29.1.08

Albano Martins (Como um livro)










COMO UM LIVRO










Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma:
encontrei-a no índice.




Albano Martins



Fontes: As Tormentas (bio+27p) / Um-buraco-na-sombra (24p) / Lídia Aparício (16p) / DGLB (bio+biblio+linques) / nEscritas (5p) / Poesias-e-prosas (7p) / P.Vercial (perfil)
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Antes, aqui: Quatro perguntas





Corpo presente (37)






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A MORTE DA MÃE






A morte da mãe
torna o filho mortal
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27.1.08

Hilda Hilst (Não me procures ali)




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Não me procures ali
onde os vivos visitam
os chamados mortos.
Procura-me
dentro das grandes águas
nas praças
num fogo coração
entre cavalos, cães,
nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
ou espelhada
num outro alguém,
subindo um duro caminho.
Pedra,
semente, sal
passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.



Hilda Hilst

24.1.08

Miguel Torga (Algarve)






O Algarve, para mim, é sempre um dia de férias na pátria.

Dentro dele nunca me considero obrigado a nenhum civismo, a nenhuma congeminação telúrica nem humana.

Debruço-me a uma varanda de Alportel e apetece-me tudo menos ser responsável e ético.

As coisas de Trás-os-Montes tocam-me muito no cerne para eu poder esquecer a solidariedade que devo a quem sofre e a quem sua.

E isto repete-se com maior ou menor força no resto de Portugal.

Mas, passado o Caldeirão, é como se me tirassem uma carga dos ombros.

Sinto-me livre, aliviado e contente, eu que sou a tristeza em pessoa!

A brancura dos corpos e das almas, a limpeza das casas e das ruas, e a harmonia dos seres e da paisagem lavam-me da fuligem que se me agarrou aos ossos e clarificam as courelas encardidas que trago no coração.

No fundo, e à semelhança dos nossos primeiros reis, que se intitulavam senhores de Portugal e dos Algarves, separando sabiamente nos seus títulos o que era centrípeto do que era centrífugo no todo da Nação, não me vejo verdadeiramente dentro da pátria.

Também me não vejo fora dela.

Julgo-me numa espécie de limbo da imaginação, onde tudo é fácil, belo e primaveril.



- MIGUEL TORGA, Portugal (O Algarve).

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Nuno Júdice (Princípios)





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PRINCÍPIOS






Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.


Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.


Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.





Nuno Júdice
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Fontes: nEscritas (24p) / As Tormentas (bio+14p) / DGLB (bio+biblio) / Pen Clube (idem)
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18.1.08

Angel González (Luz llamada día trece)





LUZ LLAMADA DÍA TRECE






A cada cosa por su solo nombre.
Pan significa pan; amor, espanto;
madera, eso; primavera, llanto;
el cielo, nada; la verdad, el hombre.
Llamemos luz al día, aunque se asombre
quien dice "Es martes hoy, ayer fue santo
Tomás, mañana será fiesta". ¡Cuánto
más verdadera que cualquier pronombre
es esa luz que cuaja el aire en día!
Hoy es la luz llamada día trece
de materia de mayo y sol, digamos.
Y si hablamos de mí -puesto que hablamos,
de algo hay que hablar-, digamos todavía:
pasión fatal que como un árbol crece.







Cada coisa com seu nome.
Pão é pão; amor, espanto;
madeira, isso mesmo; primavera, pranto;
o céu, nada; a verdade, o homem.
Chamemos luz ao dia, embora se espante
quem diz “É terça hoje, ontem foi o S. Tomás
e amanhã é dia de festa”. Muito mais
verdadeira do que qualquer pronome
é esta luz que coalha o ar em dia!
Hoje é a luz chamada dia treze
de matéria de Maio e sol, digamos assim.
E se falamos de mim - dado que falamos,
de algo havemos de falar - digamos ainda:
paixão fatal, que cresce como árvore.

