3.6.11

César Vallejo (Considerando friamente)





Considerando en frío, imparcialmente,
que el hombre es triste, tose y, sin embargo,
se complace en su pecho colorado;
que lo único que hace es componerse de días;
que es lóbrego mamífero y se peina...

Considerando
que el hombre procede suavemente del trabajo
y repercute jefe, suena subordinado;
que el diagrama del tiempo
es constante diorama en sus medallas
y, a medio abrir, sus ojos estudiaron,
desde lejanos tiempos,
su fórmula famélica de masa...

Comprendiendo sin esfuerzo
que el hombre se queda, a veces, pensando,
como queriendo llorar,
y, sujeto a tenderse como objeto,
se hace buen carpintero, suda, mata
y luego canta, almuerza, se abotona...

Considerando también
que el hombre es en verdad un animal
y, no obstante, al voltear, me da con su tristeza en la cabeza...

Examinando, en fin,
sus encontradas piezas, su retrete,
su desesperación, al terminar su día atroz, borrándolo...

Comprendiendo
que él sabe que le quiero,
que le odio con afecto y me es, en suma, indiferente...

Considerando sus documentos generales
y mirando con lentes aquel certificado
que prueba que nació muy pequeñito...

le hago una seña,
viene,
y le doy un abrazo, emocionado.
¡Qué más da! Emocionado... Emocionado...


CÉSAR VALLEJO
Poemas humanos
(1939)


[Cómo cantaba mayo]




Considerando friamente, de modo imparcial,
que o homem é triste, tosse e, no entanto,
se compraz em seu peito encarnado;
que o mais que faz é compor-se de dias;
que é lôbrego mamífero e se penteia...

Considerando
que o homem procede suavemente do trabalho
e repercute chefe, soando subordinado;
que o diagrama do tempo
é constante diorama em suas medalhas
e, a meio abrir, seus olhos estudaram,
desde tempos distantes,
sua fórmula famélica de massa...

Compreendendo sem esforço
que o homem se fica, às vezes, pensando,
como a querer chorar,
e, obrigado a estender-se como objecto,
faz-se bom carpinteiro, sua, mata
e depois canta, almoça, abotoa-se...

Considerando também
que o homem é de verdade um animal
e, não obstante, ao voltear dá-me com a tristeza na cabeça...

Examinando enfim
seus cómodos, sua retrete,
seu desespero a apagá-lo, ao terminar seu dia atroz...

Compreendendo
que ele sabe como lhe quero,
que afectuosamente o odeio
e que me é em suma indiferente...

Considerando seus documentos
e examinado à lupa o certificado
provando que nasceu pequenino...

faço-lhe um sinal,
ele vem
e dou-lhe um abraço, emocionado.
Que mais dá! Emocionado, emocionado...


(Trad. A.M.)



Outra versão: Luz & sombra (J.E.Simões)

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2.6.11

Manuel Bandeira (Desencanto)






DESENCANTO




Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.



Manuel Bandeira

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Roger Wolfe (Mulheres)


 



MUJERES


  

En verano nunca sé muy bien
si es que las mujeres se van quitando ropa
o es que no terminan de ponérsela.
En cualquier caso me enloquece. Maduras
como esas fresas rojas, supurantes,
que me has traído esta mañana.
  

Roger Wolfe




  

Nunca sei muito bem no verão
se as  mulheres começam a tirar a roupa
ou se não acabam de a vestir.
De qualquer modo deixam-me louco. Maduras
como aqueles morangos vermelhos, sumarentos,
que me trouxeste de manhã.


(Trad. A.M.)




>>  Roger Wolfe (sítio: tudo+algo) / A media voz (21p) / Abel Martin (antol. 40p) / Wikipedia


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1.6.11

Bertolt Brecht (Hino a Deus)





HINO A DEUS



1
Fundo nos vales escuros morrem os famintos.
Mas tu mostras-lhes pão e deixa-los morrer.
Mas tu reinas eterno e invisível
Resplendente e cruel por sobre o plaino eterno.

