6.7.15

José Gorostiza (Esboços de um porto)





DIBUJOS SOBRE UN PUERTO


1. El alba

El paisaje marino
en pesados colores se dibuja.
Duermen las cosas. Al salir, el alba
parece sobre el mar una burbuja.
Y la vida es apenas
un milagroso reposar de barcas
en la blanda quietud de las arenas.


2. La tarde

Ruedan las olas frágiles
de los atardeceres
como limpias canciones de mujeres.


3. Nocturno

El silencio por nadie se quebranta,
y nadie lo deplora.
Sólo se canta
a la puesta del sol, desde la aurora.
Mas la luna, con ser
de luz a nuestro simple parecer,
nos parece sonora
cuando derraman sus manos ligeras
las ágiles sombras de las palmeras.


4. Elegía

A veces me dan ganas de llorar,
pero las suple el mar.


5. Cantarcillo

Salen las barcas al amanecer.
No se dejan amar
pues suelen no volver
o sólo regresan a descansar.


6. El faro

Rubio pastor de barcas pescadoras.


7. Oración

La barca morena de un pescador
cansada de bogar
sobre la playa se puso a rezar:
Hazme, Señor, un puerto
en las orillas de este mar!


JOSÉ GOROSTIZA
Canciones para cantar en las barcas
(1925)




1. A alba

A paisagem marinha
desenha-se em cores pesadas.
Dormem as coisas. A alba, ao surgir,
parece uma bolha no mar.
E a vida é apenas
um milagre de barcas repousando
na quietude suave das areias.


2. A tarde

Rolam as ondas frágeis
do crepúsculo
como limpas canções de mulheres.


3. Nocturno

Ninguém perturba o silêncio,
ninguém o lamenta.
O que se canta
é o pôr-do-sol, desde a aurora.
Mas a lua, com ser de luz,
dir-se-ia sonora
ao derramar com suas mãos ligeiras
as sombras ágeis das palmeiras.


4. Elegia

Apetece-me às vezes chorar,
mas depois tenho o mar.


5. Canção

Saem os barcos com a manhã.
Não se deixam amar
pois costumam não voltar
ou voltam só a descansar.


6. O farol

Loiro pastor de barcos de pesca.


7. Oração

O barco moreno de um pescador
cansado de navegar
na praia se pôs a rezar:
Dá-me, Senhor, um porto
na costa deste mar.


(Trad. A.M.)


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5.7.15

José Cardoso Pires (Désanti-2)





Com toda a sinceridade, Alexandra tinha muita pena, mas, pela parte que lhe tocava, não podia adiantar nada, nenhuma razão contra o gaulês.

Ouvira uns zunzuns na Alpha Linn por causa de umas publicidades que ele pretendeu meter no filme a ver se pegava, mas nada de grave, era o avião dos TAP focado como quem não quer a coisa, a marca da cerveja na mãozinha do bonitão, essas manigâncias do costume.

Manigâncias que também não aqueciam nem arrefeciam lá muito, pois nas artes do celulóide havia sempre quem escorresse uns dinheiros por fora.

Só que com a Alpha Linn não era fácil.

Para bom esclarecimento do mano Diogo e dos possíveis interessados, Alexandra informou que a Alpha Linn nunca ia em bandas sonoras nem em promessas de boca e que todos os pagamentos eram feitos contra o produto acabado e à vista do happy end.

Em face de tantas esquisitices o bom do François deve ter desanimado e muito provavelmente foi estender o tapete a outra porta.

Foi? Alexandra ignorava. (p. 203)


JOSÉ CARDOSO PIRES
Alexandra Alpha
(1987)

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José Emilio Pacheco (Oração da manhã)





LA PLEGARIA DEL ALBA



Hace milagros este amanecer.
Inscribe su página de luz
en el cuaderno oscuro de la noche.
Anula nuestra desesperanza,
nos absuelve de nuestra locura,
comprueba que el mundo
no se disolvió en las tinieblas,
como hemos temido
a partir de aquella tarde en que,
desde la caverna de la prehistoria,
observamos por vez primera el crepúsculo.
Ayer no resucita.
Lo que hay atrás no cuenta.
Lo que vivimos ya no está.
El amanecer nos entrega la primera hora
y el primer ahora de otra vida.
Lo único de verdad nuestro
es el día que comienza.

José Emilio Pacheco

[Sureando]



Este amanhecer faz milagres.
Inscreve sua página de luz
no caderno escuro da noite.
Anula a desesperança,
absolve-nos da loucura,
prova que o mundo
não se dissolveu nas trevas,
como tememos
desde essa tarde em que,
da caverna da pré-história,
observamos o crepúsculo pela vez primeira.
O ontem não ressuscita.
O que ficou para trás não conta.
O que vivemos é passado.
O amanhecer entrega-nos a primeira hora
e o primeiro agora de outra vida.
A única coisa realmente nossa
é o dia que começa.

(Trad. A.M.)

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4.7.15

Dana Gioia (Domingo à noite)





SUNDAY NIGHT IN SANTA ROSA



The carnival is over. The high tents,
the palaces of light, are folded flat
and trucked away. A three-time loser yanks
the Wheel of Fortune off the wall. Mice
pick through the garbage by the popcorn stand.
A drunken giant falls asleep beside
the juggler, and the Dog-Faced Boy sneaks off
to join the Serpent Lady for the night.
Wind sweeps ticket stubs along the walk.
The Dead Man loads his coffin on a truck.
Off in a trailer by the parking lot
the radio predicts tomorrow's weather
while a clown stares in a dressing mirror,
takes out a box, and peels away his face.

