25.3.17

Begoña Abad (Teria de escrever-te um poema)





Tendría que escribirte un poema.
Un poema blando como el pan de cada día
y azul como el mechón de mi pelo.
Uno que te atara a mi piel
y que dejara en la tuya
palabras de porcelana.


Tendría que usar las letras
de un alfabeto sin inventar,
las notas de un pentagrama,
las sílabas de los silencios,
los acordes de un corazón latiendo.


Tendría que escribirte un poema
que no olvidaras nunca,
un brevísimo poema de arena
derramándose por los espacios
que dejamos al besarnos
sin apenas rozarnos los labios,
un minúsculo poema
que durmiera siempre en tu pupila
mientras yo no estuviera en ella.
Pero no sé escribir poemas de amor.


Begoña Abad

[Fragments de vida]




Teria de escrever-te um poema,
um poema macio como o pão de cada dia,
azul como a mecha do meu cabelo.
Um poema que te colasse à minha pele
e que deixasse na tua
palavras de porcelana.


Teria de usar as letras
de um alfabeto por inventar,
as notas de um pentagrama,
as sílabas do silêncio,
os acordes de um coração a bater.


Teria de escrever-te um poema
que não esquecesses nunca,
um brevíssimo poema de areia
a derramar-se nos espaços que
deixámos ao beijar-nos
quase sem tocar os lábios,
um minúsculo poema
que dormisse na tua pupila
sempre que eu não estivesse nela.


Mas não sei escrever poemas de amor.


(Trad. A.M.)

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24.3.17

João Guimarães Rosa (Quando escrevo)





Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas,
um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco.
Gostaria de ser um crocodilo
porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos
e escuros como o sofrimento dos homens.



Guimarães Rosa

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23.3.17

Batania (Sementeira)





SIEMBRA



El miedo que tuve,
 si pudiera encerrarlo en una ballena muerta
 y ponerlo al sol colgado de unos cables eléctricos,

el miedo a vuestra necesidad de fruto,
 a vuestros pájaros con números de oro
 cantando en las jaulas registradoras,

el miedo que tuve
 y ya no tengo porque sembré una casa:
 la que ahora estalla de gerundios en flor.


Batania



O medo que eu tive,
se pudesse enfiá-lo numa baleia morta
e pendurá-lo nos fios ao sol,

o medo da vossa precisão de fruto,
dos vossos pássaros com números de oiro
a cantar em jaulas registadoras,

o medo que eu tive
e já não tenho porque semeei uma casa,
esta que explode agora de gerúndios em flor.



(Trad. A.M.)

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22.3.17

Ape Rotoma (Embebedo-me todas as noites)





Me emborracho cada noche para no pensar en ti
y poder dormir. Despierto de madrugada con resaca
y el jodido insomnio alcohólico me impide dormir de nuevo.
Como un zombi, me acerco al ordenador de un compañero de piso
y tecleo cosas ya escritas, para no pensar en ti
y poder vivir un rato. La mañana pasa lenta
y el puto guión me aburre. Tecleo alguna otra cosa,
leo el periódico de ayer y "Hollywood" de Bukowski,
fumo mucho y pienso más, procuro que no sea en ti
y no lo consigo. Vuelta al guión. Otro café. Y, por fin,
grabo en ese mismo software muy despacio este poema.
Y me gusta. Y me entretengo en juguetear con su ritmo,
en respetar su estructura y en multiplicar enlaces,
aunque parezca mentira, para no pensar en ti.

Ape Rotoma




Embebedo-me todas as noites para não pensar em ti
e poder dormir. Desperto de madrugada com ressaca
e a porra da insónia do álcool não me deixa adormecer novamente.
Como um zombi, vou ao computador de um colega de casa
e teclo umas coisas já escritas, para não pensar em ti
e poder viver um bocado. A manhã escorre lenta
e o puto do guião chateia-me. Teclo uma outra coisa qualquer,
leio o jornal de ontem e ‘Hollywood’ de Bukowski,
fumo bastante e penso mais, procuro que não seja em ti
mas não consigo. Torno ao guião. Outro café. E, por fim,
gravo no teclado muito devagar este poema.
E agrada-me. E entretenho-me a brincar-lhe com o ritmo,
respeitar-lhe a estrutura e multiplicar ligações,
embora pareça mentira, para não pensar em ti.


(Trad. A.M.)


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21.3.17

Inês Dias (Regressámos à praia)






Regressámos à praia,
esgotada essa série de acidentes
em que o menor foi o amor,
ao contrário do que se previa.
Deixámos a maré subir
na memória, cancelar-nos
a areia sob os pés, levar
até os restos do navio encalhado
que ressuscitava todas as manhãs,
corpo de ossos já limpos.
Podia ter sido o meu.
Somos, afinal, dos últimos:
desfiamos gerações, contando onda após onda
após onda, até ao mergulho final.

E escrevemos como vivemos,
na espuma ou nos vidros embaciados
da cidade, com a teimosa convicção de que
nada ficará – nós não ficaremos.


Inês Dias



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19.3.17

Antonio Pérez Morte (Perdidos)





PERDIDOS



Nos fuimos distanciando paso a paso,
casi sin saberlo, distraídos,
caminamos dejando en el olvido
la vieja ilusión de ser nosotros.
Y seguimos desde entonces, sin motivo,
deambulando a un ritmo acelerado,
sin saber a dónde, por qué lado,
conscientes sí, de traicionarnos,
como siempre, una vez más,
¡por cobardía!
Rebeldes de sueños
y actitud conformista
paseamos las reliquias del pasado
por las calles vacías de la vida,
y donde hubo una esperanza
hay una herida.

Antonio Pérez Morte



Fomo-nos distanciando passo a passo,
sem saber quase, distraídos,
caminhamos deixando esquecida
a velha ideia de sermos nós mesmos.
E continuamos desde então, sem motivo,
a deambular em passo acelerado,
sem saber para onde ou por que lado,
cientes sim de nos trairmos,
como sempre, uma vez mais,
por cobardia!
Rebeldes de sonhos
e atitude conformista,
passeamos as relíquias do passado
pelas ruas vazias da vida,
e onde houve já uma esperança
há agora uma ferida.

(Trad. A.M.)

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