22.10.17

Camilo Castelo Branco (Maria da Fonte)





Foi a Maria da Fonte a personificação fantástica de uma colectividade de amazonas de tamancos, ou realmente existiu, em corpo e fouce roçadoura, uma virago revolucionaria com aquelle nome e appellido?


É o que vamos esmiuçar. (p. 17)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

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21.10.17

Alfonsina Storni (Cansaço)





CANSANCIO



Todos, todos tenemos una hora cobarde,
una hora de hastío cuando muere la tarde.

Cuando se va el amigo que nos trae calor,
el amigo de oro, el Mago Gestador.

Cuando se juntan todas las impresiones malas
y el alma es un tejido de finísimas alas.

Cuando puede decirse: lo que fué no será;
lo que no hice hoy no lo haré nunca ya.

Es entonces, cobarde, que me acosa el deseo
de no ser y ni pienso, ni trabajo, ni creo.

Es una nulidad completa de mí misma
que me asusta y me hiere, me subyuga y abisma.

Es entonces que yo quisiera ser así
como una cosa nimia, futil, baladí.

Un chiche que se lleva guardado en el bolsillo.
una prenda cualquiera, un reloj, un anillo…

Ser una cosa muerta que la llevan cargada
y que no sabe nada y que no piensa nada.

Todos, todos tenemos una hora cobarde,
una hora de hastío cuando muere la tarde.


Alfonsina Storni





Todos nós, todos temos uma hora cobarde,
uma hora de tédio ao morrer da tarde.

Quando parte o amigo que nos dá calor,
o amigo de ouro, o Mago Criador.

Quando se juntam as más impressões 
e a alma é um tecido de finíssimas asas.

Quando pode dizer-se: o que foi já não será,
o que hoje não fiz nunca mais o farei.

É então, cobarde, que me acossa o desejo
de não ser e nem penso, nem trabalho, nem creio.

É uma completa nulidade de mim mesma
que me assusta e me fere, me subjuga e me espanta.

É então que eu gostaria de ser assim,
coisa nímia, fútil, banal.

Um brinquedo que se guarda no bolso,
uma jóia qualquer, um anel, um relógio...

Ser uma coisa morta que se leva às costas,
que não sabe nada, que não pensa em nada.

Todos nós, todos temos uma hora cobarde,
uma hora de tédio ao morrer da tarde.


(Trad. A.M.)


.

20.10.17

Silvia Ugidos (Sótão)





DESVÁN



El desván infantil donde sestea el tiempo
antiguo y polvoriento de todos los veranos
y la luz, ese enigma, que se posa despacio
entre objetos y libros, fotos de antepasados
espiando mis juegos
con las rígidas ropas de los recién casados.
Y en un rincón manzanas, pequeñas, perfumadas,
aquel baúl sin llave, misterioso y cerrado,
símbolo de los años que yo aún no conocía,
que estaban por llegar, que ahora son pasado.
Baúl adolescente que abrimos una tarde
fascinados, con miedo, silenciosos, solemnes,
tomados de la mano,
compartiendo los besos de una infancia borrosa
que de pronto nos deja y se aleja y se pierde.
He venido de nuevo a revolverlo todo,
a buscar entre fotos y naftalina y libros
yo no sé qué memoria que guardo de mí misma.
He venido otra vez, como antes, por juego,
esperando encontrar dormido en el desván
un verso elemental, una trampa, algún cepo
donde el tiempo al pasar se pillara los dedos.

Silvia Ugidos




O sótão da infância em que dorme o tempo
antigo e poeirento dos verões
e a luz, esse enigma, que pousa devagar
no meio de livros e objectos, fotos antigas,
espiando-me as brincadeiras
com as roupas tesas dos recém-casados.
E num canto maçãs, miúdas, perfumadas,
aquele baú sem chave, misterioso e fechado,
símbolo dos anos ainda por conhecer,
então do porvir e hoje já passado.
Baú adolescente que um dia abrimos
fascinados, a medo, silenciosos, solenes,
de mãos dadas,
partilhando os beijos de uma infância ilusória
que de repente nos deixa, e se alonja, e se perde.
Aqui venho de novo, a remexer tudo,
buscando entre fotos e livros e naftalina
não sei já que memória que guardo de mim mesma.
Aqui venho outra vez, como dantes, por brincadeira,
à espera de encontrar adormecido no sótão
um verso elementar, uma cilada, algum cepo
em que o tempo ao passar entalasse os dedos.



