21.10.14

Chantal Maillard (Andava pelas costas da tua mão)





Anduve por el dorso de tu mano, confiada,
como quien anda en las colinas
seguro de que el viento existe,
de que la tierra es firme,
de la repetición eterna de las cosas.
Mas de repente tembló el universo:
llevaste la mano a tus labios
y bostezando abriste la noche
como una gruta cálida.

Llevabas diez mil siglos despertando
y el fuego ardía impaciente en tu boca.

Chantal Maillard



Andava pelas costas da tua mão, confiada,
como quem anda nos montes
seguro de que o vento existe,
de que a terra está firme,
da repetição eterna das coisas.
Mas de repente o universo tremeu:
levaste a mão aos lábios
e bocejando abriste a noite
como uma gruta cálida.

Levavas dez mil séculos despertando
e o fogo ardia impaciente na tua boca.


(Trad. A.M.)

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20.10.14

Raul Brandão (A caminho de Sagres)





Pela portinhola do comboio vou seguindo a paisagem de figueiras e de vinhas que desfila.

De um lado o céu doirado e violeta, do outro todo roxo.

Os nomes das estações têm um sabor a fruto maduro e exótico – Almancil, Nexe, Diogal, Marchil...

De quando em quando fixo um pormenor: uma mulher passa na estrada branca, entre oliveiras pulverulentas e fantasmas esbranquiçados de árvores, sentada no burrico, de guarda-sol aberto, e dando de mamar ao filho.

Terras de barro vermelho.

Grupos de figueiras anainhas estendem os braços pelo chão até ao mar, deixando cair na água os ramos vergados de fruto, que só amadurece com as branduras.

Uma ou outra casinha reluzindo de caiada: ao lado, e sempre, a nora de alcatruzes e um burrinho a movê-la entre as leves amendoeiras em fila, as oliveiras dum verde mais escuro e a alfarrobeira carregada de vagens negras pendentes.

A mesa de Deus está posta.

Estradas orladas de cactos imóveis como bronze, e a deslumbrante Fuzeta, com o seu zimbório entre árvores esguias.

Ao longe, e sempre, acompanha-me o mar, que mistura o seu hálito a esta luz vivíssima.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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César Simón (Despedida)





DESPEDIDA



He venido, ya lo comprendes bien, sólo por una tarde;
he venido a decirte que todo da lo mismo.
Vivir es finalmente un duro encuentro
en un lugar vacío.
Te contemplo. Estás muda, ahí arriba;
arriba, bajo el techo,
junto a la viga.
En esta habitación de los días remotos
te apareces,
en esa mancha en la pared,
alegre o triste, ya no importa mucho,
puesto que nada habremos de decirnos.
¿Te quise? Qué pregunta.
Y es que lo vano del presente,
su ingravidez,
la dispersión de tantos días
todo lo pone en duda: tú, yo mismo.
¿Y te guardo rencor?
Obvio es que no, con tales presupuestos.
La verdad es la suma
de un tiempo ya vencido.
A esa mancha, debajo de la viga,
no le guardo rencor, tampoco.
Ya digo, es más complejo
-y es peor, todavía.
Así pues, te contemplo, simplemente.
Estás ahí, sentada,
en ningún tiempo ya,
duende de mi extravío.
Y, si quisiera hablarte,
peor sería.
La palabra levanta mucho polvo.
En esta transparencia
donde el mundo se aclara,
no es que me encuentre bien,
pero respondo a propia lejanía.
He seguido viviendo.
Ya sabes: duro lecho.
Aquí todo empezó y concluye todo.
Adiós. Al menos, es verdad
que estás ahí, callada,
como todas las cosas,
como si nunca hubieran existido.

César Simón



Eu vim, estás a ver, só por uma tarde,
vim dizer-te que dá tudo no mesmo.
Viver é afinal um duro encontro
num lugar vazio.
Contemplo-te. Estás muda, aí em cima;
em cima, por baixo do telhado,
ao pé da viga.
Apareces neste quarto de dias remotos,
nessa mancha da parede,
alegre ou triste, importa pouco,
já que nada temos para dizer.
Amei-te? Olha que pergunta,
aliás o presente vão,
a sua falta de peso,
a dispersão dos dias,
tudo o põe em dúvida, tu, mesmo eu.
Se te tenho raiva?
Está visto, é claro que não.
A verdade é a suma
de um tempo corrido.
Essa mancha, por baixo da viga,
também não lhe tenho rancor.
Digo mesmo, é mais complicado
- e até pior, por sinal.
Por isso te contemplo, simplesmente.
Aí estás, sentada,
fora do tempo,
duende de perdição.
E pior seria,
se eu te quisesse falar,
pois levanta muito pó a palavra.
Nesta transparência
em que o mundo se aclara
não posso dizer que estou bem,
mas reajo perante a distância.
Continuei a viver.
Leito duro, sabes bem.
Adeus. Ao menos, estás aí,
em verdade, calada,
como todas as coisas,
como se nunca tivessem existido.

(Trad. A.M.)

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19.10.14

Graça Pires (Na periferia da manhã)





Na periferia da manhã, levemente adiada,
improviso uma ilha.
Tão nua como páginas em branco.
E concedo-me o direito de esperar Ulisses.
A minha fronte marcada com palavras sem destino.


