18.12.16

João Guimarães Rosa (Raça daqueles homens)





Raça daqueles homens era diverseada distante, cujos modos e usos, mal ensinada. 

Esses, mesmo no trivial, tinham capacidade para um ódio tão grosso, de muito alcance, que não custava quase que esforço nenhum deles; e isso com os poderes da pobreza inteira e apartada; e de como assim estavam menos arredados dos bichos do que nós mesmos estamos: porque nenhumas más artes do demônio regedor eles nem divulgavam. 

Só o mau fato de se topar com eles, dava soloturno sombrio. 

Apunha algum quebranto. 

Mas mais que, por conosco não avirem medida, haviam de ter rogado praga.

De pensar nisso, eu até estremecia; o que estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

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Raúl Nieto de la Torre (Quarenta graus)





CUARENTA GRADOS



Amo la gran mentira de los ventiladores
cuando el verano deja en la almohada empapada
el sudor amarillo que segregan los sueños.

Amo su inteligente forma de dispersar
los pedazos cansados, también las hojas sueltas,
como si hubiera un orden y ellos fueran la prisa,
como si uno no se pudiera olvidar
el cuaderno en la mesa sin que le hojee el viento
la lista de la compra y unos versos tachados.

Creo en ellos porque pueden cambiar la dirección
de la mosca y del humo, pequeños vengadores
del astro rey, rebeldes como el dedo que hurga
en el bolsillo roto de nuestra realidad.

Creo en el inquietante azar que los mantiene
anclados en un punto fijo mientras sus hélices
desordenan las horas, el pelo, los papeles,
girando apasionados contra todo pronóstico.


Raúl Nieto de la Torre





Amo a mentira dos ventiladores
quando o Verão deixa na almofada empapada
o suor amarelo segregado pelos sonhos.

Amo a sua forma inteligente de espalhar
os pedaços cansados, também as folhas caídas,
como se houvesse uma ordem e eles fossem a pressa,
como se não pudéssemos esquecer
o caderno em cima da mesa sem o vento o folhear
a cheirar a lista das compras e alguns versos manchados.

Creio neles porque podem mudar a direcção
da mosca e do fumo, pequenos vingadores
do astro-rei, rebeldes como o dedo que mexe
no bolso roto da nossa realidade.

Creio no acaso inquietante que os mantém
assentes num ponto fixo, enquanto as suas hélices
desordenam as horas, o cabelo, os papéis,
girando apaixonadamente contra todas as previsões.


(Trad. A.M.)


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17.12.16

Miguel Martins (Que importa o que não temos?)





(1)

Que importa o que não temos
quando a vida leva tudo o que nos dá

e a morte restitui-nos ao silêncio?



MIGUEL MARTINS
Seis poemas para uma morte
(1995)


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16.12.16

Miquel Martí i Pol (Depois de tudo)





DESPUES DE TODO



Después de todo aún queda espacio
para repensar la vida y convertirla
en un ámbito mucho más silencioso,
al amparo de los inhóspitos desbarajustes
y las inevitables adversidades.
Porque el secreto es que no hay secreto
y los ritmos y las pausas son la cara
quizá oculta del tiempo no vivido
mientras hacíamos proyectos y nos jugábamos
el pasado y el futuro en inefables
minucias con ademán circunspecto.
Y ahora ¿qué nos queda además del recelo
y las carencias? ¿Qué compartiremos
con la gente que amamos y nos ama?
¿La oscura complacencia de los secretos
o la riqueza absurda del misterio?
Nada de eso y todo ello, porque el sutil
espejo discreto que nos enciende la mirada
es la nada que siempre descubrimos
sin querer, tercos y audaces,
después de todo, después de cada cosa.


Miquel Martí i Pol

[Life vest under your seat]





Depois de tudo resta ainda espaço
para repensar a vida e convertê-la
em algo muito mais silencioso,
ao abrigo de inóspitos desajustes
e adversidades inevitáveis.
Porque o segredo é não haver segredo
e serem os ritmos e pausas a cara
talvez oculta do tempo não vivido,
quando fazíamos projectos e brincávamos
ao passado e ao futuro com minúcias
e ademanes, muito circunspectos.
E agora, o que resta para além do receio
e das carências? O que partilharemos
com aqueles que amamos e que nos amam?
A opaca transigência dos segredos
ou a riqueza absurda do mistério?
Nada disso e tudo isso, pois o subtil
espelho que nos acende o olhar
é o nada que descobrimos sempre
sem querer, firmes e audazes,
depois de tudo, depois de cada coisa.


(Trad. A.M.)

