23.11.24

Raúl Nieto de la Torre (Magra)




FLACA

 

La muerte elige un novio en cada esquina,
y mientras tú te vistes con un traje
demasiado ajustado
a nuestra realidad, casi obscena.
Si alguien te da un cigarro,
lo enciendes con la boca.
                                                Si alguien mira,
devuelves la mirada y das propina. 
Algunas veces vi cómo llorabas,
pero nunca llegaron las lágrimas al río;
la sangre, en cambio, sí:
dos coches se estrellaron en tu cruce de piernas
una noche estrellada.
Tienes un alma de tacón de aguja
y un corazón sin hambre.
La próxima vez, piensa antes de amar.
Cuenta hasta diez.
 

Raúl Nieto de la Torre

 

A morte escolhe um noivo em cada esquina,
enquanto tu vestes uma roupa 
demasiado ajustada 
à nossa realidade, quase obscena.
Se alguém te dá um cigarro,
tu acende-lo com a boca.
                           Se alguém olha,
devolves o olhar e dás gorjeta.
Vi às vezes como choravas,
mas nunca as lágrimas chegaram ao rio,
o sangue sim;
dois carros estamparam-se no teu cruzar de pernas
uma noite estrelada.
Tens uma alma de saltos de agulha
e um coração sem fome.
Para a próxima, pensa antes de amar.
E conta até dez…
 

(Trad. A.M.)

 .

21.11.24

Mario Quintana (O deixador)




O DEIXADOR 


Eu tenho mania de deixar tudo para depois...
Depois a contagem das cartas a responder...
Depois a arrumação das coisas...
Depois, Adalgisa...Ah,
me lembrar mais uma vez de romper definitivamente com Adalgisa!
Depois, tanta, tanta coisa...
Depois o testamento as últimas vontades a morte.
Só porque vai sempre deixando tudo para depois
é que Deus é eterno
e o mundo incompleto
inquieto...
Só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois!


Mario Quintana

 .

19.11.24

Elías Moro (A mala do viajante)




LA MALETA DEL VIAJERO 

 

En esta maleta guardo mis cosas:
el viejo pijama, regalo de mi madre, que nunca me puse,
un trozo de sol en el hombro de ella,
una piedra que sabe del agua más que los peces mismos,
los primeros dientes que mis hijas perdieron,
poemas de amigos que ya no son ni están, pero permanecen,
los ojos, también de ella, cuando anochece,
un telegrama que anuncia desastres,
el jersey de lana de un amigo muerto,
una música antigua de violines y pianos,
la voz de ella para hablarme de todo esto allá donde vaya
y una cuerda de cáñamo
por si tengo que huir de mí mismo
o ajusticiar a un miserable.
Espero no haberme olvidado de nada:
siempre se olvida algo al cerrar una maleta,
pero nada es importante si se olvida.
 

Elias Moro

  

Nesta mala eu guardo as minhas coisas,
o velho pijama, que nunca usei, presente da minha mãe,
uma réstea de sol no ombro dela,
uma pedra que sabe da água mais do que os próprios peixes,
os primeiros dentes caídos das minhas filhas,
poemas de amigos que já não são nem estão, mas permanecem,
os olhos, também dela, quando anoitece,
um telegrama a anunciar desastre,
o casaco de lã dum amigo falecido,
uma música antiga de piano e violino,
a voz dela a falar-me de tudo isto lá onde for
e uma corda de cânhamo,
para o caso de ter de fugir de mim mesmo
ou justiçar um miserável.
Espero não me ter esquecido de nada,
sempre se esquece algo ao fechar a mala,
mas nada é importante se se esquece.
 

(Trad. A.M.)

 .

18.11.24

Ape Rotoma (Ambições)




AMBICIONES

 

Cuando uno ve con claridad
(y supongo que eso ocurre más
o menos pronto, según)
que conseguir lo que realmente
le gustaría es imposible, uno
siente un gran alivio. ¿Para qué
hacer cosas que solo arreglan
las cosas de forma parcial
o ni eso, con lo que cuestan?
Lo lúcido es pasar de todo
y esperar sentado el milagro
o la muerte, lo que llegue antes.

