10.6.25

Mario Benedetti (Quando éramos pequenos)




CUANDO ÉRAMOS NIÑOS

  

Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía. 

Luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era un océano
la muerte solamente
una palabra. 

Ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en los cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros. 

Ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.
 

Mario Benedetti 

 

Quando éramos pequenos
os velhos tinham à roda de trinta anos
um charco era um oceano
a morte chã e lisa
não existia.

Depois, em rapazes,
os velhos eram pessoas de quarenta,
um tanque era um oceano,
a morte somente
uma palavra.

Já quando nos casámos,
os anciãos estavam nos cinquenta,
um lago era um oceano,
a morte era a morte
dos outros.

Agora veteranos,
alcançamos por fim a verdade,
o oceano é enfim o oceano
e a morte começa a ser
a nossa.


(Trad. A.M.)

.

8.6.25

Rui Caeiro (Fica e é só o que fica)




Fica e é só o que fica: o primeiro encontro
o primeiro beijo numa gare deserta
o mar por líquida ou aérea testemunha

depois a longa gestação do adeus
único e verdadeiro adeus
o subtil envenenamento da memória

 

Rui Caeiro

 .

6.6.25

Marilyn Contardi (Antecipação)




ANTECIPAÇÃO 

 

 

Quem olhará estes céus cor de rosa

quando eu já os não vir?

 

Quem assomará à janela

a cheirar os jasmins em flor?

 

Passam invernos e primaveras,

um dia entre outros há-de trazer a morte.

 

Quando chegar o momento,

quem me fitará com olhos bondosos

 

e me dará a mão enquanto eu me afasto?

 

Marilyn Contardi

 

(Trad. A.M.)

 

 .

5.6.25

Mariano Peyrou (Convivência)




CONVIVENCIA 

 

Parecen más, pero sólo
son doce meses. En enero
nos miramos un rato: un laberinto no para salir.
En enero te espero / como cada febrero,
le escribí a la amiga que me escribe,
y febrero sube y baja, baja
y sube, da luz a una esperanza y la
inestabilidad nace en seguida, cuando
llega marzo, cuando miramos atrás
suponiendo y creyendo que ya ha pasado algo:
la ilusión de que lo insignificante
significa, todo
parece inflado como el tiempo.
En abril nos miramos
un rato, miramos lo que pide
no ser visto, vemos lo que no queríamos
mirar. Pasan las encinas y los verdes del campo,
lo lejos-cerca de mirar el campo desde un
tren, porque se mueve, o desde un collado,
porque está alto. Mayo vuela hacia afuera
y me propone mi mejor autorretrato:
melancólico y risueño. Vuelo hacia
mayo, mayo vuela hacia ti, tú
miras. Dos más dos son
junio, seis por tres son junio, logaritmo
en base junio y no quiero ni sé
seguir, pero se trata de seguir, la esperanza
con su aritmética sexy. Ahora
nos fijamos en un detalle mínimo
que marca la diferencia entre lo igual
y lo diferente, o que los iguala: julio
cae con su invierno y asciende
con su asombro, mi asombro, tu
desilusión. Julio acaricia y rasca.
Julio olvida, tiembla con su siempre-nunca
y su agosto, cuando te suelto, me
sueltas, y así podemos soltándonos retroceder
hasta septiembre. Septiembre, lleno
de meses, de años, cuenta
los meses hacia atrás, cuenta
los años hacia adentro. La marea
de octubre trae de todo: un zapato
de antes de que se inventara el pie, un
beso de antes de que se inventara la memoria,
una red, una botella llena de mar y de octubre.
Paseo por la orilla de octubre metiendo
los pies en la red a ver qué pasa. No
quiero pedir ayuda y no sabría.
Amargado y cobarde es ahora
mi mejor autorretrato, renovado en
noviembre, y ahora toca morir en secreto: todos
sabemos hacerlo, sabemos también nacer
de nuevo preparándonos para el final,
esquivar el final y mirarnos otro rato soñando
con lo que vemos y se acerca lejos.


