28.3.07

Machado de Assis (Toma um conselho)











Toma um conselho de amigo
Não te cases, Belzebú;
Que a mulher, como ser humano,
É mais fina do que tu.




Machado de Assis



Fonte: Corte na Aldeia
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Herberto Hélder (Aos amigos)










AOS AMIGOS










Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.



Herberto Hélder



Antes, aqui: Fonte-I / O amor em visita

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24.3.07

Jaime Sabines (Tia Chofi)





TÍA CHOFI





Amanecí triste el día de tu muerte, tía Chofi,
pero esa tarde me fui al cine e hice el amor.
Yo no sabía que a cien leguas de aquí estabas muerta
con tus setenta años de virgen definitiva,
tendida sobre un catre, estúpidamente muerta.
Hiciste bien en morirte, tía Chofi,
porque no hacías nada, porque nadie te hacía caso,
porque desde que murió abuelita, a quien te consagraste,
ya no tenías qué hacer y a leguas se miraba
que querías morirte y te aguantabas.
Hiciste bien!
Yo no quiero elogiarte como acostumbran los arrepentidos,
porque te quise a tu hora, en el lugar preciso,
y harto sé lo que fuiste, tan corriente, tan simple,
pero me he puesto a llorar como una niña porque te moriste.
Te siento tan desamparada,
tan sola, sin nadie que te ayude a pasar la esquina,
sin quien te dé un pan!
Me aflige pensar que estás bajo la tierra
tan fría de Berriozábal,
sola, sola, terriblemente sola …



Jaime Sabines






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19.3.07

Francisco Rodrigues Lobo (Coração)












Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



Tão tirana e desigual
Sustentam sempre a vontade,
Que a quem lhes quer de verdade
Confessam que querem mal;
Se Amor para elas não val,
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



Se alguma tem afeição
Há-de ser a quem lha nega,
Porque nenhuma se entrega
Fora desta condição;
Não lhes queiras, coração,
E senão, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



São tais, que é melhor partido
Para obrigá-las e tê-las,
Ir sempre fugindo delas,
Que andar por elas perdido;
E pois o tens conhecido,
Coração, que mais lhe queres?
Que, em fim, todas são mulheres!



Francisco Roíz Lobo



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Alexandre O'Neill (Que bela noite)





Que bela noite ordinária que eu passei!
.............................
Gritei por calculado amor
por brilhantina
por miséria
gritei até por vitória
(supremo humor!)
dos que se batem contra a Cara-Alegre
gritei p'ra não parar de gritar
gritei «Chapultepec!» e «Oaxaca!»
(nomes por excelência afrodisíacos)
gritei até descobrir
o sítio em que te «escondias»
e então deixei-te gritar ...




Alexandre O'Neill
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16.3.07

Um verso (31)





Um verso de Ferreira Gullar

(e bonda):









Os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos.

Hilda Hilst (Dez chamamentos ao amigo-I)







DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO



(I)

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse


Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.


Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta


Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.



Hilda Hilst



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14.3.07

Aquilino Ribeiro (Outro dia a romper)






(Outro dia a romper…)





Estava a limpar de todo a manhã, e pelas faxas lés a lés do Oriente, agora da cor do pálio, vinha lá um sol criador.

Falava gente pelas portelas, e suas vozes, na rijeza do ar, pareciam sopradas por canudos de lata.

A folha despedia por ali abaixo, coberta de verde, mal amarelejando, de trato em trato, a tez maninha dos pousios.

No souto, que fechava a vista a uma banda, o cuco erguia, muito pausado como a afinar, o seu canto mofareiro.

Fuminhos de névoa voltejavam, ao fundo sobre o Paiva, leves que nem velo de ovelhas brancas, tirado da carda.

Vinha o sol e lambia aquilo mais depressa que a uma laranja o viandante que tem sede.





- AQUILINO RIBEIRO, Terras do Demo, ed. 1963, p. 155.


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Fernando Assis Pacheco (Com a tua letra)





(Suplemento de Assis, por assim dizer...)






COM A TUA LETRA





Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.




Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.




