28.7.16

Mark Strand (Os restos)





THE REMAINS



I empty myself of the names of others. I empty my pockets.
I empty my shoes and leave them beside the road.
At night I turn back the clocks;
I open the family album and look at myself as a boy.
What good does it do? The hours have done their job.
I say my own name. I say goodbye.
The words follow each other downwind.
I love my wife but send her away.
My parents rise out of their thrones
into the milky rooms of clouds. How can I sing?
Time tells me what I am. I change and I am the same.
I empty myself of my life and my life remains.


Mark Strand

[Circulo de poesia]




Esvazio-me dos nomes dos outros, esvazio os bolsos,
tiro os sapatos e deixo-os na berma.
À noite atraso os relógios,
abro o álbum de família e vejo-me em criança.
De que adianta? O tempo fez o seu trabalho.
Pronuncio o meu nome, despeço-me,
as palavras vão no vento umas após outras.
Amo a mulher, mas mando-a embora.
Meus pais deixam o trono,
recolhem ao quarto feito de nuvens. Como posso eu cantar?
O tempo me diz aquilo que eu sou,
mudo, mas sou o mesmo,
esvazio-me da vida e a vida continua.


(Trad. A.M.)

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27.7.16

Rita Ramones (Maldições)





MALDICIONES



Maldita la lucha de clases
porque me llena de esperanzas.
Mejores los tiempos en que no cabía duda
de que uno si en un hueco nacía,
en ese mismo hueco moría.

Maldita la hora en que me creo
que yo pude haber sido presidente (a).

Maldita la esperanza
porque nos impide tomar decisiones.

Maldita esa sensación que tengo a veces
de que ya casi alcanzo
mis terrazas en el mediterráneo
mi piscina con diseño de Hockney
mi mármol transparente
y mi techo de espejos.


Rita Ramones

[Tamal de peluche]




Maldita seja a luta de classes
porque me enche de esperanças.
Melhor o tempo em que não havia dúvida
de que quem nascia num buraco
no mesmo buraco morria.

Maldita a hora em que pensei
que podia ser presidente.

Maldita seja a esperança
porque impede de tomar decisões.

Maldita seja a sensação que tenho às vezes
de que estou quase a alcançar
meus terraços no mediterrâneo
minha piscina com desenho de Hockney
meu mármore transparente
e meu tecto de espelhos.


(Trad. A.M.)

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26.7.16

Eça de Queiroz (O Desembargador Amado)





O Sr. Desembargador Amado era de uma boa família do Norte e tivera uma carreira singularmente fácil.

Dizia-se dele: «aquele deixou-se ir e chegou».

Sustentado pela vasta influência da parentela, fora com efeito levado, sem abalos nem choques, numa ascensão gradual e confortável, até à sua poltrona de damasco vermelho da Relação de Lisboa.

Aí se deixara cair com o peso da sua obesidade, e cruzando as mãos sobre o estômago, começara a ruminar regaladamente.

Que de modo nenhum se creia que eu queira diminuir com azedume os méritos deste varão obeso: quero somente mostrar a natureza, toda de indolência e de egoísmo, do Desembargador Amado, ocupado em se nutrir com abundância, atento exclusivamente ao jogo das suas funções, assustado se a bexiga, ou o baço, ou o fígado denunciavam alterações, sem ter coragem de se mexer do sofá durante noites inteiras, completamente desinteressado dos homens – e mesmo de Deus.

O nosso imortal José Estêvão, vendo-o um dia entrar numa recepção em casa do chorado duque de Saldanha, exclamou, designando-o com um verso conhecido de Juvenal: – Aquele ventre que ali vem, é o Amado!



EÇA DE QUEIROZ
O Conde de Abranhos


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Raquel Lanseros (In nomine libertatis)





IN NOMINE LIBERTATIS



Si es verdad que el rencor
desgasta y envejece lentamente
con su rumor callado de piedra de molino
apuesto por ser joven ahora y siempre.

Mi casa está vacía
de chivos expiatorios y culpables.
Acumulo tan sólo
el valor necesario para seguir viviendo
bajo la protección de la alegría.

No me he inclinado nunca por el ánimo fácil
de tomar y obligar. Incluso lo pequeño
se me ha antojado siempre un mecanismo frágil
con más de una respuesta.

En mi alcoba no reinan
prohibiciones ni leyes. Mi palabra
es un patio sin llave
donde es bien recibido quien aprecie
la sombra de una higuera y un vaso de buen vino.

