14.12.08

Raul Brandão (O resto é balbúrdia)






(O resto é balbúrdia...)




Entendo que este mundo é religioso e a minha vontade seria falar baixinho, bulir pouco.

Os dias mais felizes da minha vida passei-os ao sol, contemplando.

Não é que deteste a acção.

A acção é o fim da vida.

Mas é preciso distinguir entre acção e agitação.

Compreendo a acção dos santos e dos heróis, a acção pelo bem e pelo cristianismo - a grande acção.

O resto é balbúrdia.

Também há outra acção mais bela talvez ainda, a acção desconhecida e humilde, obscura, feita de exemplos e sacrifícios - a da mulher no seu lar, a do homem que cumpre a existência e que, com os pequenos meios de que dispõe, vai além da vida.

Digamos tudo: toda a acção que não tem um fim idealista ou não representa um sacrifício, não vale nada.

Esta acção exerce-a muito melhor do que eu ali o meu vizinho, que foi ao Porto buscar uma pobre de pedir, que não lhe era nada, trouxe-a para casa e reparte com ela o pão e a malga do caldo, ou a criatura desconhecida que no lar apagado cumpre todos os dias monótonos o seu dever monótono.

Sejamos humildes, porque a gente chega ao fim da vida sem ter entendido nada deste mundo, quanto mais do outro…



- RAUL BRANDÃO, Memórias, III, Balanço à vida.



António Osório (Sonho)









SONHO





Gostaria me sonhasses
vento sobre flor;
espiga de outro sono,
bolbo de outra vida.


Gostaria me encontrasses
ave caída;
e lhe desses depois
o voo de outros séculos.




António Osório



[Lídia Aparício]



.

12.12.08

11.12.08

José Fernandes Fafe (Metafísica do encontro)





METAFÍSICA DO ENCONTRO




Se não tivesse sido a esquadra americana, que fez esgotar a cerveja na cidade, eu não teria ido à outra banda beber um fino… Não nos teríamos encontrado, por conseguinte.
Mas, também, se o teu isqueiro não se tem avariado e a tua voz não fosse - até na adversidade! - manselinha (- “Por favor…” Nas comissuras dos lábios, tanto destino cruzado! - “Muito obrigado, Senhor…”) sequer teria reparado em ti…
Qual é a explicação da tua voz? Herdaste-a de teus pais? De teus avós? De que Senhora Aónia és descendente?
“Poeta desempregado…”. espalham para aí os teus. Mas se não fosse um poeta… quem te houvera de amar, ó minha feia? E empregado… como é que eu poderia, às quatro horas da tarde - numa quinta-feira - estar, digam-me lá, na outra banda?
Os marujos… e se eles eram cupidos… (crescidos, americanos, vestidos à marinheira…) que nos feriram com uma seta, teleguiada, certeira…

.

Foram as manobras da NATO…
Foi um isqueiro empanado…
Foram as voltas do Mundo…
Foi uma loucura (dizem os amigos)… que engendrou - cegamente - o nosso encontro em Cacilhas.
Coisa tão bela e absurda como o aparecimento do Homem!



José Fernandes Fafe


.

10.12.08

Juan Gelman (Mujeres)










MUJERES





decir que esa mujer era dos mujeres es decir poquito
debía tener unas 12.397 mujeres en su mujer
era difícil saber con quién trataba uno en ese pueblo de mujeres
ejemplo:


yacíamos en un lecho de amor
ella era un alba de algas fosforescentes
cuando la fui a abrazar se convirtió en Singapur
llena de perros que aullaban


recuerdo cuando se apareció envuelta en rosas de agadir
parecía una constelación en la tierra
parecía que la cruz del sur había bajado a la tierra
esa mujer brillaba como la luna de su voz derecha


como el sol que se ponía en su voz
en las rosas estaban escritos todos los nombres de esa mujer menos uno
y cuando se dio vuelta
su nuca era el plan económico
tenía miles de cifras y la balanza de muertes favorables a la dictadura militar
nunca sabía uno adónde iba a parar esa mujer
yo estaba ligeramente desconcertado
una noche le golpié el hombro para ver con quién era y vi en sus
ojos desiertos un camello


