7.3.06

Um verso (8)






Um verso de Herberto
(basta assim):




“Ama como se aprendesses tudo, desde a morte”.



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6.3.06

Gonçalo Cadilhe (Da casa vejo colinas verdes)





Da casa vejo colinas verdes que são talvez irlandesas.

Passam nuvens carregadas e escuras que só uma latitude escandinava podia provocar.

Depois, volta o bom tempo e a atmosfera enche-se de uma luminosidade cristalina que me recorda o golfo de Portofino na Primavera que lá vivi.

O sol levanta-se no mar, desce para trás de uma montanha.

As nêsperas já amadurecem em fins de Janeiro, as tardes em Fevereiro permitem uma “t-shirt” e pouco mais.

A temperatura do mar convida a um mergulho espartano, flutuo no Atlântico translúcido como um galeão à deriva numa enseada equatorial.

Estou no meu país mas sinto-me deslocado e acolhido por um hemisfério de coordenadas mediterrânicas.

Compro produtos típicos desta terra, vegetais, ervas, frutas e legumes, que no continente nem existem.

As beringelas, o manjericão, os tomates, o tomilho, possuem a intensidade de sabores e aromas que só o sol do sul de Itália costuma permitir.

Também as mulheres transportam o mesmo tipo de beleza luminosa e entrecruzada que só tinha encontrado, até hoje, nesse sul de Itália colonizado por piratas nórdicos.

Ando leve e atordoado como um melro.

Troco as refeições, esqueço-me de comer, esqueço-me do café, esqueço-me do sono.

O trabalho engole as horas, a escrita salta fora com naturalidade.

Passo um pedaço de Inverno na Madeira e parece-me mais fácil ser feliz aqui.

Talvez o seja, para quem esteja só de passagem.

Talvez viver toda uma vida fechado entre mar aberto e montanha madrasta exija um preço a pagar.

A insularidade é uma travessa de cerejas, há que saber escolher as maduras.



GONÇALO CADILHE, O Inverno na Madeira
- Expresso/Única, 4-Março-2006


Nota:
A isto chama-se: escrever bem.
Tão bem que são aqui inegáveis a lembrança, o eco, a música, o ritmo, o bom gosto de... Raul Brandão (As Ilhas Encantadas? Os Pescadores?).
De quem se dizia, há pouco, não por acaso, que Vergílio Ferreira dizia que foi quem melhor escreveu português no séc. XX.
O que não é dizer pouco, a lembrar que nesse século escreveram Aquilino e Cardoso Pires, por exemplo, entre outros mais.

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4.3.06

Adélia Prado (Com licença poética)





COM LICENÇA POÉTICA




Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.



Adélia Prado



>>  Mais poemas / Ensaio e crítica /Entrevista /  Antes, aqui

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Mário Cesariny (Liberdade)





LIBERDADE




A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só.
Mas são mais revérbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moeda corrente do libertino


Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime.
Quanto mais perseguido mais perigoso.
Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro
– nunca sairá um escravo.
Autoridade e liberdade são uma e a mesma coisa.



Mário Cesariny


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Fernando Assis Pacheco (As putas da Avenida)






AS PUTAS DA AVENIDA




Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena


vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena


essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena


mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena



Fernando Assis Pacheco


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Um verso (7)





Um verso de Cecília Meireles
(do outro lado do mar):




“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”.


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27.2.06

Rosana Acquaroni (Hay ventanas)




HAY VENTANAS QUE PUEDEN HABITARSE...




Hay ventanas que pueden habitarse
como se habita una ciudad, durante años.
Hay escenas que encienden una vida
y vidas
que encienden una muerte mientras duran.


Tan sólo fue un instante.
Después
aquella imagen fue quedándose atrás
y tuve la certeza
de que ella misma había consentido en su muerte.


El sacrificio es siempre una forma de venganza.
En la noche anterior
él le había prometido llevarla a ver el mar.


La ventanilla de un tren
puede llegar a contener el mundo en un instante.


Después de golpearla
ella cayó de rodillas ante él,
mientras él la miraba
y su mano homicida se abría sin querer
y la piedra sangraba,
se dejaba caer,
se despeñaba talud abajo.


Me pregunto cómo se conocieron.
En dónde enamoraron.
Si ella sabía coser.
Si habría criaturas esperándola.


No pude decir nada.
Asistir al fragmento de la vida de otros.
Sentir la medianía de un cuerpo malogrado.
Ver cómo me alejaba
y mi ojos sin tiempo
querían estirarse, detenerse,
comprender.


