2.4.25

Rafael Cadenas (Derrota)




DERROTA 

 

Yo que no he tenido nunca un oficio
que ante todo competidor me he sentido débil
que perdí los mejores títulos para la vida
que apenas llego a un sitio ya quiero irme (creyendo que mudarme es una solución)
que he sido negado anticipadamente y escarnecido por los más aptos
que me arrimo a las paredes para no caer del todo
que soy objeto de risa para mí mismo
que creí que mi padre era eterno
que he sido humillado por profesores de literatura
que un día pregunté en qué podía ayudar y la respuesta fue una risotada
que no podré nunca formar un hogar, ni ser brillante, ni triunfar en la vida
que he sido abandonado por muchas personas porque casi no hablo
que tengo vergüenza por actos que no he cometido 

me extravío una frescura nueva, y obstinadamente
me suicido al alcance de la mano
me levantaré del suelo más ridículo todavía para seguir burlándome de los otros
y de mí hasta el día del juicio final
 

Rafael Cadenas

 

Eu que nunca tive um ofício
que me senti fraco diante de qualquer um
que perdi os melhores títulos para a vida
que mal chego a qualquer lado quero logo ir-me embora
(pensando que a solução é mudar-me)
que fui sempre negado e escarnecido pelos mais aptos
que me  agarro às paredes para não cair de todo
que sou objecto de riso de mim mesmo
que acreditei que meu pai era eterno
que fui humilhado por professores de literatura
que um dia perguntei em que podia ajudar e a resposta foi uma risada
que não poderei jamais fazer um lar, nem ser brilhante, nem triunfar na vida
que fui abandonado por muitos porque quase não falo
que tenho vergonha por coisas que não fiz

desencaminho uma frescura nova e obstinadamente
suicido-me ao alcance da mão
erguer-me-ei do chão mais ridículo ainda para troçar dos outros
e de mim até ao juízo final


(Trad. A.M.)

 .

31.3.25

Jorge Luis Borges (Um livro)





UN LIBRO          

 

Apenas una cosa entre las cosas
pero también un arma. Fue forjada
en Inglaterra, en 1604,
y la cargaron con un sueño. Encierra
sonido y furia y noche y escarlata.
Mi palma la sopesa. Quién diría
que contiene el infierno: las barbadas
brujas que son las parcas, los puñales
que ejecutan las leyes de la sombra,
el aire delicado del castillo
que te verá morir, la delicada
mano capaz de ensangrentar los mares,
la espada y el clamor de la batalla.

Ese tumulto silencioso duerme
en el ámbito de uno de los libros
del tranquilo anaquel. Duerme y espera.


Jorge Luis Borges

 

Apenas uma coisa entre as coisas
mas uma arma também. Foi forjada
em Inglaterra, em 1604,
e carregada com um sonho. Encerra
som, fúria, noite e púrpura.
Minha mão a sopesa. Quem diria
que contém o inferno: as bruxas
de barbas que são as parcas, os punhais
que executam as leis da sombra,
o ar delicado ar do castelo
que te verá morrer, a delicada
mão capaz de ensanguentar os mares,
a espada e o clamor da batalha.
 
Esse tumulto silencioso dorme
dentro de um dos livros
da tranquila estante. Dorme e espera.


(Trad. A.M.)
 
 
> Outra versão: F.P.Amaral

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29.3.25

José Agostinho Baptista (Mãe)




MÃE

 

Eu sou aquela que os vê.
E caminho pelos seus caminhos e sou a
fogueira distante.
O tempo não me apaga.
Tenho os pontos cardeais e sou a bússola nas
suas mãos,
quando eles vão sobre as águas.
Sou os mapas, a constelação, o cruzeiro do sul,
o arado, o cão,
aquela que os guarda.
Sou o regaço, as belas plumas do meu regaço,
a imensa luz de amor que cai sobre a sua
penumbra,
sobre a sua loucura.
Sou a mãe da sua vida, da sua morte.
E vou com eles, espalhando as rosas tristes,
e os meus cabelos espalham sobre os seus
cabelos as raízes brancas.
Sou aquela que escreve quando eles dormem,
sou as palavras através do sono.
E adormeço com eles,
fechando as últimas portas.
 

José Agostinho Baptista

[Antologia improvável]

 .

27.3.25

Pedro Salinas (Não recuses os sonhos)

 



No rechaces los sueños por ser sueños.
Todos los sueños pueden
ser realidad, si el sueño no se acaba.
La realidad es un sueño. Si soñamos
que la piedra es la piedra, eso es la piedra.
Lo que corre en los ríos no es un agua,
es un soñar, el agua, cristalino.
La realidad disfraza
su propio sueño, y dice:
”Yo soy el sol, los cielos, el amor.”
Pero nunca se va, nunca se pasa,
si fingimos creer que es más que un sueño.T
Y vivimos soñándola. Soñar
es el modo que el alma
tiene para que nunca se le escape
lo que se escaparía si dejamos
de soñar que es verdad lo que no existe.
Sólo muere
un amor que ha dejado de soñarse
hecho materia y que se busca en tierra.
 

Pedro Salinas

 

Não recuses os sonhos por serem sonhos,
todos os sonhos podem ser
realidade, se o sonho não se acabar.
A realidade é um sonho, se sonharmos
que a pedra é pedra, pedra será.
Não é água o que corre nos rios,
é um sonhar, da água, cristalina.
A realidade disfarça 
o seu próprio sonho, dizendo:
‘Eu sou o sol, o céu, o amor.’
Mas não desaparece, nunca passa,
se fingirmos crer que é mais que um sonho.
E se vivermos sonhando. Sonhar
é o modo que tem 
a alma para nunca lhe escapar
o que escaparia se deixarmos de sonhar 
que é verdade aquilo que não existe.
Só morre
um amor que deixámos de sonhar 
feito matéria e que buscamos na terra.
 

(Trad. A.M.)

 .

26.3.25

José Mateos (Pássaros)




PÁJAROS

 

Con su canto aligeran
el peso de las horas,

y en las tardes de junio
propagan por el aire
una verdad tan fácil
que nadie les entiende.

Quizás he atravessado
noches de fiebre y días sin consuelo
sólo para decirte:

Los escuché en mi infancia,
y aún cantan. He vivido.

José Mateos

 


Com seu canto aliviam
o peso das horas,

e nas tardes de Junho
propagam pelo ar
uma verdade tão simples
que ninguém os entende.

Acaso atravessei
noites de febre e dias sem consolo
só para dizer-te:

Eu escutei-os na infância
e cantam ainda. Eu vivi.


(Trad. A.M.)

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24.3.25

Camilo Castelo Branco (O cavalo e o cavaleiro)




(O cavalo e o cavaleiro)

Vários amigos meus lhe chamaram em letra redonda a flor da mocidade portuense; e eu mesmo, dando a nova funesta da queda, chamei-lhe ‘inteligente’; mas, como na oração havia dois agentes, ele um, e o cavalo outro, o público fez-me o favor de duvidar se eu chamava inteligente o cavalo, ou o Bazílio. (VIII)


CAMILO CASTELO BRANCO
Aventuras de Bazílio Fernandes Enxertado
(1863)

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22.3.25

Pedro López Lara (Quando se chega a certa idade)




(CVI)

CUANDO se llega a cierta edad,
los pecados se cometen sin ganas.
Falta el escalofrío que signaba
la fe, la transgresión, la pérdida del alma.

Pedro López Lara



Quando se chega a certa idade,
os pecados cometem-se já sem vontade.
Falta o calafrio que a fé selava,
a transgressão, a perdição da alma.


(Trad, A.M.)



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