a veces
esa mujer era la banda municipal de mi pueblo
tocaba dulces valses hasta que el trombón empezaba a desafinar
y los demás desafinaban con él
esa mujer tenía la memoria desafinada


usté podía amarla hasta el delirio
hacerle crecer días del sexo tembloroso
hacerla volar como pajarito de sábana
al día siguiente se despertaba hablando de malevich


la memoria le andaba como un reloj con rabia
a las tres de la tarde se acordaba del mulo que le pateó la infancia
una noche del ser ellaba mucho esa mujer y
la devoraron todos los fantasmas que pudo alimentar con sus miles de mujeres
y era una banda municipal desafinada
yéndose por las sombras de la placita de mi pueblo


yo compañeros una noche como ésta
que nos empapan los rostros que a lo mejor morimos
monté en el camellito que esperaba en sus ojos
y me fui de las costas tibias de esa mujer


callado como un niño bajo los gordos buitres que me comen de todo
menos el pensamiento de cuando ella se unía como un ramo de dulzura
y lo tiraba en la tarde



Juan Gelman


Fontes: Poesi.as (104p) / Sololiteratura (90p) / A media voz (36p) / Wikipedia / La Bitácora de Gelman (blogue pessoal)
.
.
.
.

Nuno Júdice (Poema-2)










POEMA-2





Atravesso o jardim, de manhã,
até beber o último trago de névoa.


As estátuas empurram-me com
os seus braços brancos.


Um cisne confunde-se
com um jarro;


mas não sei se o lago
se confunde com ele.


No banco, um fantasma
estende-me uma chávena de café.


No fundo, discutimos ambos
um problema de existência.


É que nem ele nem eu
temos a certeza um do outro


quando a cidade, no Outono,
se veste de nuvem.




NUNO JÚDICE
O Movimento do Mundo (1996)


.


.

7.12.08

Julio Cortázar (Encargo)





ENCARGO



No me des tregua, no me perdones nunca.
Hostígame en la sangre, que cada cosa cruel sea tú que vuelves.
No me dejes dormir, no me des paz!
Entonces ganaré mi reino,
naceré lentamente.
No me pierdas como una música fácil, no seas caricia ni guante;
tállame como un sílex, desespérame.
Guarda tu amor humano, tu sonrisa, tu pelo. Dalos.
Ven a mí con tu cólera seca de fósforo y escamas.
Grita. Vomítame arena en la boca, rómpeme las fauces.
No me importa ignorarte en pleno día,
saber que juegas cara al sol y al hombre.
Compártelo.
Yo te pido la cruel ceremonia del tajo,
lo que nadie te pide: las espinas
hasta el hueso. Arráncame esta cara infame,
oblígame a gritar al fin mi verdadero nombre.


(París, 1951/1952)


JULIO CORTAZAR
Salvo el crepúsculo

.


Olhar (38)














Ria de Aveiro

(Canal de Mira)

.

Abdalá Ibne Uázir (Não desesperes)











Não desesperes de chegar a califa
pois Ibne Amr foi nomeado inspector das alfândegas.



Desgraçada época em que se fazem coisas como esta
colocar altos cargos nas mãos de um limpador de esgotos…




Abdalá Ibne Uázir



- Alcácer do Sal (1218)




(Trad. Garcia Domingues)


.

5.12.08

Ferreira Gullar (Pergunta e resposta)











PERGUNTA E RESPOSTA





Se é fato que
toda a massa do sistema
solar (somando a de Saturno e Marte
e Terra e Vênus e Urano e Mercúrio
e Plutão, mais
os satélites, mais
os asteróides, mais) equivale
apenas a 2% da massa
total do Sol e
que o Sol não é mais
que um mínimo ponto
de luz na estonteante tessitura de
gás e poeira da Via
Láctea e que a ViaLáctea é apenas uma
entre bilhões de galáxias
que à velocidade de 300 mil km por segundo
voam e explodem
na noite então pergunto:
o que faz aí
meu poema com seu
inaudível ruído?



