18.12.14

Ana Rossetti (Imagina)





IMAGINA



Imagina la oscuridad.
El horror dispara sus minutos a la velocidad de la metralla.
Las sirenas crecen como aullidos de chacales,
los gemidos retumban entre los escombros, clavan sus esquirlas.
Imagina tus lágrimas como bayonetas,
desahuciadas de todo consuelo, de toda piedad.
Refugios rebosando de miedo, temblando de miedo
mientras los cadáveres elevan sus montañas,
mientras los bombarderos gotean constelaciones en las aceras.
Imagina el aire entrándote, invadiéndote de muerte.
Se pulverizan árboles y bibliotecas;
se desgarran cuerpos y muros,
se mutilan recuerdos y palabras;
se siembran minas, terrores y esqueletos de pájaros.
Imagina la orfandad de las cosas. El llanto de las cosas.
Imagina cómo los héroes se envuelven en capas escarlatas.
Cómo los verdugos despliegan alfombras escarlatas.
Cómo las víctimas se ahogan en manantiales escarlatas.
Y cómo el espanto, la venganza y el odio
ganan batallas en tu corazón sobrecogido.
Estás en medio del recinto inexpugnable del pánico.
Y eres tú quien orquesta los crímenes.
Porque has sido tú.
Tú, que eres capaz de imaginar,
de sentir todo lo que imaginas,
de fabricar todo lo que sientes,
de construir realidades con los sueños
quién ha dado vida al horror.
Por eso, atrévete a cambiar la estructura
del mundo
y donde dices temor di esperanza
porque las lágrimas también son de alegría.
Porque la sangre también es nacimiento.
Porque la belleza también es sobrecogedora
y el amor un potente estallido.
Por eso, atrévete.
Apacigua tu mente,
ilumina tus ojos,
imagina justicia.
Imagina consuelo.
Imagina bondad.

Ana Rossetti



Imagina o escuro.
O horror dispara os minutos à velocidade da metralha.
As sirenes crescem como uivos de chacais,
os gemidos ressoam pelos escombros, espetando suas lascas.
Imagina as lágrimas como baionetas,
despejadas de consolo, de piedade.
Refúgios a transbordar de medo, tremendo com medo
enquanto os cadáveres fazem montanha
e os bombardeiros despejam constelações nos passeios.
Imagina o vento a entrar por ti adentro,
a invadir-te de morte.
Fazem-se em pó árvores e bibliotecas,
rasgam-se corpos e muros,
recordações e palavras;
semeiam-se minas, terrores e esqueletos de pássaros.
Imagina a orfandade das coisas. O pranto das coisas.
Imagina como os heróis se metem em capas escarlates.
Como os verdugos estendem carpetes escarlates.
Como as vítimas se afogam em ribeiros escarlates.
E como espanto, vingança e ódio
ganham batalhas em teu coração.
Tu estás no meio do recinto inexpugnável do pânico,
e és tu quem orquestra os crimes.
Porque foste tu,
tu, que és capaz de imaginar,
de sentir tudo o que imaginas,
de fabricar tudo o que sentes,
de fazer realidade do sonho,
tu é que deste vida ao horror.
Por isso atreve-te a trocar a estrutura do mundo
e onde dizes temor diz antes esperança
porque as lágrimas são também de alegria.
Porque o sangue é também nascimento,
porque a beleza é também conforto
e o amor uma potente explosão.
Por isso, atreve-te.
Sossega o espírito,
põe luz nos teus olhos,
imagina justiça.
Imagina consolo.
Imagina bondade.


(Trad. A.M.)

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17.12.14

José Carlos Barros (O crítico literário)





O CRÍTICO LITERÁRIO VAI DE FÉRIAS À PROVÍNCIA



Da varanda do quarto
viam-se
em vez das aliterações
o vale

e os pinheiros bravos
a subir
o monte. Acordava-se assim
a ver as coisas

concretas. Como se
afinal
além da literatura houvesse

mundo: casas;
pessoas; pássaros que
voavam mesmo.


José Carlos Barros

[O melhor amigo]

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16.12.14

Rogelio Buendía (Interlúdio)





INTERMEDIO



Por el cristal, la vida. Bajo mis pies, la tierra.
No hay nadie en la planicie erizada de lenguas
que forman las ardientes llamas de fuego.
Los árboles tundidos por los vendavales,
por los solazos y por las orugas serradoras.
La casa abierta a los planos verdes
y a los volúmenes de las casas y de las yerbas,
es un prisma irisado.
En cada muro blanco, toda clase de aves
y todas las flores del campo y del jardín,
que se entran por la puerta abierta,
por los limpios cristales que avanzan
como lentes para estudiar belleza.
Detrás de los cristales, abiertos ojos de cristal,
abiertas lentes,
penetradas por la primavera,
y cerradas, a medio abrir la persiana,
en estío, gritan los colores:
el azul del cielo que parece que se va a romper
como un búcaro gigante y frágil,
búcaro de cristal y de cansancio.
Flores a miles. Y en verde acuático, la estancia.
Y yo, siempre yo en soledad, solo.
El pie sale, el corazón se queda,
como el caracol de goma,
no se separa de su estancia.
¡Buenos días, mañana!

