21.5.18

Mark Strand (A colina)





THE HILL



I have come this far on my own legs,
missing the bus, missing taxis,
climbing always. One foot in front of the other,
that is the way I do it.
It does not bother me, the way the hill goes on.
Grass beside the road, a tree rattling
its black leaves. So what?
The longer I walk, the farther I am from everything.
One foot in front of the other. The hours pass.
One foot in front of the other. The years pass.
The colors of arrival fade.
That is the way I do it.

Mark Strand

[Canopic Jar]




Cheguei até aqui nas minhas próprias pernas,
depois de perder autocarros e táxis,
sempre a subir. Um pé, depois outro,
é assim que eu faço.
Não me incomoda, a colina estar lá.
Há ervas na berma da estrada, uma árvore que sacode
as suas folhas negras. E depois?
Quanto mais eu ando, mais longe estou de tudo.
Um pé, depois outro. As horas passam.
Um pé, depois outro. Passam os anos.
As cores da chegada desaparecem.
É assim que eu faço.

(Trad. A.M.)

.

20.5.18

José Villa (Último poema)





ÚLTIMO POEMA



En la pensión donde vivo
no hace mucho
se ahorcó un cabrón
era poeta
y estaba viejo
y nunca soltaba
el whisky
hasta esa noche
cuando su cuello
se cruzó en el caminho
de aquella cuerda
lo encontraron
2 días después
apestaba
lo bajaron
se lo llevaron
en la mesa
dejó un poema
dedicado a
"la muy
puta"

el cuarto
que ocupo
era el suyo
yo también
soy poeta
igual de mierda
y de borracho
pero no estoy
viejo
o no mucho
y si en una
de esas
decido ir
y colgarme
no pienso
escribirle
un último
poema
a la perra
aquella
no se merece
ni siquiera
eso
la muy

puta.


José Villa



Na minha pensão
não há muito
enforcou-se um cabrão
era poeta
e estava velho
e nunca largava
o uísque
até àquela noite
quando o pescoço
se cruzou com aquela corda
no caminho
encontraram-no
2 dias depois
tresandava
desceram-no
e levaram-no
em cima da mesa
deixou um poema
dedicado à
‘grande puta’

o quarto
que eu ocupo
era o dele
eu também
sou poeta
da mesma igualha
de merda e bêbedo
mas não estou
velho
ou não muito
e se numa
destas noites
me resolver a ir
pendurar-me
não tenciono
escrever-lhe
um último
poema
àquela cadela
que não merece
isso sequer
a grande

puta.

(Trad. A.M.)

.

19.5.18

Joaquín Beníto de Lucas (Sem tristeza)





SIN  TRISTEZA



Yo no sé por qué tengo que estar triste.
El mar es grande, la esperanza espera,
el día se hace largo en los veranos
y las noches inventan nuevas formas de vida.

Pero hoy, es decir, esta mañana
del mes de mayo, cuando los rosales
dejan caer los pétalos
de su primera floración,
me acuerdo de la gente que se ha ido
- y es primavera - de los que dijeron
adiós y ya no están
como mis padres, como mis hermanos
y como yo que un día
no muy lejano cerraré los ojos,
dejaré descansar la pluma con que escribo
e iré a su encuentro. Temo
que no me reconozcan, que no sepan
quien soy, yo que he cantado su vida en muchos versos,
y su muerte también, que ellos no habrán leído.
Mas creo que podrán reconocerme
por el olor que deja cada lágrima
vertida en su memoria mientras estaban vivos.


Joaquin Beníto de Lucas





Eu não sei porque tenho de estar triste,
o mar é largo, a esperança espera,
o dia faz-se longo de Verão
e as noites inventam novas formas de vida.

