27.4.15

Laura Casielles (Ascendente Balança)





ASCENDENTE LIBRA



Conoceréis el amor y entonces
pensaréis en la muerte;
reconoceréis la belleza y entonces pensaréis
en la maldición del paso del tiempo.
Leeréis un verso y recordaréis
que la fruta se pudre,
que la violencia impera;
veréis una joven hermosa
y pensaréis en huesos y en polvo.
Conoceréis la paz y oiréis el eco del grito;
os llevarán al mar y os asombrará
la certeza del llano
que es devastado por el fuego.
Conoceréis el deseo y entonces
temeréis el fin de la tierra.

Pero, otras veces,
conoceréis la muerte y pensaréis en el amor,
reconoceréis la maldición del paso del tiempo
y os haréis súbditos incorruptibles
de la belleza.


Laura Casielles

[Emma Gunst]



Conhecereis o amor e então
pensareis na morte;
reconhecereis a beleza e então
pensareis na maldição
da passagem do tempo.
Lereis um verso e recordareis
que a fruta apodrece,
que reina a violência;
vereis uma jovem bela
e pensareis em ossos e em pó.
Conhecereis a paz e escutareis o eco do grito;
levar-vos-ão até ao mar e há-de assombrar-vos
a certeza do plaino
devastado pelo fogo.
Conhecereis o desejo e então
haveis de temer o fim da terra.

Mas, outras vezes,
conhecereis a morte e pensareis no amor,
reconhecereis a maldição da passagem do tempo
e tornar-vos-eis súbditos incorruptíveis
da beleza.

(Trad. A.M.)

.

26.4.15

José Cardoso Pires (O Delfim-5)





'O Delfim' é, intenta ser, a descrição de um homem que através de alienações progressivas se conduz à mitomania.

(O Padre Novo em aparte: 'Você sabe como ele é. Inventa as histórias e depois acredita nelas'.)

Quanto mais o presente lhe põe à vista os sinais do futuro irrevogável, mais ele se alheia da evidência racional e mais carregado se torna o seu traço psicótico.

Mas se é destino dos barões sem crédito sublimarem-se à margem da realidade que os recusa, até que ponto não têm eles de perverter a imagem da mesma realidade para poderem subsistir?


JOSÉ CARDOSO PIRES
E agora, José?/ Memória descritiva
(1977)

.

Luis González Ansorena (E tu, homem vulgar)





Y tú,
hombre vulgar
y cotidiano,
me preguntas
para qué sirve
la poesía.
Lo entenderás
cuando las ratas
comprendan por qué
vuelan las águilas.

Luis Ansorena



E tu,
homem vulgar
e quotidiano,
perguntas
para que serve
a poesia.
Hás-de entendê-lo
quando os ratos
entenderem
porque é que voam as águias.

(Trad. A.M.)

.

25.4.15

Vinicius de Moraes (Pátria minha)





PÁTRIA MINHA



A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um ‘libertas quae sera tamem’
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."


Vinicius de Moraes

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24.4.15

Eloy Sánchez Rosillo (Ouvir a luz)





OÍR LA LUZ



Debo decir que cuando yo era niño
y en el campo veía la densa muchedumbre
de estrellas en los cielos del verano,
además de mirar tanto fulgor,
podía oír la luz: se escuchaba allí arriba
como un rumor de enjambre laborioso.


ELOY SÁNCHEZ ROSILLO
Oír la luz
Tusquets Editores
(2008)

[Sureando]




Devo dizer, quando erapequeno
e via no campo a miríade de estrelas
nos céus do Verão,
além de contemplar o fulgor,
podia mesmo ouvir a luz, escutar
lá em cima como que o barulho
de um enxame laborioso.

(Trad. A.M.)

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23.4.15

José Cardoso Pires (O Delfim-4)





Nas sociedades fechadas, sociedades predominantemente masculinas em que o cidadão é destituído de autoridade cívica e de influência social, os exibicionismos da virilidade são as compensações dessa desautorização.

Subdesenvolvimento cultural, compressão religiosa e renúncia à realidade erótica são três pontos de fé dessas mesmas sociedades que aceleram poderosamente o processo das afirmações machistas.



JOSÉ CARDOSO PIRES
E agora, José?/ Memória descritiva
(1977)

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Fermín Herrero (Linha divisória)





MOJONERA



Todo poema acota un espacio
y lo funda, baliza un territorio. Aquí
la altura es páramo
y remanso - los hombres callan - pero
el agua baja de los montes y su voz
desnudándose al aire me traspasa. Muchos
aquí se van y pocos
vuelven, los que se quedan vagan
como espectros rulfianos pero
su corazón sin catastrar ignora
la prisa y los registros. Aquí
los frutos son de otoño y cuando
llegan, porque las casas dan
al invierno y la flor se desploma
en ruina al pasmo de las noches
en pueblos sin escuela ni tabernas. Pero
todavía en algunos
es virtud la templanza y no se pierde
el hombre por el lucro o la apariencia. Estos
son los dominios del silencio. El tiempo
aquí se para. Y me traduce.