E respondo:
Inaudível
para quem esteja
na galáxia NGC 5128
ou na constelação
de Virgo ou mesmo
em Ganimedes
onde felizmente não estás,
Cláudia Ahimsa,
poeta e musa do planeta Terra.




[Ferreira Gullar]


.


.

Vitorino Nemésio (Lagoa do Negro)







(Lagoa do Negro)




Com cerca de vinte anos de raiz na ilha Terceira, eu nem ouvira sequer falar na lagoa do Negro, quanto mais enxergá-la!

E, contudo, embora aqui levasse uma meninice sedentária, algumas vezes passara pela estrada central, do Sul ao Norte da ilha, onde, a uns dois terços do caminho de Angra aos Biscoitos, por uma leve ruga aberta no Pico da Bagacina, se alcança esse magnífico bebedoiro e banheira do gado seco da ilha.


- VITORINO NEMÉSIO, Corsário das Ilhas, Segundo corso (A Lagoa do Negro), 1956.


.


.

3.12.08

Francisco Sá de Miranda (Dezarrezoado amor)










DEZARREZOADO AMOR, DENTRO EM MEU PEITO





Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.


Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.


Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.


Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?




F. Sá de Miranda

.
.

Jaime Gil de Biedma (Pandémica y celeste)











PANDÉMICA Y CELESTE





Imagínate ahora que tú y yo
muy tarde ya en la noche
hablemos hombre a hombre, finalmente.
Imagínatelo,
en una de esas noches memorables
de rara comunión, con la botella
medio vacía, los ceniceros sucios,
y después de agotado el tema de la vida.
Que te voy a enseñar un corazón,
un corazón infiel,
desnudo de cintura para abajo,
hipócrita lector - mon semblable - mon frère!




Porque no es la impaciencia del buscador de orgasmo
quien me tira del cuerpo a otros cuerpos
a ser posiblemente jóvenes:
yo persigo también el dulce amor,
el tierno amor para dormir al lado
y que alegre mi cama al despertarse,
cercano como un pájaro.
¡Si yo no puedo desnudarme nunca,
si jamás he podido entrar en unos brazos
sin sentir - aunque sea nada más que un momento -
igual deslumbramiento que a los veinte años !




Para saber de amor, para aprenderle,
haber estado solo es necesario.
Y es necesario en cuatrocientas noches
- con cuatrocientos cuerpos diferentes -
haber hecho el amor. Que sus misterios,
como dijo el poeta, son del alma,
pero un cuerpo es el libro en que se leen.




Y por eso me alegro de haberme revolcado
sobre la arena gruesa, los dos medio vestidos,
mientras buscaba ese tendón del hombro.
Me conmueve el recuerdo de tantas ocasiones...
Aquella carretera de montaña
y los bien empleados abrazos furtivos
y el instante indefenso, de pie, tras el frenazo,
pegados a la tapia, cegados por las luces.
O aquel atardecer cerca del río
desnudos y riéndonos, de yedra coronados.
O aquel portal en Roma - en vía del Balbuino.
Y recuerdos de caras y ciudades
apenas conocidas, de cuerpos entrevistos,
de escaleras sin luz, de camarotes,
de bares, de pasajes desiertos, de prostíbulos,
y de infinitas casetas de baños,
de fosos de un castillo.
Recuerdos de vosotras, sobre todo,
oh noches en hoteles de una noche,
definitivas noches en pensiones sórdidas,
en cuartos recién fríos,
noches que devolvéis a vuestros huéspedes
un olvidado sabor a sí mismos!
La historia en cuerpo y alma, como una imagen rota,
de la langueur goûtée à ce mal d'être deux.
Sin despreciar
- alegres como fiesta entre semana -
las experiencias de promiscuidad.




Aunque sepa que nada me valdrían
trabajos de amor disperso
si no existiese el verdadero amor.
Mi amor,
íntegra imagen de mi vida,
sol de las noches mismas que le robo.




Su juventud, la mía,
- música de mi fondo -
sonríe aún en la imprecisa gracia
de cada cuerpo joven,
en cada encuentro anónimo,
iluminándolo. Dándole un alma.
Y no hay muslos hermosos
que no me hagan pensar en sus hermosos muslos
cuando nos conocimos, antes de ir a la cama.




