7.10.10

José Rentes de Carvalho (Aleluia)





Chegou a festa.

Nessa noite os meus progenitores devem finalmente ter posto de lado as inibições de que tinham sofrido, e a esperança de daí a pouco irem mudar de vida também terá ajudado; mas o mais certo é que a euforia, e os copos de licor que era costume beber para festejar o santo e aliviar o peso dos comeres, lhes tenham feito esquecer a aberração do incesto.

E como do 10 de Agosto em que se celebra a festa nos Estevais aos 15 de Maio em que nasci em Vila Nova de Gaia vão, mais dia menos dia, os nove meses da regra, a probabilidade é grande que me tenham gerado no arraial de São Lourenço de 1929.

Aleluia!



- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 105.

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6.10.10

Juan Luis Panero (Meditação idiota)







MEDITACIÓN IDIOTA A LA HORA DE ACOSTARSE SOLO




Si has dicho, y repetido en tantas ocasiones
que tu único amor es una maleta,
por qué te quejas y protestas
mientras miras el techo sobre tu cama solitaria?
Víctima, juez, y al final verdugo,
aún puedes sentir que te estremeces porque alguien te quiere,
pero tú elegiste, en cierto modo, ese destino,
y ahora debes pagar el precio.
Tú, que pronunciaste «te quiero», tantas veces,
para reírte luego de tu propia frase,
¿qué esperas?, ¿a quién pides en vano?
Si cuando encuentras a alguien que comparte tus días,
tus noches más terribles, tu suma de fracasos,
te da miedo decirle «sigamos juntos siempre»,
aunque sea una frase, aunque no te lo creas,
¿qué final es el tuyo?, ¿qué es lo que aguardas?
Y si también te quejas de las grotescas farsas
que a menudo, inútiles, construyes
con frívolas historias, palabras mercenarias,
¿qué pretendes?, ¿qué pides a la vida?
La vida no es un juego, debiste comprenderlo,
y si hay algo muy claro es que has envejecido.
Confórmate y aguanta, y no pidas milagros,
que el vodka te acompañe al silencio y al sueño.
A los pies de tu cama, como una perra en celo,
la muerte, desvelada, te da las buenas noches.



Juan Luis Panero






Se tens dito e repetido em tantas ocasiões
que o teu amor é uma mala,
porque te queixas e protestas
enquanto olhas o tecto por cima da cama solitária?
Vítima, juiz e no fim verdugo,
ainda podes sentir-te estremecer
por alguém te amar,
mas tu escolheste, de certo modo, esse destino
e agora tens de pagar o preço.
Tu, que disseste “amo-te” tanta vez,
para depois te rires da tua própria frase,
o que esperas? A quem pedes em vão?
Se ao encontrares alguém que partilha os teus dias,
tuas noites mais terríveis, tua soma de fracassos,
tens medo de dizer-lhe “continuemos juntos sempre”,
embora seja apenas uma frase, em que não crês,
qual será o teu fim? Estás à espera de quê?
E se te queixas também das farsas grotescas
que amiúde, inúteis, constróis
com frívolas histórias, palavras mercenárias,
o que é que pretendes? O que pedes à vida?
A vida não é um jogo, devias entendê-lo,
e se algo é muito claro é que envelheceste.
Conforma-te, aguenta e não peças milagres,
que o vodka te acompanhe ao silêncio e ao sono.
Aos pés da cama, como uma cadela com cio,
a morte, descoberta, dá-te as boas noites.


(Trad. A.M.)

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Ver (59)







Nova Zelândia




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5.10.10

Alda Merini (Os poetas trabalham de noite)






I poeti lavorano di notte
quando il tempo non urge su di loro,
quando tace il rumore della folla
e termina il linciaggio delle ore.


I poeti lavorano nel buio
come falchi notturni od usignoli
dal dolcissimo canto
e temono di offendere Iddio.


Ma i poeti, nel loro silenzio
fanno ben più rumore
di una dorata cupola di stelle.



