31.7.26

José Saramago (O latifúndio é um mar interior)




(O latifúndio é um mar interior)

O latifúndio é um mar interior.
Tem seus cardumes de peixe miúdo e comestível, suas barracudas e piranhas de má morte, seus animais pelágicos, leviatãs ou mantas gelatinosas, uma bicheza cega que arrasta a barriga no lodo e morre sobre ele, e também grandes anéis serpentinos de estrangulação.
É mediterrânico mar, mas tem marés e ressacas, correntes macias que levam tempo a dar a volta inteira, e às vezes rápidos surtos que sacodem a superfície, são rajadas de vento que vem de fora ou desaguamentos de inesperados fluxos, enquanto na escura profundidade se enrolam lentamente as vagas, arrastando a turvidão da nutriente vasa, há quanto tempo isto dura.
São comparações que tanto servem como servem pouco, dizer que o latifúndio é um mar, mas terá sua razão de fácil entendimento, se esta água agitarmos, toda a outra em redor se move, às vezes de tão longe que os olhos o negam, por isso chamaríamos enganadamente pântano a este mar, e que o fosse, muito enganado vive quem de aparências se fia, sejam elas de morte.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.

29.7.26

Mariano Peyrou (A concentração)

 



A CONCENTRAÇÃO



Nada melhor do que dedicar a tarde
às mudanças de luz na
janela, pressupondo que algo
do que tanto fere e mais
deleita depressa retomará
o seu lugar, a partir do qual emitia
umas pálidas ondas que só
intermitentemente geravam
uma leve apatia, ou adquirirá
contornos mais suaves, de modo a
que a sua proximidade apenas embacie
os vidros. Aqui há luz.
Ali apagam-se os sentidos.


Mariano Peyrou

(Trad. Manuel de Freitas)

.

27.7.26

Alexandre Pinheiro Torres (A democracia plural)




A DEMOCRACIA PLURAL PORTUGUESA OCIDENTAL

 

Neste bairro onde miam gatas há dez mil de gente           Fácil:
contem-se todas as cabeças        uma por uma
uma de cada vez              Façam-se perguntas
Registem-se as respostas             Por exemplo: ao perguntar-se

Se ganham menos do que é necessário pra viver
façam uma cruz               Mas façam a mesma cruz
caso digam o contrário   Se tiverem um rádio vejam
o rádio e façam uma cruz no rádio

Se tiverem uma bicicleta cruz na bicicleta
Cruz nos aparelhos de TV            Cruz nos frigoríficos
Cruz se a barraca for deles           Cruz se for alugada
Cruz na idade que têm   Cruz se são solteiros ou casados

Cruzes em resumo em tudo o que é máquina
Máquinas de costura por exemplo           Vejam
se as rodas andam          Cruz       Cruz       Cruz       Cruz
Cruz no número de filhos            Não há nada que não conte

Depois de tudo passado a pente fino
contado              classificado         codificado           computorizado
é preciso calcular a média            Dividir o que há
por todos para que ninguém se queixe de injustiça

Os nomes não interessam            Os nomes não têm significado
Velho ou doente não se deixe ninguém de fora
Sendo assim até uma doente estéril ficará com
alguns filhos       Se a maioria passa fome calcule-se

a fome média    Estamos ou não na democracia
ocidental?           Todos têm de tê-la igual               Não haverá
desempregados porque todos    mas todos           terão uma
fracçãozinha de emprego para sustentar uma fracçãozinha

de família numa fracçãozinha de barraca              Nada pois
de sangueiras     ódios     ressentimentos                 Sobretudo nada de
provocações à Guarda nem de atacar o Quartel do
Carmo ou o palácio onde tanto se esforçam os doutores-deputados

Este é o conselho das pessoas sábias      Está aliás na
Constituição que             ó diabo                é preciso emendar para que
se prescreva       inalienável          o direito a fracções mais pequenas
Assim é que será bem plural e ocidental a democracia em Portugal


Alexandre Pinheiro Torres

.

