24.8.17

Laura Wittner (Visto da banheira)





PERSPECTIVA DESDE UNA BAÑERA



Después habrá una discusión.
Por ahora todo es cerrar los ojos,
mantenerlos cerrados a la altura del agua,
respirar, volver a sumergirse.
El límite entre el agua y el aire
coincide con la línea de pensamiento
que lo que hace es fundir y refundir
en cualquier orden
un par de escenas o secuencias, fotografías
tomadas con una cámara automática,
siempre más o menos el mismo material,
- es lo que se ha podido reunir -
animales salvajes avanzando
hasta quedar en primer plano,
alguien que le enseña a una chica
a usar una pistola en el desierto,
o igual una persona en una bañera
- y aquí vendrá la discusión:
quién es la persona,
quién soporta
la línea de pensamiento, o quién
apretó el gatillo,
tomó la foto, quién señaló la posición
donde habría que ubicarse
para obtener una buena vista aérea
de la bañera.


Laura Wittner





Depois haverá discussão,
para já é só fechar os olhos,
mantê-los fechados à flor da água,
respirar, voltar a mergulhar.
O limite entre água e ar
coincide com a linha de pensamento
que tenta fundir e refundir
um par de cenas ou sequências,
fotos tomadas com câmara automática,
sempre o mesmo material mais ou menos
- o que se pôde arranjar -
animais selvagens avançando
até ficarem em primeiro plano,
alguém que ensina uma miúda
a usar pistola no deserto,
ou então uma pessoa numa banheira
- e aí virá a discussão:
quem é a pessoa,
quem suporta
a linha de pensamento, quem
apertou o gatilho,
ou tomou a foto, quem indicou
a posição melhor a tomar
para obter uma boa vista aérea
de banheira.


(Trad. A.M.)

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23.8.17

João de Mancelos (Ars poetica)





ARS POETICA



os pequenos incidentes dos dias
não são mais do que dobras e vincos.

poema a poema, passo a alma a ferro. 



João de Mancelos

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22.8.17

Karmelo C. Iribarren (A condição urbana)





LA CONDICIÓN URBANA



Detesto el autobús. La buena
educación que nos obliga
a ceder el asiento
a esas señoras
que hasta que no se sientan
puede darles
cualquier cosa fatal.
Los empujones. El olor. Que nadie
fume y tenga que aguantar
todos los pormenores
del infarto
que le dio a no sé quién.
Las leyendas que llevan
en los flancos.
Los frenazos. Y muchas
cosas más que ahora me callo
porque me bajo aquí.


Karmelo C. Iribarren




Detesto autocarro. A boa
educação que nos obriga
a ceder o banco
àquelas senhoras
que até se sentarem
pode-lhes dar
qualquer coisa fatal.
Os empurrões. Os cheiros. O não
fumar e o ter de aguentar
os pormenores todos
do enfarte
que deu a não sei quem.
Os reclames nos lados.
As travagens. E muitas
coisas mais que agora não digo
porque desço aqui mesmo.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L.P.)


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21.8.17

Juanjo Barral (O valor da palavra)





EL VALOR DE LA PALABRA



El otro día me pagaron
por recitar media docena de poemas, algunos
contra el propio sistema bancario.
Es la primera vez que cobro por las miles de horas extra
sin contrato ni derecho a subsidio por desempleo que llevo
desde que me inscribí en el gremio de artesanos del vaho
en esta profesión de vendedores de melancolía

en la que tanto se padece la siniestralidad
–hay versos cojos, poemas que se estrellan contra el cielo–

en la que sufrimos la flexibilidad laboral más dura
–quién no ha tenido que escribir en el autobús, camino del alba–

en la que somos víctimas del acoso moral de uno mismo en el trabajo
–cuántos suicidios ejemplares de los que se tiene constancia.

Así que voy a practicar un poco el absentismo
antes de volver a emplear el tiempo
jugándome la vida
a cuatro euros el poema.


Juanjo Barral





Noutro dia pagaram-me
para dizer meia dúzia de poemas, alguns
contra o próprio sistema bancário.
É a primeira vez que cobro pelos milhares de horas extra
que levo sem contrato nem direito a subsídio de desemprego
desde que me inscrevi no grémio de artesãos do bafo
nesta profissão de vendedores de melancolia

em que se sofrem tantos sinistros
- versos coxos, poemas que se despenham contra o céu –

em que suportamos a mais dura flexibilidade laboral
- quem se não viu obrigado a escrever no autocarro,
a caminho da aurora –

em que somos vítimas de assédio moral
de nós próprios no trabalho
- tantos suicídios exemplares que se conhecem.

Por isso vou entrar um pouco em absentismo
antes de voltar a ocupar o tempo
arriscando a vida
a quatro euros o poema.


(Trad. A.M.)


20.8.17

Mário de Carvalho (Marta)






Bonita que fora mana, doces lhe iam agora e entristecidas as feições, com dois arcos já descaídos melancolicamente sob os olhos, da linha dos lábios, mais resumida e vincada que outrora, nascia um irradiar de breves pespontos, ainda sumidos, não tão flagrantes como a pele do pescoço já a querer desaprumar. 

Ao fim de tantos anos, só agora reparava nos traços da irmã, figura tão naturalmente comparte da sua vida que não considerara sequer a eventualidade de lhe apreciar as feições, mormente pela inutilidade de fazer valer essa avaliação.


MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-II
(2008)


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19.8.17

Juan Vicente Piqueras (Nomes apagados)





NOMBRES BORRADOS 

             La mente no es un lápiz para tomar apuntes,
             es una goma de borrar.
                                                    (Marko Vesovič)


Mi padre fue perdiendo poco a poco el lenguaje. 
Y empezó por los nombres. Lo primero
que olvidó su cerebro no fueron los adverbios
ni los pronombres no los adjetivos,
como uno estaría tentado de creer,
ni las motas de polvo de las preposiciones,
sino los sustantivos.

La manzana dejó de ser manzana,
el vaso pasó a ser eso,
y quienes se acercaban dejaban de llamarse.

La muerte comenzó su labor minuciosa
robándole los nombres,
borrándolos, poniendo
 
en su lugar un esto o un aquello,
un dame, un balbuceo, un gesto de la mano.

Lo último que se pierde son los verbos,
los verbos que se mueven en la sangre
como peces hasta que acaba el mundo,
hasta que ya no puede el cuerpo con su alma.

Los adjetivos son afectuosos,
visten de amor lo que miran
y por eso perviven.

Pero los nombres se esfuman.
Y la sustancia de los sustantivos
es agua de borrajas, niebla, torres de humo.

La manzana deja de ser manzana.
La palabra dolor ,
quién nos lo hubiera dicho.
no significa nada.


Juan Vicente Piqueras






O meu pai foi a pouco e pouco esquecendo a língua.
E começou pelos nomes. O que primeiro esqueceu
não foram os advérbios,
nem os pronomes ou os adjectivos,
como podíamos pensar,
nem os grãos de pó das preposições,
mas os substantivos.

A maçã deixou de ser maçã,
o copo passou a ser isso
e as pessoas que se aproximavam
deixavam de ter nome.

A morte começou seu labor minucioso
por roubar-lhe os nomes,
apagá-los, pondo
no lugar deles um isto ou aquilo,
um dá-me, um balbuceio, um aceno da mão.

O que se perde por último são os verbos
os verbos que se movem como peixes
no sangue até que o mundo se acaba,
até que o corpo já não pode com a alma.

Os adjectivos são afectuosos,
vestem de amor aquilo que visam
e por isso pervivem.

Mas os nomes esfumam-se.
E a substância dos substantivos
não passa de água, de névoa, de onda de fumo.

A maçã deixa de ser maçã.
A palavra dor,
quem nos havia de dizer,
não significa nada.

(Trad. A.M.)


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18.8.17

Juan Luis Panero (Epitáfio diante do espelho)





EPITAFIO FRENTE A UN ESPEJO



Dura ha de ser la vida para ti,
que a una extraña honradez sacrificaste tus creencias,
para ti, cuya única certidumbre es tu recuerdo
y por ello, tu más aciaga tumba.
Dura ha de ser la vida, cuando los años pasen
y destruyan al fin la ilusa patria de tu adolescencia,
cuando veas, igual que hoy, este fantasma
que tiempo atrás te consoló con su belleza.
Cuando el amor como un vestido ajado
no pueda proteger tu tristeza
y motivo de burla, de piedad o de asombro,
a los ojos más puros sólo sea.
Duro ha de ser para tu cuerpo ver morir el deseo,
la juventud, todo aquello que fuiste,
y buscar sin pasión tu reposo
en la sorda ternura de lo débil,
en la gris destrucción que alguna vez amaste.
«Es la ley de la vida», dicen viejos estériles,
«y nada sino Dios puede cambiarlo», repiten,
a la luz de la noche, lentas sombras inútiles.
Dura ha de ser la vida, tú que amaste el mundo,
que con una mirada o una suave caricia soñaste poseerlo,
cuando la absurda farsa que tú tanto conoces
no esté más adornada con lo efímero y bello.
Dura ha de ser la vida hasta el instante
en que veles tu memoria en este espejo:
tus labios fríos no tendrán ya refugio
y en tus manos vacías abrazarás la muerte.

Juan Luis Panero




Dura há-de ser a vida para ti,
que sacrificaste as crenças a uma estranha honradez,
para ti, cuja única certeza é a lembrança
e, por isso, a tumba mais aziaga.
Dura há-de ser a vida, quando os anos passarem
e destruírem por fim a pátria ingénua da tua adolescência,
quando vires, como hoje, este fantasma
que antes te consolou com sua beleza.
Quando o amor, como um vestido rasgado,
não te possa cobrir a tristeza
e seja apenas aos olhos mais puros
um motivo de zomba, piedade ou assombro.
Duro há-de ser para o teu corpo ver morrer o desejo,
a juventude, tudo aquilo que foste,
e procurar sem paixão o repouso
na surda ternura do que é débil,
na destruição que algum dia amaste.
«É a lei da vida», dizem velhos estéreis,
«e só Deus pode o pode mudar» repetem,
à luz da noite, lentas sombras inúteis.
Dura há-de ser a vida, tu que o mundo amaste,
que sonhaste possuí-lo com um olhar ou suave carícia,
quando a absurda farsa que tão bem conheces
não estiver já enfeitada do belo e efémero.
Dura há-de ser a vida até ao instante
em que velares tua memória neste espelho:
não terão já refúgio teus frios lábios
e com as mãos vazias abraçarás a morte.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (José Bento)

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