10.2.26

Lêdo Ivo (Contrabandista)





CONTRABANDISTA

 

Nenhum poeta é obscuro.
Tudo o que ele diz é claro
como um palavrão num muro.

Mais claro que a luz acesa
é o poema mais hermético.
Pão matinal numa mesa.

Na noite misteriosa
nenhum mistério prospera:
apenas freme uma rosa.

Qualquer menino decifra
o soneto indecifrável
e o verso mais sibilino.

O poeta sempre diz tudo
quando se cala em seu nada.
É um contrabandista mudo

na alfândega da vida.

Lêdo Ivo

>> Revista (30p) / Escritas (9p) / Academia / Wikipedia

  

8.2.26

Elías Moro (Chega a luz)




VIENE LA LUZ       
     


Viene la luz esta mañana
a contarme los colores
mira, me dice, este es el nuevo azul
del aire poblándose de pájaros,
ese de ahí el blanco de estreno
brazando al rosa casi muerto,
ocre viejo es aquel otro
de la tierra que pardea,
observa qué bellos los verdes
que se duermen en el estío
el amarillo redondo es el sol,
la sangre del día el rojo que estalla
y has de saber, me dice,
que ese gris que ignora dónde posarse
es la niebla insegura y dulce,
semejante en todo a tu mirada.
 

Elías Moro 

 

Chega a luz esta manhã
a contar-me as cores
olha, diz-me ela, este é o novo azul
do ar a povoar-se de pássaros,
esse aí é o branco a estrear
abraçando o rosa quase morto,
ocre velho é aquele outro
da terra pardacenta,
olha que belos verdes
que adormecem no estio,
o amarelo redondo é o sol,
o sangue do dia o vermelho que explode
e hás-de saber, diz-me ainda,
que esse cinza que não sabe onde há-de pousar
é a névoa insegura e doce,
semelhante em tudo ao teu olhar.
 

(Trad. A.M.)


.

7.2.26

Antonio Orihuela (A poesia é um incêndio)





A poesia é um incêndio
por isso não dá para viver
dá para arder, 

não escrevas,
arde nela.

 

Antonio Orihuela
(Trad. C.Abreu)

.

5.2.26

Fernando Pessoa (Ela canta, pobre ceifeira)




 

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa

[Arquivo Pessoa]

.

3.2.26

Eduardo Moga (Os haykus do cego e do cão)




LOS HAIKÚS DEL CIEGO Y EL PERRO

 

El ciego mete
al lánguido mastín
bajo el asiento.
.

El perro quiere
salir, pero el ciego
es inflexible.
.

El ciego ve
otras oscuridades.
También el perro.
.

Se mueve el perro
y, minuciosamente,
se mueve el ciego.
.

¿Transcurre el tiempo
entre el paso del perro
y el del ciego?

(Y un corolario afín)
.

:El tuerto ¿ve
tan sólo la mitad
de lo que existe?


Eduardo Moga

 

O cego mete
o lânguido mastim
sob o assento.
.

O cão quer
sair, mas o cego
é inflexível.
.

O cego vê
outras escuridões.
O cão também.
.

O cão move-se
e. minuciosamente,
também o cego.
.

O tempo corre
entre o passo do cão
e o do cego?

(E um corolário afim)
.

O zarolho vê
apenas metade
do que existe?


(Trad. A.M.)

.

2.2.26

David Mayor (Refúgio)




REFUGIO

 

Blanca y yo sentados en una terraza. Hemos visitado
la casa de Miguel Torga, un chalet sencillo en un
apartado barrio residencial, apenas libros y en el
jardín un melocotonero, el árbol del membrillo y
las aldefas que tengo en la memoria. Ella lee y yo me
pongo a escribir sin saber para qué. Ese es el único
sentido. Miro a los niños que juegan con el agua y
llevan coronas de alambre y papel. Vuela un mirlo
cerca del suelo con la fácil armonía de lo inmediato.
Creo que escribir esto es escribir la serenidad a la que
quiero volver cuando otro día también lo lea.


