17.10.17

Javier Galarza (Destempos)





DESTIEMPOS



Llego pronto a tu antes,
palpo los nunca de tu respiración agitada.
Cuando callás, algo silencia más allá de vos,
y cuando cerramos los ojos,
todo duerme en algún lugar.
Esto está hecho de gestos desesperados,
de destiempos, no tiene sujeción:
donde vos calculás, yo me deshago,
donde vos te mostrás, yo me desarmo.
Sos la regla que confirma la excepción,
lo espectral. Vivo en un no instante,
entre el ya no de tu partida y el aún no
de quien serás.


Javier Galarza



Chego depressa a teu antes,
palpo os nuncas de tua agitada respiração.
Quando te calas, algo fica em silêncio para além de ti,
e quando cerramos os olhos
tudo dorme nalgum lugar.
Isto faz-se de gestos de desespero,
de destempos, não há controlo:
onde ponderas, eu me desfaço,
onde te mostras, eu me desarmo.
És a regra que confirma a excepção,
a sombra. Eu vivo num não instante,
entre o já não da tua partida e o não ainda
de quem serás.


(Trad. A.M.)

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16.10.17

Eugénio de Andrade (De palavra em palavra)





De palavra em palavra                 
a noite sobe
aos ramos mais altos
e canta
o êxtase do dia.


Eugénio de Andrade


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15.10.17

Antonio Martínez Sarrión (Discreto)





DISCRETO



Feliz quien, sin anhelo,
 aguarda la mañana.
Y, en llegando, se dice
sereno: «Ya viví».
Ése empieza ganando
un día y otro día.
Ni se jacta con ello,
ni publica su suerte,
ni menos aún mendiga
aplausos, pompas, humo
con que hacerse una estatua.

Antonio Martínez Sarrión




Feliz aquele que aguarda,
sem ânsia, a manhã.
E em ela chegando diz, sereno,
para si mesmo: ‘Já vivi’.
Esse começa a ganhar
um dia e outro dia.
Não se vangloria disso,
não faz alarde da sua sorte,
nem muito menos mendiga
aplausos, pompas, fumaças
com que erguer uma estátua.


(Trad. A.M.)

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14.10.17

Berta Piñán (Noites de incêndio)





NOCHES DE INCENDIO



Son noches de insomnes las noches
de incendio.
Más cercana la muerte y
la vida, más violenta en esta espera
nocturna que enciende deseos y descubre
promesas,
certezas que pasan
ardiendo.
Prende el fuego en el aire como un aire de fiesta
o de guerra, de cosas que un instante
suceden y no son nada al instante.
En unas horas dejamos atrás aquello que fuimos
y va quedando en el aire
como un aire de urgencia,
de gestos recién aprendidos
y muy pronto olvidados.
Nadie duerme nunca
en las noches de incendio.
Como un amante impaciente,
la llama que crece en la noche
consume la noche
y nos recuerda lo que fuimos
quedando: sólo humo.
Y ceniza.

Berta Piñán




São noites de insones as noites 
de incêndio.
Mais próxima a morte e
a vida, mais violenta nesta espera
nocturna que acende o desejo e descobre
promessas,
certezas que passam 
ardendo.
Solta-se o fogo no ar como um ar de festa
ou de batalha, de coisa que num instante
acontecem e logo a seguir não são nada.
Em poucas horas deixamos
para trás aquilo que fomos,
ficando no ar 
como que um ar de urgência,
de gestos aprendidos há pouco
e muito depressa esquecidos.
Ninguém dorme nunca
nas noites de incêndio.
Como amante impaciente,
a chama que cresce na noite
devora a mesma noite, 
lembrando-nos aquilo em que nos fomos
convertendo, fumo apenas.
E cinza.

(Trad. A.M.)


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13.10.17

Luís Quintais (Ética)






ÉTICA



Vou falando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitado pelo pensamento.


Luís Quintais




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12.10.17

Aníbal Núñez (Encontros)





ENCUENTROS



Tibio yeso tus ojos tienden sobre
mi corazón en ruinas: rapidísima
reconstrucción de un templo a ti advocado.

Aníbal Núñez





Gesso fino teus olhos estendem
sobre meu coração em ruínas: rapidíssima
reconstrução de um templo
a ti consagrado.


(Trad. A.M.)

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11.10.17

Enrique García-Máiquez (A vocação)





LA VOCACIÓN



Por qué escribir en verso si la prosa
es fácil, la publican, me la pagan
y tiene hasta lectores? La respuesta
es sólo esta pregunta, cada noche.


Enrique García-Máiquez

[Lavorare stanca]




Porquê escrever em verso se a prosa
é fácil, publicam-na, pagam-ma
e até tem leitores? A resposta
é só esta pergunta, cada noite.

(Trad. A.M.)

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