5.2.16

Paulo Castilho (Mulheres)





Quando penso no comportamento da Marta ocorre-me sempre a frase americana ‘what you see is what you get’.

Mesmo correndo o risco de me colocarem uma etiqueta de simples de espírito, confesso que prefiro pessoas assim.

Há já alguns anos, expondo esta opinião a um amigo, provoquei uma forte gargalhada: em que mundo é que tu vives? não é no mesmo que eu, de certeza absoluta, nenhuma mulher te diz o que verdadeiramente pensa ou o que verdadeiramente quer.

Umas vezes não dizem porque esperam que tu adivinhes, é uma prova de amor, prova de que te interessas.

Outras vezes é mais simples, não dizem porque não querem que saibas. (p. 280)


PAULO CASTILHO
O Sonho Português
(2015)

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Uberto Stabile (Maldita seja a poesia)





MALDITA SEA LA POESIA



Yo he visto
los mejores poetas de mi generación
desterrados, desheredados,
ocultos en el fondo de los bares,
y he visto sus miradas
como versos trepidantes
cabalgar hacia el final de la noche,
y he visto su ternura descuartizada
por la abundancia de quienes les temen
y en su miedo los hacen grandes.
He visto en la bondad de sus gestos
la rebeldía de un mundo
que no necesita orden ni ley para ser justo,
la testaruda razón de quienes a la vida responden con la vida misma.
Yo he visto
una canción que no tenía letra ni remite,
y ellos la entendieron.
Les he visto levantarse
contra los versos exquisitos y subalternos,
les he visto encadenarse a las escavadoras
para frenar la destrucción de su tierra,
de su conciencia,
y nadie los invitó a los palacios de Doñana
y mucho menos a editar poemas
bajo el sello hipócrita
de quienes lavándose la cara
ensucian el mundo.
He visto como se engañaban para seguir perdiendo en un círculo de ganadores,
como alacranes en mitad de un fuego
que desintegra y reduce
la inteligencia y el miedo.
Y por todo ello han sido procesados,
sentenciados, condenados,
abocados a la indigencia laboral
y clandestinidad de la palabra.
Yo he visto
los mejores poetas de mi generación
romper los versos a conciencia,
"porque bien ya otros lo hacen
y no ha ocurrido nada" (Eladio Orta).
En su profunda voluntad de cambio,
en sus humanas contradicciones,
en su maldita y genial resistencia
frente al pensamiento único,
he visto a los poetas de mi generación perder sus mejores oportunidades,
y no ha pasado nada,
pues nada hay más digno
que ser consecuente y efímero
en todo momento y verso.
Sólo la vocación devuelve
el género a su origen,
esa maldita poesía que nos hace libres
frente a la tradición.

Uberto Stabile




Eu vi
os melhores poetas da minha geração
desterrados, deserdados,
escondidos no fundo dos bares,
e vi seus olhares
como versos trepidantes
cavalgar para o fim da noite,
e vi sua ternura destroçada
pela abundância dos que os temem
e em seu temor os fazem grandes.
Vi-lhes na bondade do gesto
a rebeldia de um mundo
que não precisa lei nem ordem para ser justo,
a teimosa razão de quem à vida responde com a vida mesma.
Vi uma canção sem letra nem remetente
e eles entenderam-na.
Vi-os erguer-se
contra os versos refinados e submissos,
vi-os amarrar-se às escavadoras
para travar a destruição da sua terra e da consciência,
e ninguém os convidou para os palácios de Doñana,
muito menos para editar poemas com o selo hipócrita
dos que ao lavar a cara emporcalham o mundo.
Vi como se enganavam para perder
numa roda de ganhadores,
como lacraus numa fogueira que desintegra e reduz
a inteligência e o medo.
E por tudo isso processados foram,
sentenciados e condenados,
amarrados à indigência no trabalho,
à palavra clandestina.
Vi os melhores poetas da minha geração
quebrar os versos à consciência
“porque outros também o fazem
e não aconteceu nada” (Eladio Orta).
Com sua sede de mudança,
suas humanas contradições,
sua resistência ao pensamento único,
vi os poetas da minha geração
perder as oportunidades,
e não aconteceu nada,
porque não há nada mais digno
do que ser consequente e efémero
em qualquer tempo e verso.
Só a vocação devolve o género à sua origem,
essa maldita poesia que nos faz livres
perante a tradição.

