16.9.19

Raúl Nieto de la Torre (Se não te conhecesse)





SI NO TE HUBIERA CONOCIDO



Cuando llegue la gran pregunta
o nos salga de dentro, acuérdate
de que un día
elegimos ser libres y amarnos.

Acuérdate de eso –te digo–
porque los restos...
porque las cáscaras vacías...
porque qué otra cosa no arrojar a este pozo
enfrente del que vamos desnudándonos.

Qué ansiedad la del hombre
que se mira en la nada
y encuentra en ella su reflejo.


Raúl Nieto de la Torre




Quando vier a grande questão
ou nos saltar cá de dentro,
lembra-te que um dia
escolhemos ser livres e amar-nos.

Lembra-te disso – digo-te eu –
porque os restos...
as cascas...
que outra coisa não atirar a este poço
junto ao qual nos vamos desnudando.

Que ânsia a do homem
que se mira no nada
e nele encontra seu reflexo.

(Trad. A.M.)

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15.9.19

Raúl Gustavo Aguirre (Reúno teus rostos)





Yo reúno tus rostros tus gestos tus palabras
vivo de tus imágenes como el agua del cielo
yo te devuelvo al sol a las glicinas
al reino tuyo a tu calor
yo te desato de la noche que te olvida
te devuelvo a los días más bellos de la tierra
esta tierra que quiere ser parecida a ti
y que te necesita para maravillarme.


Raúl Gustavo Aguirre




Reúno teus rostos gestos palavras
vivo da tua imagem como a água do céu
devolvo-te ao sol às glicínias
a teu reino a teu calor
desato-te da noite que te olvida
devolvo-te aos dias mais belos da terra
esta terra que quer parecer-se contigo
e precisa de ti para me maravilhar.

(Trad. A.M.)


13.9.19

José Paulo Paes (Acima de qualquer suspeita)





ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA



a poesia está morta

mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
los drummond de andrade manuel bandeira murilo
mendes vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto
paul éluard oswald de andrade guillaume apollinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro
araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece
nunca ter existido

nem eu


José Paulo Paes

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11.9.19

Raúl Gómez Jattín (O deus que adora)




EL DIOS QUE ADORA



Son un dios en mi pueblo y mi valle
No porque me adoren Sino porque yo lo hago
Porque me inclino ante quien me regala
unas granadillas o una sonrisa de su heredad
O porque voy donde sus habitantes recios
a mendigar una moneda o una camisa y me la dan
Porque vigilo el cielo con ojos de gavilán
y lo nombro en mis versos Porque soy solo
Porque dormí siete meses en una mecedora
y cinco en las aceras de una ciudad
Porque a la riqueza miro de perfil
mas no con odio Porque amo a quien ama
Porque sé cultivar naranjos y vegetales
aún en la canícula Porque tengo un compadre
a quien le bauticé todos los hijos y el matrimonio
Porque no soy bueno de una manera conocida
Porque amo los pájaros y la lluvia y su intemperie
que me lava el alma Porque nací en mayo
Porque mi madre me abandonó cuando
precisamente
más la necesitaba Porque cuando estoy enfermo
voy al hospital de caridad Porque sobre todo
respeto solo al que lo hace conmigo Al que trabaja
cada día un pan amargo y solitario y disputado
como estos versos míos que le robo a la muerte.

Raúl Gómez Jattín




Sou um deus na minha terra
Não porque me adorem Mas porque o faço eu
Porque me inclino diante de quem me oferece umas romãs
Ou porque vou mendigar uma moeda ou uma camisa
aos meus conterrâneos e eles dão-me
Porque vigio o céu com olhos de gavião
e o nomeio em meus versos Porque sou sozinho
Porque dormi sete meses numa cadeira de baloiço
e cinco nos passeios de uma cidade
Porque a riqueza olho-a de lado
mas não com ódio Porque amo quem ama
Porque sei cultivar laranjeiras e vegetais
mesmo na canícula Porque tenho um compadre
a quem baptizei os filhos todos, além do casamento
Porque não sou bom de um modo conhecido
Porque amo os pássaros e a chuva e a intempérie
que me lava a alma Porque nasci em Maio
Porque minha mãe deixou-me quando precisamente
mais a carecia Porque quando estou doente
vou ao hospital de caridade Porque sobretudo
respeito só quem me respeita a mim
E a quem trabalha todos os dias
um pão amargo e solitário e disputado
como estes versos meus que eu roubo à morte.

(Trad. A.M.)

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10.9.19

Fabián Casas (Às escuras, sem chaves)





SIN LLAVES Y A OSCURAS



Era uno de esos días en que todo sale bien.
Había limpiado la casa y escrito
dos o tres poemas que me gustaban.
No pedía más.

Entonces salí al pasillo para tirar la basura
y detrás de mí, por una correntada,
la puerta se cerró.
Quedé sin llaves y a oscuras
sintiendo las voces de mis vecinos
a través de sus puertas.
Es transitorio, me dije;
pero así también podría ser la muerte:
un pasillo oscuro,
una puerta cerrada con la llave adentro
la basura en la mano.


