24.8.16

Antonia Pozzi (Pausa)





PAUSA



Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


Antonia Pozzi

(Trad. Inês Dias)

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23.8.16

Eduardo Chirinos (Fragmentos)





FRAGMENTOS DE UNA ALABANZA INCONCLUSA




Debe haber un poema que hable de ti,
un poema que habite algún espacio
donde pueda hablarte sin cerrar los ojos,
sin llegar necesariamente a la tristeza.
Debe haber un poema que hable de ti y de mí.
Un poema intenso como el mar,
azul y reposado en las mañanas,
oscuro y erizado por las noches
irrespetuoso en el orden de las cosas, como el mar
que cobija a los peces y cobija también a las estrellas.
Deseo para ti el sencillo equilibrio del mar, su profundidad
y su silencio, su inmensidad y su belleza.
Para ti un poema transparente,
sin palabras difíciles que no puedas entender,
un poema silencioso que recuerdes sin esfuerzo
y sea tierno y frágil como la flor que no me atreví a enredar
alguna vez en tu cabello.
Pero qué difícil es la flor si apenas la separamos del tallo
dura apenas unas horas,
qué difícil es el mar si apenas le tocamos se marcha lentamente
y vuelve al rato con inesperada furia.
No, no quiero eso para ti.
Quiero un poema que golpee tu almohada en horas de la noche,
un poema donde pueda hallarte dormida, sin memoria,
sin pasado posible que te altere.
Desde que te conozco voy en busca de ese poema,
ya es de noche. Los relojes se detienen cansados en su marcha,
la música se suspende en un hilo
donde cuelga tristemente tu recuerdo.
Ahora pienso en ti y pienso
que después de todo conocerte no ha sido tan difícil
como escribir este poema.


Eduardo Chirinos

[Vallejo and company]




Deve haver um poema que fale de ti,
um poema que more em algum lugar
onde te fale sem fechar os olhos,
sem tombar por força na tristeza.
Deve haver um poema que fale de ti e de mim.
Um poema intenso como o mar,
azul e repousado de manhã,
negro e eriçado pela noite,
rebelde na ordem das coisas,
como o mar
que cobiça tanto os peixes como as estrelas.
O singelo equilíbrio do mar te desejo,
seu silêncio e profundidade,
sua imensidade e beleza.
Para ti o poema transparente,
sem palavras difíceis que não entendas,
um poema silencioso que recordes sem esforço
e seja terno e frágil como a flor
que eu não me atrevi a prender-te no cabelo.
Mas que difícil é a flor se mal a cortamos
dura apenas umas horas,
que difícil o mar se mal lhe tocamos
vai-se embora,
para voltar depois com grande fúria.
Não, não quero tal para ti,
quero um poema que te bata de noite na travesseira,
um poema onde te ache dormida,
sem memória,
sem passado possível que te altere.
Desde que te conheço que busco tal poema,
e é já de noite. Os relógios detêm-se cansados em sua marcha,
a música suspende-se num fio
onde pende triste a tua lembrança.
Agora penso em ti e penso
vendo bem que conhecer-te não foi tão difícil
como escrever este poema.


(Trad. A.M.)



>>  Otro paramo (10p) / Vallejo and company (7p) / Cervantes (sinopse/linques) / Wikipedia

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22.8.16

Raduan Nassar (Não é pra tanto, mocinho)





Ela não só tinha forjado na caseira uma platéia, mas me aguardava também cum arzinho sensacional que era de esbofeteá-la assim de cara, e como se isso não bastasse ela ainda por cima foi me dizendo 'não é pra tanto, mocinho que usa a razão', e eu confesso que essa me pegou em cheio na canela, aquele 'mocinho' foi de lascar, inda mais do jeito que foi dito, tinha na observação de resto a mesma composta displicência que ela punha em tudo, qulquer coisa assim, no caso, que beirava o distanciamento, como se isso devesse necessariamente fundamentar a sensatez do comentário, e isso só serviu para me deixar mais puto, 'pronto' eu disse aqui comigo como se dissesse 'é agora'...