Ape Rotoma

 

Quando vemos com clareza
(e suponho que seja mais
ou menos depressa, consoante)
que é impossível conseguir
o que realmente gostaríamos,
sentimos um grande alívio. Para quê
fazer coisas que só resolvem
os problemas de forma parcial
ou nem isso, com aquilo que custam?
O melhor é desligar de tudo
e esperar sentado o milagre
ou a morte, o que vier primeiro.

(Trad. A.M.)

.

16.11.24

Eucanaã Ferraz (Outono)




OUTONO



Na terra de Whitman,
conheci o outono
-o rosto incendiado do outono.
Quando viver e morrer
são a mesma fagulha
em cada folha.


Eucanaã Ferraz

.

14.11.24

Andrés Trapiello (O passado)




EL PASADO 

 

Hay cosas sólo mías, una tarde 
con mi padre en Carrizo y sus trasmallos 
furtivos en el Órbigo 
y una mañana en Vegas del Condado, 
junto al viejo molino en cuya cueva 
se combinaba un estraperlo cándido. 
Días irrepetibles en Pedrún, 
en Matueca, en Nocedo y en el Páramo, 
y no sólo en la infancia, en la posguerra, 
en la indefinición de aquellos años, 
sino en estos de ahora. Ella me dijo 
un día que me amaba. Aquel abrazo, 
aunque no lo recuerde ni siquiera, 
es mío inexplicablemente. Y cuanto 
fue dándome la vida generosa 
para luego quitármelo, 
no menos generosa, como propio 
lo tengo. Este feliz fosco collado 
de olivos y lagares entre ortigas, 
el ladrido del perro tan lejano 
y el silencio de ayer y este silencio. 
Mi alma hace recuento. 
No cabe en una vida su pasado.


Andrés Trapiello

  

Há coisas só minhas, uma tarde
com meu pai no Carrizo e suas redes
furtivas no rio Órbigo
e uma manhã em Vegas del Condado,
ao pé do velho moinho em cuja gruta
se combinava um contrabando inocente.
Dias irrepetíveis em Pedrún,
em Matueca, em Nocedo e no Páramo,
e não só na infância, no pós-guerra,
na indefinição desses anos,
também nestes de agora. Um dia
ela disse que me amava. Aquele abraço,
embora já nem o lembre sequer,
é meu inexplicavelmente. E tudo o que
me foi dando a vida generosa,
para depois mo tirar,
não menos generosa, tudo isso
como próprio o tenho. Aquele outeiro
fusco de olivais e lagares entre ortiga,
o latido do cão tão distante 
e o silêncio de ontem e este silêncio agora.
Minha alma faz inventário,
não cabe numa vida seu passado.
 

(Trad. A.M.)

 .

13.11.24

Efraín Huerta (Che)




CHE

 

Para Eugenia Huerta

 

En
La
Calle
Deben
Pasar
Cosas
Extraordinarias

Por
Ejemplo
La
    REVOLUCIÓN


Efraín Huerta

  

Na
rua
devem
dar-se
coisas
extraordinárias

Por
exemplo
a
     REVOLUÇÃO


(Trad. A.M.)

.

11.11.24

Salvatore Quasimodo (Minha pátria é Itália)




IL MIO PAESE È' L' ITALIA 

 

Piu’ i giorni s’allontanano dispersie 
piu’ ritornano nel cuore dei poeti.
La’ i campi di Polonia, la piana di Kutno
con le colline di cadaveri che bruciano
in nuvole di nafta, la’ i reticolati
per la quarantena d’Israele,
il sangue tra i rifiuti, l’esantema torrido,
le catene di poveri gia’ morti da gran tempo
e fulminati sulle fosse aperte dalle loro mani,
la’ Buchenwald, la mite selva di faggi,
i suoi forni maledetti; la’ Stalingrado,
e Minsk sugli acquitrini e la neve putrefatta.
I poeti non dimenticano. Oh la folla dei vili,
dei vinti, dei perdonati dalla misericordia!
Tutto si travolge, ma i morti non si vendono.
Il mio paese e’ l’Italia, o nemico piu’ straniero,
e io canto il suo popolo e anche il pianto
coperto dal rumore del suo mare,
il limpido lutto delle madri, canto la sua vita.
 

