10.2.26

Lêdo Ivo (Contrabandista)





CONTRABANDISTA

 

Nenhum poeta é obscuro.
Tudo o que ele diz é claro
como um palavrão num muro.

Mais claro que a luz acesa
é o poema mais hermético.
Pão matinal numa mesa.

Na noite misteriosa
nenhum mistério prospera:
apenas freme uma rosa.

Qualquer menino decifra
o soneto indecifrável
e o verso mais sibilino.

O poeta sempre diz tudo
quando se cala em seu nada.
É um contrabandista mudo

na alfândega da vida.

Lêdo Ivo

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