30.6.09

Um verso (56)











Um verso de Sena








A vida é bela, sem dúvida,
sobretudo porque não temos outra.





Jorge de Sena




Ruy Belo (Cólofon ou epitáfio)









CÓLOFON OU EPITÁFIO





Trinta dias tem o mês
e muitas horas o dia
todo o tempo se lhe ia
em polir o seu poema
a melhor coisa que fez
ele próprio coisa feita
ruy belo portugalês
Não seria mau rapaz
quem tão ao comprido jaz
ruy belo, era uma vez



Ruy Belo



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Roberto Juarroz (El centro del amor)









El centro del amor
no siempre coincide
con el centro de la vida.



Ambos centros
se buscan entonces
como dos animales atribulados.
Pero casi nunca se encuentran,
porque la clave de la coincidencia es otra:
nacer juntos.



Nacer juntos,
como debieran nacer y morir
todos los amantes.



Roberto Juarroz





Fontes: Sítio oficial (tudo+algo) / Outro (idem) / A media voz (30p) / Poesia-inter.net (200p) / Jornal de poesia (de/sobre)


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28.6.09

Charles Baudelaire (E para quê?)








(E para quê?...)





E para quê realizar projectos, se o projecto é já um prazer suficiente?



- CHARLES BAUDELAIRE, O spleen de Paris, XXIV.




José Carlos Barros (Um congresso em Montesinho)









UM CONGRESSO EM MONTESINHO





depois de três dias de
comunicações e mesas redondas sobre
a conservação do lobo
o capuchinho vermelho pediu a
palavra e disse
tudo muito certo
mas como é que eu levo
o lanche
à minha avó?



José Carlos Barros



[Casa dos poetas]


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Gonçalo M. Tavares (Fósforo)









FÓSFORO




Se acendes um fósforo durante o dia
para ver,
significa que não há janelas nem electricidade,
nem sequer sol.
Ou então significa que és louco.


Gonçalo M. Tavares




26.6.09

Ver (22)










Lençóis maranhenses

Ma (Brasil)
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Rosario Castellanos (Desamor)









DESAMOR






Me vio como se mira al través de un cristal
o del aire
o de nada.


Y entonces supe: yo no estaba allí
ni en ninguna otra parte
ni había estado nunca ni estaría.


Y fui como el que muere en la epidemia,
sin identificar, y es arrojado
a la fosa común.


Rosario Castellanos






Olhou-me como se olha através dum vidro
ou do ar
ou de nada.


E então soube: eu não estava ali
nem noutro lado
nem tinha estado nunca nem estaria.


E fui como esse que morre na epidemia,
sem identificação, e é atirado
à vala comum.



(Trad. A.M.)


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Cecília Meireles (Voo)










VOO






Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.


Voam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos, como negros abutres,
as palavras voam.


Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós,
em redor de nós as palavras voam.
E às vezes pousam.



Cecília Meireles



[Zeze Pina]


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Carlos de Oliveira (Definição)









DEFINIÇÃO





O sal é o mar servido à mesa
nas suas praias domésticas de linho.



Carlos de Oliveira


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23.6.09

René Char (Fastos)









FASTOS





O Verão cantava sobre a sua rocha preferida
quando tu me apareceste,

o Verão cantava afastado de nós
que éramos silêncio,
simpatia, liberdade triste,
mar
mais ainda do que o mar,
cuja enorme comporta azul
brincava aos nossos pés.

O Verão cantava
e o teu coração nadava longe dele.
Eu beijava a tua coragem,
entendia a tua perturbação.

Estrada através do absoluto das vagas
em direcção a esses altos picos de escuma
onde navegam virtudes assassinas
para as mãos que seguram as nossas casas.

Não éramos crédulos.
Éramos rodeados.

Os anos passaram.
As tempestades morreram.
O mundo partiu.

Sofria
por sentir que era o teu coração que já não me conhecia.

Eu amava-te.
Na minha ausência de rosto e no meu vazio de felicidade.

Eu amava-te, mudando em tudo,
fiel a ti.




René Char


(Trad. Margarida Vale de Gato)




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22.6.09

Luis Alberto de Cuenca (Teus olhos)








TUS OJOS





Y tus ojos, tus pétalos de luz,
aquellos ojos que resumían el estío,
vasijas de pureza,
agonizan de sombra en su prisión de nieve
y de silencio.
El mundo es una catedral helada.



Luis Alberto de Cuenca




[A media voz]






E teus olhos, pétalas de luz,
esses olhos que resumiam o estio,
conchas de pureza,
agonizam de sombra na sua prisão de neve
e de silêncio.
O mundo é uma catedral gelada.


(Trad. A.M.)


