GEMINAÇÃO
Pelo jornal de hoje eu
inesperado acabo
de saber que morreu
uma vizinha. Na casa
geminada com a minha.
FRANCISCO
J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)
GEMINAÇÃO
Pelo jornal de hoje eu
inesperado acabo
de saber que morreu
uma vizinha. Na casa
geminada com a minha.
FRANCISCO
J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)
PRESENTE
No queda otro remedio
que replegarme al fondo de mí misma
de una justa manera
cuando el presente ya es solo pasado
y el futuro ilusorio apunta a lo finito.
Atenta a jerarquías más precisas,
me inclino hacia otro tiempo
para hallar esta voz que parpadea:
fulgor que sobrevive.
Aún no he pasado, como las estrellas.
Efi Cubero
Não há outro remédio
senão recolar-me no fundo de mim mesma
de um modo justo
quando o presente é só passado já
e o futuro ilusório aponta para o finito.
Atenta a hierarquias mais precisas,
inclino-me para outro tempo
para achar esta voz que cintila
- fulgor que sobrevive.
Eu não passei ainda, como as estrelas.
.
NUNCA
Nunca dormí en tus brazos.
Nunca me desperté de madrugada y vi el armario,
la ventana, los libros,
o escuché el ruido de las cañerías, los pasos
solitarios en la calle,
y pensé, incrédulo, que, puesto que todo aquello
era real,
tú también debías serlo.
No supe a qué sabían tus labios, o tu risa.
No te vi desnudarte.
No supe ni sabré jamás cómo tus ojos, en el acto
del amor,
incendiaban la noche.
Esa ausencia es, lo sé bien, una mutilación
irremediable;
es un triste muñón, que llevaré conmigo hasta la
muerte.
También es, a su modo, forma y prueba de amor,
de
lúcido y humillado amor,
de devastado y verdadero amor, que ofrezco a tu
recuerdo.
José Cereijo
Nunca dormi em teus braços,
nunca acordei de manhã a ver o armário, a janela,
os livros,
ou escutei o ruído dos canos, os passos
solitários na rua,
e pensei, incrédulo, que sendo tudo isso real
tu também devias ser.
Não soube a que sabiam teus lábios, ou teu riso,
não te vi a despir,
não soube nem saberei nunca como teus olhos, no
amor,
incendiavam a noite.
Essa falta, bem sei, é uma mutilação sem
remédio,
um triste coto de um braço que levarei comigo até à morte.
É também, a seu modo, forma e prova de amor,
de lúcido humilhado amor,
de devastado e verdadeiro amor,
que eu ofereço à tua lembrança.
(Trad. A.M.)
MINHA PÁTRIA
Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e
implaudados não param de tossir e tremer nas noite frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria desintérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.
Lêdo Ivo
Le dije que lo nuestro envenenaba
a los dos por igual, que era sensato
olvidarnos de todo, cada uno
tenía ya su vida, cada cual
su equipaje de sombras
en distintos andenes.
Muere siempre el amor
de forma violenta.
Ahora puedo
decir que soy el tipo
más desdichado de este mundo.
Felipe Benítez Reyes
Eu disse-lhe que o nosso caso
envenenava os dois, o melhor
era esquecer tudo, cada um
tinha já a sua vida,
sua bagagem de sombras
em distintas plataformas.
Morre sempre o amor
de forma violenta.
Agora posso
dizer que sou o tipo
mais infeliz deste mundo.
(Trad. A.M.)
ESPONSALES DE VIDA
Hace falta atención,
mucho silencio,
para oír cómo el alma de la tierra
genera un nuevo anillo
en el centro del árbol.
Esponsales de vida:
eso es el tiempo.
Federico Gallego
Ripoll
É preciso atenção,
muito silêncio,
para ouvir como a alma da terra
gera um novo anel
no centro da árvore.
Esponsais de vida,
isso é o tempo.
(Trad. A.M.)Federico
CABEÇA VAZIA
Caminho lento pelo vazio
que preenche este recinto
onde não moram objetos
nem almas se vislumbram.
É de um cinzento cremado.
Nem sei se marcho a direito
ou se o percorro em círculos,
sem propósito e sem fervor.
A pouca luz envergonhada
que entra por vias travessas
não chega para ver o céu
nem dá saídas pró mundo.
Carrego alguns pensamentos
que se movem sem espessura;
no útero desta cabeça oca,
serão poemas para nascer?
