2.9.14

Ana Pérez Cañamares (Salvar a Primavera)





SALVAR LA PRIMAVERA



Está la ciudad que estalla de brotes
y tulipanes. Pero los ojos de los adultos
se cierran con el mismo sueño.

Despiértame de esta madrugada
que no se acaba nunca.

Tenemos que correr delante
arrancar para ellos las cortinas:

los niños no se bastarán solos
para salvar la primavera.

Ana Pérez Cañamares




A cidade está a explodir de rebentos
e túlipas. Mas os olhos dos adultos
cerram-se à mesma com sono.

Desperta-me desta madrugada
que nunca mais acaba.

Temos de correr antes
e arrancar as cortinas por elas:

as crianças sozinhas não chegam
para salvar a Primavera.

(Trad. A.M.)

.

1.9.14

Leonardo Padura (Carta)





(CARTA)

M. e Mme. Paz:
Recebi hoje uma notícia que põe em relevo a mesquinhez de pessoas como vós, que pouco mais são do que bolchevistas de salão, para quem a revolução não passa de um passatempo.

Vós, que não sofrestes na carne a repressão, a tortura, o inverno dos campos de trabalho, tendes a possibilidade de renunciar à luta quando esta não satisfaz as vossas expectativas de êxito e protagonismo.

Mas o verdadeiro revolucionário começa a sê-lo quando subordina a sua ambição pessoal a uma ideia.

Os revolucionários podem ser cultos ou ignorantes, inteligentes ou canhestros, mas não podem existir sem vontade, sem devoção, sem espírito de sacrifício.

E como para vós tais qualidades não existem, muito agradeço que com tanta diligência vos aparteis do caminho.

a/ L.D.Trotski
(Cap.4)

LEONARDO PADURA
El hombre que amaba a los perros

.

Ana Montojo Micó (O presente)





EL PRESENTE



Hoy todo lo que escriba será un plagio
del anónimo verso endecasílabo
que tu aliento derrama por mi espalda
para borrarme el nombre y la conciencia,
las edades, las culpas y los miedos,
el pasado evidente y el futuro
que no quiero soñar por si se rompe.

Sólo soy este instante adormecido
en el cálido abrazo del presente.

Ana Montojo

[El humo ciega mis ojos]



Hoje tudo o que escreva será um plágio
do anónimo verso endecassílabo
que teu hálito espalha nas minhas costas
para apagar-me o nome e a consciência,
as idades, as culpas e os medos,
o passado evidente e o futuro
que não quero sonhar para não se partir.
Sou só este instante adormecido
no cálido abraço do presente.

(Trad. A.M.)

.

31.8.14

Alexandre O'Neill (Seis poemas confiados/IV)





(IV)

Passam os anos a caretear…
Com ou sem sorte,
não será tempo de viver, de amar,
de resistir à morte?
Ouve amor-o-eterno e o que ele diz
a quem se dá.
Não esperes pelo tempo: sê feliz
que a felicidade é já!
E a felicidade é esse rosto eleito
por ti,
é esse palmo de ternura e o jeito
com que sorri.
E a felicidade é a melancolia
que nesse rosto existe,
quando te quer dizer que só por ele
é bom estar triste…
Passem, então, os anos a deitar-nos
línguas de fora…
Se morrermos será de nos amarmos
em cada hora!

Mais um ano de esperança? Não o queiras
se a esperança é adiar,
e vive-o como se fosse a vida inteira
se tiveres de esperar!…


Alexandre O'Neill

.

30.8.14

América Martínez Ferrer (A palavra)





La palabra,                                        
ebria de contención,
trepó hasta la punta de mi lengua:

Desde ahí se despeñó hacia el silencio

desgarrándolo

América Martínez Ferrer



A palavra,
ébria de contenção,
trepou-me à ponta da língua:

Daí despenhou-se no silêncio

rasgando-o

(Trad. A.M.)

.


29.8.14

Ver (146)







[Eduardo Teixeira Pinto]

.

Amalia Bautista (Conta-me outra vez)





CONTA-ME OUTRA VEZ



Conta-me outra vez, é tão lindo
que nunca me canso de ouvi-lo.
Repete outra vez que o casal
da tal história foi feliz até morrer,
que ela não lhe foi infiel e ele nem sequer
pensou em enganá-la. E não te esqueças
que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam a beijar-se todas as noites.
Conta-me mil vezes, por favor,
é a mais bela história que conheço.


(Trad. A.M.)



> Outra versão:  A Natureza do Mal (Luís Januário)

.

28.8.14

Alberto de Lacerda (Stratford-upon-Avon)





STRATFORD-UPON-AVON



Madeira e pedra e água
cisnes
tudo morre
em noites sucessivas e renasce
em cada dia efémero

Só os deuses humanos interiores
a chama passageira
só as palavras irmãs do que é mais frágil
renascem

Só os que trazem em si a eternidade
sabem merecer
a festa mortal de cada instante


ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
IN-CM (1994)

.

27.8.14

Álvaro Valverde (A sombra dourada)





LA SOMBRA DORADA



Abro la verja del jardín sin nadie.
Espera mi llegada el viejo limonero
y al verlo me parece
que no hubiera pasado en parte alguna
todo este largo tiempo,
que siempre hubiera estado
sentado en esta sombra, silencioso,
viendo pasar los días
con la mirada turbia de los que nada esperan,
pero al fin sobreviven.
Con tanta asiduidad he recordado
este mismo lugar
que no es extraño
sentir la vuelta a casa
como un hecho casual como si ahora
volviera una vez más y simplemente
cerrara una vez más la misma puerta.
La casa es hacia dentro el laberinto
que siempre he perseguido. Permanece
sitiada por los muros
azules de la infancia,
por ecos de una edad sobrevenida.
En la azotea,
el puerto sigue siendo un sueño antiguo
y arriba en las estrellas
leo de nuevo
el rumbo del viaje que comienza.

Álvaro Valverde



Abro a cerca do jardim deserto.
Espera-me o velho limoeiro
e parece-me, ao vê-lo,
que não estive ausente
este longo tempo,
estive sempre aqui,
sentado nesta sombra, silencioso,
a ver passar os dias,
com o olhar incerto de quem nada espera,
mas a final sobrevive.
Tantas vezes recordei
este mesmo lugar
que não é estranho
sentir o regresso a casa
como um facto normal, como se voltasse
agora uma vez mais e simplesmente
fechasse a porta mais uma vez.
A casa é para dentro o labirinto
que eu sempre persegui.
É ainda cercada pelos muros
azuis da minha infância,
pelos ecos de uma idade sobrevinda.
No terraço,
o porto continua sendo um sonho antigo
e nas estrelas em cima
leio de novo
o rumo da viagem que começa.

(Trad. A.M.)

.