David Mayor

 

 

Blanca e eu sentados numa esplanada. Visitámos
a casa de Miguel Torga, moradia simples num
pacato bairro residencial, só livros
e no jardim um pessegueiro, o marmeleiro
e os loendros que me ficaram na lembrança.
Ela lê e eu ponho-me a escrever sem saber para quê.
Tal é o único sentido. Olho as crianças que brincam
com água, tendo na cabeça umas coroas de papel
e arame. Um melro voa rente ao solo,
com a fácil harmonia do imediato. Escrever isto,
creio, é escrever a serenidade a que quero voltar,
um dia também, quando o ler.


(Trad. A.M.)

.

31.1.26

Eugénio de Andrade (À beira de água)




À BEIRA DE ÁGUA

 

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
 

Eugénio de Andrade

 .

29.1.26

David González (Sequelas)




ESQUELAS

 

mi abuela
tiene la manía
de sentarse a leer
las esquelas del periódico
todos los días
después de fregar
los cacharros de la comida.
las repasa una y otra vez,
como si estuviera estudiando
para un examen,
y hay veces
que no puede evitar
que se le escape
un suspiro de alivio
al comprobar
que ni su nombre
ni sus apellidos
están escritos
en ninguna de ellas,
aunque luego
siempre te diga:

llegar a esta edad
no se lo deseo
ni a mi peor enemigo.

David González

 

minha avó
tem a mania
de sentar-se a ler
as sequelas do jornal
todos os dias
depois de esfregar
a louça da comida.
relê uma e outra vez,
como se estudasse
para um exame,
e há vezes
em que não pode evitar
que lhe escape 
um suspiro de alívio 
ao verificar
que nem seu nome 
nem apelidos 
constam do que lê, 
embora depois
diga sempre:

chegar a esta idade
não é de desejar 
nem ao pior inimigo.

(Trad. A.M.)

 .

28.1.26

Jesús Muñárriz (Ladrões)




LADRONES

 

Para robar la paz
roban primero la palabra
y la proclaman en la guerra. 

Para robar la libertad
roban primero sus tres sílabas
y las enristran como armas. 

Para robar la democracia
roban primero sus diez letras
y las someten y amordazan. 

Ladrones, ladrones, ladrones,
ni paz, ni libertad, ni democracia,
sólo palabras, palabras, 
ladrones.
 

Jesús Muñárriz

 

Para roubarem a paz
roubam primeiro a palavra
e erguem-na ao alto na guerra. 

Para roubar a liberdade
roubam primeiro as três sílabas 
que enristam como armas. 

Para roubar a democracia 
roubam primeiro as dez letras
que amordaçam e submetem. 

Ladrões, ladrões, ladrões,
nem paz, nem liberdade, nem democracia,
só palavras, palavras,
ladrões. 

(Trad. A.M.)

 

>>  Poesi.as (20 p) / A media voz (26 p) / Letralia (7 p) / Zenda (5p) /Zenda (6p)

.


26.1.26

Eduardo Guerra Carneiro (O pó dos passeios)




O PÓ NOS PASSEIOS



O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz é mais nítida.
Os corpos se mostram. Em algumas
praias residem dialectos. Turismo
nos marca com ferro diferente
em costumes e fala. Nas ruas se vende
o jornal da estranja. O burro
ainda merca. Alfarroba em bolsa.
O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz ainda é nítida.
Só de certo modo. Só em certas terras.
Turismo na farda. No bolso o desdém.


Eduardo Guerra Carneiro

.

24.1.26

Cristina Peri Rossi (O amor existe)

 



El amor existe
como un fuego
para abrasar en su belleza
toda la fealdad del mundo.

El amor existe
como un presente de las diosas
benignas
a quienes aman la belleza
y la multiplican,
como los panes y los peces.

El amor existe
como un don
sólo para quienes están dispuestas
a renunciar
a cualquier otro don.