2
Deixaste morrer os jovens e os gozadores
Mas os que queriam morrer, não os deixaste...
Muitos dos que agora já apodreceram
Criam em ti e morreram confiantes.

3
Deixaste os pobres serem pobres anos a fio
Porque a sua saudade era mais bela que o teu céu
Morreram infelizmente, antes de tu vires com a tua luz
Morreram eles felizes - e apodreceram logo.

4
Muitos dizem que não existes e que é melhor assim.
Mas como pode não existir o que assim pode enganar?
Quando tantos puderam viver de ti e de outro modo não puderam morrer -
Diz-me: perante isto que quer dizer - que tu não existes?


Bertolt Brecht

(Trad. Paulo Quintela)




[Luz & sombra]

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Celso Emilio Ferreiro (Libremente)






LIBREMENTE





Nós queríamos libremente
comer o pan de cada día. Libremente
mordelo, masticalo, dixerilo sin medo,
libremente falando, cantando nas orelas
dos ríos que camiñan pra o mar libre.
Libremente, libremente,
nós queríamos somente
ser libremente homes, ser estrelas,
ser faíscas da grande fogueira do mundo,
ser formigas, paxaros, miniños,
nesta arca de Noé na que bogamos.
Nós queríamos libremente surrir,
falarlle a Dios no vento que pasa
-no longo vento das chairas e dos bosques-
sin temor, sin negruras, sin cadeas,
sin pecado, libremente, libremente,
coma o aire do mencer e das escumas.
Coma o vento.
Mais iste noso amor difícil rompeuse
-vidro de soño fráxil-
nun rochedo de berros
e agora non somos máis que sombras.



Celso Emilio Ferreiro



[Marcelo Leites]


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31.5.11

Armando Silva Carvalho (Louvor e imitação de Herberto Helder)






LOUVOR E IMITAÇÃO DE HERBERTO HELDER
 




Os poemas quebrados, a fulgurante loucura
dos cometas, os mártires que revolvem
a terra como antigamente
vigiam os velhos templos onde ardia o azeite
dos sábios, o uivo pleno da noite
aquecida pelos séculos.
O mar está branco, amor – diz a criatura
à outra criatura – volvendo os olhos para os cimos de ouro
do passado impassível.
É este o fogo que me traz o vento, a química
da voz que os dentes enobrecem.
Nas trevas não há mundo, um sol negro e redondo
era um templo do cérebro ao encontro da língua
como as mãos do vinagre e a boca no cálcio.
Quanto mais seco se. Através da próstata.
Das guardas imperfeitas que me surgem nas veias.
Mais sumo, mais ardor na pupila deserta.
E as vozes do enxofre explodiam na terra.
Não há exemplos novos, nem modelos inócuos.
O brilho incandescente do milagre atravessa-me
a espinha, é uma planta carnívora que me sobe
dos pés. As virilhas sulfuram quando o sangue
as arrasta pela memória aberta.
Ó armas e bagagens! Cordeiros tão nervosos
que não comem sopa. Sapatos tão ordeiros
que não bebem vinho.
Mamilos como um fruto que se tece na seda.
Peixes na bexiga, mar novo entrando às cegas
nos buracos dos nervos.
Caem ovos podres nos charcos da desgraça
e as palavras despenham-se ao sabor das imagens.

            (...)

 
Armando Silva Carvalho


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30.5.11

Félix Grande (Casida da madrugada alta)





CASIDA DE LA ALTA MADRUGADA




Cuando te acuerdes de mi cuerpo
y no puedas dormir
y te levantes medio desnuda
y camines a tientas por tus habitaciones
borracha de estupor y de rabia

en algún lugar de la Tierra
yo andaré insomne por algún pasillo
careciendo de ti toda la noche
oyéndote ulular muy lejos y escribiendo
estos versos degenerados.


Félix Grande




Quando te lembrares do meu corpo
e não conseguires dormir
e te levantares meio despida
e andares às escuras pela casa
bêbeda de raiva e estupor

eu andarei insone por um corredor
num qualquer lugar da Terra
a precisar de ti toda a noite
a ouvir-te gritar muito longe e a escrever
estes versos degenerados.


