7.7.20

António Barahona (Poética da transcriação)





POÉTICA DA TRANSCRIAÇÃO



Transcriar: decalcar até ao osso
o corpo do poema bem-amado,
até ao mais profundo do seu espírito
oculto em cada eco que soletro
Transportar o poema com seu pêso,
suas plumas de jaspe bem esculpido,
dormir com ele ao lado em qualquer sítio
até tornar o sono em som desperto
Reescrever mil vezes o mesmo verso
De rima pobre, rico d’universo
em nobre melopeia ritual
Recuperar mil vezes o espontâneo
verso, dado por Deus e rasurado
até fazer buracos no papel


António Barahona

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5.7.20

Cristina Peri Rossi (Humildade II)





HUMILDAD II



Un niño de seis años
observa atentamente
los cinco mil libros
de mi biblioteca
y me pregunta,
muy interesado,
si yo los he escrito todos.
Le contesto sinceramente que no,
sólo una ínfima parte.
Entonces, pierde todo interés
y se va a jugar con el ordenador.
Tiene razón:
¿cómo podría sentirme orgullosa
de tan poca cosa?


Cristina Peri Rossi

[Neorrabioso]





Um menino de seis anos
observa atentamente
os cinco mil livros
da minha biblioteca
e pergunta-me,
muito interessado,
se os escrevi todos.
Respondo sinceramente que não,
só uma ínfima parte.
Então, perde o interesse todo
e vai brincar com o computador.
Tem muita razão:
como podia eu sentir-me orgulhosa
de tão pouca coisa?


(Trad. A.M.)

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4.7.20

Claudio Bertoni (Para uma jovem amiga)





PARA UNA JOVEN AMIGA QUE INTENTÓ QUITARSE LA VIDA



Me gustaría ser un nido si fueras un pájaro
me gustaría ser una bufanda si fueras un cuello y tuvieras frío
si fueras música yo sería un oído
si fueras agua yo sería un vaso
si fueras luz yo sería un ojo
si fueras pie yo sería un calcetín
si fueras el mar yo sería una playa
y si fueras todavía el mar yo sería un pez
y nadaría por ti
y si fueras el mar yo sería sal
y si yo fuera sal
tú serías una lechuga
una palta o al menos un huevo frito
y si tú fueras un huevo frito
yo sería un pedazo de pan
y si yo fuera un pedazo de pan
tú serías mantequilla o mermelada
y si tú fueras mermelada
yo sería el durazno de la mermelada
y si yo fuera un durazno
tú serías un árbol
y si tú fueras un árbol
yo sería tu savia y correría
por los brazos como sangre
y si yo fuera sangre
viviría en tu corazón.


Claudio Bertoni

[Marcelo Leites]




Eu gostava de ser um ninho se tu fosses um pássaro
gostava de ser um cachecol se tu fosses um pescoço e tivesses frio
se fosses música eu seria um ouvido
se fosses água eu seria um copo
se fosses luz eu seria um olho
se fosses pé eu seria uma peúga
se fosses o mar eu seria uma praia
e se fosses o mar outra vez eu seria um peixe
e nadaria por ti fora
e se fosses o mar eu seria sal
e se eu fosse sal
tu serias uma alface um abacate
ou ao menos um ovo estrelado
e se fosses um ovo estrelado
eu seria um bocado de pão
e se eu fosse um bocado de pão
tu serias manteiga ou marmelada
e se tu fosses marmelada
eu seria o marmelo da marmelada
e se eu fosse um marmelo
tu serias uma árvore
e se tu fosses árvore
eu seria a tua seiva e correria
por teus braços como sangue
e se eu fosse sangue
moraria em teu coração.

(Trad. A.M.)

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2.7.20

Maria Esther Maciel (Ofício)





OFÍCIO



Escrever
a água
da palavra mar
o vôo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.


Maria Esther Maciel

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30.6.20

Chantal Maillard (Desnudo e frágil)





Te supe frágil y desnudo,
tan frágil eras, tan desnudo
que se quebró tu sombra al respirar.
Abrí la puerta y las voces del agua
adoptaron la forma de tu cuerpo.
Tan leve parecías, tan al borde
de ti
que la noche aprendió
el modo de dormirse sobre el rio.


Chantal Maillard





Desnudo e frágil te soube,
tão frágil, tão desnudo,
que se te quebrou a sombra ao respirar.
Abri a porta e as vozes da água
tomaram a forma de teu corpo.
Tão leve parecias, tão
à beira de ti,
que a noite aprendeu
a dormir sobre o rio.


(Trad. A.M.)

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29.6.20

César Vallejo (Altura e cabelos)





ALTURA Y PELOS



¿Quién no tiene su vestido azul?
¿Quién no almuerza y no toma el tranvía,
con su cigarrillo contratado y su dolor de bolsillo?
¡Yo que tan sólo he nacido!
¡Yo que tan sólo he nacido!

¿Quién no escribe una carta?
¿Quién no habla de un asunto muy importante,
muriendo de costumbre y llorando de oído?
¡Yo que solamente he nacido!
¡Yo que solamente he nacido!

¿Quién no se llama Carlos o cualquier otra cosa?
¿Quién al gato no dice gato gato?
¡Ay, yo que sólo he nacido solamente!
¡Ay!, ¡yo que sólo he nacido solamente!


César Vallejo




Quem é que não tem seu vestido azul?
Quem não almoça e não toma o eléctrico,
com seu cigarro contratado e sua dor de algibeira?
Eu que tão só nasci!
Eu que tão só nasci!


Quem é que não escreve uma carta?
Quem não fala de um assunto muito importante,
morrendo de costume e chorando de ouvido?
Eu que somente nasci!
Eu que somente nasci!


Quem é que não se chama Carlos ou outra coisa qualquer?
Quem ao gato não diz gato gato?
Ai, eu que só nasci somente!
Ai, eu que só nasci somente!


(Trad. A.M.)


> Outra versão: Canal de poesia (José Bento)

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27.6.20

Antonia Pozzi (Pensamento)





PENSIERO



Avere due lunghe ali
d’ombra
e piegarle su questo tuo male;
essere ombra, pace
serale
intorno al tuo spento
sorriso.

Antonia Pozzi




Ter duas grandes asas
de sombra
e com elas cobrir tua dor;
ser sombra, paz
nocturna,
en torno do teu sumido
sorriso.

(Trad. A.M.)

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