29.3.26

Isabel Fraire (O nome da luz)




O nome da luz
nos mandam as estrelas 

lâmpada
escura luz
tirada da terra 

luz e noite se assombram
mutuamente  

amanhecer

de repente
a luz se faz silêncio  

a luz
nada no silêncio 
o dia move-se 

a luz brinca de espelho
e baila
coquete excitada
com a própria sombra 

corre na água 
a luz
perseguida por seus cabelos 

luz nos vidros
pássaro detido
luz na água
bando em fuga 

luz lânguida suspira
em teu corpo calado 

assomo a teus olhos
e atravesso
países luminosos
 

Isabel Fraire 

(Trad. A.M.)

 .


28.3.26

Iosu Moracho Cortés (Dia 167)




DÍA CIENTO SESENTA Y SIETE

 

Lo dice Ernesto Sábato:
Es el otro el que siempre nos salva.

Tiene razón,
por sí solos, nosotros
estamos perdidos.

Iosu Moracho Cortés

 


Di-lo Ernesto Sábato:
É o outro quem nos salva sempre.

E tem razão,
sozinhos, nós
estamos perdidos.


(Trad. A.M.)

.

26.3.26

Helga Moreira (Tenho a vida feita num novelo)




Tenho a vida feita num novelo,
não pertenço a lado nenhum,
não tenho
país ou terra, nenhuma raiz,
nem escolhas ou nome,
nada a dizer, nada a calar, 

nem harmonias ou crenças
nem desígnios. 

Uma linha apenas
num mar de mós
sem moinhos.

Helga Moreira

 .

24.3.26

Idea Vilariño (Quando comprar um espelho)




Cuando compre un espejo para el baño
voy a verme la cara
voy a verme
pues qué otra manera hay decíme
qué otra manera de saber quién soy.
Cada vez que desprenda la cabeza
del fárrago de libros y de hojas
y que la lleve hueca atiborrada
y la deje en reposo allí un momento
la miraré a los ojos con un poco
de ansiedad de curiosidad de miedo
o sólo con cansancio con hastío
con la vieja amistad correspondiente
o atenta y seriamente mirarme
como esa extraña vez-mis once años-
y me diré mirá ahí estás
seguro
pensaré no me gusta o pensaré
que esa cara fue la única posible
y me diré esa soy yo ésa es idea
y le sonreiré dándome ánimos.


Idea Vilariño 

 

Quando comprar um espelho
vou ver a minha cara
vou ver-me
pois que outro modo há dizei-me
que outro modo de saber quem sou.
Cada vez que soltar a cabeça
da desordem de livros e folhas
e a trouxer oca a abarrotar
e a deixar um momento ali em repouso
hei-de olhá-la nos olhos com um pouco
de ansiedade, medo, curiosidade
ou só com cansaço ou fastio
com a velha e devida amizade
ou olhar-me atenta e séria
como daquela vez – nos meus onze anos –
e direi olha, estás aí,
decerto
pensarei não me agrada ou pensarei
que essa cara foi a única possível
e direi essa sou eu essa é Idea
e hei-de sorrir-lhe e dar-me ânimo.
 

(Trad. A.M.)

 .

23.3.26

Horacio Castillo (Geração)




GENERACIÓN 

 

Animales de carne y hueso, con un poco de luz
   irremediable en los ojos,
a veces nos creíamos criaturas heroicas
y corríamos a las plazas. Escuchábamos
bellísimas palabras, las voces se otorgaban idéntico calor
y sentíamos el placer de la acción.
Pero luego, entre ruinas, comiendo el pan del sobreviviente,
comprendíamos. Y al salir el sol,
mientras los escarabajos emergían de las piedras,
avivábamos el fuego para ahuyentar la peste
y llorábamos por la siguiente generación.
 

Horacio Castillo  

[Otra iglesia]

  

Animais de carne e osso, com um pouco de luz
nos olhos, irremediável,
às vezes julgávamo-nos criaturas heróicas
e corríamos às praças. Escutávamos 
belas palavras, as vozes assumiam o mesmo calor
e sentíamos o prazer da acção.
Mas depois, entre ruínas, comendo o pão do sobrevivente,
compreendíamos enfim. E ao vir o sol,
com os escaravelhos a emergir dentre as pedras,
avivávamos o fogo para afugentar a peste
e chorávamos pela geração seguinte.
 

(Trad. A.M.)

 .

21.3.26

Armando Silva Carvalho (Janeiro de sessenta e dois)

 



JANEIRO DE SESSENTA E DOIS

 

Janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés. 

Mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés. 

Sacodem-no apressadas as varinas,
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas. 

Seus dias vão depressa para os ardinas,
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos,
metido com vamps americanas. 

Janeiro português por onde poisas,
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto as coisas
e a tia chega ao fim da camisola.

Armando Silva Carvalho 

[Instituto Camões]

.

 

19.3.26

Hilario Barrero (Maré alta)




MAREA ALTA



Somos como dos islas separadas
porque nos cubre el agua
y solo deja ver nuestras cabezas.
Si en el mar que vivimos hubiera una marea,
cuando el agua bajara,
los que miran con ojos de secano,
verían que la base es una roca firme,
incrustada de fechas, pasiones y recuerdos,
que la vida que todo lo erosiona
intenta separar, pero no puede.


Hilario Barrero

 

 

Somos como duas ilhas separadas
porque nos cobre a água,
deixando à mostra só as cabeças.
Se no mar que vivemos houvesse maré,
quando a água baixasse,
os que olham com olhos de sequeiro     
veriam que o fundo é rocha firme,
incrustada de datas, paixões e lembranças,
que a vida que tudo rompe
tenta separar, mas não consegue.


(Trad. A.M.)

.