(Trad. A.M.)

.

19.10.17

José Rentes de Carvalho (Ajuste de contas)





Estranhamente, o momento que deveria ser um de grande medo, vivera-o ele em paz, com a firmeza de quem tem razão e ajusta contas.

Quando recordava o negrume da noite sem lua, a canelha dos palheiros, sentia o corpo entesar-se, de novo se via a abrir e a fechar a navalha de barba, correndo os dedos pela macieza do cabo, a repetir a vontade que tinha de encarar o homem.

Porque não seria à traição, havia de saber quem tinha diante, queria vê-lo dar-se conta de que chegara a hora de pagar.

Lançou-se de frente, a navalha horizontal, ao tempo de vê-lo arregalar os olhos já a cabeça pendia, o talho cerce e tão fundo que quase o degolara, ele só por um triz escapando ao espichar do sangue.


J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2016)

.

18.10.17

Andrés Trapiello (É isto)





Es esto                                               
la temible muerte.
Ha llegado el final
y no tienes respuesta.
El vaso de cristal,
la flor sobre la mesa,
el dolor de partir
sin que tu corazón conozca
una sola razón
de estas tres cosas
sencillas.


Andrés Trapiello




É isto
a morte temível.
Chegou o final
e tu não tens resposta.
O copo de vidro,
a flor sobre a mesa,
a dor de partir
sem teu coração conhecer
uma só razão
dessas três coisas
singelas.


(Trad. A.M.)

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17.10.17

Javier Galarza (Destempos)





DESTIEMPOS



Llego pronto a tu antes,
palpo los nunca de tu respiración agitada.
Cuando callás, algo silencia más allá de vos,
y cuando cerramos los ojos,
todo duerme en algún lugar.
Esto está hecho de gestos desesperados,
de destiempos, no tiene sujeción:
donde vos calculás, yo me deshago,
donde vos te mostrás, yo me desarmo.
Sos la regla que confirma la excepción,
lo espectral. Vivo en un no instante,
entre el ya no de tu partida y el aún no
de quien serás.


Javier Galarza



Chego depressa a teu antes,
palpo os nuncas de tua agitada respiração.
Quando te calas, algo fica em silêncio para além de ti,
e quando cerramos os olhos
tudo dorme nalgum lugar.
Isto faz-se de gestos de desespero,
de destempos, não há controlo:
onde ponderas, eu me desfaço,
onde te mostras, eu me desarmo.
És a regra que confirma a excepção,
a sombra. Eu vivo num não instante,
entre o já não da tua partida e o não ainda
de quem serás.


(Trad. A.M.)

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16.10.17

Eugénio de Andrade (De palavra em palavra)





De palavra em palavra                 
a noite sobe
aos ramos mais altos
e canta
o êxtase do dia.


Eugénio de Andrade


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15.10.17

Antonio Martínez Sarrión (Discreto)





DISCRETO



Feliz quien, sin anhelo,
 aguarda la mañana.
Y, en llegando, se dice
sereno: «Ya viví».
Ése empieza ganando
un día y otro día.
Ni se jacta con ello,
ni publica su suerte,
ni menos aún mendiga
aplausos, pompas, humo
con que hacerse una estatua.

Antonio Martínez Sarrión




Feliz aquele que aguarda,
sem ânsia, a manhã.
E em ela chegando diz, sereno,
para si mesmo: ‘Já vivi’.
Esse começa a ganhar
um dia e outro dia.
Não se vangloria disso,
não faz alarde da sua sorte,
nem muito menos mendiga
aplausos, pompas, fumaças
com que erguer uma estátua.


(Trad. A.M.)

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14.10.17

Berta Piñán (Noites de incêndio)





NOCHES DE INCENDIO



Son noches de insomnes las noches
de incendio.
Más cercana la muerte y
la vida, más violenta en esta espera
nocturna que enciende deseos y descubre
promesas,
certezas que pasan
ardiendo.
Prende el fuego en el aire como un aire de fiesta
o de guerra, de cosas que un instante
suceden y no son nada al instante.
En unas horas dejamos atrás aquello que fuimos
y va quedando en el aire
como un aire de urgencia,
de gestos recién aprendidos
y muy pronto olvidados.
Nadie duerme nunca
en las noches de incendio.
Como un amante impaciente,
la llama que crece en la noche
consume la noche
y nos recuerda lo que fuimos
quedando: sólo humo.
Y ceniza.

