2.3.15

Laura Casielles (Acção de graças)





ACCIÓN DE GRACIAS



Estar
un poquito en la calle y un poquito en los libros,
tener
al menos un amor que haya cambiado el mundo
y un puñado de amores menos eternos
que formen entre todos el país donde se quiere vivir
por lo demás,
ser
una casa con ventanas abiertas,
viento y sol, una cama con alguien,
proyectos,
el pasado presente, el futuro olvidado,
un par de carencias,
la mar,
la salud que no falte,
la risa siempre a punto,
gozar
de los amigos en cuya presencia
nada ha fallado nunca.
No pedir más.


Laura Casielles

[Emma Gunst]




Estar
um pouco na rua, um pouco nos livros,
ter um amor pelo menos
capaz de mudar o mundo
e uma mão cheia de amores menos eternos
que somados façam um país
para viver tudo o resto,
ser
uma casa de janelas abertas,
com vento e com sol, e uma cama com alguém,
projectos,
o passado presente, o futuro olvidado,
algumas carências,
o mar,
a saúde que não falte,
o riso sempre pronto,
gozar
dos amigos com quem
nunca nada falhou.
Não pedir mais.


(Trad. A.M.)



>>  Tres pies del gato (blogue) / Las afinidades electivas (4p) / Portal de poesia (10p) / Emma Gunst (7p) /
Wikipedia

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1.3.15

Carlos Drummond de Andrade (Congresso do medo)





CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO



Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosa


Carlos Drummond de Andrade

[Revista Bula]

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28.2.15

Luis Rosales (A festa dos pássaros)





LA FERIA DE LOS PÁJAROS



Sentí que se desgajaba
tu corazón lentamente
como la rama que al peso
de la nevada se vence,

y vi un instante en tus ojos
aquella locura alegre
de los pájaros que viven
su feria sobre la nieve.


Luis Rosales




Senti esgalhar
teu coração devagar
como se fosse um ramo
com o peso da neve,

e por um instante vi em teus olhos
essa loucura alegre
dos pássaros voando
em festa sobre a neve.

(Trad. A.M.)

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27.2.15

Ana Paula Inácio (Primeira flor)





PRIMEIRA FLOR



Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.
Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.
Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.


Ana Paula Inácio

[Pátria pequena]

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26.2.15

Jorge Espina (Mãe)




MADRE



Madre tiembla cuando dice adiós,
Madre siempre tiene miedo,
Madre llora por sus hijos,
Madre llora por sus nietos.
Madre es una flor deshojada
Con aroma a café recién hecho,
Madre es una manzana de sidra
Cansada de caer al suelo.
Madre es un viejo druida
Que cura el dolor con ungüento.
Madre es un ladrillo en el horno
Que calienta la cama en invierno.
Recuerdo el roto en el corazón,
Lo cosió madre,
Mi madre
Que se juega hoy la vida al parchís
En un hogar para ancianos.

Jorge Espina



Mãe treme a dizer adeus,
mãe está sempre com medo,
mãe chora pelos filhos,
mãe chora pelos netos.
Mãe é uma flor desfolhada
com cheiro de café fresco,
mãe é uma maçã de sidra
cansada de cair ao chão.
Mãe é um velho druida
que tira dores com unguento.
Mãe é um tijolo do forno
que aquece a cama no Inverno.
Recordo o golpe no coração,
coseu-o a mãe,
minha mãe
que joga hoje a vida às cartas
num lar de idosos.

(Trad. A.M.)

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25.2.15

Amadeu Baptista (Sala dos actos-3)





SALA DOS ACTOS-3



usa a tua nudez acessórios mortais
para quem procura. a fita de veludo,
o cinto de fivela prateada,
a pintura guerreira, o golpe subtil

com que anuncias a ascensão
ao cume do carinho, exactamente
quando sobre o desvario
distendes os flancos e lanças sobre mim

o golpe intrépido
para que o êxtase estoure no meu corpo
esse mar de grata violência

que pressinto chegar em vagas sucessivas
sempre que gritas e, nesse grito,
desatas o meu grito.

Amadeu Baptista


[Amadeu Baptista]

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24.2.15

Jorge Boccanera (Universo)





UNIVERSO



El domador que mete su cabeza dentro de la boca
del león, ¿qué busca?
¿La lástima del público?
¿Que tenga lástima el león?
¿Busca su propia lástima?

El poeta que arroja su anzuelo en la garganta de la
Sordomuda, ¿qué busca?
¿La lástima del público?
¿Que tenga lástima la Sordomuda?
¿Busca su propia lástima?

Y el público, ¿está loco? ¿por qué aplaude?


Jorge Boccanera

[Revista Triplo V]




O domador que mete a cabeça na boca
do leão, que busca?
A piedade do público?
A do leão?
A sua própria piedade?

O poeta que espeta o anzol na garganta
da Surda-muda, que busca?
A piedade do público?
A da Surda-muda?
A sua própria piedade?

E o público, está louco? Porque aplaude?

(Trad. A.M.)

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