Mariano Peyrou

[Fronterad]

 

 

Parecem mais, mas são
só doze meses. Em Janeiro
observamo-nos um bocado: um labirinto não para sair.
Em Janeiro te espero/ como todo Fevereiro,
escrevi eu a uma amiga que me escreve,
e Fevereiro sobe e desce, Desce
e sobe, dá luz a uma esperança e a
instabilidade nasce depois, quando
chega Março, quando olhamos para trás
supondo e acreditando que algo sucedeu,
a ilusão de que o insignificante significa, tudo
parece inchado como o tempo.
Em Abril observamo-nos
um bocado, observamos o que pede
para não ser visto, vemos aquilo que não queríamos
observar. Passam as azinheiras e os verdes do campo,
o longe-perto de observar o campo de um comboio,
porque se move, ou de um outeiro, porque está alto.
Maio voa para fora e propõe-me meu melhor auto-retrato:
melancólico e risonho. Voo para
Maio, Maio voa para ti, tu
observas. Dois mais dois são
Junho, seis por três são Junho, logaritmo
em base Junho e não quero nem sei
continuar, mas trata-se de continuar, a esperança
com sua aritmética sexy. Agora
atentamos num detalhe mínimo
que marca a diferença entre o igual
e o diferente, o que os iguala: Julho
cai com seu inverno e ascende
com seu assombro, meu assombro, tua
desilusão. Julho afaga e arranha.
Julho olvida, estremece com seu sempre-nunca
e seu Agosto, quando te solto, tu
soltas-me, e assim podemos soltando-nos retroceder
até Setembro. Setembro, cheio
de meses, de anos, conta
os anos para dentro. A maré
de Outubro traz de tudo; um sapato
de antes da invenção do pé, um
beijo de antes da invenção da memória,
uma rede, uma garrafa cheia de mar e de Outubro.
Passeio pela beira de Outubro, metendo
os pés na rede, a ver o que acontece. Não
quero pedir ajuda, nem saberia.
Amargurado e cobarde é agora
meu melhor suto-retrato, renovado em
Novembro e agora vá de morrer em segredo: todos
sabemos fazê-lo. Sabemos também nascer
de novo preparando-nos para o final,
fugir ao final e observar-nos mais um bocado
sonhando com o que vemos e se aproxima ao longe.


(Trad. A.M.)

.

3.6.25

Owen Bullock (Ao passar a esquadra)




passing the police station
I feel my immaturity
is criminal
yet there’s nothing
to turn myself in for


Owen Bullock



ao passar a esquadra
acho que a minha imaturidade
é criminosa
não há contudo razão nenhuma
para me entregar



(Trad. FJCC)



>>  Fevers of the mind (muitos p) / U. Canberra (perfil) / Google Scholar

.

1.6.25

Mariana Finochietto (Devia estar triste)




Debería estar triste.
Debería
tener mi corazón apertadito
como cuando se es joven
y duele.

Debería
extrañarte y salir a la calle
cubierta por el manto gris de la melancolia
y no mirar a otros hombres
para sólo pensarte,
porque se es fiel a la ausencia de quien se ama.

Porque te amo, en fin,
y te abandono
sin arrojarme del acantilado de tu nombre.

Te abandono
con todo el amor con que te quise
porque en toda buena historia es conveniente
saber cuándo poner el punto de todos los finales.


Mariana Finochietto

[Emma Gunst]



Devia estar triste,
devia
ter o coração apertadinho
como quando se é jovem
e sofre.

Devia
sentir-te a falta e sair à rua
coberta pelo manto cinza da melancolia,
não olhar para outros
e pensar só em ti,
por ser fiel à ausência de quem se ama.

Porque te amo, enfim,
e te abandono
sem me atirar da falésia de teu nome.

Abandono-te
com todo o amor com que te quis
porque em qualquer história convém
saber quando pôr o ponto de todos os finais.


(Trad. A.M.)

.

