31.1.13

Miriam Reyes (Às vezes passo dias)





Eventualmente paso días enteros sangrando
(por negarme a ser madre).
El vientre vacío sangra
exagerado e implacable como una mujer enamorada.

Si los hijos no salieran nunca
del cuerpo de sus madres
juro que tendría uno ahora mismo,
para sentirlo crecer dentro de mí
hasta poseerme como en una sesión espiritista
o como si mi bebé y yo
fuéramos muñecas rusas
una llena de la otra
mamá llena de bebé.

También tendría un hijo
si ellos siempre fueran bebés
y pudiera sostenerlo en mis brazos por encima de la realidad
para que mi niño nunca pusiera los pies en la tierra.

Pero ellos llegan a ser
tan viejos como uno.

No alimentaré a nadie con mi cuerpo
para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo.

Por eso sangro y tengo cólicos
y me aprieto este vientre vacío
y trago pastillas hasta dormirme y olvidar
que me desangro en mi negación.


Miriam Reyes




Às vezes passo dias inteiros a sangrar
(por me negar a ser mãe).
O ventre vazio sangra
exagerado e implacável como uma mulher apaixonada.

Se os filhos não saíssem nunca
do corpo das mães
juro que teria um agora mesmo
para senti-lo crescer dentro de mim
até me possuir como numa sessão espírita
ou como se o meu bebé e eu
fôssemos bonecas russas
uma cheia da outra
mamã cheia de bebé.

Também teria um filho
se eles fossem sempre bebés
e pudesse sustê-lo nos braços acima da realidade
para que nunca pusesse os pés na terra.

Mas eles chegam a ser
tão velhos como qualquer um.

Não alimentarei ninguém com o meu corpo
para viver este suicídio a prestações que eu mesma vivo.

Por isso sangro e tenho cólicas
e aperto este ventre vazio
e engulo comprimidos até adormecer e esquecer
que me esvaio na minha negação.


(Trad. A.M.)



> Outra versão: As folhas ardem (Jorge Melícias)

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30.1.13

Um verso (114)





Um verso de O’Neill
(moreno português, já disse?):




Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.




Alexandre O’Neill

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Marcelo Daniel Díaz (O astronauta)

 
 
 

EL ASTRONAUTA



En la madrugada las estrellas y las ecuaciones
tejen la red de una araña negra
que mastica los huesos de la noche.
Sobre la escuela volaba un avión comercial
que dejaba una cicatriz de humo en el cielo
y dije: “yo quiero ser Neil Armstrong”.
En el guardapolvo llevaba un mapa de ruta
para salir de la atmósfera
y dibujar otro barrio en el cosmos.
Pero los recuerdos felices funcionan
tan sólo como recuerdos felices:
ahora ensayo pasos de astronauta
para cruzar la calle.


Marcelo Daniel Díaz


[Marcelo Leites]



As estrelas e equações na madrugada
tecem a rede de uma aranha negra
que mastiga os ossos da noite.
Por cima da escola voava um avião comercial,
deixando no céu uma cicatriz de fumo
que dizia: “Eu quero ser Neil Armstrong”.
Eu levava no bolso um roteiro
para sair da atmosfera
e desenhar outro bairro no cosmos.
Mas as recordações felizes funcionam
apenas como recordações felizes:
hoje ensaio passos de astronauta
só para atravessar a rua.


(Trad. A.M.)



>>  Vuelo digital (6p) / Marcelo Leites (4p) / Tinta de poetas (5p) / Sites Google (entrevista)

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29.1.13

Mario Quintana (Emergência)





EMERGÊNCIA



Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
– para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Mario Quintana


[Acontecimentos]


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28.1.13

Pedro Andreu (Nunca me abras a porta)





NUNCA ME ABRAS LA PUERTA



Pero no importa, dale, llévate mi alegría
en tus labios, haz papel de fumar
mis poemarios, cambia la cerradura, vive el cielo.
Haz el favor de ser feliz, y nunca, nunca abras
a ese mamarracho enfebrecido
que llamará a tu puerta
las próximas semanas.

Se hará pasar por mí
-ya te lo advierto-
y te traerá la peste.


Pedro Andreu


[Tu cita de los martes]



Mas não importa, vá, põe-me a alegria
nos lábios, usa meus versos para enrolar
o tabaco, muda a fechadura, vive o céu.
Faz favor de ser feliz, e nunca, nunca abras
a esse espantalho febril
que há-de bater-te à porta
nas próximas semanas.

Vai fazer-se passar por mim
– aviso-te já –
e há-de trazer-te a peste.

(Trad. A.M.)

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27.1.13

Paulo Moreiras (A taberna do Pasquino)





Alguns pingarolas e peraltas ainda permaneciam na beberrónia, na taberna do Pasquino, numa dolência parda, embalada pelo vinho de enforcado, especialidade da casa, entre outras pitanças que naquele antro de comes e bebes se podiam demandar; uns entretidos em animada perlenga, outros cascabulhando sortes ou azares em cima dos tampos de mármore das mesas por onde rolavam, barulhentos e prazenteiros, uns quantos dados de pintas no jogo do quinquenove.

