27.3.06

Jorge Luis Borges (Dezassete haicai)

                                       




DEZASSETE HAICAI



1
Algo me disseram
a tarde e a montanha.
Já me passou.


2
A vasta noite
não é agora mais
que uma fragrância.


3
É ou não é
o sonho que olvidei
antes da alba?


4
Calam-se as cordas.
A música sabia
o que eu sinto.


5
Hoje não me alegra
a amendoeira do passal.
Lembra-me de ti.


6
Obscuramente,
livros, lâminas, chaves
seguem o meu fado.


7
Desde então
não mais mexi as peças
no tabuleiro.


8
No deserto
acontece a aurora.
Alguém o sabe.


9
A espada ociosa
sonha com as batalhas.
Meu sonho é outro.


10
O homem morreu.
A barba não sabe.
Crescem as unhas.


11
Esta é a mão
que às vezes passava
no teu cabelo.


12
Sob o beiral
o espelho copia
apenas a lua.


13
Com a lua
a sombra estendida
é uma só.


14
É um império
essa luz que se apaga
ou uma candeia?


15
A lua nova,
também ela a olha
de outro porto.


16
Trinado ao longe.
Mal sabe o rouxinol
que te consola.


17
A velha mão
vai traçando versos
para o esquecimento.



Jorge Luis Borges

(Trad. A.M.)
Original: Catedral


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