12.12.17

Rogelio Guedea (Flash back)





FLASH BACK



he vuelto al mismo lugar en el que escribí
aquel poema que habla de cuando solíamos
venir al centro comercial con los niños,
en las tardes de domingo/
me he sentado en el mismo lugar para ver todavía
si entras o sales, o alcanzo a verte a lo lejos
probándote blusas para el próximo verano,

pero me doy cuenta de pronto que aquel que escribió
el poema y éste que lo recuerda ya no son
el mismo hombre // quisiera poder decirte, decirme
en qué he cambiado desde entonces, pero no podría,
todo es tan confuso y hay tanta gente que entra y sale,
incontables manos y pies, que no podría
en una mañana como ésta decírtelo/

sólo recordaba con claridad aquel poema y al hombre
que lo habitaba aquí mismo sentado como estoy ahora,
esperando que tu mano me toque por el hombro y me diga
que todo ha sido una mala pasada, que no es cierto
que te haya perdido nunca para siempre y que
es hora  – tarde ya, sí –  de volver
a casa.

Rogelio Guedea




voltei ao mesmo lugar em que fiz
aquele poema que fala de quando soíamos
vir ao centro comercial com as crianças, nas tardes de domingo/
sentei-me no mesmo lugar para ver ainda
se entras ou sais, ou se consigo ver-te ao longe
experimentando blusas para o próximo Verão,

mas dou-me conta de repente que aquele que escreveu
o poema e este que o recorda não são já
o mesmo homem// queria poder dizer-te, dizer-me
em que é que mudei desde então, mas não posso,
é tudo tão confuso e há tanta gente a entrar e sair,
incontáveis mãos e pés, que não poderia
dizer-to numa manhã como esta/

recordava só claramente o tal poema e o homem
que o habitava sentado aqui mesmo como eu estou agora,
esperando que a tua mão me toque no ombro e me diga
que foi tudo um mau passo, que não é verdade
ter-te perdido para sempre e que
é tempo – tarde já, sim – de voltar
para casa.

(Trad. A.M.)


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10.12.17

Rocío Wittib (Dói, mas mantém-nos vivos)





duele pero nos mantiene vivos
que el olor salvaje del recuerdo
muerda de tanto en tanto el corazón


 Rocío Wittib




dói mas mantém-nos vivos
o perfume silvestre da recordação
morder-nos de quando em quando
o coração


(Trad. A.M.)

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8.12.17

João Habitualmente (Domingo)





DOMINGO



estes vagos milhares de namorados
que marginam as bordas dos domingos
de mãos dadas e dissipam perfumes
densos nos contornos da baixa portuense
ou serão pipocas derramadas nos passeios?
lá vão elas a
profusão dos líquidos aromas chanel
eau violette xailes
roxos esburacados de rendas batons
vivos tanta
cor
tanta cor para destinos black & white
sabes como me fizeste noite?
e como me obrigas
a reaprender devagar o comprimento dos dias?
este grande deserto e os
rios apagados
acender a chama recomeçar a luz
tarefa meticulosa
Há pedras habitadas Pássaros que não migram
só para não sofrerem a partida
esperam então um ano a fio
pelo regresso dos companheiros


João Habitualmente

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6.12.17

Roberto Juarroz (Sim, há um fundo)





Sí, hay un fondo.

Pero hay también un más allá del fondo,
un lugar hecho con caras al revés.

Y allí hay pisadas,
pisadas o por lo menos su anticipo,
lectura de ciego que ya no necesita puntos
y lee en lo liso
o tal vez lectura de sordo
en los labios de un muerto.

Sí, hay fondo.

Pero es el único lugar donde empieza el otro lado,
simétrico de éste,
tal vez éste repetido,
tal vez éste y su doble,
tal vez éste.


Roberto Juarrroz




Sim, há um fundo.

Mas há também um para além do fundo,
um lugar feito de caras do avesso.

E há pegadas aí,
pegadas ou a sua sugestão,
leitura de cego que dispensa pontos
e lê no branco
ou talvez leitura de surdo
nos lábios de um morto.

Sim, há fundo.

Mas é o único lugar onde começa o outro lado,
simétrico deste,
talvez este repetido,
talvez este e seu duplo,
talvez este.

(Trad. A.M.)