Alda Merini







Os poetas trabalham de noite
quando o tempo não os aperta,
quando se cala o barulho da multidão
e termina o linchamento das horas.


Os poetas trabalham no escuro
como nocturnos falcões ou rouxinóis
de dulcíssimo canto,
temendo ofender a Deus.


Os poetas, no entanto, com seu silêncio
fazem bem mais barulho
do que uma cúpula dourada de estrelas.


(Trad. A.M.)

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Josefa Parra (O excesso)






EL EXCESO




He de beberte a sorbos muy pequeños,
deletrear las frases, hacer alto
después de cada encuentro,
cerrar los libros de las confidencias,
amarte muy despacio, y distanciando
los besos como islas.


Josefa Parra Ramos



[Noctambulario]






Hei-de beber-te com goles pequeninos,
soletrar as frases, fazer alto
depois de cada encontro,
fechar os livros das confidências,
amar-te devagarinho, distanciando
os beijos como ilhas.


(Trad. A.M.)

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4.10.10

Camilo Pessanha (Porque o melhor, enfim)






PORQUE O MELHOR, ENFIM




Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!


Sorrindo interiormente,
Coas pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas.


Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.


Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.


Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva


Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.


Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício


Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...


Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,


Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...


Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fracturam-se as maxilas...


E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.



Camilo Pessanha

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3.10.10

Oliverio Girondo (Escrúpulo)






ESCRÚPULO



Me parece que vivo,
que estoy entre los ruidos,
que miro las paredes,
que estas manos son mías,
pero quizás me engañe
y paredes y manos
sólo sean recuerdos
de una vida pasada.
He dicho "me parece"
yo no aseguro nada.


Oliverio Girondo





Parece-me que vivo,
que estou entre os ruídos,
que contemplo as paredes,
que estas mãos são minhas,
mas talvez me engane
e paredes e mãos
sejam apenas lembranças
de uma vida passada.
Eu disse “parece-me”
não asseguro nada.


(Trad. A.M.)


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Alberto de Serpa (Calor)





CALOR




O sol a prumo sobre a praça parada...


As janelas têm as portadas fechadas à quentura.
Dentro das casas a vida está suspensa.


À sombra abafada de uma árvore,
um cão vagabundo dormita estendido,
e garotos brincam pacíficos e silenciosos.


Detrás dos balcões das casas comerciais,
os caixeiros bocejam e enxotam as moscas,
enquanto os patrões lêem os jornais e bocejam,
passando os lenços pelas frontes suadas.


Na torre da igreja, o relógio atrasado
dá uma hora vaga que ninguém espera...


A água cai do chafariz inútil...



Alberto de Serpa

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2.10.10

José Luís Peixoto (Fingir que está tudo bem)






FINGIR QUE ESTÁ TUDO BEM




fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.



José Luís Peixoto




>>  nEscritas (antologia-homenagem)  /  José Luís Peixoto (sítio)

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Agustín García Calvo (Livre te quero)







LIBRE TE QUIERO




Libre te quiero,
como arroyo que brinca
de peña en peña.
Pero no mía.

Grande te quiero,
como monte preñado
de primavera.
Pero no mía.

Buena te quiero,
como pan que no sabe
su masa buena.
Pero no mía.

Alta te quiero,
como chopo que al cielo
se despereza.
Pero no mía.

Blanca te quiero,
como flor de azahares
sobre la tierra.
Pero no mía.

Pero no mía
ni de Dios ni de nadie
ni tuya siquiera.


Agustin García Calvo




Livre te quero,
como riacho que brinca
de pedra em pedra.
Mas não minha.

Grande te quero,
como monte prenhe
de Primavera.
Mas não minha.

Boa te quero,
como pão que não sabe
sua massa boa.
Mas não minha.

Alta te quero,
como choupo que no céu
se espreguiça.
Mas não minha.

Branca te quero
como flor de noivado
sobre a terra.
Mas não minha.

Mas não minha
nem de Deus nem de ninguém
nem sequer tua.


(Trad. A.M.)