31.5.25

María Zambrano (Nem brisa, nem sombra)




Ni brisa ni sombra.
¿Por qué, muerte, así te escondes?
Sal, salte, sácate de tu abismo,
escápate tú, ¿Quién te retiene?
¿Por qué no borras con tu mirada el universo?
¿Por qué no deshaces las piedras
con tu sombra, muerte, sólo con tu sombra,
con tu mano desnuda,
con tu rostro de estatua,
desnuda presencia a quien nada resiste?
Enseña, muestra tu cara a los mundos,
que ya no haya espacio,
ni cielos, ni viento, ni palabras.
Quiero hundirme en el silencio.

María Zambrano

 

 

Nem brisa nem sombra.
Porquê, morte, assim te escondes?
Sai, anda, tira-te de teu abismo,
foge, quem te retém?
Porque não apagas com teu olhar o mundo todo?
Porque não desfazes as pedras
com tua sombra, morte, com tua sombra só,
com tua mão nua,
com teu rosto de estátua,
presença nua a que nada resiste?
Anda, mostra a cara ao mundo,
que não haja mais espaço,
nem céu, nem vento, nem palavras.
No silêncio eu quero afundar-me.


(Trad. A.M.)

.

29.5.25

Paulo Henriques Britto (Embora não fôssemos)




Embora não fôssemos nem um pouco
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,

nem muito menos como um rebanho de cabras
que descesse as colinas de Galaad,

nem por isso merecíamos ser confortados,
em vez de com bálsamos e maçãs,

com meio vidro de formicida cada um
num quarto de hotel barato em Cafarnaum.


Paulo Henriques Britto

.

27.5.25

Miguel Sánchez-Ostiz (Miliário negro)




MILIARIO NEGRO

 

 

Cada día más lejos
del que fuiste
del que no conseguiste ser
cada día más lejos de ti mismo
mudo ciego desconocido
detrás de tu propia sombra
siempre en fuga.

 

Miguel Sánchez-Ostiz

[Hector Castilla]



Cada dia mais longe
do que foste 
do que não conseguiste ser
cada dia mais longe de ti mesmo 
mudo cego desconhecido 
atrás da tua própria sombra
sempre em fuga.


(Trad. A.M.)

 .

26.5.25

Óscar Alonso Pardo (À traição)



A TRAICIÓN

 

Me gusta andar sin rumbo fijo
dejándome llevar por mis zapatos
cruzar las calles de mi ciudad en pleno invierno
sintiendo el frío de la mañana,
mirar el río, que se funde entre la niebla,
y pensar que la vida merece la pena, sí,
aunque a veces nos sorprenda por la espalda,
la muy hija de puta,
con un maldito puñal entre sus garras.


Óscar Alonso Pardo

 

Gosto de andar sem rumo,
deixar-me levar pelos sapatos,
correr as ruas da cidade em pleno inverno
a sentir o frio da manhã,
olhar o rio, mergulhado no nevoeiro,
e pensar que a vida merece a pena, sim,
apesar de às vezes nos enganar pelas costas,
a filha da puta,
com um maldito dum punhal entre as garras.


(Trad. A.M.)


>>  Hector Castilla (10p/e mais) / Libros y aguardientes (3p) / Facebook

.

24.5.25

Ricardo Silvestrin (Não mais que a beleza)




não mais que a beleza de um artista
que faz o que quer porque sabe fazer
o que quer

não mais que a indiferença do tempo
transformando tudo em passado
até a grandeza

não mais que o afeto por coisas
idéias bichos pessoas
dado de graça

não mais que o ficar em silêncio
na beira da praia
com os olhos abertos

não mais que o respeito pela palavra
mesmo que ela seja usada contra você
e é


Ricardo Silvestrin

.

22.5.25

Jesús Jiménez Domínguez (O mundo em quarentena)




EL MUNDO EN CUARENTENA

 

Tras muchos días de niebla
convaleciendo entre algodones,
las cosas del mundo se curaron
y volvieron a ser ellas mismas:
la rama ya no quiso ser el pájaro,
ni la piedra quiso ser el agua,
ni la realidad quiso ser el deseo. 

