11.2.08

Adília Lopes (Meteorológica)









METEOROLÓGICA
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para o José Bernardino
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Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter
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Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas
.
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.
Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)
.
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A vida
é livro
e o livro
não é livre
.
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Choro
chove
mas isto é
Verlaine
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Ou:um dia
tão bonito
e eu
não fornico




Adília Lopes

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Fontes: Alguma-poesia (perfil+6p) / DGLB (bio+biblio+excertos+linques) / Arlindo-Correia (11p+linques+crítica+entrevista, etc.)
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Julio Cortázar (A un general)






A UN GENERAL




Región de manos sucias de pinceles sin pelo
de niños boca abajo de cepillos de dientes


Zona donde la rata se ennoblece
y hay banderas inhumanas y cantan himnos
y alguien te prende, hijo de puta,
una medalla sobre el pecho


Y te pudres lo mismo.


Julio Cortázar



Fonte

8.2.08

Alberto Pimenta (Fastos III)









FASTOS III





artur hipólito morreu com 62 an
os, 20 anos após ter feito 42, mas
na altura quem diria?


heitor fragoso morreu atropelado.
foi levado para o hospital, mas es
queceram-se duma parte do corpo
no local do acidente.


manuel testa morreu sem se ter c
onseguido habituar a este modo
de mal-estar no mundo.


arnaldo rodrigues caiu a um bur
aco da canalização e nunca mais
foi visto.


jeremias cabral pôs termo à exist
ência por motivos desconhecidos.


zeca gomes morreu em defesa da
pátria mas a pensar noutra coisa.


antónio de oliveira morreu igual
a si mesmo: triste sinal dos te
mpos!


bernardo leite pôs-se a pensar na
morte e não conseguiu voltar a
trás.


ivo gouveia tinha uma agência f
unerária e escolheu para si um
caixão representativo.


guilherme silva fechou-se no sót
ão, para morrer num lugar eleva
do.


luís dimas respirava saúde, agora
respira um hálito de eternidade.


antónio garcia, o coveiro, teve u
ma síncope e caiu dentro da cov
a que estava a abrir.


bento nogueira engasgou-se com
um pedaço de carne e desapare
ceu do nosso convívio.


paiva de jesus enforcou-se.


joão baptista viu o cunhado lev
antar-se do caixão e teve uma sí
ncope.


lourenço pinheiro estava a ver a
trovoada e um relâmpago entrou
lhe por um olho e saiu-lhe pelo
outro.


jorge velez de castro finou-se
após uma longa vida de sacrifí
cios, toda dedicada ao bem-comu
m. e foi assim: depois de ter inge
rido o seu sumo de laranja, foi c
onduzido para a cadeira de rep
ouso pelo enfermeiro de confian
ça. nela se conservou, de boca en
treaberta e olhos fechados, até
às onze horas. às onze horas, o e
nfermeiro de confiança aproxim
ou-se com a intenção de o condu
zir ao banho. pondo delicadamen
te a mão nas costas da cadeira,
disse: são horas do banho, senhor
director. como este não desse si
nal de ter ouvido, o enfermeiro
de confiança, com a costumada jo
vialidade, debruçou-se e repetiu:
são horas do banho, senhor direc
tor. posto isto, empurrou a cadei
ra até ao balneário, passou um br
aço pelos rins outro por baixo d
os joelhos do director, e assim o
levou para a água, só então se da
ndo conta de que ele já não vivia.


zé maria, o peidolas, foi expulso
da vida pela autoridade compet
ente.


joão gaspar foi um nobre e val
oroso homem que morreu heroi
camente no campo da honra. p
az à sua alma.


raul santos deitou-se um dia e p
or mais que o sacudissem nunca
mais se levantou.


alfredo penha caiu tão desastrada
mente da cama que nem é possív
el dar pormenores da sua morte.


joaquim perestrelo morreu no me
io da missa, qual quê! ainda a m
issa não ia a metade!


sousa dias morreu de pé, mas en
terraram-no deitado, como toda a
gente.