El tren seguía su curso.


(Un hombre solo que planea una muerte en campo abierto. Alguien que
casualmente miraba en ese instante por la ventanilla de un tren y lo contempla.
Eso es todo.)



ROSANA ACQUARONI
Lámparas de arena
(2000)



Biografía
Poeta española nacida en Madrid en 1964.
Licenciada en Filología Hispánica por la Universidad Autónoma de Madrid, trabaja como profesora de español para extranjeros en la Universidad Complutense de Madrid desde 1992.
Es autora de materiales didácticos para la enseñanza de ELE, ha impartido cursos de formación de ELE en Inglaterra, Estados Unidos y Túnez, y es profesora del Máster de formación de profesores de ELE de la Universidad Complutense de Madrid.
Entre los reconocimientos obtenidos, se destacan: el Accésit del Premio Adonais de Poesía 1987 con el libro «Del Mar bajo los puentes», la Ayuda para la Creación Literaria del Ministerio de Cultura para su libro «El Jardín Navegable» y el Premio de Poesía Cáceres Patrimonio Mundial 1995 con el libro «Cartografía sin mundo».
Su último libro, «Lámparas de arena» fue publicado por la Comunidad de Madrid y la Fundación Gerardo Diego.
Sus poemas han sido traducidos al francés, al alemán y al árabe y aparecen recogidos en varias antologías.


Fonte/Mais poemas

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25.2.06

Cecília Meireles (Cântico-IV)





CÂNTICO-IV




Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.



Cecília Meireles

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24.2.06

Um verso (6)






Um verso de Cesário
(um verso apenas):




“E enfim hás-de morrer na forca dos meus braços”.



Cesário Verde

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Ruy Belo (Em legítima defesa)





EM LEGÍTIMA DEFESA




Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
São uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um perigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesse morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te possa encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais



Ruy Belo



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20.2.06

Fernando Assis Pacheco (A lebre)

                               





A LEBRE




Para o favorito bater o seu máximo
corre a lebre umas quantas voltas
puxando pelo andamento até que
à hora conveniente sai da pista
sem um gesto um adeus o que se diz nada
e da bancada vêm gritos
porém são para o outro que esse sim
pode ficar na história
efémera que seja dos recordes


também eu tenho pernas
mas nunca tão possantes
e coração
mas o normal da espécie
encosto pois para deixar
passar o favorito: lá vai ele
veloz como uma seta


Lisboa, 28/29-IX-95



FERNANDO ASSIS PACHECO
Respiração Assistida



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19.2.06

Mário de Sá Carneiro (Fim)





FIM




Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!


Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!...



Mário de Sá Carneiro


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14.2.06

Gabriel Celaya (Conselho de morte)

                                         



CONSEJO MORTAL



Levanta tu edificio. Planta un árbol.
Combate si eres joven. Y haz el amor, ¡ah, siempre!
Mas no olvides al fin construir con tus triunfos
lo que más necesitas: Una tumba, un refugio.


Gabriel Celaya






Faz a tua casa. Planta uma árvore.
Combate, se és jovem. E faz amor, ah, sempre!
Mas não olvides no fim fazer com os teus triunfos
aquilo que mais precisas: Uma tumba, um refúgio.


(Trad. A.M.)

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Aquilino Ribeiro (O vento, que é um pincha-no-crivo)

                             



