30.3.09

Mário Quintana (Se o poeta falar num gato)









SE O POETA FALAR NUM GATO




Se o poeta falar num gato, numa flor,
no vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade…
se falar numa esquina mal e mal iluminada…
numa antiga sacada… num jogo de dominó…
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo
que morriam de verdade…
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol…
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá… Que importa?
Todos os poemas são de amor!




Mário Quintana


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Manuel António Pina (Café Orfeu)








CAFÉ ORFEU





Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.
Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém(eu provavelmente)
nunca tivesse existido.



Manuel António Pina








27.3.09

Violeta C. Rangel (Peço ao céu)









Pido al cielo que la casa donde vives
caiga sobre ti, ¡rata piojosa!
que un matón te abra la cabeza y que tus hijos
te coman las entrañas,
e incluso así no pagarías, ¡hiena inmunda!
Me queda ese consuelo de saber que eres escoria,
pura escoria, negra escoria, sólo escoria
y que a tu muerte hace tiempo que asistí.
Brindo por ella.



Violeta C. Rangel






Peço ao céu que a casa te
caia em cima, rata piolhosa!
que um marrão te abra a cabeça e os teus filhos
te comam as entranhas,
e mesmo assim ficarias a dever, imunda hiena!
Resta-me o consolo de saber que és escória,
pura escória, negra escória, escória apenas
e que assisti faz tempo à tua morte.
Brindo por ela.


(Trad. A.M.)


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Ibne Sara (A beringela)









A BERINGELA






É um fruto de forma esférica de gosto agradável
alimentado por água abundante em todos os jardins.


Cingido pela carapaça do pecíolo
parece um coração vermelho de cordeiro
entre as garras de um abutre.


Ibne Sara

- Santarém (m. 1123)


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Vitorino Nemésio (Tovim, Coimbra)









(Tovim, Coimbra)





Tovim, Coimbra.

Está um tempo torvo, gelado.

Chove a potes.

As oliveiras molhadas parecem chorar a sua viuvez de azeitona.

Mas quando vem um olho de sol e a terra enxuga, as cavas desatam os fumozinhos do húmus e tudo parece desentranhado em promessas.

O vale é verde, sim, mas distante…

A esta hora os toros de pinheiro estarão mais descascados, talvez com barbas de líquenes.

Um silvo de locomotiva abala a montanha na direcção dos povoados e sentem-se os porquinhos grunhir de regalo no cortelho, com os róseos focinhos na água quente, grossa dos mimos de farinha.

Qualquer dia vão-lhes ao chiadoiro; entretanto, cevam e fossam, felizes.

A vida animal parece ditosa ao homem saudoso e mísero, carregado de responsabilidade, de recordações, de projectos.

Só o verde dos pinhais e das culturas o aquieta e reconforta.

Oiço cavar.



- VITORINO NEMÉSIO, Corsário das Ilhas, 1956, Histórias de Mateus Queimado (Freiras da Praia).


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25.3.09

Olhar (46)

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Paúl de Arzila
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(Coimbra)
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Coitado do Jorge (55)







DIREITO CIVIL-2





Primeiro, chamava-lhe ‘procuração irrevogável’…
Depois, revoguei-a, essa ingrata.
Com justa causa…


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Rabindranath Tagore (Se me é negado o amor)









SE ME É NEGADO O AMOR






Se me é negado o amor, por que, então, amanhece;
por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas?
Se me é negado o amor, por que, então,
a noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas?
E por que este desatinado coração continua,
esperançado e louco, olhando o mar infinito?




Rabindranath Tagore
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Sophia de Mello Breyner Andresen (Pranto pelo Infante D.Pedro)









PRANTO PELO INFANTE D. PEDRO
DAS SETE PARTIDAS






Nunca choraremos bastante nem com pranto
assaz amargo e forte
aquele que fundou glória e grandeza
e recebeu em paga insulto e morte




Sophia de Mello Breyner Andresen


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19.3.09

Nuno Júdice (Deus)









DEUS





À noite, há um ponto do corredor
em que um brilho ocasional faz lembrar
um pirilampo. Inclino-me para o apanhar
- e a sombra apaga-o. Então,
levanto-me já sem a preocupação
de saber o que é esse brilho, ou
do que é reflexo.
Ali, no entanto, ficou
uma inquietação; e muito tempo depois,
sem me dar conta do motivo autêntico,
ainda me volto no corredor, procurando a luz
que já não existe.






