16.11.13
José Aberto Oliveira (Don't be happy)
DON'T BE HAPPY
Não sofrer menos do que nos destinam,
também não pretender mais por orgulho
ou virtude - habitar um subúrbio,
não escrever versos, ter um crédito
de dias malparado, adormecer culpado.
Não viver com mais ironia do que a vida
nos alcança, mas não desejar menos, por fadiga.
Qualquer sarcasmo seria o pretexto
da partida, mas se os cegos voltam ao conforto
da concertina, ao livro nocturno, por que decidir?
Nem eriçado de vícios, nem abundante em virtudes,
o acordo do senso comum com a sua paixão
e aguardar que aconteça o previsível por inesperado;
um passado perseguido por precauções e dúvidas,
um futuro vulnerável a todos os equívocos.
José Alberto Oliveira
[Luz & sombra]
.
15.11.13
Raúl Gustavo Aguirre (O milagre)
EL MILAGRO
Porque si llega, cuando llegue,
llegará como es:
fácil, claro, sencillo,
sin grandes resplandores,
sin que la tierra tiemble,
sin que el cielo se nuble.
Será suave y fraterno
con su mano en tu hombro.
No habrá cambiado casi nada:
sólo tu corazón.
Raul Gustavo Aguirre
Porque se vier, quando vier,
há-de vir tal como é,
fácil, claro, simples,
sem grande esplendor,
sem fazer tremer a terra,
sem turvar sequer o céu.
Suave e fraterno será,
a pôr a mão no teu ombro.
Não mudará quase nada,
só o teu coração.
(Trad. AM.)
>> Ambrosía (6p) / Aromito (5p) / Poemas de (5p)
.
14.11.13
Nuno Camarneiro (A vida tranquila)
Às vezes penso que a vida tranquila é inimiga de uma vida tranquila.
Tenho o que quis ter, sou feliz porque nada me falta para ser feliz.
Vivo num equilíbrio certo e tão imune a tudo que me vejo obrigada a ele, incapaz de tristezas profundas ou infelicidades justificadas.
Há outras maneiras de ser feliz que não conheço mas intuo, serão fugazes e ardentes, arrebatadoras, isso, arrebatadoras.
- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Manuela).
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Raúl Sánchez (Amor cego)
AMOR CIEGO
Igual que dice Borges que jugaba
- en una conferencia sobre el libro -
a no estar ciego y ver, y a que leía
los tomos de una nueva enciclopedia;
a veces juego yo a que no te has ido
y cruzo habitaciones y pasillos
pobladas por el síndrome de Diógenes
que me han creado todos tus recuerdos.
Y siento que te tumbas en mi cama
- vacía como un libro para un ciego -
o sales de la ducha tan desnuda
que pides que te tape con mi cuerpo:
pareces tan real que ya no quiero
abrir los ojos y dejar de verte.
Raúl Sánchez
[Plegarias del desprecio]
Tal como diz Borges que brincava
– numa conferência sobre o livro –
a não ser cego, e que lia
os tomos de uma nova enciclopédia;
assim brinco eu às vezes a que não te foste
e atravesso salas e corredores
povoados pelo síndroma de Diógenes
que a tua lembrança me criou.
E sinto que tombas na minha cama
– vazia como um livro para cego –
ou sais do duche tão desnuda
que pedes para te tapar com o corpo:
tão real pareces que eu já não quero
abrir os olhos e deixar de te ver.
(Trad. A.M.)
>> Asideros del abismo (blogue) / Plegarias del desprecio (blogue/a. 11.2010) / Poesia al grano (blogue/a. 8.2008) / Las afinidades electivas (4p) / Poetas siglo XXI (8p)
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13.11.13
Hilda Hilst (Que este amor não me cegue)
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
Hilda Hilst
[Arte livre]
.
