28.2.26

Efi Cubero (Presente)

 



PRESENTE 

 

No queda otro remedio
que replegarme al fondo de mí misma
de una justa manera
cuando el presente ya es solo pasado
y el futuro ilusorio apunta a lo finito.
Atenta a jerarquías más precisas,
me inclino hacia otro tiempo
para hallar esta voz que parpadea:
fulgor que sobrevive.
Aún no he pasado, como las estrellas.
 

Efi Cubero

 

Não há outro remédio
senão recolar-me no fundo de mim mesma
de um modo justo
quando o presente é só passado já
e o futuro ilusório aponta para o finito.
Atenta a hierarquias mais precisas,
inclino-me para outro tempo
para achar esta voz que cintila
- fulgor que sobrevive.
Eu não passei ainda, como as estrelas.

 
(Trad. A.M.)

.

27.2.26

José Cereijo (Nunca)

 



NUNCA

 

Nunca dormí en tus brazos.
Nunca me desperté de madrugada y vi el armario, la ventana, los libros,
o escuché el ruido de las cañerías, los pasos solitarios en la calle,
y pensé, incrédulo, que, puesto que todo aquello era real,
tú también debías serlo.
No supe a qué sabían tus labios, o tu risa.
No te vi desnudarte.
No supe ni sabré jamás cómo tus ojos, en el acto del amor,
incendiaban la noche.
Esa ausencia es, lo sé bien, una mutilación irremediable;
es un triste muñón, que llevaré conmigo hasta la muerte.
También es, a su modo, forma y prueba de amor,
de lúcido y humillado amor,
de devastado y verdadero amor, que ofrezco a tu recuerdo.
 

José Cereijo

 

Nunca dormi em teus braços,
nunca acordei de manhã a ver o armário, a janela, os livros,
ou escutei o ruído dos canos, os passos solitários na rua,
e pensei, incrédulo, que sendo tudo isso real
tu também devias ser.
Não soube a que sabiam teus lábios, ou teu riso,
não te vi a despir,
não soube nem saberei nunca como teus olhos, no amor,
incendiavam a noite.
Essa falta, bem sei, é uma mutilação sem remédio,
um triste coto de um braço que levarei comigo até à morte.
É também, a seu modo, forma e prova de amor,
de lúcido humilhado amor,
de devastado e verdadeiro amor,
que eu ofereço à tua lembrança.
 

(Trad. A.M.)

 .

25.2.26

Lêdo Ivo (Minha pátria)




MINHA PÁTRIA

 

Minha pátria não é a língua portuguesa.

Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e
implaudados não param de tossir e tremer nas noite frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria desintérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.


Lêdo Ivo

 .

23.2.26

Felipe Benítez Reyes (Eu disse-lhe)




Le dije que lo nuestro envenenaba
a los dos por igual, que era sensato
olvidarnos de todo, cada uno
tenía ya su vida, cada cual
su equipaje de sombras
en distintos andenes. 

Muere siempre el amor
de forma violenta.
                          Ahora puedo
decir que soy el tipo
más desdichado de este mundo.

Felipe Benítez Reyes 

[Sopa de poetes] 

 

Eu disse-lhe que o nosso caso
envenenava os dois, o melhor
era esquecer tudo, cada um
tinha já a sua vida,
sua bagagem de sombras
em distintas plataformas. 

Morre sempre o amor
de forma violenta.
                              Agora posso
dizer que sou o tipo
mais infeliz deste mundo.
 

(Trad. A.M.)

.

22.2.26

Federico Gallego Ripoll (Esponsais de vida)




ESPONSALES DE VIDA

 

Hace falta atención, 
mucho silencio,
para oír cómo el alma de la tierra
genera un nuevo anillo
en el centro del árbol.

Esponsales de vida:
eso es el tiempo.

Federico Gallego Ripoll

[Hector Castilla]

 

É preciso atenção,
muito silêncio,
para ouvir como a alma da terra
gera um novo anel
no centro da árvore.