Fernando Assis Pacheco




Fonte: nEscritas
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10.3.07

Casimiro de Brito (Dois poeminhas)





DOIS POEMINHAS





Não te canses, mosquito,
voando da luz para a sombra.
Pousa no meu coração




Levo para a montanha
meus rios interiores.
Perdem-se com os outros



Casimiro de Brito
.
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7.3.07

Sor Juana Inés de la Cruz (Redondillas)







REDONDILLAS




Hombres necios que acusáis
a la mujer sin razón,
sin ver que sois la ocasión
de lo mismo que culpáis,


Si con ansias sin igual
solicitáis su desdén
porque quereis que obre bien
si la incitais al mal?


Combatis su resistencia
y luego con gravedad,
decís que fue liviandad
lo que hizo la diligencia.


Parecer quiere el denuedo
de vuestro parecer loco,
al niño que pone el coco
y luego le tiene miedo...



Sor Juana Inés de la Cruz



(Integral: Los Poetas)

>> Cervantes / Los Poetas

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5.3.07

Edgar Morin (O importante na vida)






A sabedoria deve saber que traz em si uma contradição: é louco viver muito sabiamente.

Devemos reconhecer que, na loucura que é o amor, há a sabedoria do amor.

O amor da sabedoria (filosofia) tem falta de amor.

O importante na vida é mesmo o amor.
Com todos os perigos que carrega.




- EDGAR MORIN, Amor, poesia e sabedoria, Lisboa (Piaget), 1999, p. 70.

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Maria do Rosário Pedreira (Diz-me o teu nome)







Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão


com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,


como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o


nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.


Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.




Maria do Rosário Pedreira



Antes, aqui: Guarda tu (com sinopse) / Não adormeças


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1.3.07

Paul Valéry (Poema e romance)


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O poema está para o romance como o som para o ruído.
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Paul Valéry
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Carlos Drummond de Andrade (Ainda que mal)









AINDA QUE MAL












Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.




Carlos Drummond de Andrade




Antes, aqui: Amor (sinopse) / O seu santo nome / No meio do caminho

.
.

27.2.07

Um verso (30)






Um verso de Sabines
(e com este vão dois):




“Não me ponhas o amor nas mãos como um pássaro morto”.
.

23.2.07

Yannis Ritsos (Explicação necessária)

Punta del Este
Uruguay
(Foto: Milka)




EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA



Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como o soluço de um pássaro. Não sei que quer dizer este ruído; contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-tas,
sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completava
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.



Yannis Ritsos
(1909-1990)

(Trad. Eugénio de Andrade)


Antes, aqui: O sentido da simplicidade

Manuel Bandeira (Irene no céu)





IRENE NO CÉU





Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.



Imagino Irene entrando no céu:
Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.



Manuel Bandeira

Jorge de Aguiar (Contra as molheres)






CONTRA AS MOLHERES





Esforça-te meu coraçom,
não te mates, se quiseres,
lembra-te que sam molheres.



Lembra-te qu’é por naçer
nenhûa que nam errasse
lembrete que seu prazer,
por bondade e mereçer,
nam vi que dele gostasse,
pois nam te des a paixam,
toma prazer se poderes,
lembra-te que sam molheres.



Descansa, triste, descansa,
que seus males sam vingãças,
tuas lagrimas amansa,
leix’as suas esperanças.
Ca pois naçem sem rezã,
nunca por ella lhesperes;
lembra-te que sam molheres.



Tuas mui grãdes firmezas,
tuas grandes perdições
suas desleais nações
causaram tuas tristezas.
Pois nã te mates em vão,
que quanto mais as quiseres,
veras que sam molheres.



Que te presta padeçer,
que taproveita chorar,
pois nunc’outras ham de ser,
nem sam nunca de mudar?
Deix’as com sua naçam,
seu bem nunca lho esperes;
lembra-te que sam molheres.



Não te mates cruamente
por que fez ta grande errada,
que quem de si se nam sente,
por ti nam lhe dará nada.
Vive lançando pregam
por hu fores e vieres,
que sam molheres, molheres.


Cabo

Espanha foi já perdida
por Letabla hûa vez,
e a Troia destroida
por males qu’Elena fez.
Desabafa, coraçam,
vive, nam te desesperes,
que quem fez pecar Adam
foi a mãi destas molheres.