Ni pasión de una noche de dormida
que pueda compararla
con la pasión que da el conocimiento,
los años de experiencia
de nuestro amor.
Porque en amor también
es importante el tiempo,
y dulce, de algún modo,
verificar con mano melancólica
su perceptible paso por un cuerpo
- mientras que basta un gesto familiar
en los labios,
o la ligera palpitación de un miembro,
para hacerme sentir la maravilla
de aquella gracia antigua,
fugaz como un reflejo.




Sobre su piel borrosa,
cuando pasen más años y al final estemos,
quiero aplastar los labios invocando
la imagen de su cuerpo
y de todos los cuerpos que una vez amé
aunque fuese un instante, deshechos por el tiempo.
Para pedir la fuerza de poder vivir
sin belleza, sin fuerza y sin deseo,
mientras seguimos juntos
hasta morir en paz, los dos,
como dicen que mueren los que han amado mucho.




Jaime Gil de Biedma




Fontes: Wikipedia / A media voz (28p) / Poesia-inter.net (30p)

.


.

1.12.08

Eugénio de Andrade (Devias estar aqui)










DEVIAS ESTAR AQUI






Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um.



Eu vi a terra pura no teu rosto,
só no teu rosto e em mais nenhum…




Eugénio de Andrade


.


.

Raul Brandão (O meu momento é este)







(O meu momento é este…)




Espero no que aí vem e que sinto que contém uma grande verdade - a verdade eterna.

Espero pelo dia - mesmo na cova o espero - em que acabe a exploração do homem pelo homem.

Espero pelo dia em que a instrução seja realmente gratuita e obrigatória para todos - e o ensino religioso.

Quero o culto de Deus vivo nas escolas.

Espero que a terra seja de quem a cultiva.

É absurdo possuir a terra como quem tem papéis para receber os juros.

Espero que a herança seja contida em justos limites.

Espero o dia em que o homem compreenda que o supérfluo é um crime.

Mais justiça e mais pão para todos.

Mais Deus para todos.

Há sempre um momento em que os homens lançam contas à vida.

O meu momento é este…




- RAUL BRANDÃO, Memórias, III, Balanço à vida.


.


29.11.08

Casimiro de Brito (Beijo-a no sono)










Beijo-a no sono — beijo-a
mentalmente não vá eu acordar
a luz dos meus dias.





Casimiro de Brito


.


.

José Luis García Martín (Elogio do olvido)






ELOGIO DEL OLVIDO



A qué grabar un nombre en las paredes,
manchar con torpes trazos la blancura
deslumbrante, impoluta, de la nada?
A qué este vano empeño de ir dejando señales,
de escribir en la arena, a resguardo del viento,
las triviales miserias que conforman tu vida?
Sobre las tercas líneas que dibujan un rostro
ha de pasar la mano piadosa de los años
borrando letras, sílabas, palabras sin sentido.
El papel en que escribes volverá a estar en blanco.
Y habrá dicha mayor que no haber sido?


JOSÉ LUIS GARCIA MARTIN
El pasajero
(1992)




Para quê gravar um nome nas paredes,
manchar com torpes traços a brancura
deslumbrante, impoluta, do nada?
Para quê este vão empenho de ir deixando sinais,
de escrever na areia, ao abrigo do vento,
triviais misérias que te conformam a vida?
Sobre as linhas teimosas que esboçam um rosto
há-de passar a mão piedosa dos anos
apagando letras, sílabas, palavras sem sentido.
O papel em que escreves voltará a estar em branco.
E haverá ventura maior do que não ter sido?


(Trad. A.M.)

.
Fontes: A media voz (17p) / Wikipedia

.

27.11.08

Pedro Mexia (Código Civil)





.

CÓDIGO CIVIL





Raparigas abraçadas ao Código Civil,
serve para alguma coisa,
o Código Civil, nunca imaginei,
que bom ser Código Civil.




PEDRO MEXIA
Vida Oculta (2004)

.

.

Rabindranath Tagore (Flor de lótus)









FLOR DE LÓTUS






No dia em que a flor de lótus desabrochou
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo do meu coração.




R.Tagore


.