16.1.26

Billy Collins (Silêncio)




SILENCE


There is the sudden silence of the crowd
above a player not moving on the field,
and the silence of the orchid.

The silence of the falling vase
before it strikes the floor,
the silence of the belt when it is not striking the child.

The stillness of the cup and the water in it,
the silence of the moon
and the quiet of the day far from the roar of the sun.

The silence when I hold you to my chest,
the silence of the window above us,
and the silence when you rise and turn away.

And there is the silence of this morning
which I have broken with my pen,
a silence that had piled up all night

like snow falling in the darkness of the house
- the silence before I wrote a word
and the poorer silence now.

Billy Collins

[Poem hunter]

 

Há o silêncio súbito da multidão
sobre um jogador parado no campo
e o silêncio da orquídea.

O silêncio do vaso a tombar
antes de cair no chão,
o silêncio do cinto quando
não está batendo na criança.

A calma da chávena e da água nela,
o silêncio da lua
e o sossego do dia longe do bramido do sol.

O silêncio quando eu te aperto contra o peito,
o silêncio da janela por cima de nós,
e o silêncio quando tu te levantas e vais embora.

E há o silêncio desta manhã
que eu interrompo com a caneta,
um silêncio a amontoar-se a noite toda

como neve a cair no escuro da casa
- o silêncio antes de eu escrever uma palavra
e o silêncio mais pobre de agora.


(Trad. A.M.)

.

14.1.26

Chantal Maillard (O tempo não existe)




El tiempo no existe. Se repliega.

Y en cada uno de sus pliegues
nos invita
a ser
de nuevo
lo que fuimos.

Todo es simultáneo. Tan solo
en el discurso
hay un tiempo que fue
y otro por venir.

Despójate de ti.

Actúa

Sin temer la salida.

Chantal Maillard

 

 

O tempo não existe. Recolhe-se.

E em cada uma de suas dobras
incita-nos
a ser
de novo
aquilo que já fomos.

Tudo é simultâneo. Apenas
no discurso
há um tempo que foi
e outro por vir.

Despoja-te de ti.

Actua.

Sem temer a saída.


(Trad. A.M.)

.

13.1.26

César Cantoni (Aqui não há Deus)




AQUÍ NO HAY DIOS 

 

Aquí no hay dios, ni griego ni romano, 
que presida ninguna ceremonia.
No hay oro ni laurel para los vencedores. 

Aquí no hay más que un piquete de obreros, 
con martillos neumáticos, rompiendo la calzada, 
haciendo un pozo que no será nunca  

el ombligo del mundo, la fuente de las revelaciones. 
Un pozo más hondo que el sentimiento de los dioses, 
más negro que el propio corazón humano. 
 

César Cantoni  

[Otra iglesia] 

 

Aqui não há deus, grego ou romano,
que presida a qualquer cerimónia.
Não há ouro nem louro para os vencedores. 

Aqui não há mais que um piquete operário,
com martelos pneumáticos, rasgando a calçada,
abrindo um poço que não será nunca 

o umbigo do mundo, a fonte das revelações.
Um poço mais fundo que os sentimentos dos deuses,
mais negro que o próprio coração humano.
 

(Trad. A.M.)

 .

11.1.26

Armindo Rodrigues (Fosse o verme nuvem)




(XXXVII)

 

Fosse o verme nuvem,
por força teria
saudades do chão.

ARMINDO RODRIGUES
Quadrante Solar
IN/CM (1984)

 .

9.1.26

Ángeles Mora (Nuvens)




NUVENS

 

A alegria mais alta
esconde sempre um assombra
invisível,
agachada, de tristeza.
Tal como a melancolia
atravessa o riso
desta mulher que brinca
com o neto.


Ángeles Mora

(Trad. A.M.)

.

8.1.26

Alfonso Brezmes (O que brilha)



LO QUE BRILLA 

 

En este cuenco invisible
estoy bien siendo una lenteja
puesta a remojo junto a las demás.
Algunas tardan más
y flotan
pero yo soy de las primeras
en hundirse. No se está mal
mirando el universo
desde abajo. Lo que brilla
son lentejas caídas o a punto de caer.
Si las quieres las tomas, nos decía
mi madre, y si no las dejas.
La oscuridad son lentejas que esperan
la transición de la materia
en un plato de luz.
 

Alfonso Brezmes

 

Nesta taça invisível
estou bem sendo uma lentilha
a demolhar como as outras.
Algumas demoram mais
e bóiam
mas eu sou das primeiras
a afundar. Não se está mal
a olhar para o universo
lá de baixo. O que brilha
são lentilhas caídas ou quase a cair.
Se as quiseres pega, dizia-nos
minha mãe, senão deixa.
A escuridão são lentilhas que esperam
a transição da matéria
num prato de luz.
 

(Trad. A.M.)

 .

6.1.26

António Maria Lisboa (Projecto de sucessão)





PROJECTO DE SUCESSÃO

 

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar fumar um cigarro só até meio

Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.

 António Maria Lisboa

 .