Esponsais de vida,
isso é o tempo.


(Trad. A.M.)Federico

.

20.2.26

Guilherme de Oliveira (Cabeça vazia)




CABEÇA VAZIA

 

Caminho lento pelo vazio
que preenche este recinto
onde não moram objetos
nem almas se vislumbram. 

É de um cinzento cremado.
Nem sei se marcho a direito
ou se o percorro em círculos,
sem propósito e sem fervor. 

A pouca luz envergonhada
que entra por vias travessas
não chega para ver o céu
nem dá saídas pró mundo. 

Carrego alguns pensamentos
que se movem sem espessura;
no útero desta cabeça oca,
serão poemas para nascer?


Guilherme de Oliveira

[Triplov]

 .

18.2.26

Fabián Casas (Mantra)




MANTRA

 

Junto as mãos como se fossem um búzio
e chego o ouvido.
Apesar do sinal fraco
por causa dos anos e do vento,
ainda consigo ouvir as minhas tias
a debicar os milhos na cozinha,
com a minha mãe.

 

Fabián Casas

(Trad. A.M.)

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17.2.26

Fabio Morábito (A todos que me falharam)




A cuántos que me fallaron
les retiré mi afecto, 

creyendo que la vida es larga
y volvería a quererlos! 

¡Creer que para todo hay tiempo
es mi mayor defecto! 

Lo digo en verso (otro defecto mío)
para no decirlo de manera franca. 

Pero los versos si son buenos
no dejan de escarbar 

con rimas que remueven losas
que cubren unos traumas. 

¡A cuántos que me fallaron
les clausuré mi ser, 

sin darle tiempo al tiempo
de irse por las ramas!

Fabio Morábito

 

A todos que me falharam
retirei-lhes meu afecto,

crendo que é longa a vida
e voltaria a querer-lhes!

Pensar que há tempo para tudo
é o meu maior defeito!

Digo-o aqui em verso (mais um defeito meu)
para o não dizer direitamente.

Mas os versos quando são bons
não deixam de esgravatar

com rimas mexendo pedras
que cobrem uns quantos traumas.

A todos que me falharam
eu encerrei meu ser,

sem dar tempo ao tempo
de sequer fugir pelos ramos!


(Trad. A.M.)

.

15.2.26

Francisco J. Craveiro Carvalho (14 Dez 2021)





14 DEZ 2021

 

Solteiro a vida inteira.
Sétimo dia. Em bom sítio 
o andar vende-se sempre.
O pior são os livros científicos.
Quem é que quer aquilo? 

FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)

 

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13.2.26

Jesús Muñárriz (Calar)




CALLAR

 

Callar es más prudente,
más seguro, más cómodo, más práctico,
callar es más astuto,
más rentable,
más útil,
callar no da problemas,
callar evita líos,
callar trae más cuenta,
callar impide que se cuelen moscas
en la boca, callar propio es de sabios,
se está muy bien
callado.

Porque el que calla
otorga
licencia, impunidad,
perdón, facilidades
y patente de corso,
y por la boca muere el pez y siempre
se ha de sentir lo que se dice y nunca
decir lo que se siente
si se quiere triunfar
en sociedad
y recibir migajas
del gran pastel
del mundo.


Jesús Muñárriz

 

Calar é mais prudente,
mais seguro, mais cómodo,
calar é mais astuto,
mais rentável,
mais útil,
calar não dá problemas,
calar evita sarilhos,
calar faz mais conta,
calar impede que entrem moscas
para a boca, calar é próprio de sábios,
o melhor é o calado.

Porque quem cala
confere
licença, impunidade,
perdão, facilidades
e carta branca
e pela boca morre o peixe
e temos de sentir sempre o que dizemos,
nunca dizer o que sentimos,
se quisermos vencer
na sociedade
e receber umas migalhas
do grande pastel
do mundo.


(Trad. A.M.)