25.7.26

Mariana Finochietto (Detém-se a tarde)




(17)

 

La tarde 
se detiene,
suspendida
en los hilos
de luz
que teje
y desteje
el viento
entre las ramas. 

En este instante
de pájaros agrestes,
la pureza
y la crueldad
son las únicas
certezas
sobre el mundo.
 

Mariana Finochietto 

 

Detém-se a tarde, 
suspensa
nos fios
da luz
que o vento
tece
e destece
por entre os ramos. 

No instante 
de pássaros agrestes,
a pureza
e a crueldade
são as únicas
certezas
sobre o mundo.
 

(Trad. A.M.)

 .

23.7.26

Maria Esther Maciel (Pacto)




PACTO



Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.


Maria Esther Maciel

.

21.7.26

María Laura Decésare (De tarde)




EN LA TARDE 

 

Vi una flor llorar, qué cosa rara
pensé mientras el colibrí con su aleteo
intentaba animarla.
De pronto el cielo se abrió
y unas gotas comenzaron a caer
suaves sobre mí.
En lo simple me detengo y me levanto 
para ver los colores del arcoíris
belleza pura en la tarde de domingo.
 

María Laura Decésare 

[Otra iglesia] 

 

Vi chorar uma flor, coisa estranha
pensei enquanto o colibri 
tentava animá-la
batendo as asas.
De repente, o céu abriu
e algumas gotas começaram a cair
suaves sobre mim.
No simples me detenho e ergo-me
para ver as cores do arco-íris 
beleza pura na tarde de domingo.
 

(Trad. A.M.)

 .

19.7.26

Antonio Carlos Secchin (Estou ali)




ESTOU ALI


Estou ali, quem sabe eu seja apenas 
a foto de um garoto que morreu.
No espaço entre o sorriso e o sapato
há um corpo que bem pode ser o meu.

Ou talvez seja eu o seu espelho, 
e olhar reflete em mim algum passado:
o cheiro das goiabas na fruteira, 
o murmúrio das águas no telhado. 

No retrato outra imagem se condensa: 
percebo que apesar de quase gêmeos
nós dois somos somente a chama inútil

contra a sombra da noite que nos trai. 
Das mãos dele recolho o que me resta. 
Eu o chamo de filho — e é meu pai.

Antonio Carlos Secchin

 

>>  Antonio Miranda (43 p) / Gueto (9p) / Jornal de poesia (9p) / Recanto do poeta (7p)/Alguma poesia (4p) / Wikipedia

.

17.7.26

José Saramago (Todos os dias têm a sua história)




(Todos os dias têm a sua história)

Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.
Melhor é declarar que estes anos de João Mau-Tempo vão ser os da sua educação profissional, no sentido tradicional e campestre de que um homem de trabalho tem de saber de tudo, tão bom para ceifar como para tirar cortiça, tão destro a valar como a semear, tão de bom lombo para carregar como de rins para cavar. Este saber transmite-se nas gerações sem exame nem discussão, é assim porque sempre assim foi, isto é uma enxada de gaviões, isto uma gadanha, e isto uma gota de suor.
Ou cuspo branco espesso em tarde de fornalha, ou pancada de sol em cima da ganacha, ou jarretes desfalecidos de pouco alimento. Entre os dez anos e os vinte há que aprender tudo e depressa, ou não teremos patrão que nos aceite.


JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.


15.7.26

Manuel Rico (Verão)




VERANO  

 

Es la luz decisoria.
La que anuncia el verano.
La que desentumece, en la hora del alba, a las
       ciudades.
Oceánica luz
que enciende valles y riberas,
claridad que no hiere. 

Así es el espejismo que en junio nos deslumbra. 

Pero siempre se vuelve
al mineral origen a pesar de esa luz:
hay mensajes de sombra, pasillos que conducen
a baúles cerrados, a lugares inhóspitos
que habitan desde siglos
en la oscura trastienda
de esa luz disfrazada. 

Parece decisoria. Pero miente.
 

Manuel Rico

  

É a luz decisiva,
a que anuncia o verão,
a que desentorpece as cidades, no momento da aurora.
Oceânica luz
que acende vales e ribeiras,
claridade que não fere. 