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15.12.16

João Guimarães Rosa (Não se ajuizaram)





Aquele rio fazia uma grande volta, acolá, clareado, com a vista de uns coqueiros.
Ali era um lugar longe e bonito, como que me acenava.
Mas não endireitamos para ele, porque o rumo determinado era outro, torando desviado muito, consoante.
E mais maninhava.
opar um vivente é que era mesmo grande raridade.
Um homenzinho distante, roçando, lenhando, ou uma mulherzinha fiando a estriga na roca ou tecendo em seu tear de pau, na porta de uma choça, de buriti toda.
Outro homem quis me vender uma arara mansa, que a qual falava toda palavra que tem á. Outra velha, que estava fumando o pito de barro.
Mas ela enrolou a cara no xale, não se ajuizaram os olhos dela.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

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Miguel Barnet (Che)





CHE




Che, tú lo sabes todo,
los recovecos de la Sierra,
el asma sobre la yerba fría
la tribuna
el oleaje en la noche
y hasta de qué se hacen
los frutos y las yuntas

No es que yo quiera darte
pluma por pistola
pero el poeta eres tú.


Miguel Barnet




Che, tu sabes de tudo,
os cantos da Sierra,
a asma na erva fria
as ondas de noite
e até de que se fazem
os frutos e os casais

Não que eu queira dar-te
a pena pela pistola,
mas o poeta és tu.


(Trad. A.M.)

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14.12.16

Mario Quintana (Canção dos romances perdidos)





CANÇÃO DOS ROMANCES PERDIDOS



Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem...
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela...

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz...

Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos...

De onde fugiram todos os retratos...

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!...


Mario Quintana

[Poemblog]

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13.12.16

Meira Delmar (A chamada)




EL LLAMADO



Tú estarás lejos.

Yo dejaré la vida
como un ramo de rosas
que se abandona para
proseguir el camino,
y emprenderé la muerte.

Detrás de mí, siguiéndome,
irán todas las cosas
amadas, el silencio
que nos uniera, el arduo
amor que nunca pudo
vencer el tiempo, el roce
de tus manos, las tardes
junto al mar, tus palabras.

Si donde estés tú oyes
que alguna voz te nombra,
seré yo que en el viaje
te recuerdo.


Meira Delmar




Tu estarás longe.

Eu deixarei a vida
como um ramo de rosas
que se abandona para
prosseguir caminho,
e entrarei na morte.

Atrás de mim, a seguir-me,
irão as coisas amadas, o silêncio
que nos unia, o árduo
amor que o tempo
nunca pôde vencer, o toque
das tuas mãos, as tardes
à beira-mar, as tuas palavras.

Se ouvires, lá onde estás,
uma voz a nomear-te,
sou eu na viagem
a recordar-te.

(Trad. A.M.)

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12.12.16

João Guimarães Rosa (Currais-do-Padre)




Nem eu não queria arreliar Zé Bebelo.
Mas, para mim, ele estava muito errado: pelos passos e movimentos, porque gostava prático da guerra, do que provava um muito forte prazer; e por isso não tinha boa razão para um resultado final.
Assim achei, espiando o alto céu, que é com as nuvens e os urubus repartido.
Deponho: de que é que aquilo me adiantava?
E chuvas dadas, derramadas.
Aí, vai, chegamos no Currais-do-Padre.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


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Mario Benedetti (Ser outro)





SER OTRO



No hay ser humano
que no quiera ser otro
y meterse en ese otro
como en una escafandra
como en un aura talvez o en una bruma
en un seductor o en un asceta
en un aventurero o un boyante

solo yo no quisiera ser otro
mejor dicho yo
quisiera ser yo
pero un poco mejor.


MARIO BENEDETTI
La vida ese paréntesis
(1998)




Não há ser humano que não queira ser outro
e meter-se nesse outro como num escafandro
como numa aura talvez ou na bruma
num sedutor ou asceta
num aventureiro ou felizardo

só eu é que não queria ser outro
melhor dizendo eu
queria ser eu
mas um pouco melhor


(Trad. A.M.)

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11.12.16

Marina Colasanti (Frutos e flores)





FRUTOS E FLORES



Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me trespassa.


Marina Colasanti

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10.12.16

Tom Maver (Mudanças)





MUDANZAS


1
Hay una madre gritándole a su hijo.
Hay un portazo, un gemido, dos silencios.
Los pasos de un viejo en el pasillo
marcan el tiempo, más que los ruidos del ascensor.
Un teléfono inconsolable suena
en un departamento donde nadie quiere atenderlo.
Alguien tira la basura como si de algo se salvara.