Salvatore Quasimodo 

[Otra iglesia] 

 

Mais se afastam os dias dispersos,
mais voltam ao coração dos poetas.
Lá longe os campos da Polónia, o plaino de Kutno
com seus montes de cadáveres ardendo
em nuvens de nafta, lá os arames
para a quarentena de Israel,
o sangue enrre o lixo, o exantema insofrido,
os grilhões de pobres mortos há muito
e fuzilados nas fossas abertas por suas mãos,
lá Buchenwald, o ameno bosque de faias, 
os malditos fornos; lá Estalinegrado,
e Minsk dos pântanos e da neve putrefacta.
Os poetas não esquecem. Oh, a multidão dos maus,
dos vendidos, dos perdoados por piedade!
Tudo se atropela, mas os mortos não se vendem.
Minha pátria é a Itália, ó estrangeiro inimigo,
e eu canto seu povo e também o pranto
coberto pelo barulho do mar,
o límpido luto das mães, canto-lhe a vida.
 

(Trad. A.M.)

.


9.11.24

Efi Cubero (Ramo)




RAMA

 

Aérea como la rama,
a veces soy la rama y soy espacio,
y cuando me agazapo en los retornos
que irradian esa luz sin movimiento,
soy esa misma tierra o el sustrato.
La mezcla tan antigua
de otros latidos que me precedieron.


Efi Cubero

 

 

Aérea como o ramo,
às vezes sou o ramo e sou espaço,
e quando me agacho nos retornos
que irradiam essa luz sem movimento,
sou essa mesma terra ou o substrato.
A mistura tão antiga
de outros latejos antes de mim.


(Trad. A.M.)

 .

8.11.24

Marta Sanz (Nós também)




Nosotras también tenemos derecho a la vida.
Las perras que mienten.
Y las que llevan bozal.
Las niñas perpetuas
que son
viejas prematuras.
Bette Davis lleva un vestido de encaje,
calcetines cortos,
huele a chicle
y un lazo le recoge los tirabuzones.
Tiene ochocientos setenta y nueve años,
y canta una canción
con inflexiones vocales
de estrella juvenil.
No necesita doblaje.
Tenemos derecho a la vida.
También nosotras.
Las tejedoras tristes.
Las retrospectivas.
Las mujeres mimadas
que desatienden a los hijos.
Las lolitas caprichosas
que chupan el palo del polo de mango.
Nosotras también tenemos derecho a vivir.
Aunque todos los días
miremos al frente
y nos lancemos,
rudas e indomables,
sin consideración por la que limpia,
escaleras abajo,
hacia el vacío.

Marta Sanz

 

Nós também temos direito a viver.
As cadelas que mentem
e as que usam mordaça.
As ninas perpétuas
que são
velhas prematuras.
Bette Davis tem um vestido de renda,
meias curtas,
cheira a chicla
e apanha com um laço os cabelos.
Tem oitocentos setenta e nove anos
e canta uma canção
com inflexões vocais
de estrela juvenil,
sem precisar de dobragem.
Temos direito a viver,
nós também,
as tecedeiras tristes,
as retrospectivas,
as mulheres mimadas
que descuidam os filhos,
as lolitas caprichosas
que chupam o pau do gelado de manga.
Nós também temos direito a viver,
embora olhemos para a frente
todos os dias
e nos lancemos,
indomáveis e bruscas,
pela escada abaixo,
sem respeito por quem limpa,
direitas ao vazio.


(Trad. A.M.)