O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão.
O estarim parecia deserto.
Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente.
Volveu a soprar.
Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se.
Outro sopro.
Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço.
Mas que pára-quedista!
Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balouçou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo.
A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral.
Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos.
Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe.
Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse.
Também ali perto, por uma tarde fosca de Outubro, chegou um gaio, voejando de chaparro em chaparro, a grasnar mal-humorado como é próprio da raça.
No saiote desbotado, as duas pinceladas de azul, azul retinto, fulguravam para que se soubesse que um gaio também é gente dos ares.
Trazia no bico uma bolota, um pouco menor que o bolo que o corvo costumava levar à cova de Daniel, mas para ele mais importante.
Dispunha-se a comer a merenda bem amargada, quando deu com os olhos no mariola do vizinho com quem bulhara uma Primavera inteira por causa da gaia, depois sua mulher.
Já esse tal, rancoroso e mau, dava jeitos de querer investir, penas riças, garras desembainhadas, a asa possuída de frenesim.
Que remédio senão preparar-se para o receber condignamente!
E deixou cair a glande.
Esta foi bater na face zenital dum velho toro, saltou de ricochete para o lado, e aninhou-se muito aninhada num monte de folhas secas e argalhos.
Ninguém a via, nem ela via a mais pequena nesga do mundo.
Os dois gaios, depois de trocarem muitos gritos de cólera e darem a sua bicada, mas sem que corresse sangue, despediram.
O mais rela e pundonoroso pulou ao chão a procurar a sua rica bolota.
Procurou, tornou a procurar pincharolando dum lado para o outro e introduzindo por toda a parte, taladas e covinhas, o olho finório e matuto, mas nada descobriu.
Soltou duas ou três vezes a sua voz ralhada a conjurar os deuses daquele desaforo, perdeu a paciência.
E saraivando, batendo a asa, ainda meio atrida da rixa, lá foi para outro carvalhal onde havia que pilhar.
A bolota taluda ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas.
Que fazer senão deitar-se a dormir?!
Dormiu uma hora ou uma vida inteira, quem o sabe?!
Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocada sem poder respirar, em plena escuridão.
Estava no fim do fim?
Um belisco, e do seu flanco saiu como uma flecha.
Era de luz ou de vida?
Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol, dum insecto na sua primeira manhã, música trilada da terra ou das esferas?
Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava no flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser.
Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta.
Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la.
No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar.
De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória.
Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana.
Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo.
Ora, certa manhã de Outono...


- AQUILINO RIBEIRO, A Casa Grande de Romarigães, I.

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13.2.06

Graça Pires (À boca das areias)





À BOCA DAS AREIAS




À boca das areias, ardem quilhas insuspeitas.
Uma tempestade amotina-me o brilho do olhar.
A cidade inunda-se de braços e, dentro de mim,
pernoita um marinheiro comprometido
com marés desmedidas.


Podia esquecer-te para sempre,
não fora a vertigem da tua sombra
a cercar os meus olhos.


Graça Pires



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Safo (Igual aos deuses)




Igual aos deuses me parece
quem a teu lado vai sentar-se,
quem saboreia a tua voz
mais as delícias desse riso


que me derrete o coração
e o faz bater nos meus lábios.
Assim que vejo o teu rosto,
quebra-se logo a minha voz,


seca-me a língua nos dentes,
corre-me um fogo sob a pele,
ficam-me surdos os ouvidos
e os olhos cegos de repente.


Torna-se líquido o meu corpo:
transpiro e tremo ao mesmo tempo.
Vejo-me verde, mais que a erva.
Só por acaso é que não morro.



SAFO
(trad. David M-F)

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6.2.06

Fernão Lopes (Dai aquilo que vosso não é)







Senhor, disse Álvaro Pais, fazei por esta guisa: Dai aquilo que vosso não é, e prometei o que não tendes, e perdoai a quem vos não errou, e ser-vos-á mui grande ajuda para tal negócio em qual sois posto.


- FERNÃO LOPES, Crón. D. João I, cap. XXVII, Livraria Civilização, vol. I, p.56 (com actualização ortográfica).

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5.2.06

Safo (E já se aproxima)





E já se aproxima, para minha alegria,
com sandálias de oiro, a luz do dia…



SAFO
(trad. David M-F)

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Um verso (5)





Um verso de Almada
(sem ser da outra banda):




“A pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões”.



Almada Negreiros

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Fernão Lopes (Ó que forte cousa)






Ó que forte cousa e mortal guerra de ver, uns Portugueses, quererem destruir os outros! e aqueles que um ventre gerou e uma terra deu criamento, desejarem de se matar de vontade, e esparger o sangue de seus divedos e parentes.



- FERNÃO LOPES, Crón. D. João I, cap. LXVIII, Livraria Civilização, vol. I, p.134 (com actualização ortográfica).

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3.2.06

Nuno Júdice (Écloga)




ÉCLOGA



Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço
- terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
das fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.


Nuno Júdice


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Aquilino Ribeiro (Caía neve, se Deus a dava)






Sofreei o macho.

Caía neve, se Deus a dava, em rala, em grandes flocos, às mancheias, assim à tola, como grão lançado a um campo por semeador arrenegado ou pouco experiente de mão.

Nascera a Lua, mas que Lua!?

Uma cara bochechuda de estalajadeira à espreita, lá do fundo da casa, para o estendedoiro da sua roupa branca.

O mundo mais não era que bragal puríssimo, bragal que, batido às vezes por uma refega de vento, alevantava para deixar a nu pedações de terra e de mato, sujos e negros como os restos do estrume mal cobertos na vessada.

