18.8.17

Juan Luis Panero (Epitáfio diante do espelho)





EPITAFIO FRENTE A UN ESPEJO



Dura ha de ser la vida para ti,
que a una extraña honradez sacrificaste tus creencias,
para ti, cuya única certidumbre es tu recuerdo
y por ello, tu más aciaga tumba.
Dura ha de ser la vida, cuando los años pasen
y destruyan al fin la ilusa patria de tu adolescencia,
cuando veas, igual que hoy, este fantasma
que tiempo atrás te consoló con su belleza.
Cuando el amor como un vestido ajado
no pueda proteger tu tristeza
y motivo de burla, de piedad o de asombro,
a los ojos más puros sólo sea.
Duro ha de ser para tu cuerpo ver morir el deseo,
la juventud, todo aquello que fuiste,
y buscar sin pasión tu reposo
en la sorda ternura de lo débil,
en la gris destrucción que alguna vez amaste.
«Es la ley de la vida», dicen viejos estériles,
«y nada sino Dios puede cambiarlo», repiten,
a la luz de la noche, lentas sombras inútiles.
Dura ha de ser la vida, tú que amaste el mundo,
que con una mirada o una suave caricia soñaste poseerlo,
cuando la absurda farsa que tú tanto conoces
no esté más adornada con lo efímero y bello.
Dura ha de ser la vida hasta el instante
en que veles tu memoria en este espejo:
tus labios fríos no tendrán ya refugio
y en tus manos vacías abrazarás la muerte.

Juan Luis Panero




Dura há-de ser a vida para ti,
que sacrificaste as crenças a uma estranha honradez,
para ti, cuja única certeza é a lembrança
e, por isso, a tumba mais aziaga.
Dura há-de ser a vida, quando os anos passarem
e destruírem por fim a pátria ingénua da tua adolescência,
quando vires, como hoje, este fantasma
que antes te consolou com sua beleza.
Quando o amor, como um vestido rasgado,
não te possa cobrir a tristeza
e seja apenas aos olhos mais puros
um motivo de zomba, piedade ou assombro.
Duro há-de ser para o teu corpo ver morrer o desejo,
a juventude, tudo aquilo que foste,
e procurar sem paixão o repouso
na surda ternura do que é débil,
na destruição que algum dia amaste.
«É a lei da vida», dizem velhos estéreis,
«e só Deus pode o pode mudar» repetem,
à luz da noite, lentas sombras inúteis.
Dura há-de ser a vida, tu que o mundo amaste,
que sonhaste possuí-lo com um olhar ou suave carícia,
quando a absurda farsa que tão bem conheces
não estiver já enfeitada do belo e efémero.
Dura há-de ser a vida até ao instante
em que velares tua memória neste espelho:
não terão já refúgio teus frios lábios
e com as mãos vazias abraçarás a morte.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (José Bento)

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17.8.17

Fernando Assis Pacheco (Então agora vamos ficar sem o Ruy Belo?)




ENTÃO AGORA VAMOS FICAR SEM O RUY BELO



Quando morre um poeta é fatal a ANOP
«sempre em cima do evento» debita o seu telegrama
tantos anos uma «obra ímpar» etc.
foi assim com o Ruy Belo mas o flash
pedia para se não dar a notícia o que me levou
à conclusão irresistível de que mais uma vez este
se entretinha a reinar aos cowboys
ó Ruy tu mascarado de Jesse James o vingador vingando
as malas-artes da retórica idiota
o que me levou à conclusão irresistível de que
esperaria mais pormenores para «confirmação da informação»

seguiram-se telefonemas de recurso a localizar em férias
o João Miguel Fernandes Jorge não estava
no Bombarral em casa dos pais não estava na Consolação
Lisboa: ele próprio atende e diz
que o Ruy Belo foi-se em Queluz de não entende o quê
asma ou parecido há o problema do funeral quando
mas certamente para a aldeia «João» e ele
responde baixo «sozinho» «tinha vindo tratar de una papéis»
a porra da a triste da a caca da vida que levamos sacudida sobre os ombros
passa esse dia do telegrama da ANOP os jornais afinal noticiam
redijo setenta linhas que acompanho com uma chamada de primeira página em positivo sobre rede pensando muito na hipótese de um dia um colega meu sacar da máquina um telex ou ouvir ao bigophone olha o gajo marchou dá lá recados
e o chefe (o meu sucessor de carteira) breve a «duas colunas com foto» havendo apesar de tudo um certo cuidado porque era da «malta»
e tu que eras da malta não tive cuidado nenhum fui um coiro devia esmerar-me
devia mesmo esmerar-me

então agora ficamos sem o Ruy Belo


Fernando Assis Pacheco


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16.8.17

Efraín Huerta (Seis da manhã)





SEIS A.M.