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21.6.09

Eugénio de Andrade (As primeiras chuvas)








AS PRIMEIRAS CHUVAS





As primeiras chuvas estavam tão perto
de ser música
que esquecemos que o verão acabara:
uma súbita alegria,
súbita e bárbara, subia e coroava
a terra de água,
e deus, que tanto demorara,
ardia no coração da palavra.




EUGÉNIO DE ANDRADE
Rente ao Dizer




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19.6.09

María Sanz (Homens ao natural)









HOMBRES AL NATURAL





Son seres grises,
inequívocamente masculinos,
que lo mismo me envían
algún ramo de rosas
con cuatro plenilunios de retraso,
que intentan sorprenderme
al llegar en su lata
(léase coche) último modelo
donde se sienten mágicos.


Seres brillantes,
portadores de un agua de colonia
que anuncia su presencia
con cuatro primaveras de adelanto;
hombres al natural, de calle y riesgo,
que buscan evadirse
llevándome a cenar. Puedo ingerirlos
antes de que caduquen,
pero se me indigestan
media hora después, y no merece
la pena estropear esa velada.


Madre Naturaleza,
los pones a mi alcance, y agradezco
tus sabias intenciones.
Pero yo siempre he sido
inequívocamente femenina,
y declaro ante ti que cada vez
es mayor la distancia que nos une.



María Sanz







São seres cinzentos,
inequivocamente masculinos,
que tanto me enviam
um ramo de rosas
com quatro luas de atraso,
como intentam surpreender-me
ao chegarem de lata
(leia-se carro) último modelo
em que se sentem mágicos.


Seres brilhantes
portadores de uma água de colónia
que lhes anuncia a presença
com quatro primaveras de avanço;
homens ao natural, de rua e risco,
que procuram escapar-se
levando-me a jantar. Posso ingeri-los
antes de caducarem,
mas dão-me indigestão
meia hora depois, e não vale
a pena estragar a noitada.


Mãe Natureza,
tu põe-los ao meu alcance e eu agradeço
tuas sábias intenções.
Mas eu cá fui sempre
inequivocamente feminina,
e ante ti declaro que é cada vez
maior a distância que nos une.


(Trad. A.M.)


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Nuno Júdice (Durante um passeio)







DURANTE UM PASSEIO, NO CAMPO, UMA ÁGUIA




Desce ao nível do monte onde estou,
encostado às pedras que sobram do moinho antigo.
Paira, negra, no ar cuja transparência
se vai tornar azul, no cimo, e cinzenta
no horizonte onde o mar se adivinha.
Fica imóvel, como se fixasse a presa,
ou se tivesse esquecido da lei da gravidade.
No entanto, tem as asas bem abertas; só,
a esta distância, não é possível
ver-lhe os olhos.
Ao mesmo nível, eu e ela, apercebemo-nos
das diferenças mútuas:
presa ao espaço em busca da presa, ela;
com os pés na terra, voando em direcção
à sua imagem, eu.


NUNO JÚDICE
O Movimento do Mundo
(1996)

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17.6.09

Ana Blandiana (Devíamos)









DEVÍAMOS





Devíamos nascer velhos,
despertos, capazes de decidir
nosso destino na Terra,
saber que caminho tomar
desde a primeira encruzilhada
e que irresponsável fosse apenas
o desejo de ir mais longe.
Depois, pormo-nos a caminhar,
cada vez mais jovens,
alcançar maduros e fortes
as portas da criação,
atravessá-las e entrar apaixonados
na adolescência,
sendo crianças quando nos nascessem os filhos.
Estes seriam assim sempre mais velhos que nós,
ensinando-nos a falar
e embalando-nos para dormir,
desapareceríamos pouco a pouco,
cada vez mais pequenos,
como um grãozinho de uva, de ervilha ou de trigo...



Ana Blandiana


(Trad. A.M.)



[Noctambulario]





Fontes: Wikipedia / Romanian Voice (antologia) / Jornal de Poesia (entrevista)




Ibne Ayyas Alieburi (Desobedeci às paixões)








Desobedeci às minhas paixões quando era jovem
mas depois que o tempo me feriu com as cãs e a velhice,
contrariamente ao hábito, obedeci à paixão.
Prouvera a Deus que começasse por velho
para depois me tornar jovem.




Ibne Ayyas Alieburi

- Évora (sec. XII)






16.6.09

Sophia de Mello Breyner Andresen (Lusitânia)









LUSITÂNIA





Os que avançam de frente para o mar
e nele enterram como uma aguda faca
a proa negra dos seus barcos
vivem de pouco pão e de luar




Sophia de Mello Breyner Andresen


António Reis (Eu não voo)









Eu não voo
ando


quero que me oiçam


mas também não sou
das rãs que coaxam



ANTÓNIO REIS
Novos Poemas Quotidianos
Porto (1959)




[António Reis]