21.10.26

Montserrat Villar González (Porque tu)




PORQUE TÚ

 

Porque Tú eres tú
y yo soy el eterno pensamento
que te nombra
a pesar de no existirnos.

Tú eres sueño
y simiente de invierno
que bajo el sol se crece.

Eres escarcha
que baña la noche
soñando mañanas.

Yo soy hambre
de cielo y distancia
ignorando presentes,
asumiendo nadas.

Soy límite y muerte,
ausencia y palabra
diluida en agua.

Porque tú eras Tú
y yo habré sido la eterna voz
que en silencio te nombraba.


Montserrat Villar González

 

Porque Tu és tu
e eu sou o eterno pensamento
que te nomeia
apesar de não existirmos.

Tu és sonho
e semente de inverno
a crescer sob o sol.

És orvalho
que a noite banha
sonhando amanhãs.

Eu sou fome
de céu e distância
ignorando presentes,
assumindo nadas.

Sou morte e limite,
ausência e palavra
em água diluída.

Porque tu eras Tu
e eu terei sido a eterna voz
que em silêncio te nomeava.


(Trad. A.M.)


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19.10.26

Francisco Duarte Mangas (Que procuro)




que procuro no maio reescrito
cerejas, manhã de ervas
húmidas pelos rios de basto
rio paizela, lírios no fim do açude
aí entre os lírios o pai
longe da servidão da velhice iludia
as trutas: o silvo do fio retesado, a frágil
cana-da-índia vergada e trémula
como vara de vedor.
eu atapetava de hortelã o cesto de vime
morte de peixes do rio cheira bem.
 

Francisco Duarte Mangas


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17.10.26

Miguel Veyrat (Despertar)




DESPERTAR 

 

Olvidaré mi cuerpo
 - y mi sombra -
para arder sobre ti
para buscarte el centro
Para existir por fin
arriesgaré la vida
sediento de la luz que nace
donde ardes tú donde 
respiras tú los ritmos 
del puro y alto cielo
Única morada 
de los hombres libres
 

Miguel Veyrat

  

Olvidarei meu corpo
 - e minha sombra -
para arder sobre ti
para te achar o centro
Para existir por fim
arriscarei a vida
sedento da luz que nasce
lá onde tu ardes onde 
respiras os ritmos
do puro altíssimo céu
Única morada 
dos homens livres
 

(Trad. A.M.)

 .

15.10.26

Francisco J. Craveiro Carvalho (Jacarandá-1)

 




JACARANDÁ-1

 

Se me lembro 
da casa onde morei
é só porque nesta altura
terá no jardim 
um jacarandá florido.
 

FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)


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13.10.26

Abelardo Rodríguez (Empurrada)

 




Empurrada por microscópicas asas,
rompe insegura a alba,
e eu penso longinquamente
               no canto dos grilos.

 

ABELARDO RODRÍGUEZ
Maradentro
(Poesía 1970-1999)
Fundación JRJ (1999)

(Trad. A.M.)

 .

11.10.26

Fernando Pessoa (D. Sebastião)

 



(D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL)

 

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
por isso onde o areal está
ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem
mais que a besta sadia,
cadáver adiado que procria?

 

Fernando Pessoa

 .

9.10.26

José Manuel Benítez Ariza (Abecedário)



ABECEDARIO(S)

 

Azucena, de frío.

Bernardo, por la química insurgente
de sus enloquecidas células.

Carmen, por los efectos a largo plazo de una
infección contraída en Centroamérica.

Delia, de inapetencia.

Ernesto, por la mala combustión de una estufa.

Felipe, por fumarse tres cajetillas diarias.

Gracia, de «muerte natural» – y nadie
quedó muy convencido de que su muerte fuera
precisamente «natural».

Hernán, «tras una larga enfermedad», según se dijo.

Ignacio, de un ataque al corazón,
que quizá fuera de ira o de impotencia.

Javier, en la impostada serenidad de quien ya había
ensayado su muerte muchas veces
(esta vez salió bien).

Kepa, de indiferencia.

