18.9.09

Manuel Moya / Violeta (Podia ser ontem)







Pudo ser ayer o hace un verano,
en una tarde de esas tontas
cuando andaba a salto de los trenes
o bebía ron con esos guiris.


Pero no, te empeñas en venir
justo a esta hora,
cuando no llueve ni hace frío,
y estoy triste, y ya ni tengo
ganas de abrir mi sangre a nadie.


En fin, es justo ahora,
con la olla por los suelos,
y unas ganas de morirme
a cualquier precio, cuando escucho
tus pasos en la hierba,


y llamas, llamas... ¡dios!,


y corro a abrirte.



Violeta C. Rangel







Podia ser ontem ou no verão passado,
numa dessas tardes tontas
quando eu andava a saltar dos comboios
ou a beber rum atrás desses cromos.


Mas não, deste em voltar
logo a esta hora,
quando não chove nem faz frio
e eu estou triste, já sem vontade sequer
de abrir meu sangue a ninguém.


Enfim, logo agora,
em que a onda está por terra,
eu com vontade de morrer
a qualquer preço, é quando escuto
os teus passos na erva,


e chamas, chamas... ó deus!


e eu corro a abrir-te.


(Trad. A.M.)

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16.9.09

António Ramos Rosa (A casa)









A CASA





A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui.




ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim (1990)


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Roberto Bolaño (Antigamente)






(Empresários, ou gangsters...)



Antigamente, os escritores de Espanha (e da América Latina) entravam no redondel público para o transgredir, para o reformar, para o queimar, para o revolucionar.

Os escritores de Espanha (e da América Latina) procediam geralmente de famílias acomodadas, famílias estáveis ou de uma certa posição, e ao tomarem a pena voltavam-se, ou revoltavam-se, contra essa posição: escrever era renunciar, era renegar, às vezes era suicidar-se.

Era ir contra a família.

Hoje, os escritores de Espanha (e da América Latina) procedem em número cada vez mais alarmante de famílias de classe baixa, do proletariado e do lumpen-proletariado, e o seu exercício mais usual da escrita é uma forma de escalar posições na pirâmide social, uma forma de se acomodarem tentando o mais possível não transgredir em nada.

Não digo que não sejam cultos.
São tão cultos como os de antes.
Ou quase.
Não digo que não sejam trabalhadores.
São muito mais trabalhadores do que os de antes!
Mas são também muito mais vulgares.

E comportam-se como empresários, ou como gangsters.



- ROBERTO BOLAÑO, Os detectives selvagens, II. Pere Ordoñes, Jul. 1994.


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15.9.09

Ver (28)







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Astúrias / Lago Ercina
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Jan Heller Levi (Nada mau, papá)









NADA MAU, PAPÁ, NADA MAU





Penso que és mais tu próprio quando nadas;
cortas a água a cada braçada,
a maneira curiosa como respiras, a tua boca aberta
como se estivesses a bocejar.


Não és nem fantástico nem um desastre
no percurso daqui para ali.
Não ganharás medalhas, papá,
mas também não irás ao fundo.
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Penso em como tudo poderia ter sido diferente
caso tivesse avaliado o teu amor
como avalio o teu estilo livre, a tua mariposa,o teu estilo de bruços.


Mas eu sempre pensei que me estava a afundar
naquele oceano gelado entre nós,
sempre pensei que te movias demasiado devagar para me salvares
quando afinal o fazias o mais depressa que podias.


Jan Heller Levi


(Trad. L.P.)







Fontes: Poets (nota) / Cortland Review (poema) / Cortland Review (outro) / Wikipedia


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14.9.09

Néstor Barron (A tua canção)








TU CANCIÓN





No hay canciones a medida, guerrillera.
Si esta no te gusta,
no hay problema: quedará
para alguna otra
que sí dirá que esta es su canción.
Y eso, guerrillera, no tiene por qué
molestarte. Me gustaría decirte que
se debe a que soy
un poeta universal, pero
ni un idiota se lo creería.


Se trata simplemente
de que todas encajan
en cualquier canción.



Néstor Barron





Não há canções à medida, guerrilheira.
Se esta não te agrada,
não há problema: ficará
para uma outra
que dirá que esta é a sua canção.
E isso, guerrilheira, não tem por que
te incomodar. Eu podia dizer-te que
é por eu ser
um poeta universal, mas
nem um idiota o engolia.


O caso simplesmente
é que todas encaixam
em qualquer canção.


(Trad. A.M.)






13.9.09

Cecília Meireles (Ou isto ou aquilo)









OU ISTO OU AQUILO





Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!


Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!


Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.


É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!


Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.


Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!


Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.


Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.



Cecília Meireles


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Um verso (60)









Um verso de Borges
(lá do Paraíso):





Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos.


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12.9.09

Fernando Pessoa / R. Reis (Tão cedo passa)



[A lua flutua]





Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.



Ricardo Reis


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11.9.09

Ana Pérez Cañamares (Gerações)









GENERACIONES






Antes de morir, mi madre me dijo mamá, ven
mientras me miraba sin verme;
yo dije mamá, quédate
abrazando su cuerpo diminuto
envuelto en pañales y olor a talco;
mi hija dijo mamá, no llores
y me acarició la cabeza consolándome.


Cuando mamá murió, durante unos segundos
no tuvimos muy claros los lazos que nos unían
no supimos quién se había ido
y quién se había quedado
ni en qué momento de nuestras vidas
estábamos viviendo
o muriendo.