Alberto Pimenta
.



Fontes: Wikipedia / DGLB (bio+biblio) / P.Vercial (análise Carlos Nogueira - 16pp.)

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4.2.08

António Osório (Fala o arrumador de automóveis)











FALA O ARRUMADOR DE AUTOMÓVEIS





Assustado com a miséria e estes anos,
pouco espero de Deus e dos homens.
Não mendigo, olho de soslaio, adivinho,
sem gratidão guardo no bolso os óbolos.
E fui pescador, depois faroleiro: longe
deitava a alma, relâmpago
sobre falésias, em estrelas tocava,
a sirene era o meu grito de amor.
Transluzente e distante e bom
como clarões de um farol nunca foi fácil:
algo se afundava debaixo de mim,
desconhecida culpa. Odeio, sim, odeio
este parque onde chuva e sol impõem as mãos
e na pele penetram sem bálsamo.
Primeiro a luxúria, depois vinho,
escuridão. No fundo de um poço
cujas paredes ressumam lágrimas e avencas.
Custa ganhar a vida e perdê-la.
Tudo foi defraudado, sou eu
- eu ou alguém por mim- quem aperta
desde a infância o nó que me estrangula.





António Osório







Miguel Torga (Sagres)





Sagres é hoje um ímpeto parado, a seta indicadora dum rumo perdido, real e simbolicamente.

Lugar dum sentido histórico perpetuado pela fatalidade da duração natural, fragão áspero onde a vida não se resigna a renunciar, ali está, retesado num gesto inútil e pertinaz, envolto num burel de cardos, cilícios com que a si próprio se macera.



- MIGUEL TORGA, Portugal (Sagres).
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1.2.08

Olhar (15)








Gondramaz

- Serra da Lousã

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(que é em M.Corvo)

Jaime Sabines (He aqui que tú estás sola)





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He aquí que tú estás sola y que estoy solo.
Haces tus cosas diariamente y piensas
y yo pienso y recuerdo y estoy solo.
A la misma hora nos recordamos algo
y nos sufrimos. Como una droga mía y tuya
somos, y una locura celular nos recorre
y una sangre rebelde y sin cansancio.
Se me va a hacer llagas este cuerpo solo,
se me caerá la carne trozo a trozo.
Esto es lejía y muerte.
El corrosivo estar, el malestar
muriendo es nuestra muerte.
.
.
.
Yo no sé dónde estás. Yo ya he olvidado
quién eres, dónde estás, cómo te llamas.
Yo soy sólo una parte, sólo un brazo,
una mitad apenas, sólo un brazo.
Te recuerdo en mi boca y en mis manos.
Con mi lengua y mis ojos y mis manos
te sé, sabes a amor, a dulce amor, a carne,
a siembra, a flor, hueles a amor, a ti,
hueles a sal, sabes a sal, amor, y a mí.
(…)


Jaime Sabines
.
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29.1.08

Albano Martins (Como um livro)










COMO UM LIVRO










Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma:
encontrei-a no índice.




Albano Martins



Fontes: As Tormentas (bio+27p) / Um-buraco-na-sombra (24p) / Lídia Aparício (16p) / DGLB (bio+biblio+linques) / nEscritas (5p) / Poesias-e-prosas (7p) / P.Vercial (perfil)
.
Antes, aqui: Quatro perguntas





27.1.08

Hilda Hilst (Não me procures ali)






Não me procures ali
onde os vivos visitam
os chamados mortos.
Procura-me
dentro das grandes águas
nas praças
num fogo coração
entre cavalos, cães,
nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
ou espelhada
num outro alguém,
subindo um duro caminho.
Pedra,
semente, sal
passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.



Hilda Hilst

24.1.08

Miguel Torga (Algarve)






O Algarve, para mim, é sempre um dia de férias na pátria.

