27.3.17

João Habitualmente (Agradecemos)





Agradecemos
em júbilo pela oportunidade que nos deram,
estamos reconhecidos aos donos da vida.
e em romaria lhes beijaremos os anéis
nos altares onde estiverem.
nós, os que adoramos viver,
sentimo-nos na obrigação de agradecer.

aos patrocinadores, colaboradores,
a todos quantos nos emprestaram o riso e o ranho,
aos que nos entusiasmaram encorajaram enrabaram e
aos que ainda estão para vir

agradecemos,
a colaboração
ao haxixe de marrocos
à febre de malta
ao vinho da casa
à heroína

que casa com o cowboy
lá para o fim do filme

agradecemos
ao fim do filme
por ter acabado
às sombras da tarde
por fazerem sombra à tarde
aos caminhos d'aldeia
por cheirarem a merda de vaca
ao senhor padre por ser virgem
nem ele sabe a importância que isso tem
nós também não

agradecemos
ao white horse
royal label
aos pudins flan
os maravilhosos momentos proporcionados

à nossa namorada
as incontáveis fodas
e as que demos sem contar

à mulher-a-dias
pela religiosidade com que nos lavou as cuecas
pela afeição com que nos viu crescer
pela idiotice de nunca querer ter sido mais nada

agradecemos
ao presidente da câmara
ter perdido as autárquicas
aos partidos no poder
e aos que ainda nos hão-de vir foder
às sogras tios e primos
a paciência de serem há tantos anos da família

agradecemos
ao sol da praia aos pardais ao ar lavado
e a todos os outros heróis mortos em combate
e imortalizados amortalhados em grandiosas estátuas
muros de betão

agradecemos
aos morcões e aos estúpidos
trissómicos e outros produtos das aberrações cromossómicas
a beleza com que são horríveis
é aí que vemos a infelicidade de que escapámos
é aí que temos a noção do tamanho bonito de existirmos assim

agradecemos
à dor aos sofrimentos inúmeros com que bordamos os nossos dias
porque nosso será o reino dos céus
aos ladrões e às putas
aos corcundas aos paralíticos
pela sensação de imprevisto quando caminhamos na rua
por exibirem conceitos tão próprios de vida

e juramos
passar a cumprimentar toda a gente
estar infinitamente gratos
infinitamente gatos
piolhos porcos morcegos
infinitamente coisos despidos ao frio
vestidos ao sol
saias casacos camisas gabardines de vénus
tanta roupa tanta sobre chãos
corpos galácticos

juramos
estar infinitamente gratos
a todos os casais felizes
uniões duradouras bodas de prata
por demonstrarem o conceito da felicidade emparedada
o valor da paciência
o infinito do esforço


agradecemos
à arte à ciência à história à sociologia
à política à religião
darem emprego a tanta gente

agradecemos
à tecnologia aos motores
pelo mesmo motivo
às fábricas aos computadores
idem
e a tudo quanto faça barulho cheire mal
foda a vegetação os rios os sóis a aragem
porque inevitavelmente somos a favor de uma poluição avançada,
não dessa como nos países de terceiro mundo que é feita
de gente magrinha
feia de ver.

Defendemos uma verdadeira poluição
pesada d'acordo com os padrões europeus

agradecemos
à tropa,
verdadeira escola d'homens
e à escola
tropa de meninos

agradecemos
a cristo marx reich
pela inutilidade prática das suas demonstrações
e agradecemos a todos quantos
fizerem demonstrações cheias de inutilidade prática
terem tido tanto êxito

não nos esqueceremos igualmente dos nossos teóricos
já lhes basta a infelicidade de serem teóricos
de se esquecerem de comer
tudo a bem dos teoremas teóricos
explanações metafísicas
conceitos epistemológicos

não podemos claro deixar de
sentir ternura pelos nosso teóricos

agradecemos
às entidades divinas
a força que nos dão
a garra o querer e o tesão

e agora não agradecemos a mais ninguém
porque vamos comer um bom bife
talvez devêssemos agradecer
à defunta vaca


porque sempre em tudo o que façamos
sem dúvida contraímos
obrigação de comer um bom bife
e foder uma garrafa de verde
o que é um acto poético
de incomensurável estética.


João Habitualmente

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26.3.17

Berna Wang (Do inverno)





DEL INVIERNO



Vida de asceta
la que llevo últimamente:
ayuno porque no tengo hambre,
hago abstinencia
porque no tengo con quién;
y rezo
para que este tiempo acabe
de una vez.


Berna Wang




Vida de asceta
a que levo ultimamente:
almoço por não ter fome,
faço abstinência
por não ter com quem;
e rezo
para este tempo acabar
de uma vez.


(Trad. A.M.)

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25.3.17

Begoña Abad (Teria de escrever-te um poema)





Tendría que escribirte un poema.
Un poema blando como el pan de cada día
y azul como el mechón de mi pelo.
Uno que te atara a mi piel
y que dejara en la tuya
palabras de porcelana.