NUNO JÚDICE
Meditação sobre Ruínas (1994)


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Rosario Pérez Cabaña (De lo nuestro)









DE LO NUESTRO





Si tú me pidieras que escribiera de lo nuestro
es una oración condicional
(mejorable, sin duda, en el estilo),
inconcebible en esta maraña de hojas
aferradas a su árbol, a condición tan sólo
de la luz que vivifica;
la misma luz, fíjate, que nos vivifica.
Si tú me lo pidieras, yo podría decir palabras como acentos,
elevar sílabas al infinito;
podría, como otros,
decir casa, camino, mano,
encrucijada,
por no hablar de los adverbios
que acompañan al amor cuando es un acto.
Por ti, si tú me lo pidieras, podría
describir el pasillo de la casa
que nos mira con ojos achinados, allá en el fondo,
revueltos, sin orden, sudorosos.
Y seguir así, buscando anáforas
con que preñar nuestro ego de amantes
que se aman con los dientes;
sin terminar nunca los discursos,
porque tú bien sabes que no hay nada peor
para el amor
que una oración adversativa.
Así que seguiría escribiendo - claro está,
si tú me lo pidieras - palabras
como manos, sin lugar a dudas, manos
que se abren y se cierran al mundo;
palabras largas y sonoras
como esperanza,
como ESPERANZA NUESTRA,
que resulta más simbólico.
Todo por encontrar una verdad (qué se yo,
¿superlativa?) que cierre
esta dialéctica gastada,
posible, deliciosa, futurible,
de decir si tú.



Rosario Pérez Cabaña






Se tu me pedisses para escrever sobre nós
é uma oração condicional
(melhorável, sem dúvida, no estilo),
inconcebível nesta maranha de folhas
aferradas à sua árvore, sujeitas apenas
à luz que vivifica;
a mesma luz, repara, que nos vivifica.
Se me pedisses, eu poderia dizer palavras como acentos,
elevar sílabas ao infinito;
poderia, como outros,
dizer casa, caminho, mão,
encruzilhada,
para não falar dos advérbios
que o amor acompanham quando este é um acto.
Por ti, se mo pedisses, poderia
descrever o corredor da casa
que nos contempla com olhos em bico, lá do fundo,
revoltos, sem ordem, transpirados.
E continuar assim, buscando anáforas
para nos encher o ego de amantes
que com os dentes se amam;
sem terminar jamais o discurso,
pois tu bem sabes que não há nada pior
para o amor
do que uma oração adversativa.
Assim iria escrevendo – claro,
se tu mo pedisses – palavras
como mãos, sem dúvida, mãos
que se abrem e fecham para o mundo;
palavras compridas e sonoras
como esperança,
como ESPERANÇA NOSSA,
que tem mais de simbólico.
Tudo para encontrar uma verdade (que sei eu,
superlativa?) que encerre
esta dialéctica gasta,
possível, deliciosa, plausível,
de dizer se tu.



(Trad. A.M.)




Fontes: Punto de partida (4p+nota) / Los noveles-1 (15p) / Los noveles-2 (2p)


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17.3.09

Carlos de Oliveira (Provérbio)









PROVÉRBIO




A noite é a nossa dádiva de sol
aos que vivem do outro lado da Terra.



Carlos de Oliveira


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Antes, aqui: Vento (com sinopse)

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Rosalía de Castro (Te amo)









TE AMO... ¿POR QUÉ ME ODIAS?...





Te amo... ¿Por qué me odias?
-Te odio... ¿Por qué me amas?
Secreto es éste el más triste
y misterioso del alma.



Mas ello es verdad... ¡Verdad
dura y atormentadora!
-Me odias porque te amo;
te amo porque me odias.



Rosalía de Castro




Fontes: Cervantes (tudo+algo) / Poesi.as (109p) / A media voz (25p)


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15.3.09

Eugénio de Andrade (Poema à mãe)









POEMA À MÃE




No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!


Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!


Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!


Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.


Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!


Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...


Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!


Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;


ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;


ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."


Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...


Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.


Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...


Boa noite. Eu vou com as aves!




Eugénio de Andrade


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Cecília Meireles (Murmúrio)









MURMÚRIO





Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.



Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.



Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!