Assim a miragem que em Junho nos deslumbra. 

Mas sempre se volta 
à mineral origem, apesar dessa luz,
há mensagens de sombra, corredores que levam
a baús fechados, a lugares inóspitos 
que moram há séculos 
na traseira escura
dessa luz disfarçada. 

Parece decisiva, mas engana.
 

(Trad. A.M.)

 .

13.7.26

Alexandre O'Neill (Pois)




POIS

 

O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções.

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.

 

Alexandre  O’Neill

 .

11.7.26

Efi Cubero (Marca)




HUELLA

 

¿Dónde pasó el passado
cuando acaso soñé lo que me dije?
La eternidad fue un trozo de cielo
en las encinas.
Una huella en el agua de los días.
Lo que queda en los ojos después
de los asombros.
Lo que al pasar la página
puede desvanecerse.
Un sobresalto ante lo prefijado:
la comunicación del otro extremo
que prende el fuego sobre la materia.
Tan sólo queda lo incomunicable.
Esta forma de ser de la palabra,
que tan bien conocemos,
cuando regresa al tiempo del silencio.


Efi Cubero

 

Onde foi o passado
quando acaso sonhei o que me disse?
A eternidade foi um bocado de céu
nas azinheiras,
uma marca na água dos dias,
o que fica nos olhos depois
do assombro,
o que ao passar a página
se pode desvanecer.
Um sobressalto ante o prefixado,
a comunicação do outro extremo
que o fogo prende sobre a matéria.
Fica somente o incomunicável,
esta forma de ser da palavra,
que tão bem conhecemos,
quando regressa o tempo do silêncio.


(Trad. A.M.)

.

9.7.26

Alessandro Parronchi (Uma nova cruzinha)




UN’ ALTRA PICCOLA CROCE



La morte ha invaso la vita
-di Staglieno, del Père Lachaise, di Arlington
e del paesino della più remota campagna –
non c’è più posto nemmeno per la più piccola croce.
Lo stesso nel mio cuore. Quante volte la nenia
judicare saeculum per ignem
ho udito per l’uno o l’altro parente od amico.
Dapprima mi turbava, ora non più.
Ora, in italiano, ha un suono crudo,
non sveglia echi, risonanze profonde.
Sono stanco della morte.
Ma se vuoi, madre, che scriva qualcosa
per la bimba che è morta,
non dirò di no.
Come l’astronomo scopre un’altra piccola stella
tra le miriadi di cui non sa che farsi il cielo,
farò brillare a notte un altro lume
per lei tra le meteore.

Alessandro Parronchi

 

A morte invadiu a vida
- de Staglieno, do Père Lachaise, de Arlington
e do natural do campo mais remoto -
não há lugar sequer para a mais pequena cruz.
Assim no meu coração. Quantas vezes
ouvi por um ou outro parente ou amigo
a lengalenga judicare saeculum per ignem.
Primeiro perturbava-me, agora já não,
agora, em italiano, tem um som seco,
que não acorda ecos, ressonâncias profundas.
Eu estou cansado da morte,
mas se quiseres, mãe, que escreva
qualquer coisa para a menina morta,
eu não te direi que não.
Como um astrónomo descobre uma nova pequena estrela
entre as miríades que se contam no céu,
eu farei brilhar à noite para ela
uma nova luz entre os meteoros.


(Trad. A.M.)

.

7.7.26

Manuel Moya / Violeta (Poética final)





POÉTICA FINAL

 

Si no sientes que tus pies
levantan el polvo de todos los caminos,
si no sabes que te hundes y contigo el mundo,
si no muerdes, si no escuchas
el rasgar de las termitas,
si te escondes, si corres al aplauso de los gilis,
si al pasar por esas puertas
agachas la cabeza o pides caramelos o disculpas,
si ya en el matadero te resignas
y no te cagas cien mil veces en sus muertos,

para qué coño escribes,
a quién quieres servir,
a quién pretendes enganar?