Dana Gioia



O carnaval terminou, as tendas enormes,
palácios de luz, são desmontadas e levadas
em camiões. Um pobre diabo arranca
da parede a Roda da Fortuna. Os ratos
esgravatam no lixo ao pé da barraca das pipocas.
Um calmeirão bêbedo adormece ao lado
da malabarista, enquanto o moço Cara-de-Cão
pisga-se para passar a noite com a Mulher Serpente.
O vento varre pelos passeios os bilhetes de entrada.
O morto carrega o seu caixão no camião.
Adiante, num reboque do parque
a rádio dá a previsão do tempo,
enquanto um palhaço se mira ao espelho,
pega numa caixa e arranca a própria cabeça.

(Trad. A.M.)

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3.7.15

José Daniel Espejo (Um pouco mais de modéstia)





Ten más modestia, Muerte, aunque se te haya
erróneamente dicho poderosa
y temible; pues ésos que has borrado
no mueren, pobre Muerte, incapaz hasta
de aniquilarme a mí. Si el reposo
y el sueño son tan gratos, cuánto más
no debes serlo tú: así se explica
que los mejores antes den contigo
libertad a sus almas y a sus huesos
descanso. Azar, reyes, suicidas,
son tus amos, habitante de pócimas,
enfermedad y guerras. Y más diestros
que tú son los hechizos. Menos humos,
que veremos tu fin; tu muerte, Muerte.


José Daniel Espejo

[La galla ciencia]




Tem um pouco mais de modéstia, Morte,
embora te digam, erradamente, poderosa
e temível; pois esses que apagaste
não morrem, pobre Morte, incapaz até
de me aniquilar a mim. Se são tão gratos
o sono e o repouso, quão mais
o não serás tu: assim se explica
que os melhores prefiram dar contigo
liberdade às almas e descanso
aos ossoos. Acaso, reis, suicidas,
teus amos são, mercadora de poções,
de doenças e de guerras. E mais destros
do que tu são os feitiços. Menos fumaças,
que ainda havemos de ver teu fim, Morte,
a tua morte.

(Trad. A.M.)

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2.7.15

José Cardoso Pires (Désanti-1)





Estavam as pessoas no melhor dos entendimentos quando Diogo Senna descobriu que François Désanti tinha desandado para parte incerta, deixando cá por Lisboa um passivo de donzelas e de cornos de salão, além de outros abusos de confiança em género e em espécie. (p.202)


JOSÉ CARDOSO PIRES
Alexandra Alpha
(1987

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José Corredor-Matheos (Ante o quadro de Hopper)





(Ante el cuadro de Edward Hopper, 'Habitación de hotel')

¿Qué soledad aflige
a la mujer del cuadro?
Tiene aún las maletas
por abrir,
como las tengo yo.
No acaba de volver
de sitio alguno,
y no parece estar
a punto de marcharse.
Como está estamos todos:
ignorantes,
colgados en un tiempo
y un espacio
que no pueden ser nuestros.
No hay soledad que pueda
compartirse,
y esto es lo que la aflige
y nos aflige.
Saber que estamos solos,
y que no estamos solos,
y es más profunda así
la soledad.

José Corredor-Matheos

[Poesia-pintura]



Que solidão aflige
a mulher do quadro?
Ainda não abriu as malas,
tal como eu.
Não está a voltar
de lugar nenhum,
e também não parece
estar para partir.
Como ela está estamos todos,
ignorantes,
suspensos num tempo
e num espaço
que não nos pertencem.
Não há solidão que possa
partilhar-se,
e é isso que a aflige
e que nos aflige.
Saber que estamos sós,
e que não estamos sós,
e é mais profunda assim
a solidão.

(Trad. A.M.)


>  Outro: Josefa Parra (Hotel room,1931)
    Mais outro: Anne Carson (Western motel)


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1.7.15

Charles Bukowski (Puxas um fio)




PULL A STRING, A PUPPET MOVES


each man must realize
that it can all disappear very
quickly:
the cat, the woman, the job,
the front tire,
the bed, the walls, the
room; all our necessities
including love,
rest on foundations of sand -
and any given cause,
no matter how unrelated:
the death of a boy in Hong Kong
or a blizzard in Omaha ...
can serve as your undoing.
all your chinaware crashing to the
kitchen floor, your girl will enter
and you'll be standing, drunk,
in the center of it and she'll ask:
my god, what's the matter?
and you'll answer: I don't know,
I don't know ...

Charles Bukowski



Um homem tem de admitir
que de repente tudo pode desaparecer,
o gato, a mulher, o emprego,
o pneu da frente, a cama, as paredes, o
quarto; tudo aquilo que precisamos,
inclusive o amor,
assenta em fundações de areia
- e qualquer coisa,
por mais distante que seja:
a morte dum rapaz em Hong Kong
ou uma brisa em Omaha,
pode desencadear a tua ruína.
Aí estás tu, bêbedo,
com a louça toda partida no chão,
a tua miúda aparece e pergunta,
meu deus, o que é que se passa,
e tu dizes, não sei, não sei...

(Trad. A.M.)

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30.6.15

José Antonio Fernández Sánchez (Será para não morrer)





Será para não morrer que eu escrevo.
Escolho palavras que gravo
por dentro da pele.
E espero que não me abandone a fé
quando chegar o momento de escolher
entre a dor e o osso.


José Antonio Fernández Sánchez


(Trad. A.M.)

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