14.11.09

Mário Quintana (Da felicidade)








DA FELICIDADE





Quantas vezes a gente, em busca de aventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!



Mario Quintana


13.11.09

Rosario Pérez Cabaña (Limpeza geral)








LIMPIEZA GENERAL




Una limpieza general es una cosa completamente seria,
por su crueldad, principalmente.
Despojar al objeto de su pátina, aun invisible,
supone un agravio incuestionable
para el objeto que esperó pacientemente.
Apóstatas del polvo
que aún tenéis la suficiente fe
para creer
que tras limpiar el polvo
el polvo está,
como dicta la ciencia,
mucho más limpio,
decidme: ¿a qué distancia de la mancha
ha quedado abandonado el verso?


Aunque, no nos olvidemos, si se quiere,
todo puede ser poetizable.
A ver si no:
a) Desalojar el polvo de su libro
tiene su propio tiempo, que recuerda
la lentitud del pulso en las orillas
de tu cuerpo.
b) Lanzar al mar por los desagües
el resto de sudor con que me amaste
también tiene su ritmo.
c) Lo de los peines mejor no nombrarlo,
por mi obsesión más que nada.


Claro, después de la tristeza, propia
de las cosas limpias,
¿cómo puede uno seguir amando
la tela de la flor
que ya nunca será la misma?
Eso hay que tenerlo en cuenta.
Más de una vez ocurre
que cuando la casa queda limpia
acude un vértigo (podría jurarlo)
que me hace recordar.


Ciertos inconvenientes los considero lógicos:
por ejemplo, tener que ir urgentemente
a comprar, qué se yo, ropa interior
o perfume para el gato,
que a día de hoy nadie me ha confirmado
que no pueda yo tener un gato.


El cielo, eso sí, se ve más diáfano
con la casa limpia, despojada
de aquello que tal vez nos ayudó
en otro tiempo a amarnos.



Rosario Pérez Cabaña






Uma limpeza geral é uma coisa inteiramente séria,
pela crueldade, principalmente.
Tirar ao objecto a patina, mesmo invisível,
supõe um agravo indiscutível
para o objecto que esperou pacientemente.
Apóstatas do pó
que tendes ainda a fé bastante
para crer
que depois de limpar o pó
o pó está,
como dita a ciência,
muito mais limpo,
dizei-me cá: a que distância da mancha
ficou o verso abandonado?


Se bem que, não esqueçamos, desde que se queira,
tudo pode ser poetizável.
Vejamos:
a) Desalojar o pó do livro
tem o seu próprio tempo, lembrando
a lentidão do pulso nas margens do teu corpo.
b) Lançar ao mar
o resto de suor com que me amaste
tem também o seu ritmo.
c) Isso dos pentes é melhor nem falar,
antes de mais pela minha obssessão.


Claro, depois da tristeza, própria
das coisas limpas,
como é que se pode continuar a amar
o quadro da flor
que jamais será a mesma?
Temos de ter isso em conta.
Acontece às vezes
quando a casa está limpa
que pinta uma vertigem (podia jurar)
que me traz lembranças.


Certos inconvenientes considero-os lógicos:
por exemplo, ter de ir comprar urgentemente,
que sei eu, roupa interior
ou perfume para o gato,
sim que até hoje nunca ninguém me disse
que eu não podia ter um gato.


O céu, esse sim, vê-se mais diáfano
com a casa limpa, despojada
daquilo que outrora nos ajudou
talvez a amar-nos.



(Trad. A.M.)


Olhar (61)








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Antalya
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(Turquia)
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12.11.09

Gabriel Celaya (Conta-me como vives)








CUÉNTAME CÓMO VIVES





Cuéntame cómo vives;
dime sencillamente cómo pasan tus días,
tus lentísimos odios, tus pólvoras alegres
y las confusas olas que te llevan perdido
en la cambiante espuma de un blancor imprevisto.


Cuéntame cómo vives;
ven a mí, cara a cara;
dime tus mentiras (las mías son peores),
tus resentimientos (yo también los padezco),
y ese estúpido orgullo (puedo comprenderte).

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Cuéntame cómo mueres;
nada tuyo es secreto:
la náusea del vacío (o el placer, es lo mismo);
la locura imprevista de algún instante vivo;
la esperanza que ahonda tercamente el vacío.
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Cuéntame cómo mueres;
cómo renuncias -sabio-,
cómo -frívolo- brillas de puro fugitivo,
cómo acabas en nada
y me enseñas, es claro, a quedarme tranquilo.



GABRIEL CELAYA
Tranquilamente Hablando
(1945)



[Barcos de Flores]






Conta-me como vives;
diz-me simplesmente como te vão os dias,
teus lentíssimos ódios, tuas pólvoras alegres
e as confusas ondas que te levam perdido
na mutante espuma de imprevista brancura.


Conta-me como vives;
vem cá, cara a cara;
diz-me tuas mentiras (são piores as minhas),
teus ressentimentos (também eu os sofro),
e esse estúpido orgulho (compreendo-te bem).

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Conta-me como morres;
nada teu é segredo:
a náusea do vazio (ou do prazer, vale o mesmo);
a loucura imprevista de um instante vivo;
a esperança que o vazio afunda teimosamente.


Conta-me como morres;
como renuncias – sábio –
como – frívolo – brilhas de puro fugitivo,
como acabas em nada
e me ensinas, é claro, a ficar tranquilo.