(Trad. A.M.)
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Fontes: El Pais (notícia da morte: 12.1.2008) / Cervantes (tudo+algo) / A-media-voz (bio+53p) / Poesi-as (30p) / EPLP (bio+poemas+audio) / Um-buraco-na-sombra (bio+22p)
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Um verso (40)





Um verso de Ruy Belo
(media vita…):






Resta-me um sonho desconexo e desconforme.

15.1.08

Pedro Mexia (Ao contrário de Ulisses)










AO CONTRÁRIO DE ULISSES





Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.





PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)




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12.1.08

Miguel Torga (Lisboa)





Lisboa é bonita.

Está ainda para nascer o primeiro insensível que no alto de Santa Catarina não arregale os olhos de espanto diante da formosura dum panorama que a natureza se não gaba de ter repetido.

Entre a investida castelhana do Doiro, em cima, e o esquivo namoro andaluz do Guadiana, em baixo, Portugal merecia a visita calma e demorada dum grande curso de água, que sem a ajuda de noras lhe matasse a sede e, sem leixões, fosse um porto de abrigo.

A secura do corpo pedia refrigério; a agressão do oceano, protecção das vagas.

Quis a sorte que assim fosse e o Tejo abrisse no calcário estremenho um estuário largo e majestoso, fundo e aconchegado que, depois de magoar os montes, os transformasse em miradoiros de sonho.

E de cada colina onde a gente se debruça é um pasmo sem limitações que abrange o céu e a terra na mesma agradecida emoção.

Sobre a toalha límpida do rio cai luz a jorros duma lâmpada hialina, escondida no tecto azul do cenário; e o movimento ritmado das embarcações, o perfil recortado do casario e o enquadramento dos longes arredondam a beleza da tela, dando-lhe realidade.

E, quer queira, quer não, o espírito fica rendido a uma bênção de cor, de grandeza e de harmonia



- MIGUEL TORGA, Portugal (Lisboa).


10.1.08

Eugénio de Andrade (As amoras)





AS AMORAS





O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.




EUGÉNIO DE ANDRADE
O Outro Nome da Terra



Fonte: Fundação E.A.

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9.1.08

Coitado do Jorge (41)





O EROTISMO




Fui passear para os campos, com a Ju.
Às tantas, no meio dos arrozais, dou-me conta que deixei o erotismo esquecido, na mala do carro (G. Bataille, a meio de lido…).



Logo eu, que nunca saio de casa sem ele!
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5.1.08

Amalia Bautista (Hospital de incurables)







HOSPITAL DE INCURABLES





Puedes venir a verme quando quieras
ya sabes donde estoy. Mis compañeros
son muchos pero yo me siento sola.
Hay un inválido que nunca pudo
tirarse a la piscina milagrosa.
Hay un pobre leproso cuyo cuerpo
es una enorme llaga siempre abierta.
Y un apestado. Y un tuberculoso.
Y otro con fiebres. Y otro más que nunca
pudo curar con hiel sus ojos ciegos.
Y yo, más incurable que ninguno
desde que me arrancaste el corazón
y lo pusiste en venta en un mercado.


Amalia Bautista




Fonte: Um-buraco-na-sombra





Podes vir ver-me quando quiseres,
sabes onde estou. Meus companheiros
são muitos, mas eu sinto-me só.
Há um inválido que nunca se pôde
atirar à piscina milagrosa.
Há um pobre leproso com o corpo
numa enorme chaga sempre aberta.
Há um que tem peste. E um tuberculoso.
E um outro com febres. E outro ainda
que nunca pôde curar os olhos cegos com fel.
E eu, mais incurável que todos
depois que me arrancaste o coração
e o puseste à venda na feira.



(Trad. A.M.)

1.1.08

Casimiro de Brito (A paz)





A PAZ




Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?
Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: o que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?
Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te: o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?




CASIMIRO DE BRITO
Jardins de Guerra (1966)
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