Dentro dele nunca me considero obrigado a nenhum civismo, a nenhuma congeminação telúrica nem humana.

Debruço-me a uma varanda de Alportel e apetece-me tudo menos ser responsável e ético.

As coisas de Trás-os-Montes tocam-me muito no cerne para eu poder esquecer a solidariedade que devo a quem sofre e a quem sua.

E isto repete-se com maior ou menor força no resto de Portugal.

Mas, passado o Caldeirão, é como se me tirassem uma carga dos ombros.

Sinto-me livre, aliviado e contente, eu que sou a tristeza em pessoa!

A brancura dos corpos e das almas, a limpeza das casas e das ruas, e a harmonia dos seres e da paisagem lavam-me da fuligem que se me agarrou aos ossos e clarificam as courelas encardidas que trago no coração.

No fundo, e à semelhança dos nossos primeiros reis, que se intitulavam senhores de Portugal e dos Algarves, separando sabiamente nos seus títulos o que era centrípeto do que era centrífugo no todo da Nação, não me vejo verdadeiramente dentro da pátria.

Também me não vejo fora dela.

Julgo-me numa espécie de limbo da imaginação, onde tudo é fácil, belo e primaveril.



- MIGUEL TORGA, Portugal (O Algarve).

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Nuno Júdice (Princípios)





PRINCÍPIOS



Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.


Nuno Júdice


>>  nEscritas (24p) / As Tormentas (bio+14p) / DGLB (bio+biblio) / Pen Clube (idem)

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18.1.08

Angel González (Luz llamada día trece)





LUZ LLAMADA DÍA TRECE




A cada cosa por su solo nombre.
Pan significa pan; amor, espanto;
madera, eso; primavera, llanto;
el cielo, nada; la verdad, el hombre.
Llamemos luz al día, aunque se asombre
quien dice "Es martes hoy, ayer fue santo
Tomás, mañana será fiesta". ¡Cuánto
más verdadera que cualquier pronombre
es esa luz que cuaja el aire en día!
Hoy es la luz llamada día trece
de materia de mayo y sol, digamos.
Y si hablamos de mí -puesto que hablamos,
de algo hay que hablar-, digamos todavía:
pasión fatal que como un árbol crece.


Ángel González




Cada coisa com seu nome.
Pão é pão; amor, espanto;
madeira, isso mesmo; primavera, pranto;
o céu, nada; a verdade, o homem.
Chamemos luz ao dia, embora se espante
quem diz “É terça hoje, ontem foi o S. Tomás
e amanhã é dia de festa”. Muito mais
verdadeira do que qualquer pronome
é esta luz que coalha o ar em dia!
Hoje é a luz chamada dia treze
de matéria de Maio e sol, digamos assim.
E se falamos de mim - dado que falamos,
de algo havemos de falar - digamos ainda:
paixão fatal, que cresce como árvore.

(Trad. A.M.)


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Fontes: El Pais (notícia da morte: 12.1.2008) / Cervantes (tudo+algo) / A-media-voz (bio+53p) / Poesi-as (30p) / EPLP (bio+poemas+audio) / Um-buraco-na-sombra (bio+22p)

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Um verso (40)





Um verso de Ruy Belo
(media vita…):






Resta-me um sonho desconexo e desconforme.

15.1.08

Pedro Mexia (Ao contrário de Ulisses)










AO CONTRÁRIO DE ULISSES





Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.





PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)




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12.1.08

Miguel Torga (Lisboa)





Lisboa é bonita.

Está ainda para nascer o primeiro insensível que no alto de Santa Catarina não arregale os olhos de espanto diante da formosura dum panorama que a natureza se não gaba de ter repetido.

Entre a investida castelhana do Doiro, em cima, e o esquivo namoro andaluz do Guadiana, em baixo, Portugal merecia a visita calma e demorada dum grande curso de água, que sem a ajuda de noras lhe matasse a sede e, sem leixões, fosse um porto de abrigo.

A secura do corpo pedia refrigério; a agressão do oceano, protecção das vagas.