>>  Zenda (8p) / La marea (5p) / El asombrario (rec. Corpórea- poesia reunida)

.

7.11.24

Fernando Assis Pacheco (Peso de Outono)






PESO DE OUTONO




Eu vi o Outono desprender suas folhas,
cair no regaço de mulheres muito loucas.
Cem duzentas pessoas num café cheio de fumo
na cidade de Heidelberg pronta para a neve
saboreavam tepidamente a sua ignorância.


Eu vi as amantes ensandecerem
com esse peso de Outono. Perderem as forças
com o Outono masculino e sangrento.
Os gritos a meio da noite
das amantes a meio da loucura voavam
como facas para o meu peito.


Alguns poetas li-os melhor no Outono,
certos amores só poderia tê-los,
como tive, nos dias ébrios da vindima.


Fernando Assis Pacheco

.

6.11.24

Mary Oliver (Humildade)




HUMILITY

 

Poems arrive ready to begin.
Poets are only the transportation.

Mary Oliver

 

 

Os poemas vêm, prontos a usar.
Os poetas são apenas o transporte.


(Trad. A.M.)

.

4.11.24

Eduardo Chirinos (Catorze formas de melancolia)




CATORCE FORMAS DE MELANCOLÍA

 

1

Oír cantar de noche un pájaro. Un pájaro
en las ramas de un árbol cualquiera:
………………………………………………….alerce,
pino, álamo temblón. Ser por esa noche
el pájaro. Sólo por esa noche
la ventana cerrada. La soledad. El viento.


2

Una vieja melodía hiere los oídos.
No queremos escucharla, pero
insiste. Llama a nuestra puerta,
dice en voz baja soy un cuerpo
¿por qué no me tocas? y en sueños
la tocamos.
……………….Al despertar
se ha ido para siempre. La hermosa
melodía que creímos olvidada.


3

¿Qué mentira se oculta detrás de la verdad
y nos ofrece la belleza?, ¿qué verdad
se oculta detrás de la mentira y nos ofrece
piedad? Piedad. Sólo aguardamos piedad.
Nunca la belleza.


4

Piensa que estoy aquí, que nunca
viajé a ninguna parte. Piensa
que jamás nos separamos, que jamás
te fuiste. Que el esplendor fue nuestro,
nuestra también la oscuridad. Toda orilla
es puente y todo puente un desarraigo.
Una eterna y silenciosa fiesta de amor.

 

5

Si tomo una flor y le pongo tu nombre.
Si tomo tu nombre y le pongo una flor.
Y si me asomo a la ventana y digo
cualquier cosa «eclipse» por ejemplo
o «plenilunio» el cielo se abrirá
en dos como tu nombre. Pero llega
la oscuridad y me deja sus palabras.
Sus viejas y siempre inútiles palabras.


6

Falta de tono es falta de armonía.
El pie en falso, el movimiento
esquivo, la rima fácil y engañosa.
Siempre lo supe:
no hay correspondencias. Todo es
porque no puede ser de otra manera.
La forma que imaginamos con tono,
con pasión, con armonía.


7

Llegar a alguna parte no significa
abandonar otra parte.
…………………………………Arraigar
en un país no cura las heridas
del país que abandonamos.
Balbucear otras lenguas no
nos impide balbucear la nuestra.
La palabra que elegimos
no borra la palabra que ocultamos.


8

Una hormiga carga con esfuerzo
una hoja.
……………….La hoja es enorme
y multiplica su tamaño. Se trata
de un deber inevitable, de una
obediencia atávica.
……………………………Detrás de ella
idénticas hormigas cargan idénticas
hojas. Mañana repetirán el rito,
su razón de ser que ignoro.
Pronto cumpliré cincuenta años.
Pienso en la hormiga.
En su ciega danza hacia la muerte.