Fabián Casas




Era um dia desses em que tudo sai bem,
tinha limpado a casa, escrevera
dois ou três poemas a gosto.
Não pedia mais.

Então saí pelo corredor para pôr o lixo
e atrás de mim, com uma rabanada de vento,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras,
sentindo as vozes dos vizinhos
para lá das portas.
É transitório, lembrei-me,
mas a morte também podia ser assim:
um corredor escuro,
uma porta fechada com a chave por dentro,
o lixo na mão.

(Trad. A.M.)



>>  Crónica (10p) / Circulo de poesia (5p) / El placard (5p) / Wikipedia

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8.9.19

José Miguel Silva (Às vezes trazes para casa uma tristeza)





Às vezes trazes para casa uma tristeza
velha, feita de cansaços que apenas supõe
quem tem o privilégio de te amar.
Despes o casaco, apertas contra o rosto a Mia,
a tua mão procura às cegas o meu ombro,
e nas tuas pestanas descidas leio um apelo
a que nem sempre sou capaz de responder.
A tua indefensão ocupa o seu lugar à mesa,
quase sem ânimo para segurar o garfo.

Eu tento animar-te com as últimas desgraças
do mundo, dou-te um resumo do telejornal,
faço-te notar que a sopa está quente, vou
depressa ao café comprar-te chocolates,
mergulho-os em vinagre, uno as gatas
pela cauda e digo-te: anda ver como termina
um casamento, deixo cair na sanita o comando
do vídeo, ameaço convidar-te para o meu funeral.

Tantas faço que consigo, finalmente,
transformar em zanga a tristeza que trazias.
E enquanto tu me chamas inútil, e palerma,
eu sorrio interiormente, noto com agrado
a contracção no teu pescoço, sou eu próprio
quem te guia até às facas na gaveta, e nem sequer
me desvio quando vejo a garrafa de Favaios
a voar na direcção desta minha tão salobre,
tão esperta cabeça, filha do ardil e da penúria.


José Miguel Silva

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6.9.19

Raúl Ferruz (Interrupções)





INTERRUPCIONES



qué es lo que más me gusta de la vida.
la vida, en sí misma, supongo.
los cubitos en el vaso de café, irisado
a contraluz. el sexo. el cáncer en los
niños. reconocer un olor de la infancia.
la forma de algunos pétalos. las
muertes súbitas. los magos malos. la
ausencia de aire en el espacio
exterior. la crueldad innata. los
nombres rayados en las mesas de
madera. la perfección de la envidia.
acercar una boca a una boca. escribir
alma sin entender qué es el alma. lo
edificante de la decepción. el olor de la
sangre vaginal en las manos.
contemplar una burbuja de aceite
aislada en agua hirviendo. los
escritores que se adelantan a la
muerte. la vaga intención de la religión
por convencernos de algo. la tristeza
de los ventrílocuos. la hipotermia en un
cuerpo con sabor salitre. mi miedo
absoluto a cualquier forma humana.
las margaritas. las habitaciones en las
que nadie debería atreverse a
pernoctar en el hotel de tu cabeza.
fingir que escribir puede servir de algo.
dejarse caer. asumir el dolor, la
pérdida, y la derrota. el agüjero
del subconsciente. qué es lo que
más me gusta de la vida. la vida, en sí
misma, supongo. con su sucesión de
microorgasmos y violaciones. que en
ningún caso son tan importantes. sólo
interrupciones.


Raul Ferruz





o que é que eu mais gosto da vida.
da vida, em si mesma, acho eu.
dos cubinhos no copo de café, irisado
em contra-luz. do sexo. do cancro nas
crianças. de reconhecer um cheiro da infância.
da forma de algumas pétalas. das
mortes súbitas. dos mágicos maus. da
ausência de ar no espaço
exterior. da crueldade inata. dos
nomes riscados nas mesas de
madeira. da perfeição da inveja.
de chegar uma boca a uma boca. de
escrever alma sem entender o que é alma.
do edificante da decepção. do cheiro do
sangue vaginal nas mãos.
de contemplar uma borbulha de azeite
isolada na água a ferver. os escritores
que se adiantam à morte. a vaga intenção
da religião de nos convencer de algo. a tristeza
dos ventríloquos. a hipotermia num
corpo com sabor a salitre. o meu medo
absoluto a qualquer forma humana.
as margaridas. os quartos
em que ninguém devia atrever-se
a pernoitar no hotel da tua cabeça.
fingir que escrever pode servir para algo.
deixar-se cair. assumir a dor, a perda
e a derrota. o buraco do subconsciente.
o que é que mais gosto na vida. a vida,
em si mesma, suponho. com sua sucessão
de micro-orgasmos e violações. que
não são importantes em nenhum caso. apenas
interrupções.

(Trad. A.M.)

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