1.8.08
Mário de Sá Carneiro (Caranguejola)

CARANGUEJOLA
- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...
Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...
Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...
De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! Levem-me prà enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.
Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
Mário de Sá Carneiro
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29.7.08
Eliseo Diego (Calma)

Silêncio-2 (M.Quintana)
Silêncio-3 (Andrés Eloy)
Silêncio-4 (A.Mattos)
Silêncio-6 (A.M.)
Este silencio,
Eliseo Diego
27.7.08
W. C. Williams (Retrato proletário)

Está parada na rua com o cabelo
Com um pé descalço a tocar
Tem um sapato na mão. Observa-o
E tira-lhe a palmilha
O prego que a magoa
W. C. Williams
24.7.08
David Mourão-Ferreira (Nada garante)

Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas
Só necessito que tu existas
.
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Fontes: Poesias e Prosas (9p) / Lídia Aparício (18p) / As Tormentas (53p) / Inst.Camões (perfil - Teresa Martins Marques)
Antes, aqui: Pele / Nós temos cinco sentidos / Silêncio
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21.7.08
Luis Alberto de Cuenca (Livros)

Que sería de mí sin vosotros,
tiranos y, a la vez, embajadores
de la imaginación,
verdugos del deseo
y, al mismo tiempo, mensajeros suyos,
libros llenos de cosas deplorables
y de cosas sublimes,
a los que odiar
o por los que morir.
Luis Alberto de Cuenca
Fonte: Cervantes
Que seria de mim sem vós,
tiranos e, também, embaixadores
da imaginação,
verdugos do desejo
e, a um tempo, mensageiros dele,
livros cheios de coisas deploráveis
e sublimes,
para vos odiar
ou morrer por vós.
(Trad. A.M.)
19.7.08
Raul Brandão (Há outras existências)

Solidão tão pesada que eu distinguia o remexer dos bichos inteiriçados de frio, que vivem nos buracos das paredes e que se revolviam no fundo dos ninhos, para caírem logo no torpor invernal - e o caminhar da raiz da árvore que plantei e que sob o chão teima em se aproximar de nós.
Foi nesse silêncio que a minha alma se criou.
Foi esse silêncio que nos uniu indestrutivelmente.
No corredor escuro onde entrei e onde tacteio como um cego, fazendo alguns riscos a carvão nas paredes, encontrei a tua mão que me ampara e nunca mais a larguei.
Aprendi que há outras existências, as dos humildes, maiores que a nossa.
E vi Deus.
- RAUL BRANDÃO, Memórias, II, Dez. 1924.
António Reis (Mudamos esta noite)

Mudamos esta noite
E como tu
eu penso no fogão a lenha
e nos colchões
onde levar as plantas
e como disfarçar os móveis velhos
Mudamos esta noite
e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam
e que os filhos dormem sempre
nos quartos onde nascem
Vai descendo tu
Eu só quero ouvir os meus passos
nas salas vazias
ANTÓNIO REIS
Poemas Quotidianos
Portugália (col. «Poetas de Hoje»)
Lisboa, 1967
.
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16.7.08
Alberto Pimenta (Balada do f.p.-1)

I
Alberto Pimenta
Mário Quintana (Canção de vidro)

Silêncio-2 (M.Quintana)
Silêncio-3 (AndrésEloy)
E nada vibrou...
.
Mário Quintana
14.7.08
Nuno Júdice (Portugal)

País -3 (Jorge de Sena)
País -4 (A. O'Neill)
Deita-se com a cabeceira
voltada para o norte e os pés a mergulharem
no atlântico. Em cima, a cabeça sonha com
as brumas que invadem os vales, no Outono,
e os olhos iluminam-se quando o amarelo
das flores invade o cume dos montes, no fim
da primavera. Como um cinto, o Tejo prende-
-o a essa cama estreita; e olha
o mar, deixando que as ondas o despertem,
por instantes, do sono antigo. De-
pois, vira-se para o outro lado, como se
não quisesse adormecer de nevoeiros matinais; e
volta a adormecer, enquanto o sol
agoniza no horizonte.
Nuno Júdice
11.7.08
Clarice Lispector (Dá-me a tua mão)
.jpg)
Entre duas notas de música existe uma nota,
9.7.08
Adília Lopes (Clarice Lispector)

a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.
Adília Lopes
Fonte: Prosa Caótica
.
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Raul Brandão (O resto não vale nada)