Luisa, como Azucena, junto a ella.

Miguel, de neumonía, en cierto modo confortado
por lo preciso del diagnóstico: siempre confió en la medicina.

Néstor, arrebatado por la corriente, mientras se bañaba.

Óscar, de rabia – lo mordió un murciélago.

Patricio, apaleado por los guardias.

Quiteria, apuñalada por su novio,
que luego se entregó en comisaría.

Ramón, manipulando gelignita.

Santiago, diluyéndose en el agua roja de su bañera.

Tomás, como Azucena y Luisa, en ese coche que se quedó atascado
en una carretera de montaña durante un temporal de nieve.

Ubaldo, como consecuencia de las melancolías
en las que se sumió tras la muerte de Carmen.

Vanesa, de una «larga enfermedad» también.

Xan, de aprensión, al enterarse de lo de Hernán, Vanesa, Carmen.

Yeray, de sida – fue de los primeros.

Zacarías, de risa – dicen que fue la risa lo que le provocó el ataque.

Alberto –aquí empezamos otra vez– por intentar salvar a Néstor.

Bernabé, Celia, Dorotea, Enrique…

José Manuel Benítez Ariza

 

Azucena, de frio.

Bernardo, pela química rebelde
de suas células malucas.

Carmen, dos efeitos a longo prazo
de uma infecção que apanhou
na América Central.

Delia, de falta de apetite.

Ernesto, por má combustão de uma braseira.

Felipe, por fumar três maços por dia.

Gracia, de ‘morte natural’ – e ninguém
ficou lá muito convencido de que a morte fosse
precisamente ‘natural’.

Hernán, ‘depois de uma doença prolongada’,
segundo se disse.

Ignacio, de um ataque cardíaco,
que talvez fosse de raiva ou de impotência.

Javier, na serenidade fingida de quem tinha já
ensaiado a morte muitas vezes
(desta vez calhou bem).

Kepa, de indiferença.

Luisa, como Azucena, junto dela.

Miguel, de pneumonia, de certo modo confortado
pelo diagnóstico preciso;
sempre confiou na medicina.

Néstor, arrastado pela corrente, a tomar banho.

Óscar, de raiva – mordeu-lhe um morcego.

Patricio, espancado pelos guardas.

Quiteria, apunhalada pelo noivo,
que depois se entregou na polícia.

Ramón, a manipular gelignita.

Santiago, a dissolver-se na água vermelha da banheira.

Tomás, como Azucena e Luisa, naquele carro
atascado na neve numa estrada serrana.

Ubaldo, em consequência da tristeza
em que caiu com a morte de Carmen.

Vanesa, de ‘doença prolongada’ também.

Xan, de apreensão, ao saber de Hernán, Vanesa, Carmen.

Yeray, de sida – foi dos primeiros.

Zacarias, de riso – dizem que foi o riso o que lhe provocou o ataque.

Alberto – aqui começamos outra vez – por tentar salvar Néstor.

Bernabé, Celia, Dorotea, Enrique…


(Trad. A.M.)

 


>>  Palimpsesto (5p) / Benítez Ariza (blogue/ reservado) / Wikipedia

.

7.10.26

Eugénio de Andrade (Da ignorância)




DA IGNORÂNCIA 

 

A mão
que entregava à tua
os primeiros sinais do verão
já não sabe o caminho ─ é como se
em vez de aprender fosse cada vez mais
e mais ignorante. Ou ignorar
fosse todo o saber.
 

Eugénio de Andrade

[Canal de poesia]

 .

5.10.26

Vicente García (A partida)

 




LA PARTIDA

 

Como los años pasan y el recuerdo
a veces no perdona, te preguntas
si el viaje que emprendiste
merecerá la pena, si al final del camino
habrás de arrepentirte al mirar hacia atrás.

Para entonces, acuérdate,
más que del resultado,
de ese entusiasmo tuyo que le daba
mayor fuerza a la vida
cuando ibas descubriendo los trucos del oficio,
los caprichos del arte y sus fantasmas.