(Trad. A.M.)

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4.2.16

Gonçalo M. Tavares (Sobre o mundo)





SOBRE O MUNDO



O telescópio não alcança sequer a tua alma;
Imprecisão exacta de um instrumento instintivo.
Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas
espontâneas.
Dois terços do amor estão na mulher, qualquer
que seja o casal. As evidências abrem falência
em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam
ciências viris. Indispensáveis, de facto:
ciências meigas já existem em número
excessivo. Monumentos que ocupam
quilómetros quadrados são explicados por uma equação de
dois centímetros. Repara: a engenharia é a invenção que engordou
as equações matemáticas. Atirou-as para o Mundo.
Vê as águas, a sabedoria discreta: ninguém
constrói uma torre de observação no centro
do mar. As águas não se bebem
por inteiro, e nem toda a água é doméstica. O mar não tem
diminutivos. Uma onda não o é.
Nem o peixe.
Ciências que estudem seriamente o riso
não existem; os cientistas
colocam fórmulas em tabelas: têm gráficos complexos
que explicam a simplicidade
do Mundo. Felizmente, fomos salvos
pelo coração.
Certos órgãos ficaram reféns dos profetas
antigos, e as noites passam-se melhor assim.
Indecisões desconcertantes permitem reinventar a
monotonia: Trago-te uma monotonia surpreendente, alguém diz.
Animais mitológicos bebem água no nada,
e mesmo assim crescem; têm células resistentes.
Outros animais mais longos e espessos, mamíferos
de grande porte por exemplo, evaporam a 36°, reaparecendo
não carnívora. O mundo muda,
Não pense que não. Nem os mamíferos são eternos.
No aeródromo, por exemplo, o poema atravanca o caminho
de descolagem
do avião de um
País pouco habituado a máquinas que subam mais
alto que um banco de cozinha. O mundo
não é injusto, mas também não é teu mordomo;
Avança e é só.


Gonçalo M. Tavares

[Troca de olhares]

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3.2.16

Teresa Calderón (Estado de sítio)





ESTADO DE SITIO



Considerando la gravedad de los últimos acontecimientos,
y el desorden interno que se vive en mi país por estos días.
Considerando también los actos subversivos de mis sentimientos
y la sucesiva insurrección de la voluntad, solicito refuerzos
al Estado Mayor de mi conciencia.

Emite un bando que establece, de inmediato,
la situación de emergencia,
y a resguardar la ciudadanía me envía sus centurias
con estrictas órdenes de dar la vida si fuera necesario.

Mi corazón anárquico acepta un gobierno provisorio,
mientras yo continúo en gestiones clandestinas con tus ojos,
con tu boca invasora de todos mis límites,
en esta guerra que me declaras,
en este amor abierto entre nosotros.


Teresa Calderón

[Emma Gunst]




Considerando a gravidade dos últimos acontecimentos
e a desordem intestina que reina no meu país.
Considerando também os actos subversivos dos meus sentimentos
e a insurreição da vontade, solicito reforços
ao Estado Maior da minha consciência.
Baixa um decreto instaurando, de imediato,
o estado de emergência
e para proteger os cidadãos manda-me forças
com ordens estritas de dar a vida se for necessário.
Meu coração anárquico aceita um governo provisório,
enquanto eu continuo em manobras clandestinas
com teus olhos, tua boca invasora de minhas fronteiras,
nesta guerra que me declaras,
neste estado de amor aberto entre nós.

(Trad. A.M)

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2.2.16

Paulo Castilho (Amigos)





Nunca imaginei – disse a Beatriz – estou mesmo apaixonada por ele.

Eu disse: até ao próximo.