(Trad. A.M.)




>>  A media voz (34p)  /  Wikipedia


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29.5.11

Alda Merini (Quem tiver medo da morte)





Chi ha paura della morte si offenda.
La morte è una riviera musicale,
il seno curvo della donna amata.
Non c'è spazio tra l'uomo e la sua morte.
Soltanto il batticuore di un nemico che ride al suo passaggio



Alda Merini





Que se ofenda quem tiver medo da morte.
A morte é uma costa musical,
a curva do seio da mulher amada.
Entre o homem e a sua morte não existe espaço.
Apenas o pulsar de um inimigo que lhe ri à passagem.



(Trad. A.M.)

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Ulalume González (Palavra)






PALABRA




Pronunciada palabra
tán sola
tán desnuda:
regrésate a vestirte de indecible.


Ulalume González de León





Pronunciada palavra
tão só
tão desnuda,
volta a vestir-te de indizível.


(Trad. A.M.)



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28.5.11

Saul Dias (Sangue)






SANGUE




Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...



É só com sangue que se escrevem versos.






[Silva]


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Chantal Maillard (Intervalo)







INTERMEDIO





Entre una imagen tuya
y otra imagen de ti
el mundo queda detenido.
En suspenso. Y mi vida
es ese pájaro pegado al cable
de alta tensión,
después de la descarga.


Chantal Maillard





Entre uma imagem tua
e outra imagem de ti
o mundo fica parado.
Em suspenso. E a minha vida
é aquele pássaro agarrado
ao cabo de alta tensão
após a descarga.


(Trad. A.M.)


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27.5.11

Olhar (96)








O sole mio...

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Carlos Marzal (O poço selvagem)






EL POZO SALVAJE




Por más que aburras esa melodía
monótona y brumosa de la vida diaria,
y que te amansa;
por más lobo sin dientes que te creas;
por más sabiduría y experiencia y paz de espíritu;
por más orden con que hayas decorado las paredes,
por más edad que la edad te haya dado,
por muchas otras vidas que los libros te alcancen,
y añade lo que quieras a esta lista,
hay un pozo salvaje al fondo de ti mismo,
un lugar que es tan tuyo como tu propia muerte.
Es de piedra y de noche, y de fuego y de lágrimas.
En sus aguas dudosas
reposa desde siempre lo que no está dormido,
un remoto lugar donde se fraguan
las abominaciones y los sueños,
la traición y los crímenes.
Es el pozo de lo que eres capaz
y en él duermen reptiles, y un fulgor
y una profunda espera.
En tu rostro también, y tú eres ese pozo.

Ya sé que lo sabías. Por lo tanto,
acepta, brinda y bebe.



CARLOS MARZAL
Los países nocturnos
(1996)







Por mais que aborreças essa melodia
da vida quotidiana, chata e nevoenta,
que te serena;
por mais lobo sem dentes que te creias;
por mais saber, experiência e paz de espírito;
por mais ordem que ponhas a decorar as paredes,
por mais idade que a idade te dê,
por mais vidas que os livros te ofereçam,
e acrescenta a esta lista aquilo que quiseres,
há um poço selvagem no fundo de ti mesmo,
um lugar tão teu como a tua própria morte,
de pedra e de noite, de fogo e de lágrimas.
Em suas duvidosas águas
repousa desde sempre o que não dorme,
um remoto lugar onde se forjam
abominações e sonhos,
crimes e traição.
É o poço do que és capaz,
onde dormem répteis e há um fulgor
e uma profunda espera.
No teu rosto também, tu és esse poço.

Já sei que o sabias. Por isso,
aceita, brinda e bebe.


(Trad. A.M.)