Mas hoje, quer dizer, nesta manhã
do mês de Maio, quando as roseiras
deixam cair as pétalas
da primeira floração,
lembram-me as pessoas que se foram
- e é Primavera - os que disseram
adeus e já cá não estão,
como meus pais, meus irmãos
e como eu que um dia
não muito distante fecharei os olhos,
deixarei em repouso a pena com que escrevo
e irei ao encontro deles. Temo
que não me reconheçam e não saibam
quem eu sou, eu que lhes cantei a vida em muitos versos,
e a morte também, que eles por certo não leram.
Mas poderão reconhecer-me, creio eu,
pelo cheiro de cada lágrima
vertida em sua memória enquanto vivos.


(Trad. A.M.)
.

18.5.18

Aquilino Ribeiro (Uma semana)






(Uma semana)


Um dia não era cabonde; mas uma semana.

Se fosse rei uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal.

Uma fogueira em cada outeiro para os ministros, os juízes, os escrivães e os doutores de má morte.

Para estes decretava ainda cova bem funda, com obrigação de cada homem honrado lhes pôr um matacão em cima.

Uma choldra de ladrões!

Imaginem Vossorias que um pobre já nem uma bestinha pode  ter!

Muito tempo conservei aquele cavalito fouveiro – lembram-se? – para me ajudar  a espairecer saudades dos tempos em que corria de almocreve Ceca e Meca e olivais de Santarém.

Vai senão quando, António Malhadas, salta de lá com nove tostões de sumptuária.

Irra, novecentos réis por um cavalicoque, um chincaravelho que não valia, a bem dizer, os guizos dum gato!

Raios partam o Governo mailos governados, raios partam tanto tributo com que a gente de bem tem de ustir para andar aí meia dúzia de figuröes, de costa direita, mais farófias que pitos calçudos!

Raios partam!

O governo é um corpo da guarda que nos defende ou é a quadrilha do olho vivo que não faz senão roubar?

Quem lhe encomenda o sermão?



AQUILINO RIBEIRO
O Malhadinhas
(!958)

______________________

(*) Há outros extractos aqui, do Malhadinhas: 



Um lençol esburacado

Um glossário da mesma obra, útil, apesar de alguns erros: 


glossário Malhadinhas
.

17.5.18

Evaristo Carriego (O teu segredo)





TU SECRETO



¡De todo te olvidas! Anoche dejaste
aquí, sobre el piano, que ya jamás tocas,
un poco de tu alma de muchacha enferma:
un libro vedado, de tiernas memorias.
Íntimas memorias. Yo lo abrí, al descuido,
y supe, sonriendo, tu pena más honda,
el dulce secreto que no diré a nadie:
a nadie interesa saber que me nombras.
….Ven, llévate el libro, distraída, llena
de luz y de ensueño. Romántica loca…
Dejar tus amores ahí, sobre el piano!
De todo te olvidas, cabeza de novia!


Evaristo Carriego




De tudo te esqueces! Ontem deixaste
aqui em cima do piano, que já nunca tocas,
um pouco da tua alma de menina enferma:
um livro secreto, de ternas memórias.
Íntimas memórias. Abri-o, por descuido,
e descobri, sorrindo, a tua pena mais funda,
o doce segredo que não contarei a ninguém:
a ninguém interessa saber que me nomeias.
… Anda, leva o livro, distraída, cheia
de luz e de sonho. Romântica tonta…
Deixares os teus amores por aí, em cima do piano!
De tudo te esqueces, cabeça de noiva!

