19.6.18

Ángeles Mora (Trocando os pronomes)






CAMBIANDO UN POCO LOS PRONOMBRES         



Porque sé que tú eres sobre todo la noche,                        
sobre todo tus dedos que se mueren en mí,                        
sobre todo este beso, la huella de mis labios,                     
el brillo de tus piernas y las mías,                            
el silencio que canta en estas cuatro                      
paredes de mi vida...                    

Porque sé que tú eres de pronto la mañana,                       
mis dedos que se mueren sólo en ti,                       
sobre todo este beso, la huella de tus labios,                     
el brillo de mis piernas y las tuyas,                          
el silencio que canta en estas cuatro                      
paredes de tu vida...


Ángeles Mora




Porque eu sei que tu és sobretudo a noite,
sobretudo teus dedos morrendo em mim,
sobretudo este beijo, a marca de meus lábios,
tuas pernas brilhando, assim como as minhas,
o silêncio cantando
entre as quatro paredes
da minha vida...

Porque eu sei que tu és de repente a manhã
meus dedos morrendo apenas em ti,
sobretudo este beijo, a marca de teus lábios,
minhas pernas brilhando, assim como as tuas,
o silêncio cantando
entre as quatro paredes
da tua vida...


(Trad. A.M.)

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18.6.18

Ángel Guinda (Escrever)






ESCRIBIR



Si me quitan la palabra escribiré con el silencio.
Si me quitan la luz escribiré en tinieblas.
Si pierdo la memoria me inventaré otro olvido.
Si detienen el sol, las nubes, los planetas,
me pondré a girar.
Si acallan la música cantaré sin voz.
Si queman el papel, si se secan las tintas,
si estallan las pantallas de los ordenadores,
si derriban las tapias, escribiré en mi aliento.
Si apagan el fuego que me ilumina
escribiré en el humo.
Y cuando el humo no exista
escribiré en las miradas que nazcan sin mis ojos.
Si me quitan la vida escribiré con la muerte.

Ángel Guinda




Se me tirarem a palavra escreverei com o silêncio.
Se me tirarem a luz escreverei nas trevas.
Se perder a memória inventarei outro olvido.
Se detiverem o sol, as nuvens, os planetas,
pôr-me-ei eu mesmo a girar.
Se calarem a música cantarei sem voz.
Se queimarem o papel, se secarem as tintas,
se explodirem as pantalhas dos computadores,
se derrubarem os muros, escreverei no meu hálito.
Se apagarem a chama que me ilumina
escreverei no fumo.
E quando o fumo não existir
escreverei nos olhares que nascerem sem meus olhos.
Se me tirarem a vida escreverei com a morte.

(Trad. A.M.)


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17.6.18

Agustina Bessa-Luís (Casamento)




(Casamento)


O casamento não impede as mulheres de cometerem loucuras, mas impede que as loucuras das mulheres sejam tidas por absurdas. (II)


AGUSTINA BESSA-LUÍS
Fanny Owen
(1979)
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16.6.18

Ángel González (Aqui, Madrid)






AQUÍ, MADRID, MIL NOVECIENTOS CINCUENTA Y CUATRO: UN HOMBRE SOLO



Un hombre lleno de febrero,
ávido de domingos luminosos,
caminando hacia marzo paso a paso,
hacia el marzo del viento y de los rojos
horizontes - y la reciente primavera
ya en la frontera del abril lluvioso...
Aquí, Madrid, entre tranvías
y reflejos, un hombre: un hombre solo.
- Más tarde vendrá mayo y luego junio,
y después julio y, al final, agosto.
Un hombre con un año para nada
delante de su hastío para todo.


Ángel González

[Noctambulario]




Um homem cheio de Fevereiro,
ávido de domingos luminosos,
caminhando para Março passo a passo,
Março do vento e dos vermelhos
horizontes – e a recente Primavera
já na fronteira de Abril chuvoso...
Aqui, Madrid, por entre eléctricos
e reflexos, um homem: um homem só.
- Mais tarde virá Maio e depois Junho,
a seguir Julho e no fim Agosto.
Um homem com um ano para nada,
diante de seu fastio para tudo.

(Trad. A.M.)

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15.6.18

Andrés Neuman (A natação e o ar)






LA NATACION Y EL AIRE



En eras primitivas,
cuando el verbo aguardaba sumergido,
los peces respiraban a través de una vesícula
que era a la vez timón, brújula y bronquio,
fuente del equilibrio natatorio
y del aire disperso por el agua.
Hoy perviven, mermadas en las profundidades,
unas pocas especies que la emplean.

En nosotros también resiste un testimonio:
¿quién no ha sentido, en sueños, que volaba
como si diera brazas en el mar?
Al dormir, respiramos con el órgano
extraño que los peces han perdido,
el mismo que alza a flote las imágenes
y el ritmo del pulmón decide el vuelo
-su altura, su sentido, sus virajes-
y sudamos en busca de un líquido remoto
y levamos el cuerpo como quien muta en pájaro.

Mientras esto suceda, mientras haya
sueños y voluntad de reflotarlos,
memoria y reflexiones abisales,
fusiones de elementos y de ciclos,
vivirá la poesía. En el futuro
volar será nadar con más conciencia.

Andrés Neuman






Em eras primitivas
quando o verbo aguardava submerso,
os peixes respiravam através de uma vesícula
que era a um tempo timão, bússola e brônquio,
fonte do equilíbrio natatório
e do ar disperso pela água.
Hoje pervivem, encolhidas nas profundidades,
algumas poucas espécies que a usam.

Também em nós há um testemunho que resiste,
quem é que não sentiu, em sonhos, que voava
assim como se desse braçadas no mar?
A dormir, respiramos com o órgão estranho
que os peixes perderam,
o mesmo que traz à tona as imagens,
além de o ritmo do pulmão decidir o voo
- a altura, o sentido, as viragens –
de suarmos em busca de um líquido remoto
e de usarmos o corpo como quem se faz pássaro.

Enquanto isto acontecer, enquanto houver
sonhos e vontade de os trazer à tona,
memória e reflexões do abismo,
fusões de elementos e de ciclos,
a poesia viverá. Voar, no futuro,
será nadar com mais consciência.

(Trad. A.M.)

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14.6.18

Daniel Filipe (Pátria, lugar de exílio)






PÁTRIA LUGAR DE EXÍLIO
   (fragmento)


Neste ano de 1962
não como Nazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exatamente
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

Neste ano de 1962
encostado a uma esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

Aqui mesmo a mão sei quantos graus de latitude
e de enjôo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
eu
neste ano de 1962
exatamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria
   (...)

Daniel Filipe

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13.6.18

Ana Pérez Cañamares (Andar sobre as águas)





ANDAR SOBRE AS ÁGUAS



Aquela que eu era afogou-se
no mar
das infinitas possibilidades.

Não me afecta. A vida começou
quando apostei e perdi.

Nesse momento a água retesa-se
e converte-se em caminho.


Ana Pérez Cañamares

(Trad. A.M.)

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