18.9.18

Francisco Urondo (Milonga do marginal paranóico)




MILONGA DEL MARGINADO PARANOICO



Parece mentira
que haya llegado a tener
la culpa de todo lo que ocurre
en el mundo; pero es así. Han tratado
de disuadirme psicólogos y sociólogos de mi tiempo,
me han dado razones de peso técnico largamente
formuladas y
parcialmente ciertas. Pero
yo sé que soy culpable de los dolores
que aquí siento y recorren el mundo; de las soledades
que lo van vaciando: quisiera saltar
como Juan L. Ortiz, vociferar
como Oliverio Girondo, pero: primero, ellos me ganaron
de mano; segundo, no me sale bien y aquí
empieza todo nuevamente: otro sufrimiento
igual a diapasones y recursos
que conozco perfectamente y que no vale la pena
repetir: primero, para no emularlos; segundo, porque
tendré que ir
reconociendo que no he sabido
hacerme entender. Y esto es agudo como un ataque
que nos traga la lengua; pido entonces disculpas
por la mala impresión, por las exageraciones.

Francisco Urondo




Parece mentira
caber-me a mim a culpa
de tudo o que se passa no mundo.
Mas é verdade. Dissuadem-me de tal
psicólogos e sociólogos do meu tempo,
com razões técnicas de peso longamente
formuladas e certas em boa medida. Mas
eu sei que sou o culpado das dores
que aqui sinto e que percorrem o mundo;
e das solidões que o vão esvaziando. Queria
saltar como Juan L. Ortiz, vociferar como
Oliverio Girondo, mas: primeiramente, eles
levaram-me a palma; depois, as coisas não me saem bem
e aí começa tudo de novo: mais sofrimento,
igual a diapasões, e remédios
que conheço perfeitamente, mas não vale
a pena repetir, à uma para não os emular,
à outra por ser forçado a reconhecer que não soube
fazer-me entender. O que é grave,
tal como um ataque que me levasse a língua.
Por isso peço desculpa da má impressão
e do resto, dos exageros, por exemplo.

(Trad. A.M.)

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16.9.18

Rui Knopfli (Auto-retrato)





AUTO-RETRATO



De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes,
do riso claro à angústia mais amarga.

De português, a costela macabra, a alma
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

De português enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber,
o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracial, lesto na mirada do seio
entrevisto, à nesga de perna, à fímbria de nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

De suíço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.


Rui Knopfli


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14.9.18

Leopoldo Castilla (Distancia)






DISTANCIA


Entre un punto y otro
la distancia más grande es la desolación 
del punto.

Leopoldo Castilla




>>  El placard (62p) / Fund. Konex (bio) / Portal de Salta (perfil)

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12.9.18

Fernando Luis Chivite (Uma mulher a estender um lençol)






UNA MUJER EXTENDIENDO UNA SÁBANA



Ocurren un montón de cosas que somos incapaces de explicar.
Vamos de un sitio a otro, tomamos algunas decisiones,
creemos haber hecho algo y no hemos hecho
absolutamente nada,
y sin embargo ese no hacer nada es lo mejor que tenemos.
Recuerdo una mañana en la que todo se mantuvo en silencio.
Yo había optado por el camino equivocado
y en lugar de subir la escalinata de piedra
y atravesar apresuradamente la puerta
del olvido de uno mismo,
me adentré en la ciudad.
Era muy joven
y estuve dando vueltas por las calles medio vacías
sin saber a dónde ir.
La ciudad estaba allí, ante mí,
como un enorme artefacto peligroso que yo no sabía utilizar,
pero no sentí ninguna clase de temor sino en todo caso
sencillamente asombro y soledad.
Se abrían las puertas de las primeras tiendas
y la gente ocupada agachaba la cabeza
preparándose para su nuevo día de trabajo.
Sin embargo lo que recuerdo con más intensidad es una calle
en la que siempre daba el sol.
Aquella mañana atravesé muy despacio aquella calle.
Atravesé aquella calle con una lentitud infinita
y al llegar al final me di la vuelta.
Quizá pasé una hora yendo de un lado a otro
con la mayor lentitud que puede alcanzar deliberadamente un ser humano.
No sé lo que es el tiempo, todo el mundo se arriesga a decir algo
y al final la mayor parte de las veces suena bastante estúpido.
Aquella hora ha sido la hora más ancha de mi vida
y sin embargo
ignoro la verdadera naturaleza de lo que allí ocurrió,
pues en verdad no hice nada.
Durante toda mi vida he recordado esa hora,
la luz de aquella calle, el sol en las fachadas de las casas,
todo eso. Y lo he recordado
con mayor nitidez y con mayor emoción a medida que pasaban
los años. Me veo allí de nuevo pasar de un lado a otro,
los detalles no son siempre los mismos,
aunque ignoro por qué.
A veces descubro una mujer extendiendo una sábana
al otro lado de una ventana,
o el rótulo de un almacén o de una tienda
que no había visto antes.
Pero lo que no cambia en ningún caso
es el sentimiento que me trae esa imagen,
la sensación de estar libre
y a salvo.
Supongo que será completamente inútil
tratar de darle más vueltas al asunto.
En ocasiones creo intuir el verdadero valor
de lo que allí pasó,
pero al instante siguiente ya no estoy tan seguro.
Hay algo que me impide hacer el esfuerzo de intentar explicarlo.