El amor existe
para habitar el mundo
como si fuera
el paraíso
que un amante distraído perdió
por pereza
por falta de sabiduría.

El amor existe
para que estallen los relojes
lo largo se vuelva corto

lo breve infinito

y la belleza borre
la fealdad del mundo.

 
Cristina Peri Rossi

[Life vest under your seat

 

O amor existe
qual fogueira
para abrasar na sua beleza
a fealdade toda do mundo.

O amor existe
qual presente de deusas benignas
a quem ama a beleza
e a multiplica
como pães ou peixes.

O amor existe
como um dom
só para quem está disposto
a renunciar
a qualquer outro.

O amor existe
para habitar o mundo
como se fosse
o paraíso
que um amante distraído
perdeu por preguiça
por falta de sabedoria.

O amor existe
para explodirem os relógios
o longo se fazer curto

o breve infinito

e a beleza apagar
a fealdade do mundo.


(Trad. A.M.)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


23.1.26

Claudio Bertoni (Festival de jazz)

 



FESTIVAL INTERNACIONAL DE JAZZ DE CONCEPCIÓN

 

Una vez que viajábamos en el mismo bus
yo y el músico al que admiraba
compré unos chocolates para ofrecerle
y así poder entablar conversación
pero no me atreví
y pasé todo el trayecto
a punto de estirar la mano
y decirle ¿quieres uno?
así con naturalidad
como si recién lo hubiera pensado
y no hacía doscientos kilómetros
pero no lo hice
me transpiraban las manos
yo me comí unos pocos
y los demás se derritieron
embadurnándome los dedos.


Claudio Bertoni

[Marcelo Leites

 

Uma vez, viajando no mesmo autocarro,
eu e o músico que então admirava,
comprei uns chocolates para lhe oferecer
e assim meter conversa,
mas não me atrevi
e passei o trajecto todo
a estender quase a mão
e a dizer-lhe, queres um?
assim, com naturalidade,
como se o tivesse pensado na hora
e não há coisa de duzentos quilómetros,
mas não o fiz,
suavam-me as mãos,
comi uns quantos
e os outros derreteram,
enlambuzando-me os dedos.


(Trad. A.M.)

.

21.1.26

Domingos da Mota (Rumo)




RUMOR                             

       (a Eugênio de Andrade)

Servias o silêncio
decantado num
cálice de luz,
sílaba a sílaba:

rumor quase
nu, agasalhado
com duas, três
palavras em

surdina: breves
como as aves: livres,
roucas desceram por aí
a debicar: poisaram

nos meus olhos
e na boca:
mas prestes a subir
e a voar.


Domingos da Mota

[Acontecimentos]

 .

19.1.26

Circe Maia (Composições)




COMPOSICIONES

 

Unas cosas se hacen de otras.
—El portafolio está hecho de cuero—
De sonido y sentido, el lenguaje.
Y de muchas sustancias
el mirar, el silencio.

Circe Maia

 

 

Umas coisas fazem-se de outras.
- O portefólio é feito de couro -
De som e sentido, a linguagem.
E de muitas substâncias
o olhar, o silêncio.


(Trad. A.M.)

.

18.1.26

Francisco García Marquina (Tenho medo)




Tengo miedo de hacer asunto público
de este amor que guardamos.
A nadie voy a hablar de tu sonrisa,
por si alguien te la roba,
ni de tu paso alegre, por si alguno
quisiera darte alcance.

Francisco García Marquina

 

 

Tenho medo de fazer assunto público
este amor que nós guardamos.
A ninguém vou falar do teu sorriso,
com receio de que to roubem,
nem do teu andar alegre, não vá
alguém querer apanhar-te.


(Trad. A.M.)

.

16.1.26

Billy Collins (Silêncio)




SILENCE


There is the sudden silence of the crowd
above a player not moving on the field,
and the silence of the orchid.