Guilherme de Oliveira
[Triplov]
MANTRA
Junto as mãos como se fossem um búzio
e chego o ouvido.
Apesar do sinal fraco
por causa dos anos e do vento,
ainda consigo ouvir as minhas tias
a debicar os milhos na cozinha,
com a minha mãe.
Fabián Casas
(Trad. A.M.)
A cuántos que me fallaron
les retiré mi afecto,
creyendo que la vida es larga
y volvería a quererlos!
¡Creer que para todo hay tiempo
es mi mayor defecto!
Lo digo en verso (otro defecto mío)
para no decirlo de manera franca.
Pero los versos si son buenos
no dejan de escarbar
con rimas que remueven losas
que cubren unos traumas.
¡A cuántos que me fallaron
les clausuré mi ser,
sin darle tiempo al tiempo
de irse por las ramas!
Fabio Morábito
A todos que me falharam
retirei-lhes meu afecto,
crendo que é longa a vida
e voltaria a querer-lhes!
Pensar que há tempo para tudo
é o meu maior defeito!
Digo-o aqui em verso (mais um defeito meu)
para o não dizer direitamente.
Mas os versos quando são bons
não deixam de esgravatar
com rimas mexendo pedras
que cobrem uns quantos traumas.
A todos que me falharam
eu encerrei meu ser,
sem dar tempo ao tempo
de sequer fugir pelos ramos!
(Trad. A.M.)
14 DEZ 2021
Solteiro a vida inteira.
Sétimo dia. Em bom sítio
o andar vende-se sempre.
O pior são os livros científicos.
Quem é que quer aquilo?
FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)
CALLAR
Callar es más prudente,
más seguro, más cómodo, más práctico,
callar es más astuto,
más rentable,
más útil,
callar no da problemas,
callar evita líos,
callar trae más cuenta,
callar impide que se cuelen moscas
en la boca, callar propio es de sabios,
se está muy bien
callado.
Porque el que calla
otorga
licencia, impunidad,
perdón, facilidades
y patente de corso,
y por la boca muere el pez y siempre
se ha de sentir lo que se dice y nunca
decir lo que se siente
si se quiere triunfar
en sociedad
y recibir migajas
del gran pastel
del mundo.
Jesús Muñárriz
Calar é mais prudente,
mais seguro, mais cómodo,
calar é mais astuto,
mais rentável,
mais útil,
calar não dá problemas,
calar evita sarilhos,
calar faz mais conta,
calar impede que entrem moscas
para a boca, calar é próprio de sábios,
o melhor é o calado.
Porque quem cala
confere
licença, impunidade,
perdão, facilidades
e carta branca
e pela boca morre o peixe
e temos de sentir sempre o que dizemos,
nunca dizer o que sentimos,
se quisermos vencer
na sociedade
e receber umas migalhas
do grande pastel
do mundo.
(Trad. A.M.)
DEJO LA PUERTA ABIERTA
Para vosotros, que vendréis al mundo
cuando yo me haya ido,
escribo este poema.
No sé; tal vez un día,
gracias a los azares que entreteje
la vida a cada instante,
os traerán vuestros pasos hasta él.
Dejo su puerta abierta por si acaso
y empiezo a imaginar como certeza
lo que es tan sólo un sueño.
En mi poema puede verse el cuarto
en el que escribo hoy. Entrad, entrad
con toda confianza,
a pesar de mi ausencia.
Y aproximaos al balcón. Transcurre
una tarde hermosísima
de finales de agosto.
Después de tantos días implacables
de luz arrasadora,
el tiempo ha dado un giro inesperado.
Son una bendición para los ojos
estas horas distintas. Se diría
que anda de retirada ya el verano.
Da pena despedirlo
(todo lo que se va nos duele al irse),
pero el cambiar también es alegría.
Por momentos están amontonándose
nubes negras y grises en el cielo
y el viento las trajina y las sojuzga
sin miramiento alguno.
La tarde se oscurece más y más.
Y al fin rompe a llover. Qué maravilla.
Llueve con fuerza, a ráfagas violentas,
y las fulguraciones enlazadas
de incesantes relámpagos
abren paso a los truenos,
que tropiezan y ruedan allá arriba
con estruendo imponente.
Mirad y oled la lluvia,
disfrutad de esta tarde en la que no
podremos estar juntos.
Sabed que la escribí con regocijo.