Não era desta neve que doba mansa do céu e parece, bailando, o esflorar das pereiras na Primavera; era a neve ladroa - como para aí lhe chamam - a neve das moscas brancas que voltejam, giram, rodopiam, vêm de trás, de diante, de baixo, dos lados, metem-se por todas as fisgas e grelhas à busca de coiro vivo em que ferrar.

Soprava-lhes o nordeste, o grande bufador, e era vê-las de asas ligeiras, enchendo o céu, a voar, a voar umas atrás das outras, ora muito juntas, ora desenrodilhadas, num vira sem fim.



- AQUILINO RIBEIRO, O Malhadinhas, IX.

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1.2.06

António Ramos Rosa (Não posso adiar o coração)






Não posso adiar o amor


Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas


Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio


Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração



A. RAMOS ROSA
Viagem através duma nebulosa
(1960)


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31.1.06

Fernão Lopes (Oh! que dorida coisa)





Oh! que dorida coisa era de esguardar, ver de dia e de noite, tantos homens e mulheres vir em manadas para a cidade com os filhos nos braços e pela mão, e os pais com outros aos pescoços, e suas bestas carregadas de alfaias e cousas que trager podiam!

E assim se recolherem de todo o termo para a cidade, todolos moradores de arredor antes que El-Rei de Castela viesse.



- FERNÃO LOPES, Crón. D. João I, cap. LXX, Livraria Civilização, vol. I, p.139 (com actualização ortográfica).

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Mário-Henrique Leiria (Uma nêspera)





Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia


chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a


é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece



Mário-Henrique Leiria


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29.1.06

Rafael Alberti (Canção de amor)





CANCIÓN DE AMOR



Amor, deja que me vaya,
déjame morir, amor.
Tú eres el mar y la playa.
Amor.

Amor, déjame la vida,
no dejes que muera, amor.
Tú eres mi luz escondida.
Amor.

Amor, déjame quererte.
Abre las fuentes, amor.
Mis labios quieren beberte.
Amor.

Amor, está anocheciendo.
Duermen las flores, amor,
y tú estás amaneciendo.
Amor.


Rafael Alberti







Amor, deixa-me ir,
deixa-me morrer, amor.
Tu és o mar e a praia.
Amor.

Amor, deixa-me viver,
não me deixes morrer, amor.
Tu és a minha luz escondida.
Amor.

Amor, deixa-me amar-te.
Abre as fontes, amor.
Quero beber-te com os lábios.
Amor.

Amor, está a anoitecer.
Dormem as flores, amor,
e tu estás a amanhecendo.
Amor.

(Trad. A.M.)



> Rafael Alberti (sítio oficial)


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28.1.06

Eugénio de Andrade (Sê tu a palavra)





SÊ TU A PALAVRA




1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.


2.
Só o desejo é matinal.


3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.


4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.


5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.


6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.


7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?



Eugénio de Andrade


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Fernão Lopes (Ora esguardai)





Ora esguardai, como se fôsseis presentes, uma tal cidade assim desconfortada e sem nenhuma certa fiúza de seu livramento, como viveriam em desvairados cuidados, quem sofria ondas de tais aflições?

Ó geração que depois veio, povo bem-aventurado, que não soube parte de tantos males, nem foi quinhoeiro de tais padecimentos! os quais a Deus por Sua mercê prouve de cedo abreviar doutra guisa, como acerca ouvireis.


- FERNÃO LOPES, Crón. D. João I, cap. CXLIX, Livraria Civilização, vol. I, p.309 (com actualização ortográfica).

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25.1.06

Alexandre O'Neill (Há palavras que nos beijam)





Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.



Alexandre O'Neill


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Fernão Lopes (Qual seria o peito)





Qual seria o peito tão duro de piedade, que não fosse amolentado com a maviosa compaixão, vendo as igrejas cheias de homens e de mulheres com os filhos nos braços, todos bradando a Deus que lhes acorresse e que ajudasse a casa de Portugal?
Decerto nenhum, salvo se fosse não lindo Português; e assim gastaram boa parte da noite, até à manhã, uns em lágrimas e devotas orações, outros em se correger e fazer prestes contra os inimigos.



- FERNÃO LOPES, Crón. D. João I, cap. CXXXII, Livraria Civilização, vol. I, p.259 (com actualização ortográfica).

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Pablo Neruda (Assustar um notário, matar uma freira)





...Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.