The silence of the falling vase
before it strikes the floor,
the silence of the belt when it is not striking the child.

The stillness of the cup and the water in it,
the silence of the moon
and the quiet of the day far from the roar of the sun.

The silence when I hold you to my chest,
the silence of the window above us,
and the silence when you rise and turn away.

And there is the silence of this morning
which I have broken with my pen,
a silence that had piled up all night

like snow falling in the darkness of the house
- the silence before I wrote a word
and the poorer silence now.

Billy Collins

[Poem hunter]

 

Há o silêncio súbito da multidão
sobre um jogador parado no campo
e o silêncio da orquídea.

O silêncio do vaso a tombar
antes de cair no chão,
o silêncio do cinto quando
não está batendo na criança.

A calma da chávena e da água nela,
o silêncio da lua
e o sossego do dia longe do bramido do sol.

O silêncio quando eu te aperto contra o peito,
o silêncio da janela por cima de nós,
e o silêncio quando tu te levantas e vais embora.

E há o silêncio desta manhã
que eu interrompo com a caneta,
um silêncio a amontoar-se a noite toda

como neve a cair no escuro da casa
- o silêncio antes de eu escrever uma palavra
e o silêncio mais pobre de agora.


(Trad. A.M.)

.

14.1.26

Chantal Maillard (O tempo não existe)




El tiempo no existe. Se repliega.

Y en cada uno de sus pliegues
nos invita
a ser
de nuevo
lo que fuimos.

Todo es simultáneo. Tan solo
en el discurso
hay un tiempo que fue
y otro por venir.

Despójate de ti.

Actúa

Sin temer la salida.

Chantal Maillard

 

 

O tempo não existe. Recolhe-se.

E em cada uma de suas dobras
incita-nos
a ser
de novo
aquilo que já fomos.

Tudo é simultâneo. Apenas
no discurso
há um tempo que foi
e outro por vir.

Despoja-te de ti.

Actua.

Sem temer a saída.


(Trad. A.M.)

.

13.1.26

César Cantoni (Aqui não há Deus)




AQUÍ NO HAY DIOS 

 

Aquí no hay dios, ni griego ni romano, 
que presida ninguna ceremonia.
No hay oro ni laurel para los vencedores. 

Aquí no hay más que un piquete de obreros, 
con martillos neumáticos, rompiendo la calzada, 
haciendo un pozo que no será nunca  

el ombligo del mundo, la fuente de las revelaciones. 
Un pozo más hondo que el sentimiento de los dioses, 
más negro que el propio corazón humano. 
 

César Cantoni  

[Otra iglesia] 

 

Aqui não há deus, grego ou romano,
que presida a qualquer cerimónia.
Não há ouro nem louro para os vencedores. 

Aqui não há mais que um piquete operário,
com martelos pneumáticos, rasgando a calçada,
abrindo um poço que não será nunca 

o umbigo do mundo, a fonte das revelações.
Um poço mais fundo que os sentimentos dos deuses,
mais negro que o próprio coração humano.
 

(Trad. A.M.)

 .

11.1.26

Armindo Rodrigues (Fosse o verme nuvem)




(XXXVII)

 

Fosse o verme nuvem,
por força teria
saudades do chão.

ARMINDO RODRIGUES
Quadrante Solar
IN/CM (1984)

 .

9.1.26

Ángeles Mora (Nuvens)




NUVENS

 

A alegria mais alta
esconde sempre um assombra
invisível,
agachada, de tristeza.
Tal como a melancolia
atravessa o riso
desta mulher que brinca
com o neto.


Ángeles Mora

(Trad. A.M.)

.

8.1.26

Alfonso Brezmes (O que brilha)



LO QUE BRILLA 

 

En este cuenco invisible
estoy bien siendo una lenteja
puesta a remojo junto a las demás.
Algunas tardan más
y flotan
pero yo soy de las primeras
en hundirse. No se está mal
mirando el universo
desde abajo. Lo que brilla
son lentejas caídas o a punto de caer.
Si las quieres las tomas, nos decía
mi madre, y si no las dejas.
La oscuridad son lentejas que esperan
la transición de la materia
en un plato de luz.
 

