29.9.08

Maria do Rosário Pedreira (Quando eu morrer)









QUANDO EU MORRER





Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa


que nos meus braços pousem então as aves ( que , como eu,
trazem entre as penas a saudade de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na baínha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou ( e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me


a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.





MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
O Canto do Vento nos Ciprestes










Andrés Eloy Blanco (Cuántas estrellas tiene el cielo?)









CUÁNTAS ESTRELLAS TIENE EL CIELO?







La última noche que pasamos juntos,
lo preguntó:
-Cuántas estrellas tiene el cielo?
-Trescientas cincuenta mil.
-A que no?
-A que sí?



-Cállate. Esta noche
no quiero que preguntes esas cosas.
Esta noche, si quieres preguntar
cuántas estrellas tiene el cielo,
o cualquier otra cosa,
pregunta algo así como: me quieres?
tienes frío? quién dice que tiene hambre?



Esta noche, pregunta algo que sea
contestado en el mundo sin palabras.
Interroga con toda tu sangre
algo en que toda la vida del mundo
esté preguntando,
algo así como: quién llora?
hace falta algo?



Y verás como todo hace falta
y sabrás cuántas estrellas tiene el cielo
cuando sepas que el cielo tiene una sola estrella
para cada momento,
porque con una que se pierda
dará un paso de sombra la luz del Universo.




Andrés Eloy Blanco


.



26.9.08

Raul Brandão (Foram os pobres)





(Foram os pobres…)



E é da gente ignorada que levo as maiores impressões da existência.

Foram os pobres que me obrigaram a pensar - foi a série de figuras toscas que encontrei na estrada, duma realidade tão grande que nunca consegui afastá-las da minha alma.

Ainda hoje desfilam diante de mim os mortos e os vivos…

Não posso esquecê-los: parece que todos eles esperam alguma coisa de mim.



- RAUL BRANDÃO, Memórias, III, Balanço à vida.


.

Pedro Mexia (Paráfrase)








PARÁFRASE






Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência
infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.



A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.



Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.




PEDRO MEXIA
Avalanche

.
.

23.9.08

Olhar (33)







.
.
.

Paredes de Coura
.
.

- Um dia (fim) e outro (princípio)
.
.
.

Um verso (46)








Um verso do Assis
(ele há tantos):







A solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.





Fernando Assis Pacheco

.

.

.

21.9.08

André Gide (Para adorar o que queimei)











Livros-1 (L.A.Cuenca)

Livros-2 (E.Andrade)

Livros-3 (M.Quintana)

Livros-4 (A.Gide)









PARA ADORAR O QUE QUEIMEI







Há livros que lemos sentados num banquinho
diante de uma carteira escolar.


Há livros que lemos andando
(e também por causa do formato);


Uns são para as florestas e outros para outros campos,
Et nobiscum rusticantur, diz Cícero.


Alguns há que li na diligência;
Outros, deitado no fundo dos celeiros de feno.


Há os para fazer crer que temos uma alma;
Outros, para desesperá-la.


Há os em que se prova a existência de Deus;
Outros, em que não se consegue fazê-lo.


Há livros que não é possível admitir
senão em bibliotecas particulares.


Há os que receberam elogios
de muitos críticos autorizados.


Alguns há em que só se trata de apicultura,
que certas pessoas acham algo especializados;
noutros fala-se tanto da natureza
que não vale mais a pena passear depois.


Outros há que os homens sensatos desprezam
mas que excitam as criancinhas.

A alguns chamam antologias
e neles incluíram tudo o que de melhor se disse
a propósito de tudo.


Há os que desejariam fazer-nos amar a vida;
outros depois dos quais o autor suicidou-se.


Alguns semeiam o ódio
e colhem o que semearam.


Alguns, quando os lemos, parecem brilhar,
carregados de êxtase, deliciosos de humildade.
Há os que amamos como irmãos
mais puros e que viveram melhor do que nós.


E os há impressos em caracteres extraordinários
e que não compreendemos,
mesmo depois de tê-los estudado muito.


Ah! quando teremos queimado todos os livros, Nathanael!


Alguns há que não valem um vintém furado,
outros alcançam preços consideráveis.


Alguns falam de reis e de rainhas
e outros de gente muito pobre.


Alguns há cujas palavras são mais suaves
do que o ruído das folhas ao meio-dia.


Foi um livro que João comeu em Patmos
como um rato; mas eu prefiro as framboesas.
Isso encheu-lhe as entranhas de amargura
e ele teve depois muitas visões.


Ah! quando teremos queimado todos os livros, Nathanael!






André Gide





Outras: Wikipedia / Wikiquote / Nobel Lit.1947 / Bio

.

.

Ver (3)








Primeira:

Pico v. Faial

(Açores)

.