Tendría que usar las letras
de un alfabeto sin inventar,
las notas de un pentagrama,
las sílabas de los silencios,
los acordes de un corazón latiendo.


Tendría que escribirte un poema
que no olvidaras nunca,
un brevísimo poema de arena
derramándose por los espacios
que dejamos al besarnos
sin apenas rozarnos los labios,
un minúsculo poema
que durmiera siempre en tu pupila
mientras yo no estuviera en ella.
Pero no sé escribir poemas de amor.


Begoña Abad

[Fragments de vida]




Teria de escrever-te um poema,
um poema macio como o pão de cada dia,
azul como a mecha do meu cabelo.
Um poema que te colasse à minha pele
e que deixasse na tua
palavras de porcelana.


Teria de usar as letras
de um alfabeto por inventar,
as notas de um pentagrama,
as sílabas do silêncio,
os acordes de um coração a bater.


Teria de escrever-te um poema
que não esquecesses nunca,
um brevíssimo poema de areia
a derramar-se nos espaços que
deixámos ao beijar-nos
quase sem tocar os lábios,
um minúsculo poema
que dormisse na tua pupila
sempre que eu não estivesse nela.


Mas não sei escrever poemas de amor.


(Trad. A.M.)

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24.3.17

João Guimarães Rosa (Quando escrevo)





Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas,
um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco.
Gostaria de ser um crocodilo
porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos
e escuros como o sofrimento dos homens.



Guimarães Rosa

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23.3.17

Batania (Sementeira)





SIEMBRA



El miedo que tuve,
 si pudiera encerrarlo en una ballena muerta
 y ponerlo al sol colgado de unos cables eléctricos,

el miedo a vuestra necesidad de fruto,
 a vuestros pájaros con números de oro
 cantando en las jaulas registradoras,

el miedo que tuve
 y ya no tengo porque sembré una casa:
 la que ahora estalla de gerundios en flor.


Batania



O medo que eu tive,
se pudesse enfiá-lo numa baleia morta
e pendurá-lo nos fios ao sol,

o medo da vossa precisão de fruto,
dos vossos pássaros com números de oiro
a cantar em jaulas registadoras,

o medo que eu tive
e já não tenho porque semeei uma casa,
esta que explode agora de gerúndios em flor.



(Trad. A.M.)

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22.3.17

Ape Rotoma (Embebedo-me todas as noites)





Me emborracho cada noche para no pensar en ti
y poder dormir. Despierto de madrugada con resaca
y el jodido insomnio alcohólico me impide dormir de nuevo.
Como un zombi, me acerco al ordenador de un compañero de piso
y tecleo cosas ya escritas, para no pensar en ti
y poder vivir un rato. La mañana pasa lenta
y el puto guión me aburre. Tecleo alguna otra cosa,
leo el periódico de ayer y "Hollywood" de Bukowski,
fumo mucho y pienso más, procuro que no sea en ti
y no lo consigo. Vuelta al guión. Otro café. Y, por fin,
grabo en ese mismo software muy despacio este poema.
Y me gusta. Y me entretengo en juguetear con su ritmo,
en respetar su estructura y en multiplicar enlaces,
aunque parezca mentira, para no pensar en ti.

Ape Rotoma




Embebedo-me todas as noites para não pensar em ti
e poder dormir. Desperto de madrugada com ressaca
e a porra da insónia do álcool não me deixa adormecer novamente.
Como um zombi, vou ao computador de um colega de casa
e teclo umas coisas já escritas, para não pensar em ti
e poder viver um bocado. A manhã escorre lenta
e o puto do guião chateia-me. Teclo uma outra coisa qualquer,
leio o jornal de ontem e ‘Hollywood’ de Bukowski,
fumo bastante e penso mais, procuro que não seja em ti
mas não consigo. Torno ao guião. Outro café. E, por fim,
gravo no teclado muito devagar este poema.
E agrada-me. E entretenho-me a brincar-lhe com o ritmo,
respeitar-lhe a estrutura e multiplicar ligações,
embora pareça mentira, para não pensar em ti.


(Trad. A.M.)


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21.3.17

Inês Dias (Regressámos à praia)






Regressámos à praia,
esgotada essa série de acidentes
em que o menor foi o amor,
ao contrário do que se previa.
Deixámos a maré subir
na memória, cancelar-nos
a areia sob os pés, levar
até os restos do navio encalhado
que ressuscitava todas as manhãs,
corpo de ossos já limpos.
Podia ter sido o meu.
Somos, afinal, dos últimos:
desfiamos gerações, contando onda após onda
após onda, até ao mergulho final.

E escrevemos como vivemos,
na espuma ou nos vidros embaciados
da cidade, com a teimosa convicção de que
nada ficará – nós não ficaremos.


Inês Dias



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