11.1.26

Armindo Rodrigues (Fosse o verme nuvem)




(XXXVII)

 

Fosse o verme nuvem,
por força teria
saudades do chão.

ARMINDO RODRIGUES
Quadrante Solar
IN/CM (1984)

 .

9.1.26

Ángeles Mora (Nuvens)




NUVENS

 

A alegria mais alta
esconde sempre um assombra
invisível,
agachada, de tristeza.
Tal como a melancolia
atravessa o riso
desta mulher que brinca
com o neto.


Ángeles Mora

(Trad. A.M.)

.

8.1.26

Alfonso Brezmes (O que brilha)



LO QUE BRILLA 

 

En este cuenco invisible
estoy bien siendo una lenteja
puesta a remojo junto a las demás.
Algunas tardan más
y flotan
pero yo soy de las primeras
en hundirse. No se está mal
mirando el universo
desde abajo. Lo que brilla
son lentejas caídas o a punto de caer.
Si las quieres las tomas, nos decía
mi madre, y si no las dejas.
La oscuridad son lentejas que esperan
la transición de la materia
en un plato de luz.
 

Alfonso Brezmes

 

Nesta taça invisível
estou bem sendo uma lentilha
a demolhar como as outras.
Algumas demoram mais
e bóiam
mas eu sou das primeiras
a afundar. Não se está mal
a olhar para o universo
lá de baixo. O que brilha
são lentilhas caídas ou quase a cair.
Se as quiseres pega, dizia-nos
minha mãe, senão deixa.
A escuridão são lentilhas que esperam
a transição da matéria
num prato de luz.
 

(Trad. A.M.)

 .

6.1.26

António Maria Lisboa (Projecto de sucessão)





PROJECTO DE SUCESSÃO

 

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar fumar um cigarro só até meio

Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.

 António Maria Lisboa

 .

4.1.26

Cecilia Casanova (Enquanto chove)





MIENTRAS LLUEVE DE ABAJO PARA ARRIBA


Sin padre
ni madre
ni perro que te ladre
arrancas las hojas del calendario
mientras llueve de abajo para arriba
y en tu cuarto se acentúa ese aire de estación
de paradero
con los muros tapados de postales
y de niños que crecen por fotografias.
Entristece pensar que así como se han ido estos años
puedan irse otros todavía
haciéndosenos tarde para todo
menos para comprobar
lo que tú y yo hemos sufrido.


Cecilia Casanova

 

 

Sem pai
nem mãe
nem cão que te ladre
arrancas as folhas do calendário
enquanto chove de baixo para cima
e em teu quarto se instala esse ar
de estação de comboio
com as paredes cobertas de cartazes
e de fotografias de crianças.
Entristece pensar que assim como passaram estes anos
possam passar outros ainda
fazendo-se-nos tarde para tudo
menos para ver
como ambos temos sofrido.


(Trad. A.M.)

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3.1.26

Carmen Martín Gaite (Clarão)



DESTELLO                 

 

Hoy habláis otra lengua,
lirios que os despeináis bajo la lluvia.
Me apresáis con vosotros
igual que si me viera en un espejo.
Y tengo que dejaros.
Tiran de mí precisamente ahora
que acabo de encontrarme
-pequeña, pura-
entre vuestras corolas.
Voy a cerrar los ojos,
-no deshagan la imagen.
Y me iré sin miraros otra vez.
Ay! Cuando vuelva a veros
¿sabré ya comprender este lenguaje vuestro
que un minuto ha rasgado mi tiniebla
oh lirios despeinados por la lluvia?


Carmen Martín Gaite

 


Hoje falais outra língua,
ó lírios despenteados à chuva,
prendeis-me convosco,
como se eu me visse num espelho.
Mas tenho de vos deixar,
puxam-me logo agora
que eu acabo de me encontrar
- pequenina, pura -
no meio das vossas corolas.
Vou fechar os olhos
- não me apaguem a imagem -
e vou-me sem vos olhar outra vez.
Ai, quando vos voltar a ver
saberei eu perceber a vossa linguagem
que por um instante rasgou minha treva,
ó lírios despenteados pela chuva?


(Trad. A.M.)

 .

1.1.26

Alessandro Celani (Lembras os dias)




Ricordi i giorni spesi
a far niente senza colpa
i paradisi perduti
ancora prima d’esser presi?
Ed ora tocca a noi
col tempo che svanisce
e la voce fatta impura
togliere la mano e fare una figura
l’uno dell’altra
immobile silente
addormentata cura

Alessandro Celani

 

Lembras os dias passados
sem culpa a não fazer nada
os paraísos perdidos
antes mesmo de serem tomados?
E agora cabe-nos a nós
com o tempo que se esvai
e a voz tornada impura
tirar a mão e fazer uma figura
um do outro
imóvel silente
adormecido cuidado.


(Trad. A.M.)

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