>>  Wikipedia



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1.10.10

Albano Martins (Entardecer na Praia da Luz)





ENTARDECER NA PRAIA DA LUZ




Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
das buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.


ALBANO MARTINS
Castália e Outros Poemas
Campo das Letras
(2001)




[Hospedaria Camões]


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Lawrence Durrell (O khamsin)





No decurso dessa segunda Primavera o khamsin foi o pior de que eu guardo memória.

Antes do poente, o céu do deserto tornava-se castanho, depois ia escurecendo lentamente, entumecia-se como uma face esbofeteada e fazia explodir as franjas das nuvens, gigantescas oitavas de almagre que se acumulavam sobre o delta como cortinas de cinzas debaixo de um vulcão.

A cidade contrai-se como preparando-se para enfrentar uma tempestade.

Algumas rajadas de vento trazendo esparsas gotas de chuva são as guardas avançadas da obscuridade que apaga o céu.

E, impalpável, invisível, na obscuridade das alcovas com as persianas fechadas, a areia invade tudo, aparece, como por magia, nas roupas há muito fechadas nos armários, insinua-se entre as páginas dos livros, deposita-se sobre os quadros e sobre as colheres.

Nas fechaduras e debaixo das unhas.

O ar soluça, vibra, seca as mucosas e injecta os olhos de sangue.



- LAWRENCE DURREL, Justine (3.ª parte), trad. Daniel Gonçalves.


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30.9.10

José Luis García Martín (A ameaça)






LA AMENAZA




La dorada basura de los años
me ha ido acostumbrando a vivir entre sueños;
ninguna sonrisa se desvanece en mi memoria;
los ojos que una vez me miraron
incitantes o quizá sin verme
siguen fijos para siempre en mí;
una amable palabra distraída
para todo el invierno enciende un fuego;
cualquier borroso amor
que apenas si llega a ser amor
se transforma en un árbol inmenso cuyas ramas
me protegen del sol inclemente.
Piedra a piedra he construido una casa
sin puertas ni ventanas,
un jardín
del tamaño del mundo,
una celda
donde me encierro con todas las cosas que amo.


Algunas noches salgo,
bien protegido el corazón,
en busca del botín: un pretexto,
un mínimo pretexto adolescente,
para seguir soñando.
Y esta mañana
al despertar
atónito comprendo
que sigues sonriendo entre mis brazos.
Tú no eres un sueño, estoy perdido.



JOSÉ LUIS GARCIA MARTIN
Principios y finales
(1997)






O lixo dourado dos anos
foi-me habituando a viver por entre sonhos;
nenhum sorriso se me desvanece na memória;
os olhos que uma vez me olharam
estimulantes ou talvez sem me verem
continuam fixos em mim para sempre;
uma distraída palavra amável
acende a fogueira para o Inverno todo;
um qualquer amor incipiente
que mal chega a ser amor
transforma-se numa árvore imensa
cujos ramos
me protegem da inclemência do sol.
Pedra a pedra construí uma casa
sem portas nem janelas,
um jardim
do tamanho do mundo,
uma cela
onde me encerro com todas as coisas
que amo.


Algumas noites saio,
coração bem protegido,
buscando o botim: um pretexto,
um mínimo pretexto adolescente,
para continuar sonhando.
E esta manhã
ao despertar
atónito compreendo
que continuas sorrindo nos meus braços.
Não és um sonho, tu, estou perdido.


(Trad. A.M.)

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A.M.Pires Cabral (De volta a casa)






DE VOLTA A CASA




De volta a casa, repetes os gestos
adequados ao lugar donde jamais
devias ter saído.


Mas a casa já não tem
os ecos de antigamente.
Já não responde, já não abriga,
já são só paredes sem sentido.


Tudo mudou, percebes?, e és agora
um sem-abrigo abrigado
na tua própria casa.


Um filho pródigo para cujo regresso
o pai não matou o melhor cabrito.