Rogelio Buendía




Para lá dos vidros, a vida. Debaixo dos pés, a terra.
Não há ninguém no plaino eriçado de línguas
semeadas pelas chamas ardentes do fogo.
As árvores castigadas pelo temporal,
pela solina e pelas lagartas.
A casa aberta aos planos verdes
e aos volumes de casas e ervas
é um prisma irisado.
Em cada muro branco, toda a espécie de aves
e de flores campestres e outras,
entrando pelo traço da porta
e pelos vidros das janelas que se chegam à frente
como lentes para estudar a beleza.
Por detrás dos vidros, abertos olhos de vidro,
abertas lentes,
penetradas pela Primavera,
e cerradas no Verão, de persianas corridas,
gritam as cores, o azul do céu
que parece que vai partir-se
como um vaso enorme e frágil,
vaso de vidro e de fadiga.
Flores aos milhares. E a sala, em verde água.
E eu, sempre eu na solidão, sozinho.
O pé sai, mas o coração fica,
como um caracol,
não se aparta da casa.
Bom dia, manhã!


(Trad. A.M.)



>>  Poeticas.es (7p) / Poetas andaluces (7p) / Wikipedia

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15.12.14

Manuel de Freitas (III-Grande Hotel de Paris)





III (GRANDE HOTEL DE PARIS)



A morte, claro. Existem porém
dias grandes, irredutíveis a versos,
em que a indecisão da luz
nos açoita de felicidade.

São dias raros, futuras
imagens do nada, o suficiente
para que a palavra amor substitua
o primeiro cigarro da manhã.

Chegámos tarde. O quarto 203
trazia-me de novo o teu corpo.
E até a música dos sinos
vinha deitar-se connosco.


Manuel de Freitas

[As folhas ardem]

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14.12.14

Francisco Madariaga (Carlos Latorre)





CARLOS LATORRE (*)



Él sabía que es absolutamente cierto esto que dijo Baudelaire:
“La poesía es la negación de la Iniquidad”.
Sostuvo, con una insumisión extremadamente lúcida, una lucha
permanente contra todo aquello que le parecía deformado y
envilecido por la iniquidad.
Con su visión desesperada y purísima del mundo, fue valiente
en su tentativa de libertad, de sueño, de contrafuerte y de absoluto.
Su rebeldía fue dueña de esa parte misteriosa de vitalidad que
sólo hay en los inocentes.
Ten nostalgia de nosotros, dulce y bravo Latorre.

Francisco Madariaga



Ele sabia que é uma grande verdade o que dizia Baudelaire,
“A poesia é a negação da Iniquidade”.
Sempre lúcido e insubmisso, manteve uma luta
permanente com tudo o que lhe parecia
torcido pela iniquidade.
Na sua visão do mundo desesperada e puríssima,
foi destemido em seu intento de liberdade, de sonho, de absoluto.
A sua rebeldia tinha aquela parte misteriosa de liberdade
que há só nos inocentes.
Doce e bravo Latorre, tem saudades nossas.

(Trad. A.M.)


(*) Carlos Latorre

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13.12.14

Manuel Bandeira (Elegia de Verão)





ELEGIA DE VERÃO



O sol é grande. Ó coisas
Todas vãs, todas mudaves!
Como esse "mudaves",
Que hoje é "mudáveis",
E já não rima com "aves".

O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.

Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas d'água vermelhas de ferrugem;
Saibro cintilante...

O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...

Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.


Manuel Bandeira

[Poemas de Bandeira]


Francisco Sá de Miranda (O sol é grande)

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12.12.14

Gabriel Celaya (O último recurso)





EL ÚLTIMO RECURSO



En los malos momentos, no os pongáis a llorar,
porque os harán callar
con la limosnita de un poco de pan.

En los malos momentos, decid que no entendéis.
Y tras escuchar,
decid, porque es verdad, que seguís sin entender.

Cuando os digan: "Caridad", vosotros decid: "Justicia",
porque pedís lo vuestro,
no descanso de conciencia para los que dormitan.

Cuando os digan que el problema va a estudiarse,
salid gritando a la calle
las razones que los justos llamarán irracionales.

Gabriel Celaya



Nos maus momentos, não vos ponhais a chorar,
porque vos farão calar
com a esmolita de um pouco de pão.

Nos maus momentos, dizei que não entendeis.
E depois de escutar,
dizei, por ser verdade, que continuais sem entender.

Quando vos disserem: “Caridade”, vós dizei: “Justiça”,
porque pedis o que é vosso,
não sossego de consciência para aqueles que dormem.

Quando vos disserem que o problema será estudado,
saí à rua a gritar
as razões que os justos chamarão irracionais.


(Trad. A.M.)

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