12.11.13
José Agustín Goytisolo (Piazza Sant'Alessandro, 6)
PIAZZA SANT 'ALESSANDRO, 6
Querida Carmen hoy
no me importa que digan los periódicos
que prosigue la huelga de estudiantes
o que ataca el Viet-Cong
pues ahora
hace muy poco tiempo - tan sólo
unos minutos -
ha empezado a llover - es importante
el agua sucia empieza a resbalar
por las paredes forma
charcos brillantes cae saliva
de los coches parados en la calle
y los toldos se comban por el peso
del agua y es posible
que dure algunas horas el chubasco -
y yo estoy en un bar lleno de gente
con humo y mal olor de bocadillos
y bebo mi segundo
gin-tonic de la tarde y me he tragado
dos librium ya lo ves llevo la cuenta
y como te decía
ya no me importan nada las noticias
ni la gente que corre ni la vida
es decir que me importa sólo el agua
que está cayendo siempre con más fuerza
salpicando el cristal junto a mi cara
y pienso en cosas dulces y difíciles
-ser más guapo tener
a una chica bonita y cabreada
caminando a mi lado por un feroz pasillo
lleno de puertas altas y de cuadros
de antepasados medio sifilíticos
que sonrían y en voces
hondas voces severas no como estas
que hablan de futbol y de tonterías
con tono pegajoso y aburrido-
y esto me reconforta. Soy capaz
de amar a un elefante de tener
concomitancias con un gran marica
de prestar mi corbata
de jugar a fantasmas con mi prima
y me levanto llamo al camarero
-sigue lloviendo oh agua sucia cae
cae por favor
sobre la horrible piel de Barcelona
no te detengas hasta que me duerma -
y pago los gin-tonic y el tabaco
recojo mis papeles y estoy viendo
que hago nuevos proyectos imposibles
y cuando estoy a punto
de salir de una vez de este tristísimo
café de la puñeta ya me olvido
del hombre que yo fui hace diez minutos
de su ternura inútil de su frío
de las pastillas que necesitó
para decirle adiós al limpiabotas
y salir por la puerta en donde ahora
pienso en ti en tus pestañas y en tu abrigo
y te escribo enseguida
para que leas esto y me recuerdes
bebas un trago y otra vez me olvides.
José Agustín Goytisolo
Querida Carmen hoje
não me importa o que digam os periódicos
que continua a greve estudantil
ou que o Vietcong ataca
porque agora
há bocadinho – minutos apenas –
começou a chover – é importante
a água suja começa a escorregar
pelas paredes forma
charcos brilhantes cai uma baba
dos carros parados na rua
e os toldos dobram-se com o peso
da água e é possível
que o aguaceiro dure algumas horas –
e eu estou num bar cheio de gente
com fumo e mau cheiro de comidas
e bebo o segundo
gin-tonic da tarde e engoli
dois librium estás a ver tenho a minha conta
e como te dizia
as notícias já não me importam para nada
nem as pessoas a correr nem a vida
quer dizer importa-me apenas a água
que cai cada vez com mais força
salpicando o vidro à minha frente
e penso em coisas boas e difíceis
– ser mais bonito ter
uma miúda jeitosa e travessa
caminhando a meu lado por um corredor
cheio de portas altas e de quadros
de antepassados meios sifilíticos
que sorriam com vozes
profundas vozes severas não assim como estas
que falam de futebol e de maluqueiras
num tom chato e pegajoso –
e isso reconforta-me. Eu sou capaz
de amar um elefante de me dar até
com o maior dos maricas
de emprestar a gravata
de brincar aos fantasmas com a minha prima
e às tantas levanto-me chamo o empregado
– continua a chover oh cai aguinha suja
cai por favor
na pele horrível de Barcelona
não pares até eu dormir –
pago a bebida e o tabaco
pego nos papéis e dou conta
que faço novos projectos impossíveis
e quando estou quase a sair
duma vez deste tristíssimo
café da chatice esqueço-me
do homem que fui até há dez minutos
da sua ternura inútil do seu frio
das pastilhas que precisou
para dizer adeus ao engraxate
e sair porta fora onde agora
penso em ti nas tuas pestanas e no teu abrigo
e escrevo-te depois
para tu leres isto e te lembrares de mim
beberes um copo e me esqueceres de novo.
(Trad. A.M.)
.
11.11.13
Um verso (125)
Um verso de Mario Quintana
(de Alegre se fez Porto):
Quem ama inventa as coisas a que ama...(*)
Mario Quintana
(*) Todo amor é fantasia / inventa o ano, o dia / a hora e a melodia...
(Antonio Machado)
.
