17.4.15

Begoña Abad (Sabem que estão vivos)





Saben que están vivos
únicamente porque temen la muerte.

No avanzan porque moverse
puede conducirles a ella.

No respiran hondo
porque de ese modo la despistan.

Dicen que están vivos
pero salen de sus tumbas cada día.


Begoña Abad

[Apología de la luz]



Sabem que estão vivos
só porque temem a morte.

Não avançam porque mover-se
pode conduzi-los a ela.

Não respiram fundo
porque assim a despistam.

Dizem que estão vivos
mas saem do caixão cada dia.

(Trad. A.M.)

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16.4.15

Manuel de Freitas (Weinen)





WEINEN, KLA GEN, SOR GEN, ZA GEN (BWV 12)



A carne é triste, mas eu leio pouco,
menos ainda do que o meu gato,
que talvez desculpe um dia
o indemonstrável possessivo
que escrevi sem muita convicção.

Pode-se fazer tanta coisa, à noite.
Ouvir por exemplo Bach
— o pai — tendo por único
cuidado uma atenção distraída
ao gelo que estala no copo
de vidro indonésio. Sim,
não me parece que eu seja,
para já, «politicamente correcto».

— Ou experimentar o amor,
de novo e sempre o amor,
com frias e esgotadas lágrimas
de lume. E, se o amor não
vem (acontece), posso ir dizê-lo
a ninguém, à porta de bares sombrios,
sem esperar sequer um poema.

Porque nem tudo se escreve,
percebe acordando o gato.
Possa ele também não saber,
neste Inverno, que a carne
é mesmo uma coisa muito triste.


Manuel de Freitas

[Canal de poesia]

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15.4.15

Batania (O morto)





EL MUERTO



Lo que cuesta mantener a un muerto,
lo que gasta en trajes y dentistas,
lo que agota llevarlo a la espalda
de Atocha hasta Argüelles,
si alguien supiera,
el muerto a cuestas,
todos los días,
lo que cansa vestir
los zapatos del muerto,
las camisas del muerto,
la bufanda del muerto,
si alguien me oyera,
cómo me suena el muerto,
cómo me llora,
cómo me roe,
cómo me grita
a trueno y rompepierna,
cómo me paso las noches
sin hacer un verso
porque no quiere el muerto,
porque no me sabe,
porque no se le ocurre,
no se me inspira,
si alguien entendiera,
lo que cuesta decir
sin pasar por loco
que mi padre vivió
sesenta y siete años
como un jilguero de nieve,
ningún clavo, ninguna tuerca,
ninguna mancha,
si alguien creyera,
y desde que vive
muerto
me obliga y me retuerce,
me ordena y me llama el muerto,
me apunta y me requiere,
siete años ya,
si alguien pudiera...

Batania

[Quien siembra vientos]



O que custa manter um morto,
o que ele gasta em fatos e dentista,
o que não cansa levá-lo às costas
de Atocha até Arguelles,
se alguém soubesse,
o morto às costas,
todos os dias,
o que cansa pôr
os sapatos do morto,
as camisas do morto,
o lenço do morto,
se alguém me ouvisse,
como o morto me canta,
como me chora,
como me rói,
como me grita
com estrondo e quebra-pernas
como passo as noites
sem fazer um verso
porque o morto não quer,
porque não me sabe,
porque não lhe ocorre,
não me inspira,
se alguém entendesse
o que custa dizer,
sem passar por louco,
que meu pai viveu
sessenta e sete anos
como um pintassilgo de neve
sem um cravo, sem uma porca,
sem uma mancha,
se alguém acreditasse,
e desde que vive
morto
me obriga e retorce,
me ordena e me chama o morto,
me convoca e requer,
sete anos já,
se alguém pudesse...

(Trad. A.M.)

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14.4.15

José Cardoso Pires (O Delfim-1)





Bem perto daqui, no condado apócrifo da Gafeira, há um homem que se inventa quotidianamente para iludir a morte.

Vive entre fumos - fumos da História e não só: a lagoa onde habita desperta todas as manhãs envolta em vapores dos pântanos e por cima tem mais fumo, uma sagração de nuvens.

Nos restos daquele império, que não passa de um amontoado de casebres, um cavername do passado, reúnem-se os descendentes dos velhos servos, mas estão todos à volta de enguias que se contorcem nas brasas: a fumegar.