Jorge d’Aguiar

(Cancioneiro Geral, II, 281)


Fonte: Multiculturas


21.2.07

Paul Valéry (Verso e prosa)






Não há que pôr em verso ideias que a prosa suporte.
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Paul Valéry
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Al Berto (Uma paixão)








UMA PAIXÃO




Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado



tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem



ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem



antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem



com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te



Al Berto



16.2.07

Edgar Morin (A verdade na alteridade)





Nesse momento, projectamos sobre outrem essa necessidade de amor, fixamo-la, endurecemo-la e ignoramos o outro que se tornou na nossa imagem, no nosso totem.

Ignoramo-lo, crendo adorá-lo.

Aí está, na verdade, uma das tragédias do amor, a incompreensão de si mesmo e do outro.

Mas a beleza do amor é a interpenetração da verdade do outro em si e da de si no outro, é encontrar a sua verdade na alteridade.



- EDGAR MORIN, Amor, poesia e sabedoria, Lisboa (Piaget), 1999, p. 34.
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12.2.07

Aquilino Ribeiro (O dia começa)





(O dia começa…)





Emborcado sobre o mundo, o céu reluzia como uma redoma.
Desvendam-se hortas e quintais.
Pelos oiteiros, os vagalhões de sombras corriam que nem reses bravas.
Ainda a estrela da manhã pestanejava, mas trémula e apagadiça como pálpebra de menino com sono.
Para a banda das Antas, havia um estendedoiro de vermelho, a tal ‘cabra esfolada’ de que rezavam os antigos, a prenunciar o bom tempo.
As matas, à traseira das lágeas, lembravam uma parede negra, a suster a noite para a banda de lá.
Mas com endireitas no vale, os olhos já iam mais longe pelo espaço que o galope de um bom garrano.
Enxergava-se, em baixo, o pano caiado da igreja, e, reparando bem, o macanjo do galo lá no coruto da torre, de crista para o nascente, à espera de salvar ao Sol como um galo verdadeiro.
Cantava já para os soutos a melra, que é uma passara que pega a cantar logo ao depois do rouxinol.
Dali a pedaço, o cuco, as rolas, a popa e a milheira cantariam, cantariam todos diante da rosa do sol melhor que os senhores padres o tantum ergo.



- AQUILINO RIBEIRO, Terras do Demo, ed. 1963, p.150.

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Jorge de Sena (Poema manuscrito)




POEMA MANUSCRITO NAS FOLHAS BRANCAS DE UM LIVRO E LÁ ESQUECIDO




Não teimes, não insistas, não repitas,
mas vive como quem, teimando, insiste,
e, porque insiste, como que repete.
Esse das sombras o silêncio fluido
escoando-se por ti quando não passas,
parado que ouves, não mais é que o tempo
de hoje em que vives só alheias vidas,
de ti alheadas qual de ti vividas.


Por outro tempo te criaste impuro,
difuso e firme, no clamor de versos
que os tempos de hoje reconstroem como
delidas cartas um fogacho acendem.
Outro que seja, é teu, pois o escutaste
na dor de apenas ser, na dor de ouvir
quão desatentos menos homens são
os homens todos. Teu, sem que teu seja,
que destes e dos outros se fará
serena ciência de possuírem tudo
o que juntares para ser roubado,
quando, parado no silêncio fluido,
se escoava nele o próprio estar na vida,
atento como estavas, poeta como eras
daquele ser não-sendo que eram todos
em ti, dentro de ti, à tua volta.



JORGE DE SENA

Peregrinatio ad loca infecta

(1969)





Mario Benedetti (Sindrome)





SÍNDROME


Todavía tengo casi todos mis dientes
casi todos mis cabellos y poquísimas canas
puedo hacer y deshacer el amor
trepar una escalera de dos en dos
y correr cuarenta metros detrás del ómnibus
o sea que no debería sentirme viejo
pero el grave problema es que antes
no me fijaba en estos detalles.



Mario Benedetti






Tenho ainda os dentes quase todos
o cabelo também e pouquíssimas cãs
posso fazer amor e desfazer
subir degraus dois a dois
e correr quarenta metros atrás do eléctrico
Quer dizer, não devia sentir-me velho
o problema é que dantes
não reparava nestes detalhes.


