24.4.14

Ferreira Gullar (Fica o não dito por dito)





FICA O NÃO DITO POR DITO



o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco

ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta (ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer
e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?

mas
como dizê-lo
se a fala não tem cheiro?
por isso é que
dizê-lo
é não dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo
do andar
do galo
no quintal

e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
(e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse –
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
(o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele o sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite


Ferreira Gullar


[Bibliotecário de Babel]

.

23.4.14

Kutxi Romero (Amor?)





AMOR?



Qué sabrán los poetas y sus
míseras bocas de amor.
Qué doctrina habrá en acariciar pieles
desde sus versos de mierda,
sus falsas vidas,
sus supuestos afligidos semblantes,
de sus torturadas vidas me río yo,
porque yo he visto poesía en las caras
y los días de los míos,
en callos y sudores,
en enfrentadizas miradas a un mundo
que no vereis ni en el más abyecto de
vuestros sonrosados sueños,
en pieles tatuadas por soles navajeros
y vientos del sur,
yo he visto poesía en madrugadas en vela,
en las paredes de mi casa,
he visto poesía huir de papeles, dogmas y
métricas, poesías sin lágrimas,
sin malditismos ni presunción alguna,
una poesía de pan y agua,
de te quiero porque sí,
la que me trajo vida y se la llevará,
la que te ofrezco, mundo de mierda,
mientras viva.

Kutxi Romero

[No supiste, o no quisiste]



O que saberão de amor os poetas
e suas bocas de miséria?
Que doutrina haverá no afago de peles
dos seus versos de merda,
suas falsas vidas,
seus pretensos aflitos semblantes?
De suas vidas torturadas me rio eu,
porque a poesia vi-a
nas caras e nos dias dos meus,
em calos e suores,
em olhares de desafio para um mundo
que jamais vereis nem no mais abjecto
dos vossos sonhos cor de rosa,
em peles tatuadas por sóis cortantes
e ventos do sul,
eu vi a poesia em madrugadas sem sono,
nas paredes de casa,
vi-a a fugir de papéis, dogmas
e métricas, poesia sem prantos,
sem malditismos nem qualquer presunção,
uma poesia de pão e água,
de quero-te porque sim,
essa que me deu vida e que há-de levá-la,
essa que eu te ofereço, mundo de merda,
enquanto viver.

(Trad. A.M.)

.



22.4.14

Fernando Pessoa (Não: não digas nada)





Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já.

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada; sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.


Fernando Pessoa

.

21.4.14

Jorge Luis Borges (Os meus livros)





MIS LIBROS



Mis libros (que no saben que yo existo)
son tan parte de mí como este rostro
de sienes grises y de grises ojos
que vanamente busco en los cristales
y que recorro con la mano cóncava.
No sin alguna lógica amargura
pienso que las palabras esenciales
que me expresan están en esas hojas
que no saben quién soy, no en las que he escrito.
Mejor así. Las voces de los muertos
me dirán para siempre.

Jorge Luis Borges

[Autores editores]



Meus livros (que não sabem que eu existo)
são tão parte de mim como este rosto
de têmporas e olhos cinzentos
que em vão procuro nos espelhos
e que percorro com a mão em concha.
Não sem certa amargura
penso que as palavras essenciais,
que me expressam, estão nessas folhas
que não sabem quem eu sou, não naquelas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
dir-me-ão para sempre.

(Trad. A.M.)

.

20.4.14

Eugénio de Andrade (E depois, tão antiga)





E depois, tão antiga a neve.
Só o lume a podia trazer
da fundura dos dias
a esta casa. Brancura estendida
em páginas lidas
a outra luz, dentro do sono.
Quase sem peso, sem nenhum
ruído -- vinda de outros céus,
outros caminhos.
A primeira neve. E tão antiga.

Eugénio de Andrade


[Silva]

.

19.4.14

Pedro Andreu (Letra por letra)




LETRA A LETRA


Perdona si mi voz no es la que era,
si en mi cuarto hay ese olor
a plácida violencia tras el llanto, si tengo canas
y por fin me asalta la resaca tras la fiesta
con su cuchillo hiriente y melancólico,
si aún llega fin de mes a noche trece,
si la ducha sigue estropeada,
si no he ganado nunca el Jaime Gil de Biedma
ni aprendí a bailar tangos ni manejo
automóviles caros como la madrugada...
Perdóname también si no me corto un pelo
ni trabajo ni duermo ni dejo de llamarte
ni sé pedir perdón como dios manda
sin reírme en la madre que parió a este planeta.

Perdona —conejito de miel, hembra de otros,
bichito de la luz en mi pasado,
memoria ardida en cueros, perfume
de corazón burdel— tantas palabras putas
que te dije.
Perdóname... si me voy olvidando de tu cara,
si dibujé tu nombre en nuestro patio
con un palo y oriné sobre él
hasta borrarte el alma, letra a letra.

Pedro Andreu

[Las afinidades electivas]

[YouTube]



Perdoa se minha voz não é a que era,
se o meu quarto tem esse odor
a plácida violência depois do pranto,
se tenho cãs e me assalta a ressaca após a festa
com seu punhal agressivo e melancólico,
se o fim do mês chega logo na noite treze,
se o chuveiro continua avariado,
se nunca ganhei o Jaime Gil de Biedma,
nem aprendi a dançar tango nem conduzo
carros caros como a madrugada...
Perdoa-me também se não corto um cabelo
nem trabalho nem durmo nem deixo de chamar-te
nem sei pedir perdão como deus manda
sem me rir da mãe que pariu este mundo...
Perdoa – coelhinho de mel, fêmea de outrem,
bichinho da luz do meu passado,
ardida memória, perfume de coração bordel –
tantas palavras feias que te disse.
Perdoa-me... se a tua cara me vai esquecendo,
se com um pau escrevi teu nome no pátio
e urinei sobre ele
até te apagar a alma, letra por letra.

(Trad. A.M.)

.


18.4.14

Bertolt Brecht (Contra os objectivos)





CONTRA OS OBJECTIVOS


1

Quando os que combateram a injustiça
Mostram as faces feridas
A impaciência dos que estiveram em segurança é
Grande.

2

Porque vos queixais? - perguntam eles
Combatestes a injustiça! Agora
Foi ela que vos venceu: calai-vos pois.

3

Quem combate, dizem eles, tem de saber perder
Quem busca a luta corre perigo
Quem age com violência
Não se deve queixar da violência.

4

Ai, amigos que estais em segurança,
Por quê tão inimigos? Somos nós
Vossos inimigos, nós que somos inimigos da injustiça?
Se os combatentes contra a injustiça estão vencidos
Nem por isso a injustiça se faz justa!!

5

Pois as nossas derrotas
Nada provam senão
Que somos poucos
Os que combatemos contra a vilania.
E dos espectadores nós esperamos
Que ao menos tenham vergonha!


Bertolt Brecht

(Trad. Paulo Quintela)


[Luz & sombra]

.