.

Juan Luis Panero (Pierre Drieu La Rochelle)






PIERRE DRIEU LA ROCHELLE (*)
DIVAGA FRENTE A SU MUERTE



Al final pienso que tenía razón
—todo el absurdo tinglado del poder,
el cuchillo implacable de la inteligencia,
las sórdidas, políticas palabras,
los arañados proyectos imposibles—
sí, tenía razón ese día. Me acuerdo bien
cuando pensé, echado junto a ella,
que lo único real era una buena puta,
una piel cálida, unos labios silenciosos, unas manos expertas
en aquel burdel, cerca de Neuilly, al amanecer.
Por eso, porque creo que tenía razón, soy más culpable
—libros, declaraciones, ideas, lealtades,
el secreto de todo, el revés de la nada—
cuánto tiempo perdido para llegar a esto,
para recordar, ya sin solución, sus largos muslos,
el sabor espeso de su boca, los rozados pezones.
Llegaba una luz gris sobre la cama,
sobre su culo memorable, inmóvil,
sí, tenía razón, aquella puta
cuyo nombre nunca supe o tal vez he olvidado,
el humo de un cigarrillo, eso es todo, yo tenía razón,
y si non la tenía, qué importa ahora?

Juan Luis Panero




PIERRE DRIEU LA ROCHELLE
DIVAGA PERANTE A MORTE


No fim, penso que tinha razão
- todo o absurdo artifício do poder,
a lâmina implacável da inteligência,
as sórdidas, políticas palavras,
os arranhados projectos impossíveis –
sim, tinha razão nesse dia. Lembro-me bem
quando pensei, deitado junto dela,
que a única coisa real é uma boa puta,
uma pele cálida, lábios silenciosos, mãos sábias,
naquele bordel, ao pé de Neuilly, ao amanhecer.
Por isso, porque acho que tinha razão, sou mais culpado
- livros, declarações, ideias, lealdades,
o segredo de tudo, o avesso do nada –
quanto tempo perdido para chegar a isto,
para recordar, sem solução já, os seus longos músculos,
o sabor espesso da boca, os mamilos rosados.
Caía uma luz cinzenta sobre a cama,
naquele cu memorável, imóvel,
sim, tinha razão, essa puta
de quem nunca soube o nome ou então esqueci,
o fumo de um cigarro, isso é tudo, eu tinha razão,
e se não tinha, que importa agora?


(Trad. A.M.)



(*) Wikipedia (Pierre Drieu La Rochelle)

.

18.9.08

Miguel Torga (A um negrilho)












A UM NEGRILHO






Na terra onde nasci há um só poeta
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.




Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!





Miguel Torga


.

.

.

15.9.08

Ferreira Gullar (Barulho)






BARULHO



Todo poema é feito de ar
apenas:
a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa
de mulher.
.

O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura.


Ferreira Gullar




10.9.08

António Ramos Rosa (De súbito dentro)












DE SÚBITO DENTRO







De súbito entrei. Era
uma música
de um barco imóvel no encanto
de ser toda a atmosfera, no descanso
da mais íntima sombra adormecido,
como na essência de um sonho.
Um âmbito sem nome, em total olvido,
o universo completo no jardim.
E a montanha em silêncio, a solidão de estrelas,
um dorso longínquo e sobre ele as ondas
caladas, majestosas.
Era a imortal maturidade de um só instante,
a verdadeira vida aqui, plena, revelada,
o gozo sem afã da formosura imensa,
toda a verdade presente e sem história,
música absoluta de humana divindade.




ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim (1990)


.


.

8.9.08

Raul Brandão (Morria de remorsos)







(Morria de remorsos…)



Uma, duas, três vezes a Natureza me salvou.

Da última apelei para ela num desespero.

Não só a vinha que plantei me pagou generosamente em frutos, como me ensinou muitas coisas que ignorava.

Deste pedaço de terra, desta meia dúzia de campos se mantém o senhor José, a mulher, a filha e os moços - e eu próprio tiro o essencial para a vida.

Encostado a um muro velho, vi desfilar na minha frente jornaleiros e caseiros, figuras da realidade que se entranharam na minha alma para sempre.

Não foi o outro mundo das cidades que me interessou: ao contrário, pareceu-me sempre fantasmagórico.

O mundo que me impressionou foi este.

Eu felizmente sou um mero espectador da agitação lá de baixo e, quase, só do meu canto assisti ao desenrolar de toda a tragédia contemporânea: - queda do trono, revoluções, mortes, gritos…

Senão, morria de remorsos.

E isto não é uma frase: morria de remorsos se tivesse concorrido para a morte dum homem.



- RAUL BRANDÃO, Memórias, III, Balanço à vida.


.

