1.8.15

José Cardoso Pires (Opus Night-9)





Se Opus Night dispusesse de registo de bordo poderia ter comprovado que nessas quarenta e tal horas à bolina tinha atracado a mesas de poker e a um sem-número de bares errantes; que dormitara, de pé e de sexo na mão, à boca de urinóis; que atravessara nevoeiros de memória, coisa frequente; que se sentara à cerveja na Academia do Tremoço, com camarões a marinharem-lhe pela lapela; que abaterá alguns bebedores fora de escala em conversares malignos.

Que, finalmente, aí pelas zero e trinta do segundo dia, deu de proa com a cabecinha de Sophia Bonifrates que deslizava em iceberg no topo duma capa negra submersa na escuridão, e foi desse pleonasmo, preto sobre a noite, trevas sobe o escuro, que nasceu a fotografia onde eles iriam aparecer juntos.

Chocaram-se à porta do Crocodilo.

Sophia, tilintando as chaves do carro na ponta dos dedos, vinha ao sabor da corrente e ia até lá dentro a ver se encontrava alguém.

A ver se espairecia, explicou ela. (p.266)



JOSÉ CARDOSO PIRES
Alexandra Alpha
(1987)

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Begoña Abad (Nunca soube calcular as distâncias)

 




Nunca he sabido calcular las distancias
y debe ser por eso
que siempre me acerco demasiado
al abismo de vivir.
Me acerco tanto
que la vida, de vez en cuando,
me chamusca las pestañas
y en ocasiones me hiela la palabra.

Begoña Abad




Nunca soube calcular as distâncias
e deve ser por isso
que me chego sempre demais
ao abismo de viver.
Chego-me tanto,
que a vida, de vez em quando,
me chamusca as pestanas
e em certas alturas congela-me a palavra.

(Trad. A.M.)

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31.7.15

Ruy Belo (Um dia não muito longe)





UM DIA NÃO MUITO LONGE NÃO MUITO PERTO



Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?


Ruy Belo

[Antologia do esquecimento]

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30.7.15

José María Parreño (Há momentos)





Hay momentos en que nos quedamos ausentes
a mitad de una caricia,
un paso,
en medio de una línea de lectura sosegada,
con la mente como un charco de agua que se escurre.
Es que alguien nos recuerda con tal fuerza
que nos arranca un poco la conciencia.

Tal vez el sueño y la muerte
sean recuerdos aún más fuertes
de Otro.


José María Parreño



Há momentos em que nos quedamos ausentes
a meio de uma carícia,
um passo,
no meio de uma linha de leitura sossegada,
com a mente como um charco de água corrente.
É alguém que nos recorda com tal força
que nos arranca um pouco a consciência.

O sono e a morte
talvez sejam recordações de Outro
mais fortes ainda.

(Trad. A.M.)

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29.7.15

José Cardoso Pires (Ultramar)





Maria:

Fazes tu senão bem, disse-lhe.

Vais para a tua guerra, vais defender o que é teu, e então?

Tomaram muitas, fica sabendo.

Antes a batalha conjugal do que a caça aos pretos por conta de outrem.

A sério, pazinha.

A batalha conjugal, além de ser cristã, é muito peitoral e anima os engenhos.

Isto porque lá por aquelas bandas o clima parece que também ajuda, como referi.

Ou, por outra, como referem às baronesas do Movimento Nacional Feminino.

As baronesas do Feminino é que têm dado para lá aos movimentos como umas danadas, e com discursos heróicos pela entrecocha, vê só a dificuldade. (p.254)



JOSÉ CARDOSO PIRES
Alexandra Alpha
(1987)

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Batania (Para não se rir de mim)





PARA QUE NO SE RÍA DE MI



En diecisiete años me dio tiempo
a dedicarle muchos poemas,
pero nunca le escribí ninguno
con la palabra “aurora”.
Ya me entendéis.
Para que no se riera de mí. Para
que no me tomara por un poeta.

Decidí ocultarle
mis ojos pequeños de frío, los grados celsius
de mi tindaya, hasta qué siempres
me había clavado a ella.

Me prohibí decirle “te amo” más de tres veces al día.
Me obligué a tratarla con dureza.
Y empecé a escribirle poemas
distintos a los que había escrito.
Poemas que no parecían poemas
para una mujer que no parecía
una mujer.

Ahora que se ha ido
y bebo despacio
del agua dudosa de mi garganta,
he vuelto a escribir poemas
que parecen poemas. Poemas
de auroras y ocasos y melancolías.
Pero no voy a publicarlos.

Ya me entendéis.
Para que no se ría de mí. Para
que no me desprecie.

Para que no me tome por un poeta.


Batania

[Fragments de vida]



Em dezassete anos deu-me tempo
para dedicar-lhe muitos poemas,
mas nunca meti em nenhum
a palavra 'aurora'.
Estais a ver,
para que não se risse de mim. Para
que não me tomasse por poeta.

Decidi ocultar-lhe
os meus olhos pequenos de frio, os graus celsius
da minha ‘tindaya’, até que sempres
me tinha cravado nela.

Proibi-me dizer-lhe 'te amo' mais de três vezes ao dia.
Obriguei-me a tratá-la com dureza.
E comecei a escrever-lhe poemas
diferentes dos que já tinha escrito.
Poemas que não pareciam poemas
para uma mulher que não parecia
uma mulher.

Agora que se foi embora
e eu bebo devagar
da água duvidosa da minha garganta,
voltei a escrever poemas. Poemas
que parecem poemas,
de auroras e ocasos e melancolias.
Mas não vou publicar.