Mais para o lado, à sinistra, ficava uma ampla sala de estar, própria para os femeeiros corrilhos, onde as luzes eram rarefeitas, não permitindo lobrigar quem por ali abancava; aí estanciavam três ou quatro conanas, cheios de mesuras e salamaleques, conversando cada um com a sua meretriz de eleição, enquanto bebiam copos de vinho e de capilé, num lascivo jogo de toca-e-foge; elas cheias de risinhos fáceis e eles ofertando miminhos galanteadores.


PAULO MOREIRAS
O Ouro dos Corcundas
Casa das Letras
(2011)

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Miguel d'Ors (Caminho de imperfeição)





CAMINO DE IMPERFECCIÓN



Joven,
yo era un vanidoso inaguantable.
«Esto va mal», me dijo un día el espejo.
«Tienes que corregirte».
Al cabo de unas semanas era menos vanidoso.
Unos meses después ya no era vanidoso.
Al año siguiente era un hombre modesto.
Muy modesto.
Modestísimo.
Uno de los hombres más modestos que he conocido.
Más modesto que cualquiera de ustedes.
O sea
un vanidoso inaguantable
viejo.


Miguel d’Ors




Jovem,
eu era um vaidoso insuportável.
“Vai mal, isto”, diz-me um dia o espelho.
“Tens de te corrigir”.
Ao cabo de umas semanas já não era vaidoso.
No ano seguinte era um homem modesto.
Muito modesto.
Modestíssimo.
Um dos homens mais modestos que conheci.
Mais modesto do que vocês todos.
Ou seja
um vaidoso insuportável
velho.


(Trad. A.M.)

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26.1.13

José Luís Peixoto (Carta de condução)





CARTA DE CONDUÇÃO



Já tive um carro da cor dos teus olhos. Deixava-o
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos.


Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.


A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.


Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.


Agora os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.


José Luís Peixoto


[Poedia]


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25.1.13

Luis Alberto de Cuenca (A ruiva louca)





LA LOCA DEL PELO ROJO



No, no te parecías a Van Gogh
(salvo en el pelo rojo, que, en tu caso,
no era de nacimiento, sino apócrifo).
Te faltaban la barba y el talento,
y las cartas a Theo. Te sobraba
una oreja. Definitivamente
no tenías que ver nada con Vincent.
Pero estabas tan loca como él.


Luis Alberto de Cuenca


[Javier Das]




Não, não te parecias com Van Gogh
(salvo no cabelo ruivo, que não era,
no teu caso, natural, mas apócrifo).
Faltava-te a barba e o talento,
e as cartas a Theo. E sobrava-te
uma orelha. Definitivamente
não tinhas nada a ver com Vincent.
Mas estavas tão louca como ele.


(Trad. A.M.)

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24.1.13

João Araújo Correia (O sorriso desta peixeira)





O sorriso desta peixeira...

Repararam?

Sorriu-lhe a canastra do peixe, as ramagens do lenço, o oiro das arrecadas, o oiro do cordão, a boca descorada de mulher com filhos, as pupilas calmas de trabalhadeira, até as camarinhas da testa e do nariz lhe sorriram...

Riso que lava o ar da rua onde apregoa o peixe, riso claro e puro, iluminaria atalho perigoso, dando confiança ao bom e inquietude ao celerado.



- JOÃO DE ARAÚJO CORREIA, Sem Método, V.

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Karmelo C. Iribarren (Guarda-chuvas e táxis)





LOS PARAGUAS, LOS TAXIS



Acabo de tirarlo,
35 minutos bajo la tormenta
-esperando un maldito
taxi-
han podido con él.

Pero cómo se ha portado.

Ésa es la diferencia:
los taxis son como ciertos amigos,
nunca están cuando más los necesitas.

Los paraguas, en cambio, mueren por ti.


Karmelo C. Iribarren


[Balconcillos]



Acabo de o jogar fora,
meia hora sob a tormenta
- à espera de um maldito
táxi -
deu cabo dele.
Mas como se comportou.
Essa a diferença:
os táxis são como certos amigos,
quando precisas deles nunca estão.
Os guarda-chuvas, em troca, morrem por ti.


(Trad. A.M.)

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23.1.13

Ferreira Gullar (No corpo)





NO CORPO



De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares?


O sonho na boca, o incêndio na cama,
     o apelo da noite
Agora são apenas esta
     contração (este clarão)
     do maxilar dentro do rosto.


A poesia é o presente.


Ferreira Gullar


[Antologia]


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22.1.13

José Luis García Martín (Reminiscências)




REMINISCENCIAS


Amor que no devasta no es
amor. Lees a Omar Jayyam en esta
plaza de bronce y de palomas
aún con olor a oriente y desventura.
(Una vez amé, creí que me amarían,
y no fue así; eso es todo. )
Acepta su patética
invitación a la vida, aférrate
al instante que huye, sacude
tanta apagada y vil tristeza,
la ceniza que mancha tus ropas
todavía inocentes, deja
que el amor y el azar levanten fortalezas
de viento y las deshaga el viento
una y otra vez...
Pero tú
no me oyes. Mientras
un duro terrón de tedio
se deshace en la taza de café
(Hoy no hay nadie a quien no envidie
sólo por no ser yo), en un rincón paciente
de A Brasileira esperas
que la vida se siente en la silla vacía.