Antonio Machado (Todo amor é fantasia)







Todo o amor é fantasia
- ele inventa o ano, o dia,
a hora e a melodia;
inventa o amante e, mais,
a amada. Não prova nada,
contra o amor, que a amada
não existisse nunca.



Antonio Machado

.

.

Original: Corte na Aldeia

.

.

Fontes: Poesi.as (204p) / A media voz (51p) / A media voz-2 (28p) / Los Poetas (bio+38p) / Abel Martin (bio+biblio+antologia)

.

5.9.08

Olhar (32)






.
.
.
Doiro
(by Nokia)
.
.
.

Mário Quintana (Invitation au voyage)






Livros-1 (L.A.Cuenca)

Livros-2 (E.Andrade)

Livros-3 (M.Quintana)







INVITATION AU VOYAGE






Se cada um de vós,
ó vós outros da televisão
- vós que viajais inertes
como defuntos num caixão –
se cada um de vós abrisse um livro de poemas…
faria uma verdadeira viagem…
Num livro de poemas se descobre de tudo,
de tudo mesmo!
- Inclusive o amor e outras novidades.



Mário Quintana


.

.

3.9.08

Mário-Henrique Leiria (A família)








A FAMÍLIA






Vamos à pesca
disse o pai
para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar
a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou
sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pescaria do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca
do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!
que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
e foi então
que apanharam
um magnífico esturjão
que logo quiseram
ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão



vamos para casa
disse o esturjão.



Mário-Henrique Leiria










Antes, aqui: Uma nêspera / Noivado

.

.

1.9.08

Álvaro Mutis (Amen)








AMÉN





Que te acoja la muerte
con todos tus sueños intactos.
Al retorno de una furiosa adolescencia,
al comienzo de las vacaciones que nunca te dieron,
te distinguirá la muerte con su primer aviso.
Te abrirá los ojos a sus grandes aguas,
te iniciará en su constante brisa de otro mundo.
La muerte se confundirá con tus sueños
y en ellos reconocerá los signos
que antaño fuera dejando,
como un cazador que a su regreso
reconoce sus marcas en la brecha.




Álvaro Mutis





Fontes: Club Cultura (sítio oficial) / Poesi.as (36p) / A media voz (17p)










Alberto Pimenta (Balada do f.p.-2)








BALADA DO FILHO DA PUTA – 2




II



o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.


o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.


por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.


todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.


é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.





Alberto Pimenta




(Balada do f.p.-1)

.


.


30.8.08

Ver (2)







Eugénio de Andrade (Num exemplar das Geórgicas)







Livros-1 (L.A.Cuenca)

Livros-2 (E.Andrade)






NUM EXEMPLAR DAS GEÓRGICAS





Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.




Eugénio de Andrade



Fonte: O espelho de narciso


28.8.08

Pablo Neruda (O poço)










O POÇO





Afundas-te às vezes, cais
no teu fosso de silêncio,
em teu abismo de cólera orgulhosa
e só a custo consegues
regressar, mas ainda com vestígios
do que achaste
nas profundezas da tua existência.


Meu amor, o que encontras
no teu poço fechado?
Algas, lama, rochas?
Que vês de olhos cegos,
rancorosa e ferida?


Vida minha, no poço
onde cais não acharás
o que no alto guardo para ti:
um ramo de jasmins orvalhados,
um beijo mais fundo que o teu abismo.
(…)



Pablo Neruda


(Trad. Albano Martins)


Fontes: U. Chile (tudo+algo) / Fund. Neruda (tudo+algox2) / Los poetas (bio+16p) / EPDLP (bio+6p) / Portal de Poesia (linques) / Sololiteratura (+linques) / A media voz (54p) / Poesi.as (181p)




Antes, aqui: Para que me ouças / Poema 20 / Assustar um notário
.


.

26.8.08

Bertolt Brecht (Há homens que lutam um dia)











Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis




Bertolt Brecht




Fonte: As Tormentas
.
.
.

Ral Brandão (Às vezes é um nada)





( Às vezes é um nada ...)



Ou a vida é um acto religioso - ou um acto estúpido e inútil.

Considero os meses mais felizes da minha vida aqueles em que eu e minha mulher fomos viver para uma aldeia remota.

Ainda hoje me penetra a solidão perfumada dos montes.

A casa não tinha vidros e à noite o silêncio doirado de estrelas entrava pelas janelas e desabava sobre nós…

Há horas em que as coisas nos contemplam e estão por um fio a comunicar connosco.

Às vezes é um nada, um momento de êxtase em que distintamente ouvimos os passos da vida caminhando.

O homem sozinho está mais perto de Deus e das coisas eternas.

Sabe-lhe melhor a vida, compreende melhor a morte.