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4.12.17

Roberto Bolaño (A sorte)





LA SUERTE



Él venía de una semana de trabajo en el campo
en casa de un hijo de puta y era diciembre o enero,
no lo recuerdo, pero hacía frío y al llegar a Barcelona la nieve
comenzó a caer y él tomó el metro y llegó hasta la esquina
de la casa de su amiga y la llamó por teléfono para que
bajara y viera la nieve. Una noche hermosa, sin duda,
y su amiga lo invitó a tomar café y luego hicieron el amor
y conversaron y mucho después él se quedó dormido y soñó
que llegaba a una casa en el campo y caía la nieve
detrás de la casa, detrás de las montañas caía la nieve
y él se encontraba atrapado en el valle y llamaba por teléfono
a su amiga y la voz fría (¡fría pero amable!) le decía
que de ese hoyo inmaculado no salía ni el más valiente
a menos que tuviera mucha suerte


ROBERTO BOLAÑO
La Universidad Desconocida
(2007)





Ele vinha de uma semana de trabalho agrícola
em casa de um filho da puta e era dezembro ou janeiro,
não me lembro, mas fazia frio e ao chegar a Barcelona a neve
começou a cair e ele tomou o metro até à esquina
da casa da amiga e telefonou-lhe para
descer e ver a neve. Uma bela noite, sem dúvida,
e a amiga convidou-o para um café e a seguir fizeram amor
e conversaram e muito depois ele caiu no sono e sonhou
que chegava a uma casa no campo  e a neve caía
atrás da casa, caía a neve atrás dos montes
e ele encontrava-se atascado no vale e telefonava
à amiga e a voz fria (fria, mas amável) dizia-lhe
que daquele buraco imaculado nem o mais valente saía
a menos que tivesse muita sorte
  

(Trad. A.M.)

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2.12.17

João Guimarães Rosa (Encorajamento)





ENCORAJAMENTO



Meu desejo corre a ti com velas enfunadas…
 Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio:
 ele não traz âncora...



Guimarães Rosa

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30.11.17

Rita Ramones (Proclamas)





PROCLAMAS



Camina con la frente en alto, pero no demasiado,
porque entonces no verás los huecos de las aceras.
El mundo es ancho y colorido.
Ve con los oídos despiertos y los ojos bien abiertos
y no te robarán la cartera. Ni un beso.

Cuando camines por estas calles,
no pienses que la vida está en otra parte
porque haces el ridículo,
porque esa parte nunca será tuya
allí nadie te está esperando.
Y por favor, no rayes las paredes.


Rita Ramones






Caminha de testa erguida, mas não demasiado,
ou então não verás os buracos do caminho.
O mundo é largo e cheio de cor.
Vê com os ouvidos despertos e de olhos bem abertos
e não te roubarão a carteira. Nem um beijo.

Quando caminhares pelas ruas,
não penses que a vida está noutro lado
porque pareces ridículo,
porque esse lado nunca será teu
nem tens lá ninguém à tua espera.
E por favor, não risques as paredes.

(Trad. A.M.)


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28.11.17

Raúl Nieto de la Torre (Ninguém sabe onde pode levar uma escada)





NINGUÉM SABE ONDE PODE LEVAR UMA ESCADA



Se posso subo a correr as escadas,
é o modo mais rápido de passar o vazio que há
de um piso para outro,
de um dia para outro,
de uma página em branco para outra página em branco,
onde uma é a neve e outra apenas o frio da neve.
Quem poderá distingui-las sem abrir bem os olhos,
sem subir a escada triste do mesmo edifício
uma e outra vez,
um dia e outro dia,
até os degraus serem pequenos precipícios
e meus tropeções voos falhados, mas voos
afinal com a emoção do voo
e a impressão de errado rumo de um homem livre?

Sim, amigos,
se posso subo a correr as escadas
e evito o ascensor,
sua intimidade constrangedora,
sua luz eléctrica suspensa do tempo como baba luminosa;
e evito o tipo amável que abre a porta
para que eu o acompanhe na sua miséria
com meu silêncio de poemas não ditos,
porque um poema num ascensor
é um esconjuro que se volta contra nós mesmos.

Se posso escolho o sonho de subir escadas,
como escolhi por vezes não matar ninguém;
as escadas onde caíram ao menino os berlindes
e que ele desceu para apanhá-los,
olhando um instante para o alto a espreitar
as fraldas ao futuro
e o futuro não tinha nada por baixo.
(Agora os berlindes simbolizam planetas,
o olhar para cima a busca de Deus
e a queda a morte do mesmo,
mas quem é que será o menino?)

