22.6.18

Antonio Machado (Ontem sonhei que via)





Ayer soñé que veía
a Dios y que a Dios hablaba;
y soñé que Dios me oía...
Después soñé que soñaba.


Antonio Machado




Ontem sonhei que via
Deus e que lhe falava;
e sonhei que Deus me ouvia...
Depois sonhei que sonhava.


(Trad. A.M.)

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21.6.18

Antonio Gamoneda (Violação)





VIOLACIÓN



Silba el amanecer, florece el hierro
bajo la incandescencia de los pájaros

Pero también sucede el mar y las preguntas caen sobre la piel de
la melancolía como un caballo que galopase en la memoria

y el hielo viene devorando sombra,

y esto es el día: sílabas azules
y las palomas perseguidas por el llanto.


Antonio Gamoneda




Silva o amanhecer, floresce o ferro
sob a incandescência dos pássaros

Mas também sucede o mar e as perguntas caem sobre a pele
da melancolia como um cavalo galopando na memória

e o gelo chega devorando sombra,

e é isto o dia: sílabas azuis
e as pombas perseguidas pelo pranto.


(Trad. A.M.)

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20.6.18

Emanuel Félix (Amar uma pedra)





AMAR UMA PEDRA



Um homem pode amar uma pedra
uma pedra amada por um homem não é uma pedra
mas uma pedra amada por um homem
O amor não pode modificar uma pedra
uma pedra é um objecto duro e inanimado
uma pedra é uma pedra e pronto
Um homem pode amar o espaço sagrado que vai de um homem a uma pedra
uma pedra onde comece qualquer coisa ou acabe
onde pouse a cabeça por uma noite
ou sobre a qual edifique uma escada para o alto
Uma pedra é uma pedra
(não pode o amor modificá-la nem o ódio)
Mas se a um homem lhe der para amar uma pedra
não seja uma pedra e mais nada
mas uma pedra amada por um homem
Ame o homem a pedra
e pronto

Emanuel Félix



>>  Portal da literatura (perfil) / Projecto Vercial (idem+4p) / Wikipedia

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19.6.18

Ángeles Mora (Trocando os pronomes)






CAMBIANDO UN POCO LOS PRONOMBRES         



Porque sé que tú eres sobre todo la noche,                        
sobre todo tus dedos que se mueren en mí,                        
sobre todo este beso, la huella de mis labios,                     
el brillo de tus piernas y las mías,                            
el silencio que canta en estas cuatro                      
paredes de mi vida...                    

Porque sé que tú eres de pronto la mañana,                       
mis dedos que se mueren sólo en ti,                       
sobre todo este beso, la huella de tus labios,                     
el brillo de mis piernas y las tuyas,                          
el silencio que canta en estas cuatro                      
paredes de tu vida...


Ángeles Mora




Porque eu sei que tu és sobretudo a noite,
sobretudo teus dedos morrendo em mim,
sobretudo este beijo, a marca de meus lábios,
tuas pernas brilhando, assim como as minhas,
o silêncio cantando
entre as quatro paredes
da minha vida...

Porque eu sei que tu és de repente a manhã
meus dedos morrendo apenas em ti,
sobretudo este beijo, a marca de teus lábios,
minhas pernas brilhando, assim como as tuas,
o silêncio cantando
entre as quatro paredes
da tua vida...


(Trad. A.M.)

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18.6.18

Ángel Guinda (Escrever)






ESCRIBIR



Si me quitan la palabra escribiré con el silencio.
Si me quitan la luz escribiré en tinieblas.
Si pierdo la memoria me inventaré otro olvido.
Si detienen el sol, las nubes, los planetas,
me pondré a girar.
Si acallan la música cantaré sin voz.
Si queman el papel, si se secan las tintas,
si estallan las pantallas de los ordenadores,
si derriban las tapias, escribiré en mi aliento.
Si apagan el fuego que me ilumina
escribiré en el humo.
Y cuando el humo no exista
escribiré en las miradas que nazcan sin mis ojos.
Si me quitan la vida escribiré con la muerte.

Ángel Guinda




Se me tirarem a palavra escreverei com o silêncio.
Se me tirarem a luz escreverei nas trevas.
Se perder a memória inventarei outro olvido.
Se detiverem o sol, as nuvens, os planetas,
pôr-me-ei eu mesmo a girar.
Se calarem a música cantarei sem voz.
Se queimarem o papel, se secarem as tintas,
se explodirem as pantalhas dos computadores,
se derrubarem os muros, escreverei no meu hálito.
Se apagarem a chama que me ilumina
escreverei no fumo.
E quando o fumo não existir
escreverei nos olhares que nascerem sem meus olhos.
Se me tirarem a vida escreverei com a morte.

(Trad. A.M.)


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17.6.18

Agustina Bessa-Luís (Casamento)




(Casamento)


O casamento não impede as mulheres de cometerem loucuras, mas impede que as loucuras das mulheres sejam tidas por absurdas. (II)


AGUSTINA BESSA-LUÍS
Fanny Owen
(1979)
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16.6.18

Ángel González (Aqui, Madrid)






AQUÍ, MADRID, MIL NOVECIENTOS CINCUENTA Y CUATRO: UN HOMBRE SOLO



Un hombre lleno de febrero,
ávido de domingos luminosos,
caminando hacia marzo paso a paso,
hacia el marzo del viento y de los rojos
horizontes - y la reciente primavera
ya en la frontera del abril lluvioso...
Aquí, Madrid, entre tranvías
y reflejos, un hombre: un hombre solo.
- Más tarde vendrá mayo y luego junio,
y después julio y, al final, agosto.
Un hombre con un año para nada
delante de su hastío para todo.


Ángel González

[Noctambulario]




Um homem cheio de Fevereiro,
ávido de domingos luminosos,
caminhando para Março passo a passo,
Março do vento e dos vermelhos
horizontes – e a recente Primavera
já na fronteira de Abril chuvoso...
Aqui, Madrid, por entre eléctricos
e reflexos, um homem: um homem só.
- Mais tarde virá Maio e depois Junho,
a seguir Julho e no fim Agosto.
Um homem com um ano para nada,
diante de seu fastio para tudo.

(Trad. A.M.)

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