30.11.25

Angel González (Está tudo explicado)




ESTÁ TUDO EXPLICADO

 

A esperança – dantes tão diligente –
há tempos que não nos visita.

Ultimamente distraía-se,
chegava sempre tarde, e chamava-nos
com nomes de parentes já falecidos.
Olhava para nós com olhos vidrados,
como esses espelhos que perdem o azougue.
Tocava-nos com mãos imperceptíveis,
mas de manhã estávamos cheios de arranhões.
Também nos dava moedas que depois não serviam.

Mas agora nem isso.
Não aparece já há tanto tempo,
que eu até cheguei a pensar:
                                            será que terá morrido?

Depois caí na conta
de que os mortos éramos nós.


Ángel González

(Trad. A.M.)

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