Pablo Neruda



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23.1.06

Mario Benedetti (Nuevo canal interoceánico)






NUEVO CANAL INTEROCEÁNICO




Te propongo construir
un nuevo canal
sin esclusas
ni excusas
que comunique por fin
tu mirada
atlántica
con mi natural
pacífico.



Mario Benedetti

 
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21.1.06

Fernão Lopes (Por muito que encobrir queira)





… Por muito que encobrir queira o que ama, não se pode tanto ter, que por alguns sinais e falas e outros demonstradores jeitos, não dê a entender aquele ardente desejo que em sua vontade continuadamente mora.




- FERNÃO LOPES, Cron. D. João I, cap. III, Livraria Civilização, vol. I, p.7 (com actualização ortográfica).


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19.1.06

Ruy Belo (A mão no arado)





A MÃO NO ARADO




Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará


Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua


É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente


Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente



RUY BELO
O problema da habitação
(1962)

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Jaime Sabines (Como pájaros perdidos)





COMO PÁJAROS PERDIDOS – XIX




Como ahora no hay maestros ni alumnos,
el alumno preguntó a la pared:
¿qué es la sabiduría?
Y la pared se hizo transparente.



JAIME SABINES
Maltiempo
(1972)

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18.1.06

Mário Cesariny (You are welcome to Elsinore)





YOU ARE WELCOME TO ELSINORE




Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício


Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição


Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor


E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita


Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar



MÁRIO CESARINY
Pena Capital

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Eugénio de Andrade (Frente a frente)




FRENTE A FRENTE




Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.


Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.



EUGÉNIO DE ANDRADE
Até Amanhã


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Um verso (4)






Um verso de Nemésio
(se bem me lembro, Vitorino):




“Com medo de o perder, nomeio o mundo”.

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17.1.06

António Ramos Rosa (Dou-te um nome de água)





Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.


Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.


Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)


Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.


Silêncio e sol
– verdade,
respiração apenas.


Amor, eu sei que vives
num breve país.


Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.


Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.


Ó maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.


Ó vida perfumada
cantando devagar.


Enleio-me na clara
dança do teu andar.


Por uma água tão pura
vale a pena viver.


Um teu joelho diz-me
a indizível paz.




A. Ramos Rosa


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13.1.06

Russell Edson (Outono)




OUTONO



Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa
segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.


Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala
pois as tuas raízes podem estragar a carpete.


Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as
folhas.


Mas os pais disseram olha é outono.




RUSSELL EDSON (1935)
O Túnel
(trad. José Alberto Oliveira)


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12.1.06

Adélia Prado (Neurolinguística)




NEUROLINGÜÍSTICA



Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.



Adélia Prado



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Um verso (3)




Um verso de Ruy Belo
(apanhado no ar):




“Como quem entra por engano morte dentro”.

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10.1.06

José Agostinho Baptista (E as casas são brancas)




E AS CASAS SÃO BRANCAS
LOUCAMENTE BRANCAS



lembro-me das horas sobre o mar
do surdo rumor do casco dos navios
da tua boca colada à paixão dos mapas primitivos.


entretanto o teu corpo corre devagar para o litoral
e as casas por detrás dos cabelos são brancas
loucamente brancas.


no princípio eram as paredes
e havia o teu riso altíssimo encostado aos dias que
morriam nas paredes.


quem destruiu tudo isso?
quem matou as aves nos ramos da tua loucura?


oiço este rio que corre longe de mim longe de tudo
este corcel galopando pelos países


- quem canta esta noite?


entretanto tu atravessas a minha poesia com espadas de
neve
e falas de casas como quem fala do surdo rumor do casco
dos navios -


quem canta esta noite?


e o teu corpo vai correndo devagar para o litoral
e as casas por detrás dos teus cabelos são brancas
loucamente brancas.



José Agostinho Baptista


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3.1.06

Pedro Salinas (Serás, amor)




¿Serás, amor
un largo adiós que no se acaba?
Vivir, desde el principio, es separarse.
En el primer encuentro
con la luz, con los labios,
el corazón percibe la congoja
de tener que estar ciego y sólo un día.
Amor es el retraso milagroso
de su término mismo:
es prolongar el hecho mágico
de que uno y uno sean dos, en contra
de la primer condena de la vida.
Con los besos,
con la pena y el pecho se conquistan,
en afanosas lides, entre gozos
parecidos a juegos,
días, tierras, espacios fabulosos,
a la gran disyunción que está esperando,
hermana de la muerte o muerte misma.
Cada beso perfecto aparta el tiempo,
le echa hacia atrás, ensancha el mundo breve
donde puede besarse todavía.
Ni en el llegar, ni en el hallazgo
tiene el amor su cima:
es en la resistencia a separarse
en donde se le siente,
desnudo, altísimo, temblando.
Y la separación no es el momento
cuando brazos, o voces,
se despiden con señas materiales.
Es de antes, de después.
Si se estrechan las manos, si se abraza,
nunca es para apartarse,
es porque el alma ciegamente
siente
que la forma posible de estar juntos
es una despedida larga, clara
y que lo más seguro es el adiós.