A.M. Pires Cabral

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29.9.10

Vinicius de Moraes (Eu sei que vou te amar)







Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar


E cada verso meu será
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida


Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta tua ausência me causou


Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida


Vinicius de Moraes

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José Ángel Barrueco (A felicidade era isso)






ESO ERA LA FELICIDAD




Nosotros en la cocina,
riendo y conspirando
contra el tirano


Un vinilo despidiendo rock a todo volumen
en el salón lleno de antigüedades


La lectura sobre una mecedora,
con el gato sentado en las piernas,
ronroneando feliz, como nosotros


Las películas y las series y los dibujos animados,
compartidos entre los hermanos y a veces la madre


La visita de mis primos,
que se iban antes de su aparición,
y nuestras conversaciones trufadas de bromas


La libertad del felino, que rondaba sin miedo por casa
mientras nosotros disfrutábamos de su compañía y del sosiego


Pero entonces llegaba él.



José Ángel Barrueco






Nós na cozinha,
a rir, conspirando
contra o tirano


Um disco de vinil soltando rock no máximo
no salão cheio de antiguidades


A leitura numa cadeira de baloiço
com o gato nas pernas,
ronronando feliz, tal como nós


Os filmes e as séries e os desenhos animados,
compartilhados entre os irmãos e às vezes a mãe


A visita dos meus primos,
que saíam antes de ele chegar,
e as nossas conversas cheias de brincadeiras


A liberdade do felino, que rondava sem medo pela casa
enquanto nós gozávamos da sua companhia e do sossego


Mas então chegava ele.



(Trad. A.M.)

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28.9.10

Ruy Belo (Literatura explicativa)






LITERATURA EXPLICATIVA





O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol
nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medici
onze quilómetros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero de junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o pôr-do-sol apenas pôr-do-sol



Ruy Belo



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Paulo Leminski (Um bom poema)






um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Paulo Leminski



>>  Kamiquase (sítio of: tudo+algo)  /  Paulo Leminski (blogue / 75p)  /  Jornal de Poesia  (50p+bio+biblio+crítica)  /  Arlindo Correia (21p)  /  António Miranda (antologia / port. cast. ingl.)  /  Wikipedia


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27.9.10

Javier Das (O desejo)






EL DESEO




Coge el coche,
te invito
a escuchar
un disco nuevo
que me he comprado.
Y de paso,
si quieres,
cenamos en algún
bar de carretera,
en el que quieras,
di un kilómetro
y nos paramos.
Seguro que allí
no hay tanta luz,
y con un poco de suerte,
si la noche está despejada,
podremos ver las estrellas.
Creo que si lo pienso
nunca he visto una estrella
fugaz.
Y tal vez ese sea el problema
en todo esto,
que nunca he podido
formular
mi deseo.


Javier Das






Pega no carro,
convido-te
para ouvir
um disco novo
que comprei.
E aproveitamos,
se quiseres,
jantamos num
bar de estrada,
onde quiseres,
fazemos uns quilómetros
e paramos.
Ali de certeza
haverá menos luz
e com um bocadinho de sorte,
estando a noite limpa,
poderemos ver as estrelas.
Agora que penso nisso,
creio que nunca vi
uma estrela cadente.
E talvez seja esse o problema
nisto tudo,
nunca ter podido
formular
o meu desejo.


(Trad. A.M.)

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Jorge Carvalheira (Nada sabemos, por enquanto)






Por enquanto nada sabemos do destino do homem que ali vai, em extremo concentrado no andamento das passadas que dá.

Vemos que marcha atento e cabisbaixo, no gesto de quem poupa energias.

Porém não tão atento que perca de vista o andador que lhe vai na dianteira, obra de poucos metros, nem tão pouco que possa este limpo luar de Fevereiro lavar-lhe de sombras a barbada face.

Nada sabemos, e dobrada razão é essa para atentarmos no leve pormenor, na mesquinha minúcia.



- JORGE CARVALHEIRA, As aves levantam contra o vento, Quasi Ed., 2007, início.




>>   Olhe que não (análisa da obra: J.Vasco)  /   Ladrar à lua (blogue do autor)


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