Aldo Luis Novelli (Falo de luxúria)
HABLO DE LUJURIA, DE POESÍA HABLAMOS OTRO DÍA
La poesía es una hembra sensual, voluptuosa y esquiva...
los poetas, somos unos viejos putañeros borrachos,
intentando atraparla para encamarnos con ella.
Ahora bien, los poetas, nunca la podemos
ni siquiera tocar a esa bella hembra.
Ellas, las poetas, que digan lo suyo
o callen para siempre.
Aldo Luis Novelli
A poesia é uma fêmea sensual, voluptuosa e esquiva...
nós, poetas, somos velhos putanheiros borrachos,
tentando agarrá-la para acamar com ela.
Agora, nós, poetas, nunca podemos
sequer tocar nessa bela fêmea.
As poetas, por elas, digam o que lhes cabe
ou que se calem para sempre.
(Trad. A.M.)
.
9.11.13
Alfonso Costafreda (O silêncio)
EL SILENCIO
No puedo hablar; aunque quisiera
no puedo hablar con alegría.
¿Qué he de decir? Ni tan siquiera
presentar puedo una página limpia.
No puedo hablar, sólo tinieblas crecieran
sobre la hierba maldita.
He de callar, pero yo diera
mi vida.
Alfonso Costafreda
Não posso falar; mesmo que quisesse
não posso falar com alegria.
O que é que diria? Nem sequer
posso mostrar uma página limpa.
Não posso falar, só trevas cresceram
sobre a erva maldita.
Calar-me-ei, mas daria
a minha vida, eu.
(Trad. A.M.)
.
8.11.13
Rui Zink (Nessa noite fizemos amor)
Nessa noite fizemos amor.
E foi muito estranho, nunca me tinha acontecido.
Todas as minhas amigas se queixavam dos homens, era já um mito, que obtínhamos o que queríamos e depois nos virávamos pra o outro lado e ressonávamos, frios, saciados, hirsutos e egoístas.
E querem saber uma coisa?
Pois foi o que a Ana fez comigo nessa noite!
- RUI ZINK, A espera, 2007.
.
Ramiro Fonte (Luzes do meio-dia)
LUZES DO MEIO-DIA
As melhores palavras da noite
escreve-as o meio-dia;
A flor se amiga, no jardim,
com a estrela incontornável.
No vaso em que, juntos,
afogámos as águas de outras luas,
estava já essa luz
serena para sempre, pressentida.
Esses olhos meus,
jamais cansados
de te olhar.
Ramiro Fonte
(Trad. A.M.)
.
7.11.13
Armando Silva Carvalho (Hospital Curry Cabral)
HOSPITAL CURRY CABRAL
Parecem as termas de Fellini, disse ela, a catalã
que não sabia nada dos hospitais
de Lisboa.
De facto, o chão fumava,
um vapor espesso subia-lhe pelas pernas
e acalorava os gatos.
E até um garnisé que por ali passeava em busca
das migalhas das visitas
cantou
desirmanado.
Mas era quase erótico o som da sua voz
como a da vedeta italiana
desse filme barroco
caindo inocente na doença ambulante
levada por maqueiros gordos
e libidinosos.
As palmeiras derramavam um choro
no vento melancólico.
E ela a catalã, jovial e magra,
ia batendo palmas às aves embaraçadas,
e avançava a sorrir
pelas zonas infecto-contagiosas.
Mas não lhe era preciso aplaudir um tal cenário
de figurantes mudos e fantasmagóricos
com os seus roupões azuis
de sida
com os seus pijamas de cinza
e tuberculose.
Bastava-lhe olhar a direito ou fechar os olhos
e perguntar pelo Hotel Barcelona.
Mas ela preferiu tropeçar nos varões com sono
arrastados pelo verde do jardim
e passar rente a precipícios que deslizam deitados
à sombra da morte.
E é preciso amar e partir depressa.
Ou atordoar-se com os perigosos jogos do contágio.
Eu respiro a calma que a desgraça me oferece
entre galinhas-da-índia
a encurtar caminho
nesse antigo lugar de mulheres da vida
arrependidas.
Normalmente vou só e não me engano.
A amiga catalã é um devaneio
numa rambla de encontros tenebrosos
com outra espécie de morte.
Tantas vezes pensei
e o poema não veio ao meu encontro.