Por vezes escuto uma voz e então paro,
congelando-se a imagem do menino e do homem
e do ascensor entre dois pisos;
uma voz que me deixa como que gelado,
que me chama por aquele nome que não dissemos a ninguém
e me grita que não há mais pisos,
que minha vida acaba ali,
que embora queira continuar subindo,
mais alto não chegarei.


Raúl Nieto de la Torre


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26.11.17

Camilo Castelo Branco (Mortes colaterais)





E os pretorianos de Costa Cabral a fugir sempre, nas azas do pavor, as mochilas a ringir com attritos ásperos do correame, e a trapejar nas costas contra as patronas. Eis senão quando, outra vez lhes surge pela frente o padre, á entrada de Fafe, com um só homem á sua beira, e de novo lhes proclama que se rendam. 

Como não lhe respondessem, o padre esfogueteia-os com a pistola, e os janisaros não lhe atiram, por já estarem por experiência escarmentados e desconfiarem que o padre ou é santo ou incombustivel; e além d'isso não tinham cartuxame para descargas meramente theatraes.

Depois, no transito de duas léguas entre Fafe e Guimarães, um tiroteio fulminantissimo. As massas juncavam os serros, e desenrollavam pelos desfiladeiros n'um grande estrupido de socos ferrados. Um fogo do inferno, uma granizada de balas sibilantes, exterminio ‘à outrance’, em que não morreu um só guerrilha, por que Deus os resguardava, diz o livro; mas como também não faltasse alguma praça, é de fé que Deus se houve entre os dois partidos com uma honrada imparcialidade.

Não aconteceu o mesmo com certas pessoas extranhas ás duas facçoens. Por exemplo, a tropa matou um mendigo, e um lavrador que estava cavando o seu campo. Estes dous nnocentissimos defuntos, a descoberto da protecção divina, é que pagaram as favas. Verdade é que o lavrador assassinado tinha morto, em 1808, em egual dia e hora, um soldado francez da invasão.

Assim reflexiona, com lardo de latim do Génesis, o snr. padre Casimiro Vieira, o generalíssimo de uma guerra fratricida que, poucos mezes depois, ladrilhava com duzentos cadáveres as ruas de Braga. 

Quem varias vezes descarregou a sua pistola, em lucta civil, sobre os seus conterrâneos, entendo eu que, por caridade, devia dar-se de suspeito como juiz na causa determinante da morte do portuguez invadido que matara o francez invasor. De resto, tudo muito bem. (pp. 72-3)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

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24.11.17

Raúl Gustavo Aguirre (A trincheira do Reno)





LA TRINCHERA DEL RIN



Yo, Martin
Heidegger, el filósofo
que pensó lo Impensable
y que anunció la pérdida del Ser
en razón de la ciencia y del olvido,
fui declarado por mis pares
"persona totalmente prescindible"
y enviado a cavar esta trinchera
a lo largo del Rin.

Bajo mis pies se ahonda la tierra venerable.
Cae el azul crepúsculo de Georg Trakl. Tengo frío.
Y en el bosque cercano suena otra vez, oscura,
la risa del idiota que asistía a mis clases.


Raúl Gustavo Aguirre




Eu, Martin
Heidegger, o filósofo
que pensou o Impensável
e anunciou a perda do Ser
por mor da ciência e do olvido,
fui declarado por meus pares
"pessoa totalmente dispensável"
e posto a cavar esta trincheira
ao longo do Reno.

Sob meus pés afunda-se a terra venerável.
Cai o crepúsculo azul de Georg Trakl. Tenho frio.
E no bosque vizinho, inseguro, soa outra vez
o riso do idiota que ia às minhas aulas.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L.P.)

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22.11.17

Raúl Gómez Jattín (O mês adolescente)





EL MES ADOLESCENTE



Llegó Abril 
con sus aguas escasas 
colocando diamantes en cada hoja 
El mes de los árboles aún sedientos 
El mes de la enredadera que trepa el muro 

Joven Abril como una adolescente casi virgen 
te deseé en las tardes de verano 
y ahora llegas primoroso 
a encantarme con el batir de tu llovizna 

Amado Abril beso tu piel de esmeralda 
me entristezco bajo tus cielos grisáceos 
Con las voces de tus pájaros 
me hago un nido del tamaño de mi deseo 

En ti estremecido de ternura 
derramo la leche agria del amor que ha esperado


Raúl Gómez Jattin




Aí está Abril
com suas águas escassas
a pôr diamantes em cada folha
O mês das árvores ainda sedentas
O mês da trepadeira a subir pelo muro

Jovem Abril como adolescente quase virgem
assim te desejei em tardes de verão
e aí estás tu primoroso
a seduzir-me com os pingos do teu chuvisco

Amado Abril beijo-te a pele de esmeralda
triste debaixo de teus céus de cinza
fazendo com os gritos dos pássaros
um ninho do tamanho do meu desejo

Sobre ti a tremer de ternura
derramo o leite azedo de um amor retardado



(Trad. A.M.)