Estais a ver,
para que não se ria de mim. Para
que não me despreze.

Para que não me tome por poeta.

(Trad. A.M.)

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28.7.15

Gonçalo M. Tavares (O amor)





O AMOR



Se chovesse (sempre) trezentos e sessenta e cinco dias por ano,
e as nuvens no céu se repetissem na cor,
na forma, na velocidade, e na lentidão;
e se o sol permanecesse robusto e alto, constante
como o último andar de um edifício (bem construído),
de calor assim assim mas repetindo assim assim
de calor da véspera;
se o mau e o bom tempo fossem uma linha única,
paralela aos dias; se o verão e o inverno
em vez de dois fossem um,
como uma pedra é um, e uma árvore é um,
se, enfim, quem amas permanecesse amado por ti,
hoje exactamente como ontem,
e daqui a trinta anos exactamente como hoje;
então não existiria o tempo,
e os relógios de pulso seriam pulseiras ruidosas,
mecânicas de mais para estarem tão próximas da mão
capaz de tocar com leveza.
E se não há tempo
não podemos trair.


Gonçalo M. Tavares

[Troca de olhares]

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27.7.15

José María Fonollosa (Bedford Street)





BEDFORD STREET



Ella me dio el cuchillo y dijo: «Clávalo
en el segundo espacio intercostal».

«¿Cuál es?», le pregunté. Se abrió la blusa
y señaló, risueña, un punto: «Aquí».

Algo debía de haber en aquel viaje
que lo hizo diferente. Más intenso.

Se veían más cosas. Ascendíamos
a inéditos sonidos y colores.

No había confusión. Hasta el detalle
más ínfimo nos era comprensible.

Sugerí: «¿Por qué no con barbitúricos?»
«Es lento», me objetó. «Ya lo he probado.

Y el lavado de estómago es horrible.
Como un trauma mental, pero en lo físico»

Sustituí su dedo por el mío
y apoyé allí el cuchillo suavemente.

Y lo empujé de súbito. No fuera
que cambiara de idea si iba lento.


José María Fonollosa



Ela deu-me o punhal, dizendo: “Espeta aí,
no segundo espaço intercostal”.

“Onde?”, perguntei. Abriu a blusa
e assinalou, risonha, um ponto: “Aqui”.

Algo devia haver nessa viagem
que a fez diferente. Mais intensa.

Viam-se mais coisas. Ascendíamos
a inéditos sons e cores.

Não havia engano. Até o detalhe
mais ínfimo nos era compreensível.

Sugeri: “Porque não com barbitúricos?”
“É lento”, objectou-me. “Já experimentei.

E é horrível a lavagem do estômago.
Como um trauma mental, mas no físico”.

Substituí o dedo dela pelo meu
e apoiei o punhal aí, suavemente.

E carreguei-lhe, de repente. Não fosse
ela mudar de ideia, entretanto.

(Trad. A.M.)

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26.7.15

José Cardoso Pires (Opus Night-8)





'Vade retro, seu merdas', bradou-lhe a sábia inocente.

E qual avezinha temerosa voou solerte para o banheiro deixando o predador em atónita confusão.

(Estás a ver, a gaja agora já não era freira nem travesti nem coisa nenhuma, explicaria Sebastião Opus Night a um amigo de bar.

Desta vez vinha disfarçada de virgenzinha para me aplicar o castigo da nega, deixando-me de porra no ar e fugindo para o duche) donde regressou, enrolada num lençol de banho, com cara de enojadíssima.

Não o olhou, não disse palavra.

Vestiu-se e perfumou-se nas calmas, como se o Opus não existisse.

Viu as horas, viu a agenda, viu-se a ela com lentidão, e quando se foi embora disse-lhe adeus com as chaves do carro:

'Tenha paciência, mas o mano ao fazer desta tresmalhou. Passe bem.'

E fechou a porta.

Opus Night respondeu-lhe com um peido que abalou o prédio de alto a baixo.

Parece impossível!, berrou, num salto, o vizinho do andar de cima. (p.253)



JOSÉ CARDOSO PIRES
Alexandra Alpha
(1987)

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Ángel Guinda (Passa a vida)

 




PASA LA VIDA



Suelo, al atardecer, salir de casa
a tomar unos vinos, económicos
como un paseo, en tabernas domésticas
donde se habla, con familiaridad,
de fútbol, de política,
del hijo mayor que no encuentra trabajo,
del pequeño que no quiere estudiar,
de unas cortas vacaciones en el pueblo,
de enfermedades, de las rarezas del abuelo,
de un cambio de neumáticos
o del último atentado terrorista.
Estéril, el tiempo sigue, indiferente, su camino,
mientras miro,
apostado en la barra, a través del cristal,
pasar la vida,
en medio de un laberinto
de coches mal aparcados
y luces de neón
– y yo paso también, sin darme cuenta.

Ángel Guinda



Costumo sair ao fim da tarde,
para beber uns copos, económicos
como um passeio, em tabernas caseiras
onde se fala, familiarmente,
de futebol, de política,
do filho mais velho que não encontra trabalho,
do outro que não quer estudar,
de umas férias curtas no campo,
de doenças, das esquisitices do avô,
de uma mudança de pneus
ou do último atentado terrorista.
Estéril, o tempo segue o seu caminho,
indiferente, enquanto eu olho pelo vidro,
encostado ao balcão,
a ver a vida passar,
pelo meio de um labirinto
de carros mal estacionados
e luzes de neón
- e eu passo também, sem dar conta.

(Trad. A.M.)

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