O JACARANDÁ
Extravasou do largo o jacarandá
Com as suas flores miúdas
ocupa agora toda a manhã
Jorge de Sousa Braga
O JACARANDÁ
Extravasou do largo o jacarandá
Com as suas flores miúdas
ocupa agora toda a manhã
Jorge de Sousa Braga
O nome
da luz
nos
mandam as estrelas
lâmpada
escura
luz
tirada
da terra
luz e
noite se assombram
mutuamente
amanhecer
de repentea luz
nada no
silêncio
o dia
move-se
a luz
brinca de espelho
e baila
coquete
excitada
com a
própria sombra
corre na
água
a luz
perseguida
por seus cabelos
luz nos
vidros
pássaro
detido
luz na
água
bando em
fuga
luz
lânguida suspira
em teu
corpo calado
assomo a
teus olhos
e
atravesso
países
luminosos
Isabel Fraire
(Trad.
A.M.)
DÍA CIENTO SESENTA Y SIETE
Lo dice Ernesto
Sábato:
Es el otro el que siempre nos salva.
Tiene razón,
por sí solos, nosotros
estamos perdidos.
Iosu Moracho Cortés
Di-lo Ernesto Sábato:
É o outro quem nos salva sempre.
E tem razão,
sozinhos, nós
estamos perdidos.
(Trad. A.M.)
Tenho a vida feita num novelo,
não pertenço a lado nenhum,
não tenho
país ou terra, nenhuma raiz,
nem escolhas ou nome,
nada a dizer, nada a calar,
nem harmonias ou crenças
nem desígnios.
Uma linha apenas
num mar de mós
sem moinhos.
Helga Moreira
Cuando compre un espejo para el baño
voy a verme la cara
voy a verme
pues qué otra manera hay decíme
qué otra manera de saber quién soy.
Cada vez que desprenda la cabeza
del fárrago de libros y de hojas
y que la lleve hueca atiborrada
y la deje en reposo allí un momento
la miraré a los ojos con un poco
de ansiedad de curiosidad de miedo
o sólo con cansancio con hastío
con la vieja amistad correspondiente
o atenta y seriamente mirarme
como esa extraña vez-mis once años-
y me diré mirá ahí estás
seguro
pensaré no me gusta o pensaré
que esa cara fue la única posible
y me diré esa soy yo ésa es idea
y le sonreiré dándome ánimos.
Idea
Vilariño
Quando
comprar um espelho
vou
ver a minha cara
vou
ver-me
pois
que outro modo há dizei-me
que
outro modo de saber quem sou.
Cada
vez que soltar a cabeça
da
desordem de livros e folhas
e
a trouxer oca a abarrotar
e
a deixar um momento ali em repouso
hei-de
olhá-la nos olhos com um pouco
de
ansiedade, medo, curiosidade
ou
só com cansaço ou fastio
com a velha e devida amizade
ou
olhar-me atenta e séria
como
daquela vez – nos meus onze anos –
e
direi olha, estás aí,
decerto
pensarei
não me agrada ou pensarei
que
essa cara foi a única possível
e
direi essa sou eu essa é Idea
e hei-de sorrir-lhe e dar-me ânimo.
(Trad.
A.M.)
GENERACIÓN
Animales
de carne y hueso, con un poco de luz
irremediable en los ojos,
a veces
nos creíamos criaturas heroicas
y
corríamos a las plazas. Escuchábamos
bellísimas
palabras, las voces se otorgaban idéntico calor
y
sentíamos el placer de la acción.
Pero
luego, entre ruinas, comiendo el pan del sobreviviente,
comprendíamos.
Y al salir el sol,
mientras
los escarabajos emergían de las piedras,
avivábamos
el fuego para ahuyentar la peste
y
llorábamos por la siguiente generación.
Horacio Castillo
Animais
de carne e osso, com um pouco de luz
nos
olhos, irremediável,
às vezes
julgávamo-nos criaturas heróicas
e
corríamos às praças. Escutávamos
belas
palavras, as vozes assumiam o mesmo calor
e
sentíamos o prazer da acção.
Mas
depois, entre ruínas, comendo o pão do sobrevivente,
compreendíamos
enfim. E ao vir o sol,
com os
escaravelhos a emergir dentre as pedras,
avivávamos
o fogo para afugentar a peste
e
chorávamos pela geração seguinte.
(Trad.
A.M.)
JANEIRO DE SESSENTA E DOIS
Janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés.
Mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés.
Sacodem-no apressadas as varinas,
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas.