Tantas vezes devorei este fumo quente e sensual
que começa por lamber-me as calças
e faz de mim um animal em erecção precoce.
Belas termas, estas, amiga tão distante,
nas tuas quimeras musicais
no teu regaço de coloridas risas de passagem.
Passa comigo e pede um copo de água
ou de cólera, como diz o brasileiro,
àquele rapaz com a morte a prazo.
A menina do filme, essa perversa inocente
Cardinale, fica-te tão bem,
diria ele,
esse jovem director de espectros
que te tira o chapéu
e deixa ver um quisto inquietante
na cabeça pelada de trapezista mortal.
Traz contigo mais música.
E passeia comigo entre pavões rubro-azuis
e corpos que rolam
sentados ou jacentes e avançam
para a saída
da vida.
Armando Silva Carvalho
[Canal de poesia]
.
6.11.13
Carlos Salem (Nós não)
NOSOTROS, NO
Nos enseñaron a sentir en dirección obligatoria
y nos llenaron la vida de semáforos.
Nos dijeron lo que se debe y lo que no
y que siempre quedaríamos debiendo.
Nos firmaron cheques en blanco
con tinta blanca
y esperaron a que les diéramos las gracias.
Nos rogaron que gritáramos sin ruido
amáramos sin furia
muriéramos sin asco
viviéramos sin ganas.
Nos olvidaron.
Nos prometieron el cielo en la tierra
y un paraíso con vídeo-vigilancia.
Nos invirtieron la esperanza a plazo fijo
y cambiamos los deseos por bonos del estado.
Nos vendieron motos
democracias
y consolas
y canciones del verano en pleno otoño.
Nos tiraron del pelo.
Nos cortaron el pelo.
Nos tomaron el pelo.
Y nos salvamos
a veces
por los pelos.
Nos olvidaron.
Nos juzgaron por pensar sin lubricante
Nos condenaron a sentir en látex
Nos metieron en jaulas decoradas
con los rostros de nuestros ídolos muertos.
Y cuando se quedaron sin presupuesto
para pagar las facturas de la cárcel
nos soltaron.
Y nos olvidaron.
Pero nosotros
a ellos
no.
Me temo
que no tendrán tiempo
de arrepentirse.
Carlos Salem
Ensinaram-nos a sentir em direcção obrigatória
e encheram-nos a vida de semáforos.
Disseram-nos o que se deve e o que não
e o que sempre ficaríamos a dever.
Assinaram-nos cheques em branco com tinta branca
à espera que agradecêssemos.
Pediram-nos que gritássemos sem barulho
amássemos sem fúria
morrêssemos sem asco
vivêssemos sem vontade.
Esqueceram-nos.
Prometeram-nos o céu na terra
e um paraíso com video-vigilância.
Investiram-nos a esperança a prazo fixo
trocando-nos desejos por títulos do Estado.
Venderam-nos motos
democracias
e consolas
e canções de Verão em pleno Outono.
Puxaram-nos pelo cabelo.
Cortaram-nos o cabelo.
Tomaram-nos o cabelo.
E salvámo-nos
às vezes
por um cabelo.
Esqueceram-nos.
Julgaram-nos por pensar sem lubrificação
Condenara-nos a sentir em látex
Meteram-nos em jaulas decoradas
com as caras de nossos mortos ídolos.~
E quando ficaram sem orçamento
para pagar as facturas da prisão
soltaram-nos.
E esqueceram-nos.
Mas nós
a eles
não.
Receio
que não terão tempo
de arrepender-se.
(Trad. A.M.)
>> El huevo isquierdo del talento (blogue/muitos p) / Carlos Salem (outro) / Matar y guardar la ropa (outro antes) / Wikipedia
.
5.11.13
Ruben A. (A paternidade do Menino Sancho)
Bem doloroso pensar na hipótese provável do Menino Sancho ser filho do Abade!
Há quem decida pelo pecado mortal do Abade – homem bondoso e que não quisera deixar por mãos alheias a satisfação de uma curiosidade.
Teria Dona Urraca perdido a donzelia num momento em que, fora de si mesma, aceitasse um rompante de procriar incógnito?
Teria sido coisa premeditada?
