26.5.16

Gloria Bosch (Até aqui chegámos)




Hasta aquí hemos llegado
después de algunos viajes de ida y vuelta
de abundantes luchas y fracasos
de decir no puedo más y adelante
de tantos gestos incontables en el aire.

Hasta aquí hemos llegado
mientras la historia nos daba la espalda
y nos hacía muchas veces invisibles
teniendo que mostrar lo indemostrable
callando para siempre lo indecible.

Hasta aquí ha llegado nuestro silencio
nuestro grito quebrado, nuestra rabia,
nuestros buenos modales, nuestro llanto
nuestra espina clavada en el alma.

Hemos llegado hasta aquí y nos quedamos
con la ternura y las manos enlazadas
con el camino medio hecho y los gestos solidarios
con las ganas de luchar
sin más arma que la palabra.

Hasta aquí hemos llegado
y decimos, con nuestra fuerza en los labios,
un no rotundo al abuso y al maltrato
al racismo y al lenguaje sexista
a los velos del alma
a la intolerancia
a la discriminación sexual
a los salarios basura
a la explotación de la infancia
y decimos un ‘no’ rotundo
a que una sola mujer sea asesinada
ni en Ciudad Juárez
ni en cualquier rincón del mundo.
Lo decimos bien claro y bien alto:

HASTA AQUÍ HEMOS LLEGADO!


Gloria Bosch

[Veus de dones]




Até aqui chegámos
depois de algumas viagens de ida e volta
de muitas lutas e fracassos
de dizer não posso mais e avante
de tantos gestos sem conta pelo ar.

Até aqui chegámos
enquanto a história nos virava as costas
e nos fazia tanta vez invisíveis
a ter de mostrar o indemonstrável
e de calar para sempre o indizível.

Até aqui chegou nosso silêncio,
nosso grito trespassado, nossa raiva,
nossos bons modos, nosso pranto,
nosso espinho cravado na alma.

Chegámos até aqui e parámos
com a ternura e de mãos enlaçadas,
o caminho meio feito e os gestos solidários,
com ganas de lutar tendo por arma a palavra.

Até aqui chegámos
e dizemos, com a força nos lábios,
um rotundo não ao abuso e maus-tratos,
ao racismo e à treta sexista,
aos véus da alma
à intolerância
à discriminação sexual
aos salários de miséria
à exploração infantil,
um ‘não’ rotundo
à morte de uma só mulher que seja,
em Ciudad Juárez
ou em qualquer canto do mundo.
Dizemos bem alto e muito claro:

ATÉ AQUI CHEGÁMOS!

(Trad. A.M.)



>>  Veus de dones (blogue) / Poemario de mujeres (5p) / Ojos de papel (5p)

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25.5.16

Gonçalo M. Tavares (Escritor)





ESCRITOR



É um escritor ou então a mulher partiu com outro,
e o corpo não recuperou a vontade
de se preocupar com a roupa.
Espontâneo, vê-se; tudo o que traz vestido
apareceu-lhe à frente como numa colisão.
No entanto é discreto.
Tem a idade em que já não se desejam os olhares dos outros.
Branco, o cabelo transmite paz e
uma pequena desistência.
Tem cachimbo, óculos,
na mesa revistas francesas sobre a alma e os laboratórios que a
estudam;
pega numa folha e começa a escrever.
Tem ar sóbrio, o corpo não dança,
vê-se que há muito venceu o medo de não ser igual aos outros.
Escreve; passa a mão sobre a orelha.
É um escritor, em definitivo.
A luta não é com a solidão, vê-se que sabe usá-la,
percebe a sua natureza.



Gonçalo M. Tavares

[Troca de olhares]

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24.5.16

Antonio Martínez Sarrión (A miúda que conheci)





LA CHICA QUE CONOCÍ EN UNA BODA



fue la prima que entonces se casó
luego hubo baile
piano y batería mucho vino
yo diría que gentes más bien pobres
con los trajes de muerto de las fiestas
nevaba muchos viejos
que echaban la colilla en un barreño
y sacudían la mota
mucha música
la pizpireta que se está
bajando las bragas
se pone de puntillas
mira a la galería
con aquellos ojazos virgen santa
y aquel reír el vino
estuvo luego haciendo lo restante
hasta que ya no pude contenerme y se lo dije
no a ella
a mis amigos
y estuve enamorado como un mes

Antonio Martínez Sarrión




foi a prima que então se casou
depois houve baile
piano e bateria muito vinho
eu diria que mais pessoas pobres
com as vestes de morto das festas
estava a nevar muitos velhos
que jogavam a pirisca numa bacia
muita música
a pespineta põe-se a descer a cueca
em bicos de pés
olha para a assistência
com aqueles olhões virgem maria
e aquele riso o vinho
depois é que fez o resto
até que eu já não me aguentava e confessei-o
não a ela
mas aos amigos
e estive apaixonado coisa de um mês

(Trad. A.M.)



>>  Cervantes (antologia) / A media voz (30p) / Wikipedia

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23.5.16

Gil T. Sousa (Passagem)





PASSAGEM



e se nas mãos fechadas
as grandes portas se abrissem

e passasses tu
como este silêncio passa!



Gil T. Sousa


[Canal de poesia]

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22.5.16

Fernando Valverde (Um lobo)





UN LOBO



Dentro de este poema pasa un lobo
que deja sus pisadas en la nieve.

Sigiloso y hambriento,
recorre una ciudad
que miró confiada hacia el futuro.

Hoy han bajado todas las persianas.

Es tarde,
trato de no hacer ruido
y que avancen los versos como pasan los días
para que el lobo escoja
un camino que lleve a otro lugar,
una presa más débil.

Pero en este poema espera un lobo
que ha venido a buscarme.

Aunque intente estar quieto y no hacer ruido
salta por las palabras un recuerdo
que me arranca un aullido y me devora.


Fernando Valverde





Dentro deste poema passa um lobo
deixando as pegadas na neve.

Em silêncio e faminto
corre uma cidade
que olhou confiada para o futuro.

Hoje baixaram todas as persianas.

É tarde,
tento não fazer barulho,
que os versos avancem como passam os dias
para o lobo escolher
outro caminho, uma presa mais débil.

Mas neste poema espera um lobo
que me veio procurar.

Apesar de tentar ficar quieto
e não fazer ruído,
salta nas palavras uma lembrança
que me arranca um uivo e me devora.


(Trad. A.M.)

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21.5.16

Fernando Pessoa / A. Campos (Ai Margarida)





Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
—Tirava os brincos do prego,
Casava c’um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.


Álvaro de Campos


[Casa Fernando Pessoa]

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20.5.16

Elena Soto (Para que meus passos)





PARA QUE MIS PASOS Y TUS PASOS...



He recogido el polvo de tus pasos,
y lo he puesto en un cesto de mimbre sobre el agua,
lo he esparcido en el viento,
lo he arrojado en la hoguera,
para que mis pasos y tus pasos se encuentren tras la lluvia,
y llames a mi puerta,
y busques el fuego de mi casa
cuando azote tu rostro el crudo viento del norte.

Elena Soto




Apanhei o pó de teus passos,
e pu-lo num cesto na água,
espalhei-o ao vento,
atirei-o à fogueira,
para os meus passos e os teus se cruzarem após a chuva,
e tu chamares à minha porta
e buscares o lume da minha casa
quando te açoitar o vento duro do norte.

(Trad. A.M.)



>>  El establo de Pegaso (blogue) / Letralia (6p) / Poemario de mujeres (5p) / El Mundo (perfil)

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