(Trad. A.M.)




8.2.07

Jaime Sabines (Sombra...)





SOMBRA, NO SÉ, LA SOMBRA
herida que me habita,
el eco.
(Soy el eco del grito que sería.)
Estatua de la luz hecha pedazos,
desmoronada en mí;
en mí la mía,
la soledad que invade paso a paso
mi voz, y lo que quiero, y lo que haría.
Éste que soy a veces,
sangre distinta,
misterio ajeno dentro de mi vida.
Éste que fui, prestado
a la eternidad,
cuando nací moría.
Surgió, surgí dentro del sol
al efímero viento
en que amanece el dia.
Hombre. No sé. Sombra de Dios
perdida.
Sobre el tiempo, sin Dios,
sombra, su sombra todavía.
Ciega, sin ojos, ciega,
- no busca a nadie,
espera -
camina.



Jaime Sabines
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5.2.07

Paul Valéry (Ambíguo)





(Ambíguo...)




A ambiguidade é o domínio próprio da poesia.
Todo o verso é equívoco, plurívoco - como a sua estrutura indica, som + sentido.




Paul Valéry



Ferreira Gullar (Meu pai)






MEU PAI




meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem


quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro




FERREIRA GULLAR, Muitas Vozes (1999)








1.2.07

Um verso (29)











Um verso de Al Berto
( e com este já vão três):









“Amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso”.
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Fernando Assis Pacheco (Rua da Rosa, Lisboa)











RUA DA ROSA, LISBOA: O POMBO








Se o galo gala o pombo pomba? este pombava
ao sol das três da tarde lisboeta num passeio da Rua da Rosa
senhor de si não digo nem arrogante mas com alguns direitos v g do apetite
pombava enquanto carros subiam em segunda aí está cauteloso
o peito inflado as penas do rabo num leque amorável sendo
nele tudo isto «a procura de Deus derramado na urbe» a vinte e dois anos e meio
do fim do mundo
ó futurólogos que me não largais


preciso para o voyeur: pombava e dançava e nos intervalos
céleres da dança pombava ainda apesar de tudo obsequioso
com a fêmea não fosse ela sôbolos pneus que rodam
rua acima ficar-se como a amiga de Ignacio Morel (in Ramón J. Sender)


igual a mim quando pombo ia pombando este pois que se trata
de a buscar sempre mesmo repetida
de uma geração a outra aquilo que é soberbo o amor a novidade



Fernando Assis Pacheco (*)




(*) Despedida do dito, no dia em que o mesmo
faria 70 anos.



Testemunhas: Masson / F.J.Viegas (7 postes, ao todo, e várias remissões) / F.Venâncio

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28.1.07

Mario Benedetti (Papel mojado)





PAPEL MOJADO



Con ríos
con sangre
con lluvia
o rocío
con semen
con vino
con nieve
con llanto
los poemas
suelen
ser
papel mojado



Mario Benedetti
.
.

Aquilino Ribeiro (Uma página de memórias)






(Uma página de memórias…)




… ia às festas, às feiras e romarias com eles, bailava nos terreiros e, frequentando os serões estabulares, tomava parte em zaragatas, bodeganas, bandeado em suas maltas.


Levei tão longe o meu aldeanismo que nos despiques de povo para povo, últimos vestígios ou últimos reflexos das antigas guerras tribais, vislumbráveis nestas rixas, eu alinhava na falange do lugar, armado de varapau e revólver.


- AQUILINO RIBEIRO, Um escritor confessa-se, ed. 1972, p.133.

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23.1.07

Carlos de Oliveira (Vento)





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VENTO


.
.
As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras.



Carlos de Oliveira






22.1.07

Mário Quintana (Livros)





Livros não mudam o mundo,

quem muda o mundo são as pessoas.






Os livros só mudam as pessoas.





Mário Quintana
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21.1.07

Fernando Assis Pacheco (Rascunhos e fragmentos)






RASCUNHOS E FRAGMENTOS





Abençoado seja este dia que passou
comigo inteiro tomates e tudo que já sei
que no geral imito menos mal
os ricos de espírito, amen.