16.5.18

Manuel Vilas (Ode a Marte)





ODA A MARTE



Veo fotos de Marte en internet. Y me pongo a llorar.
Marte me recuerda a mi infancia, cuando miraba al cielo en
las noches estrelladas y sentía que la vida sólo era futuro.
Quizá Marte sea el futuro. Yo creo haber estado en Marte,
haber cogido alguna de esas piedras marcianas y haberla
arrojado contra el cielo. No me es desconocido Marte. Marte
me devuelve la fe en la vida, en mi vida.
Es una prueba de que
existen la grandeza y el silencio. Grandes avenidas de Marte,
con sus rascacielos de frío. Marte muerto porque nadie lo
contempla, pero tan vivo en esa muerte. Porque los hombres
no contemplan simplemente, sino que devoran. Así que es
mejor, querido Marte, que hagas lo posible por alejarte unas
cuantas órbitas de nosotros, o te invadiremos. Y lo que hoy
es silencio y pesadilla del no-ser, a lo mejor se convierte en
New Marte, en ciudades con casinos, en autopistas, en
aeropuertos, en hoteles, en centros comerciales, en rascacielos,
en casas de pisos, en subterráneos heladores, en cementerios,
en pistas de tenis, en piscinas cubiertas, en campos de golf, en
basureros florecientes, en naves industriales, en fábricas, en
zoos, en cárceles. Oh, Marte, llévame contigo ahora que
todavía no hay nadie en ti, déjame pasear por tu cuerpo sin
caminos, déjame volver a la tierra antes del mundo, a la tierra
quinientos mil años antes de Cristo. Pisar Madrid entonces.
Pisar Nueva York entonces. Pisar París entonces. Pisar el
viento. Las cuevas. Las colinas. Las piedras. Marte, te quiero.
Cásate conmigo, yo también soy un ángel que vaga en este
cosmos enamorado. Marte, amado mío, lárgate de aquí.
Lárgate, tío, ahí tan cerca peligras.


Manuel Vilas





Vejo fotos de Marte na internete. E ponho-me a chorar.
Marte lembra-me a infância quando olhava para o céu em
noites estreladas e sentia que a vida era só futuro.
Talvez Marte seja o futuro. Eu creio que estive em Marte,
apanhei uma dessas pedras marcianas e atirei-a
contra o céu. Marte não me é desconhecido, Marte
restitui-me a fé na vida, na minha vida. É uma prova
de que a grandeza e o silêncio existem. Grandes avenidas de Marte,
com seus arranha-céus de frio. Marte morto porque ninguém o
contempla, mas nessa morte tão vivo. Porque os homens
 não contemplam apenas, antes devoram. Daí que seja
melhor, querido Marte, fazeres o possível por te afastar de nós
umas quantas órbitas, ou vamos-te invadir. E aquilo que hoje
é silêncio e pesadelo do não-ser pode converter-se em
New Marte, com cidades de casinos, auto-estradas
aeroportos, hotéis, centros comerciais, arranha-céus,
casas de andares, subterrâneos, cemitérios,
pistas de ténis, piscinas cobertas, campos de golfe,
lixeiras florescentes, naves industriais, fábricas, zoos,
cadeias. Oh, Marte, leva-me contigo, agora
que não tens ainda ninguém, deixa-me passear por teu corpo
sem caminhos, voltar à terra antes do mundo, à terra
de quinhentos mil anos antes de Cristo. Pisar Madrid de então,
Nova Iorque de então, Paris de então, pisar o vento,
as grutas, as colinas, as pedras. Marte, amo-te,
casa comigo, também eu sou um anjo vagando neste
cosmos enamorado. Marte, meu amigo, manda-te daqui.
Manda-te, pá, aí tão perto corres perigo.

(Trad. A.M.)
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15.5.18

Helder Moura Pereira (Vejo daqui a ponte)





Vejo daqui a ponte que atravessa
o rio da expressão verdadeira
e comum do amor. No leito desse
rio amor e desejo coincidem.
O problema são as margens, há
a margem da insinuação, um
extremo, uma sugestão que conta
com a perspicácia alheia, coisa
que pode dar muito mau resultado.
E há, do outro lado, a margem
da súplica, que é quando falta
um só passo para a dor se tornar
crónica e o desânimo ficar
definitivo. De ambas as margens
se vê, nítido, o rio da certeza.


HELDER MOURA PEREIRA
Golpe de Teatro
Assírio & Alvim (2016)


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