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20.11.17

João de Mancelos (Palavras)





PALAVRAS              

                          

Vem aí o Verão,
e as palavras trocam de pele,
algumas, de raça até.

O canto já não é o canto mesmo,
e mesmo as suas proas
são agora doutras bocas,
salgadas, e mais a sul.

Hereditárias de sol,
elas desabrocham, as palavras,
um doce fruto escorrendo pela voz,
o rumor leve, adolescente,

o lento fiar do vento
nas suas conchas naufragadas. 


João de Mancelos

.


18.11.17

Rafael Cadenas (Poética)





POÉTICA



Que cada palabra lleve lo que dice.
Que sea como el temblor que la sostiene.
Que se mantenga como un latido.

No he de proferir adornada falsedad ni poner tinta dudosa ni añadir
brillos a lo que es.
Esto me obliga a oírme. Pero estamos aquí para decir verdad.
Seamos reales.
Quiero exactitudes aterradoras.
Tiemblo cuando creo que me falsifico. Debo llevar en peso mis
palabras. Me poseen tanto como yo a ellas.

Si no veo bien, dime tú, tú que me conoces, mi mentira, señálame
la impostura, restriégame la estafa. Te lo agradeceré, en serio.
Enloquezco por corresponderme.
Sé mi ojo, espérame en la noche y divísame, escrútame, sacúdeme.


Rafael Cadenas




Que cada palavra tenha o que diz,
que seja como o tremor que a sustém,
que se mantenha como latejo.

Não profira composta falsidade,
nem acrescente cor duvidosa
nem dê brilho àquilo que existe.
Isto me obriga a escutar-me. Mas
estamos aqui para falar verdade.
Sejamos autênticos.
Eu quero a exactidão aterradora,
até tremo quando penso que minto.
Tenho de carregar com as minhas palavras,
que me possuem tanto como eu a elas.

Se eu não vir bem, tu que me conheces,
diz-me da minha mentira, indica-me
a imposturice, esfrega-me o engano.
A sério que agradeço.
Quem me dera amar e ser amado.
Sê tu a minha vista, espera-me no escuro,
divisa-me, escogita-me, abana-me.


(Trad. A.M.)

 .

17.11.17

Raúl Ferruz (Para-quedistas mortos)





PARACAIDISTAS MUERTOS



todos pensábamos que el futuro era un sitio mejor hasta que se convirtió en presente

todas esas suposiciones como cartas de un mago lanzadas al aire,
cayendo como paracaidistas muertos

esas pócimas de felicidad disipadas
como latas abiertas en el fondo de la nevera,
bajo la bombilla cubierta por vaho y mierda

estábamos convencidos de sonreír en la autopsia,

pero la neblina escocesa ha ido ensombreciendo cada píxel de arena
de una playa imaginada,
en la que apetecía morir ahogados, felices, y borrachos

incluso las flores, sobre las tumbas, tenían mejor pinta, más vida

el futuro ha venido a decirnos, que fue error enamorarnos de él
sólo teníamos que follárnoslo


Raúl Ferruz
 



todos pensávamos que o futuro era um lugar melhor até se converter em presente

todas essas suposições com cartas de magia atiradas ao ar,
a cair como para-quedistas mortos

essas poções de felicidade dissipadas
como latas abertas no fundo do frigo
por baixo da bomba coberta de vapor e de merda

estávamos convencidos de sorrir na autópsia,

mas a neblina escocesa foi sombreando cada pixel de areia
de uma praia imaginada,
onde apetecia morrer afogados, felizes e borrachos

até as flores, nas campas, tinham melhor pinta, mais vida

vindo o futuro dizer-nos que foi um erro apaixonar-nos por ele
só tínhamos de o foder

(Trad. A.M.)


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16.11.17

Camilo Castelo Branco (Batalhas sem baixas)





Trocavam-se saraivadas de ballas a distancia de tiro de pistola com a pontaria certeira do ódio entre soldados disciplinados e caçadores dos desfiladeiros do Gerez — pois, senhores, não morreu ninguém.

