpo adentro
e possibilidades de zarpar 
de portos antigos e canalhas
com a tripulação dos poetas. 

Frequentarei, abraçando-os,
os livros que me dêem camaradagem
e um periscópio aberto com vtodo o horizonte.
 

(Trad. A.M.)

 .

16.12.24

Adélia Prado (Tempo)




TEMPO



A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.


Adélia Prado

[Nesga de terra]

 .

14.12.24

Fabián Casas (Diários)




DIARIOS


Los días son poderosos.
Pueden traerte el sol
después de una mañana ventosa,
la lista del supermercado
o las bajas de la próxima guerra,
una cartuchera infantil
repleta de objetos extraños:
amor y voluntad
ahí dónde sólo crece el rencor.
 

Fabián Casas


Os dias são incríveis,
podem trazer-te o sol
depois de uma manhã de vento,
a lista do supermercado
ou as baixas da próxima guerra,
uma mochila infantil
carregada de objectos estranhos,
como amor e vontade
ali onde só medra o rancor.

(Trad. A.M.)

.

13.12.24

Blanca Varela (Assim seja)




ASÍ SEA 

 

El día queda atrás,
apenas consumido y ya inútil.
Comienza la gran luz,
todas las puertas ceden ante un hombre
dormido,
el tiempo es un árbol que no cesa de crecer. 

El tiempo,
la gran puerta entreabierta,
el astro que ciega. 

No es con los ojos que se ve nacer
esa gota de luz que será,
que fue un día.

Canta abeja, sin prisa,
recorre el laberinto iluminado,
de fiesta.

 Respira y canta.
Donde todo se termina abre las alas.
Eres el sol,
el aguijón del alba,
el mar que besa las montañas,
a claridad total,
el sueño.
 

Blanca Varela 

 

O dia fica para trás,
quase gasto e já inútil.
Começa a grande luz,
todas as portas cedem ante um homem adormecido,
o tempo é uma árvore que não pára de crescer.

O tempo,
a grande porta entreaberta,
o astro que cega.

Não é com os olhos que se vê nascer
essa gota de luz que será,
que foi um dia.

Canta, abelha, sem pressa,
percorre o labirinto iluminado,
em festa.

Respira e canta.
Onde tudo se acaba abre as asas.
És tu o sol,
o aguilhão da aurora,
o mar que beija as montanhas,
a claridade total,
o sonho.


(Trad. A.M.)

.

11.12.24

Paulo Henriques Britto (Memento mori)






MEMENTO MORI

 

Nenhum sinal da solidão se vê 
lá onde o amor corrói a carne a fundo. 
Dentro da pele, no entanto, você 
é só você contra o mundo.  

Esta felicidade que abastece 
seu organismo, feito um combustível, 
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível. 


Paulo Henriques Britto

 .

9.12.24

Estela Figueroa (A Manuel Inchauspe)






(A Manuel Inchauspe, en el hospicio)


Las nuestras, mi amigo,
son obras pequeñas.
Escritas en la intimidad
y como con vergüenza.
Nada de tonos altos.
Nos parecemos a la ciudad
donde vivimos.

Perdiste tus últimos poemas
y yo casi no escribo.

De allí
esos largos silencios
en nuestras conversaciones.


Estela Figueroa

 

 

As nossas, meu amigo,
são obras pequeninas.
Escritas na intimidade
e como que com vergonha.
Nada de tons elevados.
Somos parecidos com a cidade
de onde viemos.

Tu perdeste os teus últimos poemas,
eu quase deixei de escrever.

Daí
estes longos silêncios
nas nossas conversas.


(Trad. A.M.)

.

8.12.24

Iosu Moracho Cortés (Dia um)




DÍA UNO

 

Días de exilio. Exilio interior...
Buceo, como Marcel Proust, en busca del tiempo perdido.
Vamos a pasar esto juntos, -le soplo
al espíritu que me habita-, como dos supervivientes.
Somos alpinistas de los abismos dispuestos a assaltar
la luz.
La conciencia es un singular del que se desconoce el plural.
Eso escribió Erwin Schrodinger, un tipo
que no amaba los gatos.
O nos salvamos juntos o nos hundimos
como especie.


Iosu Moracho Cortés

 

 

Dias de exílio. Exílio interior…
Mergulho, como Marcel Proust, em busca do tempo perdido.
Vamos passar isto juntos, sopro eu
ao espírito que me habita, como dois sobreviventes.
Somos alpinistas do abismo dispostos a assaltar
a luz.
A consciência é um singular de que se desconhece o plural,
Disse-o Erwin Schrodinger, um tipo
que não gostava de gatos.
Ou nos salvamos juntos ou afundamos
como espécie.


(Trad. A.M.)



>>  Mis repoelas (anto) / Voces del extremo (5p)

__________________

- Inédito, de uma recolha pendente de publicação, intitulada 'Dias de exílio' (do confinamento Covid).

.