Y así
Murmuraba:
«Ya es lunes
Mañana martes
Y el miércoles
Está encima
Pronto
Será jueves
Y luego
Viernes
Y aún
No he
Hecho
Nada
         De trabajo».

Efraín Huerta




E assim
murmurava:

“Estamos
na segunda,
amanhã terça,
quarta
está quase,
em breve
será quinta
e depois
sexta
e eu ainda
não fiz
a ponta
      de um corno”.


(Trad. A.M.)

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15.8.17

Claudio Bertoni (Lar doce lar)





HOGAR DULCE HOGAR



el cáncer
la muerte no sería tan mala
si se pudiera traer a casa
si no hubiera que levantarse
si no hubiera que salir de la cama
si no hubiera que subirse a una ambulancia
si no hubiera que vivir en un hospital
si no hubiera que vivir entre desconocidos
si no hubiera que prescindir de las frazadas
del color de las frazadas de la casa
de la temperatura del color de las frazadas de la casa.

morir no sería tan malo si todo pasara en la casa
y con los de la casa
si uno tuviera la suerte de tener una casa.

lo peor del cáncer y de la muerte son la burocracia y el ajetreo
de los cambios de ropa y el frío de los pasillos y el frío de
las miradas de los extraños (de los que no sufren porque tú sufres
de los que no sufren porque tú vas a morir)
y la indiferencia de las calles y de los muros de las calles
y la indiferencia mortal del hospital y de todo lo que lame
y cubre por dentro a un hospital.

morir no sería tan malo
sufrir no sería tan malo
si se sufriera en la casa
si se supiera que nada ni nadie nos sacará
-en caso de morir o sufrir-
de la casa


Claudio Bertoni




o cancro
a morte não seria tão ruim
se eu pudesse trazê-la para casa
se não tivesse de levantar-me
se não tivesse de sair da cama
se não tivesse de ir de ambulância
se não tivesse de ficar internado
de viver no meio de gente desconhecida
de prescindir das cobertas
da cor das cobertas de casa
do calor e da cor das cobertas de casa.

morrer não seria tão ruim se tudo se desse em casa
e com os de casa
se eu tivesse a sorte de ter uma casa.

o pior do cancro e da morte é a burocracia e a agitação
das mudanças de roupa e o frio dos corredores e o frio
do olhar dos estranhos (dos que não sofrem porque tu sofres,
dos que não sofrem porque tu vais morrer)
e a indiferença das ruas e dos muros das ruas
e a indiferença mortal do hospital e de tudo o que lambe
e cobre por dentro um hospital.

morrer não seria tão ruim
sofrer não seria tão ruim
se a gente sofresse em casa
se soubesse que nada nem ninguém nos tirará
- em caso de morrer ou sofrer -
                                               de casa.


(Trad. A.M.)


>>  Memoria chilena (tudo+algo+obra toda ou quase) / Angelfire (12p) / Wikipedia

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14.8.17

Helder Moura Pereira (Esse vidro)





ESSE VIDRO



Janelas rompem
na casa, uma flor
no vestido, esse vidro
nos olhos. Janelas
sobre o que vês,
apenas o breve
relance de uma face
perdida, apenas
uma frase de jardim
ou uma rosa de julho.
Janelas rompem
nos teus olhos
e a roda do vestido
ilumina esta manhã.
Quando apontas
sou eu que venho
subindo as escadas,
sou eu que sinto
todas as mãos
por esta pele.
Aqui começa a cor
das telhas, o verde
musgo, a orientação
das imagens. Chegas
do lado mais esperado
da cidade e não
te encobre a bruma
definindo a linha
das janelas. A que
hesito entre o gesto
de mostrar a face
que regressa e adivinha.
No vidro dos olhos
a flor do vestido, nos
degraus o súbito
desejo de janelas
tapando a morte.



