21.1.26

Domingos da Mota (Rumo)




RUMOR                             

       (a Eugênio de Andrade)

Servias o silêncio
decantado num
cálice de luz,
sílaba a sílaba:

rumor quase
nu, agasalhado
com duas, três
palavras em

surdina: breves
como as aves: livres,
roucas desceram por aí
a debicar: poisaram

nos meus olhos
e na boca:
mas prestes a subir
e a voar.


Domingos da Mota

[Acontecimentos]

 .

19.1.26

Circe Maia (Composições)




COMPOSICIONES

 

Unas cosas se hacen de otras.
—El portafolio está hecho de cuero—
De sonido y sentido, el lenguaje.
Y de muchas sustancias
el mirar, el silencio.

Circe Maia

 

 

Umas coisas fazem-se de outras.
- O portefólio é feito de couro -
De som e sentido, a linguagem.
E de muitas substâncias
o olhar, o silêncio.


(Trad. A.M.)

.

18.1.26

Francisco García Marquina (Tenho medo)




Tengo miedo de hacer asunto público
de este amor que guardamos.
A nadie voy a hablar de tu sonrisa,
por si alguien te la roba,
ni de tu paso alegre, por si alguno
quisiera darte alcance.

Francisco García Marquina

 

 

Tenho medo de fazer assunto público
este amor que nós guardamos.
A ninguém vou falar do teu sorriso,
com receio de que to roubem,
nem do teu andar alegre, não vá
alguém querer apanhar-te.


(Trad. A.M.)

.

16.1.26

Billy Collins (Silêncio)




SILENCE


There is the sudden silence of the crowd
above a player not moving on the field,
and the silence of the orchid.

The silence of the falling vase
before it strikes the floor,
the silence of the belt when it is not striking the child.

The stillness of the cup and the water in it,
the silence of the moon
and the quiet of the day far from the roar of the sun.

The silence when I hold you to my chest,
the silence of the window above us,
and the silence when you rise and turn away.

And there is the silence of this morning
which I have broken with my pen,
a silence that had piled up all night

like snow falling in the darkness of the house
- the silence before I wrote a word
and the poorer silence now.

Billy Collins

[Poem hunter]

 

Há o silêncio súbito da multidão
sobre um jogador parado no campo
e o silêncio da orquídea.

O silêncio do vaso a tombar
antes de cair no chão,
o silêncio do cinto quando
não está batendo na criança.

A calma da chávena e da água nela,
o silêncio da lua
e o sossego do dia longe do bramido do sol.

O silêncio quando eu te aperto contra o peito,
o silêncio da janela por cima de nós,
e o silêncio quando tu te levantas e vais embora.

E há o silêncio desta manhã
que eu interrompo com a caneta,
um silêncio a amontoar-se a noite toda

como neve a cair no escuro da casa
- o silêncio antes de eu escrever uma palavra
e o silêncio mais pobre de agora.


(Trad. A.M.)

.

14.1.26

Chantal Maillard (O tempo não existe)




El tiempo no existe. Se repliega.

Y en cada uno de sus pliegues
nos invita
a ser
de nuevo
lo que fuimos.

Todo es simultáneo. Tan solo
en el discurso
hay un tiempo que fue
y otro por venir.

Despójate de ti.

Actúa

Sin temer la salida.

Chantal Maillard

 

 

O tempo não existe. Recolhe-se.

E em cada uma de suas dobras
incita-nos
a ser
de novo
aquilo que já fomos.

Tudo é simultâneo. Apenas
no discurso
há um tempo que foi
e outro por vir.

Despoja-te de ti.

Actua.

Sem temer a saída.


(Trad. A.M.)

.

13.1.26

César Cantoni (Aqui não há Deus)




AQUÍ NO HAY DIOS 

 

Aquí no hay dios, ni griego ni romano, 
que presida ninguna ceremonia.
No hay oro ni laurel para los vencedores. 

Aquí no hay más que un piquete de obreros, 
con martillos neumáticos, rompiendo la calzada, 
haciendo un pozo que no será nunca  

el ombligo del mundo, la fuente de las revelaciones. 
Un pozo más hondo que el sentimiento de los dioses, 
más negro que el propio corazón humano. 
 

César Cantoni  

[Otra iglesia] 

 

Aqui não há deus, grego ou romano,
que presida a qualquer cerimónia.
Não há ouro nem louro para os vencedores. 

Aqui não há mais que um piquete operário,
com martelos pneumáticos, rasgando a calçada,
abrindo um poço que não será nunca 

o umbigo do mundo, a fonte das revelações.
Um poço mais fundo que os sentimentos dos deuses,
mais negro que o próprio coração humano.
 

(Trad. A.M.)

 .

