29.7.14

Rosa Alice Branco (Seu a seu dono)





SEU A SEU DONO



A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do corpo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
como a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do copo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.


Rosa Alice Branco


[Luz & sombra]

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28.7.14

Piedad Bonnett (Contabilidade)






CONTABILIDAD



El debe y el haber
doble columna
que el tiempo va asentando
sobre el libro de cuentas de los días
con mano minuciosa
y rigor que no admite apelaciones.
Tarde ves el balance,
las deudas, los desfases,
las pérfidas movidas del contable
que hizo que aquel cruzara muy temprano
y este otro muy tarde por tu vida.
Y está lo que no ves,
lo consignado con miserables tintas invisibles:
la puerta que tocaste diez minutos después
de alguna despedida. La voz que nunca oíste,
la calle no cruzada, el paradero
en que tuviste miedo de bajarte.
Y en un rojo indeleble,
la cadena de tratos y pactos y traiciones,
la irreversible línea que te suma y te resta,
la que te multiplica y te divide.

Piedad Bonnett

[Piedad Bonnett]




O deve e o haver
dupla coluna
que o tempo vai assentando
no livro de contas dos dias
com mão minuciosa
e rigor sem apelo.
Tarde vês o balanço,
as dívidas, as diferenças
as pérfidas mexidas do contabilista
fazendo que este passasse mui cedo
e o outro mui tarde na tua vida.
E mais aquilo que tu não vês,
o inscrito com tinta invisível,
a porta a que bateste dez minutos após
a despedida. A voz que nunca ouviste,
a rua não atravessada, a paragem
em que tiveste medo de descer.
E a vermelho indelével,
o rol de tratos e pactos e traições,
a linha irreversível que te soma e subtrai,
que te multiplica e divide.

(Trad. A.M.)

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27.7.14

Raul Brandão (Caminha)





Caminha esta manhã é um sonho doirado que – tenho medo – se vai esvair na atmosfera.

O rio azul, o grande monte fronteiriço, a água, o céu, não têm existência real.

Sobre o esplêndido panorama diáfano e azul, sobre o cone imenso e compacto de Santa Tecla, sobre a povoação de Campozandos, sobre os pinheirais verdes e os campos verdes, sobre a água que não bole, passou agora mesmo um pincel molhado em tinta acabada de fazer.

A vila de ruas lajeadas e a igreja de pedra roída pelo ar salgado, com a Galiza em frente e o fio branco de espuma lá para a barra, parece adormecida e encantada.

Deviam-na deixar morrer intacta, sem lhe deitarem as muralhas abaixo, envolta no doirado que a traz entontecida.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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Pedro Andreu (Vivalgia)





VIVALGIA



Vivir a medias o del todo,
de lado, del revés o bocabajo.
Vivir despacio, deprisa, sin aliento.
Vivir en falso o a pecho descubierto,
a las malas y en los días mejores.
Vivir los cumpleaños y también los entierros.
Agarrarse a vivir hasta en los hospitales
o en las clases de griego.
Hasta que duela el tuétano.
Vivir sin ganas aunque sea,
porque ya llegarán
las vivas ganas de estar vivo de nuevo.
Vivir en los amores y en su ausencia,
en la cola del paro y el trabajo.
En los libros, dentistas, vacaciones.
Pero vivir, joder, ¡vivir!,
a pesar de estar vivos o tan muertos
como a veces estamos.
Vivir a todo trapo y para siempre
como si no cerrase nunca por derribo
la existencia. Enfermos de vivalgia:
supervivientes.

Pedro Andreu




Viver a meio ou à toda,
de lado, do avesso ou de cabeça para baixo.
Viver devagar, depressa, sem descanso.
Viver em falso ou a peito descoberto,
às más e nos dias melhores.
Viver os aniversários , mas também os enterros.
Agarrar-se à vida até no hospital
ou nas aulas de grego.
Até doer o tutano.
Viver sem ganas, embora seja
por depois virem
as vivas ganas de estar vivo de novo.
Viver nos amores e na sua ausência,
na fila do desemprego e no trabalho.
Nos livros, no dentista, nas férias.
Mas viver, porra, viver!,
apesar de vivos ou de tão mortos
como estamos às vezes.
Viver à grande e para sempre
como se a vida não acabasse nunca.
Enfermos de vivalgia,
sobreviventes.

(Trad. A.M.)

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26.7.14

Ricardo Silvestrin (Nada garante)





Nada garante que esta noite
se apague no claro do dia
só porque um dia antes
era assim que acontecia.
Dorme teu sono, acorda dissonante,
sem saber se eras tu
ou tua sombra
que do sonho emergia.
Lava teus olhos, cospe na pia.
Enquanto dormias,
o espelho estava acordado.
Abre a janela, espia:
quem sabe o mundo
ainda está do outro lado.


