22.5.15

Martha Asunción Alonso (A louca dos gatos)





LA LOCA DE LOS GATOS



Cada vez hay más sitios donde no puedo entrar:
el verbo adorar, por ejemplo;
o esa puta talla 38 de Inditex.
Y cada vez me gustan más los gatos.
Y pienso todo el día en gatos y por las noches
sueño que sueño con gatos,
sueño que adopto a todos los gatos t
ristes de todos los callejones de este mundo;
gatos y gatos y más gatos, locos y
hambrientos y leucémicos y huraños y
con un ojo a la birulé;
zarpas para crear una armada invencible,
mi propio ejército de malas pulgas - literal.
No sé: serán los veintiséis.
Serán estas tres canas, que ha subido la luz
y debería hacerme unas lentejas y
no es bueno estar sola.
Me consumen las ganas de arañarte.

Martha Asunción Alonso




Cada vez há mais sítios onde não posso entrar,
o verbo adorar, por exemplo,
ou esse puto tamanho 38 de Inditex.
E gosto cada vez mais de gatos.
E o dia todo penso em gatos e à noite
sonho que sonho com gatos,
sonho que adopto todos os gatos t
tristes de todas as vielas deste mundo;
gatos e gatos e mais gatos, loucos e
famintos e com leucemia e ariscos e
com um olho estropiado;
garras para fazer uma armada invencível,
meu próprio exército de pulgas más – à letra.
Não sei bem, são para aí vinte e seis.
Serão estas três brancas no cabelo, ou o aumento da luz,
devia era fazer umas lentilhas,
não é nada bom estar sozinha.
Estou cá com umas ganas de te arranhar.

(Trad. A.M.)

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21.5.15

Pedro da Silveira (Palavras)





PALAVRAS



Que ninguém lhes toque
se as não sabe amar
como os vivos amam,

VIO-LEN-TA-MEN-TE.



Pedro da Silveira

[Pico da vigia]

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20.5.15

Paula Ensenyat (Cai a pétala)





Cae el pétalo
y choca contra la piel.
Salta el recuerdo
y me contemplo
en la desnudez del beso.
Cómo me lleva
entre sus olas.
Cómo se lleva
mi aliento.
El pétalo cae
y todo se detiene.
Desaparece el pétalo,
desaparece el recuerdo
y asoma el beso
en mis labios desnudos.

Paula Ensenyat

[Fragments de vida]




Cai a pétala
e bate contra a pele.
Chispa a lembrança
e eu vejo-me
na nudez do beijo.
Como me leva
em suas ondas.
Como me leva
meu alento.
Cai a pétala
e tudo se detém.
Vai-se a pétala,
vai-se a lembrança,
assoma o beijo
a meus lábios desnudos.

(Trad. A.M.)

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19.5.15

Paulo Leminski (Saudosa amnésia)





SAUDOSA AMNÉSIA



Memória é coisa recente.
Até ontem, quem lembrava?
A coisa veio antes,
ou, antes, foi a palavra?
Ao perder a lembrança,
grande coisa não se perde.
Nuvens, são sempre brancas.
O mar? continua verde.


Paulo Leminski


[Poesia incompleta]

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18.5.15

Karmelo C. Iribarren (No limite)





AL LÍMITE



Tienes veinte años,
tienes la vida
por el cuello,
a tu merced;
pero no es suficiente,
quieres más.

Conozco
esa sensación.

Y te deseo mucha suerte,
porque la vas a necesitar.


Karmelo C. Iribarren

[Tinta en las manos]




Tens vinte anos,
tens a vida presa
pelo gasnete,
à tua mercê;
mas não é o bastante,
queres mais.

Conheço
a sensação.

E desejo-te muita sorte,
porque vais precisar.


(Trad. A.M.)

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17.5.15

José Cardoso Pires (Censura-4)





Partidário do artifício verbal, que lhe veio do Integralismo Lusitano (o Verbo em resposta à Acção), o político do corporativismo tem o vício do legalismo e das palavras providenciais.

Ao combatente africano atribui-lhe um designativo oficial : 'terrorista'; a guerra colonial procura defini-la como 'operações de policiamento', colónias serão obrigatoriamente 'Ultramar' - e assim rigosamente 'verbis gratia', cria a autoconvicção e a mentalização colectiva de ter reformado à altura das exigências históricas do tempo.


JOSÉ CARDOSO PIRES
E agora, José?/ Técnica do golpe de censura
(1977)

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Juanjo Barral (De amor e outras catástrofes)





DE AMOR Y OTRAS CATÁSTROFES



Ojalá fuese yo el mensajero
y no quien recibe la noticia
de tu abandono.

Ojalá fuera manillas del reloj
que da vueltas al tiempo
y no pasto del paso de los días.

Ojalá cuna de alguna
revolución pendiente
y no el crío que llora
bajo los bombardeos.

Juanjo Barral



Fora eu o mensageiro
e não o receptor
das novas do teu abandono.

Fora ponteiro do relógio
que dá voltas ao tempo
e não pasto da passagem dos dias.

Fora berço
de alguma revolução
e não a criança a chorar
debaixo das bombas.


(Trad. A.M.)

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16.5.15

Murilo Mendes (Canção do exílio)





CANÇÃO DO EXÍLIO (*)



Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra são pretos
que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!


Murilo Mendes

[Mensagens com amor]


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(*) Paráfrase de Gonçalves Dias (Canção do exílio).

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