Vicente García



Como os anos passam e a lembrança
às vezes não perdoa, tu perguntas-te
se a viagem que empreendeste
valerá a pena, se no fim do caminho
não vais arrepender-te ao olhar para trás.

Para então, lembra-te,
mais que do resultado,
daquele entusiasmo que te dava
mais força à vida,
quando ias descobrindo os truques do ofício,
os caprichos da arte e os seus fantasmas.


(Trad. A.M.)


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3.10.26

Domingos da Mota (Soneto da pouquidão)




SONETO DA POUQUIDÃO

 

São poucos os que lutam contra o medo
sem medo de perder seja o que for,
que ousam libertar-se do enredo
desse modo maligno de temor
que sofreia a coragem ante o susto
e que a tantos concita mais pavor
e os deixa tolhidos, dado o custo
da luta contra o medo sem temor.
São poucos os que lutam e a escassez
aumenta com tamanha pouquidão
que faz acumular, por sua vez
o medo, com razão ou sem razão
naqueles que se escondem dia a dia
por detrás do receio ou da apatia.


Domingos da Mota

[Canal de poesia]

 .

1.10.26

Antonio Hernández (Espiritual negro)




NEGRO ESPIRITUAL

 

Nunca fabricaron nada.
No inventaron nunca nada.
Nunca descubrieron nada
salvo el ala de la nada.
Y dio un paso atrás la muerte.

Antonio Hernández

  

Nunca fabricaram nada.
Não inventaram nunca nada.
Nunca descobriram nada,
salvo a asa do nada.
E a morte deu um passo atrás.


(Trad. A.M.)

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29.9.26

Billy Collins (Surpresa)

 



SURPRESA 

 

É 
- de acordo com a voz na rádio,
o apresentador de um programa de música clássica, nada menos -
é o aniversário de Vivaldi. 

Faria hoje 325 anos, bastante curvado, imagino,
e incapaz de ver bem com os seus olhos lacrimejantes. 

Seguramente já surdo, 
a roupa a desfazer-se, 
o cabelo lamentavelmente ralo. 

Mas, em todo o caso, daríamos uma festa em sua honra,
uma festa surpresa onde todos
nos escondêssemos atrás dos móveis para ouvir 

os toques da sua bengala no pavimento
e a sua tosse seca e persistente.
 

Billy Collins 
 

(Trad. fjcc)

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27.9.26

Abelardo Rodríguez (Caminho do homem)

 



Caminho do homem
                              é a esperança,
e a esperança
é mentira que criamos para ir,
para fazer mais doce a Tragédia.
Nada
e Nada
são os extremos,
e Morte
a única
palavra.

 

ABELARDO RODRÍGUEZ
Maradentro
(Poesía 1970-1999)
Fundación JRJ (1999)

(Trad. A.M)


>>  Autores onubenses (ficha)

.

25.9.26

Armindo Rodrigues (Liberdade)




LIBERDADE

 

Liberdade sem pão não é liberdade.
Sem liberdade, o pão é escuro e amargo.
Enquanto a alvorada é uma rosa branca,
o pino da tarde é um toiro bravo.
Entre o destino aceite e o escolhido,
é o mais custoso o que mais me quadra.
Pode-se viver preso e ser-se livre.
Pode viver-se livre e ser-se escravo.


Armindo Rodrigues

.

23.9.26

Juan Bello Sánchez (A lavadeira)




LA LAVANDERA

 

Volvía por el camino más largo de la tarde,
una mujer lavaba a mano un montón de ropa
sobre la piedra de un viejo lavadero.
El agua que arañaba las prendas estaba helada,
el cielo enrojecía lentamente.

Ya me estaba alejando cuando la mujer me dijo:
Esta solo es otra forma de mirar las cosas,
más limpias, más puras,
dejando que el água las cruce.
Y continuó lavando la ropa,
el sol acabándose poco a poco.


Juan Bello Sánchez

 

Voltava pelo caminho mais longo da tarde,
uma mulher lavava à mão um monte de roupa
na pedra de um velho lavadoiro.
A água que arranhava as peças estava gelada,
o céu punha-se lentamente encarnado.