E a tremular no fumo, ele, o homem que se inventa.

Falo, como é bem de ver, de Tomás Manuel da Palma Bravo, o Delfim.


JOSÉ CARDOSO PIRES
E agora, José?/ Memória descritiva
(1977)

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Antonio Orihuela (Anarquistas e pirilampos)





ANARQUISTAS Y LUCIÉRNAGAS



A veces creo que las luciérnagas somos nosotros,
una especie en peligro de extinción,
escasos, intermitentes, estacionales,
feos como una gamba

pero en la noche oscura
brillantes

y ahí.

Antonio Orihuela



Às vezes julgo que os pirilampos somos nós,
uma espécie em risco de extinção,
poucos, intermitentes, sazonais,
feios como uma gamba

mas brilhando
no escuro da noite

e aí.


(Trad. A.M.)

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13.4.15

Louise Glück (Uma fantasia)





A FANTASY



I’ll tell you something: every day
people are dying. And that’s just the beginning.
Every day, in funeral homes, new widows are born,
new orphans. They sit with their hands folded,
trying to decide about this new life.
Then they’re in the cemetery, some of them
for the first time. They’re frightened of crying,
sometimes of not crying. Someone leans over,
tells them what to do next, which might mean
saying a few words, sometimes
throwing dirt in the open grave.
And after that, everyone goes back to the house,
which is suddenly full of visitors.
The widow sits on the couch, very stately,
so people line up to approach her,
sometimes take her hand, sometimes embrace her.
She finds something to say to everybody,
thanks them, thanks them for coming.
In her heart, she wants them to go away.
She wants to be back in the cemetery,
back in the sickroom, the hospital. She knows
it isn’t possible. But it’s her only hope,
the wish to move backward. And just a little,
not so far as the marriage, the first kiss.


Louise Glück

[Sibilas y pitias]



Vou dizer-te uma coisa, todos os dias
morre gente. E não é tudo:
todos os dias, nas funerárias, nascem viúvas
e órfãos. Sentam-se, de mãos dadas,
para decidir da nova vida,
depois vão ao cemitério, alguns
a primeira vez. Têm medo de chorar,
e de não chorar, por vezes. Alguém se curva,
diz-lhes o que fazer a seguir, pronunciar
umas palavras, por exemplo, ou atirar
um punhado de terra sobre o caixão.
E depois voltam todos para casa,
cheia de repente de visitas,
a viúva sentada no sofá, muito importante,
as pessoas em fila, aproximando-se,
umas para lhe tomar a mão, outras para abraçá-la.
Ela tem algo para dizer a todos, agradecendo
a presença de cada um, mas o que quer no fundo
é que vão embora. Gostaria de voltar
ao cemitério, ao quarto do falecido, ao hospital,
mas sabe que é impossível. Em todo o caso,
é a sua esperança, esse desejo de voltar atrás.
Um pouco, só, sem ir ao dia do casamento,
ou do primeiro beijo.

(Trad. A.M.)

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12.4.15

Ángel González (Estes poemas)





ESTOS POEMAS



Estos poemas los desencadenaste tú,
como se desencadena el viento,
sin saber hacia dónde ni por qué.
Son dones del azar o del destino,
que a veces
la soledad arremolina o barre;
nada más que palabras que se encuentran,
que se atraen y se juntan
irremediablemente,
y hacen un ruido melodioso o triste,
lo mismo que dos cuerpos que se aman.


Ángel González




Estes poemas libertaste-los tu,
como se liberta o vento,
sem saber onde nem porquê.
São dons do acaso ou do destino
que a solidão às vezes
enredemoinha ou varre;
palavras apenas que se encontram,
que se atraem e juntam
irremediavelmente,
fazendo um ruído melodioso ou triste,
tal como dois corpos no amor.


(Trad. A.M.)

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11.4.15

José Cardoso Pires (Paris)





Cidade de porteiras agressivas, cada bairro sua aldeia, posta-restante dos resistentes de todos os países - não há como Paris para abrigar o exilado, nem estação mais outonal para a sua melancolia.

Ama-o cruelmente.

Umas vezes bate-se por ele, outras, 'nous ne sommes pas en république, quoi', explora-o.

Isola-o até ao desespero.


