30.4.16

Manuel Vilas (Delia's gone)





DELIA'S GONE



Bendito sea el suicidio.

Lo mejor de nuestro amor fue suicidarnos.

Tantos suicidas en París, en Nueva York,
en Ginebra, en Londres, en Estocolmo y en Madrid.

Hombres y mujeres que se arrojan por las ventanas,
desde décimos o undécimos pisos,
intentando volar en el absurdo viento de las ciudades.

Bendito sea el suicidio, que nos iguala a los ángeles
más famosos en las rutinarias gradas del Universo.

Es temperamental, la muerte por amor.

Suicídate, no significa nada, el mundo resplandecerá
aún más y no habrá tristeza alguna porque nadie te ama ya.

Hombres y mujeres que dispararon negras pistolas
contra sus inocentes y vencidas sienes,
que castigaron su aparato digestivo
con cápsulas verdes y blancas, rojas y amarillas.

No soporté que me abandonaras, amor mío.

No soporté quedarme sin trabajo, amor mío.

No podía verte con otra, amor mío.

San Ian Curtis, San Mariano José de Larra, Santa Silvia Plath,
la santa horca, la santa pistola y el santo gas,
y el amor siempre,
el amor
tan asesino.

Di adiós a tu cuerpo, se ha quedado vacío.

Bendito sea el suicidio,
que nos aleja de la mirada de todos los Emperadores.

Bendito sea el suicidio, el gran adiós de los lunáticos.

Qué bella es la muerte y su hermano el sueño,
dijo un inglés ilustre.

No podía soportar las nubes, el mar, las calles,
amor mío.

Cúbreme de tierra, estaré bien no estando,
amor mío.

Cómprame un ataúd barato, estará bien así.

No hace falta que me recuerdes, amor mío.


Manuel Vilas

[Revista Turia]



Bendito seja o suicídio.

Do nosso amor o melhor foi suicidarmo-nos.

Tantos suicidas em Paris, Nova Iorque, Genebra, Londres, Estocolmo, Madrid.

Homens e mulheres que se atiram pelas janelas,
do alto de dez ou onze pisos,
a tentar voar no vento absurdo da cidade.

Bendito seja o suicídio, que nos iguala aos anjos
mais famosos na escala do Universo.

É temperamental, a morte de amor.

Suicida-te, não significa nada, o mundo resplandecerá
mais ainda e não haverá tristeza alguma porque ninguém te ama já.

Homens e mulheres que dispararam negras pistolas
contra os miolos, que castigaram o estômago
com pírulas verdes e brancas, vermelhas e amarelas.

Não aguentei que me abandonasses, amor meu.

Não aguentei, amor meu, ficar sem trabalho.

Não podia ver-te com outra, amor meu.

São Ian Curtis, São Mariano José de Larra, Santa Sylvia Plath,
a santa forca, a santa pistola e o santo gás,
e o amor sempre,
o amor
assassino.

Diz adeus a teu corpo, que está vazio.

Bendito seja o suicídio,
que nos afasta dos olhos de todos os Imperadores.

Bendito seja o suicídio, o grande adeus dos lunáticos.

Que bela a morte e o sono seu irmão,
como disse um inglês ilustre.

Não podia já aguentar as nuvens, o mar, as ruas,
amor meu.

Compra-me um caixão barato, é quanto basta.

Nem é preciso que me lembres, amor meu.

(Trad. A.M.)

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29.4.16

Ruy Belo (A rapariga de cambridge)





A RAPARIGA DE CAMBRIDGE



Queria conhecer intimamente conhecer
a rapariga anónima estendida no relvado
ao sol distante de um colégio de cambridge
Perdida na distância nem sei bem
se é uma mulher se rapariga
mais uma das amadas raparigas
Sei apenas que lê não sei o quê
e é simples objecto recortado
na margem verde intensamente verde
após a água mansa que reflecte os edifícios
Urgente é conhecer aquela que só veio num postal
mandado por alguém que certamente não sabia
o que essa rapariga ao sol para mim significaria
Ela devia saber um português profundíssimo
ou talvez as coisas que eu tinha para lhe dizer
as conseguisse de repente dizer num inglês
que fosse a melhor parte de mim
Definitivamente todo este dia-a-dia
contra o qual esmago a minha melhor lança
como que um sobressalto passaria
O meu reino pela rapariga de cambridge
Se eu a conhecesse mas no momento da fotografia
sentindo agora o que à distância sinto
pode dizer-se que seria feliz
Só assim o seria finalmente
há uma força obscura que mo diz


Ruy Belo


[Cómo cantaba mayo]

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28.4.16

Luis Cernuda (Clearwater)





CLEARWATER



Píntalo. Con un pincel delgado,
Con color bien ligero. Pinta
El reflejo del sol sobre las aguas,
En su fondo piedrecillas que sueñan.