Seus dias vão depressa para os ardinas,
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos,
metido com vamps americanas.
Janeiro português por onde poisas,
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto as coisas
e a tia chega ao fim da camisola.
Armando Silva Carvalho
.
MAREA ALTA
Somos como dos islas separadas
porque nos cubre el agua
y solo deja ver nuestras cabezas.
Si en el mar que vivimos hubiera una marea,
cuando el agua bajara,
los que miran con ojos de secano,
verían que la base es una roca firme,
incrustada de fechas, pasiones y recuerdos,
que la vida que todo lo erosiona
intenta separar, pero no puede.
Hilario Barrero
Somos como duas ilhas separadas
porque nos cobre a água,
deixando à mostra só as cabeças.
Se no mar que vivemos houvesse maré,
quando a água baixasse,
os que olham com olhos de sequeiro
veriam que o fundo é rocha firme,
incrustada de datas, paixões e lembranças,
que a vida que tudo rompe
tenta separar, mas não consegue.
(Trad. A.M.)
Ler os próprios versos é tarefa ingrata.
Falam de modo estranho, como se estivessem
pendentes sempre de si mesmos.
Dizem coisas estranhas.
Quem neles se expressa é um desconhecido
cansado e amargo, que finge surpreender-se
com as coisas mais triviais:
que o tempo passe, que os amigos o traiam,
que as mulheres o deixem.
Assombra-o que não seja aquilo aquilo que já não é.
Parece obcecado com a morte.
Pedro López Lara
(Trad. A.M.)
.
ROSE IN FIAMME
Su un oceano
di scampanellii
repentina
galeggia un’altra mattina
Giuseppe Ungaretti
Num oceano
de zumbidos
súbita
bóia uma nova manhã
(Trad. A.M.)
MACELA
brevíssimos sóis dos muros
vivem em cardume
observando a estrada
a sua resistência é infinita
que o digam os antigos cantoneiros
no início da primavera
arrancavam essa luz aromática
com medo de a sua beleza
distrair os raros e vagarosos automobilistas
Francisco Duarte Mangas
TRAMPAS PARA PERDER
Mi madre me enseñó a hacer trampas
Trampas para perder
Ganar era tan fácil que lloraba de noche
y no podía conciliar el sueño
Cogidos de la mano me calmaba
relatándome historias que sucedieron luego
La culpa fue mía,
madre me preguntaba
si las quería reales o inventadas,
y yo pedía siempre que le hubieran
sucedido a ella
Y casi sin quererlo
una noche mi madre inventó la realidad
Fernando Beltrán
Minha mãe ensinou-me a fazer batota
Batota para perder
Ganhar era tão fácil que eu chorava de noite
e não conseguia adormecer
Ela acalmava-me com a mão dela na minha
contando-me histórias que depois aconteceram
A culpa foi minha,
ela perguntava se eu as queria reais ou inventadas
e eu dizia sempre, que lhe tivessem
acontecido a a ela
E aí quase sem querer
uma noite minha mãe inventou a realidade
(Trad. A. M.)
ALTAS NUBES DE ENERO
Ojalá y nunca, Konstandino,
necesitemos a tus bárbaros
y sea la llegada de un poema
el hecho que nos salve
de la inacción,
del envilecimiento.
Francisco Caro
Oxalá que nunca, Konstandino,
precisemos dos teus bárbaros
e seja a chegada de um poema
o facto que nos salve
da inacção,
da vil tristeza.
(Trad. A.M.)
Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio
Georgina Ramírez
Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.
(Trad. A.M.)
Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio
Georgina Ramírez
Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.
(Trad. A.M.)
OCTUBRE
Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio
Georgina Ramírez
Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.
(Trad. A.M.)
RABINO
si todo peso es ligero
con respecto a otro
y la moneda en la mesa
es un signo del hambre
si una vara de oro
mide igual
que una vara de sueño
¿por qué apoyar la frente
en la luz
a la hora doméstica
en que la verdad se revela?
sólo el hombre justo
sabe que no lo es
Jonio González
se todo o peso é leve
com relação a outro
e a moeda sobre a mesa
é um sinal da fome
se uma vara de ouro
mede igualmente
como uma vara de sonho
porque apoiar a fronte
na luz
à hora doméstica
em que a verdade se revela?
só o homem justo
sabe que o não é
(Trad. A.M.)
GEMINAÇÃO
Pelo jornal de hoje eu
inesperado acabo
de saber que morreu
uma vizinha. Na casa
geminada com a minha.
FRANCISCO
J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)