RADUAN NASSAR
Um copo de cólera
(1978)

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David González (Areia)





ARENA



como cada día
que hace bueno
voy a la playa
y como cada día
extiendo mi vida
sobre la arena seca
cada vez más lejos
de donde gritan
los niños de donde rompen
las olas


David González

[Hasta los gatos acaban por suicidarse]





como sempre
que faz bom tempo
vou à praia
e como sempre
estendo a vida
na areia seca
cada vez mais longe
de onde gritam
os meninos de onde
rebentam as ondas


(Trad. A.M.)

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21.8.16

Ana Salomé (Lume)





LUME



Comecei a fumar para te pedir lume.
Para arranjar um motivo. Para.
Tens lume? Perguntei-te.
Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.
Engatilhaste o zippo. Todo prateado.
Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.
Eras canhoto, como o coração.
Agora. Disseste.
E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.
Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.
Não, claro que não. Claro que não.
Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.
O cigarro sempre aquece.
Sim. Tossi.
Estás bem? Perguntaste.
Estou muito bem.
Óptimo. Disseste. E sorriste.
Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?
Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.
Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.
Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida
Que correram mal, imediatamente mal.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para passar o frio.
Descobri que não viria a morrer
Nem de cancro pulmonar, nem de amor,
mas da própria morte, mal o lume se apagou
e o café fechou as portas. Para sempre.


Ana Salomé




>>  Uma candeia (blogue/ descont.) / Pátio alfacinha (idem) / As folhas ardem (várias cenas) / Wikipedia

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20.8.16

Cristian Aliaga (Sagesse)





SAGESSE



Pasé la primera parte de mi vida
tratando de avanzar,
no de comprender.
Uno lee hasta la madrugada
y no entiende
hasta que alguien llega a despertarlo.
Pasé las noches sin esperar el día
y me alegro,
porque es mejor no esperar nada.
Sólo tenemos un destino, es decir
un lugar al que dirigir el viaje
para no llegar nunca.
La sabiduría es algo parecido
a pasar sin hacer ruido,
pero pasar.


Cristian Aliaga

[Life vest under your seat]




Passei metade da vida
tentando avançar,
não compreender.
Uma pessoa lê até de madrugada
e não entende
até que vem alguém despertá-la.
Eu passei as noites sem esperar o dia
e fico contente,
porque é melhor nada esperar.
Nós temos só um destino, isto é,
um lugar a que dirigir os passos
para jamais chegar.
A sabedoria é assim como
passar sem ruído,
mas passar.

(Trad. A.M.)

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19.8.16

Raduan Nassar (O esporro)





O sol já estava querendo fazer coisas em cima da cerração, e isso era fácil de ver, era só olhar pra carne porosa e fria da massa que cobria a granja e notar que um brilho pulverizado estava tentando entrar nela, e eu me lembrei que a dona Mariana, de olhos baixos mas contente com seu jeito de falar, tinha dito minutos antes que 'o calor de ontem foi só um aperitivo', e eu sentado ali no terraço via bem o que estava se passando, e percorria com os olhos as árvores e os arbustos do meu terreno, sem esquecer as coisas menores de meu jardim...


RADUAN NASSAR
Um copo de cólera
(1978)

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Biel Vila (Às vezes, as respostas)







A veces las respuestas
están a ras de suelo,
por eso no dejo
de mirarme los zapatos.


Biel Vila





Às vezes as respostas
estão à flor do chão,
por isso olho
sempre onde piso.

(Trad. A.M.)

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18.8.16

Alberto de Lacerda (Todos atraiçoamos)





Todos
atraiçoamos
a verdade
todos os dias

A verdade não existe

Nós
muito menos




ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
IN-CM (1994)

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