Cecília Meireles


[Casa do bruxo]



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12.3.09

Ver (15)











(?)
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Casimiro de Brito (Entraste na casa do meu corpo)








Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.
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Casimiro de Brito


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Coitado do Jorge (54)









DIREITO CIVIL-1




Primeiro, eu dizia ‘a dona’…
Ao terceiro interregno, passei a dizer ‘a locatária’ do meu coração.


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10.3.09

Pablo García Casado (Summertime)









SUMMERTIME





Fueron mis últimas vacaciones. Me habían encargado
en exclusiva las ventas en la zona de Levante. Yo acu
dia a las citas con los clientes y tú me esperabas en el
coche. Éramos un equipo. Encendías la radio, te ponías
mis gafas y mi gorra de Ferrari y movías el volante.
Guardo cada minuto que pasamos juntos: el deseo de
volver al hotel, de ponerme la nariz de payaso y buscar
tu sonrisa.



Mamá necesitaba un descanso para rehacer su vida. Había
conocido a un médico en el hospital y ensayaba cómo
contarte que tenías un nuevo papá, una casa grande y
bonita y unas hermanas nuevas. Tenemos que acabar con
esta farsa, decía, tenemos que pensar en nuestra hija. Mamá
te quiere mucho y Antonio es una buena persona. En
cuanto a mí, quiero que sepas que fuiste el único amor
de mi vida.Y que he vivido estos años sólo con la ilu
sión de volver otra vez a ese hotel, encontrarte dormida
y acariciar tu pelo.



Pablo García Casado


[Mal situados]





Foram as minhas últimas férias. Tinham-me dado
em exclusivo as vendas da zona leste. Eu ia
aos encontros com os clientes e tu esperavas-me no
carro. Fazíamos equipa nós. Tu ligavas o rádio, punhas
os meus óculos e o meu boné da Ferrari e mexias o volante.
Guardo cada minuto que passámos juntos: o desejo de
tornar ao hotel, de pôr o nariz de palhaço e buscar-te
o sorriso.



A mamã precisava uma pausa para refazer a vida. Tinha
conhecido um médico no hospital e ensaiava como
contar-te que ias ter um novo papá, uma casa grande e
bonita e irmãs novas. Temos de acabar com
esta farsa, dizia, temos de pensar na nossa filha. A mamã
ama-te muito e António é uma boa pessoa. Quanto
a mim, quero só que saibas que foste o único amor
da minha vida. E que tenho vivido estes anos todos só com a ilu
são de voltar outra vez a esse hotel, encontrar-te a dormir
e acariciar-te o cabelo.


(Trad. A.M.)





Fontes: Casado+Solis (pag.pessoal) / Wikipedia


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8.3.09

Vitorino Nemésio (Caçadores, ainda)






(Caçadores, ainda…)




Fui sempre traseiro em tudo…

Caçador de saudades não é feito para mandar grãos de chumbo ao peito de codornizes.

Meu tio e meu compadre bem me davam o exemplo agachando-se por trás das paredes, de sobrancelha tensa ao rés dos ligadoiros, o cano da espingarda disfarçando o seu gris nas pedras silenciosamente acamadas ao jeito do enfiamento.

Eu lá ia com eles até ao sainte da vila, aos primeiros restolhos ainda muito vigiados pelo passo das carroças de lenha, mais chocalheiras que matracas.

Mas, ao subir da canada, precisamente quando os bandos das calhordas começavam a desenvolver-se no céu como as peças de pano que meu pai rasgava bruscamente à mão, só com uma talhadela de tesoura - dava-me uma quebreira, uma lassidão sem nome.

E, com o passo mais lesto e fofo que meu tio ou meu compadre à saga do esquivo galinheiro, batia em direcção à capoeira doméstica.



- VITORINO NEMÉSIO, Corsário das Ilhas, 1956, Histórias de Mateus Queimado (Um tiro falhado).


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Mário-Henrique Leiria (Casamento)







CASAMENTO






“Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe.”
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que assinei.
Portanto, estrangulei-a e fui-me embora.