Exemplo : uma vez, padre Casimiro, com dous homens, sahe á frente da tropa, e, ao alcance de um tiro de caça, exclama : — «Rapazes, aqui está o padre Casimiro, commandante do povo de Vieira, a quem procurastes para prender. Ou vos rendeis, ou nenhum de vós fica hoje vivo ! »

A soldadesca, que estava deitada, levanta-se, mas não se rende. O padre aponta-lhe e desfecha uma pistola de cavallaria. A tropa responde-lhe com uma descarga cerrada. O padre carrega de novo e atira. A tropa carrega e desfecha outra descarga. Pois das 340 balas não houve uma que acertasse no padre nem raspasse pelos dois guerrilhas invulneráveis. 

Diria Boileau: ‘Le vrai peut quelquefois n’être pas vraisemblable’.
(p. 65)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

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14.11.17

Piedad Bonnett (Biografia de um homem com medo)





BIOGRAFÍA DE UN HOMBRE CON MIEDO



Mi padre tuvo pronto miedo de haber nacido.
Pero pronto también
le recordaron los deberes de un hombre
y le enseñaron
a rezar, a ahorrar, a trabajar.
Así que pronto fue mi padre un hombre bueno.
(“Un hombre de verdad”, diría mi abuelo).
No obstante,
—como el perro que gime, embozalado
y amarrado a su estaca— el miedo persistía
en el lugar más hondo de mi padre.
De mi padre,
que de niño tuvo los ojos tristes y de viejo
unas manos tan graves y tan limpias
como el silencio de las madrugadas.
Y siempre, siempre, un aire de hombre solo.
De tal modo que cuando yo nací me dio mi padre
todo lo que su corazón desorientado
sabía dar. Y entre ello se contaba
el regalo amoroso de su miedo.
Como un hombre de bien mi padre trabajó cada mañana,
sorteó cada noche y cuando pudo
se compró a cuotas la pequeña muerte
que siempre deseó.
La fue pagando rigurosamente,
sin sobresalto alguno, año tras año,
como un hombre de bien, el bueno de mi padre.


Piedad Bonnett

[Emma Gunst]




Meu pai cedo teve medo de ter nascido.
Mas cedo também
lhe recordaram os deveres de um homem
e lhe ensinaram
a rezar, a poupar, a trabalhar.
E daí cedo meu pai se fez um homem bom.
('Um homem de verdade', diria meu avô).
Contudo
- como cachorro gemendo, açaimado
e amarrado a seu poste - o medo persistia
no mais fundo de meu pai.
De meu pai,
que tinha em pequeno uns olhos tristes e de velho
e mãos tão limpas e graves
como o silêncio das madrugadas.
E sempre, ainda e sempre, um ar de solitário.
De tal modo que quando eu nasci meu pai me deu
tudo o que sabia dar
seu coração desorientado. Onde se incluía
a oferta do seu medo.
Como um homem de bem, meu pai trabalhou
cada manhã, contornou cada noite
e logo que pôde comprou a prestações
a pequena morte que sempre almejou.
Foi-a pagando pontualmente,
sem sobressaltos, ano após ano,
como um homem de bem, o bom do meu pai.

(Trad. A.M.)

.

13.11.17

Pedro Salinas (A forma de querer tua)





La forma de querer tú
es dejarme que te quiera.
El sí con que te me rindes
es el silencio. Tus besos
son ofrecerme los labios
para que los bese yo.
Jamás palabras, abrazos,
me dirán que tú existías,
que me quisiste: jamás.
Me lo dicen hojas blancas,
mapas, augurios, teléfonos;
tú, no.
Y estoy abrazado a ti
sin preguntarte, de miedo
a que no sea verdad
que tú vives y me quieres.
Y estoy abrazado a ti
sin mirar y sin tocarte.
No vaya a ser que descubra
con preguntas, con caricias,
esa soledad inmensa
de quererte sólo yo.


Pedro Salinas 





A forma de querer tua
é deixar-me que eu te queira.
O sim com que te me rendes
é o silêncio. Teus beijos
são ofertar-me os lábios
para que os beije eu.
Jamais palavras, abraços,
me dirão que existias tu,
que me quiseste, jamais.
Dizem-mo é folhas brancas,
mapas, augúrios, telefones;
tu, não.
E eu fico abraçado a ti,
sem perguntar, de medo
que não seja verdade
que tu vives e me queres.
E fico abraçado a ti
sem olhar nem te tocar.
Não vá que descubra
com perguntas, com carinhos,
essa solidão imensa
de querer-te só eu.


