30.6.16

José Paulo Paes (Termo de responsabilidade)





TERMO DE RESPONSABILIDADE



mais nada
a dizer: só o vício
de roer os ossos
do ofício

já nenhum estandarte
à mão
enfim a tripa feita
coração

silêncio
por dentro sol de graça
o resto literatura
às traças!


José Paulo Paes



>>  Antonio Miranda (15p) / Jornal de poesia (7p/mais)

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29.6.16

Miguel Barnet (O ofício)





EL OFICIO




Quédate con tu misterio,
describe la mesa, el animal doméstico,
el delantal floreado de la madre,
el presuroso amor si lo deseas,
pero no lo digas todo en el poema,
que permanezca siempre una puerta abierta y golpeando,
un campo no surcado a la intemperie,
deja para el otro que vendrá, amigo o enemigo,
esa leve ambigüedad, ese otro poema.


MIGUEL BARNET
Carta de noche
(1982)





Guarda o teu mistério,
descreve a mesa, o animal doméstico,
o avental às flores da tua mãe,
o pressuroso amor se desejares,
mas não digas tudo no poema,
que fique sempre uma porta aberta e a bater,
um campo não sulcado à intempérie,
deixa para outro que há-de vir, amigo ou inimigo,
essa leve ambiguidade, esse outro poema.


(Trad. A.M.)

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28.6.16

Alberto Pimenta (Nada falta)





NADA FALTA



Ao cair da tarde,
passa lá fora
a melancólica,
antiquíssima flauta
do amolador.

Vai-se afastando
e deixando atrás de si,
como uma cascata,
a toada
magoada e urgente
da noite que vem
e promete ser
varrida de água
e de vento,
fatal para vagabundos
e para espíritos aflitos
ou afligidos.

Mas
entre os múltiplos golpes
executados por aí
com um cutelo de dois gumes
de fabrico euro-alemão,
esta tormenta,
no ritmo da flauta
anuncia sobretudo a queixa
de mais um trabalho
em liberdade e em gosto
prestes a morrer.

Parece
que mais ninguém a ouve,
e,
pelo silêncio que fica,
parece até
que já não há ninguém vivo na rua.
Nem os cães...
Estarão
a ver
as inundações
na América...

- Os cães também?

Claro, nem ladram.

A televisão
inunda-lhes a casa lá longe
e eles gostam.
Também lhes afia as facas
que trazem na cabeça
e todos gostam.
Não precisam de amolador.
Não precisam de mais nada.


Alberto Pimenta

[Domingos Mota]

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27.6.16

Luis Alberto de Cuenca (Quando vivias na Castellana)





Cuando vivías en la Castellana
usabas un perfume tan amargo
que mis manos sufrían al rozarte
y se me ahogaban de melancolía.
Si íbamos a cenar, o si las gordas
daban alguna fiesta, tu perfume
lo echaba a perder todo. No sé dónde
compraste aquel extracto de tragedia,
aquel ácido aroma de martirio.
Lo que sé es que lo huelo todavía
cuando paseo por la Castellana
muerto de amor, junto al antiguo hipódromo,
y me sigue matando su veneno.


Luis Alberto de Cuenca




Quando vivias na Castellana
usavas um perfume tão amargo
que as minhas mãos sofriam só de tocar-te
e afogavam-se-me de melancolia.
Se íamos jantar, ou se as gordas
davam uma festa, o teu perfume
deitava tudo a perder. Não sei onde
compraste aquele extracto de tragédia,
aquele ácido aroma de martírio.
O que sei é que ainda o sinto
quando passeio na Castellana,
morto de amor, ao pé do hipódromo,
e mata-me ainda o seu veneno.


(Trad. A.M.)