9

Nunca te lo dije. Después de
tantos años lo confieso: soy la morsa.
De noche, mientras duermes, viajo
aguas arriba. Mis colmillos rompen
el hielo azul del ártico, mis bigotes
anuncian la dirección del viento,
el lugar exacto de mi presa:
……………………………………..un pulpo,
un cardumen asustado, un narval viejo.
Mañana, cuando despiertes,
me hallarás tendido bajo el sol.
Los ojos abiertos, comidos por los pájaros.


10

¿Alguna vez te preguntaste si el espejo
no invertía las formas del placer? A veces
puedo verme en tu mirada. Sólo entonces
vuelvo a ser quien era: sola en mi caballo,
la infinita llanura al frente. La brisa
del mar negro a mis espaldas.

 

11

La página donde Beatriz muere cada
noche. Los pechos de Helena en las
manos de Paris. El pañuelo envenenado
 de Desdémona. El canto de la alondra.
Los atardeceres de Ovidio en Tomi.
Las mañanas sin luz del prisionero.
La noche que se va sin decir nada.


12

Un galeón cuelga entre las ramas
de una selva indiferente.
…………………………………Un muchacho
se asfixia bajo el peso de la mujer
pelirroja. En Malmö un caballero
juega ajedrez con la muerte. En París
una muchacha traiciona por amor
a su amante. En Alaska un vagabundo
simula un ballet con tenedores
y con panes (¿recuerdas esos panes?)
 se queda dormido sobre la mesa fría.


13

El mundo envejece.
Los viejos poetas cantaron las flores,
los rayos de sol, las hojas secas, el ardor
siempre vivo de la nieve.
…………………………………Pero un día
decidieron callar. O cantar otras cosas:
el rubor de tus mejillas, el dolor
de los placeres, la hondura del silencio.
La máquina absurda y ciega de la historia.
Y el mundo envejece. Mira las flores,
los rayos de sol, las hojas secas, la nieve.


14

El entusiasmo atroz de la serpiente, el
miedo del ratón en el tintero. No lo sabes.
Cada noche la oscuridad borra tus palabras
y acrecienta el deseo. Nadie lo sabe.
El ratón ama a la serpiente y la serpiente
sueña aturdida como el mar. Como tus ojos.

 

Eduardo Chirinos

[Life vest under your seat]

 

 

1

Ouvir cantar de noite um pássaro. Um pássaro
nos ramos de uma árvore qualquer:
                                                       alerce,
pinheiro, ou choupo. Ser por essa noite
o pássaro. Só por essa noite
a janela fechada. A solidão. O vento.


2

Uma velha melodia fere o ouvido.
Não queremos escutar, mas ela
insiste. Bate-nos à porta,
diz baixinho sou um corpo,
porque não me tocas? e em sonhos
tocamo-la.
                Ao acordar
ela foi-se para sempre.
A bela
melodia que pensávamos olvidada.


3

Que mentira se oculta por trás da verdade
e nos oferece a beleza? que verdade
se oculta por trás da mentira
e nos oferece piedade?
Piedade, esperamos só piedade.
Nunca a beleza.
 

4

Pensa que estou aqui, que nuca
viajei para lado nenhum. Pensa
que nunca nos separámos, que tu nunca
te foste. Que o esplendor foi nosso,
nossa também a escuridão. Toda a margem
é ponte, toda a ponte um arranque.
Uma eterna e silenciosa festa de amor.

5

Se tomo uma flor e lhe dou o teu nome,
se tomo teu nome e lhe dou uma flor,
e se assomo à janela e digo qualquer coisa,
‘eclipse’ por exemplo, ou ‘plenilúnio’,
o céu abrir-se-á em dois, como o teu nome.
Mas vem o escuro e deixa-me suas palabras,
as suas velhas sempre inúteis palabras.
 

6

Falta de tom é falta de harmonia,
o pé em falso, o movimiento esquivo,
a rima fácil e enganosa.
Sempre o soube,
não há correspondencias. Tudo é
porque não pode ser de outro modo.
A forma que imaginamos com tom,
com paixão, com harmonia.