Emergieron de la niebla más dulces,
más dóciles y más blandas.
Aquí están: igual que si alguien,
durante todo este tiempo,
hubiera hundido en la leche
los trozos duros del pan.


Jesús Jiménez Domínguez

 

 

Após muitos dias de névoa,
convalescendo entre algodões,
as coisas do mundo sararam
e tornaram a ser elas mesmas:
o ramo não quer já ser pássaro,
nem a pedra quer ser água,
nem a realidade desejo.

Emergiram do nevoeiro mais doces,
mais suaves, mais dóceis.
E aqui estão, tal como se alguém,
este tempo todo,
mergulhasse no leite
os bocados duros do pão.


(Trad. A.M.)

.

21.5.25

Luis Eduardo García (Mau dia)




MAL DÍA

 

Mientras ves el capítulo final
de Las mansiones más lujosas del mundo
se acaba el oxígeno
de tu pecera.

Luis Eduardo García

 

Enquanto vês o último capítulo
de ‘As mansões mais luxuosas do mundo’
acaba-se-te o oxigénio
do teu aquário.


(Trad. A.M.)

.

19.5.25

Maria Esther Maciel (Onde o poema)




ONDE O POEMA


Entre o nervo e o osso
Entre o eco e o oco
Entre o mais e o pouco
Entre a sombra e o corpo
Entre a voz e o sopro
Entre o mesmo e o outro


Maria Esther Maciel

.

17.5.25

María Laura Decésare (Perguntas sem resposta)




PREGUNTAS SIN RESPUESTA 

 

Extraño nuestra casa,
moverme como un gato.
Perder el tiempo
observando la noche.
Echo de menos el silencio
que nos habitaba,
el tictac del reloj
que nunca tuve, el aroma
 café de madrugada, la pila
de libros sobre la mesa
pero sobre todo extraño
las preguntas sin respuesta.
 

María Laura Decésare

  

Falta-me a nossa casa,
eu mexer-me como um gato.
Perder o tempo 
a observar a noite.
Sinto falta do silêncio 
que nos habitava,
o tiquetaque do relógio
que nunca tive, o cheiro
a café de madrugada, a pilha
de livros sobre a mesa
mas faltam-me sobretudo
as perguntas sem resposta.
 

(Trad. A.M.)

 .

16.5.25

Miguel Sánchez-Ostiz (Argizaiola)




ARGIZAIOLA

 

Y nos hacemos memoria antigua descendiendo.
Descendiendo hasta el patio infantil de grava y moscas,
hasta la silenciosa compañía del juguete roto
en la casa enemiga,
hasta la matriz
y hasta el primer beso ácido
que todavía en el sueño inquieto del verano
la lengua trenza y atenaza,
y hasta esa primera mano
que enredó en nuestro pelo,
y hasta el asombro nunca apagado
de amanecer junto a otro cuerpo,
y hasta el envidiado pájaro:
ese pálpito primero.
Y también, descendiendo, poner la mirada
en el diente que insomne desgarra la sábana
sin descorrer por ello los velos de la sorpresa.
Y así mismo, enroscándonos,
descender a la herida y a la fiebre
y al primer terror
y siempre al primero y al segundo cuerpo.
Hasta la luz y hasta la muerte descendiendo.

Miguel Sánchez-Ostiz



Descendo, nos fazemos memória antiga.
Descendo até ao pátio infantil de cascalho e moscas,
até à silenciosa companhia do brinquedo partido
na casa inimiga,
até à matriz
e ao primeiro beijo ácido
que no sonho inquieto do verão
a língua tece e atazana,
e até essa mão primeira
que nos passou pelo cabelo,
e até ao assombro nunca desfeito 
de amanhecer junto de outro corpo,
e até ao invejado pássaro,
esse pressentimento primeiro.
E também, descendo, pôr o olhar
no dente que rasga o lençol,
sem levantar por isso os véus da surpresa.
E outrossim, enroscando-nos,
descer à ferida e à febre e ao primeiro terror
e sempre ao primeiro e ao segundo corpo.
Até à luz, até à morte,
sempre descendo.