Berta Piñán




São noites de insones as noites 
de incêndio.
Mais próxima a morte e
a vida, mais violenta nesta espera
nocturna que acende o desejo e descobre
promessas,
certezas que passam 
ardendo.
Solta-se o fogo no ar como um ar de festa
ou de batalha, de coisa que num instante
acontecem e logo a seguir não são nada.
Em poucas horas deixamos
para trás aquilo que fomos,
ficando no ar 
como que um ar de urgência,
de gestos aprendidos há pouco
e muito depressa esquecidos.
Ninguém dorme nunca
nas noites de incêndio.
Como amante impaciente,
a chama que cresce na noite
devora a mesma noite, 
lembrando-nos aquilo em que nos fomos
convertendo, fumo apenas.
E cinza.

(Trad. A.M.)


.

13.10.17

Luís Quintais (Ética)






ÉTICA



Vou falando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitado pelo pensamento.


Luís Quintais




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12.10.17

Aníbal Núñez (Encontros)





ENCUENTROS



Tibio yeso tus ojos tienden sobre
mi corazón en ruinas: rapidísima
reconstrucción de un templo a ti advocado.

Aníbal Núñez





Gesso fino teus olhos estendem
sobre meu coração em ruínas: rapidíssima
reconstrução de um templo
a ti consagrado.


(Trad. A.M.)

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11.10.17

Enrique García-Máiquez (A vocação)





LA VOCACIÓN



Por qué escribir en verso si la prosa
es fácil, la publican, me la pagan
y tiene hasta lectores? La respuesta
es sólo esta pregunta, cada noche.


Enrique García-Máiquez

[Lavorare stanca]




Porquê escrever em verso se a prosa
é fácil, publicam-na, pagam-ma
e até tem leitores? A resposta
é só esta pergunta, cada noite.

(Trad. A.M.)

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10.10.17

José Rentes de Carvalho (Violação)





A bofetada como que lhe rebenta a cabeça e sente os olhos desencaixar-se, a quentura do sangue a escorrer do nariz, mas queda-se numa aceitação animal, sem vontade própria, incapaz de raciocínio ou sentimento.

E como em estado segundo, assiste, participa, esquecida de ser, ignorante do que faz, do que vê, a modos de sentir seu o corpo e ao mesmo tempo o negar, sofrer-lhe a dor e sair dele.

Num reflexo tinha fechado as pernas, mas logo as voltara a abrir, obediente quando ele, forçando, lhas pegou às mãos ambas como se a quisesse rachar.

Esperava bruteza e foi o que sofreu: o ventre esgarçado, uma sensação de queimadura, o peso, a asfixia da mão que lhe tapava a boca, a outra a apertar-lhe o pescoço.
Coito selvagem, dor que nunca tinha sentido, nem suportado macho com raiva assim.


J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2016)

.

9.10.17

Marcos Tramón (Dez mandamentos)





DIEZ MANDAMIENTOS, SEGÚN LEY PROPIA



No creerás en Dios;
no creerás en nada, salvo en aquella luna oblicua que proyectaba,
 alargada y a un lado, vuestra sombra;
no creerás en las contradicciones: una opinión es un capricho,
la contraria, otro capricho
en un posterior momento;
no perteneces ni pertenecerás a nadie,
tan solo al olor de las calles en tu solitaria adolescencia;
nunca maldecirás contra estas calles, tuyas, que te recogen;
creerás que la mejor compañía será siempre estar solo;
nunca confiarás en un amigo que no tolere
que haya entre ambos largos periodos de silencio;
nunca negarás que tu ciudad y el invierno son los mejores estados de ánimo;
nunca olvidarás el sabor de aquel “hot dog” y el calor de la amistad,
mágica noche, en la Quinta Avenida;
dedicarás tu vida a leer y releer a Schopenhauer, quien, según Borges,
acaso descifró el universo.
Estos diez mandamientos se resumen en uno:
verás tu sombra caminar contigo, al tiempo
que verás en tu camino otros hombres y mujeres,
otras sombras.


