28.11.14

Paulo Varela Gomes (Horror-3)





Não há questão estética que seja só estética, bem como não há questão social ou política que não seja também estética, acrescentava.

As horríveis aldeias e vilas por onde passava, a desgraça das estradas nacionais e dos subúrbios, mesquinhos, amontoados com grosseria, eram resultado da corrupção, a grande, a do Estado corrompido pelos construtores desde o tempo do marcelismo, e a pequena, a de toda a gente que mentia, roubava, violava a lei.

Malandrice e desleixo, Portugal era isso, a pobreza que o progresso transformou na estupidez do novo-rico ou daquele que julga que já é rico.


PAULO VARELA GOMES
O Verão de 2012
Tinta-da-China (2013)

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Félix Grande (Poética)





POÉTICA



Tal como están las cosas
tal como va la herida

puede venir el fin
desde cualquier lugar

Pero caeré diciendo
que era buena la vida

y que valía la pena
vivir y reventar

Puedo morir de insomnio
de angustia o de terror

o de cirrosis o de
soledad o de pena

Pero hasta el mismo fin
me durará el fervor

me moriré diciendo
que la vida era buena

Puedo quedar sin casa
sin gente sin visita

descalzo y sin mendrugo
ni nada en mi alacena

Sospecho que mi vida
será así y ya está escrita

Pero caeré diciendo
que la vida era buena

Puede matarme el asco
la vergüenza o el tedio

o la venal tortura
o una bomba homicida

ni este mundo ni yo
tenemos ya remédio

Pero caeré diciendo
que era buena la vida

Tal como están las cosas
mi corazón se llena

de puertas que se cierran
con cansancio o temor

Pero caeré diciendo
que la vida era buena:

La quiero para siempre
con muchísimo amor

Félix Grande

[Cómo cantaba mayo]




Tal como estão as coisas
tal como vai a ferida

o fim pode chegar
de qualquer lugar

Mas tombarei a dizer
que a vida era boa

e que valia a pena
viver e estoirar

Posso morrer de insónia
de angústia ou terror

ou de cirrose ou
solidão ou desgosto

Mas até chegar o fim
há-de durar-me o fervor

e hei-de morrer dizendo
que era boa a vida

Poderei ficar sem casa
sem gente e sem visita

descalço e sem uma côdea
sem nada na despensa

Suspeito que a minha vida
assim será e está já escrita

Mas hei-de cair a dizer
que a vida era boa

Posso morrer de asco
do tédio ou da vergonha

de tortura cruel
ou de uma bomba assassina

que nem eu nem este mundo
temos já compostura

Mas tombarei a dizer
que era boa a vida

Tal como estão as coisas
meu coração fica cheio

de portas que se cerram
com fadiga ou temor

Mas hei-de cair dizendo
que a vida era boa:

Eu quero-lhe para sempre
com muitíssimo amor

(Trad. A.M.)

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27.11.14

Luís Quintais (A criação do mundo)





A CRIAÇÃO DO MUNDO



Quando o meu olhar se cruza
com o desta mulher
que vem ver quem passa,
o que me fere...
não é a funda dor dos seus olhos,
a agonia do rosto que implode,
o corpo inchado,
por acção da senilidade bloqueado.

O que me fere
é a entropia dos objectos que a rodeiam:
as paredes amortalhadas
pela respiração de todos os dias,
o frigorífico com mais de trinta anos
coberto de uso, de ferrugem,
a jarra, o azul ardente das suas flores,

o cromático reverso, a criação do mundo.


Luís Quintais



>>  Luis Quintais (sítio)

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26.11.14

Felipe Benítez Reyes (Valor do passado)





VALOR DEL PASADO



Hay algo de inexacto en los recuerdos:
una línea difusa que es de sombra,
de error favorecido.

             Y si la vida
en algo está cifrada
es en esos recuerdos
precisamente desvaídos,
quizás remodelados por el tiempo
con un arte que implica ficción, pues verdadera
no puede ser la vida recordada.

             Y sin embargo
a ese engaño debemos lo que al fin
será la vida cierta, y a ese engaño
debemos ya lo mismo que a la vida.

FELIPE BENÍTEZ REYES
Sombras particulares
(1992)

[Lifevest under your seat]



Há algo de falso na lembrança,
uma linha difusa de sombra,
de erro favorecido.

             E se a vida
se cifra em algo
é nessas lembranças
precisamente esvaídas,
quiçá remodeladas pelo tempo
com certa arte que implica ficção, pois verdadeira
não pode ser a vida recordada.

             E contudo
a esse engano devemos o que será
no fim a vida mesmo, e a tal engano devemos
o mesmo que devemos à vida.


(Trad. A.M.)

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25.11.14

Paulo Varela Gomes (Horror-2)





Olhava e via: quase nenhum bairro, casa, prédio, posteriores à década de 1960, quer dizer, posteriores à época em que ele saía da infância, merecia outro destino senão uma demolição impiedosa.

Queria lá saber que, antes dessa década e até muito recentemente, as pessoas fossem pobres.

Continuavam a sê-lo, agora pobres de espírito e pobres de gosto, e tinham destruído tudo, a paisagem antiga e habitada, a montanha, as planícies, a costa, tudo o que havia antes é de que ele ainda se lembrava, as casas pobres e dignas, que agora via em ruínas, abandonadas, largadas à beira dos caminhos como animais sarnosos que a impiedade matara.