11.1.26

Armindo Rodrigues (Fosse o verme nuvem)




(XXXVII)

 

Fosse o verme nuvem,
por força teria
saudades do chão.

ARMINDO RODRIGUES
Quadrante Solar
IN/CM (1984)

 .

9.1.26

Ángeles Mora (Nuvens)




NUVENS

 

A alegria mais alta
esconde sempre um assombra
invisível,
agachada, de tristeza.
Tal como a melancolia
atravessa o riso
desta mulher que brinca
com o neto.


Ángeles Mora

(Trad. A.M.)

.

8.1.26

Alfonso Brezmes (O que brilha)



LO QUE BRILLA 

 

En este cuenco invisible
estoy bien siendo una lenteja
puesta a remojo junto a las demás.
Algunas tardan más
y flotan
pero yo soy de las primeras
en hundirse. No se está mal
mirando el universo
desde abajo. Lo que brilla
son lentejas caídas o a punto de caer.
Si las quieres las tomas, nos decía
mi madre, y si no las dejas.
La oscuridad son lentejas que esperan
la transición de la materia
en un plato de luz.
 

Alfonso Brezmes

 

Nesta taça invisível
estou bem sendo uma lentilha
a demolhar como as outras.
Algumas demoram mais
e bóiam
mas eu sou das primeiras
a afundar. Não se está mal
a olhar para o universo
lá de baixo. O que brilha
são lentilhas caídas ou quase a cair.
Se as quiseres pega, dizia-nos
minha mãe, senão deixa.
A escuridão são lentilhas que esperam
a transição da matéria
num prato de luz.
 

(Trad. A.M.)

 .

6.1.26

António Maria Lisboa (Projecto de sucessão)





PROJECTO DE SUCESSÃO

 

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar fumar um cigarro só até meio

Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.

 António Maria Lisboa

 .

4.1.26

Cecilia Casanova (Enquanto chove)





MIENTRAS LLUEVE DE ABAJO PARA ARRIBA


Sin padre
ni madre
ni perro que te ladre
arrancas las hojas del calendario
mientras llueve de abajo para arriba
y en tu cuarto se acentúa ese aire de estación
de paradero
con los muros tapados de postales
y de niños que crecen por fotografias.
Entristece pensar que así como se han ido estos años
puedan irse otros todavía
haciéndosenos tarde para todo
menos para comprobar
lo que tú y yo hemos sufrido.


Cecilia Casanova

 

 

Sem pai
nem mãe
nem cão que te ladre
arrancas as folhas do calendário
enquanto chove de baixo para cima
e em teu quarto se instala esse ar
de estação de comboio
com as paredes cobertas de cartazes
e de fotografias de crianças.
Entristece pensar que assim como passaram estes anos
possam passar outros ainda
fazendo-se-nos tarde para tudo
menos para ver
como ambos temos sofrido.


(Trad. A.M.)

.

3.1.26

Carmen Martín Gaite (Clarão)



DESTELLO                 

 

Hoy habláis otra lengua,
lirios que os despeináis bajo la lluvia.
Me apresáis con vosotros
igual que si me viera en un espejo.
Y tengo que dejaros.
Tiran de mí precisamente ahora
que acabo de encontrarme
-pequeña, pura-
entre vuestras corolas.
Voy a cerrar los ojos,
-no deshagan la imagen.
Y me iré sin miraros otra vez.
Ay! Cuando vuelva a veros
¿sabré ya comprender este lenguaje vuestro
que un minuto ha rasgado mi tiniebla
oh lirios despeinados por la lluvia?


Carmen Martín Gaite

 


Hoje falais outra língua,
ó lírios despenteados à chuva,
prendeis-me convosco,
como se eu me visse num espelho.
Mas tenho de vos deixar,
puxam-me logo agora
que eu acabo de me encontrar
- pequenina, pura -
no meio das vossas corolas.
Vou fechar os olhos
- não me apaguem a imagem -
e vou-me sem vos olhar outra vez.
Ai, quando vos voltar a ver
saberei eu perceber a vossa linguagem
que por um instante rasgou minha treva,
ó lírios despenteados pela chuva?


(Trad. A.M.)

 .

1.1.26

Alessandro Celani (Lembras os dias)




Ricordi i giorni spesi
a far niente senza colpa
i paradisi perduti
ancora prima d’esser presi?
Ed ora tocca a noi
col tempo che svanisce
e la voce fatta impura
togliere la mano e fare una figura
l’uno dell’altra
immobile silente
addormentata cura

Alessandro Celani

 

Lembras os dias passados
sem culpa a não fazer nada
os paraísos perdidos
antes mesmo de serem tomados?
E agora cabe-nos a nós
com o tempo que se esvai
e a voz tornada impura
tirar a mão e fazer uma figura
um do outro
imóvel silente
adormecido cuidado.


(Trad. A.M.)

.