Marcos Tramón





Não crerás em Deus;
não crerás em nada, salvo nessa lua que projectava
a vossa sombra;
não crerás nas contradições – uma opinião é um capricho,
a opinião contrária outro capricho
no momento seguinte;
não pertences nem pertencerás a ninguém,
só ao cheiro das ruas da tua solitária adolescência;
não maldirás nunca estas ruas, que são tuas e te recebem;
crerás que a melhor companhia será sempre estar sozinho;
não confiarás nunca em amigo que não tolere
longos silêncios entre ambos;
nunca negarás que o inverno e a tua cidade são os melhores estados de alma;
nunca olvidarás o sabor do ‘hot dog’ e o calor da amizade,
noite mágica, na Quinta Avenida;
dedicarás tua vida a ler e reler Schopenhauer, que, dizia Borges,
se calhar decifrou o universo.
Estes dez mandamentos resumem-se num:
verás tua sombra caminhar contigo, ao tempo
que verás em teu caminho outros homens e mulheres,
outras sombras.
  
(Trad. A.M.)

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8.10.17

César Cantoni (Gente de letras)





GENTE DE LETRAS



Sálvame, Señor, de los poetas,
de los críticos literarios,
de los académicos de la lengua,
de los profesores de Lengua y Literatura,
de los ilustres literatos,
de los escribidores...
Y, sobre todo, de mí mismo,
sálvame, Señor.


César Cantoni

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7.10.17

Daniel Filipe (A invenção do amor)





A INVENÇÃO DO AMOR



Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de apa-
relhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo

É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
      (...)


Daniel Filipe

.

6.10.17

Blanca Varela (Ao despertar)






Al despertar
me sorprendió la imagen que perdí ayer.
El mismo árbol en la mañana
y en la acequia
el pájaro que bebe
todo el oro del día.
Estamos vivos, quién lo duda,
el laurel, el ave, el agua
y yo, que miro y tengo sed.


Blanca Varela





Ao despertar
surpreendeu-me a imagem que ontem perdi.
A mesma árvore na manhã
e na levada
o pássaro que bebe
o oiro do dia.
Estamos vivos, ninguém duvida,
o loureiro, a ave, a água
e eu, que observo e tenho sede.


(Trad. A.M.)

.

5.10.17

Octavio Paz (Primavera à vista)





PRIMAVERA A LA VISTA



Pulida claridad de piedra diáfana,
lisa frente de estatua sin memoria:
cielo de invierno, espacio reflejado
en otro más profundo y más vacío.

El mar respira apenas, brilla apenas.
Se ha parado la luz entre los árboles,
ejército dormido. Los despierta
el viento con banderas de follajes.

Nace del mar, asalta la colina,
oleaje sin cuerpo que revienta
contra los eucaliptos amarillos
y se derrama en ecos por el llano.

El día abre los ojos y penetra
en una primavera anticipada.
Todo lo que mis manos tocan, vuela.
Está lleno de pájaros el mundo.


Octavio Paz




Polida claridade de pedra diáfana,
lisa fronte de estátua sem memória:
céu de Inverno, espaço reflectido
em outro mais profundo e mais vazio.

Mal respira o mar, mal brilha,
parou a luz entre as árvores, exército
adormecido. O vento as acorda
com bandeiras de folhagens.

Nasce do mar, assalta a colina,
vaga sem corpo que rebenta
contra os eucaliptos amarelos
e se derrama em ecos pelo plaino.

Abre os olhos o dia e penetra
a Primavera antecipada.
Voa, tudo o que minhas mãos tocam,
está cheio de pássaros o mundo.


(Trad. A.M.)

.

4.10.17

José Rentes de Carvalho (O Meças)





Alguém terá de lhe emprestar as palavras, porque as desconhece, mas se lhas tivessem ensinado seria incapaz de dizê-las, estonteado pelo remoinho, a vida a desfilar em ondas de desespero, ocasiões falhadas, sempre ele o que perde, a sofrer envergonhado, o que baixa os olhos e até de si próprio tem de fugir.

Quando pensa no que ficou para trás deveria usar o passado em vez do presente, mas pouco adianta que os verbos se conjuguem, o medo dá-lhe do tempo uma noção onde se funde o que foi e o que é, o que viu acontecer e as vezes que perdeu, horas sofre em que o garoto e o homem quase velho são um, igual neles a dor, enraivecidos ambos na mesma impotência.

Precisado de sossego, corre para ali, sem memória de quando lá foi a primeira vez, nem porquê, entregando-se à força que nele manda como bruxaria ou praga rogada.