Helder Moura Pereira

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13.8.17

Juan José Saer (A arte de narrar)





EL ARTE DE NARRAR



Cada uno crea
de las astillas que recibe
la lengua a su manera
con las reglas de su pasión
-y de eso, ni Emanuel Kant estaba exento.


Juan José Saer
 


  



Cada um cria
das lascas que recebe
a língua a seu modo
com as regras da sua paixão
- e disso, nem Kant estava isento.


(Trad. A.M.)

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12.8.17

Juan Gelman (Regressos)





REGRESOS



Así que has vuelto.
Como si hubiera pasado nada.
Como si el campo de concentración, no.
Como si hace 23 años
que no escucho tu voz ni te veo.
Han vuelto el oso verde, tu
sobretodo larguísimo y yo
padre de entonces.
Hemos vuelto a tu hijear(*) incesante
en estos hierros que nunca terminan.
¿Ya nunca cesarán?
Ya nunca cesarás de cesar.
Vuelves y vuelves
y te tengo que explicar que estás muerto.


Juan Gelman




Com que então, voltaste.
Como se nada se passara.
Como se o campo de concentração, não.
Como se há 23 anos
que eu não te ouço nem te vejo.
Voltaram o urso verde, o teu
sobretudo longuíssimo e eu
pai de então.
Voltamos ao teu filhar incessante
nestes ferros que nunca acabam.
Nunca já cessarão?
Nunca já cessarás de cessar.
Voltas e voltas a voltar
e eu tenho que te explicar que estás
morto.

(Trad. A.M.)

________________


(*) Corrigido ‘hijar’ (que não existe) para ‘hijear’ (deitar filhos ou rebentos>filhar).

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11.8.17

Mário de Carvalho (A sala magenta)




Dantes, tudo era um peso ancestral de quietação e vagar pelas matas de sobreiral e pinho em redor das águas represadas a que chamam Lagoa Moura, havendo perto umas ruínas que a memória popular não assinala além dos mouros. 

Então, carregavam-se de silêncio as formas, pasma­vam lassos os ramos, pendiam restos de carumas, tombavam as pinhas de velhas, empastavam-se as folhas mortas, deixavam-se as portadas entreabertas. 

Em chegando a noite, com o rarear dos pássaros, alteavam-se as sombras, delineavam-se os contornos, adensava-se o espaço, vibrava subtilmente o ar e milhentos pequenos rumores emergiam do solo num restolhar de sobrevivência.

Na dobra do século, as brisas, mais rijas de ano para ano, entraram a balancear as copas, a revolver os gravetos, a frisar as águas, a desinquietar o silêncio e a fazer a demonstração prática e local de que o clima desvariava.


MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-I
(2008)


>>  Mário de Carvalho / Recensão-1 (Teresa Sousa Almeida) / Recensão-2 (Manuel Portela) / Recensão-3 (Nelson Ferreira) / Recensão-4 (Beja Santos)

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10.8.17

Juan Carlos Mestre (Página com cão)





PÁGINA CON PERRO



Los carabineros detuvieron a mis amigos,
les ataron las manos a los raíles,
me obligaron como se obliga a un extranjero
a subir a un tren y abandonar la ciudad.

Mis amigos enfermaron en el silencio,
tuvieron visiones en la cercanía de lo sagrado.

No la herida del inocente,
no la cuerda del cazador de reptiles,
en mi pensamiento la crueldad tiene nombre.

Me llamaron judío,
perro judío,
comunista judío hijo de perro.

Este no es asunto que se pueda solucionar con tres palabras,
porque para cada uno de nosotros
esas palabras tampoco significan lo mismo.

Yo he tenido un perro,
he hablado con él,
le he dado comida.

Para alguien que ha tenido un perro,
la palabra perro es fiel como la palabra amigo,
hermosa como la palabra estrella,
necesaria como la palabra martillo.


Juan Carlos Mestre


[El juego de la taba]




A guarda deteve os meus amigos,
ataram-lhes as mãos aos carris,
 e a mim obrigaram-me, como se fosse estrangeiro,
a entrar no comboio e a deixar a cidade.

Meus amigos adoeceram no silêncio,
tiveram visões na orla do sagrado.

Não a chaga do inocente,
não a corda do caçador de serpentes,
em meu pensamento a crueza tem nome.

Chamaram-me judeu,
cachorro judeu,
judeu comunista filho de um cão.

Não é este um caso que possa resolver-se
com três palavras,
pois estas palavras não significam o mesmo
para cada um de nós.