Qual o fim da acção biscosa do Abade, prendendo a manilha e pondo o jogo na mesa ao atravessar a primeira encruzilhada?
Ah!, que a donzelia de Dona Urraca havia sido perdida numa encruzilhada não restava dúvida...
- RUBEN A., A Torre da Barbela, 1964, VI.
.
Eduardo Milán (Porque amo tua loucura)
¿Por qué amo tu locura,
tu desparpajo, tu falta
de reloj y tus atajos
cuando estoy prácticamente a punto
de caer de cabeza en el abismo?
O sea en ti. Pero no sólo
eso: hay mucho más de ti que quiero
y no revelo. Esa lámpara
que enciendes en el fondo.
Eduardo Milán
Porque será que amo tua loucura,
teu desembaraço, tua falta
de relógio, teus atalhos,
quando estou quase a mergulhar
de cabeça no abismo ?
Ou seja, em ti. Mas não é só
isso, há muito mais de ti que eu quero,
mas não revelo. Essa lâmpada
que trazes acesa, dentro de ti.
(Trad. A.M.)
.
4.11.13
Al Berto (Os dias sem ninguém)
os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos
foi bela a madressilva
subindo pela noite da morada esquecida
pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço
luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho
restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar
AL BERTO
O Medo
Lisboa (1998)
[As folhas ardem]
.
3.11.13
Paz Hernández (Triangular)
TRIANGULAR
Triangular,
detestablemente puntiagudo,
con esa mirada confusa
encorsetado de refresco y colonia anodina
Las mangas escrupulosamente planchadas
la piel de gélido comportamiento social
Me miras ladinamente
Sin escrúpulos
estarías dispuesto a devorar
cualquier vulgaridad vestida de jueves
Paz Hernández
Triangular,
detestavelmente pontiagudo,
com esse olhar confuso
espartilhado de refresco e colónia anódina
As mangas escrupulosamente direitas
a pele de gélido comportamento social
Olhas-me com ar ladino
Sem escrúpulos
pronto a devorar
qualquer vulgaridade vestida
de sexta-feira
(Trad. A.M.)
.
2.11.13
Nuno Camarneiro (É engraçado o sol)
É engraçado o Sol, indo e vindo como um tio que faz negócios.
Às vezes uma visita, outros dias ocupado noutros lugares com outra gente.
Aprende-se a recebê-lo com alegria porque veste o tempo e traz cores à casa, É o tio, lembras-te do tio?
O sol é doido e é assim, como um tio de quem se gosta.
- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).
.
Delmira Agustini (O inefável)
LO INEFABLE
Yo muero extrañamente...No me mata la Vida,
no me mata la Muerte, no me mata el Amor;
muero de un pensamiento mudo como una herida...
¿No habéis sentido nunca el extraño dolor
de un pensamiento inmenso que se arraiga en la vida,
devorando alma y carne, y no alcanza a dar flor?
¿Nunca llevasteis dentro una estrella dormida
que os abrasaba enteros y no daba un fulgor?...
Cumbre de los Martirios!... Llevar eternamente,
desgarradora y árida, la trágica simiente
clavada en las entrañas como un diente feroz!...
Pero arrancarla un día en una flor que abriera
milagrosa, inviolable!... Ah, más grande no fuera
tener entre las manos la cabeza de Dios!
Delmira Agustini
[O único verdadeiro deus vivo]
Eu morro de modo estranho... Não é a Vida
que me mata, nem a Morte, nem o Amor,
mas um pensamento, calado como ferida...
Não sentistes nunca a estranha dor
de um pensamento imenso agarrado à vida,
que devora alma e carne e não chega a dar flor?
Não tivestes nunca dentro uma estrela adormecida
que vos queimava e não tinha fulgor?
Ó cabo dos Martírios!... Carregar eternamente,
árida e estéril, a trágica semente
cravada nas entranhas como um dente feroz!...
E um dia arrancá-la numa flor abrindo,
milagrosa, inviolável!... Como quem, sorrindo,
segurasse nas mãos a cabeça de Deus!
(Trad. A.M.)
.
1.11.13
Fiama Hasse Pais Brandão (Da voz das coisas)
DA VOZ DAS COISAS
Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.
Fiama Hasse Pais Brandão
.
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