Las hojas en los olmos, que algún aire,
Al orear, mansamente remueve
Al fondo, sombra azul de unas colinas.
Quieta en el cielo, alguna nube clara.

Dentro de ti sonríe lo que esperas
Sin prisa, para su día cierto;
Espera donde feliz se refleja tu vida
Igual que este paisaje en dulces aguas.


Luis Cernuda


[Escomberoides]




Pinta-o, a pincel fino
e uma cor muito leve. Pinta
o reflexo do sol na água,
pedrinhas lá no fundo a sonhar.

As folhas do ulmeiro que um vento,
ao soprar, manda ao fundo,
sombra azul de alguns montes.
Quieta no céu, uma nuvem clara.

Dentro de ti sorri o que esperas
sem pressa, para seu dia certo;
espera onde feliz se espelha tua vida,
tal como esta paisagem em água serena.


(Trad. A.M.)

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27.4.16

Ricardo Silvestrin (Não quero mais de um poeta)





não quero mais de um poeta
que a sua letra
palavra presa na página
borboleta
nem quero saber da sua vida
da verdade que nunca foi dita
mesmo por ele
que tudo que viveu duvida
não revirem a sua cova
o seu arquivo
é no seu livro que o poeta está enterrado
vivo.


Ricardo Silvestrin

[Acontecimentos]

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26.4.16

Luis Alberto de Cuenca (Voltaremos a ver-nos)





Volveremos a vernos donde siempre es de día
y los feos son guapos y eternamente jóvenes,
donde los poderosos no abusan de los débiles
y cuelgan de los árboles juguetes y tebeos.

En ese hogar de luz que no hiere los ojos
volveremos tú y yo a decirnos bobadas
cogidos de la mano, viendo morir las olas
sin agobios ni prisas, donde el sol no se pone.

Y viviré en tus labios el amor que la Tierra
sintiera por el Cielo cuando el mundo era un niño,
y el tiempo dejará de salmodiar su lúgubre
canción de despedida mientras nos abrazamos.


LUIS ALBERTO DE CUENCA
El hacha y la rosa
(1993)


[Un poema cada dia]





Voltaremos a ver-nos onde é sempre dia claro
e os feios são belos e eternamente jovens,
onde os poderosos não abusam dos fracos
e pendem nas árvores brinquedos e revistas.

Nessa casa de luz que a vista não fere
voltaremos ambos a dizer-nos tolices,
de mão dada, a ver morrer as ondas,
sem pressas nem aflições, lá onde o sol se põe.

E viverei em teus lábios o amor que a Terra
tinha ao Céu quando o mundo era criança,
e o tempo deixará de entoar sua triste
canção de adeus, enquanto nos abraçamos.


(Trad. A.M.)

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25.4.16

Pedro Tamen (Os dias)





OS DIAS



Naquele tempo, viver era a melhor coisa do mundo.
Quando nascia o sol as pessoas viam
e os homens eram crianças para além dos montes.
Era uma planície, grande como convém a todas as planícies
e plana porque tudo estava certo.
Naquele tempo tínhamos sido criados e éramos iguais às
ervas e às flores.
Tu,
tão perfeita que impossível não seres,
tão erguida como um riso de andorinha,
tu estavas ao meu lado, naturalmente fresca,
e não havia motivos nem razões porque sabíamos tudo.
A nossa teologia era o beijo da criança mais próxima
e o deitarmo-nos na terra como folhas da mesma planta,
gratos, reduzidos, conscientes.
Olhando para cima, o céu abria-se e todos os Anjos
vinham sentar-se no rebordo
e riam como nós pequenas gargalhadas.
Eu cantava canções mais belas do que não tendo palavras
e ouvias-me em silêncio e de olhos abertos, exactamente
como a todos os sons.


Pedro Tamen

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24.4.16

Karmelo C. Iribarren (A herança)





LA HERENCIA



Últimamente,
cuando me asomo al espejo,
es mi abuelo el que me mira,
más que mi padre.

Cincuenta años
para empezar a cobrar
la única herencia que me dejó,

y que acabará matándome.


Karmelo C. Iribarren

[Sureando]




Ultimamente,
quando me vejo ao espelho,
é meu avô que me olha,
mais que meu pai.

Cinquenta anos
para começar a cobrar
a única herança que me deixou,

e que acabará por matar-me.


(Trad. A.M.)

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