Violeta C. Rangel

 

Se não sentes que teus pés
levantam o pó de todos caminhos,
se não sabes que te afundas e contigo vai o mundo,
se não mordes, se não escutas
o rasgar das térmitas,
se te escondes, se vais atrás
do aplauso dos palermas,
se ao passar essas portas
baixas a cabeça ou pedes caramelos ou desculpas,
se já no matadouro te resignas
e não te cagas cem mil vezes nos seus mortos,

para que porra escreves,
a quem queres servir,
a quem pretendes enganar?


(Trad. A.M.)

.

5.7.26

José Saramago (Cria a natureza)


(Cria a natureza)

Cria a natureza as suas diversas criaturas com admirável brutidade.
Entre mortos e aleijados, considera, não faltará quem escape para garantir os resultados da gerência, modo ambivalente e portanto equívoco de substantivar o gerir e o gerar, com aquela confortável margem de imprecisão que produz as mutações do que se diz, do que se faz e do que se é.
Não marca a natureza coutadas, mas aproveita delas.
E se depois das ceifas os mil formigueiros da seara não têm celeiro igual, os ganhos e perdas vão todos à grande contabilidade do planeta e nenhuma formiga fica sem a sua estatística parte de alimento.
Ao apuramento do saldo importa pouco que tenham morrido aos milhões por inundação natural, revolvimento de enxada ou desafio de micções: quem viveu, comeu, quem morreu deixou aos outros.
A natureza não conta mortos, conta vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade.
É tudo muito fácil, muito claro e muito justo, porque, de memória de formiga ou elefante, ninguém tal contestou no grande reino dos animais.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.

3.7.26

Luis Ramos (Olhos para os olhos)




OJOS PARA LOS OJOS 

 

Al acecho,
por el cenagal de los miedos.
Sin quicios,
             vigilante,
como un susto enquistado
entre la oblicua ley del corazón. 

Miradas, intentos,
                      sobre todo miradas. 

Ojos para los labios débiles,
ojos para los ojos álgidos,
ojos para el espanto yéndose. 

Franquear el abismo,
la presión de los párpados,
la endeblez de los pasos, 

y fugarse,
           irse, sin más,
sortear el territorio habitual
de los obstáculos
irrevocablemente ungidos por el límite,
dejarse mojar simplemente por la vida
y no esperar con prisas a que escampe.
 

Luis Ramos

 

À espreita,
pelo lamaçal dos medos.
Sem gonzos,
              vigilante,
como um susto enquistado
entre a oblíqua lei do coração.

Olhares, intentos,
                sobretudo olhares.

Olhos para os lábios débeis,
olhos para os olhos álgidos,
olhos para o espanto a ir-se.

Franquear o abismo,
a pressão das pálpebras,
a fragilidade dos passos,

e fugir,
       partir, sem mais,
evitar o terreno habitual
dos obstáculos
irrevogavelmente ungidos pelo limite,
deixar-se simplesmente molhar pela vida
e não esperar que o céu abra.


(Trad. A.M.)

.

1.7.26

Álamo Oliveira (Ilha)




ILHA 

 

a ilha ao fundo.   funda saudade
que emerge do horizonte.
azulíneos.   os gestos do pincel
sedimentam as águas
de míticas inquietações. 

ninguém sabe que peixes
habitam no mar.
se há nevoeiro dom sebastião não vem.
o céu.   único infinito que passa
pela janela da casa de janville. 

no peitoril.   os calos dos cotovelos do silêncio.
 

Álamo Oliveira

.

29.6.26

Felipe Benítez Reyes (Fábula)




FÁBULA DEL QUE QUISO DEJAR ESCRITO SU EPITAFIO

 

Se le ocurrían a diario.
Irónicos algunos, otros
       más trascendentales.
Demasiado largos o demasiado escuetos.
Inexactos como emblema de una vida
o triviales para el mármol.

Una mañana de tantas,
su cuerpo le resultó desconocido.
La evidencia de un proceso callado,
aunque manifestado de repente,
como un acto de magia:
el hombre sonriente y temeroso
que entró en el cajón de espadas
       del ilusionista
y salió de allí transformado en quién.