PEDRO SALINAS
Razón de amor
(1936)






Serás, amor,
um longo adeus que não se acaba?
Desde o começo, viver é separar-se.
No primeiro encontro com a luz, com os lábios,
o coração percebe a angústia
de um dia estar cego e só.
Amor é o atraso milagroso
do seu próprio termo:
é prolongar o facto mágico,
de que um mais um sejam dois, contra
a primeira condenação da vida.
Com beijos,
com a pena e o peito se conquistam,
em afanosas lides, entre gozos
parecidos com brincadeiras,
dias, terras, espaços fabulosos,
isto à grande separação que nos espera,
irmã da morte ou a morte mesma.
Cada beijo perfeito afasta o tempo,
atira-o para trás, alarga o mundo breve
em que é permitido ainda beijar.
Nem no chegar, nem no encontro
tem o amor o seu cume:
ele sente-se é na resistência a separar-se,
desnudo, altíssimo, tremente.
E a separação não é o momento
em que braços, ou vozes,
se despedem com sinais materiais.
É de antes, de depois.
Se se estreitam as mãos, e se abraça,
não é nunca para apartar-se,
é porque cegamente a alma sente
que a forma possível de estar juntos
é uma despedida longa, clara
e que o mais seguro é o adeus.


(Trad. A.M.)

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1.1.06

Um verso (2)








Um verso de Assis
(Pacheco há só um, o Fernando e mais nenhum):




“Enquanto, aplicado, vou morrendo nos lábios da bem amada”.



Outro?
“Esta é a ditosa amada, minha pátria”.

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28.12.05

Gonçalo M. Tavares (O carpo)




O CARPO




Conheces as putas e os camiões de mercadorias,
e o modo estudado como no seu ofício, umas e outros,
disponibilizam o traseiro.


Sabes, pois, como entre a mecânica e a carne
as diferenças não são óbvias
e necessário é investigação e paciência para as descobrir.


E que importará o subtil para o esqueleto da mão?


Se o carpo é útil para segurar as ancas
na sodomia,
é útil ainda
para descarregar ingénuos caixotes
num armazém.


Repara: vê a proporção e a harmonia
dos ossos,
e como se movem
felizes
nos dois momentos.



GONÇALO M.TAVARES
Livro de Anatomia



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26.12.05

Um verso (1)








Um verso de O’Neill
(tomai lá do Alexandre, moreno português):






“Com donaire avançam os teus seios, ó minha embarcação”.

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25.12.05

Eugénio de Andrade (A boca)




A BOCA



A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.


Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?


Eugénio de Andrade


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Manuel Bandeira (Arte de amar)




ARTE DE AMAR




Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.


Porque os corpos se entendem, mas as almas não.



Manuel Bandeira


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17.12.05

Gabriel Celaya (Às vezes finjo que estou apaixonado)





A VECES ME FIGURO QUE ESTOY ENAMORADO



A veces me figuro que estoy enamorado,
y es dulce, y es extraño,
aunque, visto por fuera, es estúpido, absurdo.


Las canciones de moda me parecen bonitas,
y me siento tan solo
que por las noches bebo más que de costumbre.


Me ha enamorado Adela, me ha enamorado Marta,
y, alternativamente, Susanita y Carmen,
y, alternativamente, soy feliz y lloro.


No soy muy inteligente, como se comprende,
pero me complace saberme uno de tantos
y en ser vulgarcillo hallo cierto descanso.


GABRIEL CELAYA
Tranquilamente hablando
(1947)




Às vezes imagino que estou apaixonado
e é doce, e é estranho,
embora, visto de fora, seja estúpido e absurdo.


As canções da moda parecem-me bonitas
e sinto-me tão só
que bebo noite fora mais do que é costume.


Apaixonei-me pela Adélia, e pela Marta,
e, alternadamente, por Susanita e Carmen,
e, alternadamente, sou feliz e choro.


Não sou muito inteligente, como se vê,
mas agrada-me saber-me um entre tantos
e em ser vulgarzinho encontro certo descanso.



(Trad. A. M.)

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