2
Poco va quedando de mí.
En cada mudanza
dejo algo atrás, a veces con olvido,
a veces con algo de solemnidad.

Y me instalo apenas
como polvo sobre un piso sin amueblar
listo para cuando sea el momento
de dejar mi nueva casa.

Pero hay veces que tardo en irme
y como ropa en un cajón, me acumulo,
empiezo a vivir casi sin enterarme, 
tapo las humedades, pinto, traigo una cama.

Para cuando llega la señal de que debo partir,
limpio en serio, ordeno, barro y , si hace falta
cambio las cosas de sitio
para ver si acaso éste se parece, si puede haber sido
aquel sitio que no quise dejar la primera vez.


3
¿Dónde estoy?
Hace tanto frío y estoy inquieto.
Me pareció escuchar un llamado,
ruidos, quizá alguien que se fue.
Si es así, hace bien, acá nadie es bueno,
todos se van y no tengo con quien hablar.
Pero suena el teléfono y temo
que sean los de la compañía para avisarme
que cortarán la línea por falta de pago.
Es cierto que tampoco estoy al día con las expensas
y me miran raro en las reuniones de consorcio
que no puedo eludir por algún motivo,
y cuando me alejo por el pasillo
hablan con tanta pasión mal de mí
que casi me pone contento su entusiasmo.

Con el tiempo me fueron sacando los muebles
como forma de pago, luego la ropa,
los electrodomésticos, y así
llegué a sentir que de algún modo
yo también me mudaba, muy a pesar mío,
que mi casa era otra: una cada vez
más espaciosa, más fría, es cierto,
pero debo decir que con más luz.


Tom Maver




1
Há uma mãe que grita com o filho,
um bater de porta, um gemido, dois silêncios.
Os passos de um velho no corredor
marcam o tempo, mais que os ruídos do elevador.
Um telefone toca inconsolável
num compartimento onde ninguém quer atender.
Alguém atira o lixo como se de algo se salvasse.

2
Pouco vai restando de mim,
em cada mudança
deixo algo para trás, às vezes por esquecido,
outras com algo de solene.

E instalo-me apenas
como pó em andar não mobilado,
pronto para quando for tempo
de deixar a nova casa.

Mas vezes há em que tardo a ir,
acumulo-me, como a roupa no gavetão,
começo a viver quase sem dar conta,
tapo as humidades, pinto, ponho uma cama.

E quando chega o sinal da partida,
limpo a sério, arrumo, varro e se for preciso
troco as coisas de lugar
a ver se este acaso se parece, se pode ser
aquele lugar que primeiro não quis deixar.


3
Onde estou?
Faz tanto frio e estou inquieto,
pareceu-me ouvir chamar,
ruídos, talvez alguém que se foi.
Se for, está bem, aqui ninguém presta,
todos vão embora e eu não tenho com quem falar.
Mas toca o telefone e eu temo
que seja da companhia a avisar-me
de corte por falta de pagamento.
É certo que também não estou em dia com as quotas
e na reunião do condomínio olham para mim de lado,
falando tão mal de mim quando me afasto pelo corredor,
que a raiva deles quase me deixa contente.

Com o tempo fui ficando sem os móveis,
penhorados, depois a roupa,
os electrodomésticos, e assim
cheguei a sentir que também eu
de certo modo me mudava, muito a meu pesar,
que a minha casa era outra, uma casa
cada vez mais espaçosa, mais fria, é verdade,
mas devo dizer com bem mais luz.


(Trad. A.M.)


 .

9.12.16

João Guimarães Rosa (Dar bote)





Agora, o que era que se esperava? 
Só Zé Bebelo decerto podia responder, mas ele não dava senha de mudança.
Onde o normal.
Aí já se via o dia quase em fim, com as cores do sol.
Voavam uns guaxes.
Dos soldados e dos judas, quase que não se ouvia empipoco de arma, só os tiros salteados, a cá e lá, como se escasso quisessem briga.
A gente sobrossosa, nesse ensino de onça, traiçoeiros todos.
Astúcias que manobrando em esconso deviam de estar, para trás e para os lados, pelo jeito melhor de pegarem o encoberto dos lugares, querendo enrolar os outros, para o remate de dar bote.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

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Luis Feria (Poema)





POEMA



Llamadlo sólo agua
libre
de todo inútil nombre pasajero.

Dejad luego que siga
su lento respirar ensimismado.

Luis Feria




Chamai-lhe água apenas,
livre 
de qualquer inútil nome transitório.

Depois deixai-o seguir
no seu lento respirar ensimesmado.