 
7

Chegar a um lugar não significa
abandonar outro lugar.
                              Arraigar-se num país
não cura as feridas do país que abandonamos.
Balbuciar otras línguas não
nos impede de balbuciar a nossa.
A palavra que escolhemos
não apaga a palabra que ocultamos.

 
8

Uma formiga carrega uma folha
com grande esforço.
                              A folha é enorme,
de várias vezes  o seu tamanho.
Trata-se de um dever inelutável,
uma obediencia atávica.
                                            Atrás dela,
otras formigas carregam folhas idénticas.
Amanhã repetirão o rito, cuja razão de ser ignoro.
Breve completarei cinquenta anos,
penso na formiga,
na sua dança cega para a norte.
 

9

Nunca to disse, depois de tantos anos
confesso: eu sou a morsa.
De noite, enquanto dormes, viajo
corrente acima. Os meus caninos quebram
o gelo azul do Árctico, os meus bigodes
anunciam a direcção do vento,
o lugar exacto da minha presa:
                                            um polvo,
um cardume assustado, um narval velho.
Amanhã, quando acordares,
ver-me-ás estendido ao sol,
os olhos abertos, comidos pelos pássaros.
 

10

Alguma vez te interrogaste se o espelho
não invertia as formas do prazer? Às veces
posso ver-me no teu olhar, só então
volto a ser quem era antes, só no meu cavalo,
o plaino infinito diante, a brisa
do mar negro nas minhas costas.
 

11

A página onde Beatriz morre todas as noites.
Os peitos de Helena
nas mãos de Páris. O lenço envenenado
de Desdémona. O canto da cotovía.
O entardecer de Ovídio em Tomi.
As manhãs sem luz do prisioneiro.
A noite que se vais em dizer nada.
 

12

Um galeão suspenso entre os ramos
de uma selva indiferente.
Um rapaz
asfixia sob o peso da mulher ruiva.
Em Malmö um cavalheiro
joga xadrez com a norte. Em Paris
uma moça trai por amor
o seu amante. No Alaska um vagabundo
simula um balé com garfos
e com pães (lembras esses pães?)
e fica adormecido na mesa fría.

 
13

O mundo envelhece.
Os velhos poetas cantaram as flores,
os raios de sol, as folhas secas, o ardor
sempre vivo da neve.
Mas um dia
resolveram calar-se. Ou cantar otras coisas,
o rubor da tua fase, a dor
dos prazeres, o fundo do silencio.
A máquina absurda e cega da história.
E o mundo envelhece. Repara nas flores,
nos raios de sol, nas folhas secas, na neve.

 
14

O entusiasmo atroz da serpente,
o medo do rato no tinteiro. Tu não sabes.
Todas as noites o escuro apaga-te as palavras
e acrescenta o desejo. Ninguém sabe.
O rato ama a serpente e a serpente
sonha aturdida como o mar. Como os teus olhos.


(Trad. A.M.)

.

3.11.24

David Mayor (Mil demónios)

 



MIL DEMONIOS

 

La idea de mostrar sólo lo mejor
de nosotros es repugnante.
Un hombre sin estorbos
viaja con tan poco equipaje
que ni el mismo se reconoce.

David Mayor

 

 

A ideia de mostrar só o melhor
de nós próprios é repugnante.
Um homem sem empecilhos
viaja com tão pouca bagagem
que nem ele mesmo se reconhece.


(Trad. A.M.)

.

1.11.24

Mário Cesariny (Lógica do Café Royal)

 



LÓGICA DO CAFÉ ROYAL

 

O inferno é o real absoluto.
Quanto mais infernal mais verdadeiro.
Por enquanto.

Horus     filho de Osiris e de Nephtis.

O pavoroso e o vaporoso incluem-se.

Uma nuvem escarlate sai da tua boca em direcção ao rio.
Talvez te hajas devorado a ti mesmo,
primeiro só um braço, depois só o outro.
Talvez a imagem de uma cidade em chamas
onde o excesso da circulação de revoltos, na zona dos qurtéis,
atira para o céu todos os pesos médios.