J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2006)

___________

> Uma crítica: Público (António Guerreiro)
   E 4-entrevistas-4: Observador / Sábado / Diário de Notícias / Expresso
.

3.10.17

Nicanor Parra (Nossos maiores)





NUESTROS MAYORES



Eran más instruidos que nosotros
Sabían cómo se debe solicitar una gracia
Golpeándose el pecho desde luego
Con humildad
Con fe
Con esperanza
Poco se gana con escupir para arriba

Recuerdo bien a mi señora madre
Que Dios la tenga en su Santo Reino
Como también a mi abuela Rosario
Dios la tenga en su Santo Reino también
Arrodilladas ante el santísimo
Misericordia Dios mío misericordia

Pero la religión pasó de moda
Antes todos sabíamos ahuyentar al demonio
Hoy no tenemos la menor idea.


Nicanor Parra

[Otra iglesia]



Eram mais instruídos que nós
sabiam como se deve solicitar uma graça
batendo no peito desde logo
com humildade
com fé
com esperança
Pouco se ganha a cuspir para cima

Recordo bem a minha senhora mãe
que Deus a tenha em seu Santo Reino
como também minha avó Rosário
Deus a tenha também em seu Santo Reino
ajoelhadas ante o altíssimo
misericórdia meu Deus misericórdia

Mas a religião passou de moda
dantes todos sabiam afugentar o demónio
hoje não fazemos a mínima ideia

(Trad. A.M.)

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2.10.17

Mirta Rosenberg (Matéria etérea)





ETÉREA MATERIA



Los hijos son por lejos mi mayor revolución.

Dos veces orbité completa
como grávido planeta
alrededor del sol. Escribí nombres nuevos
en un renglón celeste, con inquietud,
alboroto, sedición.

Brindé por ellos con otras mujeres,
con whisky y con cerveza,
en el planeta donde brindamos las mujeres
por las cosas que crecen, y a pesar de ellas.

Feliz y desdichada, hice de mi revolución
una conquista, y una herida abierta
de aquellas veces que orbité completa.

La mantengo fresca para que entre en mí
cierto irreconocible aire familiar
que ahora mis hijos exhalan
con la mayor naturalidad.


Mirta Rosenberg




Os filhos são de longe a minha maior revolução.

Duas vezes orbitei completa
como grávido planeta
em volta do sol. Escrevi nomes novos
num caderno celeste, com inquietação,
alvoroço, sedição.

Brindei por eles com outras mulheres,
com uísque e cerveja,
no planeta onde brindam as mulheres
pelas coisas que crescem e apesar delas.

Feliz e desditosa, fiz-me da revolução
uma conquista e uma ferida aberta
daquelas vezes da órbita completa.

Mantenho-a fresca para em mim entrar
certo irreconhecível ar familiar
que agora meus filhos exalam
com a maior naturalidade.

(Trad. A.M.)


 .

1.10.17

José Agostinho Baptista (Distância)





DISTÂNCIA



A ausência é um arco de gelo suspenso
sobre as espáduas.
Os ossos cedem ao claro domínio dos
glaciares.
Desapareceram todos os perfumes,
todas as dálias.
Vivo como vivem os teus peixes cegos:
frio e nu ao fundo da noite,
caminhando  pelas bermas.


José Agostinho Baptista


.


30.9.17

Miriam Reyes (Sleepy Beauty espreguiça-se)





Sleepy Beauty se despereza
sus párpados parecen escobas
que barren las sucias pelusas de los sueños.
 
En los jardines de Notre Dame no se puede dormir
los guardias te despiertan como a una vagabunda
Notre Dame es para las fotos y las visitas guiadas.
 
Despierta de una vez
estúpida muchachita
aquí no se viene a dormir.
En Paris a los sapos se los comen las ratas.
Vete con alguno que te dé casa comida y sexo
si la taquilla funciona
la función continúa.
Una niña no puede ser Rimbaud el incendiario,
cara bonita también, piel de diecinueve años
ni lo sueñes, ni lo sueñes.

  
Miriam Reyes


  

Sleepy Beauty espreguiça-se
as pestanas parecem escovas
varrendo o cotão sujo do sonho

Não se pode dormir nos jardins de Notre Dame
os guardas acordam-nos como vagabundos
Notre Dame é para as fotos e as visitas guiadas

Acorda lá duma vez
ó rapariguita estúpida
aqui não se dorme.
Em Paris os sapos comem-nos os ratos.
Vai lá embora com algum que te dê casa comida e sexo
a bilheteira funcionando
a função continua.
Uma nina não pode ser Rimbaud o incendiário,
ainda por cima cara bonita, pele de dezanove anos
nem pensar, nem pensar.