Y que pensé en vosotros.
Eloy Sánchez Rosillo
É para vós, chegados a este mundo
quando eu já tiver partido,
que eu escrevo este poema.
Não sei, talvez um dia,
pelos acasos que a vida tece
a cada instante,
vossos passos vos trarão até aqui.
Deixo para tal caso a porta aberta
e ponho-me a imaginar como certeza
o que por ora é só um sonho.
Pode ver-se o quarto no meu poema,
este em que escrevo hoje. Entrai,
entrai à confiança,
apesar da minha ausência.
E chegai à varanda, está
uma tarde belíssima
de fins de Agosto.
Depois de tantos dias implacáveis
de luz arrasadora,
o tempo deu uma volta inesperada.
São uma bênção para a vista
estas horas diferentes, dir-se-ia
que o verão está já em retirada.
Dá pena impô-lo
(tudo o que se vai nos custa ao ir-se)
mas mudar também é alegria.
Por momentos amontoam-se
nuvens de negro e cinza no céu
e o vento arrasta-as e subjuga-as
sem a mínima consideração.
A tarde escurece mais e mais,
e por fim rompe a chover. Que maravilha,
chove com força, bátegas violentas,
e as fulgurações ligadas
com incessantes relâmpagos
abrem passo aos trovões,
que tropeçam e rodam lá em cima
com estrondo impoente.
Olhai para a chuva e cheirai,
desfrutai esta tarde em que não
poderemos estar juntos.
Sabei que a escrevi satisfeito
e que pensei em vós.
(Trad. A.M.)
CONTRABANDISTA
Nenhum poeta é obscuro.
Tudo o que ele diz é claro
como um palavrão num muro.
Mais claro que a luz acesa
é o poema mais hermético.
Pão matinal numa mesa.
Na noite misteriosa
nenhum mistério prospera:
apenas freme uma rosa.
Qualquer menino decifra
o soneto indecifrável
e o verso mais sibilino.
O poeta sempre diz tudo
quando se cala em seu nada.
É um contrabandista mudo
na alfândega da vida.
Lêdo Ivo
>> Revista (30p) / Escritas (9p) / Academia / Wikipedia
.
VIENE
LA LUZ
Viene la luz esta mañana
a contarme los colores
mira, me dice, este es el nuevo azul
del aire poblándose de pájaros,
ese de ahí el blanco de estreno
brazando al rosa casi muerto,
ocre viejo es aquel otro
de la tierra que pardea,
observa qué bellos los verdes
que se duermen en el estío
el amarillo redondo es el sol,
la sangre del día el rojo que estalla
y has de saber, me dice,
que ese gris que ignora dónde posarse
es la niebla insegura y dulce,
semejante en todo a tu mirada.
Elías Moro
Chega a luz esta manhã
a contar-me as cores
olha, diz-me ela, este é o novo azul
do ar a povoar-se de pássaros,
esse aí é o branco a estrear
abraçando o rosa quase morto,
ocre velho é aquele outro
da terra pardacenta,
olha que belos verdes
que adormecem no estio,
o amarelo redondo é o sol,
o sangue do dia o vermelho que explode
e hás-de saber, diz-me ainda,
que esse cinza que não sabe onde há-de pousar
é a névoa insegura e doce,
semelhante em tudo ao teu olhar.
(Trad. A.M.)
A poesia
é um incêndio
por isso não dá para viver
dá para arder,
não escrevas,
arde nela.
Antonio
Orihuela
(Trad. C.Abreu)
.
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
Fernando Pessoa
.
LOS HAIKÚS DEL CIEGO Y EL PERRO
El ciego mete
al lánguido mastín
bajo el asiento.
.
El perro quiere
salir, pero el ciego
es inflexible.
.
El ciego ve
otras oscuridades.
También el perro.
.
Se mueve el perro
y, minuciosamente,
se mueve el ciego.
.
¿Transcurre el tiempo
entre el paso del perro
y el del ciego?
(Y un corolario afín)
.
:El tuerto ¿ve
tan sólo la mitad
de lo que existe?
Eduardo Moga
O cego mete
o lânguido mastim
sob o assento.
.
O cão quer
sair, mas o cego
é inflexível.
.
O cego vê
outras escuridões.
O cão também.
.
O cão move-se
e. minuciosamente,
também o cego.
.
O tempo corre
entre o passo do cão
e o do cego?
(E um corolário afim)
.