Alfonso Brezmes

 

Nesta taça invisível
estou bem sendo uma lentilha
a demolhar como as outras.
Algumas demoram mais
e bóiam
mas eu sou das primeiras
a afundar. Não se está mal
a olhar para o universo
lá de baixo. O que brilha
são lentilhas caídas ou quase a cair.
Se as quiseres pega, dizia-nos
minha mãe, senão deixa.
A escuridão são lentilhas que esperam
a transição da matéria
num prato de luz.
 

(Trad. A.M.)

 .

6.1.26

António Maria Lisboa (Projecto de sucessão)





PROJECTO DE SUCESSÃO

 

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar fumar um cigarro só até meio

Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.

 António Maria Lisboa

 .

4.1.26

Cecilia Casanova (Enquanto chove)





MIENTRAS LLUEVE DE ABAJO PARA ARRIBA


Sin padre
ni madre
ni perro que te ladre
arrancas las hojas del calendario
mientras llueve de abajo para arriba
y en tu cuarto se acentúa ese aire de estación
de paradero
con los muros tapados de postales
y de niños que crecen por fotografias.
Entristece pensar que así como se han ido estos años
puedan irse otros todavía
haciéndosenos tarde para todo
menos para comprobar
lo que tú y yo hemos sufrido.


Cecilia Casanova

 

 

Sem pai
nem mãe
nem cão que te ladre
arrancas as folhas do calendário
enquanto chove de baixo para cima
e em teu quarto se instala esse ar
de estação de comboio
com as paredes cobertas de cartazes
e de fotografias de crianças.
Entristece pensar que assim como passaram estes anos
possam passar outros ainda
fazendo-se-nos tarde para tudo
menos para ver
como ambos temos sofrido.


(Trad. A.M.)

.

3.1.26

Carmen Martín Gaite (Clarão)



DESTELLO                 

 

Hoy habláis otra lengua,
lirios que os despeináis bajo la lluvia.
Me apresáis con vosotros
igual que si me viera en un espejo.
Y tengo que dejaros.
Tiran de mí precisamente ahora
que acabo de encontrarme
-pequeña, pura-
entre vuestras corolas.
Voy a cerrar los ojos,
-no deshagan la imagen.
Y me iré sin miraros otra vez.
Ay! Cuando vuelva a veros
¿sabré ya comprender este lenguaje vuestro
que un minuto ha rasgado mi tiniebla
oh lirios despeinados por la lluvia?


Carmen Martín Gaite

 


Hoje falais outra língua,
ó lírios despenteados à chuva,
prendeis-me convosco,
como se eu me visse num espelho.
Mas tenho de vos deixar,
puxam-me logo agora
que eu acabo de me encontrar
- pequenina, pura -
no meio das vossas corolas.
Vou fechar os olhos
- não me apaguem a imagem -
e vou-me sem vos olhar outra vez.
Ai, quando vos voltar a ver
saberei eu perceber a vossa linguagem
que por um instante rasgou minha treva,
ó lírios despenteados pela chuva?


(Trad. A.M.)

 .

1.1.26

Alessandro Celani (Lembras os dias)




Ricordi i giorni spesi
a far niente senza colpa
i paradisi perduti
ancora prima d’esser presi?
Ed ora tocca a noi
col tempo che svanisce
e la voce fatta impura
togliere la mano e fare una figura
l’uno dell’altra
immobile silente
addormentata cura

Alessandro Celani

 

Lembras os dias passados
sem culpa a não fazer nada
os paraísos perdidos
antes mesmo de serem tomados?
E agora cabe-nos a nós
com o tempo que se esvai
e a voz tornada impura
tirar a mão e fazer uma figura
um do outro
imóvel silente
adormecido cuidado.


(Trad. A.M.)

.