23.9.14

Coitado do Jorge (92)





MADALENAS QUADRADAS



- Madalenas quadradas, pisca-me o letreiro, no supermercado, na secção das bolachas.

E eu, reflectindo:

- Ah, mas são todas, são todas...

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Antonio Machado (Retrato)





RETRATO



Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,
y un huerto claro donde madura el limonero;
mi juventud, veinte años en tierras de Castilla;
mi historia, algunos casos que recordar no quiero.
Ni un seductor Mañara, ni un Bradomín he sido
—ya conocéis mi torpe aliño indumentario—
mas recibí la flecha que me asignó Cupido,
y amé cuanto ellas puedan tener de hospitalario.
Hay en mis venas gotas de sangre jacobina,
pero mi verso brota de manantial sereno;
y, más que un hombre al uso que sabe su doctrina,
soy, en el buen sentido de la palabra, bueno.
Adoro la hermosura, y en la moderna estética
corté las viejas rosas del huerto de Ronsard;
mas no amo los afeites de la actual cosmética,
ni soy un ave de esas del nuevo gay-trinar.
Desdeño las romanzas de los tenores huecos
y el coro de los grillos que cantan a la luna.
A distinguir me paro las voces de los ecos,
y escucho solamente, entre las voces, una.
¿Soy clásico o romántico? No sé. Dejar quisiera
mi verso, como deja el capitán su espada:
famosa por la mano viril que la blandiera,
no por el docto oficio del forjador preciada.
Converso con el hombre que siempre va conmigo
—quien habla solo espera hablar a Dios un día;
mi soliloquio es plática con este buen amigo
que me enseñó el secreto de la filantropía.
Y al cabo, nada os debo; debéisme cuanto he escrito.
A mi trabajo acudo, con mi dinero pago
el traje que me cubre y la mansión que habito,
el pan que me alimenta y el lecho en donde yago.
Y cuando llegue el día del último vïaje,
y esté al partir la nave que nunca ha de tornar,
me encontraréis a bordo ligero de equipaje,
casi desnudo, como los hijos de la mar.

ANTONIO MACHADO
Campos de Castilla
(1912)



Minha infância são lembranças de um pátio de Sevilha,
mais um horto claro onde cresce o limoeiro;
a mocidade, vinte anos por terras de Castela;
minha história, alguns casos que não quero lembrar.
Não fui nem um Bradomín, nem um Mañara sedutor
- é bem conhecido meu atavio desalinhado -
mas recebi a seta que Cupido me destinou
e amei quanto elas podem ter de hospitaleiro.
Tenho nas veias gotas de sangue jacobino,
mas brota-me o verso de sereno manancial;
e, mais que homem comum sabendo a sua doutrina,
sou, como se diz, no bom sentido, um homem bom.
Adoro a beleza e, na moderna estética,
cortei as velhas rosas do jardim de Ronsard;
mas não aprecio os enfeites da nova cosmética,
nem sou dessas aves do novo gay-trinar.
Desdenho as romanças dos ocos tenores,
assim como o coro dos grilos que cantam à lua.
Detenho-me a distinguir a voz do seu eco,
mas dentre as vozes escuto só uma.
Sou clássico ou romântico? Não sei. Queria
deixar meu verso, como o capitão deixa a espada,
famosa por mor da mão que a brandiu,
não pela arte da oficina que a forjou.
Falo com o homem que anda sempre comigo
- quem fala sozinho há-de falar a Deus um dia;
minha conversa é com este bom amigo
Que me ensinou o segredo da filantropia.
Nada vos devo, no fim, vós deveis-me o que eu escrevi.
Trabalho e com meu dinheiro pago
o fato que me veste e a casa que habito,
o pão que me alimenta e a cama onde me deito.
E quando o dia vier da última viagem,
estando pronta a partir a nave que não volta,
a bordo me achareis ligeiro de equipagem,
nu ou pouco menos, como os filhos do mar.


(Trad. A.M.)

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22.9.14

Carlos Drummond de Andrade (Consolo na praia)





CONSOLO NA PRAIA



Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.


Carlos Drummond de Andrade

[Sublime porta]

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21.9.14

Antonio Gamoneda (Eu calo-me)





Yo me callo, yo espero
hasta que mi pasión
y mi poesía y mi esperanza
sean como la que anda por la calle;
hasta que pueda ver con los ojos cerrados
el dolor que ya veo con los ojos abiertos.

Antonio Gamoneda

[Tinta en las manos]



Eu calo-me e espero
até que minha paixão,
minha poesia e esperança
sejam como a que anda pelas ruas;
até poder ver de olhos fechados
a dor que vejo de olhos abertos.