O zarolho vê
apenas metade
do que existe?
(Trad. A.M.)
REFUGIO
Blanca y yo sentados en una terraza. Hemos visitado
la casa de Miguel Torga, un chalet sencillo en un
apartado barrio residencial, apenas libros y en el
jardín un melocotonero, el árbol del membrillo y
las aldefas que tengo en la memoria. Ella lee y yo me
pongo a escribir sin saber para qué. Ese es el único
sentido. Miro a los niños que juegan con el agua y
llevan coronas de alambre y papel. Vuela un mirlo
cerca del suelo con la fácil armonía de lo inmediato.
Creo que escribir esto es escribir la serenidad a la que
quiero volver cuando otro día también lo lea.
David Mayor
Blanca e eu sentados numa esplanada. Visitámos
a casa de Miguel Torga, moradia simples num
pacato bairro residencial, só livros
e no jardim um pessegueiro, o marmeleiro
e os loendros que me ficaram na lembrança.
Ela lê e eu ponho-me a escrever sem saber para quê.
Tal é o único sentido. Olho as crianças que brincam
com água, tendo na cabeça umas coroas de papel
e arame. Um melro voa rente ao solo,
com a fácil harmonia do imediato. Escrever isto,
creio, é escrever a serenidade a que quero voltar,
um dia também, quando o ler.
(Trad. A.M.)
À BEIRA DE ÁGUA
Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
Eugénio de Andrade
ESQUELAS
mi abuela
tiene la manía
de sentarse a leer
las esquelas del periódico
todos los días
después de fregar
los cacharros de la comida.
las repasa una y otra vez,
como si estuviera estudiando
para un examen,
y hay veces
que no puede evitar
que se le escape
un suspiro de alivio
al comprobar
que ni su nombre
ni sus apellidos
están escritos
en ninguna de ellas,
aunque luego
siempre te diga:
llegar a esta edad
no se lo deseo
ni a mi peor enemigo.
David González
minha avó
tem a mania
de sentar-se a ler
as sequelas do jornal
todos os dias
depois de esfregar
a louça da comida.
relê uma e outra vez,
como se estudasse
para um exame,
e há vezes
em que não pode evitar
que lhe escape
um suspiro de alívio
ao verificar
que nem seu nome
nem apelidos
constam do que lê,
embora depois
diga sempre:
chegar a esta idade
não é de desejar
nem ao pior inimigo.
(Trad. A.M.)
LADRONES
Para robar la paz
roban primero la palabra
y la proclaman en la guerra.
Para robar la libertad
roban primero sus tres sílabas
y las enristran como armas.
Para robar la democracia
roban primero sus diez letras
y las someten y amordazan.
Ladrones, ladrones, ladrones,
ni paz, ni libertad, ni democracia,
sólo palabras, palabras,
ladrones.
Jesús Muñárriz
Para roubarem a paz
roubam primeiro a palavra
e erguem-na ao alto na guerra.
Para roubar a liberdade
roubam primeiro as três sílabas
que enristam como armas.
Para roubar a democracia
roubam primeiro as dez letras
que amordaçam e submetem.
Ladrões, ladrões, ladrões,
nem paz, nem liberdade, nem democracia,
só palavras, palavras,
ladrões.
(Trad. A.M.)
>> Poesi.as (20 p) / A media voz (26 p) / Letralia (7 p) / Zenda (5p) /Zenda (6p)
.
O PÓ NOS PASSEIOS
O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz é mais nítida.
Os corpos se mostram. Em algumas
praias residem dialectos. Turismo
nos marca com ferro diferente
em costumes e fala. Nas ruas se vende
o jornal da estranja. O burro
ainda merca. Alfarroba em bolsa.
O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz ainda é nítida.
Só de certo modo. Só em certas terras.
Turismo na farda. No bolso o desdém.
Eduardo Guerra Carneiro
El amor existe
como un fuego
para abrasar en su belleza
toda la fealdad del mundo.
El amor existe
como un presente de las diosas
benignas
a quienes aman la belleza
y la multiplican,
como los panes y los peces.
El amor existe
como un don
sólo para quienes están dispuestas
a renunciar
a cualquier otro don.
El amor existe
para habitar el mundo
como si fuera
el paraíso
que un amante distraído perdió
por pereza
por falta de sabiduría.
El amor existe
para que estallen los relojes
lo largo se vuelva corto
lo breve infinito
y la belleza borre
la fealdad del mundo.