(Trad. A.M.)

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29.9.17

Miquel Martí i Pol (Agora penso-te)





AGORA PENSO-TE



Agora penso-te – tão longe –
e invento-te uma pose
expectante para me encheres
este vazio da tarde.
Cada palavra é um mundo
com rios e mares e terras,
ou um vidro estaladiço,
ou um quarto em silêncio.
Que lenta a passagem do tempo!
Que pesada a velha
solidão e que próximos
teus olhos, quando te invento
uma pose expectante
para que me enchas a tarde.


 Miquel Martí i Pol


(Trad. A.M./ sobre versão cast. Joan B. Fort i Olivella)

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28.9.17

Camilo Pessanha (Floriram por engano as rosas bravas)





Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?



Camilo Pessanha

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27.9.17

Miguel Hernández (Beijo sou)





Beso soy, sombra con sombra.
Beso, dolor con dolor,
por haberme enamorado.
Corazón sin corazón,
de las cosas, del aliento
sin sombra de la creación.
Sed con agua en la distancia,
pero sed alrededor.

Corazón en una copa
donde me la bebo yo
y no se lo bebe nadie,
nadie sabe su sabor.
Odio, vida: ¡cuánto odio
sólo por amor!

No es posible acariciarte
con las manos que me dio
el fuego de más deseo,
el ansia de más ardor.
Varias alas, varios vuelos
abaten en ellas hoy
hierros que cercan las venas
y las muerden con rencor.

Por amor, vida, abatido,
pájaro sin remisión.
Sólo por amor odiado,
sólo por amor.

Amor, tu bóveda arriba
y yo abajo siempre, amor,
sin otra luz que estas ansias,
sin otra iluminación.
Mírame aquí encadenado,
escupido, sin calor
a los pies de la tiniebla
más súbita, más feroz,
comiendo pan y cuchillo
como buen trabajador
y a veces cuchillo sólo,
sólo por amor.

Todo lo que significa
golondrinas, ascensión,
claridad, anchura, aire,
decidido espacio, sol,
horizonte aleteante,
sepultado en un rincón.
Espesura, mar, desierto,
sangre, monte rodador,
libertades de mi alma
clamorosas de pasión,
desfilando por mi cuerpo,
donde no se quedan, no,
pero donde se despliegan,
sólo por amor.

Porque dentro de la triste
guirnalda del eslabón,
del sabor a carcelero
constante y a paredón,
y a precipicio en acecho,
alto, alegre, libre soy.
Alto, alegre, libre, libre,
sólo por amor.

No, no hay cárcel para el hombre.
No podrán atarme, no.
Este mundo de cadenas
me es pequeño y exterior.
¿Quién encierra una sonrisa ?
¿Quién amuralla una voz?
A lo lejos tú, más sola
que la muerte, la luna y yo.
A lo lejos tú, sintiendo
en tus brazos mi prisión,
en tus brazos donde late
la libertad de los dos.
Libre soy, siénteme libre.
Sólo por amor.


Miguel Hernández





Beijo sou, sombra com sombra.
Beijo, dor com dor,
por me ter enamorado.

Coração sem coração,
das coisas, do alento
sem sombra da criação.
Sede com água ao longe,
mas sede em redor.
Coração dentro do copo
eu lá bebo e mais ninguém,
ninguém lhe toma o sabor.
Ódio, vida; quanto ódio
só por amor!

Não posso fazer-te festas
com estas mãos que me deu
o fogo de mais desejo,
a ânsia de mais ardor.
Várias asas, vários voos
abatem hoje nelas
ferros que apertam as veias
e as mordem com rancor.

Por amor, vida, abatido,
pássaro sem remissão.
Só por amor odiado,
só por amor.

Amor, teu tecto lá cima
e eu cá baixo sempre, amor,
sem outra luz que esta ânsia,
sem outra iluminação.
Olha para mim acorrentado,
cuspido, sem calor
aos pés da treva
mais súbita, mais feroz,
comendo pão e navalha
como bom trabalhador
e às vezes navalha só,
só por amor.