Sem mo dizeres, compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros…
Melhor, compreendi que a ternura era o melhor da vida.
O resto não vale nada.
Não é por a esmola da velha do Evangelho ser dada com sacrifício que é mais aceita no céu que o oiro do rico - é por ser dada com ternura.
O importante é a comunicação de alma para alma.
A mão que aperta a nossa mão, o olhar húmido que procura o nosso olhar, o sorriso que nos acolhe, desvendam-nos o mundo.
- RAUL BRANDÃO, Memórias, II, Dez. 1924.
7.7.08
Pedro Mexia (As fotografias)

As fotografias precedem a memória,
são a realidade parada de luz.
As fotografias evoluem como os olhos,
entre reformulações e malogros.
As fotografias não amarelecem, queimam,
não se enchem de pó mas de granizo.
As fotografias duram mais que a memória,
mas não muito mais.
PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
4.7.08
Alexandre O´Neill (Amigo)

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Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!
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2.7.08
Eliseo Diego (Testamento)
TESTAMENTO
Habiendo llegado al tiempo en
que la penumbra ya no me consuela más
y me apocan los presagios pequeños;
habiendo llegado a este tiempo;
y como las heces del café
abren de pronto ahora para mí
sus redondas bocas amargas;
habiendo llegado a este tiempo;
y perdida ya toda esperanza de
algún merecido ascenso, de
ver el manar sereno de la sombra;
y no poseyendo más que este tiempo;
no poseyendo más, en fin,
que mi memoria de las noches y
su vibrante delicadeza enorme;
no poseyendo más
entre cielo y tierra que
mi memoria, que este tiempo;
decido hacer mi testamento.
Es este:
les dejo el tiempo,
todo el tiempo.
Eliseo Diego
Fontes: Palabra virtual (20p) / António Miranda (4p) / Los Poetas (bio+14p) / Cubaliteraria (11p+biblio+galeria+prosa) /A media voz (15p)
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30.6.08
José Emílio Pacheco (Indeseable)

José Emilio Pacheco
O guarda não me deixa passar.
Ultrapassei o limite de idade.
Venho de um país que já não existe.
Os meus papéis não estão em ordem.
Falta-me um carimbo.
Preciso de outra rubrica.
Não falo a língua.
Não tenho conta no banco.
Reprovei no exame de admissão.
Extinguiram-me o posto na grande fábrica.
Desempregaram-me hoje, para sempre.
Careço de todo de influências.
Ando cá neste mundo há longo tempo.
E nossos amos dizem que é hora já
de me calar e afundar-me no lixo.
(Trad. A.M.)
28.6.08
Raul Brandão (Só a paixão e a quimera)

Não aprendo até morrer - desaprendo até morrer.
Não sei nada, não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que nos guiam: só a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas.
- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
David Mourão-Ferreira (Silêncio)

Silêncio-2 (M.Quintana)
Silêncio-3 (AndrésEloy)
Silêncio-4 (A.Mattos)
Se a tua voz não vem, arcanjo ou telefonema,
como hei-de suportar este silêncio todo?
David Mourão-Ferreira
21.6.08
Ferreira Gullar (Aprendizado)

APRENDIZADO
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.
Ferreira Gullar
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19.6.08
Ruy Belo (Algumas proposições)

QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO
1. Os pássaros nascem na ponta das árvores
2. As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
3. Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
4. Os pássaros começam onde as árvores acabam
5. Os pássaros fazem cantar as árvores
6. Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
7. Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
9. Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
10. Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
Ruy Belo
17.6.08
W. C. Williams (É só para dizer)

decerto
Raul Brandão (Não é só saudade)