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12.2.26

Eloy Sánchez Rosillo (Deixo a porta aberta)




 DEJO LA PUERTA ABIERTA  

 

Para vosotros, que vendréis al mundo
cuando yo me haya ido,
escribo este poema.
No sé; tal vez un día,
gracias a los azares que entreteje
la vida a cada instante,
os traerán vuestros pasos hasta él.
Dejo su puerta abierta por si acaso
y empiezo a imaginar como certeza
lo que es tan sólo un sueño.  

En mi poema puede verse el cuarto
en el que escribo hoy. Entrad, entrad
con toda confianza,
a pesar de mi ausencia.
Y aproximaos al balcón. Transcurre
una tarde hermosísima
de finales de agosto. 

Después de tantos días implacables
de luz arrasadora,
el tiempo ha dado un giro inesperado.
Son una bendición para los ojos
estas horas distintas. Se diría
que anda de retirada ya el verano.
Da pena despedirlo
(todo lo que se va nos duele al irse),
pero el cambiar también es alegría.  

Por momentos están amontonándose
nubes negras y grises en el cielo
y el viento las trajina y las sojuzga
sin miramiento alguno.
La tarde se oscurece más y más.
Y al fin rompe a llover. Qué maravilla.
Llueve con fuerza, a ráfagas violentas,
y las fulguraciones enlazadas
de incesantes relámpagos
abren paso a los truenos,
que tropiezan y ruedan allá arriba
con estruendo imponente.  

Mirad y oled la lluvia,
disfrutad de esta tarde en la que no
podremos estar juntos.
Sabed que la escribí con regocijo.
Y que pensé en vosotros.

Eloy Sánchez Rosillo

 

É para vós, chegados a este mundo
quando eu já tiver partido,
que eu escrevo este poema.
Não sei, talvez um dia,
pelos acasos que a vida tece
a cada instante,
vossos passos vos trarão até aqui.
Deixo para tal caso a porta aberta
e ponho-me a imaginar como certeza
o que por ora é só um sonho.

Pode ver-se o quarto no meu poema,
este em que escrevo hoje. Entrai,
entrai à confiança,
apesar da minha ausência.
E chegai à varanda, está
uma tarde belíssima
de fins de Agosto.

Depois de tantos dias implacáveis
de luz arrasadora,
o tempo deu uma volta inesperada.
São uma bênção para a vista
estas horas diferentes, dir-se-ia
que o verão está já em retirada.
Dá pena impô-lo
(tudo o que se vai nos custa ao ir-se)
mas mudar também é alegria.

Por momentos amontoam-se
nuvens de negro e cinza no céu
e o vento arrasta-as e subjuga-as
sem a mínima consideração.
A tarde escurece mais e mais,
e por fim rompe a chover. Que maravilha,
chove com força, bátegas violentas,
e as fulgurações ligadas
com incessantes relâmpagos
abrem passo aos trovões,
que tropeçam e rodam lá em cima
com estrondo impoente.

Olhai para a chuva e cheirai,
desfrutai esta tarde em que não
poderemos estar juntos.
Sabei que a escrevi satisfeito
e que pensei em vós.


(Trad. A.M.)

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10.2.26

Lêdo Ivo (Contrabandista)





CONTRABANDISTA

 

Nenhum poeta é obscuro.
Tudo o que ele diz é claro
como um palavrão num muro.

Mais claro que a luz acesa
é o poema mais hermético.
Pão matinal numa mesa.

Na noite misteriosa
nenhum mistério prospera:
apenas freme uma rosa.

Qualquer menino decifra
o soneto indecifrável
e o verso mais sibilino.

O poeta sempre diz tudo
quando se cala em seu nada.
É um contrabandista mudo

na alfândega da vida.