6.12.24

Paul Bailey (Alegria)




GAIETY 

 

Some people are sustained by sorrow.
I think I’m one of them.
That’s why I laugh so much.
That’s why I’m called a clown.
And that’s the deep dark reason why
I am accounted frivolous. 

I came back from the dead when I was four
with a brand-new voice to mark my resurrection.
It had a mocking sound to it, my mother said,
when it wasn’t being miserable.
I was a funny little so-and-so, in her opinion. 

I’ve never lost that sound, though often I have wanted to.
It was extinction’s gift to me.
It camouflages every sorrow I’ve survived.
 

Paul Bailey 

 

É o sofrimento que alimenta algumas pessoas.
Sou uma delas, acho eu.
Daí rir tanto.
Daí chamarem-me palhaço.
E a razão, bem negra, por que me acham
superficial reside aí. 

Aos quatro anos voltei à vida
com uma vozinha nova em folha a assinalar a minha ressurreição.
De tom trocista, segundo a minha mãe,
quando não era infeliz.
Para ela, eu era um fulaninho engraçado. 

Embora o desejasse muitas vezes, nunca perdi aquele tom.
Foi a prenda que o desaparecimento me deixou.
Disfarça as dores por que passei.
 

(Trad. fjcc)

 .

4.12.24

Fernando Beltrán (Choviedo)




LLOVIEDO


Te amé como se aman
las cosas que no ocurren,

como se pone nombre
a las caricias

y se contagia el don
de la tristeza

una noche cualquiera

buscándote en un bar
donde no estabas,

persiguiendo tu lluvia
por las calles vacías

donde nunca estuviste
y aún me esperas

 Fernando Beltrán

 

Amei-te como se amam
as coisas que não ocorrem,

como se dá um nome 
às carícias 

e se contagia
o dom da tristeza 

uma noite qualquer

buscando-te num bar
onde não estavas

perseguindo tua chuva
pelas ruas vazias

onde nunca estiveste
e ainda me esperas

(Trad. A.M.)

 .

3.12.24

Luis Alberto de Cuenca (A maltratada)




LA MALTRATADA

 

Tengo sed. Me has quitado las praderas del norte,
regadas por arroyos de respeto y cariño.
Tengo frío. Te has ido con el sur de mi alcoba,
dejándome las huellas de tu hielo en mi cuerpo.
No sé qué hacer. La vida me parece una tumba
donde me has enterrado viva, una oscuridad
irrespirable, un túnel sin salida, una muerte
prolongada, el vacío, la ausencia, el desamparo.
Me siento tan vencida por tu odio, tan débil,
tan aterrorizada y tan inexistente,
que no puedo llorar, ni llamar por teléfono
a mis padres (que acaso me dirían: “Aguanta,
que por algo naciste mujer”), ni hacerle señas
a la vecina desde la ventana. Me quedo 
acurrucada en un rincón del dormitório
esperando que vuelvas y sigas arrasando
con gestos de desprecio, con golpes y con gritos
aquel campo de amor que cultivamos juntos.

Luis Alberto de Cuenca

 

 

Tenho sede, tiraste-me os prados do norte,
regados por ribeiras de carinho e respeito.
Tenho frio, pois foste-te com o sul do meu quarto,
deixando-me no corpo as marcas do teu gelo.
Não sei que fazer, a vida parece-me um túmulo
onde me enterraste viva, um escuro
irrespirável, um túnel sem saída, uma morte
prolongada, o vazio, a ausência, o desamparo.
Sinto-me tão vencida por teu ódio, tão débil,
tão aterrorizada e tão inexistente,
que nem posso chorar, nem ligar aos meus pais
(que me diriam talvez: «Aguenta,
que por algo nasceste mulher»),
nem fazer â janela sinais para a vizinha.
Ponho-me aninhada num canto do quarto,
esperando que voltes e continues com gritos,
com pancada e gestos de desprezo, a arrasar
aquele campo de amor que cultivámos juntos.


(Trad. A.M.)

________

Poema aqui repetido, reparo posteriormente.
Mas com variantes curiosas na tradução…
Fica, por isso, pela curiosidade das variantes.

.

1.12.24

Nuno F. Silva (Novembro)




NOVEMBRO

 

Fumegam as lâmpadas queimadas
pelo frio de mil Novembros.
Esmorece como uma centelha
a luz das paisagens em pastel.
Recolhe-se o corpo para dentro do corpo.
Como as copas das árvores,
que são segredos à noite.
Amanhã virá certamente outra aurora.
Pela janela,
com a mesma vagarosa urgência de sempre
tingindo as janelas com ouro branco.


Nuno F. Silva

 .

29.11.24

Ernesto Pérez Vallejo (Por isso te quero)




POR ESO TE QUIERO

 

Porque cuando hace frío siempre hay un sol en tus
brazos, y cuando el verano aprieta te inventas un
suspiro de aire fresco.

Porque sabes que son tres en el café
y que detesto el agua de grifo.