No frecuento los presos ni los jueces.
Sentencias y dictámenes les dejo
a aquellos que no dudan. Yo sólo estoy segura
que amo la libertad y sus orillas.

Cuando falte, buscadme entre las alas
de un pájaro que escapa del invierno.
Con las manos vacías se hace mejor camino.
No me pesan los créditos. En este mundo nuestro
toda deuda es de juego.


Raquel Lanseros

[Emma Gunst]




Se é verdade que o rancor
desgasta e envelhece lentamente
com seu calado rumor de mó de moinho
eu cá aposto em ser jovem agora e sempre.

A minha casa está vazia
de bodes expiatórios e de culpados.
Junto só o valor necessário
para ir vivendo
com a bênção da alegria.

Jamais me inclinei para o ânimo fácil
de tomar e obrigar. Mesmo o pequeno
sempre me pareceu um mecanismo frágil
com mais de uma resposta.

No meu quarto não há leis
nem proibições. A minha palavra
é um pátio sem chave
onde é bem recebido quem apreciar
a sombra da figueira e um bom copo de vinho.

Não frequento nem presos nem juízes.
Ditames e sentenças deixo-as
a quem não tem dúvidas. Eu só tenho a certeza
de que amo a liberdade e suas margens.

Quando eu faltar, buscai-me entre as asas
de um pássaro a fugir do inverno.
De mãos vazias caminha-se melhor.
Não me pesam cá empréstimos. Neste mundo nosso
todas as dívidas são de jogo.


(Trad. A.M.)

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25.7.16

Jacques Prévert (Este amor)





CET AMOUR



Cet amour
Si violent
Si fragile
Si tendre
Si désespéré
Cet amour
Beau comme le jour
Et mauvais comme le temps
Quand le temps est mauvais
Cet amour si vrai
Cet amour si beau
Si heureux
Si joyeux
Et si dérisoire
Tremblant de peur comme un enfant dans le noir
Et si sûr de lui
Comme un homme tranquille au milieu de la nuit
Cet amour qui faisait peur aux autres
Qui les faisait parler
Qui les faisait blêmir
Cet amour guetté
Parce que nous le guettions
Traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Parce que nous l’avons traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Cet amour tout entier
Si vivant encore
Et tout ensoleillé
C’est le tien
C’est le mien
Celui qui a été
Cette chose toujours nouvelle
Et qui n’a pas changé
Aussi vrai qu’une plante
Aussi tremblante qu’un oiseau
Aussi chaude aussi vivant que l’été
Nous pouvons tous les deux
Aller et revenir
Nous pouvons oublier
Et puis nous rendormir
Nous réveiller souffrir vieillir
Nous endormir encore
Rêver à la mort,
Nous éveiller sourire et rire
Et rajeunir
Notre amour reste là
Têtu comme une bourrique
Vivant comme le désir
Cruel comme la mémoire
Bête comme les regrets
Tendre comme le souvenir
Froid comme le marbre
Beau comme le jour
Fragile comme un enfant
Il nous regarde en souriant
Et il nous parle sans rien dire
Et moi je l’écoute en tremblant
Et je crie
Je crie pour toi
Je crie pour moi
Je te supplie
Pour toi pour moi et pour tous ceux qui s’aiment
Et qui se sont aimés
Oui je lui crie
Pour toi pour moi et pour tous les autres
Que je ne connais pas
Reste là
Lá où tu es
Lá où tu étais autrefois
Reste là
Ne bouge pas
Ne t’en va pas
Nous qui nous sommes aimés
Nous t’avons oublié
Toi ne nous oublie pas
Nous n’avions que toi sur la terre
Ne nous laisse pas devenir froids
Beaucoup plus loin toujours
Et n’importe où
Donne-nous signe de vie
Beaucoup plus tard au coin d’un bois
Dans la forêt de la mémoire
Surgis soudain
Tends-nous la main
Et sauve-nous.


JACQUES PREVERT
Paroles
Paris, Gallimard
(1946)