JOSÉ LUIS GARCÍA MARTÍN
Tinta y papel
(1985)



Amor que não devasta amor
não é. Lês Omar Jayyam nessa
placa de bronze e de pombas
cheirando ainda a oriente e desventura.
(Em tempos amei, julguei que me amariam,
e assim não foi; é tudo).
Aceita seu patético
envite para a vida, agarra-te
ao instante que foge, sacode
tanta apagada e vil tristeza,
a cinza que te mancha as roupas
ainda inocentes,
deixa que o amor e o acaso levantem castelos
de vento e o vento os desfaça
uma e outra vez...
Mas tu
não me ouves. Enquanto
um torrão duro de tédio
se desfaz na taça de café
(Não há ninguém hoje que eu não inveje
só por não ser eu), num canto
paciente
de A Brasileira esperas
que a vida se sente na cadeira vaga.


(Trad. A.M.)

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21.1.13

Enrique García-Máiquez (Aguarela)





ACUARELA



La playa de siempre
se ha vuelto más tímida.
La luz de septiembre

tersa, tenue, tibia,
cansada se acuesta
cerca de la orilla.

Baja la marea.
El mar se desnuda.
El sol se avergüenza.

En Cádiz, la cúpula
dorada se apaga.
Y el faro, que cruza

la noche, se alarga...


Enrique García-Máiquez


[Cuaderno de Cadiz]




A praia de sempre
tornou-se mais tímida.
A luz de Setembro

ténue, lisa, tíbia,
deita-se cansada
perto da beira.

A maré baixa.
Desnuda-se o mar.
O sol retrai-se.

Em Cádiz, apaga-se
a cúpula dourada.
E o farol alonga-se,

cruzando a noite...


(Trad. A.M.)

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20.1.13

José Alberto Oliveira (Guia de perplexos)





GUIA DE PERPLEXOS



Tenho-me conformado
à dita
destes poemas:
convencido da sinceridade
dos espelhos,
tenho deixado
que a perturbação
dos dias
se resigne a frases
de pouco empenho.


José Alberto Oliveira



[Vortex]


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19.1.13

Jorge M. Molinero (Há sempre uma gota)






Siempre hay una gota que
colma el vaso.
Recemos
en quien tú creas - dios,
Maradona o Michael Hutchence. Recemos,
para que esta, la gota que colme el vaso
no sea de nuestra sangre.


Jorge M. Molinero


[La juventud del otro]



Há sempre uma gota que
enche o copo.
Rezemos
a quem tu creias – deus,
Maradona ou Michael Hutchence.
Rezemos, para que ela,
a gota que encha o copo,
não seja do nosso sangue.


(Trad. A.M.)



>>  La juventud del otro (blogue/muitos p) / Facebook / Crepusculario s.21 (7p)

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18.1.13

Paulo Moreiras (A inveja)





Desde o princípio do mundo que a inveja cega os homens e toma, nas paixões da alma, vaidoso domicílio.

E tão cegos se acham esses invejosos, tão ofuscados no seu entendimento, que cuidam que os outros é que são cegos e incapazes de lobrigar o cortejo de enganos que usam semear com as suas atitudes mesquinhas e torpes.

É um vício difícil de tragar, pois, se todos se dispõem a apontar a inveja ao próximo, a verdade é que se escusam a vê-la em si mesmos; homem algum será capaz da assunção desse horrível predicado perante outros e apenas no seu íntimo, no escuro dos seus sentimentos, reconhecerá a sua maior dor e a sua maior fraqueza.



PAULO MOREIRAS
O Ouro dos Corcundas
Casa das Letras
(2011)

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Jorge Riechmann (Para escrever poesia)





PARA ESCRIBIR POESÍA


(7)

No cambiéis los nombres.
Preservad los nombres antiguos.
Renovad cada día el pacto de los nombres.
Y no dejéis de dudar
de todo cuanto digo.


Jorge Riechmann




Não troqueis os nomes.
Preservai os nomes antigos.
Renovai o pacto dos nomes todos os dias.
E duvidai sempre
de tudo quanto eu digo.


(Trad. A.M.)

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17.1.13

João de Deus (Dia de anos)





DIA DE ANOS



Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!


Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!


Não faça tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa: que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.


Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!


João de Deus

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16.1.13

Jorge Espina (A neve dissipa-se)





A neve dissipa-se deixando a nu
o céu verde da infância
orvalha
o vento é uma música celta


os amigos de sempre
a cidra
a voz dos antepassados no bosque


é tudo água



JORGE ESPINA
Volver al pan, llegar a casa
Canalla Ediciones (2012)

(Trad. A.M.)

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