Tudo o que significa
andorinhas, ascensão,
claridade, largueza, ar.
espaço aberto, sol,
horizonte adejante,
sepultado num canto.
Espessura, deserto, mar,
sangue, monte rolante,
liberdades de minh’alma
clamorosas de paixão,
desfilando por meu corpo,
onde não param, não,
mas donde se soltam,
só por amor.

Porque dentro da triste
grinalda do grilhão,
do cheiro a prisão
constante e a paredão,
e a precipício à espreita,
alto e alegre sou, e livre.
Alto e alegre, e livre, livre,
só por amor.

Não, não há cadeia para um homem,
não poderão atar-me, não,
este mundo de cadeias
é-me estranho e pequeno.
Quem prende um sorriso?
Quem amuralha uma voz?
Ao longe tu, mais só
do que a morte, a lua e eu.
Ao longe tu, a sentir
a minha prisão em teus braços,
nesses braços onde palpita
a liberdade dos dois.
Livre sou, sente-me livre,
só por amor.


(Trad. A.M.)

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26.9.17

Miguel d'Ors (Antes que o silêncio tombe na minha vida)





ANTES DE QUE EL SILENCIO CAIGA SOBRE MI VIDA    


(Variación sobre un tema de José Cereijo)

  
Viejo monte Coirego, nombrarte aquí; nombraros,
aguas del Almofrey bajo las carballeiras
sinfónicas de octubre,                      
antes de que el silencio
caiga sobre mi vida.

Acaso en el futuro algún desconocido
llegue a estos versos yen ellos os contemple,
viejo monte Coirego,
aguas del Almofrey,
con los ojos del alma.

Yo, olvidado y sereno, estaré ya muy lejos,
pero sé que aquel día
en aquella mirada ajena e insospechada
todo este amor palpitará de nuevo.


Miguel d’Ors





Velho monte Coirego, nomear-te aqui; nomear-vos,
águas do Almofrey, sob as carvalheiras
sinfónicas de Outubro,
antes que o silêncio
tombe na minha vida.

Acaso no futuro um desconhecido
virá a estes versos e neles vos olhará,
velho monte Coirego,
águas do Almofrey,
com os olhos da alma.

Eu, olvidado e sereno, estarei já muito longe,
mas sei que nesse dia,
nesse olhar alheio e insuspeito,
todo este amor palpitará de novo.



(Trad. A.M.)

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25.9.17

Mário de Carvalho (Um saco de plástico)





Arrebatado, um saco de plástico saltou nos céus, a boa altura, muito acima das copas dos pinhais. 

Oscilou, valsou, pairou, lento, como se fosse para ir ficando, suspenso de nada. 

E espreguiçava-se, e encolhia-se e expandia-se, revirava-se, gozava a vista e o Sol. 

Agora drapejava – era bandeira, agora planava – era milhano, agora enfunava-se – era balão. 


Estava nisto e estava a convencer-se de que as letras verdes e o símbolo amarelo – Pingo Doce – pertenciam por direito próprio àquelas zonas alcandoradas, de aragens mais quentes. 

Veio uma guinada, deitou-lhe a garra, amarfanhou-o e rebaixou-o uns metros. 

Outra o resgatava, amparava e desdobrava, impante e triunfal, com sonoridades secas. 

À traição, atirou com ele para longe, uma, outra e outra vez, apesar de resistir com os bufos sacudidos de um polvo. 

Vai abaixo! Vai acima!



MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-XII
(2008)

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24.9.17

Miguel Barnet (Eu espero-te)





Yo te espero
bajo los signos rotos
del cine cantonés.
Yo te espero
en el humo amarillo
de una estirpe deshecha.
Yo te espero
en la zanja donde navegan
ideogramas negros
que ya no dicen nada.
Yo te espero a las puertas
de un restaurante
en un set de la Paramount
para una película que se filma a diario.
Dejo que la lluvia me cubra
con sus raíles de punta
mientras presiento tu llegada.
 En compañía de un coro de eunucos,
junto al violín de una sola cuerda
de Li Tai Po,
yo te espero.
Pero no vengas
porque lo que yo quiero realmente
es esperarte.