FERNANDO LUIS CHIVITE
Calles poco transitadas
(1998)





Há um monte de coisas que acontecem
que a gente não consegue explicar.
Vamos de um sítio para outro, tomamos algumas decisões,
acreditamos que fizemos alguma coisa
e não fizemos absolutamente nada,
e todavia esse nada é o melhor que fizemos.
Lembra-me uma manhã em que estava tudo em silêncio,
eu tinha escolhido o caminho errado
e em vez de subir a escadaria de pedra
e atravessar correndo a porta do esquecimento de mim mesmo,
fui pela cidade dentro.
Era muito jovem
e pus-me às voltas pelas ruas quase vazias
sem saber onde ir.
Ali estava a cidade, diante de mim,
como um grande artefacto perigoso que eu não sabia utilizar,
mas não senti qualquer temor, mas antes
solidão e assombro simplesmente.
Abriam as portas as primeiras lojas
e as pessoas atarefadas baixavam a cabeça
preparando-se para o novo dia de trabalho.
Contudo, o que lembro mais intensamente é uma rua
que tinha sempre sol.
Nessa manhã atravessei essa rua muito devagar,
atravessei essa rua com infinita lentidão
e ao chegar ao fim virei-me.
Passei para aí uma hora de um lado para o outro,
com a maior lentidão que um ser humano deliberadamente pode alcançar.
O tempo eu não sei o que é, toda a gente se arrisca a dizer uma coisa
que as mais das vezes depois parece um bocado estúpida.
Aquela hora foi a hora mais larga da minha vida,
e todavia
não sei muito bem o que ali se passou,
pois na verdade não fiz nada.
Durante a vida toda recordei essa hora,
a luz daquela rua, o sol nas fachadas das casas,
isso tudo. E recordava-o
com mais nitidez e mais emoção à medida que os anos
passavam. Vejo-me ali a passear de um lado para o outro,
os detalhes não são sempre os mesmos,
não sei bem porquê.
Às vezes descubro uma mulher a estender um lençol
do outro lado de uma janela,
ou o cartaz de uma loja ou armazém em que antes não reparara.
Mas o que não muda nunca
é o sentimento que essa imagem me traz,
a sensação de estar livre e a salvo.
Não adianta dar muitas mais voltas ao caso,
às vezes creio perceber o verdadeiro valor do que ali se passou,
mas no momento seguinte já não estou tão seguro,
e algo me impede de fazer o esforço de tentar explicá-lo.

(Trad. A.M.)

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10.9.18

Questão antiga (CA-1)





QUESTÃO ANTIGA



Quando me prende amor
porque me lembra a mor-
te?


(A.M.)

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8.9.18

Federico García Lorca (Desejo)




DESEO



Solo tu corazón caliente,
y nada más.

Mi paraíso un campo
sin ruiseñor
ni liras,
con un río discreto
y una fuentecilla.

Sin la espuela del viento
sobre la fronda,
ni la estrella que quiere
ser hoja.

Una enorme luz
que fuera
luciérnaga
de otra,
en un campo de
miradas rotas.

Un reposo claro
y allí nuestros besos,
lunares sonoros
del eco,
se abrirían muy lejos.

Y tu corazón caliente,
nada más.


Federico García Lorca




Só teu coração ardente,
nada mais.

Meu paraíso um campo
sem rouxinol
nem liras,
um rio discreto
e uma fontinha.

Sem a espora do vento
na fronde,
nem a estrela que pretende
ser folha.

Uma luz enorme
que fosse
pirilampo
de outra,
num campo de
olhares rasgados.

Um repouso claro
e aí nossos beijos,
sinais sonoros
do eco,
abrindo-se na distância.

E teu coração ardente,
nada mais.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (J.E. Simões)


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6.9.18

Federico Díaz-Granados (Notícia da fome)






NOTICIA DEL HAMBRE 



Me habita el hambre. Y todos me lo dicen.
No es el miedo ni la duda
apenas un ritmo intacto que no toca con su sal la orilla.
Es el hambre, quizá un leve testamento
o esta insistencia en destruir la casa
y renovar la piedra en sueño.

Es poco lo que recuerdo de mí a esta hora, el disperso,
el que a la intemperie es un poco de hierba,
una palabra sin traje con olor a otras tierras
y que mira con cara de extranjero todas las prestadas alegrías.

Llega el hambre con su mismo azar y su idéntico augurio.
La lluvia está debajo de la carne
y pocas cosas recuerdan al viejo amor
que ya no cuenta.

Es el hambre. Y todos me lo dicen.
No es el leve testamento ni la tristeza de las noches.
No es la poesía
ni la música que traduce el tiempo.

Un poco de hambre
y el cansancio de llenar la estantería de ausencias.


FEDERICO DÍAZ-GRANADOS
Hospedaje de paso
(2003) 





Habita-me a fome. E todos mo dizem.
Não é medo nem dúvida
apenas um ritmo intacto que não chega à margem.
É a fome, um testamento talvez
ou esta insistência em destruir a casa
e renovar a pedra em sonhos.

É pouco o que recordo de mim nesta hora, o esparso,
o que um pouco de erva é na intempérie,
uma palavra sem véstia a cheirar a outras terras,
a olhar com cara estranha as alegrias emprestadas.

Vem a fome com seu acaso e seu idêntico augúrio.
Chove por dentro da carne
e poucas coisas lembram ao velho amor que já não conta.

É a fome. E todos mo dizem.
Não é o testamento nem a tristeza das noites.
Não é a poesia
nem a música que o tempo traz consigo.

Um pouco de fome
e o cansaço de carregar as estantes de ausências.


(Trad. A.M.)


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