5.9.08

Olhar (32)






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Doiro
(by Nokia)
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Mário Quintana (Invitation au voyage)






Livros-1 (L.A.Cuenca)

Livros-2 (E.Andrade)

Livros-3 (M.Quintana)







INVITATION AU VOYAGE






Se cada um de vós,
ó vós outros da televisão
- vós que viajais inertes
como defuntos num caixão –
se cada um de vós abrisse um livro de poemas…
faria uma verdadeira viagem…
Num livro de poemas se descobre de tudo,
de tudo mesmo!
- Inclusive o amor e outras novidades.



Mário Quintana


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3.9.08

Mário-Henrique Leiria (A família)








A FAMÍLIA






Vamos à pesca
disse o pai
para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar
a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou
sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pescaria do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca
do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!
que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
e foi então
que apanharam
um magnífico esturjão
que logo quiseram
ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão



vamos para casa
disse o esturjão.



Mário-Henrique Leiria










Antes, aqui: Uma nêspera / Noivado

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1.9.08

Álvaro Mutis (Amen)








AMÉN





Que te acoja la muerte
con todos tus sueños intactos.
Al retorno de una furiosa adolescencia,
al comienzo de las vacaciones que nunca te dieron,
te distinguirá la muerte con su primer aviso.
Te abrirá los ojos a sus grandes aguas,
te iniciará en su constante brisa de otro mundo.
La muerte se confundirá con tus sueños
y en ellos reconocerá los signos
que antaño fuera dejando,
como un cazador que a su regreso
reconoce sus marcas en la brecha.




Álvaro Mutis





Fontes: Club Cultura (sítio oficial) / Poesi.as (36p) / A media voz (17p)










Alberto Pimenta (Balada do f.p.-2)








BALADA DO FILHO DA PUTA – 2




II



o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.


o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.


por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.


todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.


é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.





Alberto Pimenta




(Balada do f.p.-1)

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30.8.08

Ver (2)







Eugénio de Andrade (Num exemplar das Geórgicas)







Livros-1 (L.A.Cuenca)

Livros-2 (E.Andrade)






NUM EXEMPLAR DAS GEÓRGICAS





Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.




Eugénio de Andrade



Fonte: O espelho de narciso


28.8.08

Pablo Neruda (O poço)










O POÇO





Afundas-te às vezes, cais
no teu fosso de silêncio,
em teu abismo de cólera orgulhosa
e só a custo consegues
regressar, mas ainda com vestígios
do que achaste
nas profundezas da tua existência.


Meu amor, o que encontras
no teu poço fechado?
Algas, lama, rochas?
Que vês de olhos cegos,
rancorosa e ferida?


Vida minha, no poço
onde cais não acharás
o que no alto guardo para ti:
um ramo de jasmins orvalhados,
um beijo mais fundo que o teu abismo.
(…)



Pablo Neruda


(Trad. Albano Martins)


Fontes: U. Chile (tudo+algo) / Fund. Neruda (tudo+algox2) / Los poetas (bio+16p) / EPDLP (bio+6p) / Portal de Poesia (linques) / Sololiteratura (+linques) / A media voz (54p) / Poesi.as (181p)




Antes, aqui: Para que me ouças / Poema 20 / Assustar um notário
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26.8.08

Bertolt Brecht (Há homens que lutam um dia)











Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis




Bertolt Brecht




Fonte: As Tormentas
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Ral Brandão (Às vezes é um nada)





( Às vezes é um nada ...)



Ou a vida é um acto religioso - ou um acto estúpido e inútil.

Considero os meses mais felizes da minha vida aqueles em que eu e minha mulher fomos viver para uma aldeia remota.

Ainda hoje me penetra a solidão perfumada dos montes.

A casa não tinha vidros e à noite o silêncio doirado de estrelas entrava pelas janelas e desabava sobre nós…

Há horas em que as coisas nos contemplam e estão por um fio a comunicar connosco.

Às vezes é um nada, um momento de êxtase em que distintamente ouvimos os passos da vida caminhando.

O homem sozinho está mais perto de Deus e das coisas eternas.

Sabe-lhe melhor a vida, compreende melhor a morte.