Quis a sorte que assim fosse e o Tejo abrisse no calcário estremenho um estuário largo e majestoso, fundo e aconchegado que, depois de magoar os montes, os transformasse em miradoiros de sonho.

E de cada colina onde a gente se debruça é um pasmo sem limitações que abrange o céu e a terra na mesma agradecida emoção.

Sobre a toalha límpida do rio cai luz a jorros duma lâmpada hialina, escondida no tecto azul do cenário; e o movimento ritmado das embarcações, o perfil recortado do casario e o enquadramento dos longes arredondam a beleza da tela, dando-lhe realidade.

E, quer queira, quer não, o espírito fica rendido a uma bênção de cor, de grandeza e de harmonia



- MIGUEL TORGA, Portugal (Lisboa).


10.1.08

Eugénio de Andrade (As amoras)





AS AMORAS





O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.




EUGÉNIO DE ANDRADE
O Outro Nome da Terra



Fonte: Fundação E.A.

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5.1.08

Amalia Bautista (Hospital de incurables)







HOSPITAL DE INCURABLES





Puedes venir a verme quando quieras
ya sabes donde estoy. Mis compañeros
son muchos pero yo me siento sola.
Hay un inválido que nunca pudo
tirarse a la piscina milagrosa.
Hay un pobre leproso cuyo cuerpo
es una enorme llaga siempre abierta.
Y un apestado. Y un tuberculoso.
Y otro con fiebres. Y otro más que nunca
pudo curar con hiel sus ojos ciegos.
Y yo, más incurable que ninguno
desde que me arrancaste el corazón
y lo pusiste en venta en un mercado.


Amalia Bautista




Fonte: Um-buraco-na-sombra





Podes vir ver-me quando quiseres,
sabes onde estou. Meus companheiros
são muitos, mas eu sinto-me só.
Há um inválido que nunca se pôde
atirar à piscina milagrosa.
Há um pobre leproso com o corpo
numa enorme chaga sempre aberta.
Há um que tem peste. E um tuberculoso.
E um outro com febres. E outro ainda
que nunca pôde curar os olhos cegos com fel.
E eu, mais incurável que todos
depois que me arrancaste o coração
e o puseste à venda na feira.



(Trad. A.M.)

1.1.08

Casimiro de Brito (A paz)





A PAZ




Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?
Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: o que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?
Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te: o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?




CASIMIRO DE BRITO
Jardins de Guerra (1966)
.

13.12.07

Olhar (13)







Praia da Vitória

- A caminho de Biscoitos

(Terceira)

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INDICE DE AUTORES (2005-7)