(Trad. A.M.)

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12.11.17

Hilda Hilst (Dez chamamentos ao amigo-V)





DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO


(V)

 Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta

E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro

Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro. 


Hilda Hilst


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11.11.17

Pedro César Alcubilla (Cem amanheceres)





CIEN AMANECERES



Cambio
cien amaneceres
que guardo
en el fondo
de mi bolsa
por un instante
con ella.
Porque siempre
es poco.
Porque me desborda.

Pedro César Alcubilla




Troco
cem amanheceres
que guardo
no fundo
da bolsa
por um instante
com ela.
Porque é pouco
sempre.
Porque me transborda.


(Trad. A.M.)

.

10.11.17

Pedro Andreu (Viúva)





VIUDA                             
   


Desde que tú te has ido
 ha quedado el silencio
 impenetrable
 del borde de las cosas,
 la costumbre de seguir colocando
 dos platos en la mesa,
 el vago simulacro
 de estar viva.
 Pero no he vuelto a llorar
 desde el hospital.
 Esta mañana a la ciudad
 le han bajado el volumen.
 Le han cambiado las calles
 de lugar. Y me he perdido.

Pedro Andreu




Desde que te foste
que ficou o silêncio
impenetrável
do rebordo das coisas,
o costume de pôr
dois pratos na mesa,
o vago simulacro
de estar viva.
Mas não voltei a chorar
depois do hospital.
Hoje de manhã
baixaram o volume
ao barulho da cidade.
E mudaram o lugar
às ruas. E eu perdi-me.


(Trad. A.M.)

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9.11.17

Ruy Cinatti (Poema de amor)





POEMA DE AMOR 



Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada. 

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas. 

Tardará muito, se é que as horas contam, 
ver-te, de novo, perto de mim, longe, 
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 
um dia a menos, o da tua chegada. 
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... - 
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles 
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 
na minh' alma inquieta um outro bater d' asas
ou num jardim um leito de flores!...


Ruy Cinatti

[Ler]


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8.11.17

Pedro A. González Moreno (Entro sempre no nome)





Entro siempre en el nombre igual que quien regresa
a un desván muy antiguo, ve ante sí sus recuerdos
y nada reconoce.
Igual que quien descorre unas cortinas
que se abren al vacío
y descubre de pronto que recordar es sólo
asomarse a las sombras.
Como se entra en un cuerpo
que tampoco las manos reconocen
(la memoria se empieza perdiendo por el tacto),
así entro yo en los largos paisajes del olvido,
como se entra en un nombre
que cuando se pronuncia va agrandándose y crece
por encima del vaho de sus sílabas.

Entro siempre en el nombre como se entra en un cuerpo:
besando su misterio al pronunciarlo.


Pedro A. González Moreno




Entro sempre no nome tal como quem regressa
a um desvão antigo e nada reconhece
perante as suas recordações.
Tal como quem corre umas cortinas
abrindo para o vazio
e de súbito descobre que recordar é apenas
assomar entre as sombras.
Como se entra num corpo
que nem as mãos reconhecem
(pelo tacto se começa a perder a memória),
assim eu entro nas longas paisagens do olvido,
como se entra num nome
que engrandece ao pronunciar-se,
crescendo por cima do vapor das sílabas.

Entro sempre no nome como se entra num corpo,
beijando-lhe o mistério ao pronunciá-lo.



(Trad. A.M.)

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7.11.17

Pablo Neruda (Poema 19 - Nina morena e ágil)





POEMA 19 - NIÑA MORENA Y ÁGIL...



Niña morena y ágil, el sol que hace las frutas,
el que cuaja los trigos, el que tuerce las algas,
hizo tu cuerpo alegre, tus luminosos ojos
y tu boca que tiene la sonrisa del agua.

Un sol negro y ansioso se te arrolla en las hebras
de la negra melena, cuando estiras los brazos.
Tú juegas con el sol como con un estero
y él te deja en los ojos dos oscuros remansos.

Niña morena y ágil, nada hacia ti me acerca.
Todo de ti me aleja, como del mediodía.
Eres la delirante juventud de la abeja,
la embriaguez de la ola, la fuerza de la espiga.