Um pormenor que o interesse entranha-se-lhe na alma para sempre, como um perfume que nunca mais se esvai…

Ainda este ano o Maio foi tão quente que toda a noite se lavrou ao luar…



- RAUL BRANDÃO, Memórias, III, Balanço à vida.


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24.8.08

Olhar (31)








(Mira)

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Pedro Salinas (Fé minha)










FÉ MINHA




Não me fio da rosa
de papel,
tantas vezes a fiz
eu com estas mãos.
Nem me fio da outra,
da verdadeira,
filha do sol e do tempo,
a prometida do vento.
De ti que nunca te fiz,
de ti que ninguém te fez,
de ti me fio, redondo
seguro acaso.




Pedro Salinas


(Trad. A.M.)



Original: Corte na Aldeia (texto+foto)


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21.8.08

Um verso (45)



Um verso de Borges
(que vale por muitos):







No fundo do sonho estão os sonhos.
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Jorge Luis Borges
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Albano Martins (Nem sempre a neve)










Nem sempre a neve
cai do céu: às vezes,
explode numa flor.




O sonho
da lâmina: ser
ao mesmo tempo a bainha.



ALBANO MARTINS
Com as flores do salgueiro
(1995)









18.8.08

Adélia Prado (Moça na cama)






MOÇA NA CAMA




Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.

A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada.

Mamãe vem me cobrir, tomo a bênção
e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.

Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.

Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.

Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.

Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moça de moços no bar,
violão e olhos difíceis de sair de mim.

Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.

O céu é aqui, mamãe.

Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor dos monsenhores podados.

Posso sofrer amanhã a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.

As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.

No quartel são gentis comigo.

Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo me ungindo com óleo santo.

Da vida quero a paixão.

E quero escravos, sou lassa.

Com amor de zanga e momo quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.

Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.




Adélia Prado




Fonte: Casa do Bruxo
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Silêncio










Silêncio-1 (Eugénio A.)


Silêncio-2 (M.Quintana)


Silêncio-3 (Andrés Eloy)


Silêncio-4 (A.Mattos)


Silêncio-5 (David M.F.)



Silêncio-7 (M.Quintana)


Silêncio-8 (E.Diego)


Silêncio-9 (cummings)


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16.8.08

António Ramos Rosa (A coisa amada)











A COISA AMADA





Dá-me o sangue das tuas ancas, dá-me o sangue
dos teus seios e o jardim do teu sexo.
Eu quero nascer
pela forma errante da respiração igual,
pelas bocas que através das nuvens comunicam.
Um desejo absoluto circula em todo o espaço.
Eu quero-te porque tu és a coisa amada
em que me transformo no flanco das palavras.
De uma odorífera fenda avermelhada,
em linhas irisadas, entre verdes cristais,
sobes, soberanamente escandalosa.



ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim (1990)

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Ver (1)









(New York)

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"Ver" (Antologia de fotos de autoria alheia, indicada, mesmo que encoberta)

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6.8.08

José Fernandes Fafe (Jardins suspensos)










OS NOSSOS JARDINS SUSPENSOS








Os nossos jardins suspensos
são estas mulheres:




Carregam à cabeça
cestos densos de lírios,
maravilhas, malmequeres…





José Fernandes Fafe

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Consultar: DGLB (bio+biblio)


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3.8.08

Raul Brandão (Junqueiro)






(Junqueiro…)



Tenho conhecido em toda a minha vida dois ou três santos e alguns homens superiores.

Nunca vi mágico da força de Junqueiro.

Homem extraordinário! Engenho extraordinário!

Às vezes Deus fala pela sua boca; outras - quando menos se espera - é o Diabo fosforescente e sarcástico…

Sempre que o encontro fico atónito.

Tudo nele me deslumbra: o monólogo preparado, o dito repentino, a vida irreal que ele cria e produz ao lado da vida - e maior que a vida - a sua prodigiosa concepção do universo.

Foi sempre assim - foi sempre imprevisto.

Conheci-o profeta, com um fato velho, a pregar na Praça, e já o encontrei no Amieiro a discutir o talhe dum smoking.

Vi-o também muitas vezes deixar um homem em evidência, para acompanhar um poeta desconhecido e pobre.

Grande génio que só na política - era de prever - falhou quanto se pode falhar!




- RAUL BRANDÃO, Memórias, II, Os últimos anos de Junqueiro.


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