Um pormenor que o interesse entranha-se-lhe na alma para sempre, como um perfume que nunca mais se esvai…

Ainda este ano o Maio foi tão quente que toda a noite se lavrou ao luar…



- RAUL BRANDÃO, Memórias, III, Balanço à vida.


.

24.8.08

Olhar (31)








(Mira)

.

.

.

Pedro Salinas (Fé minha)










FÉ MINHA




Não me fio da rosa
de papel,
tantas vezes a fiz
eu com estas mãos.
Nem me fio da outra,
da verdadeira,
filha do sol e do tempo,
a prometida do vento.
De ti que nunca te fiz,
de ti que ninguém te fez,
de ti me fio, redondo
seguro acaso.




Pedro Salinas


(Trad. A.M.)



Original: Corte na Aldeia (texto+foto)


.


.

21.8.08

Um verso (45)



Um verso de Borges
(que vale por muitos):







No fundo do sonho estão os sonhos.
.
.
.
.
Jorge Luis Borges
.
.
.
.

Albano Martins (Nem sempre a neve)










Nem sempre a neve
cai do céu: às vezes,
explode numa flor.




O sonho
da lâmina: ser
ao mesmo tempo a bainha.



ALBANO MARTINS
Com as flores do salgueiro
(1995)









18.8.08

Adélia Prado (Moça na cama)






MOÇA NA CAMA




Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.

A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada.

Mamãe vem me cobrir, tomo a bênção
e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.

Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.

Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.

Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.

Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moça de moços no bar,
violão e olhos difíceis de sair de mim.

Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.

O céu é aqui, mamãe.

Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor dos monsenhores podados.

Posso sofrer amanhã a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.

As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.

No quartel são gentis comigo.

Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo me ungindo com óleo santo.

Da vida quero a paixão.

E quero escravos, sou lassa.

Com amor de zanga e momo quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.

Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.




Adélia Prado




Fonte: Casa do Bruxo
.
.
.

Silêncio










Silêncio-1 (Eugénio A.)


Silêncio-2 (M.Quintana)


Silêncio-3 (Andrés Eloy)


Silêncio-4 (A.Mattos)


Silêncio-5 (David M.F.)



Silêncio-7 (M.Quintana)


Silêncio-8 (E.Diego)


Silêncio-9 (cummings)


.


.


.

16.8.08

António Ramos Rosa (A coisa amada)











A COISA AMADA





Dá-me o sangue das tuas ancas, dá-me o sangue
dos teus seios e o jardim do teu sexo.
Eu quero nascer
pela forma errante da respiração igual,
pelas bocas que através das nuvens comunicam.
Um desejo absoluto circula em todo o espaço.
Eu quero-te porque tu és a coisa amada
em que me transformo no flanco das palavras.
De uma odorífera fenda avermelhada,
em linhas irisadas, entre verdes cristais,
sobes, soberanamente escandalosa.



ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim (1990)

.

.

.

Ver (1)









(New York)

.

.

"Ver" (Antologia de fotos de autoria alheia, indicada, mesmo que encoberta)

.

6.8.08

José Fernandes Fafe (Jardins suspensos)










OS NOSSOS JARDINS SUSPENSOS








Os nossos jardins suspensos
são estas mulheres:




Carregam à cabeça
cestos densos de lírios,
maravilhas, malmequeres…





José Fernandes Fafe

.



Consultar: DGLB (bio+biblio)


.






3.8.08

Raul Brandão (Junqueiro)






(Junqueiro…)



Tenho conhecido em toda a minha vida dois ou três santos e alguns homens superiores.

Nunca vi mágico da força de Junqueiro.

Homem extraordinário! Engenho extraordinário!

Às vezes Deus fala pela sua boca; outras - quando menos se espera - é o Diabo fosforescente e sarcástico…

Sempre que o encontro fico atónito.

Tudo nele me deslumbra: o monólogo preparado, o dito repentino, a vida irreal que ele cria e produz ao lado da vida - e maior que a vida - a sua prodigiosa concepção do universo.

Foi sempre assim - foi sempre imprevisto.

Conheci-o profeta, com um fato velho, a pregar na Praça, e já o encontrei no Amieiro a discutir o talhe dum smoking.

Vi-o também muitas vezes deixar um homem em evidência, para acompanhar um poeta desconhecido e pobre.

Grande génio que só na política - era de prever - falhou quanto se pode falhar!




- RAUL BRANDÃO, Memórias, II, Os últimos anos de Junqueiro.


.

1.8.08

Olhar (30)











Bustarenga
.
(Montemuro)
.
.
.

Mário de Sá Carneiro (Caranguejola)







CARANGUEJOLA





- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!



Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.



Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...



Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...



Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...



De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...



Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! Levem-me prà enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.



Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...



Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.






Mário de Sá Carneiro

.

.

.