Amor dos elefantes. Ao Cruzeiro Seixas.
Se tu não viste tudo que viste tu?

As coisas inanimadas animaram-se:
quando dormes há um prédio que te adora.

O lirismo é epigonismo da prisão de ventre.
Se alguma vez fui lírico – mas dizem-me que sim –
é porque estava com essa prisão.

Os que se matam parece que se atam.
               (…) 

Mário Cesariny

.

30.10.24

Circe Maia (Mudanças)




CAMBIOS

 

Unas veces el cambio se prepara
en forma subterránea pero estalla
de modo brusco, abierto:
nova en el cielo
inundación de luz en plena noche
lengua de fuego
asoma sorpresivamente en la mirada
del otro, vuelto Otro, vuelto ajeno.

Otros cambios se gestan
imperceptiblemente.

De una oscura manera
de un modo
silencioso
lo que no estaba está y lo que estaba
es destruido.

Pero tan gradualmente
que siempre quedan restos:
de la mirada, alguna
chispa
alguna vez.
De la voz, algún eco
(Palabra no enfriada
todavía.)

 

Circe Maia

 

Umas vezes a mudança faz-se
de forma subterrânea, mas explode
bruscamente, a céu aberto:
nova no céu 
inundação de luz em plena noite
língua de fogo 
assoma de surpresa no olhar 
do outro, tornado Outro, allheio vulto.

Outras mudanças surgem
imperceptivelmente.

De forma obscura
silenciosamente 
o que não estava está e o que estava
é destruído.

Mas tão gradualmente
que ficam sempre restos:
do olhar, uma
chispa
algumas vezes;
da voz, algum eco
(palavra ainda
não arrefecida).

(Trad. A.M.)

 .

29.10.24

David González (Metamorfose)




METAMORFOSIS

 

sobre la almohada,
en su lado de la cama,
lo que a primera vista
parece ser
el pétalo de una rosa
se revela, luego,
como un simple trozo
de cinta aislante.

David González

 

 

sobre a travesseira,
do seu lado da cama,
o que parece
à primeira vista
uma pétala de rosa
revela-se, depois,
um simples bocado
de fita isoladora.

(Trad. A.M.)

 .

27.10.24

Manuel Resende (Sai de casa)




SAI DE CASA

 

 

 

Rasga este poema depois de o leres.

E depois espalha os bocados

pelo vasto mundo

ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,

atira-o ao mar, deita-o ao lixo,

para que venha o vento, o sol, a chuva, os homens do lixo,

acabar com ele de vez.

Passado um dia,

sai de casa e procura

encontrá-lo de novo.

 

Manuel Resende

 

 

25.10.24

Cristina Peri Rossi (Assombro)




ASOMBRO

 

Enséñame - dices, desde tus veintiún años
ávidos, creyendo, todavía que se puede enseñar alguna cosa
y yo, que pasé de los sesenta
te miro con amor
es decir, con lejanía
(todo amor es amor a las diferencias
al espacio vacío entre dos cuerpos
al espacio vacío entre dos mentes
al horrible presentimiento de no morir de a dos)
 
te enseño, mansamente, alguna cita de Goethe
(“detente, instante, eres tan bello")
o de Kafka (una vez hubo, hubo una vez
una sirena que no cantó)
 
mientras la noche lentamente se desliza hacia el alba
a través de este gran ventanal
que amas tanto
porque sus luces nocturnas
ocultan la ciudad verdadera
 
y en realidad podríamos estar en cualquier parte
estas luces podrían ser las de New York, avenida
Broadway, las de Berlín, Konstanzerstrasse,
las de Buenos Aires, calle Corrientes
 
y te oculto la única cosa que verdaderamente sé:
sólo es poeta aquel que siente que la vida no es natural
que es asombro
descubrimiento revelación
que no es normal estar vivo
no es natural tener veintiún años
ni tampoco más de sesenta

no es normal haber caminado a las tres de la mañana
por el puente viejo de Córdoba, España, bajo la luz
amarilla de las farolas,
no es natural el perfume de los naranjos en las plazas
-tres de la mañana-
ni en Oliva ni en Sevilla
lo natural es el asombro
lo natural es la sorpresa
lo natural es vivir como recién llegada
al mundo
a los callejones de Córdoba y sus arcos
a las plazas de París
a la humedad de Barcelona
al museo de muñecas
en el viejo vagón estacionado
en las vías muertas de Berlín
 
