24.3.26

Idea Vilariño (Quando comprar um espelho)




Cuando compre un espejo para el baño
voy a verme la cara
voy a verme
pues qué otra manera hay decíme
qué otra manera de saber quién soy.
Cada vez que desprenda la cabeza
del fárrago de libros y de hojas
y que la lleve hueca atiborrada
y la deje en reposo allí un momento
la miraré a los ojos con un poco
de ansiedad de curiosidad de miedo
o sólo con cansancio con hastío
con la vieja amistad correspondiente
o atenta y seriamente mirarme
como esa extraña vez-mis once años-
y me diré mirá ahí estás
seguro
pensaré no me gusta o pensaré
que esa cara fue la única posible
y me diré esa soy yo ésa es idea
y le sonreiré dándome ánimos.


Idea Vilariño 

 

Quando comprar um espelho
vou ver a minha cara
vou ver-me
pois que outro modo há dizei-me
que outro modo de saber quem sou.
Cada vez que soltar a cabeça
da desordem de livros e folhas
e a trouxer oca a abarrotar
e a deixar um momento ali em repouso
hei-de olhá-la nos olhos com um pouco
de ansiedade, medo, curiosidade
ou só com cansaço ou fastio
com a velha e devida amizade
ou olhar-me atenta e séria
como daquela vez – nos meus onze anos –
e direi olha, estás aí,
decerto
pensarei não me agrada ou pensarei
que essa cara foi a única possível
e direi essa sou eu essa é Idea
e hei-de sorrir-lhe e dar-me ânimo.
 

(Trad. A.M.)

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