31.3.26

Jorge Sousa Braga (O jacarandá)




O JACARANDÁ 

 

Extravasou do largo o jacarandá
Com as suas flores miúdas
ocupa agora toda a manhã

 

Jorge de Sousa Braga

 .

29.3.26

Isabel Fraire (O nome da luz)




O nome da luz
nos mandam as estrelas 

lâmpada
escura luz
tirada da terra 

luz e noite se assombram
mutuamente  

amanhecer

de repente
a luz se faz silêncio  

a luz
nada no silêncio 
o dia move-se 

a luz brinca de espelho
e baila
coquete excitada
com a própria sombra 

corre na água 
a luz
perseguida por seus cabelos 

luz nos vidros
pássaro detido
luz na água
bando em fuga 

luz lânguida suspira
em teu corpo calado 

assomo a teus olhos
e atravesso
países luminosos
 

Isabel Fraire 

(Trad. A.M.)

 .


28.3.26

Iosu Moracho Cortés (Dia 167)




DÍA CIENTO SESENTA Y SIETE

 

Lo dice Ernesto Sábato:
Es el otro el que siempre nos salva.

Tiene razón,
por sí solos, nosotros
estamos perdidos.

Iosu Moracho Cortés

 


Di-lo Ernesto Sábato:
É o outro quem nos salva sempre.

E tem razão,
sozinhos, nós
estamos perdidos.


(Trad. A.M.)

.

26.3.26

Helga Moreira (Tenho a vida feita num novelo)




Tenho a vida feita num novelo,
não pertenço a lado nenhum,
não tenho
país ou terra, nenhuma raiz,
nem escolhas ou nome,
nada a dizer, nada a calar, 

nem harmonias ou crenças
nem desígnios. 

Uma linha apenas
num mar de mós
sem moinhos.

Helga Moreira

 .

24.3.26

Idea Vilariño (Quando comprar um espelho)




Cuando compre un espejo para el baño
voy a verme la cara
voy a verme
pues qué otra manera hay decíme
qué otra manera de saber quién soy.
Cada vez que desprenda la cabeza
del fárrago de libros y de hojas
y que la lleve hueca atiborrada
y la deje en reposo allí un momento
la miraré a los ojos con un poco
de ansiedad de curiosidad de miedo
o sólo con cansancio con hastío
con la vieja amistad correspondiente
o atenta y seriamente mirarme
como esa extraña vez-mis once años-
y me diré mirá ahí estás
seguro
pensaré no me gusta o pensaré
que esa cara fue la única posible
y me diré esa soy yo ésa es idea
y le sonreiré dándome ánimos.


Idea Vilariño 

 

Quando comprar um espelho
vou ver a minha cara
vou ver-me
pois que outro modo há dizei-me
que outro modo de saber quem sou.
Cada vez que soltar a cabeça
da desordem de livros e folhas
e a trouxer oca a abarrotar
e a deixar um momento ali em repouso
hei-de olhá-la nos olhos com um pouco
de ansiedade, medo, curiosidade
ou só com cansaço ou fastio
com a velha e devida amizade
ou olhar-me atenta e séria
como daquela vez – nos meus onze anos –
e direi olha, estás aí,
decerto
pensarei não me agrada ou pensarei
que essa cara foi a única possível
e direi essa sou eu essa é Idea
e hei-de sorrir-lhe e dar-me ânimo.
 

(Trad. A.M.)

 .

23.3.26

Horacio Castillo (Geração)




GENERACIÓN 

 

Animales de carne y hueso, con un poco de luz
   irremediable en los ojos,
a veces nos creíamos criaturas heroicas
y corríamos a las plazas. Escuchábamos
bellísimas palabras, las voces se otorgaban idéntico calor
y sentíamos el placer de la acción.
Pero luego, entre ruinas, comiendo el pan del sobreviviente,
comprendíamos. Y al salir el sol,
mientras los escarabajos emergían de las piedras,
avivábamos el fuego para ahuyentar la peste
y llorábamos por la siguiente generación.
 

Horacio Castillo  

[Otra iglesia]

  

Animais de carne e osso, com um pouco de luz
nos olhos, irremediável,
às vezes julgávamo-nos criaturas heróicas
e corríamos às praças. Escutávamos 
belas palavras, as vozes assumiam o mesmo calor
e sentíamos o prazer da acção.
Mas depois, entre ruínas, comendo o pão do sobrevivente,
compreendíamos enfim. E ao vir o sol,
com os escaravelhos a emergir dentre as pedras,
avivávamos o fogo para afugentar a peste
e chorávamos pela geração seguinte.
 

(Trad. A.M.)

 .

21.3.26

Armando Silva Carvalho (Janeiro de sessenta e dois)

 



JANEIRO DE SESSENTA E DOIS

 

Janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés. 

Mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés. 

Sacodem-no apressadas as varinas,
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas. 

Seus dias vão depressa para os ardinas,
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos,
metido com vamps americanas. 

Janeiro português por onde poisas,
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto as coisas
e a tia chega ao fim da camisola.

Armando Silva Carvalho 

[Instituto Camões]

.