Eu tive um cão,
eu falei com ele,
eu dei-lhe de comer.

Para alguém que teve um cão,
a palavra cão é fiel tal como a palavra amigo,
é bela como a palavra estrela,
é necessária como a palavra martelo.


(Trad. A.M.)

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9.8.17

Josep M. Rodríguez (Primeira visita ao zoo)





PRIMERA VISITA AL ZOO



Tenía doce años y mi madre
me regalaba un mundo para mí:

‒¿Si la tristeza fuese un animal?

‒Si la tristeza fuese un animal...
pues un escarabajo.

Y entonces le contaba que había días
en que ese escarabajo fabricaba
una bola muy grande en mi garganta.

Los ojos de mi madre eran de búho.
Parecía entenderme sin hablar.

‒¿Y cómo te imaginas ser mayor?

No sé qué respondí,
tenía doce años:

aún no comprendía que crecer
es ir al zoo
y sólo ver barrotes.


Josep M. Rodríguez

[La estafeta del viento]



Tinha doze anos e a minha mãe
oferecia-me um mundo só para mim:

- Se a tristeza fosse um animal?

- Se a tristeza fosse um animal...
seria um escaravelho.

E contava-lhe então que havia dias
em que esse escaravelho fabricava
uma bola muito grande na minha garganta.

Os olhos da minha mãe eram de coruja.
Pareciam entender-me sem falar.

- E como imaginas que é ser mais velho?

Não sei o que respondi,
tinha doze anos:

ainda não compreendia que crescer
era ir ao zoo
e só ver grades.


(Trad. I.D.)

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8.8.17

Gil T. Sousa (Maré)





MARÉ


(14)

quando a maré se afasta
é possível escrever tudo

outra vez




GIL T. SOUSA
Agua Forte
(2005)


[Canal de poesia]

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7.8.17

Josefa Parra (À mão armada)





A MANO ARMADA



Le robamos amor al amor
porque no hay más amor que el asignado
la cifra invariable que te entregan
al nacer, como el pelo o la estatura.
Mueves los montoncitos de cariño,
puñados de deseo, algunos besos,
de un lado para otro, vas sisando,
mordisqueando el montante de tu afecto.
Robándole al amor, amor, qué simple,
qué inútil además.
Cuando anochece,
necesitado y triste y pordiosero,
vuelves hasta una casa en la que apenas
te queda más que el hueco
para acostar tu alma.

Josefa Parra





Roubamos amor ao amor
porque não há mais amor que o dado,
a soma invariável que te dão
ao nascer, como o cabelo ou a estatura.
Moves os montinhos de carinho,
punhados de desejo, uns beijos,
de um lado para outro, vais tirando,
rafando o teu montante de afecto.
Roubar ao amor, amor, que simples,
e ademais que inútil.
Ao anoitecer,
precisado, e triste, e pedinte,
regressas a uma casa em que mal
tens mais do que um buraco
para deitar a alma.


(Trad. A.M.)

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6.8.17

José María Zonta (Um tipo sai do trabalho)





Uno sale del trabajo proporcionalmente feliz,
ojos contaminados
y compra unos vasos
casualmente dos.
Paga impuestos
recibe malas noticias y contra enfermedades.
Uno piensa improperios
para callárselos,
no acaba de entender la íntima relación
entre la juventud y la muerte.
Uno estudia filosofía
porque entiende que la vida es un tranvía,
recibe la lección y no la enciende,
uno es totalmente libre de hacer lo que quiera
dentro de su jaula.
Uno grita, quiere amar,
toma una cerveza,
no recoge el guante que dios le tira.
Envuelve la noche en hojas de soledad
y se aposenta en los bordes de alguna canción.
Uno hace esto y cree que es vivir,
pero se engaña quedamente.
Hasta que una mujer lo mira
lo aplaca, lo prende,
le atraganta la vida en los ojos.
Entonces uno ríe de sí
controla los gastos
ya no envidia a los gatos
y esparce amor.