O amor existe
qual fogueira
para abrasar na sua beleza
a fealdade toda do mundo.
O amor existe
qual presente de deusas benignas
a quem ama a beleza
e a multiplica
como pães ou peixes.
O amor existe
como um dom
só para quem está disposto
a renunciar
a qualquer outro.
O amor existe
para habitar o mundo
como se fosse
o paraíso
que um amante distraído
perdeu por preguiça
por falta de sabedoria.
O amor existe
para explodirem os relógios
o longo se fazer curto
o breve infinito
e a beleza apagar
a fealdade do mundo.
(Trad. A.M.)
FESTIVAL
INTERNACIONAL DE JAZZ DE CONCEPCIÓN
Una vez
que viajábamos en el mismo bus
yo y el músico al que admiraba
compré unos chocolates para ofrecerle
y así poder entablar conversación
pero no me atreví
y pasé todo el trayecto
a punto de estirar la mano
y decirle ¿quieres uno?
así con naturalidad
como si recién lo hubiera pensado
y no hacía doscientos kilómetros
pero no lo hice
me transpiraban las manos
yo me comí unos pocos
y los demás se derritieron
embadurnándome los dedos.
Claudio Bertoni
Uma vez, viajando no mesmo autocarro,
eu e o músico que então admirava,
comprei uns chocolates para lhe oferecer
e assim meter conversa,
mas não me atrevi
e passei o trajecto todo
a estender quase a mão
e a dizer-lhe, queres um?
assim, com naturalidade,
como se o tivesse pensado na hora
e não há coisa de duzentos quilómetros,
mas não o fiz,
suavam-me as mãos,
comi uns quantos
e os outros derreteram,
enlambuzando-me os dedos.
(Trad. A.M.)
RUMOR
(a Eugênio de Andrade)
Servias o silêncio
decantado num
cálice de luz,
sílaba a sílaba:
rumor quase
nu, agasalhado
com duas, três
palavras em
surdina: breves
como as aves: livres,
roucas desceram por aí
a debicar: poisaram
nos meus olhos
e na boca:
mas prestes a subir
e a voar.
Domingos da Mota
[Acontecimentos]
COMPOSICIONES
Unas cosas se hacen de otras.
—El portafolio está hecho de cuero—
De sonido y sentido, el lenguaje.
Y de muchas sustancias
el mirar, el silencio.
Circe Maia
Umas coisas fazem-se de outras.
- O portefólio é feito de couro -
De som e sentido, a linguagem.
E de muitas substâncias
o olhar, o silêncio.
(Trad. A.M.)
Tengo miedo de hacer asunto público
de este amor que guardamos.
A nadie voy a hablar de tu sonrisa,
por si alguien te la roba,
ni de tu paso alegre, por si alguno
quisiera darte alcance.
Francisco García Marquina
Tenho medo de fazer assunto público
este amor que nós guardamos.
A ninguém vou falar do teu sorriso,
com receio de que to roubem,
nem do teu andar alegre, não vá
alguém querer apanhar-te.
(Trad. A.M.)
There is the sudden silence of the crowd
above a player not moving on the field,
and the silence of the orchid.
The silence of the falling vase
before it strikes the floor,
the silence of the belt when it is not striking the child.
The stillness of the cup and the water in it,
the silence of the moon
and the quiet of the day far from the roar of the sun.
The silence when I hold you to my chest,
the silence of the window above us,
and the silence when you rise and turn away.
And there is the silence of this morning
which I have broken with my pen,
a silence that had piled up all night
like snow falling in the darkness of the house
- the silence before I wrote a word
and the poorer silence now.
Billy Collins
Há o silêncio súbito da multidão
sobre um jogador parado no campo
e o silêncio da orquídea.
O silêncio do vaso a tombar
antes de cair no chão,
o silêncio do cinto quando
não está batendo na criança.
A calma da chávena e da água nela,
o silêncio da lua
e o sossego do dia longe do bramido do sol.
O silêncio quando eu te aperto contra o peito,
o silêncio da janela por cima de nós,
e o silêncio quando tu te levantas e vais embora.
E há o silêncio desta manhã
que eu interrompo com a caneta,
um silêncio a amontoar-se a noite toda
como neve a cair no escuro da casa
- o silêncio antes de eu escrever uma palavra
e o silêncio mais pobre de agora.
(Trad. A.M.)