JOSÉ CARDOSO PIRES
E agora, José?/ Um homem de perfil
(1977)

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Antonio Gala (E eras tu a lua)





Y la luna eras tú.
Una luna creciente, blanca, fría.
Mirabas hacia el mar y hacia las cosas
que no eran yo.
Y con cuánto silencio te gritaba
-creciente, blanco, frío yo también:
«Mírame, mírame,
ay, mírame mirarte...»


Antonio Gala



E eras tu a lua,
uma lua crescente, branca, fria.
Olhavas para o mar e para as coisas
que não eram eu.
E com o silêncio eu te gritava
- também eu crescente, branco, frio:
“Olha pra mim, olha pra mim,
ai, olha eu a olhar para ti...”


(Trad. A.M.)

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10.4.15

Manuel Bandeira (Poética)





POÉTICA



Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expedien-
te protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicioná-
rio o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de
si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes ma-
neiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos ‘clowns’ de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira

[Poemas de Bandeira]

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9.4.15

Ana Pérez Cañamares (Fé)





FE



Hay días en que lo cierro
todo: corazón, puerta, boca
alma bajo siete llaves.

Otros, a propósito dejo
el bolso abierto
la palabra en la piel
las tripas al aire
sólo para llegar a casa
y observar con alegría
que no me falta nada
que me defiende la fe
eficiente como un arma.


ANA PÉREZ CAÑAMARES
Alfabeto de cicatrices
Baile del Sol (2010)

[Aragna dos signos]




Há dias em que fecho tudo,
coração, porta, boca, alma,
a sete chaves.

Outros, deixo de propósito
a bolsa aberta
a palavra na pele
as tripas ao ar
só para chegar a casa
e ver com alegria
que não me falta nada,
que a fé me defende.
Como uma arma.

(Trad. A.M.)

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8.4.15

José Cardoso Pires (Um homem de perfil)





Sentado na Place de la Sorbonne, sentado e em perfil de pássaro, é como ainda hoje o vejo.

Nada a mais naquele vulto esgarçado; nem frases de circunstância nem sorrisos; menos ainda o gesto nulo, a redundância, porque tudo nele, paisagem, frase, alimento, tinha um valor substantivo.

Lembrava um tronco só lenho, fincado na terra árida.

Por terra árida entenda-se o lado difícil da natureza, o partido urgente - doenças e expatriações.

A solidão.

O sentido vigilante do convívio, principalmente isso: poucas pessoas conheci até agora que tivessem sofrido com semelhante orgulho e com tamanho silêncio de si próprias, e poucas, raríssimas, capazes de tantas fidelidades debaixo da frase seca e da aparência alheada.


JOSÉ CARDOSO PIRES
E agora, José?/ Um homem de perfil
(1977)

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Darío Jaramillo Agudelo (Um amor impossível)





Un amor imposible es el más feliz de los amores.
O puede serlo.
Basta que creas que es posible un amor imposible
y esto hará la felicidad del amor imposible.
Puede que seas el amor imposible de tu amor imposible.
Pero esto es un milagro.

Darío Jaramillo Agudelo



Um amor impossível é o mais feliz dos amores.
Ou pode sê-lo,
basta teres por possível o amor impossível
e isso fará a felicidade do amor impossível.
Podes até ser o amor impossível do teu amor impossível.
Mas isso é um milagre.

(Trad. A.M.)



>>  A media voz (56p) / Circulo de poesia (15p) / Festival de Medellin (10p) / Wikipedia

.

7.4.15

Manuel António Pina (Se existisses)





Se existisses, serias tu,
talvez um pouco menos exacta,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.

Atrás de ti haveria
as mesmas duas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.

Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,

e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.


Manuel António Pina

.

6.4.15

Amalia Bautista (Ela)





ELLA



Ella también soy yo. Aunque no quiera,
aunque ninguna de las dos queramos,
somos una y la misma. Pero ella me traiciona
cuando escribe por mí, cuando no se conforma,
cuando lo quiere todo.
Ella es la de las lágrimas de rabia,
la que nunca te besa con mis labios.


Amalia Bautista

[Lifevest under your seat]



Ela sou eu também. Mesmo sem querer,
mesmo não querendo uma nem outra,
somos uma só e a mesma. Mas ela trai-me
quando escreve por mim, quando não se conforma,
quando quer tudo.
Ela, a das lágrimas de raiva,
a que nunca te beija com meus lábios.