Mi corazón sombrío te busca, sin embargo,
y amo tu cuerpo alegre, tu voz suelta y delgada.
Mariposa morena dulce y definitiva
como el trigal y el sol, la amapola y el agua.


Pablo Neruda




Nina morena e ágil, o sol que faz as frutas,
o que faz vingar os trigos e estorce as algas,
fez o teu corpo alegre, teus luminosos olhos
e essa boca que tem o sorriso da água.

Um sol negro e ansioso enrola-se-te nos fios
da negra cabeleira, quando estendes os braços.
Tu brincas com o sol como se fosse um esteiro
e ele deixa-te nos olhos dois escuros remansos.

Nina morena e ágil, nada de ti me acerca,
tudo de ti me afasta, como do meio-dia.
Tu és a delirante juventude da abelha,
a embriaguez da onda, a força da espiga.

Meu coração sombrio, porém, te busca
e eu amo teu corpo alegre, tua voz solta e fina.
Borboleta morena, suave e definitiva
como o trigal e o sol, como a papoila e a água.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (F.A.Pacheco)

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6.11.17

Camilo Castelo Branco (A devassidão das minhotas)





A devassidão das minhotas, alternada com intermittencias de beaterio quando os missionários urram, tem sido para mim um objectivo de contemplaçoens de que não pude ainda attingir o gráo de alienação mental a que pode levar a estupidez.

Os solteiros acceitam, sem biocos de honra, as mulheres infamadas que lhes estimulam o cio ou o interesse. 

O brazileiro, o argentario que fechou a loja nas extinctas congostas, deshonra e dota raparigas com uma quantia sabida; de modo que os candidatos á dotada disputam a páo de choupa o gôso legitimo da moça habilitada para noiva. (p.51)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

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5.11.17

Pablo García Casado (Ciladas)





TRAMPAS



Dice que no está, que se fue de viaje. Está nerviosa, me
ofrece un café, no gracias, deben mucho dinero y yo he
venido a cobrarlo. La hija maior está viendo dibujos ani
mados, El Rey León, a mi hijo le encanta, se sabe todas
las canciones. Los niños aprenden rápido. El pequeño
me mira desde la trona con la boca llena de papilla, muy
serio, con los ojos azules de su padre. Mi marido es quien
lleva las cuentas, dice, yo no sé nada de papeles. Le entre
go un documento firmado por los dos, sí, esta es mi firma,
dice, él dijo que no me preocupara, que era bueno
para los dos, bueno para los niños, que todo se arregla
ría. Él y su negocio de barcas de recreo. Lleva dos meses
fuera, le he dejado mensajes al móvil, pero no respon
de. Los niños preguntan por su padre, dónde está papá,
dónde está papá, y yo no sé qué decirles. Todo eso está
muy bien, señora, pero ahora hablemos de dinero.


PABLO GARCÍA CASADO
Dinero
(1997)




Diz que não está, que saiu em viagem. Está nervosa,
oferece-me um café, não obrigado, devem muito dinheiro
e eu vim cobrar. A filha mais velha está a ver desenhos ani-
mados, El Rey León, o meu filho adora, sabe todas
as canções. As crianças aprendem rápido. O pequeno
olha para mim da cadeira com a boca cheia de papa, muito
sério, com os olhos azuis do pai. O meu marido é quem
trata das contas, diz, eu cá de papéis não sei nada. Entrego-
-lhe um documento assinado por ambos, sim, é a minha
assinatura, diz, ele disse que não me preocupasse, que era bom
para os dois, bom para as crianças, que tudo se arranjaria. Ele
e o seu negócio de barcos de recreio. Está fora já há dois
meses, deixei-lhe recados no telemóvel, mas não respon-
de. As crianças perguntam pelo pai, onde está papá,
onde está papá, e eu não sei que dizer-lhes. Está tudo
muito certo, senhora, mas agora vamos falar de dinheiro.

(Trad. A.M.)

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4.11.17

3.11.17

Fernando Pessoa / A. Campos (Lisbon revisited)





LISBON REVISITED



NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

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2.11.17

Oliverio Girondo (Espera)





ESPERA



Esperaba
esperaba
y todavía
y siempre
esperando,
esperando
con todas las arterias,
con el sacro,
el cansancio,
la esperanza,
la médula;
distendido,
exaltado,
apurando la espera,
por vocación,
por vicio,
sin desmayo,
ni tregua.