A minha alegria em velho consistiria em ter aqui o meu pai para falar com ele.
Não é só saudade que sinto: é uma impressão física.
Agora é que acharia encanto até às lágrimas em termos a mesma idade, conversarmos ao pé do lume e morrermos ao mesmo tempo…
- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
15.6.08
Paul Eluard (E um sorriso)

ET UN SOURIRE
La nuit n'est jamais complète.
Il y a toujours, puisque je le dis,
Puisque je l'affirme,
Au bout du chagrin
Une fenêtre ouverte,
Une fenêtre éclairée,
Il y a toujours un rêve qui veille,
Désir à combler, faim à satisfaire,
Un coeur généreux,
Une main tendue, une main ouverte,
Des yeux attentifs,
Une vie, la vie à se partager.
Paul Eluard
A noite nunca está completa.
Há sempre, sou eu que o digo,
sou eu que o afirmo,
no fim do desgosto
uma janela aberta,
iluminada,
há sempre um sonho velando,
desejo a matar, fome a satisfazer,
um coração generoso,
uma mão estendida, aberta,
uns olhos atentos,
uma vida, a vida a partilhar.
(Trad. A.M.)
>> Wikipedia / Sit.oficial (27p+bio+biblio+linques) / Poets.org (bio+linques) / Triplo V (nota+19p) / Poesia.net (nota+4p) / La poesie que j'aime (antologia+bio)
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13.6.08
Pedro Salinas (Pregunta más allá)

.
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¿Por qué pregunto dónde estás,
Y te pregunto, sí,
Pedro Salinas
11.6.08
Mário de Sá Carneiro (Quase)

QUASE
Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar....
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
(…)
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá Carneiro
Fontes: As Tormentas (45p) / Lidia Aparício (5p) / PortodeAbrigo (11p) / Poesias e Prosas (18p) / Jornal de Poesia (10p) / Triplo V (ensaio sobre - M.E.Guedes)
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Antes, aqui: Fim
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9.6.08
Leopoldo Maria Panero (A Francisco )

A FRANCISCO
Suave como el peligro atravesaste un día
con tu mano imposible la frágil medianoche
y tu mano valía mi vida, y muchas vidas
y tus labios casi mudos decían lo
que era el pensamiento.
Pasé una noche a ti pegado como a un árbol de vida
porque eras suave como el peligro,
como el peligro de vivir de nuevo.
LEOPOLDO MARIA PANERO
Last night together (1980)
Suave como o perigo atravessaste um dia
com a tua mão impossível a frágil meia-noite
e a tua mão valia a minha vida, e muitas vidas
e os teus lábios quase mudos diziam aquilo
que era o pensamento.
Passei uma noite colado a ti como a uma árvore de vida
porque eras suave como o perigo,
como o perigo de viver de novo.
(Trad. G.S.)
Fontes: A media voz (47p) / TriploV (bio+12p)
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Raul Brandão (Às vezes convoco-os)

(Às vezes, convoco-os...)
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Como em ti, há em mim várias camadas de mortos, não sei até que profundidade.
Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar.
Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.
Nunca os meus me chamaram tão alto.
Sentam-se a meu lado.
Rodeiam-me, e pouco a pouco o círculo da minha vida restringe-se a um ponto - a cova.
- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
Um verso (44)

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(Um poeta menor – é o título dele):
A meta é o olvido. Eu cheguei antes.
Jorge Luís Borges
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6.6.08
Maria Teresa Horta (Minha senhora de mim)
4.6.08
Francisco Sá de Miranda (Comigo me desavim)

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
F. Sá de Miranda
2.6.08
Andrés Eloy Blanco (Silêncio)

Silêncio-2 (M.Quintana)
e eu ficar cego,
restam-nos as mãos
e o silêncio.
e eu envelhecer,
restam-nos os lábios
e o silêncio.
e eu também morrer,
têm de enterrar-nos juntos
e em silêncio;
quando eu tornar a viver,
voltaremos a amar-nos
em silêncio;
para sempre no universo,
há-de ser um silêncio de amor
o silêncio.