Fermín Herrero




Todo o poema desenha um espaço
e dá-lhe fundo, baliza um território. Aqui
a altura é páramo
e remanso – os homens calam – mas
a água desce dos montes e a sua voz
trespassa-me ao desnudar-se ao vento.
Muitos se vão aqui e poucos voltam,
os que ficam vagam como espectros
rulfianos, mas o seu coração por cadastrar
desconhece a pressa e os registos. Aqui
os frutos são de Outono, quando vêm,
porquanto as casas dão para o Inverno
e a flor desfaz-se em ruína no pasmo das noites
em aldeias sem escola nem tabernas.
Mas em alguns é ainda virtude
a temperança e o homem não se perde
pelo lucro ou pela aparência. Estes
são os domínios do silêncio. O tempo
aqui detém-se. E traduz-me.


(Trad. A.M.)




>>  Abel Martín (33p) / Turismo T.A. (5p) / Escritores (linques)

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22.4.15

Maria do Rosário Pedreira (Vieste como um barco)





Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


Maria do Rosário Pedreira

[Abro páginas]

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21.4.15

Cysko Muñoz (Mulher de azul)





MUJER DE AZUL



Busco una mujer
entre todas ellas
capaz de ver belleza
en el grito de un naufragio,
la belleza
de las innumerables tragedias cotidianas
o del maullido moribundo
del gato del tejado.

Quiero que sea capaz de romper
el destino de un mordisco
de convertir el miedo en migajas
dibujar un mantel
y pegarse un festín.
Una mujer a la que le hagan cosquillas las religiones
que sepa desde siempre
que vamos a encontrarnos
pero que en lo único en lo que crea
sea en el azar.

Quiero que sea a la vez
un sueño y un recuerdo
que llegue con la sonrisa en punto
del mediodía
y con la alegría
imprecisa de un jilguero
-que sepa, como se sabe en los libros-
que el amor romántico es una mentira
sobre un castillo de naipes
-pero que intuya, como se intuye en los sueños-
que juntos podemos ser sencillamente felices.

Una mujer de viento y espada
de beso y hoguera
que cuanto mas la aten
mas se aleje
una mujer de hacha de guerra
de yesca y alumbre
que cure las heridas con sal.

Una mujer con la que todo se peleé
pero nada se rompa
que tras cada tropiezo
se gire en el aire y se ponga a bailar
que invente palancas
con las que mover los otoños
que su lengua sea un río de lava
y su saliva espuma de mar.

Una mujer cuyas piernas inspiren los dogmas
y sus pisadas los aplasten uno tras otro.

Una mujer cuyos labios fabriquen las nubes
y sus besos no paren de llover.

Una mujer cuyas manos sean de arcilla
y sus caricias de agua

o simplemente una mujer sencilla
tal vez, una mujer de azul.

Busco una mujer, para empezar,
–y esto es lo único innegociable-
que sea capaz de mirar de frente
estos versos
y no les tenga miedo.

Una mujer así o nada.

No pienso conformarme con menos.

Cysko Muñoz



Busco mulher
que seja entre todas
capaz de ver beleza
no grito de um naufrágio,
a beleza
das inúmeras tragédias quotidianas
ou do miar moribundo
do gato no telhado.

Que seja capaz de rasgar
o destino à dentada
de reduzir o medo a migalhas
desenhar uma toalha
e fazer um festim.
Uma mulher com cócegas da religião
que saiba desde sempre
do nosso encontro fatal
mas que creia
só no acaso.

Que seja à uma
sonho e lembrança
que chegue com o sorriso em ponto
do meio-dia
e com a alegria
imprecisa de um rouxinol
- que saiba, como se sabe nos livros -
que o amor romântico é uma mentira
sobre um castelo de cartas
- mas que intua, como se intui nos sonhos -
que juntos podemos ser simplesmente felizes.

Uma mulher de vento e espada
de beijo e chama
que quanto mais a prendam
mais se desate
uma mulher de machado de guerra
de acendalha e de lume
que cure as feridas com sal.

Uma mulher com quem tudo se discuta
mas nada se parta
que ao tropeçar dê uma volta
no ar e se ponha a dançar
que invente alavancas
com que mover os outonos
que a língua seja um rio de lava
e a saliva espuma do mar.

Uma mulher que as pernas inspirem os dogmas
e seus passos esmaguem um após outro.

Uma mulher que os lábios fabriquem as nuvens
e os beijos não parem de chover.

Uma mulher que as mãos sejam de argila
e suas carícias de água

ou simplesmente uma mulher singela
talvez uma mulher de azul

Busco mulher, para começar
- e nisto só não transijo -
que seja capaz de olhar de frente
estes versos
e não lhes ter medo.

Uma mulher assim, ou nada.

Não penso contentar-me com menos.

(Trad. A.M.)

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