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26.6.16

Manuel de Freitas (A Humanidade em Agosto)





A HUMANIDADE EM AGOSTO



Era uma tarde assim, como já sabíamos
ou devíamos, pelo menos, calcular:
insuportável o calor, duvidosa a alegria.
Mas íamos fazer compras e
era Agosto, mês de pouca gente

que viu, como nós, o autocarro
parar bruscamente.
Quatro pequenos cães, de famílias
por certo bem diferentes, atravessavam
num sereno susto o alcatrão. Desconheciam
que tudo (sim, não é apenas o tabaco)
pode matar num dia qualquer os que estão vivos.

Seguiam quase ordeiros, sem caminho.
E não sabiam. Como poderiam saber
que eram as vítimas ocasionais
de umas férias mais tranquilas
para esses mesmos que, na sua excessiva
humanidade, os abandonaram à nenhuma sorte?

E a caravana passou, rodeada de silêncio.
O mais pequeno e farrusco, o que
vinha atrás, parecia não acreditar ainda
que era este o seu destino, nem urbano
nem campestre; simplesmente intolerável.
Doía muito ver-lhe os olhos, e ser humano
como os humanos que ali se libertaram
dele, para garantir a liberdade que não têm.

Pouco tempo depois, o autocarro arrancou.
Chegaremos mais devagar à mesma morte. Mas
chegaremos. Eu sempre achei a humanidade o que
de pior havia sobre a terra. Preferia, às vezes, não ter razão.


Manuel de Freitas

[Arquivo de cabeceira]

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25.6.16

Leopoldo María Panero (Projecto de um beijo)





PROYECTO DE UN BESO



Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga
te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra
te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde
te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido
te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra
te mataré mañana cuando la luna salga,
y así desde aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación
te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida
te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas
te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.


Leopoldo María Panero

[Once upon a midnight dreary]




Vou-te matar amanhã quando a lua vier
e me falar o primeiro mergulhão
vou-te matar amanhã pouco antes da aurora
quando estejas na cama, perdida entre os sonhos
e será como cópula ou sémen nos lábios
como beijo ou abraço, ou como acção de graças,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
e me falar o primeiro mergulhão
que me trouxer no bico a ordem da tua morte,
que será como beijo ou como acção de graças
ou como oração para o dia não vir,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
e o terceiro cão ladrar na hora nona
na décima árvore desfolhada e sem seiva
que ninguém sabe como está de pé sobre a terra,
vou-te matar amanhã quando no chão
da miséria cair a décima terceira folha
e serás tu uma folha ou algum tordo pálido
voltando no remoto segredo da tarde,
vou-te matar amanhã e hás-de pedir perdão
por essa carne obscena, por esse escuro sexo
que vai ter por falo o brilho deste ferro,
que vai ter por beijo o sepulcro, o olvido,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
e hás-de ver como serás bela em morta,
toda coberta de flores, com os braços em cruz
e os lábios cerrados como quando rezavas
ou me imploravas outra vez a palavra,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
quando vires um anjo armado de adaga
silencioso e desnudo à beira da tua cama pálida,
vou-te matar amanhã e verás que ejaculas,
quando te passar aquele frio por entre as pernas,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
vou-te matar amanhã e amarei teu fantasma
e irei à tua cova nas noites
em que me ardam novamente no falo
os sonhos do sexo, os mistérios do sémen,
farei da tua lápide o meu primeiro leito
de sonhar com deuses, e árvores, e mães,
para brincar também com os dados da noite,
vou-te matar amanhã quando a lua vier
e me falar o primeiro mergulhão.


(Trad. A.M.)

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24.6.16

Manuel Bandeira (Evocação do Recife)





EVOCAÇÃO DO RECIFE




Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstadt dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A Rua da União, onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

À distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa!
Craveiro dá-me um botão!

(Dessas rosas muita rosa
terá morrido em botão...)

De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu e saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame rua dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado, o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro, boi morto, árvores, destroços, redemoinho, sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capibaribe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
o que fazemos
é macaquear
a sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam

Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.

Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.


Manuel Bandeira


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