PAULO VARELA GOMES
O Verão de 2012
Tinta-da-China (2013)

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Elder Silva (Água de sabão)





AGUA ENJABONADA



Cuando tiendes la ropa en el alambre
esperas algo más que un lavado
perfecto.
Sientes deseos que tu camisa blanca
se purifique algo en el tendedero,
que el sol se recueste en el suéter
comprado en San Pablo
y lo vuelva más naranja
y apague la borrasca del día
y la falta de confianza.
Cuando veo mis medias sacudidas
por el viento
espero no sentir el cansancio
de esa danza
cuando me las ponga para ir al trabajo.

Hay cierto alivio
y suspiras como en un spot
donde publicitan jabones
y hasta crees que algo ha sucedido
con tu ropa
cuando la descuelgas
para ordenarla en el ropero.
El olor a ropa limpia
tiene la belleza de tus ojos
mirando en un cielo atardecido,
y algo de la escandalosa impureza
del agua enjabonada.

Elder Silva

[Marcelo Leites]



Ao estender a roupa no arame
esperas algo mais do que uma perfeita
lavagem.
Pretendes que a camisa
branqueie alguma coisa
e que o sol se recline no suéter
comprado em São Paulo
e lhe avive a cor
e apague a borrasca do dia
e a falta de confiança.
Quando vejo as meias sacudidas pelo vento
só espero não sentir o cansaço
dessa dança
na hora de as calçar e de ir para o trabalho.

Pinta um certo alívio
e tu suspiras como num spot
de publicidade a sabões
e até julgas que algo aconteceu
à roupa
quando vais apanhá-la
para a arrumar no roupeiro.
O cheiro a lavado
tem a beleza dos teus olhos
a contemplar o céu do entardecer,
e algo também da escandalosa impureza
da água de sabão.

(Trad.A.M.)



>>  Antonio Miranda (4p) / La palabra única (7p) / Al pial de la palabra (14p) / Facebook
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24.11.14

José Luís Peixoto (Não te pergunto de onde chegas)






não te pergunto de onde chegas?,
porque sei para onde vais.
hoje é a hora exacta em que até o vento
até os pássaros desistem.
e a noite a teus pés é um instante
e um destino.

não te pergunto onde está o teu rosto,
tantas vezes ocluso e pisado sob os ramos,
onde está o teu rosto?
nem te peço que incendeies o teu nome
numa nuvem nocturna,
nem te procuro.

és tu que me encontras.
ficas no rio que passa,
nada de um tempo que não existe,
nem correntes, nem pedra, nem musgo.
nem silêncio.

José Luís Peixoto


[Ginjal e Lisboa]

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23.11.14

Federico García Lorca (Da rosa)





DA ROSA



A rosa
não procurava a aurora:
quase eterna em seu ramo,
procurava outra coisa.

A rosa
não procurava ciência ou sombra:
confim de carne e sonho,
procurava outra coisa.

A rosa
não procurava a rosa:
imóvel pelo céu
procurava outra coisa.


Federico García Lorca
(Trad. José Bento)



[Silva]

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22.11.14

Paulo Varela Gomes (Horror-1)





Cada vez que saía de casa, o horror que era Portugal aparecia-lhe como um pesadelo de que não se consegue emergir, de que ele próprio não conseguiria de facto emergir, e como uma espécie de confirmação do destino.

Dizia que vivera os mais destrutivos cinquenta anos do último século e meio da história do país e que, pelo acaso do nascimento, fora forçado a assistir ao desmantelamento do que restava do Portugal antigo e à sua substituição por um país não apenas moralmente corrupto, mas também o mais feio da Europa ocidental.


PAULO VARELA GOMES
O Verão de 2012
Tinta-da-China (2013)

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Berta Piñán (Para outros)





PARA OTROS



Para otros la aventura, los viajes, el ancho
del océano, Roma ardiendo y las pirámides,
las selvas indomables, la luz de los desiertos,
los templos y el rostro de la diosa. Para ellos
rascacielos y ciudades, palacios del sueño
contra el tiempo, la sonrisa de Buda, las torres
de Babel, los acueductos, la industria incesante
del hombre y sus afanes.

A mi dejadme la sombra difusa del roble,
la luz de algunos días de otoño, la música callada
de la nieve, su caer incesante en la memoria,
dejadme las cerezas en la boca cuando niña, la voz
de los amigos, la voz del río y esta casa, de algunos libros,
pocos, mi mano dibujando, despacio, la curvatura
perfecta de tu espalda.

Berta Piñán



Para outros a aventura, as viagens, o largo
do oceano, Roma a arder e as pirâmides,
as selvas indomáveis, a luz dos desertos,
os templos e o rosto da deusa. Para eles
arranha-céus e cidades, palácios do sonho
contra o tempo, o sorriso de Buda, as torres
de Babel, os aquedutos, a indústria incessante
do homem e seus afãs.

A mim deixai-me a sombra difusa do carvalho,
a luz de certos dias de Outono, a música silenciosa
da neve, seu cair incessante na memória,
deixai-me as certezas na boca em criança, a voz
dos amigos, a voz do rio e desta casa, de certos livros,
poucos, minha mão desenhando, devagar, a curvatura
perfeita das tuas costas.

(Trad. A.M.)

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