Eu já me ia a afastar quando a mulher me diz,
esta é só outra forma de olhar para as coisas,
mais limpas, mais puras,
deixando a água atravessá-las.
E continuou a lavar, enquanto
o sol se extinguia pouco a pouco.


(Trad. A.M.)

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21.9.26

Guilherme de Oliveira (Simplesmente feliz)




SIMPLESMENTE FELIZ

 

Sem
artes e sem letras
ambições materiais
um projecto de vida
agruras na pele
dramas existenciais
discriminação à vista
vizinhos incómodos
cheias torrenciais
carências no bolso
um frio na barriga.

Feliz
como as folhas de uma couve.

GUILHERME DE OLIVEIRA
Não deixaram entrar o cão
Glaciar (2025)

 .

19.9.26

Miguel Sánchez-Ostiz (Vivo como quero viver)





 VIVO COMO QUIERO VIVIR

 

Envidié a quienes amaron ‒es una vieja historia‒
y supieron o tal vez tuvieron el valor
de vivir la vida como desearon vivirla,
e hicieron ‒o hacen‒ de cada día una celebración,
un arte, a pesar de saber que la vida,
eso que llamamos con enfermiza insistencia
o con tenacidad de visionarios, vida,
es las más de las veces algo mediocre,
triste, sucio, gastado y violento.
Envidié a quienes eligieron como divisa de sus días
«El corazón me manda», desterraron la indiferencia
y no desdeñaron otra cosa que las pasiones tristes:
el menoscabo de sus vidas.
Y en una época más sombría que cualquier otra
pusieron pasión en el pasar de cada día.

Miguel Sánchez-Ostiz


Invejei os que amaram - é uma história antiga - 
e souberam ou tiveram talvez a coragem
de viver a vida à sua vontade,
e fizeram - ou fazem - de cada dia uma festa,
uma arte, sabendo embora que a vida,
isso que chamamos vida com doentia insistência 
ou tenacidade de visionários,
é as mais das vezes alguma coisa de medíocre,
triste, suja, gasta e violenta.
Invejei os que escolheram como divisa de seus dias
‘O coração ordena-me’, desterraram a indiferença
e não desdenharam senão as paixões tristes,
o desdém de suas vidas.
E numa época mais sombria do que outra qualquer
empenharam a paixão no passar de cada dia.


(Trad. A.M.)

 

17.9.26

António Maria Lisboa (Poema)



POEMA

 

Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se
não devia! 

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:
primeiro um, depois outro e outro:
o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro 

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam 

Pregões de varina sem peixe
- o peixe morreu ao sair da água
e assim já não é peixe 

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.
  

António Maria Lisboa

 . 


15.9.26

Antonio Hernández (O passado é a marca)




El pasado es la constancia
de nuestro asombro,
el hueco de amor que deja
la experiencia en nuestro pecho.

(Sólo la infancia no tiene memoria
porque nada brilló antes que ella.)

Mi pasado es el saldo de lo nítido:
un aroma, un amor, una luna
sin cautela,
el viejo enigma en que amaneceré.

Antonio Hernández

  

O passado é a marca
do nosso assombro,
o vazio de amor que a experiência
nos deixa dentro do peito.

(Só a infância não tem memória
porque nada brilhou antes dela)

Meu passado é o saldo do nítido,
um aroma, um amor, uma lua
sem cuidado,
o velho enigma em que hei-de amanhecer.


(Trad. A.M.)


>>  Poesia universal (25p) / Zenda (5p) / Lit. española (recensão)

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13.9.26

Antonio Carlos Secchin (Uma prosa súbita)




Uma prosa súbita
para a rosa de neve:
às vezes é só um verso
onde a voz de Andrade ferve.
E perdura, apesar do inverno
armado na paisagem:
o que há pouco era flor
virou arte,
rosa em riste na beira do abismo
contra
o silêncio azul da tarde.

Antonio Carlos Secchin

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