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26.5.11

Amadeu Baptista (O centro do mundo)








O CENTRO DO MUNDO (16)





 Não leves nenhum desespero para casa.
 Os que sofrem hoje
 não são os que sofrerão amanhã.
 Os que imploram hoje
 não são os que implorarão amanhã.
 A medida de todas as coisas
 é como a mulher que chora no centro do mundo.
 Chora para constatar que está viva.
 Serve-te de um copo de leite.
 Vê como é branco.
 Constata como é puro.
 Observa como só até um preciso momento
 é útil e fruível,
 Qualquer pergunta que possas fazer sobre ti
 terá sempre uma única resposta
dentro de ti.
 És como o leite,
 puro e fruível
 até ao preciso momento em que se ferve
 ou azeda.




AMADEU BAPTISTA
Arte do Regresso
(1999)


25.5.11

Federico García Lorca (Adelina, de passeio)







ADELINA, DE PASEO




La mar no tiene naranjas,
ni Sevilla tiene amor.
Morena, qué luz de fuego.
Préstame tu quitasol.


Me pondrá la carne verde
-zumo de lima y limón-,
tus palabras -pececillos-
nadarán alrededor.


La mar no tiene naranjas.
¡Ay!, amor.
¡Ni Sevilla tiene amor!


Federico García Lorca





O mar não tem laranjas,
nem Sevilha tem amor.
Morena, que luz de fogo.
Dá-me o teu guarda-sol.


Há-de pôr-me a carne verde
- sumo de lima e limão –
tuas palavras – peixinhos –
nadarão em redor.


O mar não tem laranjas.
Ai, amor.
Nem Sevilha tem amor!


(Trad. A.M.)





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24.5.11

W. B. Yeats (Uma canção da bebida)






A DRINKING SONG




Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That's all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.


W. B. Yeats





Entra pela boca o vinho,
o amor é pelos olhos,
eis tudo o que sabemos realmente
antes de envelhecer e morrer.
Levo o copo à boca,
olho para ti, e suspiro.


(Trad. A.M.)

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Blas de Otero (Na imensa maioria)






EN LA INMENSA MAYORIA




Podrá faltarme el aire,
el agua,
el pan,
sé que me faltarán.

El aire, que no es de nadie.
El agua, que es del sediento.
El pan... Sé que me faltarán.

La fe, jamás.

Cuanto menos aire, más.
Cuanto más sediento, más.

Ni más ni menos. Más.



Blas de Otero





Poderá faltar-me o ar,
a água,
o pão,
sei que me faltarão.

O ar, que não é de ninguém.
A água, que é do sedento.
O pão... Sei que me faltarão.

A fé, jamais.

Quanto menos ar, mais.
Quanto mais sedento, mais.

Nem mais nem menos. Mais.


(Trad. A.M.)

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23.5.11

Fernando Assis Pacheco (A namoradinha de organdi)






A NAMORADINHA DE ORGANDI

 


Como na dança ritual dos patos colhereiros se te amei
foi a cem por cento da minha capacidade metafórica
mas copiado de livros onde o herói sempre enviuvava


cruzei imensas vezes sob a tua varanda com glicínias
pensando numa cena infeliz à moda do Harold


eu sonhava contigo?
eu assoava-me ao pijama!


Fernando Assis Pacheco



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Antonio Orihuela (São becos)







Son callejones
mis cinco sentidos,
por fiarme de ellos
ando perdido.


Antonio Orihuela





São becos
meus cinco sentidos,
por me fiar neles
ando perdido.


(Trad. A.M.)



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22.5.11

Russell Edson (A autópsia)






THE AUTOPSY




In a back room a man is performing an autopsy
on an old raincoat.
His wife appears in the doorway with a candle
and asks, how does it go?
Not now, not now, I’m just getting to the lining,
he murmurs with impatience.
I just wanted to know if you found any blood clots?
Blood clots?
For my necklace.


Russell Edson





Numa sala das traseiras um homem está a fazer autópsia
duma velha gabardina.
A mulher aparece com uma vela no vão da porta
e pergunta, como é que isso vai?
Agora não, agora não, diz ele impaciente,
estou a chegar ao forro.
Eu só queria saber se achaste algum coágulo de sangue.
Coágulo de sangue?
Sim, para o meu colar.


(Trad. A.M.)


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