31.10.14

Ana Hatherly (No fundo)




NO FUNDO



No fundo azul
no espelho de uma delicada tristeza
que os meus olhos reflectem:
vês-me?
vês-me como eu sou?
vês-me como algo que se descobre
na acrobacia da imagem?

Na sensual tranquilidade da palavra
o poeta tenta uma arriscada ordem
e entre a fábula e a reportagem

simula mentir
para atingir
a superior verdade


Ana Hatherly

[Emma Gunst]

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30.10.14

Cysko Muñoz (Mulher de azul)





MUJER DE AZUL



Busco una mujer
entre todas ellas
capaz de ver belleza
en el grito de un naufragio,
la belleza
de las innumerables tragedias cotidianas
o del maullido moribundo
del gato del tejado.

Quiero que sea capaz de romper
el destino de un mordisco
de convertir el miedo en migajas
dibujar un mantel
y pegarse un festín.
Una mujer a la que le hagan cosquillas las religiones
que sepa desde siempre
que vamos a encontrarnos
pero que en lo único en lo que crea
sea en el azar.

Quiero que sea a la vez
un sueño y un recuerdo
que llegue con la sonrisa en punto
del mediodía
y con la alegría
imprecisa de un jilguero
-que sepa, como se sabe en los libros-
que el amor romántico es una mentira
sobre un castillo de naipes
-pero que intuya, como se intuye en los sueños-
que juntos podemos ser sencillamente felices.

Una mujer de viento y espada
de beso y hoguera
que cuanto mas la aten
mas se aleje
una mujer de hacha de guerra
de yesca y alumbre
que cure las heridas con sal.

Una mujer con la que todo se peleé
pero nada se rompa
que tras cada tropiezo
se gire en el aire y se ponga a bailar
que invente palancas
con las que mover los otoños
que su lengua sea un río de lava
y su saliva espuma de mar.

Una mujer cuyas piernas inspiren los dogmas
y sus pisadas los aplasten uno tras otro.

Una mujer cuyos labios fabriquen las nubes
y sus besos no paren de llover.

Una mujer cuyas manos sean de arcilla
y sus caricias de agua

o simplemente una mujer sencilla
tal vez, una mujer de azul.

Busco una mujer, para empezar,
–y esto es lo único innegociable-
que sea capaz de mirar de frente
estos versos
y no les tenga miedo.

Una mujer así o nada.

No pienso conformarme con menos.

Cysko Muñoz



Busco mulher
que seja entre todas
capaz de ver beleza
no grito de um naufrágio,
a beleza
das inúmeras tragédias quotidianas
ou do miar moribundo
do gato no telhado.

Que seja capaz de rasgar
o destino à dentada
de reduzir o medo a migalhas
desenhar uma toalha
e fazer um festim.
Uma mulher com cócegas da religião
que saiba desde sempre
do nosso encontro fatal
mas que creia
só no acaso.

Que seja à uma
sonho e lembrança
que chegue com o sorriso em ponto
do meio-dia
e com a alegria
imprecisa de um rouxinol
- que saiba, como se sabe nos livros -
que o amor romântico é uma mentira
sobre um castelo de cartas
- mas que intua, como se intui nos sonhos -
que juntos podemos ser simplesmente felizes.

Uma mulher de vento e espada
de beijo e chama
que quanto mais a prendam
mais se desate
uma mulher de machado de guerra
de acendalha e de lume
que cure as feridas com sal.

Uma mulher com quem tudo se discuta
mas nada se parta
que ao tropeçar dê uma volta
no ar e se ponha a dançar
que invente alavancas
com que mover os outonos
que a língua seja um rio de lava
e a saliva espuma do mar.

Uma mulher que as pernas inspirem os dogmas
e seus passos esmaguem um após outro.

Uma mulher que os lábios fabriquem as nuvens
e os beijos não parem de chover.

Uma mulher que as mãos sejam de argila
e suas carícias de água

ou simplesmente uma mulher singela
talvez uma mulher de azul

Busco mulher, para começar
- e nisto só não transijo -
que seja capaz de olhar de frente
estes versos
e não lhes ter medo.

Uma mulher assim, ou nada.

Não penso contentar-me com menos.

(Trad. A.M.)

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29.10.14

Ver (148)





Fogo/Cabo Verde


[Onésimo Teotónio de Almeida]

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Alfredo Buxán (Uma pequena morte)





UNA PEQUEÑA MUERTE



Una pequeña muerte sucede cada día
muy lejos de nosotros, o nos pasa rozando,
en una aldea persa o a la orilla de un río.

Abajo, en la cantina donde compras tabaco,
o en el andén del metro que tomas cada día
para ir al trabajo rodeado de gente
que también va cansada.

Una pequeña muerte que tiene su reflejo,
aunque tú no lo entiendas, en la cama deshecha,
en una bombilla que de súbito se apaga
a media tarde y lo envuelve todo en el silencio,
en tus ojos cerrados y en el día que acaba,
en el triste lamento que los muebles exhalan
cuando llega la noche. Una pequeña muerte
que te llena de asombro
cuando aceptas con pena que también es la tuya.

Alfredo Buxán




Uma pequena morte dá-se em cada dia
muito longe de nós, ou passa a roçar-nos,
numa aldeia persa ou na margem de um rio.

Adiante, na venda onde compras tabaco,
ou no cais do metro que tomas em cada dia
para ir para o trabalho rodeado de gente
que também vai cansada.