(Trad. A.M.)

 

>>  Zenda (5p) / Hector Castilla (5p/ e mais) / Vivir de buena gana (blogue) / Wikipedia

.

14.5.25

Rui Caeiro (Ainda atacas)




Ainda atacas
como pode atacar um amor já ido
lá de vez em quando ainda atacas
irrompes num súbito alarme
sacodes-me de alto a baixo
impiedosa
mente
sacodes
me
e devagar te afastas
como um sol a pôr-
-se


Rui Caeiro

.

12.5.25

Jacob Iglesias (Respostas)




RESPUESTAS



Aún tardarás años en encontrarlas.
Tantos, que cuando ya las poseas,
si es que eso llega a suceder,
ya no sabrás qué hacer con ellas.

Jacob Iglesias 

 

 

Levarás anos ainda a encontrá-las.
Tantos, que quando as tiveres,
caso isso chegue a acontecer,
não saberás o que fazer com elas.


(Trad. A.M.)

.

11.5.25

Ida Vitale (Residua)




RESIDUA



Corta la vida o larga, todo
lo que vivimos se reduce
a un gris residuo en la memoria.

De los antiguos viajes quedan
las enigmáticas monedas
que pretenden valores falsos.

De la memoria sólo sube
un vago polvo y un perfume.
¿Acaso sea la poesía?


Ida Vitale

[La ceniza]

 

Curta ou longa a vida, tudo
o que vivemos se reduz
a uma cinza na memória.

De antigas viagens ficam
moedas enigmáticas
fingindo valores falsos.

Da memória sobe apenas
uma vaga poeira, um perfume.
Será acaso a poesia?


(Trad. A.M.)


9.5.25

Tanussi Cardoso (Autorretrato)




 AUTORRETRATO

 

O tigre, em silêncio, 
é o que penso. 

Quando ataca, 
é o que posso.

Tanussi Cardoso

.

7.5.25

Javier Olalde (Penso, logo existe)




(1.7)

Pienso, luego existe la tarde
y el mar con ella,
y tu presencia al borde de la tarde y del agua 
llegando de algún sitio, 
sin que existan la tarde ni el mar 
ni tu presencia al borde de la tarde 
llegando mientras pienso.

Javier Olalde

 


Penso, logo existe a tarde
e o mar com ela
e a tua presença à beira da tarde
e da água vinda de algum lado,
sem existirem a tarde ou o mar
nem a tua presença à beira da tarde
vinda enquanto eu penso.


(Trad. A.M.)

.

6.5.25

Jesús Jiménez Domínguez (Aniversário)




CUMPLEAÑOS

 

Lo mismo que un sonido no se conduce
con idéntica velocidad en el agua y en el aire,
está probado que los años no discurren
de igual modo en el corazón y en la cabeza.
¿Alguna vez tu cabeza pensó que tenías cuarenta
mientras tu corazón sentía varios menos?
Por mucho que sumen y repasen sus cuentas
acaban siempre discutiendo sin ponerse de acuerdo.
Lo dijo Émile Chartier de otra forma:
El tiempo es corto para el que piensa,
e interminable para el que desea.

Corazón y cabeza, extraños vecinos que se encuentran
y se saludan recelosos: ciego uno, sordo el otro.
Enemigos íntimos que, invariablemente,
sigo invitando en mis días de cumpleaños.
Sólo un instante coinciden en la escalera:
mientras el primero sube de comprar las velas,
el segundo baja con la digestión ya hecha.


Jesús Jiménez Domínguez



Tal como o som não se transmite
com igual velocidade no ar e na água,
assim os anos não correm de igual modo
na cabeça e no coração.
Algum dia tua cabeça pensou que tinhas quarenta anos,
ao passo que o coração sentia uns tantos a menos?
Ambos acabam sempre a discutir e não chegam a acordo,
por mais que somem e revejam as contas.
Disse-o Émile Chartier de outro modo:
O tempo é curto para quem pensa
e interminável para quem deseja
.

