10.12.09

Joan Margarit (Auto-retrato)








AUTORRETRATO




De la guerra quedó el viejo capote
de un desertor sobre mi cama.
En la noche sentía el tacto áspero
de aquellos años, que no fueron
los más felices de mi vida.
Sin embargo, el pasado acaba siendo
fraternidad de lobos y melancolía
por un paisaje que falsea el tiempo.
Queda el amor - no la filosofía
que es igual que una ópera - y nada
de poeta maldito: tengo miedo
pero me apaño sin idealismo.
Las lágrimas a veces se deslizan
tras el cristal oscuro de las gafas.
La vida es un capote de desertor.


Joan Margarit (*)







Da guerra ficou o velho capote
de um desertor na minha cama.
De noite sentia o tacto áspero
desses anos, que não foram
os mais felizes da minha vida.
Contudo, o passado acaba sendo
irmandade de lobos e melancolia
duma paisagem que o tempo falseia.
Resta o amor – não a filosofia
que é igual a uma ópera – e nada
de poeta maldito: tenho medo
mas abrigo-me sem idealismo.
Às vezes as lágrimas deslizam
por trás do vidro escuro dos óculos.
A vida é um capote de desertor.


(Trad. A.M.)




(*) Joan Margarit em Lisboa / Casa Fernando Pessoa / 14 Dez. 2009 - 18,30 horas
      - Apresentação do seu livro "Casa da Misericórdia", ed. ovni
        (Mais...)


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9.12.09

António de Almeida Mattos (Tenho asas)








Tenho asas transparentes
No sonho me crucifico



António de Almeida Mattos

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Ver (33)










[Ana Loura]


> Santa Maria

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8.12.09

Eugénio de Andrade (O amor)








O AMOR




Estou a amar-te
como o frio corta os lábios.


A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.


A inundar-te de facas
saliva esperma lume.


Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.


A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.


Assim é o amor: mortal e navegável…



Eugénio de Andrade

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7.12.09

Federico Díaz-Granados (Assuntos familiares)








ASUNTOS FAMILIARES




Este vivir entre multitudes y muchedumbres
me recuerda el linaje que no conozco.
No sé si mis antepasados fueron comerciantes o humanistas,
quizá sastres de alguna corte o algún barrio.
La sangre que me corre es de ellos.
No sé si eran abogados o médicos,
no sé si hubo algún santo, deportista, héroe o payaso,
pero en mis ojos reconozco cada día el licor de sus tristezas.


Federico Díaz-Granados






Este viver entre muita gente e muita coisa
recorda-me a linhagem que desconheço.
Não sei se os meus antepassados foram comerciantes ou humanistas,
talvez alfaiates de uma corte ou de um bairro.
É deles o sangue que corre em mim.
Não sei se eram advogados ou médicos,
não sei se houve algum santo, desportista, herói ou palhaço,
mas cada dia reconheço em meus olhos o licor das suas tristezas.


(Trad. A.M.)

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Manoel de Barros (Árvore)








ÁRVORE




Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.


Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.


Retiro semelhanças de árvores comigo.


Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.


(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.



Manoel de Barros


[Blocos Online]

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Enrique Vila-Matas (Um grande cabrão)







(Um grande cabrão...)




Dito isto, talvez fique também explicado porque é que, por exemplo, uma certa ocasião, um dia em que recebi de manhã o vale de correio do meu pai, julguei sentir-me rico e ter uma alma apodrecida e capitalista e fui deliberadamente ao Café La Rotonde beber champanhe e ali, sem que naturalmente ninguém se pudesse aperceber disso, dediquei-me a desforrar-me interiormente e a flartar com a minha mente e a ir trasformando-a numa mente monstruosa – hoje vejo-o com muita nitidez – tentando não desaproveitar todas as possibilidades de ser um grande cabrão, que eu dizia para comigo que podia ser, se quisesse.



- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 97.

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5.12.09

José Emilio Pacheco (Nuvens)






NUBES



En un mundo erizado de prisiones
sólo las nubes arden siempre libres.

No tienen amo, no obedecen órdenes,
inventan formas, las asumen todas.

Nadie sabe si vuelan o navegan,
si ante su luz el aire es mar o llama.

Tejidas de alas son flores del agua,
arrecifes de instantes, red de espuma.

Islas de niebla, flotan, se deslíen
y nos dejan hundidos en la Tierra.

Como son inmortales nunca oponen
fuerza o fijeza al vendaval del tiempo.

Las nubes duran porque se deshacen.
su materia es la ausencia y dan la vida.


José Emilio Pacheco (*)



[Noctambulario]






Num mundo eriçado de prisões
só as nuvens ardem sempre livres.

Não têm amo, nem conhecem ordens,
inventam formas, assumem-nas todas.

Ninguém sabe se navegam ou voam,
se ante sua luz o ar é mar ou chama.

Tecidas de asas são flores de água,
recifes de instantes, rede de espuma.

Flutuam, ilhas de névoa, desligam-se
e deixam-nos sumidos na Terra.

Como são imortais jamais opõem
resistência ou força ao vendaval do tempo.

Duram as nuvens porque se desfazem.
Sua matéria é a ausência e dão a vida.



(Trad. A.M.)


(*) Prémio Cervantes-2009

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Um verso (67)
















Um verso de Sena
(nem sempre sai sena):






E quem de amor não sabe fuja dele




Jorge de Sena

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4.12.09

Sophia de Mello Breyner Andresen (Inscrição)







INSCRIÇÃO




Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar



Sophia de Mello Breyner Andresen

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2.12.09

Dámaso Alonso (Vento da noite)








VIENTO DE NOCHE




El viento es un can sin dueño,
que lame la noche inmensa.
La noche no tiene sueño.
Y el hombre, entre sueños, piensa.


Y el hombre sueña, dormido,
que el viento es un can sin dueño,
que aúlla a sus pies tendido
para lamerle el ensueño.


Y aun no ha sonado la hora.


La noche no tiene sueño:
¡alerta, la veladora!



Dámaso Alonso






O vento é um cão sem dono,
a lamber a noite imensa.
A noite não tem sono.
E o homem, entre sonhos, pensa.


E o homem sonha, dormindo,
que o vento é um cão sem dono,
uivando-lhe aos pés estendido
para lamber-lhe o sonho.


E não soou ainda a hora.


A noite não tem sono:
alerta, sentinela.


(Trad. A.M.)

 
 
Fontes:  Wikipedia  /  A media voz (23p)  /  Poesi.as (18p)
 
 

Olhar (63)












Capadócia (Turquia)