ACQUARONI, Rosana
AGUIAR, Cristóvão
AGUIAR, Jorge
AGUSTINI, Delmira
ALBERTY, Rafael
ALEGRIA, Claribel
ALEXANDRE, António Franco
ALMEIDA, José António
ALONSO, Dámaso
ANDRADE, Carlos Drummond
ANDRADE, Eugénio
ANDRADE, Mário
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner
ASSIS, Machado
BANDEIRA, Manuel
BAPTISTA, José Agostinho
BARROS, Manoel
BAUTISTA, Amalia
BELO, Ruy
BENEDETTI, Mário
BERGAMÍN, José
BERTO, Al
BORGES, Jorge Luís
BOTTO, António
BRECHT, Bertolt
BRITO, Casimiro
CADILHE, Gonçalo
CAMÕES, Luís
CARNEIRO, Mário Sá
CELAYA, Gabriel
CENTENO, Yvette
CERNUDA, Luís
CESARINY, Mário
CHAR, René
CORTÁZAR, Julio
CRUZ, Sor Juana Inês
CUENCA, Luis Alberto
EDSON, Russel
ELUARD, Paul
FERREIRA, David Mourão
FIGUEIREDO, Tomaz
GALEANO, Eduardo
GULLAR, Ferreira
HÉLDER, Herberto
HERCULANO, Alexandre
HERNÁNDEZ, Miguel
HILST, Hilda
HORTA, Maria Teresa
JÚDICE, Nuno
KAVAFIS, Konstandinos
LEIRIA, Mário-Henrique
LIMA, Ângelo
LISPECTOR, Clarice
LOBO, Francisco Rodrigues
LOPES, Fernão
MARTINS, Albano
MEIRELES, Cecília
MEXIA, Pedro
MONETTE, Hélène
MONTEIRO, Adolfo Casais
MORAES, Vinicius
MORIN, E.
MOURA, Gabriela
NEGREIROS, José Almada
NEMÉSIO, Vitorino
NERUDA, Pablo
NIETZSCHE, Friedrich
OLIVEIRA, Carlos
OLIVEIRA, Mário Rui
O’NEILL, Alexandre
OSÓRIO, António
PACHECO, Fernando Assis
PACHECO, José Emílio
PANERO, Juan Luis
PAZ, Octavio
PEDREIRA, Maria do Rosário
PESSOA, Fernando
PIRES, Graça
PRADO, Adélia
PRÉVERT, Jacques
QUINTANA, Mário
RIBEIRO, Aquilino
RIBEIRO, Bernardim
RITSOS, Yannis
ROSA, António Ramos
SABINES, Jaime
SAFO
SALINAS, Pedro
SENA, Jorge
TAVARES, Gonçalo M.
TORGA, Miguel
VALÉRY, Paul
VERDE, Cesário
VICENTE, Gil
YOURCENAR, Marguerite

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11.12.07

Gabriela Moura (Bebe tu de mim)















BEBE TU DE MIM






Um desejo imenso
que me tomes nos teus braços
e me arrastes para um canto
onde o vermelho da paixão se confunda
com os contornos do meu rosto.
Arrasta-me até onde o sol se põe
e descobre no cume do meu ventre
todas as delícias que
um dia
eu guardei só para ti.


Ah! Apenas um desejo me consome.


Um desejo imenso
que arrastes este corpo abandonado que sou
e estendas nele o teu sorriso
até que ele ávido e doce me toque
e tal como a abelha sorve o néctar da flor
bebe tu de mim
o que em mim resta de um abraço.


Gabriela Moura

[Corte na Aldeia}

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4.12.07

Ruy Belo (Soneto superdesenvolvido)







SONETO SUPERDESENVOLVIDO




É tão suave ter bons sentimentos,
consola tanto a alma de quem os tem,
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer o bem.


Por isso, quando no Verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada,
consola mais viver entre os muito pobres
que conviver com gente a quem não falta nada.


E ao fim de tantos anos a dar do que é seu,
independentemente da maneira como se alcançou,
ainda por cima se tem lugar garantido no céu,
gozo acrescido ao muito que se gozou.


Teria este ... se não tivesse outro sentido,
ser natural de um país subdesenvolvido.



Ruy Belo
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27.11.07

Miguel Torga (Ribatejo)








O Ribatejo deve ser visto das Portas do Sol de Santarém, num dia de cheia, ou das bancadas duma praça de toiros, numa tarde de verão.

Num dia de cheia, porque o Tejo hipertrofiado marca-lhe exactamente a extensão e os contornos que a geografia nunca encontrou; numa tarde de toiros, porque é no redondel que se precisa a sua íntima significação. (…)

Quando o rio entumesce, e um mar de água se espreguiça por quilómetros e quilómetros de terras baixas e porosas, Portugal, sempre sequioso e árido, sente que aquela nesga da pátria é um mundo à parte dentro das suas entranhas - um mundo rico, de aluvião, de maná, em que não é preciso tirar dos abismos, a gastalho, a verdura duma couve, e se pode gastar o tempo numa lúdica e alegre faina, a cavalgar nas asas do vento…




- MIGUEL TORGA, Portugal (O Ribatejo).

