25.11.08

Cesário Verde (Pro pudor)










PRÓ PUDOR





Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada e langorosa.


Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela concepção vertiginosa.


Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente...


Todas as noites ela, ah! sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés...



Cesário Verde


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23.11.08

Vitorino Nemésio (As cidades dos Açores)





(As cidades dos Açores…)




As cidades dos Açores não foram urbes traçadas a rego de arado, nem empórios crescidos em embocaduras de rios férteis, nem aglomerados feitos em arraiais de feiras ou em grandes nós de comunicações terrestres naturais.

De nove ilhas que conta o arquipélago só duas tiveram durante quatro séculos o timbre de cidade: a Terceira e S. Miguel.

Angra e Ponta Delgada cresceram primeiro como fixadores das populações dotadas de maior área insular, e logo como chaves de situações geográficas mais acessíveis e demandadas.

Das ilhas maiores só uma - o Pico - não chegou a atingir densidade citadina.

O seu dispositivo montanhoso maciço (inútil farol de noite lhe chamou Chateaubriand), a porosidade do seu solo pouco propício à agricultura e impróprio para a pastorícia de prados especializaram-na na pesca, no vinho e nas frutas - três géneros que, por si sós, dificilmente geram mesteirais e mercadores, ou seja, o húmus dessa coisa febril e às vezes monstruosa que se chama uma cidade.



- VITORINO NEMÉSIO, Corsário das Ilhas, Primeiro corso (Corisco), 1956.

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Nuno Júdice (Poema)








POEMA





Em um novo poema sobre a morte, sem me ter ainda convencido
de que, embora morto, algo permanecia no meu ser que partici-
pava da Vida e do movimento inumerável dos objectos batidos
pelo vento, afirmei que a Poesia me acompanhava.
Como se a Poesia fosse algo que eu nomeasse fisicamente… que tocasse…
E ao constatar uma impossibilidade objectiva, fiz uma experiên-
cia que a confirmou definitivamente: li tudo o que tinha escrito.
Foi como se não tivesse lido nada. Sem me dar conta sequer
de um estilo, de uma gramática, da própria língua… Foi
como se não soubesse ler.
Ao apresentar a narrativa exacta do que aconteceu, descubro
que também aqui não tenho nenhum objectivo, nenhum
pretexto, nenhum facto que justifique o poema. Mas ele
existe apesar disso. E é por isso mesmo que, sem arte
poética e sem argumentos, o apresento e mantenho.







NUNO JÚDICE
O Pavão Sonoro (1972)






21.11.08

Ver (7)














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Um verso (47)










Um verso de António Ramos Rosa:




Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva




[Barcos-Flores]

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Vinicius de Moraes (Poética-I)











POÉTICA (I)





De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.



A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.



Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã



Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.








Antes, aqui: A brusca poesia / Um verso


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18.11.08

Manuel Moya / Violeta (Lá fora)







AHÍ AFUERA




Te advierto que ahí afuera
ladran perros,
que un espejo mira
helado tu cabeza.
No abras las ventanas,
no las abras,
finjamos otra vez
que aquí no hay luz,
que estamos muertos.


Violeta C. Rangel






LÁ FORA



Olha que lá fora
ladram cães,
e um espelho contempla
gelado a tua cabeça.
Não abras as janelas,
não abras,
vamos fingir outra vez
que não há luz aqui,
que estamos mortos, nós.


(Trad. A.M.)
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Fontes: Abel Martin [antologia (28p)+bio+biblio] / Bibl. Públicas [nota>Manuel Moya]
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Ruy Belo (Um prato de sopa)











UM PRATO DE SOPA






Um prato de sopa um humilde prato de sopa
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos





Ruy Belo


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16.11.08

Fernando Pessoa (Autopsicografia)











AUTOPSICOGRAFIA






O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.




E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.




E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.





Fernando Pessoa


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14.11.08

Antonio Machado (Todo pasa)











Todo pasa y todo queda;
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.