Abençoado o par de meias grossas lavadas pelo Beja.
Abençoado o atado de caricocos.
Abençoado o relato do CUF-Beira Mar há bocado
quando pensei na mulher e estava só.
Abençoada a cuca ao pé do arame.


Abençoado o meu domínio
sobre os nervos desfeitos, shazam!
Abençoada a leitura: David Diop,
Charles Olson (Maximus),
Restif de la Bretonne. Cito de memória.


Abençoado o chuveiro fchquinho.
Abençoada a malta na lerpa.
Abençoada a escala que hoje não nos lixaram.
Abençoada esta brisa.


Abençoados os campos de minas: ninguém sabe, ch.
Abençoado o aviso de Ezra Pound «that war
is the destruction of restaurants».
Abençoado o ouvido para a música.
Abençoado um ceguinho qualquer
(George Shearing, Roses of Picardy).


Abençoado o ponteiro mais pequeno.
Abençoada a noite longa.
Abençoado o suor na virilha que é bom sinal.
Abençoado o calendário das Caves Aliança
com cinquenta e dois domingos garantidos Bairrada.
Abençoado o meu tio Manuel Mendes
de quem me lembro em particular (podias agradecer!).


Abençoado hoje, amanhã e até ao fim da semana.
Abençoado o quilo, o quimo.
Abençoado o esfíncter anal q.b. aflito (e a caca).
Jesus Cristo, Clausewitz, amen.


Abençoado o papel branco onde escrevo
por ora emendo os versos dum batalhão de Estremoz.
Abençoado o Gadanha, o Rossio. Pela ausência.
Abençoados o cabo clarim e o cabo auxiliar de serviços religiosos, dois inúteis.
Abençoada a salve rainha, inútil.


Abençoado o heli pra cavar do golpe de mão.
(Perguntei ao capita se fazia golpes de mão a pensar na glória,
ameaçou-me com o Forte Roçadas. Há um humor
que se joga na dita sinistra — e ganha
a dura dextra. Tu sabes, mestra!)


Càbou pois. Abençoados os ricos de spirits.
Càbou. Abençoada a Antiqua.



Fernando Assis Pacheco


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19.1.07

Paul Valéry (Sentimentos)







(Sentimentos)














É preciso ser especialmente tolo para atribuir a um poeta os sentimentos que aparecem nos seus versos.

E é preciso que os versos sejam especialmente maus para 'exprimirem' os sentimentos do autor.

Ao menos os que ele conhece em si…




Paul Valéry

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18.1.07

Um verso (28)






Um verso de Paz
(é isso, Octavio Paz):





As estrelas são filhas da noite.



[Barcos de flores]

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Pablo Neruda (Poema 5 - Para que me oiças)






Para que me oiças
minhas palavras adelgaçam-se às vezes
como o rasto das gaivotas na praia.


Colar, ébrio cascavel
para tuas mãos suaves como uvas.


E miro-as, longínquas, minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
E trepam pela minha dor como a hera.


Elas trepam assim pelas paredes húmidas.
És tu a culpada desta brincadeira sangrenta.


Elas estão fugindo do meu abrigo escuro.
Tudo preenche-lo tu, tudo tu preenches.


Povoaram antes de ti a solidão que ocupas,
e estão mais do que tu acostumadas à minha tristeza.


Agora quero que digam o que quero dizer-te
para que tu as oiças como quero que me oiças.


O vento da angústia costuma arrastá-las.
E às vezes derrubam-nas furacões de sonhos.


Outras vozes escutas na minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Segue-me.
Segue-me, companheira, nesta onda de angústia.


Mas vão-se tingindo com o amor minhas palavras.
Tudo ocupa-lo tu, tudo ocupas.


Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas brancas mãos, suaves como uvas.



Pablo Neruda


(Trad. A. M.)


Original: Corte-na-aldeia
.

15.1.07

Cristóvão de Aguiar (Os dedos calmantes da ausência)





Os dedos calmantes da ausência demoraram-se, nessa noite, em vir descer sobre os olhos pregados no tecto a sua cortina de penumbra.