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20.11.07

Jaime Sabines (No es que muera de amor)






NO ES QUE MUERA DE AMOR, MUERO DE TI.
Muero de ti, amor, de amor de ti,
de urgencia mía de mi piel de ti,
de mi alma de ti y de mi boca
y del insoportabie que yo soy sin ti.




Muero de ti y de mí, muero de ambos,
de nosotros, de ese,
desgarrado, partido,
me muero, te muero, lo morimos.




Morimos en mi cuarto en que estoy solo,
en mi cama en que faltas,
en la calle donde mi brazo va vacío,
en el cine y los parques, los tranvías,
los lugares donde mi hombro acostumbra tu cabeza
y mi mano tu mano
y todo yo te sé como yo mismo.
(…)




Jaime Sabines

14.11.07

Pedro Mexia (A flecha envenenada)

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A FLECHA ENVENENADA
(relato budista)







A memória é como o homem atingido
pela flecha envenenada: antes que curem
a ferida ele pergunta quem o atingiu,
como se chama, onde está, o seu aspecto.
Então talvez saiba mais sobre a flecha
e o archeiro, mas é demasiado tarde para
ser salvo.




PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
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30.10.07

Juan Luis Panero (A la mañana siguiente)






A LA MAÑANA SIGUIENTE CESARE PAVESE NO PIDIÓ EL DESAYUNO






Solo bajó del tren,
atravesó solo la ciudad desierta,
solo entró en el hotel vacío,
abrió su solitaria habitación
y escuchó con asombro el silencio.
Dicen que descolgó el teléfono
para llamar a alguien,
pero es falso, completamente falso.
No había nadie a quien llamar,
nadie vivía en la ciudad, nadie en el mundo.
Bebió el vaso, las pequeñas pastillas,
y esperó la llegada del sueño.
Con cierto miedo a su valor
- por vez primera había afirmado su existencia -
tal vez curioso, con cansado gesto,
sintió el peso de sus párpados caer.
Horas después - una extraña sonrisa dibujaba sus labios -
se anunció a sí mismo, tercamente,
la única certidumbre que al fin había adquirido:
jamás volvería a dormir solo en un cuarto de hotel.





JUAN LUIS PANERO
Los trucos de la muerte (1975)






Cesare Pavese: Biografia

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25.10.07

Um verso (39)





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Um verso do Assis
(compridito, já disse?…):











Porque eu amo-te, isto é, dou cabo da escuridão do mundo.




Fernando Assis Pacheco



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Herberto Hélder (A carta da paixão)












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A CARTA DA PAIXÃO





Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os recessos negros
onde se formam as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se
alumia: a língua alumia-se.
O mel escurece dentro da veia jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem,
nenhum astro
é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco
luminoso, arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como
um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que
crescem nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas



Herberto Hélder




Fonte: nEscritas


16.10.07

António Osório (A raiz afectuosa)






A RAIZ AFECTUOSA





Com os anos
a pouco e pouco
a raiz afectuosa
penetrou
no fundo da terra
até chegar ao mais pequeno
e mais antigo
veio de lágrimas.




António Osório





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Miguel Torga (As videiras choram de frio)







Doiro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos.

Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho; nenhuma outra nesga de terra nossa possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos.

Basta sentir no corpo, uma só vez, a dentada daquelas fragas que devolvem ao céu, agressivamente, a luz recebida, ou molhar os pés na levada barrenta que o garrote dos espinhaços tenta estrangular, para se ver que não há desgraça maior dentro da pátria, nem semelhante via-sacra de meditação.

De ponta a ponta do ano nenhuma bênção possível mitiga a crucificação do sofrimento.

No verão, um calor de forja caldeia o xisto e transforma a corrente numa alucinação de lava a mover-se; no Inverno, até os olhos das videiras choram de frio.




- MIGUEL TORGA, Portugal (O Doiro).


9.10.07

Jaime Sabines (Ainda a morte da mãe)





(Ainda a morte da mãe…)




XVII




Lloverás en el tiempo de lluvia,
harás calor en el verano,
harás frío en el atardecer.
Volverás a morir otras mil veces.