(Trad. A.M.)

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20.9.14

Raul Brandão (Luz e cor)





O mar às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde.

Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto.

Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera.

De manhã desvanece-se, de tarde sonha.

E há dias de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco e pouco se adelgaça, e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde que apetece respirar.

Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes, escuros, quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha até ao longe.

E ainda outros azulados, com a cor das podridões.

Tudo isto graduado e dependendo do céu, da hora e das marés.

Há momentos em que me julgo metido dentro duma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, dum azul único que se incendeia.

Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume.

É uma grande flor que desfalece.

O doirado não é simplesmente doirado, nem o verde simplesmente verde: possuem uma alma delicada e extática.

- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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José Antonio Fernández Sánchez (Eu escrevo para mim)





Eu escrevo para mim mesmo,
mas se alguém me ler deve saber
que não há beleza no que fica escrito.
Bonito bonito é ver saltar a chispa
e esperar que o fogo alastre, belo belo
é soprar as cinzas.


José Antonio Fernández Sánchez

(Trad. A.M.)



>>  Poetas siglo XXI (25p) / Siglo XXI (5p) / Jose Antonio FS (blogue)

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19.9.14

António José Forte (Declaração)





DECLARAÇÃO



Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-Ia
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado

António José Forte

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18.9.14

Ángel Petisme (Urânio nas mãos)





URANIO EN LAS MANOS



El universo se detiene cuando te veo
los crímenes, los taxis, los incendios, la lluvia.
Todo se congela con sólo un parpadeo,
todo en espera en los pasos de cebra.
Te amo igual en la distancia claro,
un bombero que ríe y un fuego que sueña.
Miro tus ojos al abrirte la puerta
y mis aguas revueltas se calman,
el lago más cristalino y azul del Google Earth
no puede compararse a esta hermosa
y profunda sensación de existir.
Si esto era el amor, uranio en las manos,
no lo cambio por bonos en playas paradisíacas,
si esto era la vida, temblor e intensidad,
no te cambio por nada. Ya me puedo morir.
He vivido con creces y lo repetiría.

Angel Petisme



O mundo pára quando eu te vejo,
os crimes, os táxis, os fogos, a chuva.
Tudo congela só com piscar,
tudo em espera nas passadeiras.
Amo-te à mesma, claro, à distância,
um bombeiro sorrindo e a fogueira a sonhar.
Olho-te os olhos ao abrir-te a porta
e logo serenam minhas águas revoltas,
nem o lago mais cristalino do Google Earth
se compara com esta bela
e profunda sensação de existir.
Se amor era isto, como urânio nas mãos,
não o troco sequer por viagem ao paraíso,
se vida era isto, ardor estremecido,
não te troco por nada. Já posso morrer.
Vivi à larga e podia mesmo repetir.

(Trad. A.M.)

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17.9.14

Leonardo Padura (Gonorreia)





(GONORREIA)

Descobri com certo assombro que naquele ambiente a minha habitual timidez sexual desaparecia com as portas derrubadas pelo álcool, a sensação de fuga ao confinamento desse sítio afastado, e a urgência (minha e das minhas amantes eventuais) de libertarmos algo de próprio.

Nunca comi, nem bebi, nem muito menos transei tanto, nem com tantas mulheres, nem em lugares tão incríveis como nesses dois anos, no fim dos quais acabei a reagir como um cínico capaz de mentir sem problemas, e com uma gonorreia que espalhei generosamente e convertido, como tantos entre os habitantes da região, num alcoólico desses que dejejuam com um trago de aguardente e uma cerveja gelada para compensar os efeitos da ressaca da noite anterior.
(Cap.5)

LEONARDO PADURA
El hombre que amaba a los perros

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Ángel Guinda (O olhar)





LA MIRADA



Lo mismo que una llave abría el aire
a los misterios de la transparencia.

Me convocaba igual que una ventana
o una cita del cielo con el mar.

Podía haber vivido en su fulgor
o esperar a morir como un naufragio.

Porque aquella mirada no era de unos ojos
y aquellos ojos no eran de ningún mundo.

Ángel Guinda



Tal como uma chave, abria o vento
aos mistérios da transparência.

Chamava-me, tal como uma janela
ou um encontro do céu com o mar.

Podia viver no seu fulgor
ou esperar a morte como um naufrágio.

Porque esse olhar não era duns olhos
e esses olhos não eram de mundo nenhum.

(Trad. A.M.)

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