31.3.08

António Botto (Se fosses luz)






Se fosses luz serias a mais bela
de quantas há no mundo: - a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
que desata a inspiração
da minha fantasia!


Se fosses flor serias o perfume
concentrado e divino que perturba
o sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo
é porque tenho dentro de mim
a sede e a vibração de te beijar!


Se fosses água - música da terra,
serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
só quero, meu amor, que sejas alma!



António Botto




Antes, aqui: Anda, vem / Nunca te foram (+sinopse)

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Mario Benedetti (Táctica e estratégia)





TÁCTICA E ESTRATEGIA
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Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos
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mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible
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mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos
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mi táctica es ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos
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mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple
mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.



Mario Benedetti
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Fonte: EPDLP
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28.3.08

Miguel Torga (Depois de ceia)


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(Depois da ceia...)
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Depois da ceia, o pessoal, extenuado, esfarrapado e imundo, cabeceava pelos cantos, ainda à espera de mais trabalho.
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Ganho o dia aos cestos, era preciso ganhar a noite no lagar, num chouto que a princípio dava gosto e alegria, e se prolongava numa tortura desesperante.
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O sono parava os nervos e os músculos, e a vontade tinha de protestar, de combater, de movimentar à sobreposse as articulações, mais perras que dobradiças enferrujadas.
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Ás tantas, erguer uma perna tornava-se um sacrifício.
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O resto do corpo quase que desanimava perante a obstinada renúncia daquela parcela amortecida, inerte e pesada na espessura do mosto.
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Mas tudo na vida acaba, e a penitência não fugia à regra.
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Medida no relógio do Jacinto, com rigor de quem pesa oiro, a hora almejada de despegar chegava finalmente.
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E, num automatismo resignado, lá iam procurar na palha forças para o dia seguinte.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XXXIV, princípio.
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Jorge de Sena (Morra o bispo)






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MORRA O BISPO E MORRA O PAPA





Morra o bispo e morra o papa
maila sua clerezia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram frades, morram freiras.
maila sua virgaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra o rei e morra o conde.
maila toda fidalguia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram meirinho e carrasco.
maila má judicaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra quem compra e quem vende,
maila toda a usuraria.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram pais e morram filhos.
maila toda filharia.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morram marido e mulher.
maila casamentaria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morra amigo, morra amante.
mailo amor que se perdia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra tudo, minha gente.
vivam povo e rebeldia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!




JORGE DE SENA
Visão perpétua (1964)
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25.3.08

Jaime Sabines (Dona Luz-1)


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DOÑA LUZ



I

Acabo de desenterrar a mi madre, muerta hace tiempo.
Y lo que desenterré fue una caja de rosas:
frescas, fragantes, como si hubiesen estado en un invernadero.
Qué raro es todo esto!



JAIME SABINES
Maltiempo (1972)
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23.3.08

Olhar (19)









"Sol na portela é noite"...

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Felgueiras (aliás, Beirós)

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Eduardo Pitta (Gosto da claridade)





Gosto da claridade penumbrosa
de adolescentes indecisos.


Gosto deles assim lentos
inaptos, vorazes, sedentos
do labor meticuloso e da
antiquíssima sabedoria de outras mãos.


Anjos devastados, senhores do caos,
é para longe que partem.


O primeiro dos vinhos, bebido
da ânfora para a boca, alerta-os —

regressam agora às palavras e
aos gestos de antigamente.


Cumprem-se no jogo.
E ninguém suspeita de nada.



Eduardo Pitta



Fonte: Eduardo-Pitta

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21.3.08

Raul Brandão (Não me arrependo)







Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões.

Não me arrependo, nunca me arrependi.

Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído.

Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida.

Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra.

Não sei - nem me importo - se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da vida.

Isso me basta.

Isso me enche: levo-o para a cova, para remoer durante séculos e séculos até ao juízo final.



- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.



Consultar: Vidas-lusófonas (perfil) / DGLB (bio+biblio+linques)

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Albano Martins (Entras)






Entras
em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio.



Albano Martins


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18.3.08

Claribel Alegria (Pequena morte)






PEQUEÑA MUERTE


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Fue una pequeña muerte
tu partida.
Una muerte pequeña que me crece
cuando imagino
a veces que estás cerca
y me obstino en dar vueltas
por las calles
y regreso a mi casa
con la lluvia
cayendo y me asalta tu voz
en la noche
sin horas.


Claribel Alegria







Foi uma pequena morte
a tua partida.
Uma morte pequena que me cresce
quando imagino
por vezes que estás perto
e me obstino em dar voltas
pelas ruas
e regresso a casa
com a chuva
caindo e me assalta a tua voz
na noite
sem horas.