Florecerás cuando todo florezca.
No eres nada, nadie, madre.




De nosotros quedará la misma huella,
la semilla del viento en el agua,
el esqueleto de las hojas en la tierra.
Sobre las rocas, el tatuaje de las sombras,
en el corazón de los árboles la palabra amor.




No somos nada, nadie, madre.
Es inútil vivir
pero es más inútil morir.




JAIME SABINES
Maltiempo (1972)







Choverás em tempo de chuva,
farás calor no verão,
farás frio no entardecer.
Voltarás a morrer mil vezes.




Florescerás quando tudo floresça.
Não és nada, mãe, ninguém.




De nós ficará o mesmo rasto,
a semente do vento na água,
o esqueleto das folhas na terra.
Sobre as rochas, a tatuagem das sombras,
no coração das árvores a palavra amor.




Não somos nada, mãe, ninguém.
É inútil viver
mas é mais inútil ainda morrer.




(Trad. A.M.)



2.10.07

Olhar (11)





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Gosende
(Montemuro)
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Adélia Prado (A boa morte)





A BOA MORTE





Dona Dirce chorava a morte da filha
e com sincera dor o fazia,
estendendo a mão em direção ao café
que a irmã da morta servia.
Eu prestava atenção em Dona Dirce
que escutava Alzirinha admirada:
...o médico me proibiu expressamente...
Alguém pôs a cara na porta procurando Dona
Dirce:
A senhora sabe a placa da caminhonete do Artur?
Alzirinha não queria café, por motivo de regime,
era possível que Artur não fosse avisado a tempo.
A adolescente sardenta, visivelmente feliz,
chorava a morte da mãe.
Também quis chorar,
por diversos motivos,
mas era impossível ali,
celebrava-se a vida
sob caras contritas,
sob os véus da morte,
mais que sete.
A cada desnudamento
ela própria cobria-se
visivelmente pra nos proteger:
Ninguém quer mais café não?
Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
Lucinda virou santa.
Não contei a ninguém,
pra não amolar a tristeza.




Adélia Prado






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27.9.07

Luis Alberto de Cuenca (Bebe-a)





BÉBETELA



Dile cosas bonitas a tu novia:
«Tienes un cuerpo de reloj de arena
y un alma de película de Hawks».
Díselo muy bajito, con tus labios
pegados a su oreja, sin que nadie
pueda escuchar lo que le estás diciendo
(a saber, que sus piernas son cohetes
dirigidos al centro de la tierra,
o que sus senos son la madriguera
de un cangrejo de mar, o que su espalda
es plata viva). Y cuando se lo crea
y comience a licuarse entre tus brazos,
no dudes ni un segundo:
bébetela.


Luis Alberto de Cuenca






Diz coisas lindas à tua amada:
“O teu corpo é como uma ampulheta
e a alma um filme de Hawks”.
Diz-lho baixinho, chegando-lhe os lábios
ao ouvido, sem que ninguém
possa ouvir o que lhe dizes
(a saber, que suas pernas são foguetes
dirigidos ao centro da terra,
ou que os seios são a morada
de um caranguejo marinho, ou que
as costas são como prata viva).
E quando ela acreditar
e começar a derreter-se nos teus braços,
não hesites nem um segundo:
bebe-a.


(Trad. A.M.)




Fontes: A-media-voz (bio+43p) / Instituto Cervantes (autor+textos+videoteca) / Poesia-inter (foto+32p)

Um verso (38)












Um verso de Mário Quintana
(perfilar, Porto Alegre):











Quem faz um poema abre uma janela


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25.9.07

Miguel Torga (Sol engarrafado)





Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre.

Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas.

No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto.

Cantam, dançam e trabalham.

Depois sobem.

E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.




- MIGUEL TORGA, Portugal (Um Reino Maravilhoso. Trás-os-Montes).


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