5.2.26

Fernando Pessoa (Ela canta, pobre ceifeira)




 

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa

[Arquivo Pessoa]

.

3.2.26

Eduardo Moga (Os haykus do cego e do cão)




LOS HAIKÚS DEL CIEGO Y EL PERRO

 

El ciego mete
al lánguido mastín
bajo el asiento.
.

El perro quiere
salir, pero el ciego
es inflexible.
.

El ciego ve
otras oscuridades.
También el perro.
.

Se mueve el perro
y, minuciosamente,
se mueve el ciego.
.

¿Transcurre el tiempo
entre el paso del perro
y el del ciego?

(Y un corolario afín)
.

:El tuerto ¿ve
tan sólo la mitad
de lo que existe?


Eduardo Moga

 

O cego mete
o lânguido mastim
sob o assento.
.

O cão quer
sair, mas o cego
é inflexível.
.

O cego vê
outras escuridões.
O cão também.
.

O cão move-se
e. minuciosamente,
também o cego.
.

O tempo corre
entre o passo do cão
e o do cego?

(E um corolário afim)
.

O zarolho vê
apenas metade
do que existe?


(Trad. A.M.)

.

2.2.26

David Mayor (Refúgio)




REFUGIO

 

Blanca y yo sentados en una terraza. Hemos visitado
la casa de Miguel Torga, un chalet sencillo en un
apartado barrio residencial, apenas libros y en el
jardín un melocotonero, el árbol del membrillo y
las aldefas que tengo en la memoria. Ella lee y yo me
pongo a escribir sin saber para qué. Ese es el único
sentido. Miro a los niños que juegan con el agua y
llevan coronas de alambre y papel. Vuela un mirlo
cerca del suelo con la fácil armonía de lo inmediato.
Creo que escribir esto es escribir la serenidad a la que
quiero volver cuando otro día también lo lea.


David Mayor

 

 

Blanca e eu sentados numa esplanada. Visitámos
a casa de Miguel Torga, moradia simples num
pacato bairro residencial, só livros
e no jardim um pessegueiro, o marmeleiro
e os loendros que me ficaram na lembrança.
Ela lê e eu ponho-me a escrever sem saber para quê.
Tal é o único sentido. Olho as crianças que brincam
com água, tendo na cabeça umas coroas de papel
e arame. Um melro voa rente ao solo,
com a fácil harmonia do imediato. Escrever isto,
creio, é escrever a serenidade a que quero voltar,
um dia também, quando o ler.


(Trad. A.M.)

.

31.1.26

Eugénio de Andrade (À beira de água)




À BEIRA DE ÁGUA

 

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
 

Eugénio de Andrade

 .

29.1.26

David González (Sequelas)




ESQUELAS

 

mi abuela
tiene la manía
de sentarse a leer
las esquelas del periódico
todos los días
después de fregar
los cacharros de la comida.
las repasa una y otra vez,
como si estuviera estudiando
para un examen,
y hay veces
que no puede evitar
que se le escape
un suspiro de alivio
al comprobar
que ni su nombre
ni sus apellidos
están escritos
en ninguna de ellas,
aunque luego
siempre te diga:

llegar a esta edad
no se lo deseo
ni a mi peor enemigo.

David González

 

minha avó
tem a mania
de sentar-se a ler
as sequelas do jornal
todos os dias
depois de esfregar
a louça da comida.
relê uma e outra vez,
como se estudasse
para um exame,
e há vezes
em que não pode evitar
que lhe escape 
um suspiro de alívio 
ao verificar
que nem seu nome 
nem apelidos 
constam do que lê, 
embora depois
diga sempre:

chegar a esta idade
não é de desejar 
nem ao pior inimigo.

(Trad. A.M.)

 .

28.1.26

Jesús Muñárriz (Ladrões)




LADRONES

 

Para robar la paz
roban primero la palabra
y la proclaman en la guerra. 

Para robar la libertad
roban primero sus tres sílabas
y las enristran como armas. 

Para robar la democracia
roban primero sus diez letras
y las someten y amordazan. 

Ladrones, ladrones, ladrones,
ni paz, ni libertad, ni democracia,
sólo palabras, palabras, 
ladrones.
 

Jesús Muñárriz

 

Para roubarem a paz
roubam primeiro a palavra
e erguem-na ao alto na guerra. 

Para roubar a liberdade
roubam primeiro as três sílabas 
que enristam como armas. 

Para roubar a democracia 
roubam primeiro as dez letras
que amordaçam e submetem. 

Ladrões, ladrões, ladrões,
nem paz, nem liberdade, nem democracia,
só palavras, palavras,
ladrões. 

(Trad. A.M.)

 

>>  Poesi.as (20 p) / A media voz (26 p) / Letralia (7 p) / Zenda (5p) /Zenda (6p)

.


26.1.26

Eduardo Guerra Carneiro (O pó dos passeios)




O PÓ NOS PASSEIOS



O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz é mais nítida.
Os corpos se mostram. Em algumas
praias residem dialectos. Turismo
nos marca com ferro diferente
em costumes e fala. Nas ruas se vende
o jornal da estranja. O burro
ainda merca. Alfarroba em bolsa.
O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz ainda é nítida.
Só de certo modo. Só em certas terras.
Turismo na farda. No bolso o desdém.


Eduardo Guerra Carneiro

.