20.5.19

Cristovam Pavia (Últimas disposições do H.M.E.)




ÚLTIMAS DISPOSIÇÕES DO H.M.E.



Para começar tirem-me este trapo da cara, que faz cócegas,
e amortalhem nele o meu gato e enterrem-no
ali onde era o meu jardim cromático.

Levem a coroa de latão de cima do meu peito
e atirem-na às estátuas erguidas no entulho,
e ofereçam os laços às putas, para que com eles se enfeitem.

Rezem as orações a um telefone antiquado e sem fio
ou embrulhem-nas num lenço de assoar cheio de farelos
para os estúpidos peixes do charco.

O Bispo que fique em casa e se emborrache,
dêem-lhe uma garrafa de rum
(o sermão vai fazer-lhe sede).

E deixem-me em paz com lápides e chapéus altos!
Com o belo basalto pavimentem uma viela
onde ninguém more,
uma ruazinha para pássaros.

Na minha mala há muito papel amarelo para o meu primo miúdo
fazer com ele avionettes que hão-de voar, bonitas, da ponte
e ir mergulhar no rio.

O mais que fica (umas cuecas, um isqueiro, uma linda opala
e um despertador) isso é para oferecer a Calístenes, o trapeiro,
com a devida gorjeta.

Quanto à ressureição da carne, entretanto, e à vida eterna,
dessas coisas trato eu, se estão de acordo:
É cá comigo, não acham? Então, adeus!

Na banca de cabeceira há ainda alguns cigarros.


Cristovam Pavia

[Bibliotecario de Babel]



>>  Triplo V (4p) / Snpc (perfil) / Wikipedia

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19.5.19

Juanjo Barral (Preço, apreço, desprezo)





PRECIO, APRECIO, DESPRECIO



Ahora mismo no estoy trabajando
-se supone-
escribo este poema.
Pero ya sé, eso no cuenta,
aunque se trate de hacer balance de uno,
recuento de los beneficios de nuestra existencia.

Qué lástima entonces el mundo,
qué lástima cuando no quiere tantas veces
que escribamos este poema,
que soñemos en esta línea
que queremos dibujar.

Que no quiere que miremos el mundo por dentro
lejos del precio y la etiqueta.

Ahora mismo no estoy trabajando
y pregunto a la patronal, al Banco Central Europeo, al Fondo Monetario
Internacional: ¿Hay algún problema?


Juanjo Barral




Agora mesmo não estou a trabalhar
- supõe-se -
enquanto escrevo este poema.
Mas isso não conta, já sei,
embora se trate de elaborar um balanço pessoal,
ou do inventário de benefícios da existência.

Que pena então este mundo,
que pena quando não quer tantas vezes
que escrevamos este poema,
que sonhemos nesta linha
que pretendemos traçar.

Que não quer que olhemos o mundo por dentro,
longe do preço e da etiqueta.

Agora mesmo não estou a trabalhar
e só pergunto à patronal, ao Banco Central Europeu,
ao Fundo Monetário Internacional: Há algum problema?


(Trad. A.M.)

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17.5.19

Juan VIcente Piqueras (Palmeiras)





PALMERAS



Nacemos de la sed. Somos palmeras
que van creciendo a fuerza de perder
sus ramas. Y sus troncos son heridas,
cicatrices que el viento y la luz cierran,
cuando el tiempo, el que hace y el que pasa,
ocupa el corazón y lo hace nido
de pérdidas, erige
en él su templo, su áspera columna.
Por eso las palmeras son alegres
como los que han sabido sufrir en soledad
y se mecen al aire, barren nubes
y entregan en sus copas
salomas a la luz, fuentes de fuego,
abanicos a dios, adiós a todo.
Tiemblan como testigos de un milagro
que sólo ellas conocen.
Somos como la sed de las palmeras,
y cada herida abierta hacia la luz
nos va haciendo más altos, más alegres.
Nuestros troncos son pérdidas. Es trono
nuestro dolor. Es malo
sufrir pero es preciso haber sufrido
para sentir, como un nido en la sangre,
el asombro de los supervivientes
al aire agradecidos y estallar
de alta alegría en medio del desierto.

Juan Vicente Piqueras




Nascemos da sede. Somos palmeiras
que vão crescendo à força de perder
os ramos. E os troncos são feridas,
cicatrizes fechadas pelo vento e pela luz,
quando o tempo, o que faz e o que passa,
ocupa o coração e dele faz ninho
de perdas, ali erigindo
seu templo, sua áspera coluna.
Por isso as palmeiras são alegres
como quem soube sofrer em solidão,
e abanam ao vento, varrem as nuvens
e entregam nas copas
cantos à luz, fontes de lume,
leques a deus, e adeus a tudo.
Tremem como testemunhas de um milagre
só delas conhecido.
Nós somos como a sede das palmeiras,
e cada ferida aberta à luz
vai-nos fazendo mais altos, mais alegres.
São perdas nossos troncos, um trono
nossa dor. É mau sofrer,
mas é preciso ter sofrido
para sentir, como um ninho no sangue,
o pasmo dos sobreviventes
gratos ao vento e rebentar
de alegria no meio do deserto.


(Trad. A.M.)

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16.5.19

Ferreira Gullar (Visita)





VISITA



no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo

Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu
soluçando


Ferreira Gullar

[Acontecimentos]

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14.5.19

Antonio Cabrera (Salvamo-nos)





NOS SALVAMOS



La vida interior es abstrusa,
un embrollo de ideas en inminencia,
en uso o en descomposición.
La vida interior puede ser asfixiante.
Menos mal que algo venido de fuera,
una percepción, alguna cosa vista,
puede aliviarla momentáneamente,
puede permitirle respirar hondo.
La vida interior - el pensamiento a solas -
abandonada a su puro bullir nos sofocaría.
Para que no quedemos cegados por nuestra mente
es necesario mirar.
Gracias a las ventanas no odiamos nuestra casa.
Gracias al mundo nos salvamos.


Antonio Cabrera

[Anton Castro]




A vida interior é abstrusa,
um imbróglio de ideias em devir,
em uso ou decomposição.
A vida interior pode ser asfixiante.
Ainda bem que algo vindo de fora,
uma percepção, alguma coisa vista,
pode aliviá-la de momento,
deixá-la respirar fundo.
A vida interior – o pensamento a sós –
deixada à sua ebulição sufocar-nos-ia.
Pra não ficarmos cegos pela mente
impõe-se observar.
Graças às janelas não odiamos a nossa casa,
graças ao mundo salvamo-nos.

(Trad. A.M.)

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13.5.19

Juan Bonilla (A luz molhada)





La luz mojada
del sol envolvió en lumbre
una naranja.

La convirtió
sólo por un instante
en otro sol.

Tuviste al verlo
la tenue certidumbre
de ser eterno.


Juan Bonilla


[Susana Benet]


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A luz molhada
do sol envolveu em fogo
uma laranja.

Converteu-a
por um só instante
em outro sol.

Tiveste ao vê-lo
a pálida certeza
de ser eterno.

(Trad. A.M.)

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11.5.19

António Ferreira (Se meu desejo só é sempre ver-vos)




Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assi me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu esprito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor, entendo, e creio,
E no que entendo, e creio, nisso espero.


António Ferreira




>>  Poemas Lusitanos / Idem / Citador (8p) / Wikipedia

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