27.4.08

Raul Brandão (A inutilidade da vida)








Hoje acordei com este grito. Eu não soube fazer uso da vida!

O que me pesa é a inutilidade da vida.

Agarro-me a um sonho; desfaz-se-me nas mãos; agarro-me a uma mentira e sempre a mesma voz me repete:
- É inútil! Inútil!




- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.


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Nuno Júdice (Carpe diem)





CARPE DIEM




Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio -- nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.



Nuno Júdice
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25.4.08

Vicente Aleixandre (Unas pocas palabras)








UNAS POCAS PALABRAS





Unas pocas palabras en tu oído diría.
Poca es la fe de un hombre incierto.
Vivir mucho es oscuro, y de pronto saber no es conocerse.
Pero aún así diría. Pues mis ojos repiten lo que copian:
tu belleza, tu nombre, el son del río, el bosque,
el alma a solas.



Todo lo vio y lo tienen. Eso dicen los ojos.
A quien los ve responden. Pero nunca preguntan.
Porque si sucesivamente van tomando
de la luz el color, del oro el cieno
y de todo el sabor el pozo lúcido,
no desconocen besos, ni rumores, ni aromas;
han visto árboles grandes, murmullos silenciosos,
hogueras apagadas, ascuas, venas, ceniza,
y el mar, el mar al fondo, con sus lentas espinas,
restos de cuerpos bellos, que las playas devuelven.



Unas pocas palabras, mientras alguien callase;
las del viento en las hojas, mientras beso tus labios.
Unas claras palabras, mientras duermo en tu seno.
Suena el agua en la piedra. Mientras, quieto,
estoy muerto.




Vicente Aleixandre (*)
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Fontes: Poesi-as (74p) / A-media-voz (33p) / A-media-voz-2 (10p) / Los-poetas (36p+bio) / Club-Cultura (sítio of./obra toda)
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(*) N. 26.4.1898 (Sevilha)
.... Prémio Nobel Lit. (1977)

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23.4.08

Miguel Torga (Toupeiras)





Animados da mesma violência, vinham à tona o ódio, o amor e a compaixão.
Toscos e limitados às paredes do seu pequeno mundo, sem cultura e sem horizontes, arrancavam da alma, indiscriminadamente, pedras preciosas e seixos.
Instintivos e contraditórios, estavam longe ainda de acertar o passo das paixões no caminho da livre dignidade que de longe lhes acenava.
Animais domesticados há muitos mil anos, tomavam por condição um jugo que um gesto quebraria.
O senhor tinha-lhes desonrado as mulheres no passado, e agora podiam-no esbofetear e defender a honra.
Mas não eram capazes de alargar a todos os recantos da sujeição as conquistas que faziam.
Toupeiras acostumadas à escuridão, postas à luz do sol, só muito devagar conseguiam abrir os olhos e ver.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XLIX, in medio.


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Jaime Sabines (Dona Luz-2)





DOÑA LUZ
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II

Es muy raro que yo también tuviese una madre.
A veces pienso que la soñé demasiado,
la soñé tanto que la hice.
Casi todas las madres son criaturas de nuestros sueños.


JAIME SABINES
Maltiempo (1972)
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21.4.08

António Reis (Sei)








Sei
ao chegar a casa
qual de nós
voltou primeiro do emprego
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Tu
se o ar é fresco
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eu
se deixo de respirar
subitamente

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ANTÓNIO REIS
- Novos Poemas Quotidianos,
Porto [1959].





Fonte: António Reis
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Consultar: Wikipedia
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Coitado do Jorge (42)





COSTAS



Lembrar...
Aquelas costas, as mais ingratas da comarca.
Já faladas
aqui

Quantos beijos desperdiçados!...
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18.4.08

Olhar (21)











Córdova

(Espanha)

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Raul Brandão (Amargor)






O que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o nesse tempo: o que sei das árvores, da ternura, da dor e do assombro, tudo me vem desse tempo…

Depois não aprendi coisa que valha.

Confusão, balbúrdia e mais nada.