 

19.3.26

Hilario Barrero (Maré alta)




MAREA ALTA



Somos como dos islas separadas
porque nos cubre el agua
y solo deja ver nuestras cabezas.
Si en el mar que vivimos hubiera una marea,
cuando el agua bajara,
los que miran con ojos de secano,
verían que la base es una roca firme,
incrustada de fechas, pasiones y recuerdos,
que la vida que todo lo erosiona
intenta separar, pero no puede.


Hilario Barrero

 

 

Somos como duas ilhas separadas
porque nos cobre a água,
deixando à mostra só as cabeças.
Se no mar que vivemos houvesse maré,
quando a água baixasse,
os que olham com olhos de sequeiro     
veriam que o fundo é rocha firme,
incrustada de datas, paixões e lembranças,
que a vida que tudo rompe
tenta separar, mas não consegue.


(Trad. A.M.)

.

18.3.26

Pedro López Lara (O outro autor)




O OUTRO AUTOR 

Ler os próprios versos é tarefa ingrata.
Falam de modo estranho, como se estivessem
pendentes sempre de si mesmos.
Dizem coisas estranhas.

Quem neles se expressa é um desconhecido
cansado e amargo, que finge surpreender-se
com as coisas mais triviais:
que o tempo passe, que os amigos o traiam,
que as mulheres o deixem.

Assombra-o que não seja aquilo aquilo que já não é.
Parece obcecado com a morte.

Pedro López Lara

(Trad. A.M.)

.

15.3.26

Giuseppe Ungaretti (Rosas em chamas)

 



ROSE IN FIAMME

 

Su un oceano
di scampanellii
repentina
galeggia un’altra mattina

Giuseppe Ungaretti

  

Num oceano
de zumbidos
súbita
bóia uma nova manhã


(Trad. A.M.)


12.3.26

Francisco Duarte Mangas (Macela)

 



MACELA

 

brevíssimos sóis dos muros
vivem em cardume 
observando a estrada
a sua resistência é infinita
que o digam os antigos cantoneiros
no início da primavera
arrancavam essa luz aromática 
com medo de a sua beleza
distrair os raros e vagarosos automobilistas

Francisco Duarte Mangas

 .

10.3.26

Fernando Beltrán (Batota para perder)




TRAMPAS PARA PERDER


Mi madre me enseñó a hacer trampas

Trampas para perder

Ganar era tan fácil que lloraba de noche
y no podía conciliar el sueño

Cogidos de la mano me calmaba
relatándome historias que sucedieron luego

La culpa fue mía,

madre me preguntaba
si las quería reales o inventadas,
y yo pedía siempre que le hubieran
sucedido a ella

Y casi sin quererlo
una noche mi madre inventó la realidad

 

 Fernando Beltrán

[Aula de las metaforas]



Minha mãe ensinou-me a fazer batota

Batota para perder

Ganhar era tão fácil que eu chorava de noite
e não conseguia adormecer 

Ela acalmava-me com a mão dela na minha
contando-me histórias que depois aconteceram

A culpa foi minha,

ela perguntava se eu as queria reais ou inventadas
e eu dizia sempre, que lhe tivessem
acontecido a a ela

E aí quase sem querer
uma noite minha mãe inventou a realidade 

(Trad. A. M.)

 .

8.3.26

Francisco Caro (Altas nuvens de Janeiro)




ALTAS NUBES DE ENERO

 

Ojalá y nunca, Konstandino,
necesitemos a tus bárbaros

y sea la llegada de un poema
el hecho que nos salve
de la inacción,
del envilecimiento.


Francisco Caro

 

Oxalá que nunca, Konstandino,
precisemos dos teus bárbaros

e seja a chegada de um poema
o facto que nos salve
da inacção,
da vil tristeza.


(Trad. A.M.)

.

6.3.26

Georgina Ramírez (Outubro)




OCTUBRE

 

Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio


Georgina Ramírez

 


Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.


(Trad. A.M.)



OCTUBRE

 

Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio


Georgina Ramírez

 


Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.


(Trad. A.M.)



OCTUBRE

 

Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio


Georgina Ramírez

 


Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.


(Trad. A.M.)

.

4.3.26

Jonio González (Rabino)




RABINO

 

si todo peso es ligero
con respecto a otro
y la moneda en la mesa
es un signo del hambre

si una vara de oro
mide igual
que una vara de sueño

¿por qué apoyar la frente
en la luz
a la hora doméstica
en que la verdad se revela?

sólo el hombre justo
sabe que no lo es

Jonio González



se todo o peso é leve
com relação a outro
e a moeda sobre a mesa
é um sinal da fome

se uma vara de ouro
mede igualmente
como uma vara de sonho

porque apoiar a fronte
na luz
à hora doméstica
em que a verdade se revela?

só o homem justo
sabe que o não é


(Trad. A.M.)

.

2.3.26

Francisco J. Craveiro Carvalho (Geminação)




GEMINAÇÃO 

 

Pelo jornal de hoje eu
inesperado acabo
de saber que morreu
uma vizinha. Na casa
geminada com a minha.      
 

FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)

                         

.