Lo natural es morirse
 
sin haber paseado de la mano
por los portales de una ciudad desconocida
ni haber sentido el perfume de los blancos jazmines en flor
a las tres de la mañana,
meridiano de Greenwich
 
lo natural es que quien haya paseado de la mano
por los portales de una ciudad desconocida
no lo escriba
lo hunda en el ataúd del olvido
 
La vida brota por todas partes
consanguínea
ebria
bacante exagerada
en noches de pasiones turbias
pero había una fuente que cloqueaba
lánguidamente


y era difícil no sentir que la vida puede ser bella a veces
como una pausa
como una tregua que la muerte
le concede al goce.
 

CRISTINA PERI ROSSI
Detente, instante eres tan bello
(2021)

[Marcelo Leites]

 

 

Ensina-me – dizes, com os teus vinte anos
ávidos, julgando ainda que alguna coisa
se pode ensinar,
e eu, que passei dos sessenta,
olho-te com amor,
quer dizer, com distância
(todo amor é amor das diferenças
do espaço vazio entre dois corpos
do espaço vazio entre duas mentes
do pressentimento horrível de não morrer a dois)

e eu ensino-te, calmamente, alguna citação de Goethe
(‘detém-te, instante, és tão belo’)
ou de Kafka (em tempos houve, houve em tempos
uma sereia que não cantou)

enquanto a noite lentamente desliza para a aurora
coada por esta grande janela
que amas tanto
por suas luzes nocturnas
ocultarem a cidade verdadeira

e na verdade podíamos estar em qualquer lado
estas luzes podiam ser as de Nova Iorque, avenida
Broadway, ou de Berlim, Konstanzerstrasse,
ou Buenos Aires, calle Corrientes

e escondo-te a única coisa que verdadeiramente sei,
que só é poeta quem sinta que a vida não é natural
que é assombro
descoberta revelação
que não é normal estar vivo
não é natural ter vinte anos
nem tão pouco mais de sesenta

não é normal caminar às três da manhã
pela ponte antiga de Córdoba, Espanha,
com a luz amarela dos candeeiros,
não é natural o perfume das laranjeiras nas praças
- três da manhã -
seja em Oliva seja em Sevilha,
o natural é o assombro
o natural é a surpresa
o natural é viver como recém-chegada ao mundo
aos becos de Córdoba e suas arcadas
às praças de Paris
à humidade de Barcelona
ao museu de bonecas
no velho vagão estacionado
nas linhas mortas de Berlim

O natural é morrer

sem passear de mão dada
nas portas de uma cidade desconhecida
nem sentir o perfume dos brancos jasmins em flor
às três da manhã,
meridiano de Greenwich

o natural é que quem tiver passeado de mão dada
às portas de uma cidade desconhecida
não o escreva
que o afunde no caixão do olvido

A vida brota por todo o lado
consanguínea
ébria
bacante exagerada
em noites de turvas paixões
mas havia uma fonte que rumorejava
languidamente

e era difícil não sentir que a vida pode ser bela por veces
como uma pausa
como uma trégua que a morte
concede ao prazer.


(Trad. A.M.)

 .

24.10.24

Claudio Bertoni (O que no fundo)




LO QUE EN EL FONDO 
quiero
es que se muera.

para enterrarla en mí.
para ser su ataúd.
para llevarla siempre
dentro de mí.


Claudio Bertoni

 

 

O que no fundo
eu quero
é que ela morra.

para enterrá-la em mim.
para lhe servir de caixão.
para a ter sempre
dentro de mim.


(Trad. A.M.)

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