El espejo,
el acostumbrado a mentir,
decía su verdad incontestable.
                                                       La
revelación de una certeza postergada.

Y entonces lo vio claro:
QUIEN MURIÓ EN MÍ YA NO ERA YO.

Felipe Benítez Reyes

 

Ocorriam-lhe todos os dias,
irónicos uns, outros
               mais transcendentes,
muito longos ou demasiado curtos,
inexactos como emblemas de uma vida
ou triviais para o mármore.

Uma manhã de tantas,
o corpo pareceu-lhe desconhecido,
sinal de um processo silencioso,
mas de súbito manifesto,
como um acto de magia:
o homem sorridente e receoso
que entrou na caixa de espadas
               do ilusionista
e dali saiu transformado em ninguém.

O espelho,
habituado a mentir,
dizia a sua verdade incontestável.
                                            A
revelação de uma certeza postergada.

E então viu claro:
QUEM MORREU EM MIM JÁ NÃO ERA EU.


(Trad. A.M.)

.

27.6.26

A.M.Pires Cabral (Em parte incerta)




EM PARTE INCERTA

 

Dizem-me
que a última vez que a minha musa foi vista
ia de armas e bagagens, às arrecuas, como que sugada
por um vento que soprasse às avessas.

Desde então tem estado ausente
em parte incerta.

Mas pelo menos podia telefonar.

A. M. Pires Cabral

.

25.6.26

Abelardo Linares (O café de espelhos)




EL CAFÉ CON ESPEJOS                  

 

Era un café y estábamos charlando.
Un extraño café de gigantescas sillas
con unos veladores diminutos.
A nuestro alrededor rostros borrosos
o, más exactamente, unos hombres sin rostro;
y así no me extrañó todo el silencio
de aquel local de espejos infinitos.
No puedo recordar de qué charlaba,
pero sí mi alegría y la viveza,
sin duda exagerada, de mis gestos.
Él me dejaba hablar, indiferente
a toda la pasión que había en mis palabras.
De repente me dijo con voz bronca:
“¿Y tú qué harás ahora que estás muerto?”.
Al principio no supe comprenderle,
tan estúpido aquello, tan falto de sentido,
y volví la cabeza. En los espejos
quise mirar mi rostro, pero era el de mi padre
el que veía en ellos. “¿Al fin te has dado
       cuenta?”.
“¿De qué?”, le pregunté. “De que
       eres un sueño,
hijo mío”.

Abelardo Linares
 

 

Era um café e estávamos na conversa,
um estranho café de cadeiras gigantescas
com umas mesas muito pequenas.
Em volta rostos vagos
ou, mais exactamente, alguns homens sem rosto;
e daí que eu não estranhasse aquele silêncio todo
no meio de espelhos infinitos.
Não me consigo lembrar de que falava,
mas sim da minha alegria, da vivacidade dos gestos,
por certo exagerada.
Ele deixava-me falar, indiferente
àquela paixão toda das minhas palavras.
De repente, diz-me com voz rouca:
‘E tu que vais fazer, agora que estás morto?’
A princípio não consegui compreender,
de tão estúpido aquilo, tão falto de sentido,
e virei a cabeça. Nos espelhos,
quis olhar para a minha cara, mas era a de meu pai
que estava a ver: ‘Afinal deste-te conta?’
‘De quê?’, perguntei?
‘De que és um sonho, meu filho’.


(Trad. A.M.)

.

23.6.26

José Saramago (Então chegou a república)

 



(Então chegou a república)

Então chegou a república.
Ganhavam os homens doze ou treze vinténs, e as mulheres menos de metade, como de costume.
Comiam ambos o mesmo pão de bagaço, os mesmos farrapos de couve, os mesmos talos.
A república veio despachada de Lisboa, andou de terra em terra pelo telégrafo, se o havia, recomendou-se pela imprensa, se a sabiam ler, pelo passar de boca em boca, que sempre foi o mais fácil.
O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um litro de azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jorna de um homem.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

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