Ricardo Silvestrin



>>  Ricardo Silvestrin (sítio) / Silvestrin (blogue) / Tanto (6p) / Facebook / Wikipedia

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25.7.14

Pedro A. González Moreno (Chove sobre a noite)





(24)


Llueve sobre la noche y sobre el mundo,
pero no lava el agua los recuerdos.
Aúllan
erráticas metáforas que buscan encarnarse
sobre la sed de un verso
y se despeñan, turbios, los afluentes
del dolor.
Como perros
en la noche sin luna, las sombras olfatean
el olor de unas ropas que ya no son de nadie.

Con el aire sonámbulo de un animal sin dueño,
husmea la memoria
entre escombros de días y semanas que nunca
llegaron a vivirse por completo.
Olfatea
un rastro de perfume
que se quedó enquistado entre las sábanas
o enredado en la piel de las cortinas.
Va bebiéndose en tragos de alcohol la madrugada
y mientras llueve, busca
el vértigo de un puente
colgado entre dos cuerpos o entre dos precipicios
que parecen unidos por su propia distancia .
Y mientras llueve, aúllan
por las calles vacías, por la carne
vacía, los recuerdos.
Y en la helada intemperie
de las habitaciones
y por los descampados de todas las esquinas,
solamente se escucha
esta lluvia de azufre y cal que cae
sobre la sed del mundo.


PEDRO A. GONZÁLEZ MORENO
Calendario de sombras
(2005)


[Javier Díaz Gil]




Chove sobre a noite e o mundo,
mas a água não lava as lembranças.
Uivam
erráticas metáforas, tentando encarnar
na sede de um verso
e despenham-se, turbados, os afluentes
da dor.
Cachorros
na noite sem lua, as sombras farejam
algumas vestes que já não são de ninguém.

Com o ar sonâmbulo de um animal sem dono,
fusga a memória
entre escombros de dias e semanas
que não se viveram por inteiro.
Fareja um rasto de perfume
que ficou enquistado entre os lençóis
ou enredado na pele das cortinas.
Vai bebendo em tragos de álcool a madrugada
e enquanto chove, busca
a vertigem da ponte
suspensa entre dois corpos ou dois abismos
que parecem unidos por sua própria distância.
E enquanto chove, uivam
pelas ruas vazias, pela carne
vazia, as recordações.
E na tempestade gelada
das casas,
nas esquinas e nos descampados,
escuta-se apenas
esta chuva de cal e enxofre,
tombando sobre a sede do mundo.

(Trad. A.M.)

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24.7.14

Raul Brandão (Momentos)





A vida passa e um momento da vida não passa mais – transforma-se.

E a aproximação da morte reveste-o de outra cor.

Por isso agora vejo tudo cada vez mais nítido...

Vejo os buracos nos muros e os reflexos ao lume de água que duram um momento e se renovam sempre.

É o sol que lhes dá vida e os ilumina.

São instantâneos.

Movem-se, somem-se e dão lugar a outros.

São agitados e doirados.

Uma aparência, um jogo de luz, como as existências efémeras que passam e o sonho que não deixa vestígios e só um instante se desenha à superfície da vida...


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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Raquel Lanseros (Invocação)





INVOCACIÓN



Que no crezca jamás en mis entrañas
esa calma aparente llamada escepticismo.

Huya yo del resabio,
del cinismo,
de la imparcialidad de hombros encogidos.

Crea yo siempre en la vida,
crea yo siempre
en las mil infinitas posibilidades.

Engáñenme los cantos de sirenas,
tenga mi alma siempre un pellizco de ingenua.

Que nunca se parezca mi epidermis
a la piel de un paquidermo inconmovible,
helado.

Llore yo todavía
por sueños imposibles
por amores prohibidos
por fantasías de niña hechas añicos.

Huya yo del realismo encorsetado.

Consérvense en mis labios las canciones,
muchas y muy ruidosas y con muchos acordes.

Por si vinieran tiempos de silencio.

Raquel Lanseros

[Sureando]



Que não me cresça jamais nas entranhas
essa calma aparente chamada cepticismo.

Que eu escape do ressaibo,
do cinismo,
da imparcialidade de ombros encolhidos.

Que eu creia sempre na vida,
que sempre eu creia
nas mil infinitas possibilidades.

Enganem-me os cantos de sereias,
tenha sempre minha alma uma pitada de ingénua.

Que minha epiderme não lembre
a pele de um paquiderme indiferente,
gelado.

Que eu chore ainda
por sonhos impossíveis
por amores proibidos
por fantasias de menina feitas em tiras

Que eu fuja do realismo encoletado

E guardem meus lábios as canções,
muitas e muito ruidosas e com muitos acordes.

Para o caso de virem aí tempos de silêncio.

(Trad. A.M.)

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23.7.14

Pedro da Silveira (Quatro motivos da Fajã Grande-1)





QUATRO MOTIVOS DA FAJÃ GRANDE (I)



Em frente,
mar.
Para trás
rochas a pique
vedam todos os caminhos.

Vem o Inverno
Vem o Verão.

Na loja vazia o dono boceja.
A grapuada joga ao pião.
Um carro de bois chia.

E é tudo tão igual,
Tão encharcado de solidão
Que a gente às vezes já nem sabe
se vive.

Pedro da Silveira


[Pico da vigia]


> Manuel da Fonseca (Aldeia)

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