Mário-Henrique Leiria


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6.3.09

Luis Alberto de Cuenca (A mal casada)









A MAL CASADA





Dizes-me que Juan Luis não te compreende,
que só pensa nos computadores
e de noite não faz caso de ti.
Dizes-me que os teus filhos não te ajudam,
só dão problemas, aborrecem-se
com tudo e que estás farta de aturá-los.
Dizes-me que os teus pais estão velhos,
que se fizeram mesquinhos e egoístas
e que já não és como dantes a sua menina.
Dizes-me que fizeste trinta e cinco
e não é fácil começar de novo,
que os únicos homens que conheces
são os colegas de Juan na IBM
e que não gostas de executivos.
E eu, o que é que eu faço nesta história?
Que queres que eu faça? Que mate alguém?
Que faça um golpe de estado anarquista?
Amei-te como um louco. Não o nego.
Mas isso foi há muito, quando o mundo
era uma reluzente madrugada
que não quiseste partilhar comigo.
A saudade é um passatempo tosco.
Volta a ser a que foste. Vai ao ginásio,
pinta-te mais, disfarça as rugas
e veste roupa sexy, não sejas tonta,
pode ser que Juan Luis volte a mimar-te,
e os teus filhos vão acampar
e os teus pais morram.




Luis Alberto de Cuenca


(Trad. A.M.)


Conferir: Mal Situados (Outra versão)


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Carlos Mota de Oliveira (Estou assim)







ESTOU ASSIM UMA OBRA FEITA (Excerto)




Também é verdade
que não meto
dente nenhum meu


em questões
de
Estado

ou em
assuntos

de Defesa
Nacional

e muito
menos

dou com
a língua
nos dentes.

Naturalmente,
olho
por olho

ou dente
por
dente

são
expressões

que
não uso.

E se
luto pouco

com unhas
e
dentes

é porque
já dei
muito ao dente

especialmente
chocolates
e carne picada.

Eu sei que há
dentes de siso

dentes do pente
dentes de velha

dentes de serra
dentes de leite

e até dentes
de
alguma engrenagem

mas o que agora
me interessa
é apenas contemplar

enxaguar
lavar
e escovar

quer
o marfim

quer
o esmalte

quer
o cimento

dos dois
coxos
caninos

que ainda
carrego na boca

e que têm
a
graça

ou
a loucura

de almoçar
comigo

todos
os dias

e até
ao
último ai


CARLOS MOTA DE OLIVEIRA
Este Outono sobre os Móveis Doirados
(2005)


[Rui Almeida]


>>  Carlos Mota Oliveira (pag.pessoal) / Insónia (nota crítica)

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4.3.09

Pedro Mexia (Letra morta)









LETRA MORTA






O avô morreu, queimaram-se
cartas, letra morta
o passado, o avô e estes versos.




PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)


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Olhar (45)

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Anta - Mazes
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(c. Lamego)






Mohâmede Almutâmide (A uma vide)










A UMA VIDE EM QUE SE LHE PRENDEU O MANTO




Passei junto de uma vide que me arrebatou o manto.
Disse-lhe: - Queres então fazer-me mal!


Respondeu: - Porque passas e não me saúdas,
quando os teus ossos se embeberam do meu sangue?




Mohâmede Almutâmide



- Beja (c. 1069)


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2.3.09

Paul Éluard (A verdade nua)









NUDITÉ DE LA VÉRITÉ




Le désespoir n'a pas d'ailes,
L'amour non plus,
Pas de visage,
Ne parlent pas,
Je ne bouge pas,
Je ne les regarde pas,
Je ne leur parle pas
Mais je suis bien aussi vivant que mon amour
[et que mon désespoir].



Paul Eluard


[Triplo V]





O desespero não tem asas,
O amor também não,
Nada de rosto,
Não falam,
Eu não me mexo,
Não olho para eles,
Não lhes falo
Mas estou tão vivo como este amor
(ou como este desespero).


(Trad. A.M.)



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Angel González (Canção de amiga)









CANCIÓN DE AMIGA






Nadie recuerda un invierno tan frío como éste.


Las calles de la ciudad son láminas de hielo.
Las ramas de los árboles están envueltas en fundas de hielo.
Las estrellas tan altas son destellos de hielo.


Helado está también mi corazón,
pero no fue en invierno.
Mi amiga,
mi dulce amiga,
aquella que me amaba,
me dice que ha dejado de quererme.


No recuerdo un invierno tan frío como éste




Angel González






Ninguém lembra um Inverno tão frio como este.


As ruas da cidade são lâminas de gelo.
Os ramos das árvores estão envoltos em bolsas de gelo.
As estrelas no céu são chispas de gelo.


Gelado também está o meu coração,
mas não foi o Inverno.
Minha amiga,
minha doce amiga,
aquela que me amava,
diz-me que deixou de me amar.


Não me lembro de um Inverno tão frio como este.


(Trad. A.M.)


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