Uma pequena morte que se reflecte,
mesmo que o não percebas, na cama desfeita,
numa lâmpada que de súbito se apaga
a meio da tarde e abraça tudo em silêncio,
nos teus olhos fechados e no dia que acaba,
no triste lamento que os móveis exalam
ao cair da noite. Uma pequena morte
que te enche de assombro
quando aceitas com pena que é também a tua.

(Trad. A.M.)


Claribel Alegria (Pequena morte)

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28.10.14

Helder Moura Pereira (Andaria pelas dunas)





Andaria pelas dunas em devaneio, no corpo
saliente desafio. Mostrei a maior calma.
Era preciso caminhar a passo largo. Logo
uma voz me chamou. Como não olhei para trás
gritou-me. O serra da estrela não lhe faz mal.
E como é que eu sabia, eu não podia saber.
Resolvemos isso com um copo. E não foi só um.
Depois eu tive dentes de cortiça, mostrei
uma fé saloia. Palavras e fumos e o cão
ali quieto ao nosso lado. Confessei-me:
tudo e todos me atiram para o centro e por isso
é que digo barbaridades. Pronto, posso fazer
alguma coisa por ti, lavar-te as costas, cortar-te
as unhas dos pés, sentar-me com as mãos
nos cotovelos. Tenho uma dor por todo
o lado. Tenho um amor que não sabe
o que vale. E o serra da estrela já é teu amigo.


Helder Moura Pereira


>>  Poesias e prosas (27p) / Relampago (recensão) / nEscritas (4p)


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27.10.14

Cristina Peri Rossi (Escoriação)





ESCORIACIÓN



Herida que queda, luego del amor, al costado del cuerpo.
Tajo profundo, lleno de peces y bocas rojas,
donde la sal duele y arde el yodo,
que corre todo a lo largo del buque,
que deja pasar la espuma,
que tiene un ojo triste en el centro.
En la actividad de navegar,
como en el ejercicio del amor,
ningún marino, ningún capitán,
ningún armador, ningún amante,
han podido evitar esta suerte de heridas,
escoraciones profundas, que tienen el largo del cuerpo
y la profundidad del mar,
cuya cicatriz no desaparece nunca,
y llevamos como estigmas de pasadas navegaciones,
de otras travesías. Por el número de escoriaciones
del buque, conocemos la cantidad de sus viajes;
por las escoraciones de nuestra piel,
cuántas veces hemos amado.

Cristina Peri Rossi

[Emma Gunst]



Ferida que fica, após o amor, nas costas do corpo.
Talho profundo, cheio de peixes e bocas vermelhas,
onde o sal dói e arde o iodo,
que tudo corre ao longo do navio,
que deixa passar a espuma
e tem um olho triste no meio.
Na arte de navegar,
como na arte do amor,
nenhum marinheiro, nenhum capitão,
nenhum amante, nenhum armador,
ninguém pode evitar esta espécie de feridas,
escoriações profundas, com o comprimento
do corpo e a fundura do mar,
cuja cicatriz não desaparece
e que usamos como estigmas de passadas navegações,
de outras travessias. Pelo número de escoriações
do navio, sabemos o número das suas viagens;
pelas escoriações da nossa pele,
quantas vezes é que amámos.

(Trad. A.M.)

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26.10.14

Cristóvão de Aguiar (Vento-3)






Por via do vento acode-me à ponta da memória uma das jaculatórias que se rezavam depois da salve-rainha do terço, já com o santo sono desse tempo, quem mo dera agora, chumbando de peso as capelas dos olhos.

Ouço-me do meu lado de fora encarreirando a cantilena até ao amém final, e nem sequer abro a boca, louvado seja.

Por fim e sem que possa pôr um pau na roda desarvorada da balbúrdia atmosférica, põe-se-me o tunante a sarnicar-me e a varrer-me de lés-a-lés, assobia-me nos cavilosos corredores e noutros compartimentos subitamente desertos.


CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Nova Relação de Bordo
(2004)

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Cristian Aliaga (Tratado da luz)





TRATADO DE LA LUZ



Hay días en que tus ojos están perdidos para la vida,
para cualquier visión que encierre una esperanza.
Sales a la ventana y miras sin ver el infinito
ocaso que preanuncia una mañana.
Es de mañana y ya ves el ocaso, tus ojos están perdidos,
es mejor que los cierres.
Que los cierres o encuentres una razón poderosa
para recoger la luz que traspasa los párpados.
Tenés escondidas pasiones en las pupilas
que antes se abrían descuidando el ocaso.
Todas son noches: las mañanas son noches y las tardes.
Pero la luz no ha encenderse jamás, sólo hay controles
para la oscuridad.
Pero la luz no ha de apagarse jamás, porque la llevás
sin tregua en el fondo de los ojos.

Cristian Aliaga



Há dias em que teus olhos estão perdidos para a vida,
para qualquer visão que contenha uma esperança.
Vais à janela e olhas sem ver o infinito
ocaso que prenuncia a manhã.
É de manhã, mas tu já vês o ocaso,
estão perdidos teus olhos, é melhor que os cerres.
Que os cerres ou então encontres uma razão poderosa
para colher a luz que te atravessa as pálpebras.
Escondidas nas pupilas tens paixões
que dantes se abriam ignorando o ocaso.
Todas são noites, as manhãs são noites e as tardes também.
A luz não mais se acenderá, há só controlos para o escuro.
A luz não mais se apagará, porque tu a tens
a brilhar no fundo dos teus olhos.

(Trad. A.M.)

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25.10.14

Francisco Rodrigues Lobo (Fermoso Tejo meu)





Fermoso Tejo meu, quão diferente
te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
o meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
eu não sei se serei quem dantes era.


Francisco Rodrigues Lobo

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