(Trad. A.M.)


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8.12.16

Maria do Rosário Pedreira (Ainda bem)





Ainda bem
que não morri de todas as vezes
que quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.


Maria do Rosário Pedreira


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7.12.16

Mariano Crespo (Rasgão)





ROTO



Lo que me gusta de la mujer
es esa búsqueda inquietante
de animal espiritual y ángel en celo
que tantas veces rozo y nunca encuentro.

Esa distancia cercana del lejos debajo de tu pelo.

Aquello que procede del roto que deja el misterio.


Mariano Crespo





O que amo na mulher
é essa busca inquietante
de animal espiritual e anjo de cio
que toco tanta vez e jamais encontro.

Essa distância vizinha do longe
por debaixo do teu cabelo.

Aquilo que sai do rasgão
que o mistério abre.


(Trad. A.M.)

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6.12.16

María Laura Decésare (Confissão)





CONFESIÓN



Si pudiéramos

escribir sobre lo escrito
y así borrar el silencio
como si en un verso
se nos fuera la vida


María Laura Decésare





Se pudéssemos
escrever sobre o escrito
e assim apagar o silêncio
como se num verso
nos fora a vida toda


(Trad. A.M.)

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5.12.16

Manuel de Freitas (Chão antigo)





CHÃO ANTIGO



É pena que já não existam
esses lugares imundos – puros, quero eu
dizer – onde a morte entrava
sem ter de pedir licença.
Lugares onde eram por igual sinceros
o sono, o vómito ou a sombra de um abraço
(Maiakovski e Céline tinham a mesma importância
e a sorte de não serem futebolistas).

É pena que já não possamos
comemorar no chão a derrota
do corpo pela manhã. Ao lavarem
os copos, da última vez, houve duas
ou três gerações que se partiram.
Talvez eu pertencesse a uma delas – mas
isso, ao poema, importa muito pouco.

Há um lugar que escreve sobre
a ausência de todos os lugares.
Tonéis de vários tamanhos
onde inscrevi, por distracção,
o único nome verdadeiro.
Estou a falar, naturalmente,
de tabernas.
Mas talvez não seja apenas isso.


 MANUEL DE FREITAS
A flor dos terramotos
(Averno)


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4.12.16

Alfonsina Storni (Homem pequeno)





HOMBRE PEQUEÑITO



Hombre pequeñito, hombre pequeñito,
Suelta a tu canario que quiere volar...
Yo soy el canario, hombre pequeñito,
Déjame saltar.

Estuve en tu jaula, hombre pequeñito,
Hombre pequeñito que jaula me das.
Digo pequeñito porque no me entiendes,
Ni me entenderás.

Tampoco te entiendo, pero mientras tanto
Ábreme la jaula que quiero escapar;
Hombre pequeñito, te amé media hora,
No me pidas más.


Alfonsina Storni




Homem pequeno, homem pequeno,
solta o canário que quer voar...
Eu sou o canário, homem pequeno,
deixa-me saltar.

Estive na jaula, homem pequeno,
homem pequeno que jaula me dás.
Pequeno digo pois não me entendes,
nem me entenderás.

Eu tão pouco te entendo, mas entretanto
abre-me a jaula, que quero escapar;
homem pequeno, amei-te uma hora,
não me peças mais.



(Trad. A.M.)

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3.12.16

Raúl Sánchez (Não foi nada)





NO HA SIDO NADA



Lo mismo que se cuenta una tragedia
que no llegó a ocurrir aunque hubo un breve
intervalo de ansiosa incertidumbre
durante el que se dieron por sentados

los más negros presagios concebibles
(que acaban por cobrar más importancia
que lo que en realidad ha sucedido:
curiosa condición del ser humano),

en ocasiones temo tanto verme
de pronto, sin tu amor, desguarecido
que no consigo mantener la calma

y un miedo irracional se me apodera
hasta que me sonríes y murmuro
la más hermosa de las frases hechas:

'para lo que podía haber pasado...'.


Raúl Sánchez




Tal como se conta uma tragédia
que não chegou a dar-se, embora houvesse
um breve lapso de incerteza ansiosa
em que se deram por assentes

os mais negros presságios
(que acabam por ter mais importância
do que o realmente acontecido
- condição curiosa do ser humano),

às vezes temo tanto ver-me
de repente, sem teu amor, desvalido,
que não consigo manter a calma

e toma-me um medo irracional
até que tu me sorris e eu murmuro
a mais bela das frases feitas:

‘para aquilo que podia ter acontecido...’.


 (Trad. A.M.)

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