Graça Pires

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18.10.14

César Fernández Moreno (As palavras)





LAS PALABRAS



tienen cuerpo las palabras tocan y son tocadas
son caramelos se las puede lamer chupar mamar
hierven como peces en un estanque tropical
tienen tantas formas como las valvas según las rocas a que se adhieran
pero importa mucho más lo que contiene su nacarado seno
la vida deliciosa frágil del ser que las habita
son transparentes para que resplandezca su contenido
son crisálidas clavos ardiendo
granadas que revientan en la mano si no se arrojan a tiempo
sólo viven para morir
son pilotos suicidas
perecen al tocar su objetivo
la poesía es uno de esos objetivos
uno de los nombres del hombre
su respuesta al canto del gallo
toda expresión equívoca que aclara las cosas
la parte en blanco de los formularios
el himno de libertad de un libre o de un esclavo
un balbuceo muy bien impostado
un abuso del lenguaje
cualquier cosa natural para decir después de hacer el amor
un lenguaje siempre tan intenso como una despedida
   (...)

César Fernández Moreno

[Artes poeticas]



têm corpo as palavras tocam e são tocadas
são caramelos podem lamber-se chupar e mamar
fervem como peixes num tanque tropical
têm tantas formas como as lapas segundo a rocha a que se agarram
mas importa bem mais o que está dentro
a vida deliciosa e frágil do ser que as habita
são transparentes para o interior brilhar
são crisálidas ou cravos a arder
granadas que explodem na mão se não se atiram a tempo
vivem só para morrer
são pilotos suicidas
perecem ao atingir o alvo
a poesia é um desses alvos
um dos nomes do homem
a sua resposta ao cantar do galo
expressão equívoca que esclarece as coisas
o espaço em branco dos formulários
o hino de liberdade do homem livre ou do escravo
um balbuceio bem colocado
um vício da linguagem
uma coisa natural para dizer depois do amor
uma linguagem tão intensa como uma despedida
   (...)

(Trad. A.M.)

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17.10.14

Cristóvão de Aguiar (Vento-2)





Sempre que o vento se põe sem tino e sem freio pelas veredas assombradas da noite fico sucinto e alcançado.

Viro-me e reviro-me na cama, o sono a milhas, espantadiço, só eu e a ventania, ambos a respirarmos à sobreposse, na meia escuridão reflectida pelas luzinhas da cidade, num molhinho cintilante, livre das rabanadas dos altos.

Sinto falta da ronquidão do mar do norte da Ilha, ao fundo da descida da tronqueira, quase paredes-meias com o meu quarto de dormir.


CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Nova Relação de Bordo
(2004)

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Celso Emilio Ferreiro (Epitáfio sem sarcófago)





EPITAFIO SIN SARCÓFAGO



Existen monumentos al soldado desconocido
pero nadie se acuerda del labrador que labra la tierra
en el campo donde nació el soldado desconocido,
ni del obrero que construyó la casa
donde vivió el soldado desconocido,
ni de la madre que parió un niñito rubio
que después llegó a soldado desconocido,
ni del poeta que canta, muriéndose de asco,
para que en el mundo no haya soldados desconocidos.


Celso Emilio Ferreiro

[Escomberoides]



Há monumentos ao soldado desconhecido
mas ninguém se lembra do agricultor que lavra a terra
no campo onde nasceu o soldado desconhecido,
nem do operário que fez a casa
onde viveu o soldado desconhecido,
nem da mãe que pariu um rapazinho ruço
que depois veio a ser soldado desconhecido,
nem do poeta que canta, morrendo de asco,
para não haver no mundo soldados desconhecidos.


(Trad. A.M.)

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16.10.14

Herberto Helder (Se houvesse degraus na terra)





(Se houvesse degraus na terra)

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

[IST]

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15.10.14

Carlos Salem (Criminoso)





CRIMINAL



Quisiera aplastar, sin piedad, tus penas
como gotas de una lluvia de otoño en la ventana.
Y algunas tardes, rajaría tu ausencia a navajazos,
para llenarle el vientre de promesas
que acorten tu regreso.

Incluso no descarto atentar
contra todos los huecos
de tu cuerpo, y sin aviso previo.
He preparado una bomba casera de cariño
para dinamitar tus dudas,
si es preciso.
Y acribillo de besos tus recuerdos,
para que siempre tengas
perdigones de mi que llevarte a la boca.

Lo admito: soy un criminal,
y estoy dispuesto, por tenerte,
a cometer casi cualquier delito.

Pero no temas, amor:
puedo matar por ti
puedo morir por ti,
pero nunca podría
asesinar tu misterio.

Carlos Salem

[El huevo izquierdo]



Queria esmagar, sem piedade, tuas penas
como gotas de chuva outonal no vidro da janela.
E certas tardes, rasgaria tua ausência à navalha,
para lhe encher o ventre de promessas
que encurtem o teu regresso.

Não descarto mesmo atentar
contra os buracos do teu corpo,
e sem aviso prévio.
Fiz uma bomba caseira de carinho
para dinamitar tuas dúvidas,
se for preciso.
E crivo de beijos tua lembrança
para não te faltarem
perdigotos meus para levares à boca.

Confesso, sou um criminoso,
disposto, para ter-te,
a cometer qualquer crime.

Mas não temas, amor,
posso matar por ti,
posso morrer por ti,
mas não poderia nunca
assassinar teu mistério.

(Trad. A.M.)
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