Vacuidade e mais nada.

Figuras equívocas ou, com raras excepções, sentimentos baços.

Amargor e mais nada.

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- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
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15.4.08

José Bergamín (Água solo es el mar)










AGUA sólo es el mar; agua es el río,
Agua el torrente, y agua el arroyuelo.
Pero la voz que en ellos habla y canta
No es del agua, es del viento.


Agua es la blanda nieve silenciosa
Y el mundo bloque de cristal de hielo.
Pero no es agua, es luz la voz que calla
Maravillosamente en su silencio.


Agua es la nube oscura y silenciosa,
Errante prisionera de los cielos.
Pero su sombra, andando por la tierra
Y el mar, no es agua, es sueño.



José Bergamín




Fonte: Artepoetica




Água apenas é o mar, água o rio,
Água a torrente e o arroio.
Mas a voz que neles canta
Não é da água, é do vento.


Água a branda neve silenciosa
E o mundo bloco de cristal de gelo.
Mas não é água, é luz a voz que cala
Maravilhosamente em seu silêncio.


Água a nuvem escura e silenciosa,
Errante prisioneira dos céus.
Mas sua sombra, andando por terra
E mar, não é água, é sonho.


(Trad. A.M.)
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Vitorino Nemésio (A concha)






A CONCHA




A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.


Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.


E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.


A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.



Vitorino Nemésio




Fonte: Jornal de Poesia

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Antes, aqui: Loa / Um verso

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12.4.08

António Osório (Augúrio)






AUGÚRIO




Não antecipes a tristeza
de morrer: não queiras muito
às lágrimas: consola-te
bebendo-as. E sê grato ao dia
em que, vivo, as tragaste.




António Osório



Fonte: Lidia Aparício

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10.4.08

Miguel Torga (Bambas e destravadas)





(Bambas e destravadas...)




E voltava à certeza anterior.

Infelizmente, as pálpebras, desanimadas das miragens sucessivas, recusavam-se a permanecer abertas.

Semelhantes a janelas de guilhotina, bambas e destravadas nas corrediças, mal se descuidava, fechavam-se obstinadas.

Num arrepio tímido, o resto do corpo acompanhava aquele desertar, e pedia em todas as posições o repouso da enxerga habitual.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XXXIV, in medio.

Um verso (43)

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Um verso de Manoel de Barros
(de “O Guardador de Águas”):




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Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
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7.4.08

Mário Quintana (Poeminha do contra)





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POEMINHA DO CONTRA







Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho!





Mário Quintana
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Olhar (20)



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La Alhambra

Granada

(Espanha)





4.4.08

Alberto Pimenta (Sugestão)





SUGESTÃO




já tentaste praticar o bem
fazendo mal?
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já tentaste praticar o mal
fazendo bem?
.
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já tentaste praticar o bem
fazendo bem?
.
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já tentaste praticar o mal
fazendo mal?
.
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já tentaste praticar o bem
não fazendo nada?
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já tentaste praticar o mal
fazendo tudo?
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já tentaste praticar tudo
não fazendo nada?
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e o contrário, já tentaste?
já?
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seja qual for a tua resposta,
não sei que te diga.




Alberto Pimenta
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2.4.08

Raul Brandão (A que se reduz a vida?)





A que se reduz afinal a vida?

A um momento de ternura e mais nada…

De tudo o que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três rápidos minutos.

Esses sim!

Teimam, reluzem lá no fundo e inebriam-me, como um pouco de água fria embacia o copo.

Só de pequeno retenho impressões tão nítidas como na primeira hora: ouço hoje como ontem os passos de meu pai quando chegava a casa; vejo sempre diante dos meus olhos a mancha azul ferrete das hidrângeas que enchiam o canteiro da parede.

O resto esvai-se como fumo.

Até as figuras dos mortos, por mais esforços que faça, cada vez se afastam mais de mim…



- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
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Fernando Pessoa (Liberdade)






LIBERDADE





Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...


Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.


Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!


Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.


E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...



Fernando Pessoa
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