Ana Pérez Cañamares


[Neorrabioso]








Antes de morrer, minha mãe disse-me mamã, vem
enquanto me olhava sem ver-me;
eu disse mamã, fica
abraçando o seu corpo diminuto
envolto em panais e cheiro a talco;
minha filha disse mamã, não chores
e acariciou-me a cabeça a consolar-me.


Quando mamã morreu, por momentos
não eram claros os laços que nos uniam
não sabíamos quem tinha partido
e quem tinha ficado
nem em que momento das nossas vidas
estávamos vivendo
ou morrendo.


(Trad. A.M.)


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10.9.09

Rui Knopfli (Sem nada de meu)









SEM NADA DE MEU





Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.



Rui Knopfli




Fontes: Um buraco na sombra (16p) / Antonio Miranda (6p) / DGLB (bio+biblio) / Wikipedia


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8.9.09

Roberto Bolaño (Fazer contas)









(Fazer contas...)






Porém, a quem amo eu?

Ontem choveu a noite inteira.

Os passadiços do prédio pareciam as cataratas do Niagara.

Fiz amor a fazer contas.

Rosário esteve fantástica, mas por causa do êxito da experiência preferi não a informar.
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Veio-se quinze vezes.

Nas primeiras tinha que lhe tapar a boca para que não acordasse os vizinhos.

Nas últimas, temi que lhe fosse dar um ataque do coração.
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Às vezes, parecia desmaiar nos meus braços, outras vezes arqueava-se como se um fantasma lhe estivesse a brincar com a coluna vertebral.
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Eu vim-me três vezes.




- ROBERTO BOLAÑO, Os detectives selvagens, I. 4-Dezembro.


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6.9.09

Antonio Machado (Para dialogar)









Para dialogar,
perguntai primeiro;
depois… escutai.




Antonio Machado


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Sophia de Mello Breyner Andresen (Camões e a tença)









CAMÕES E A TENÇA




Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.


Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.


E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.


Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.


Este país te mata lentamente.



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Grades (1970)


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Vinicius de Moraes (Soneto do amor total)









SONETO DO AMOR TOTAL





Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade



Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.



Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.



E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.



Vinicius de Moraes


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4.9.09

Vicente Gallego (Espécies de solidão)









TIPOS DE SOLEDAD






La soledad de los mendigos
que no tienen nada y son felices
- porque reconocen que tampoco tienen soledad.
La soledad de los dioses
que tienen todo y no son felices
- porque reconocen que tampoco tienen todo.
La soledad de los artistas famosos,
que nacieron alérgicos a los aplausos
y sufren grandes trastornos físicos en cada éxito.
La soledad de los solitarios sin vocación
condenados a cuatro paredes hogareñas
drogándose con refranes venenosos
tales como:
“Más vale estar solo que mal acompañado.”
“Si no me quiere no me merece”, etcétera.
La soledad del niño en la cocina
y su madre con “otro” en el salón,
la soledad del viejo recordando
la vieja en el balcón.
La soledad de dos en una mesa.
La soledad de dos en una cama.
La soledad de dos, cuando uno sólo ama.




Vicente Gallego











A solidão dos mendigos
que não têm nada e são felizes
- pois reconhecem que tão pouco têm solidão.
A solidão dos deuses
que têm tudo e não são felizes
- pois reconhecem que tão pouco têm tudo.
A solidão dos artistas famosos,
que nasceram com alergia aos aplausos
e sofrem grandes transtornos físicos em cada êxito.
A solidão dos solitários sem vocação
condenados a quatro paredes domésticas
drogando-se com refrãos venenosos
tais como:
“Mais vale só que mal acompanhado”
“Se me não ama não me merece”, etc.
A solidão da criança na cozinha
e sua mãe com “outro” na sala,
a solidão do velho recordando
a velha na janela.
A solidão de dois numa mesa.
A solidão de dois numa cama.
A solidão de dois, quando um só deles ama.


(Trad. A.M.)


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2.9.09

Carlos Nejar (Lisura)









LISURA





Entras na morte,
como se entra em casa,
desvestindo a carne,
pondo teus chinelos
e pijama velho.


Entras na morte,
como alguém que parte
para uma viagem:
não se sabe o norte
mas começa agora.


Entras na morte,
sem escuros,
sem punhais ocultos
sob o teu orgulho.


Entras na morte,
limpo
de cuidados breves;
como alguém que dorme
na varanda enorme,
entras na morte.



Carlos Nejar









Fontes: Nejar (sítio pess. / 51p+diversos) / Revista Agulha (10p+linques) / Releituras (biblio) / Antonio Miranda (7p)


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Julio Cortázar (Atenção, cão)









(Atenção, cão...)





Um cronópio fez uma casa e, segundo o costume, pôs na entrada vários azulejos que comprou e mandou fazer.

Os mesmos estavam colocados de modo que se pudessem ler por ordem.

O primeiro dizia: Bem-vindos a este lar.

O segundo dizia: A casa é pequena, mas é grande o coração.

O terceiro dizia: A presença do visitante é suave como erva.

O quarto dizia: Somos pobres de verdade, mas não de vontade.

O quinto dizia: Este cartaz anula os anteriores. Atenção, cão.



- JULIO CORTÁZAR, Historias de cronopios y de famas (1962).


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