(Trad. A.M.)
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Miguel Torga (Dezoito asas rumorosas)






(Dezoito asas rumorosas...)
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O primeiro bando de perdizes roncou, e tirou-lhe duas.

No meio do silêncio contido, que a cada momento ameaçava romper-se, o cão parado, a espingarda em meia pontaria, os pés fincados no chão mas tensos como molas, uma gota misteriosa caiu no copo e fê-lo transbordar.

Dezoito asas rumorosas ergueram-se do carqueijal, o Nilo saltou, os tiros partiram, e resultou daquela explosão de força o aniquilamento inevitável de dois seres.

Tudo certo e perfeito.

O catastrófico, o absurdo, fora a continuação da inércia.

A verdadeira morte seria a vida parada, cada respiração a encolher-se, cautelosa.

Assim é que o caçador se sentiria criminoso, o perdigueiro fera, as perdizes vítimas.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XIV, princípio.
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13.3.08

Um verso (42)
















Um verso de Casimiro B.
(mas tem mais…):






O amor é antes de mais um desejo,que nunca se esgota.







Fonte: Sítio-of.
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Pedro Mexia (Aprendizagem)






APRENDIZAGEM
(decalque de e. e. cummings)





o eclesiastes disse-

-lhe:ele não podia
acreditar (nietzche

disse-lhe;ele
não queria acreditar
nisso)cesare

pavese
certamente disse-
-lhe,e jacques
(sim

senhora)
brel
e até
(acredite
ou
não)você
lhe disse: eu disse-
-lhe;nós dissemos-lhe
(ele não acreditou, não
senhor)foi preciso
que o céu lhe caísse
muito justa-

mente
em cima da cabeça:para dizer-

-lhe

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[n. do a.: “a partir da versão portuguesa do poema ‘plato told’ por Jorge Fazenda Lourenço”]




PEDRO MEXIA
Avalanche, edições Quasi (2001)
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10.3.08

León Felipe (Sé todos los cuentos)








SÉ TODOS LOS CUENTOS





Yo no sé muchas cosas, es verdad.
Digo tan sólo lo que he visto.
Y he visto:
Que la cuna del hombre la mecen con cuentos,
que los gritos de angustia del hombre los ahogan
con cuentos,
que el llanto del hombre lo taponan con cuentos,
que los huesos del hombre los entierran con cuentos,
y que el miedo del hombre...
ha inventado todos los cuentos.
Yo no sé muchas cosas, es verdad,
pero me han dormido con todos los cuentos...
y sé todos los cuentos.





León Felipe





Eu não sei muitas coisas, é verdade.
Falo apenas daquilo que vi.
E eis o que vi:
que o berço do homem embalam-no com cantigas,
que os gritos de angústia do homem afogam-nos
com cantigas,
que o pranto do homem tampam-no com cantigas,
que os ossos do homem enterrram-nos com cantigas,
e que o medo do homem…
inventou as cantigas todas.
Eu cá não sei muitas coisas, é verdade,
mas adormeceram-me com todas as cantigas…
e conheço as cantigas todas.


(Trad. A.M.)
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Fontes: Wikipedia / Cervantes (Español del êxodo e del llanto - 1939) /Tinet (19p) / EPDLP (bio+2p+audio) / A-media-voz (27p) / Poesi.as (18p) / Portal-de-poesia (linques)

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3.3.08

Rabindranath Tagore (Se não falas)






Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.




A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.




Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.



Rabindranath Tagore




Fontes: Starnews (bio+10p) / Cuidar-do-ser (6p) / Nobel (bio) / Toshiko (10p) / Wikipedia / Indolink (20p)


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1.3.08

Adélia Prado (Corridinho)






CORRIDINHO





O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.





Adélia Prado


Fonte: Releituras
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Miguel Torga (Um trilo de flauta)






(Um trilo de flauta...)




Um trilo de flauta, débil e puro, chegou-lhe então do alto, num prelúdio. Impreciso e tímido, hesitava como se receasse saltar os valeiros.

Que gelo vinha do passado, e que doce calor havia naquela hora! A mãe, seca e convencional; o pai, irrascível e grosseiro; o irmão, desconsolado e bisonho. Neste areal, ela, a crescer desiludida. E de repente o deserto transfigurava-se, e os sentidos descobriam nele, repassada de frescura, uma planície de promissão!

Sem pensar que ia colhê-lo, caminhou hipnotizada ao encontro do som.

Vazio de ternura e amor, o corpo pedia-lhe a sua parte no banquete do mundo; a intimidade duma presença querida, o aconchego dum lar feliz…

Alta e acariciadora, a voz da flauta chamava.


- MIGUEL TORGA, Vindima, XIII, in medio.