(Trad. A.M.)

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5.4.15

Manoel de Barros (O fotógrafo)





O FOTÓGRAFO



Difícil fotografar o silêncio. Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa. Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei sobre. Foi difícil fotografar sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia
de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros


[Poemblog]

>>  YouTube

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4.4.15

Juan Vicente Piqueras (Ela e eu)





ELLA Y YO



Ella lee libros de yoga, de budismo, de numerología.
Yo leo poesía, teatro, ensayos, novelas, todo
lo que cae en mis manos.

Ella es vegetariana.
Yo, omnívoro.

Ella es disciplinada, ascética, creyente.
Yo, escéptico y perezoso.

Ella cree en la reencarnación de las almas.
Yo soy agnóstico.

Ella está segura.
Yo, no.

Ella es presente de indicativo.
Yo, condicional en mis mejores días
y en los peores pretérito
pluscuamperfecto de subjuntivo.

Ella es un hombre de acción.
Yo, una mujer confundida.

Ella quiere que yo cambie.
Yo, también.

Ella sabe lo que quiere y lo que necesita
y lo que quiero y necesito yo.
Yo sólo sé que no sé nada
pero no estoy muy seguro.

Ella es la luna de día.
Yo, un girasol en la noche.

Ella y yo, contra viento y marea,
nos amamos.


Juan Vicente Piqueras



Ela lê livros de ioga, budismo, numerologia.
Eu leio poesia, teatro, ensaio, romance, tudo
o que me vem à mão.

Ela é vegetariana.
Eu, omnívoro.

Ela é disciplinada, ascética, crente.
Eu, céptico e preguiçoso.

Ela crê na reencarnação.
Eu sou agnóstico.

Ela está segura.
Eu, não.

Ela é presente do indicativo.
Eu, condicional nos dias bons,
nos maus pretérito
mais que perfeito do conjuntivo.

Ela é um homem de acção.
Eu, uma mulher confusa.

Ela quer que eu mude.
Eu, também.

Ela sabe o que quer e precisa
e o que quero eu e preciso.
Eu só sei que não sei nada
mas não estou muito certo.

Ela é a lua de dia.
Eu, um girassol de noite.

Ela e eu, contra ventos e marés,
amamo-nos.

(Trad. A.M.)

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3.4.15

Luís Quintais (Nuvens)





NUVENS



A metafísica será talvez
uma indisposição que se quer passageira.

Porém, eu continuo a inquietar-me
com as nuvens que são arrastadas,

violentamente arrastadas, na direcção sudeste,
filtrando a luz do sol em obsessiva correria.


Luís Quintais

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2.4.15

Álvaro Valverde (Desterro)





DESTIERRO



No es preciso partir para sentirse
un desterrado, un extranjero. Basta
con apartarse un poco de los otros,
con no participar de sus costumbres,
con ejercer sin más de solitario
por mucho que te arrastre esa marea
de pequeñas o grandes multitudes.

Siguiendo a Erri de Luca,
la vida para alguien puede ser
exilio sin viaje en un lugar.

Ir por libre, sin club o cofradía,
acarrea un destierro inevitable.
Como el de un perseguido. No lo dudes,
sin salir de este sitio en el que vives
solo eres la sombra de un extraño.


ÁLVARO VALVERDE
Plasencias
(2013)

[Miradas]




Não é preciso partir para sentir-se
desterrado, estrangeiro. Basta
afastar-se um pouco dos outros,
não comungar dos costumes,
exercer sem mais de solitário
por muito que te arraste a maré
de pequenas ou grandes multidões.

Seguindo Erri de Luca
a vida pode ser para alguém
um exílio sem viagem num lugar.

Viver livre, sem clube nem confraria,
acarreta um desterro inevitável.
Como o de um perseguido. Não duvides,
sem sair deste sítio em que vives
és apenas a sombra de um estranho.

(Trad. A.M.)

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1.4.15

Luís Filipe Castro Mendes (Para quê poetas)





PARA QUÊ POETAS EM TEMPOS DE INDIGÊNCIA?



Levantar a gola do casaco,
esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe mais as flores do mal nem a luz
radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
Repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.


LUÍS FILIPE CASTRO MENDES
A Misericórdia dos Mercados
Assírio & Alvim (2014)


[Poema possível]

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