(Trad. A.M.)


11.11.09

José Carlos Barros (O amor)







O AMOR




O amor é um rastilho aceso por dentro dos ferros
de púrpura dos meses
O amor é um pano inconsútil pendurado nos arames dos pátios
O amor é uma lenta transmutação da água nos incêndios
O amor é uma âncora dividida entre o peso do lodo e
a leveza insustentável das alavancas hidráulicas
O amor percorre os labirintos de creta sem nenhum fio pretérito
O amor queima por dentro dos pulmões quando
se respira junto às falésias de calcário
O amor é uma pedra e outra pedra escondida
nas gaivas oscilatórias dos sismos
O amor é um vórtice onde se misturam palavras e buracos negros
O amor é uma árvore com as raízes atadas à nuvem das lágrimas
O amor é uma onda que precede o desmoronamento das
cabeceiras declivosas das penínsulas
O amor é uma molécula da água a transformar-se em éter
O amor é a fórmula de heisenberg
O amor é um mapa em que o momento e a posição não coincidem
O amor é a pele incandescente
O amor é uma puta
O amor é um arco que dispara em círculo
contra o desprotegido coração.



José Carlos Barros



[Casa dos poetas / com nota]


Um verso (66)





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Um verso de Miguel Hernández
(ou dois, podendo ser):


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9.11.09

Rosa Alice Branco (Passos sem memória)








PASSOS SEM MEMÓRIA





Olho pela janela e não vejo o mar. As gaivotas
andam por aí e a relva vai secando no varal. Manhã cedo,
o mar ainda não veio. Veio o pão, veio o lume
e o jornal. A saliva com que te hei-de dizer bom dia.
As palavras são as primeiras a chegar. O que fica delas
amacia o papel. Pão quente com o sono de ontem
e os sonhos de hoje. Prepara-se o dia, os passos
de ir e vir. Estou cada vez mais perto. Olhas-me
como se soubesses o que hei-de saber mais logo.
Nesta cidade nunca é meio-dia. Há sempre uma doçura
de outras horas. E recordações avulsas. Deixa-as sair
de dentro do vestido, deixa soltar as ondas do mar.
A janela está vazia. O meu filho caminha na praia
e tu soletras as gaivotas. Caminha à minha frente
sem deixar pegadas. Perco-me como todas as mães,
todos os amantes. Invento passos e palavras
para adormecer. A esta hora a minha avó enrolava o rosário
nas mãos. Eu estava dentro das contas, dentro do sono
que rondava a prece. Durante muito tempo estive fora.
Agora caminhamos juntos. Sem memória.



Rosa Alice Branco


Enrique Vila-Matas (Está a ouvir-me, Miss Stein?)









(Está a ouvir-me, Miss Stein?)





Às vezes eu passava, ao entardecer, diante daquela casa da rue de Fleurus e desejava que fazê-lo me desse sorte.

Nunca me deu, pelo menos enquanto eu permaneci em Paris, de maneira que este Agosto, quando fui de novo ver a casa talismã, olhei para a placa comemorativa, pensei em Gertrud Stein e na sorte que não me deu e no medo que eu tinha noutro tempo que o seu espírito descobrisse as minhas modestas ligações com Joyce, e também pensei, ou melhor, recordei os problemas que então eu tinha com a unidade, a harmonia e para já não falarmos com o estilo e com o factor tempo.

E desta vez desabafei, disse em voz muito alta, arriscando-me a ser tomado por louco:

“Miss Stein, a senhora está aí, consegue ouvir-me?

“Olhe, olhe-me bem, sou Heminguay.

“Consegue ver-me?

“Ulisses é bom como o caralho é bom como o caralho é bom como o caralho.

“Está a ouvir-me, Miss Stein?”



- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 51.


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8.11.09

Fernando Pessoa / A. Campos (Nunca conheci)








NUNCA CONHECI QUEM TIVESSE LEVADO PORRADA





Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irresponsavelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



Álvaro de Campos


6.11.09

Ana Pérez Cañamares (Filha)









Hija, si en algún momento,
mientras estás ocupada en crecer
- dura y lícita tarea -
puedes mirarme a los ojos,
hazlo.


No te dejes las preguntas
para cuando sea la misma voz
la que cuestione y la que responda.


Mira que en esta familia
tenemos la dolorosa costumbre
de conocernos mejor de muertos.



Ana Pérez Cañamares






Filha, se em algum momento,
enquanto estás ocupada a crescer
- dura e lícita tarefa –
puderes olhar-me nos olhos,
fá-lo.


Não deixes as perguntas
para quando for a mesma voz
a perguntar e a responder.


Olha que nesta família
temos o doloroso costume
de conhecer-nos melhor em mortos.


(Trad. A.M.)


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Carlos Nejar (De como a terra-2)









2.

Que será do novo homem
sobre a terra que vergasta ?
Sangra a terra, pasce o gado
e o trabalho é o que nos passa.


Vem o sol e cava a terra;
a semente é como espada.
Há uma noite que nos gera
quando a noite é dissipada.


Vem a noite e cava a terra;
vem a noite, é madrugada.



Carlos Nejar


Casimiro de Brito (Amar-te é nascer de novo)








Amar-te é nascer de novo, regressar à minha fonte.
Nesse momento, começo a morrer.



Casimiro de Brito