17.4.14

Blanca Varela (Suposições)





SUPUESTOS



el deseo es un lugar que se abandona
la verdad desaparece con la luz
corre-ve-y-dile

es tan aguda la voz del deseo
que es imposible oírla
es tan callada la voz de la verdad
que es imposible oírla

calor de fuego ido
seno de estuco
vientre de piedra
ojos de agua estancada
eso eres

me arrodillo y en tu nombre
cuento los dedos de mi mano derecha
que te escribe

me aferro a ti
me desgarra tu garfio carnicero
de arriba abajo me abre como a una res
y estos dedos recién contados
te atraviesan en el aire y te tocan

y suenas suenas suenas
gran badajo
en el sagrado vacío de mi cráneo.

Blanca Varela

[Life vest under your seat]




o desejo é um lugar que se abandona
a verdade desaparece com a luz
corre-vê-e-diz-lhe

é tão aguda a voz do desejo
que é impossível ouvi-la
é tão calada a voz da verdade
que é impossível ouvi-la

calor de fogo passado
seio de estuque
ventre de pedra
olhos de água entancada
eis o que és

ajoelho-me e em teu nome
conto os dedos da mão direita
que te escreve

agarro-me a ti
o teu gancho rasga-me
abre-me de cima abaixo como uma rês
e estes dedos contados há pouco
trespassam-te no ar e tocam-te

e tu soas soas soas
badalo imenso
no vazio sagrado da minha mente

(Trad. A.M.)

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16.4.14

Daniel Faria (Explicação do poeta)





EXPLICAÇÃO DO POETA



Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio

Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço


Daniel Faria

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15.4.14

Pedro A. González Moreno (Prólogo)





PRÓLOGO



No meio dos meus livros,
nesse frio reino da desordem
que são os livros de minha casa – onde
é que já se viu, ordem no reino da dor? – há
uma estante onde mal
chega a luz. Às vezes ouve-se um ruído
de passos nela, e a madeira range
com um estalido surdo como de osso.
Tal como um organismo monstruoso,
cresce a estante como se pretendesse
escorar o ar e as paredes
ou o sonho da minha casa;
mas dessas prateleiras vivas
uma há, abaulada, que range
com som de carne e ressuma
não sei se tinta fresca, resina ou sangue
ou só gotas de raiva e desconsolo.
Uma prateleira onde não cabe
nem mais uma folha,
que racharia
se lhe pusessem em cima só mais
um grama de dor.
E range,
range sempre, todas as noites,
como pele a ponto de rasgar,
como terra maldita cujos mortos
não aprendessem ainda
a morrer definitivamente.


PEDRO A. GONZÁLEZ MORENO
Anaqueles sin dueño
Hiperión (2010)

(Trad. A.M.)


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14.4.14

Dana Gioia (Insónia)





INSOMNIA



Now you hear what the house has to say.
Pipes clanking, water running in the dark,
the mortgaged walls shifting in discomfort,
and voices mounting in an endless drone
of small complaints like the sounds of a family
that year by year you've learned how to ignore.
But now you must listen to the things you own,
all that you've worked for these past years,
the murmur of property, of things in disrepair,
the moving parts about to come undone,
and twisting in the sheets remember all
the faces you could not bring yourself to love.
How many voices have escaped you until now,
the venting furnace, the floorboards underfoot,
the steady accusations of the clock
numbering the minutes no one will mark.
The terrible clarity this moment brings,
the useless insight, the unbroken dark.

DANA GIOIA
Daily Horoscope
(1986)



Escutas agora o que a casa tem para dizer.
Canos barulhentos, água a correr no escuro,
os muros hipotecados a tornar-se desconfortáveis
e vozes erguendo-se num murmúrio
de pequenas queixas como os sons de família
que tu aprendeste a ignorar ano a ano.
Mas agora tens de ouvir as coisas que te pertencem,
tudo isso por que trabalhaste nos últimos anos,
o murmúrio dos bens, de coisas estragadas,
partes quase a cair e a desfazer-se;
e lembrar, revirando-te na cama, todas
as caras que não te foi dado amar.
Quantas vozes te escaparam até agora,
o forno eléctrico, o soalho por baixo dos pés,
as acusações constantes do relógio,
contando os minutos que ninguém regista.
A claridade terrível deste momento,
a inútil revelação, a escuridão intacta.

(Trad. A.M.)

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13.4.14

Patricio Rascón (O silêncio)





SILENCIO



Inseparable del silencio
Siempre
El sonido de tu voz

Patricio Rascón

[Ocurre mientras dormimos]




Inseparável do silêncio
Sempre
O som da tua voz

(Trad. A.M.)


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12.4.14

Charles Bukowski (Hoje)





TONIGHT



“your poems about the girls will still be around
50 years from now when the girls are gone,”
my editor phones me.
dear editor:
the girls appear to be gone
already.
I know what you mean
but give me one truly alive woman
tonight
walking across the floor toward me
and you can have all the poems
the good ones
the bad ones
or any that I might write
after this one.
I know what you mean.
do you know what I mean?

Charles Bukowski



“os teus poemas de mulheres ainda existirão
daqui a 50 anos quando elas já tiverem desaparecido”,
diz-me ao telefone o meu editor
meu caro editor:
ao que parece as mulheres já desapareceram mesmo.
sei o que queres dizer
mas dá-me para hoje uma mulher realmente vivinha da silva
pisando na sala a dirigir-se para mim
e podes ficar com todos os poemas
os bons
os ruins
ou outros que eu possa escrever
depois deste.
sei o que queres dizer.
sabes tu o que eu quero dizer?

(Trad. A.M.)

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11.4.14

Paz Hernández (Algumas palavras para meu pai)





UNAS PALABRAS A MI PADRE



En el fuego, con las botas puestas
sobre el fuego
el casco bajo el fuego
y el coraje llama para
proteger la vida
por encima de todo.

En pijama, subiendo
unas escaleras de madera que
esta noche crujen
deshaciendo la horca
por encima de todo
haciendo la vida.

En el jardín, con las manos llenas
de tierra y una mujer tan rubia
tan contenta
plantando juntos
la vida
amamantándola.

Siendo incendio,
bajo los escombros, de vida,
que se asoma a la luz.

Velando las noches de fiebre
de las crías.

Curando las alas rotas de los pájaros
aprendiendo a volar
escuchando a Bach.

Manifestándote
en las calles,
sonriendo en la cocina.

Así eres, como la vida
y como el fuego te quiero
hija del fuego.

Paz Hernández




À fogueira, com as botas
sobre o lume
o capacete por baixo
e a coragem chama de
proteger a vida
acima de tudo.

De pijama, subindo
as escadas de madeira que
rangem à noite
desfazendo a forca
acima de tudo
fazendo a vida.

No jardim, as mãos cheias
de terra e uma mulher tão loira
tão contente
plantando juntos
a vida
amamentando-a.

Sendo incêndio,
sob os escombros, de vida,
assomando à luz.

Velando as noites de febre
dos filhos.

Curando as asas quebradas das aves
aprendendo a voar
a ouvir Bach.

Manifestando-te nas ruas,
sorrindo na cozinha.

Assim és, tal como a vida,
e como ao fogo te quero,
filha do fogo.

(Trad. A.M.)

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