José María Zonta




Um tipo sai do trabalho moderadamente feliz,
os olhos contaminados
e toma alguns copos
por acaso dois.
Paga os impostos
recebe más notícias
e contrai doenças.
Um tipo pensa impropérios,
mas cala-se,
não conseguindo entender a íntima relação
entre a juventude e a morte.
Um tipo estuda filosofia
porque vê a vida como um eléctrico,
recebe a lição e não a entende,
um tipo é totalmente livre de fazer o que quiser
mas dentro da jaula.
Um tipo grita, quer amar,
bebe uma cerveja,
não levanta a luva que deus lhe atira.
Embrulha a noite em folhas de solidão,
instalando-se nas margens de uma canção.
Um tipo faz isto tudo pensando que é viver,
mas engana-se redondamente.
Até que uma mulher olha para ele,
amansa-o, prende-o,
entala-lhe a vida nos olhos.
Um tipo então ri de si mesmo
passa a controlar as despesas
deixa de ter inveja dos gatos
e esparze amor.

(Trad. A.M.)

.

5.8.17

João de Mancelos (Depois do amor)





DEPOIS DO AMOR



às vezes, depois do amor,
quando feras dóceis rondam o nosso sono,
e afastam os passos dos teus amantes,

às vezes, quando me encosto à nudez,
exausto, e tomo o peso às tuas palavras,
e fico sempre devedor,

às vezes, quando me inventas um nome
para que a madrugada chegue
e eu não tenha de morrer nunca mais,

às vezes, penso no deus que te perdeu,
beijo-o e choro, às escondidas,
por ele.


João de Mancelos



 >>  João de Mancelos (tudo+algo)

.

4.8.17

Isabel Bono (Tenho uma pedra)





llevo una piedra en el coche
llevo una piedra en el bolsillo
llevo una piedra en el puño
llevo una piedra en el estómago
llevo una piedra en el corazón

estoy preparada
para cualquier catástrofe


Isabel Bono






tenho uma pedra no carro
tenho uma pedra no bolso
tenho uma pedra na mão
tenho uma pedra no estômago
tenho uma pedra no coração

estou preparada
para qualquer catástrofe



(Trad. A.M.)


>>  Isabel Bono (blogue /de blogues/4) / Las afinidades electivas (3p) / Poemas del alma (resumo)

.

3.8.17

José María Parreño (Querer chegar a ser)





Querer llegar a ser
y para eso
lecturas viajes cuerpos
conseguir lo que no se posee
deshacerse de lo que nos estorba

pero al final
¿cantaremos mejor?
¿estaremos más cerca
de nuestro propio centro?

¿no sería mejor dejarse ir
como los días
tomar aquello a que alcanza la mano
abandonar lo que nos abandona?
¿saber que somos ya
sin mácula
sin falta
quienes somos?


José María Parreño




Querer chegar a ser
e para isso
leituras viagens corpos
conseguir o que não se tem
desfazer-se daquilo que nos estorva

mas a final
cantaremos melhor?
estaremos mais perto
do nosso próprio centro?

não seria melhor deixar-se ir
como os dias
tomar aquilo que a mão alcança
abandonar o que nos abandona?
saber que somos já
sem mácula
sem falha
quem somos?

(Trad. A.M.)

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2.8.17

Corpo presente (52)





BILDUNGSROMAN



Os vivos estão mortos, os mortos estão vivos...

No meu mundo é assim.


E eu estou quase a nascer...

.

1.8.17

José María Fonollosa (Fifth Avenue)





FIFTH AVENUE



Me niego a hacer sonetos. Su estructura
-dos anchos ataúdes de cuartetos
y otros dos más delgados de tercetos-
los muestra adustos, serios de figura.

O semejan barrotes de una dura
prisión de endecasílabos sujetos
por rimas consonantes; obsoletos
modelos del rigor. ¿Poesía pura?

Mayormente son versos preparados
a medida del molde y presentados
con un burdo remedo de la música.

Abjuro de sonetos donde sobra
o falta espacio para expresar la obra
en su justa extensión, la exacta, la única.


José María Fonollosa

[Neorrabioso]





Recuso-me a fazer sonetos. Sua estrutura
– dois largos ataúdes de quartetos
e outros dois mais estreitos de tercetos –
mostra-os adustos, sérios de figura.

Ou semelham barrotes de uma dura
prisão de endecassílabos amarrados
por rimas consoantes; passados
modelos de rigor. Poesia pura?

Na maior parte são versos preparados
à medida do molde, apresentados
com um simples arremedo de música.

Abjuro de sonetos em que sobra
ou falta espaço para expressar a obra,
na sua justa extensão, a exacta, única.


(Trad. A.M.)

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