Este amor
Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Lindo como o sol
E mau como o tempo
Quando o tempo é mau
Este amor tão real
Este amor tão belo
Tão feliz
Tão alegre
E tão irrisório
A tremer de medo como criança no escuro
E tão seguro de si
Como um homem tranquilo a meio da noite
Este amor que metia medo aos outros
Que os fazia falar
E os fazia empalidecer
Este amor vigiado
Pois nós o vigiávamos
Acossado ferido pisado morto negado esquecido
Posto que nós o acossámos ferimos pisámos
matámos negámos e esquecemos
Este amor inteiro
Tão vivo ainda
E cheio de sol
É o teu
É o meu
O que foi
Isto sempre novo
E sempre o mesmo
Tão real como uma planta
Tão tremente como um pássaro
Tão quente e vivo como o Verão
Podemos nós ambos
Ir e vir
Podemos esquecer
E depois adormecer
Acordar sofrer envelhecer
Voltar a adormecer
Sonhar com a morte
Acordar rir sorrir
E rejuvenescer
O nosso amor lá continua
Teimoso como um jerico
Vivo como o desejo
Cruel como a memória
Tolo como o desgosto
Terno como a lembrança
Frio como mármore
Lindo como o sol
Frágil como criança
Olha-nos a sorrir
E fala-nos sem dizer nada
E eu escuto-o a tremer
E grito
Eu grito por ti
Eu grito por mim
Suplico-te
Por ti por mim por todos que amam
E que são amados
Sim grito-lhe
Por ti por mim e por todos os outros
que não conheço
Fica
Aí onde estás
Onde estavas em tempos
Fica
Não te mexas
Não te vás
Nós que nos amámos
Nós esquecemos-te
Tu não nos esqueças
Nós só te tínhamos a ti neste mundo
Não nos deixes arrefecer
Sempre muito mais longe
E seja onde for
Dá-nos um sinal de vida
Muito mais tarde num recanto de um bosque
Na floresta da lembrança
Aparece de repente
Estende-nos a mão
E dá-nos a salvação.

(Trad. A.M.)

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24.7.16

Raúl Ferruz (Quando nos abrirem na autópsia)





el día que nos autopsien
sólo van a encontrar rabia
dentro de nosotros


Raúl Ferruz




quando nos abrirem na autópsia
vão achar só raiva
dentro de nós

(Trad. A.M.)

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23.7.16

Eça de Queiroz (Ele há questões terríveis)





O Conselheiro Gama Torres, colocando-se no meio da casa, as pernas afastadas, o ventre saliente, as mãos atrás das costas, fitava o soalho e bamboleando o crânio fecundo, murmurava surdamente:

- Ele há muitas questões!... Há questões terríveis. Há a prostituição... o pauperismo... Ele há muitas questões... (...)

- Ele há muitas questões! Questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes questões! Questões terríveis!... (...)

Nunca esquecerei a terrível impressão que me deixou aquele grande homem, de pé no meio da sala, esgazeando o olhar em redor e dizendo cavamente:

- Os senhores podem crê-lo, nem tudo são chalaças; ele há questões terríveis... A prostituição, o pauperismo, o ultramontanismo... Questões terríveis!



EÇA DE QUEIROZ
O Conde de Abranhos

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Piedad Bonnett (Volta à poesia)





VUELTA A LA POESÍA



Otra vez vuelvo a tí.
Cansada vengo, definitivamente solitaria.
Mi faltriquera llena de penas traigo, desbordada
de penas infinitas,
de dolor.
De los desiertos vengo con los labios ardidos
y la mirada ciega
de tanto duro viento y ardua arena.
Abrazada de sed,
vengo a beber de tus profundos manantiales,
a rendirme en tus brazos,
hondos brazos de madre, y en tu pecho
de amante, misterioso,
donde late tu corazón como un enigma.
Ahora
que descansando estoy junto al camino,
te veo aparecer en cada cosa:
en la humilde carreta
en que es más verde el verde de las coles,
y en el azul en que la tarde estalla.
Humilde vuelvo a ti con el alma desnuda
a buscar el reflejo de mi rostro,
mi verdadero rostro
entre tus aguas.


Piedad Bonnett




A ti volto outra vez.
Cansada, definitivamente solitária.
A saca cheia de penas trago,
a deitar por fora de infinitas penas,
de dor.
Dos desertos venho com os lábios ardidos
e olhar cego
de tanto duro vento e árdua areia.
Abrasada de sede,
venho beber de tuas fontes,
render-me em teus braços,
fundos braços de mãe, e em teu peito
de amante, misterioso,
onde te bate o coração qual enigma.
Agora
que descansando estou junto ao caminho,
vejo-te aparecer em cada coisa,
no carro humilde
em que é mais verde o verde das couves
e no azul em que a tarde explode.
Humilde volto a ti de alma desnuda,
em busca do reflexo de meu rosto,
meu verdadeiro rosto
em tuas águas.

(Trad. A.M.)

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22.7.16

António Ramos Rosa (Arte poética)





ARTE POÉTICA



Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou a ajudar a dormir um inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.


António Ramos Rosa


[Domingos Mota]

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