Coração e cabeça, estranhos vizinhos que se cruzam
e saudam receosos, um cego, outro surdo.
Inimigos íntimos que continuo, invariavelmente,
a convidar no dia dos meus anos.
Por instantes coincidem na escada,
o primeiro subindo depois de comprar as velas,
o segundo a descer já feita a digestão.


(Trad. A.M.)


>>  Poesi.as (35p) / Zenda (7p) / Disgrafie (5p) / JJD (blogue/2009-19) / Wikipedia

.


4.5.25

Sebastião da Gama (Pequeno poema)




PEQUENO POEMA

 

Quando eu nasci, 
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama

 .

2.5.25

Abelardo Linares (Um poema de amor)




UM POEMA DE AMOR QUE NÃO É DE X

  

Eu não te quero mentir, por isso mesmo
não tenho mais remédio senão dizer-te
exactamente em quinze endecassílabos
e numa só frase, uma só 
- e terminada com ponto final —
que o amor que tu queres, o perfeito,
o que leva à insónia e ao suspiro,
o que tu mereces tão justamente,
posto que o vales, o de dez,
não to posso dar, pois o que te ofereço,
tal como se nadasse no mar ártico
ou fosse um pato a caminhar pela auto-estrada,
tudo já desnudez e desconcerto,
o que te ofereço é o que vai de um a nove,
porque

    o meu amor
                        é 
                            um amor
                                        ‘sin cero’
                                         (vá, sem zero).


Abelardo Linares

 (Trad. A.M.)

 .

1.5.25

Manuel Rico (Silêncio e sombra)




SILENCIO Y SOMBRA

 

Tal vez no esté en la muerte la amenaza.
Sí en el silencio, en la sombra que, a veces,
adelgaza la realidad, la deja
a merced del designio
de las ruinas.
                      Hoy ves a un niño
dibujar en el vaho de la ventana
el contorno de un sueño:
una casa en el campo, acaso un río. 

Quizá ignore que el tiempo
y la temperatura borrarán sueño y vaho
y que sólo algún día la memoria
podrá ofrecerle un resto del instante
vivido. 

Ese día, tal vez, descubra
el conjuro de la tinta que alienta en las palabras
y recobre el instante hasta habitarlo
con gozo y con zozobra, como viento
bebido en un abril remoto.
 

Manuel Rico

 

 

Talvez a ameaça não esteja na morte,
e sim no silêncio, na sombra que às vezes
emagrece a realidade e a deixa
à mercê do desígnio
das ruínas.
               Vês uma criança
desenhar no bafo do vidro da janela
o contorno de um sonho
- uma casa no campo, acaso um rio.

Talvez ignore que o tempo
e o calor apagarão sonho e bafo
e que só um dia a memória
poderá oferecer-lhe um reso do instante vivido.

Nesse dia talvez descubra
o esconjuro da tinta que respira nas palavras
e recobre o instante até o habitar
com gozo e inquietação, como vento
bebido num distante Abril.


(Trad. A.M.)

.

29.4.25

António Maria Lisboa (Poema H)




POEMA H 

 

Sei que dez anos nos separam de pedras 
e raízes nos ouvidos 

e ver-te, ó menina do quarto vermelho, 
era ver a tua bondade, o teu olhar terno 
de Borboleta no Infinito  

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço 
em que tu eras uma estrela que caiu 
e incendiou a terra  

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos. 


António Maria Lisboa

 .

27.4.25

Manuel Moya/ Xi Shuao (A figueira)




LA HIGUERA

 

Quien una vez te ha visto, ya nunca te olvida,
como no se olvida el viento
cuando rumia desde dentro de los árboles,
o el olor de la higuera trepando por el abril crecido.
Hoy sólo son sombras en el rojo cáliz de la tarde
pero tu voluntad basta para que la luz crezca en la luz
y ensanche su campo como un río en su crecida.