¿Para qué extenuarme en alumbrar recuerdos
que son pura ceniza?
Por muy lejos que mire:
la espera ya es conmigo,
y yo estoy con la espera…
escuchando sus ecos,
asomado al paisaje de sus falsas ventanas,
descendiendo sus huecas escaleras de herrumbre,
ante sus chimeneas,
sus muros desolados,
sus rítmicas goteras,
esperando,
esperando,
entregado a esa espera
interminable,
absurda,
voraz,
desesperada.

Sólo yo…
¡Sí!
Yo sólo
sé hasta dónde he esperado,
qué ráfagas de espera arrasaron mis nervios;
con qué ardor,
y qué fiebre
esperé
esperaba,
cada vez con más ansias
de esperar y de espera.

¡Ah! el hartazgo y el hambre de seguir esperando,
de no apartar un gesto de esa espera insaciable,
de vivirla en mis venas,
y respirar en ella la realidad,
el sueño,
el olvido,
el recuerdo;
sin importarme nada,
no saber qué esperaba:
¡siempre haberlo ignorado!;
cada vez más resuelto a prolongar la espera,
y a esperar,
y esperar,
y seguir esperando
con tal de no acercarme
a la aridez inerte,
a la desesperanza
de no esperar ya nada;
de no poder, siquiera,
continuar esperando.


Oliverio Girondo

[Life vest under your seat]




Esperava
esperava
e ainda
e sempre
esperando,
esperando
com todas as artérias,
com o sacro
o cansaço,
a esperança,
a medula;
distendido,
exaltado,
apurando a espera,
por vocação,
por vício,
sem desfalecimento,
nem trégua.

Para quê fatigar-me a acender lembranças
que são mera cinza?
Por muito longe que mire,
a espera está comigo
e eu com a espera...
escutando-lhe o eco,
assomado às vistas de suas falsas janelas,
a descer-lhe as escadas ocas de ferrugem,
face às suas chaminés,
seus muros desolados,
suas rítmicas goteiras,
esperando,
esperando,
entregue a essa espera
interminável,
absurda,
voraz,
desesperada.

Só eu...
Sim!
Só eu sei
até onde esperei,
que rabanadas de espera arrasaram meus nervos;
com que ardor
e que febre
esperei
esperava,
cada vez com mais ânsias
de esperar e de espera.

Ah, a fartura e a fome de continuar a esperar,
de não apartar um gesto dessa espera insaciável,
de vivê-la nas veias,
respirar nela a realidade,
o sonho,
o olvido,
a lembrança;
sem nada me importar,
sem saber o que esperava,
ignorando-o sempre;
cada vez mais resolvido a prolongar a espera,
e a esperar,
e esperar,
e continuar esperando,
mas sem me abeirar
da aridez inerte,
da desesperança
de nada já esperar;
de não poder sequer
continuar esperando.

(Trad. A.M.)

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1.11.17

Óscar Hahn (Solitude)





SOLITUDE



Mi soledad no está sola:
está conmigo
Me acompaña dondequiera
que voy: duerme en mi cama
come de mi mano: respira
el aire que respiro
Me habla con mi voz
camina como yo camino
siente lo que yo siento
Sólo una vez mi soledad
se alejó de mi lado
me abandonó: partió
Fue esa tarde que conocí
a la mujer de mi vida
Meses y meses sin mi soledad
noche tras noche con mi gran amor
ocupando el espacio
de mi desamparo
Hasta que un día todo terminó
como siempre terminan
los amores eternos:
en un abrir y cerrar de ojos
Y ahora
he regresado a mi casa
Mi soledad me recibe
con los brazos abiertos
no me dice nada
no me reprocha nada
me abraza me consuela
Llora conmigo


Óscar Hahn




Minha solidão não está só,
está comigo
Acompanha-me onde quer 
que eu vá, dorme comigo,
come-me da mão, respira
o ar que eu respiro
Fala-me com minha voz
caminha como eu caminho
sente o que eu sinto
Só uma vez a solidão
saiu da minha beira,
abandonou-me, partiu
Foi nessa tarde que conheci
a mulher da minha vida
Meses e meses sem solidão
noite após noite com meu amor
enchendo o espaço do meu desamparo
Até que um dia tudo acabou
como acabam sempre
os amores eternos,
num abrir e fechar de olhos
E agora
tornei a casa
A solidão acolhe-me
de braços abertos
não me diz nada
não me censura
abraça-me apenas
consola-me
Chora comigo

(Trad. A.M.)


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