Antonio Machado


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13.11.08

Cecília Meireles (Cântico II)









CÂNTICO II





Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.



Cecília Meireles





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Olhar (36)

















Campos de arroz
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Geria > Ançã
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(Coimbra > Cantanhede)
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11.11.08

Raul Brandão (Este mundo)






(Este mundo…)




Este mundo em que vivemos é uma mentira monstruosa.

È um mundo anticristão.

Como é possível isto?!

Como é possível que esta gente que trabalha toda a vida acabe a vida a pedir?

Bem sei que sempre houve pobres, mas o pobre hoje é mais pobre do que nunca.

E enquanto uns penam e falam em temerosas realidades, ou pela sua boca ou pela boca dos mortos, os outros, os lá de baixo, falam em coisa abstractas que estão ao lado da vida.

Cada vez o mundo me mete mais medo…

Tudo se resolvia pela lei de Deus - se cada um fosse capaz de resolver o problema na sua consciência - mas Cristo está muito longe, cada vez mais longe de nós…


Eu mesmo não soube segui-lo e amá-lo, apesar de esperar sempre.

E espero…

Espero na lei divina e, se não puder ser, na lei humana.



- RAUL BRANDÃO, Memórias, III, Balanço à vida.


Casimiro de Brito (Cuidado)











Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.





Casimiro de Brito


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9.11.08

Sophia de Mello Breyner Andresen (Meditação do Duque de Gandia)









MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA
SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL





Nunca mais
a tua face será pura limpa e viva,
nem teu andar como onda fugitiva
se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.



Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão.



Nunca mais amarei quem não possa viver
sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser,
amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência,
és um rosto de nojo e negação
e eu fecho os olhos para não te ver.



Nunca mais servirei senhor que possa morrer.



Sophia de Mello Breyner Andresen
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Fontes: Porto de Abrigo (+40p) / As Tormentas (53p+bio+fotos) / Jornal de Poesia (8p+ mais) / Lugar das palavras (80p+bio) / Triplo V (Poemas+Crítica e mais) / Poesia e prosa (45p) / Um-buraco-na-sombra(bio+37p) / Centro V. Camões (nota Clara Rocha) / Palavras d'Ouro (bio+15p) / nEscritas (homenagem>antologia verso/prosa)
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7.11.08

Livros











Livros-1 (L.A.Cuenca)


Livros-2 (E.Andrade)


Livros-3 (M.Quintana)


Livros-4 (A.Gide)


Livros-5 (P.Neruda)


Livros-6 (A.R.Rosa)


Livros-7 (Jean Paul)


Livros-8 (M.Quintana)


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5.11.08

Ver (6)











Pateira de Requeixo (Aveiro-sul)
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Minas de Carris (Gerês)
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Levadas (Montemuro)
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Nuno Júdice (Arte do poema)








ARTE DO POEMA





Eu pensava que escrever era uma escolha rigorosa de temas determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas “poéticas”, eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou “arte do poema”.






NUNO JÚDICE
O Pavão Sonoro (1972)




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3.11.08

Luis Alberto de Cuenca (Hammurabi)











HAMMURABI




Las chicas como tú se ríen en las barbas
del mismísimo Hammurabi.


«Ojo por ojo
y diente por diente»
(lo hizo escribir en Babilonia,
hace cuatro mil años).


Las chicas como tú responden
al amor con desdén
y al desdén con amor.
Por fastidiar a Hammurabi.



Luis Alberto de Cuenca






As miúdas como tu riem-se nas barbas
do próprio Hammurabi.


“Olho por olho
e dente por dente”
(mandou ele escrever na Babilónia,
há quatro mil anos).


As miúdas como tu respondem
ao amor com desdém
e ao desdém com amor.
Só para chatear Hammurabi.


(Trad. A.M.)


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Ferreira Gullar (Cantiga para não morrer)








CANTIGA PARA NÃO MORRER





Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.


Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.


Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.


E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.



Ferreira Gullar



Fonte: Ferreira Gullar

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