Na taça transbordante dos meus ouvidos ecoavam, dolorosamente nítidas, as conversas que haviam enchido a tarde e a imaginação.

Ainda dei fé da estreloiçada da carroça do Ti Manuel Botelho, que, aos sábados, chegava da cidade tarde da noite.

A partir daí, porém, passaram as coisas e os sons a distanciar-se na névoa espapaçada do sono, pesado e saboroso, que principiava a pousar nas pálpebras estrenoitadas.

O macho escarvava agora muito longe, nitrindo de sonho e de desejo pela maquia de milho, no conchego da baia lastrada de palha nova.

Vagaram as desenfreadas correrias dos gatos em cima do telhado.

Acomodava-se o rezingar de ruindade do cão do vizinho.

E apagou-se, nos meus ouvidos, o último ruído que constrói o silêncio da noite velha — caí num buraco de sombra, e anulei-me.



- CRISTÓVÃO DE AGUIAR, O fruto e o sonho, Epílogo, cap. III, princípio, da trilogia Raiz Comovida.
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Yannis Ritsos (O sentido da simplicidade)







O SENTIDO DA SIMPLICIDADE



Escondo-me atrás de coisas simples,
para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos,
uma na outra.


A lua de agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.


Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado –
e só é verdadeira quando, para esse encontro,
ela insiste, a palavra.


(Trad. E. Andrade)


Nota bio: EPDLP

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11.1.07

Maria do Rosário Pedreira (Guarda tu)






Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o


serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.


Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.


Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.


Maria do Rosário Pedreira

 

8.1.07

Edgar Morin (A tragédia)






E isto é também a tragédia: trazemos em nós uma tal necessidade de amor, que por vezes um encontro no momento certo - ou talvez no momento errado - desencadeia o processo da fulminação e da fascinação.


- EDGAR MORIN, Amor, poesia e sabedoria, Lisboa (Piaget), 1999, p. 34.
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Jaime Sabines (O dia)












O DIA







Amanheceu sem ela.
Mal se mexe.
Recorda.


(Meus olhos, mais delgados,
sonham-na.)


Que fácil a ausência!


Nas folhas do tempo
essa gota do dia
escorrega, treme.


Jaime Sabines



(Trad. A.M.)

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5.1.07

Paul Valéry (Entre o som e o sentido)








(Entre o som e o sentido...)





O poema, esta hesitação contínua entre o som e o sentido.




Paul Valéry


Um verso (27)





Um verso de Camões
(poeta zarolho, que foi um grande português):




“Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;”
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias mor tristeza.*





(*Ops, 1-2-3… afinal são três)
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Fernando Assis Pacheco (Sem que soubesses)













SEM QUE SOUBESSES





Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.



Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.



Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.




Fernando Assis Pacheco
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1.1.07

Cristóvão de Aguiar (Mestre Libório sofria pela calada)






Também o mestre Libório sofria pela calada.
Não só devido ao seu descosimento intestinal, mas também por causa da mulher.
A Maria Santa fazia-lhe a vida negra.
Em casa era o mestre Libório um cordeirinho.
Amante como ninguém de festas e procissões, precisava, no entanto, utilizar de manha e cautela se acaso queria ir assistir a alguma.
E que a mulher só se encontrava consigo contradizendo. Dela é que devia partir a iniciativa. Ficar por baixo é que nunca, a não ser...

Depressa o mestre Libório lhe deu com o jeito: virava do avesso a casaca das palavras, e tudo batia certo.
Se sentia um desejo por algum prato mais apetitoso, chegava à beira da Santa e desabafava:
Sabes, mulher, ao vir para casa, vi os pedreiros das obras do senhor Esmeraldo comendo chouriço cozido com ovos e pão trigo; até me senti embrulhado; há lá nada que chegue aos charrinhos assados na sertã, com molho de vilão e pão de rala!...
Escutava-o a Santa, calada, mas depois não se continha e explodia:
Pois vais também comer o mesmo, para aprenderes a não ser biqueiro.


- CRISTÓVÃO DE AGUIAR, O fruto e o sonho, 2.ª parte, cap. VI, abertura, da trilogia Raiz Comovida.
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