És o meu melhor amigo – disse a Beatriz – fazemos um pacto? ficamos para sempre melhores amigos?

Para sempre – repetiu a Beatriz – quase como se fossemos casados, é esse o pacto.

Respondi: todos os pactos.

Dei-lhe um beijo e parti.

Desci pelas escadas e meti-me no carro.

Não liguei o motor.

Decidir primeiro o que me apetece.

Melhores amigos.

Quase como se fossemos casados – diz ela.

Faltava essa.

Depois do casamento entre pessoas do mesmo sexo, há-de vir o casamento sem sexo.

Como é que ninguém ainda se lembrou disso? (p. 245)


PAULO CASTILHO
O Sonho Português
(2015)

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Susana March (Tu)









Tú eres mi sed. Los pájaros, los astros...
¿Qué importa que haya un cielo?
¿Qué importa que te mueras y me muera?
¿Qué importa un Dios eterno?
Amo tu imperfección de barro oscuro,
amo tus ojos serios,
amo tus dulces manos pecadoras,
tu perdurable cuerpo...
¿Qué importa que te mueras y me muera?
Tú eres mi sed, el agua que deseo.
De bruces sobre el cauce impetuoso,
humildemente bebo.


Susana March

[Vol de milana]




Tu és a sede para mim, os pássaros, os astros...
Que importa haver um céu?
Que importa tu morreres ou eu morrer?
Que importa um Deus eterno?
Amo a tua imperfeição de obscuro barro,
amo teus olhos sérios,
amo tuas mãos doces e pecadoras,
teu corpo perdurável...
Que importa tu morreres ou eu morrer?
Tu és a sede para mim, a água que desejo.
De bruços na corrente impetuosa,
humildemente bebo.

(Trad. A.M.)

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1.2.16

Gil T. Sousa (Onde mora o coração)





ONDE MORA O CORAÇÃO



ainda que um último navio
viesse pousar-me nas mãos
toda a solidão
das ilhas

e na brevíssima noite
dos mortos
rompesse límpida
a última nuvem
da saudade

ainda assim

só contigo subiria
toda a neve dos dias
até se esgotar
o vermelho

essa casa
onde mora o coração


Gil T. Sousa

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31.1.16

Susana Cattaneo (Quando já não estiver)





CUANDO YA NO ESTÉ...



¿Quién pondrá el pie
sobre la marca que dejó el mío?
¿Quién mirará esos árboles
donde mis ojos dejaron huellas?
Alguien oirá cantar un pájaro
que será otro.
Alguien respirará los mismos pinos
de un verde más cansado.
La vida será un papel en blanco
y no lo podré sellar con mi palabra.


Susana Cattaneo

[Emma Gunst]




Quem porá o pé
na marca que o meu deixou?
Quem olhará essas árvores
onde meus olhos deixaram rasto?
Alguém ouvirá cantar um pássaro
que será outro.
Alguém respirará os mesmos pinheiros
de um mais cansado verde.
A vida será um papel em branco,
não poderei selá-lo com
a minha palavra.

(Trad. A.M.)

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30.1.16

Ver (155)






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Rita Ramones (Parábola)





PARÁBOLA



Madre Teresa muere y sube al Cielo.
Pero Dios no la deja entrar. Le dice:
“Has hecho todo por ganarte el Cielo, y así tampoco es que se gana”.
Madre Teresa responde: “Como tú ordenes, mi Señor”, y se marcha.
Y Dios, viéndola bajar al Infierno, piensa:
“Eso es lo que me molesta de ella”.


Rita Ramones

[Emma Gunst]




Madre Teresa morre e sobe ao Céu.
Mas Deus não a deixa entrar. Diz-lhe:
“Fizeste tudo para ganhar o Céu, mas também não é assim que se ganha”.
Madre Teresa responde: “Como tu queiras, Senhor”, e parte.
Aí Deus desabafa, a vê-la a descer para o Inferno:
“É isto, chiça, que me chateia nela!”

(Trad. A.M.)


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