Miguel Barnet




Eu espero-te
sob os letreiros rasgados
do cinema cantonense.
Espero-te
no fumo amarelo
de uma estirpe desfeita.
Espero-te
numa vala onde navegam
ideogramas negros
que já não dizem nada.
Espero-te à porta
de um restaurante
num set da Paramount
para um filme que se roda diariamente.
Deixo a chuva cobrir-me
com seus carris de ponta
enquanto pressinto a tua chegada.
Na companhia de um coro de eunucos,
ao pé do violino de uma corda só
de Li Tai Po,
eu espero-te.
Mas não venhas, deixa,
que o que eu quero mesmo
é esperar-te.


(Trad. A.M.)

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23.9.17

Meira Delmar (O milagre)





EL MILAGRO



Pienso en ti.

La tarde,
no es una tarde más;
es el recuerdo
de aquella otra, azul,
en que se hizo
el amor en nosotros
como un día
la luz en las tinieblas.

Y fue entonces más clara
la estrella, el perfume
del jazmín más cercano,
menos
punzantes las espinas.

Ahora,
al evocarla creo
haber sido testigo
de un milagro.


Meira Delmar




Penso em ti.

A tarde não é
só mais uma tarde;
é a lembrança
de outra tarde, azul,
em que o amor
se fez em nós
como a luz, um dia,
se fez nas trevas.

E foi então mais clara
a estrela, o perfume
do jasmim mais próximo,
menos
picantes os espinhos.

Agora,
ao evocá-la, creio
que fui testemunha
de um milagre.

(Trad. A.M.)

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22.9.17

Ana Salomé (Ode ao castigo)





ODE AO CASTIGO



Só mais uma menina entre outras
E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
Como um erro ortográfico do coração.

Castigo.
Entre nós o alto muro do recreio
E a obrigação de permanecer só.


Ana Salomé



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21.9.17

Mario Benedetti (Angelus)





ANGELUS



Quién me iba a decir que el destino era esto.

Ver la lluvia a través de letras invertidas,
un paredón con manchas que parecen pronombres,
el techo de los ómnibus brillantes como peces
y esa melancolía que impregna las bocinas.

Aquí no hay cielo,
aquí no hay horizonte.

Hay una mesa grande para todos los brazos
y una silla que gira cuando quiero escaparme.
Otro día se acaba y el destino era eso.

Es raro que uno tenga tiempo de verse triste:
siempre suena una orden, un teléfono, un timbre,
y, claro, está prohibido llorar sobre los libros
porque no queda bien que la tinta se corra.


Mario Benedetti





Quem me diria que o destino era isto.

Ver a chuva através de letras invertidas,
um paredão com manchas que parecem pronomes,
o tecto dos ónibus brilhantes como peixes
e essa melancolia que impregna os apitos.

Aqui não há céu,
não há horizonte.

Há uma mesa grande para todos os braços
e uma cadeira que gira quando eu me quero escapar.
Mais um dia se acaba e o destino era isto.

É raro ter-se tempo para estar triste,
há sempre uma ordem, um telefone, uma campainha,
e, claro, é proibido chorar sobre os livros,
porque não fica bem a tinta escorrer.


(Trad. A.M.)

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20.9.17

César Cantoni (O tempo irreparável)





EL TIEMPO IRREPARABLE       


      

Quién iba, entonces, a pensarlo.
Lo cierto es que mi padre está muerto
como si nunca hubiese estado vivo.
Un día se le helaron las manos y los pies,
y la casa se llenó de parientes,
y mi madre lloró, de rodillas, junto al lecho.
Todavía lo recuerdo.


Mi padre está muerto o ya no está,
y no es suficiente ahora saber que fue feliz.
En este callado amanecer de otoño,
mientras el agua burbujea en la pava,
y la radio reporta las últimas catástrofes,
y yo cumplo con el rito habitual de afeitarme,
sólo una cosa es real: su ausencia, que no cesa.


César Cantoni




Quem é que ia pensá-lo, nesse tempo.
O certo é que meu pai está morto,
assim como se nunca tivesse estado vivo.
Um dia gelaram-lhe as mãos e os pés,
e a casa encheu-se de parentes,
e minha mãe chorou, ajoelhada, junto ao leito.
Ainda me lembra.

Meu pai está morto, ou já cá não está mais,
e não basta agora saber que foi feliz.
Neste calado amanhecer de Outono,
enquanto a água borbulha na chaleira,
e a rádio dá as últimas catástrofes,
 eu cumpro o rito usual de barbear,
uma só coisa é real: a sua ausência, que não cessa.


(Trad. A.M.)




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