Porque cuando hay guerra
siempre te pones braguitas blancas
y cuando el sexo se vuelve rutinario
colocas dos coletas en tu pelo
y exiges que te enseñe anatomía.

Porque hueles a vainilla por las mañanas
y a playa por la tarde.

Porque cuando te enfadas me apuntas con el dedo
y todos los planetas se ponen en órbita
y muere una estrella.

Porque te agarras a mi espalda cuando duermes
y me siento cualquier cosa menos hombre.

Porque hay algo de ingenuidad en tu mirada
y de precocidad en tu sonrisa.

Porque en tu piel es sábado eternamente
y tus manos tocan melodías en mis vértebras.

Porque nunca matas las hormigas
y conoces mil especies de mariposas.

Porque callas cuando escribo
y hablas siempre.

Porque el "nunca" no existe en tu vocabulário
y el "posible" siempre está a nuestro alcance

Porque creo en los milagros y tengo fe.

Porque eres, estás y quieres,
porque puedes, sabes y sientes.

Por eso amor, por eso.


Ernesto Pérez Vallejo

 

Porque quando está frio há sempre sol em teus
braços, e quando o verão aperta inventas um
suspiro de ar fresco.

Porque sabes que são três no café
e que eu detesto água da torneira.

Porque quando há guerra
tu pões sempre calcinhas brancas
e quando o sexo cai na rotina
fazes tranças no cabelo
e exiges que te ensine anatomia.

Porque cheiras a baunilha pela manhã
e de tarde a praia.

Porque quando te enfadas apontas-me com o dedo
e todos os planetas entram em órbita
e uma estrela morre.

Porque me agarras pelas costas a dormir
e eu sinto-me tudo menos homem.

Porque há algo ingénuo em teu olhar
e algo precoce no sorriso.

Porque na tua pele é sábado eternamente
e as tuas mãos fazem música nas minhas vértebras.

Porque não matas formigas
e conheces mil espécies de borboletas.

Porque te calas quando escrevo
e falas sempre.

Porque não tens a palavra ‘nunca’
e o ‘possível’ está sempre ao nosso alcance.

Porque eu tenho fé e acredito em milagres.

Porque és, estás e queres,
porque podes, sabes e sentes.

Por isso, amor, por isso.


(Trad. A.M.)

.

28.11.24

Marta Sanz (Chega sempre)




Siempre llega
un segundo en la vida
en que uno deja
de sentirse invulnerable.

Se tuercen
las rayas de la mano.

La memoria,
los aires felices,
los gestos de ternura,
la sal y la playa,
no representan ya
ningún consuelo.

No son de carne.

Marta Sanz

[Trianarts]

 

Chega sempre
um momento na vida 
em que deixamos
de sentir-nos invulneráveis.

Torcemos
as linhas da mão.

A memória,
o ar feliz,
os gestos de ternura,
o sal e a praia,
não servem já 
de nenhum consolo.

Não são carnais.

(Trad. A.M.)

 .

26.11.24

Miguel Martins (Naquele dia choveu ao contrário)




(2)

Naquele dia choveu ao contrário
a chuva fina e o seu silvo subiam do chão

e eu caindo da janela
sem um raio de sol que me amparasse.


MIGUEL MARTINS
Seis poemas para uma morte
(1995)

.

24.11.24

Eloy Sánchez Rosillo (Tarde de Junho)




TARDE DE JUNIO

 

Ahora, juntos, vivimos la hermosura
de esta tarde de junio,
el fulgor de las horas en que nos entregamos
al conocimiento de la verdad del amor,
a la gran llamarada del encuentro.
Ahora sabemos que toda la alegría
cabe en el mundo breve de esta habitación,
en el espacio ardiente y misterioso
de la cama deshecha.
La luz cansada del atardecer
dibuja sobre el tiempo islas doradas.
En un rincón del cuarto
brilla la enredadera de la música.
Un viento súbito sacude nuestros cuerpos,
y lo olvidamos todo.
Después regresan las miradas lentas,
tanta complicidad, ciertas sonrisas.
Y luego contemplamos en silencio
con qué dulzura va cayendo la noche
sobre la indiferente ciudad que nos rodea.
 

Eloy Sánchez Rosillo 

 

Juntos, agora, vivemos a beleza
desta tarde de Junho,
o fulgor das horas em que nos damos
ao conhecimento da verdade do amor,
à grande labareda do encontro.
Agora sabemos que toda a alegria
cabe no mundo breve deste quarto,
no espaço ardente e misterioso 
da cama desfeita.
A luz cansada do entardecer
desenha sobre o tempo ilhas douradas.
Num canto do quarto
brilha a trepadeira da música.
Um vento repentino
sacode-nos os corpos,
e esquecemos tudo.
Depois regressam lentos olhares,
certos sorrisos, muita cumplicidade.
E então contemplamos em silêncio 
com que doçura vai a noite caindo
na cidade indiferente à nossa volta.
 

(Trad. A.M.)

 .