Yo, que he muerto mil veces,
yo, que me aferro a tu causa mientras huyen las nubes,
me siento arder contigo
bajo el aroma lácteo de la higuera.
Porque con ella vienes y porque eso me basta.


Xi Shuao Quan

 

 

Quem uma vez te viu, nunca mais te esquece,
como não se esquece o vento,
a resmungar por dentro das árvores,
ou o cheiro da figueira trepando pelo Abril medrado.
Hoje são apenas sombras no cálice vermelho da tarde,
mas a tua vontade basta para a luz crescer na luz
e alargar o seu campo como um rio a transbordar.

Eu, que mil vezes morri,
eu, que à tua causa me agarro enquanto as nuvens fogem,
sinto-me ardendo contigo
sob o aroma leitoso da figueira.
Porque tu vens com ela e porque tanto me basta.


(Trad. A.M.)

.

26.4.25

Javier Olalde (Não morre o sol)


 

NO MUERE EL SOL

 

No muere el sol, camina 
crepúsculo a crepúsculo 
siguiendo el horizonte, 
traspasándolo, 
acarreando la luz 
hacia poniente. 

No muere el sol, regresa 
con la mirada clara 
de la aurora 
para llevarse el tiempo 
día a día.

Javier Olalde

  

Não morre o sol, caminha
ocaso a ocaso
seguindo o horizonte,
ultrapassando-o,
acarretando a luz
para poente.

Não morre o sol, regressa
com o olhar claro
da aurora
para levar o tempo
dia a dia.


(Trad. A.M.)


>>  Javier Olalde (sítio of/ tudo+algo/18p) / lLetralia (6p) / Todo literatura (resenha)

.

24.4.25

Camilo Castelo Branco (Os amigos)




OS AMIGOS

 

Amigos cento e dez, e talvez mais,
eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Supus que sobre a terra não havia
mais ditoso mortal entre os mortais.
 
Amigos cento e dez, tão serviçais,
tão zelosos das leis da cortesia,
que eu, já farto de os ver, me escapulia
às suas curvaturas vertebrais.
 
Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
que não desfez os laços quase rotos.
 
– Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

Camilo Castelo Branco

[Canal de poesia]

 .

22.4.25

Luis Eduardo García (Testamento)




TESTAMENTO

 

Si muero accidentalmente por bala
o acaso
“HOMBRE JOVEN POR GRANADA DESTRUIDO”
dejo listas mis Obras Completas en la carpeta “Poesía” 

la contraseña es “poeta judío alemán rumano
nacido en lo que ahora es Ucrania”. 

Favor de dejar la pornografía en orden.
 

Luis Eduardo García 

[Ediciones Liliputienses

 

Caso eu morra acidentalmente com tiro
ou porventura
‘Homem jovem desfeito por granada’
deixo prontas na pasta ‘Poesia’
as minhas Obras Completas 

a senha é ‘poeta judeu alemão romeno
nascido na actual Ucrânia’. 

Favor deixar em ordem a pornografia.
 

(Trad. A.M.)

 .

21.4.25

Luis Ramos (Os anjos anómalos)




LOS ÁNGELES ANÓMALOS 

(II)
 

Nunca se sabe. 

Somos tan prescindibles, tan efímeros, 
que en el agua del río que miramos
no queda de nosotros, nada más
que la imagen escasa del recuerdo. 

Pero eso sí,
           hay algo que nos salva,
algo que nos distancia de la nada,
y es ese tintineo sereno de la hoja
que observamos y vivimos asombrados. 

En ese baile nuevo,
en ese percutir sencillo está la vida.
 

Luis Ramos 

 

Nunca se sabe.

Somos tão prescindíveis, tão efémeros,
que na água do rio que contemplamos
não fica de nós mais que
a imagem escassa da lembrança.

Mas isso sim,
           há algo que nos salva,
algo que nos distancia do nada,
e é esse tintinar sereno da folha
que observamos e vivemos assombrados.

Nessa dança nova,
nesse singelo percutir está a vida.


(Trad. A.M.)

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