22.1.17

João Guimarães Rosa (Só comandei)





Quem era que ia poder botar naquilo uma ordem, para um fim com vitória?
E estralou bala...
Repisei em minhas estribeiras, apertei as pernas nas espendas.
Eu tinha de comandar.
Eu estava sozinho!
Eu mesmo, mim, não guerreei.
Sou Zé Bebelo?!
Permaneci.
Eu podia tudo ver, com friezas, escorrido de todo medo.
Nem ira eu tinha.
A minha raiva já estava abalada.
E mesmo, ver, tão em embaralhado, de que é que me servia?
Conservei em punho meu revólver, mas cruzei os braços.
 Fechei os olhos.
Só com o constante poder de minhas pernas, eu ensinava a quietidão a Siruiz meu cavalo.
E tudo perpassante perpassou.
O que eu tinha, que era a minha parte, era isso: eu comandar.
Talmente eu podia lá ir, com todos me misturar, enviar por?
Não!
Só comandei.
Comandei o mundo, que desmanchando todo estavam.
Que comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


Alberto Szpunberg (Esta é a dança)





XVI


Esta es la danza
de los cuerpos que desbordan
el cauce de las manos
y rozan
el goce regalado entre nosotros,
como si lloviera sobre el mar
la tenue luz de la mañana.


Alberto Szpunberg

[Marcelo Leites]




Esta é a dança
dos corpos que transbordam
o limite das mãos
e roçam
o prazer oferecido entre nós
como se a luz ténue da manhã
chovesse sobre o mar.


(Trad. A.M.)


21.1.17

W. B. Yeats (A espora)





THE SPUR



You think it horrible that lust and rage
Sould dance attention upon my old age;
They were not such a plague when I was young;
What else have I to spur me into song?


W. B. Yeats





Parece-te horrível que luxúria e ira
Cortejem a minha velhice;
Quando jovem não me flagelavam assim;
Que mais tenho eu que esporeie até cantar?

(Trad. J.A.Baptista)


20.1.17

Adolfo Cueto (Aluimento)





SOCAVÓN
(calle en obras)


Se parece a ti misma, soledad, esta acera, ahí
abierta, con su herida asomada, su intestino
de plástico. Ese plástico lleno
de aluminio y de frío, su azul descolorido,
empozado entre fango. Por las secas bajantes del olvido,
donde ya
nadie pasa
ni llega, y sólo abundan pasado y otros útiles
de ferretería, esta acera llagada, ahí
abierta, se parece a ti misma, soledad,
seas quien seas.


Adolfo Cueto




É parecida contigo, solidão, esta calçada,
esventrada, com as tripas à mostra, seu intestino
de plástico. Esse plástico cheio
de alumínio e de frio, seu azul descolorido,
atascado de lama.
Pelas ladeiras do esquecimento,
onde já ninguém passa,
a ir ou a vir,
onde abundam o passado e algumas ferramentas,
esta calçada em ferida, assim exposta,
é parecida contigo, solidão,
sejas lá tu quem fores.


(Trad. A.M.)


19.1.17

João Guimarães Rosa (Mirei e vi)





Sobre isto, eu tirei um pé do estribo e ajoelhei no coxim da sela.
Porque era a hora de olhar; mirei e vi.
Como o inimigo vinha: as listras de homens, récua deles: passante de uns cem.
Tive mão em tudo, eles ainda estando longe.
Fafafa encostou dois dedos no meu joelho, como se até às mudas quisesse poder receber a ordem.
Ele esperava um instante certo de meu respirar.
Eu brinquei com a mão no arção.
Vez de um, vez: todos e todos.
Falo o dito de jagunço: que eles mesmos não conseguiam saber se tinham algum medo; mas, em morte, nenhum deles pensava.
O senhor xinga e jura, é por sangue alheio.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


Valeria Pariso (Agora vem)





(17)


Ahora llega
esta paz
como si fuese
una visita que se espera hace mucho.

La miro.
Me mira.
Podríamos quedarnos
muchos años así.

Ahora
la casa me permite
seguir poniendo flores
para armar la alegría.

Ya hemos aprendido a no soñar la sed.

Por suerte,
afuera,
son otros los que esperan
que alguna vez
les pase.


Valeria Pariso





Agora vem
esta paz
como se fosse
uma visita há muito esperada.

Olho para ela,
ela para mim,
podíamos ficar assim
muitos anos.

Agora
a casa deixa-me
pôr sempre flores
para armar a alegria.

Aprendemos já a não sonhar a sede.

Por sorte,
lá fora,
outros são os que esperam
que um dia
lhes aconteça.



(Trad. A.M.)


18.1.17

Sophia de Mello Breyner Andresen (Pátria)





PÁTRIA                               



Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo



Sophia de Melo Breyner Andresen



17.1.17

Roger Wolfe (O copo)





EL VASO



Siéntate
a la mesa.
Bebe un vaso
de agua. Saborea
cada trago.
Y piensa
en todo el tiempo
que has perdido.
El que estás perdiendo.
El tiempo
que te queda por perder.


Roger Wolfe




Senta-te.
Bebe um copo
de água. Saboreia
cada gole.
E pensa
no tempo todo
que perdeste.
No que estás perdendo.
No tempo que te resta
para perder.



(Trad. A.M.)


16.1.17

João Guimarães Rosa (Descendo na cava)





Descendo na cava, por feliz a gente vinha em oculto.
E, justo, já embaixo, no principiar da várzea, era um capim com mais viço, capinzal do fresco de pé-de-serra.
Capim mais alto do que eu – nele à gente se tapava.
Coincidido que, permeio o verde dos talos, a gente via algumas borboletas, presas num lavarinto, batendo suas asas, como por ser.
Caiu o açúcar no mel!
Porque, igual também convim que podíamos ladear um tanto; e, daí, separei, de cabeça, um grupo de homens, que iam ir com o Fafafa: esses avançarem primeiramente – como a certa isca – perturbando o cálculo do inimigo, ao dar o dar.
Respiramos tempo, naqueles transitórios.
De rechego, coçando as caras no capim em pontas, que dava vontade de se espirrar.
Só o rumor que se ouvia era o dos cavalos abocanhando.
Eu tinha pressa de um final, mas o que ia mor em mim era um lavorar de paciência: talento com que eu podia ficar retardando lá, a toda a vida.
Safas – que eu podia dar também um pulo, enorme, sustirado, repentemente.
Vi: o que guerreia é o bicho, não é o homem.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


Rocío Wittib (Tu estás ali)





tú estás ahí
donde termina la palabra lejos
miras como el otoño se desprende
de la piel rojiza de los árboles
y sientes en los ojos que es noviembre
del mismo modo que sientes
y sabes y callas
que demasiadas veces
dijimos pronto será
tal vez por no decirnos adiós


 Rocío Wittib




tu estás ali
onde termina a palavra longe
observas o Outono a desprender-se
da pele avermelhada das árvores
e sentes nos olhos que é Novembro
tal como sentes
e sabes e calas
que demasiadas vezes
dizemos ‘breve será’
talvez só para não dizer ‘adeus’


(Trad. A.M.)