Lêdo Ivo

>> Revista (30p) / Escritas (9p) / Academia / Wikipedia

  

8.2.26

Elías Moro (Chega a luz)




VIENE LA LUZ       
     


Viene la luz esta mañana
a contarme los colores
mira, me dice, este es el nuevo azul
del aire poblándose de pájaros,
ese de ahí el blanco de estreno
brazando al rosa casi muerto,
ocre viejo es aquel otro
de la tierra que pardea,
observa qué bellos los verdes
que se duermen en el estío
el amarillo redondo es el sol,
la sangre del día el rojo que estalla
y has de saber, me dice,
que ese gris que ignora dónde posarse
es la niebla insegura y dulce,
semejante en todo a tu mirada.
 

Elías Moro 

 

Chega a luz esta manhã
a contar-me as cores
olha, diz-me ela, este é o novo azul
do ar a povoar-se de pássaros,
esse aí é o branco a estrear
abraçando o rosa quase morto,
ocre velho é aquele outro
da terra pardacenta,
olha que belos verdes
que adormecem no estio,
o amarelo redondo é o sol,
o sangue do dia o vermelho que explode
e hás-de saber, diz-me ainda,
que esse cinza que não sabe onde há-de pousar
é a névoa insegura e doce,
semelhante em tudo ao teu olhar.
 

(Trad. A.M.)


.

7.2.26

Antonio Orihuela (A poesia é um incêndio)





A poesia é um incêndio
por isso não dá para viver
dá para arder, 

não escrevas,
arde nela.

 

Antonio Orihuela
(Trad. C.Abreu)

.

5.2.26

Fernando Pessoa (Ela canta, pobre ceifeira)




 

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa

[Arquivo Pessoa]

.

3.2.26

Eduardo Moga (Os haykus do cego e do cão)




LOS HAIKÚS DEL CIEGO Y EL PERRO

 

El ciego mete
al lánguido mastín
bajo el asiento.
.

El perro quiere
salir, pero el ciego
es inflexible.
.

El ciego ve
otras oscuridades.
También el perro.
.

Se mueve el perro
y, minuciosamente,
se mueve el ciego.
.

¿Transcurre el tiempo
entre el paso del perro
y el del ciego?

(Y un corolario afín)
.

:El tuerto ¿ve
tan sólo la mitad
de lo que existe?


Eduardo Moga

 

O cego mete
o lânguido mastim
sob o assento.
.

O cão quer
sair, mas o cego
é inflexível.
.

O cego vê
outras escuridões.
O cão também.
.

O cão move-se
e. minuciosamente,
também o cego.
.

O tempo corre
entre o passo do cão
e o do cego?

(E um corolário afim)
.

O zarolho vê
apenas metade
do que existe?


(Trad. A.M.)

.

2.2.26

David Mayor (Refúgio)




REFUGIO

 

Blanca y yo sentados en una terraza. Hemos visitado
la casa de Miguel Torga, un chalet sencillo en un
apartado barrio residencial, apenas libros y en el
jardín un melocotonero, el árbol del membrillo y
las aldefas que tengo en la memoria. Ella lee y yo me
pongo a escribir sin saber para qué. Ese es el único
sentido. Miro a los niños que juegan con el agua y
llevan coronas de alambre y papel. Vuela un mirlo
cerca del suelo con la fácil armonía de lo inmediato.
Creo que escribir esto es escribir la serenidad a la que
quiero volver cuando otro día también lo lea.


David Mayor

 

 

Blanca e eu sentados numa esplanada. Visitámos
a casa de Miguel Torga, moradia simples num
pacato bairro residencial, só livros
e no jardim um pessegueiro, o marmeleiro
e os loendros que me ficaram na lembrança.
Ela lê e eu ponho-me a escrever sem saber para quê.
Tal é o único sentido. Olho as crianças que brincam
com água, tendo na cabeça umas coroas de papel
e arame. Um melro voa rente ao solo,
com a fácil harmonia do imediato. Escrever isto,
creio, é escrever a serenidade a que quero voltar,
um dia também, quando o ler.


(Trad. A.M.)

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