25.1.15

Laura Ponce (E não será por acaso)





Y NO SERÁ ACASO



¿Y no será acaso mi corazón
un animal de intermitencias
-ese animal que corre detrás del pulso de las cosas?
Hay algo del orden de la pena que
agazapado siempre salta.
¡Ah saber y ser feliz
sabiendo!

Laura Ponce




E não será por acaso meu coração
um animal de intermitências
- esse animal que corre atrás do pulsar das coisas?
Há algo como da ordem da pena que
acaçapado salta sempre.
Ah, saber e ser feliz
sabendo!

(Trad. A.M.)

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24.1.15

José Cardoso Pires (Nós cá somos assim)





Nós cá somos assim, a um lugar de sentenças chamamos de 'boa hora' e um campo de cemitério dizemos que é dos 'prazeres'.



JOSÉ CARDOSO PIRES
Balada da Praia dos Cães
(1982)

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Javier Galarza (Drenaje)





DRENAJE



drena el exceso
de todo eso
que no
supiste ser
cuando
el mundo
aún insistía

Javier Galarza


[De sibilas y pitias]

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23.1.15

Mark Strand (Regras para o Inverno)





LINES FOR WINTER



Tell yourself
as it gets cold and gray falls from the air
that you will go on
walking, hearing
the same tune no matter where
you find yourself
- inside the dome of dark
or under the cracking white
of the moon’s gaze in a valley of snow.
Tonight as it gets cold
tell yourself
what you know which is nothing
but the tune your bones play
as you keep going. And you will be able
for once to lie down under the small fire
of winter stars.
And if it happens that you cannot
go on or turn back
and you find yourself
where you will be at the end,
tell yourself
in that final flowing of cold through your limbs
that you love what you are.

Mark Strand



Diz a ti mesmo
ao chegar o frio e a cinza tombar das nuvens
que vais continuar a caminhar,
ouvindo a mesma melodia
estejas onde estiveres
- no meio do escuro
ou sob o branco gelado
do luar num vale de neve.
À noite ao arrefecer
diz a ti mesmo
aquilo que sabes que não é senão
a música dos teus ossos
enquanto caminhas. E hás-de
estirar-te por uma vez ao fogo
das estrelas de inverno.
E se acaso não puderes
seguir em frente nem voltar atrás
e te achares lá
onde hás-de estar no final,
diz para ti mesmo
nesse derradeiro sopro de frio
que estás muito bem como estás.

(Trad. A.M.)

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22.1.15

Francisco Madariaga (Aldo Pellegrini)





ALDO PELLEGRINI



Aldo Pellegrini fue un hombre de la materia
divina de lo terrestre y tenía el furor, el
dolor y el color de la infinitud.

Dotado de rebeldía poética, vital, a veces
era áspero, y con la cólera de un arcángel.

Muy tierno con los inocentes, atacó las madrigueras
de las impostaciones literarias, del desprecio, de
la imbecilidad de los poderes, y de la peste de la
técnica mal aplicada.

Su destrucción fue construcción.
Su arcángel, de llamas rojas y blancas, defendió a
poesía como pocos.

Aldo, te ruego que hasta reconocer el primer paraje
del infinito, entornando los ojos, seas áspero con los
primeros vientos solares que salgan a tu encuentro.

Francisco Madariaga



Aldo Pellegrini era um homem da matéria
divina do terrestre e tinha o furor,
a dor e a cor do infinito.

Dotado de rebeldia poética, vital, era áspero
às vezes, e com a cólera de um arcanjo.

Muito doce com os inocentes, atacou as madrigueiras
das imposturas literárias, do desprezo, da
imbecilidade dos poderes e da peste da
técnica mal aplicada.

A sua destruição era construção.
O seu arcanjo, de chamas brancas e encarnadas,
defendeu a poesia como poucos.

Aldo, rogo-te que até à primeira paragem
do infinito, cerrando os olhos, sejas áspero
com os primeiros ventos solares que saírem ao teu encontro.

(Trad. A.M.)



Wikipedia (Aldo Pellegrini)

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21.1.15

Ver (153)






Artur Pastor (1922-99)


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Rafael Cadenas (As pazes)





LAS PACES



Lleguemos a un acuerdo, poema.
Ya no te forzaré a decir lo que no quieres
ni tú te resistirás tanto a lo que deseo.
Hemos forcejeado mucho.
¿Para qué este empeño en hacerte a mi imagen
cuando sabes cosas que no sospecho?
Líbrate ya de mí.
Huye sin mirar atrás.
Sálvate antes de que sea tarde.
Pues siempre me rebasas,
sabes decir lo que te impulsa
y yo no,
porque eres más que tú mismo
y yo sólo soy el que trata de reconocerse en ti.
Tengo la extensión de mi deseo
y tú no tienes ninguno,
sólo avanzas hacia donde te diriges
sin mirar la mano que mueves
y te cree suyo cuando te siente brotar de ella
como una sustancia
que se erige.
Imponle tu curso al que escribe, él
sólo sabe ocultarse,
cubrir la novedad,
empobrecerse.
Lo que muestra es una reiteración
cansada.
Poema,
apártate de mí.

RAFAEL CADENAS
Poemas selectos
(2004)



Vamos combinar uma coisa, poema.
Eu não te obrigo a dizer o que tu não queres
e tu não te oporás tanto aos meus desejos.
Temos feito muita força.
Para quê o meu empenho em te fazer à minha imagem,
quando sabes coisas que eu nem suspeito?
Livra-te já de mim,
foge sem olhar para trás,
salva-te antes que seja tarde.
Porque sempre me ultrapassas,
sabes dizer o que te move
e eu não,
porque tu és mais do que tu mesmo
e eu sou só o que tenta reconhecer-se em ti.
Eu tenho o tamanho do meu desejo
e tu não tens nenhum,
avanças no teu caminho
sem olhar a mão que moves,
que te crê seu ao ver-te brotar dela
como substância em ascensão.
Impõe-te ao poeta,
que sabe só ocultar-se,
cobrir a novidade,
empobrecer-se.
Aquilo que mostra é uma reiteração
fatigada.
Poema,
afasta-te de mim.

(Trad. A.M.)



>>  Rafael Cadenas (sítio) / A media voz (45p) / Poesi.as (18p) / Letras.s5 (15p) / Wikipedia

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20.1.15

Russell Edson (Nunca está triste o homem-armário)





THE REASON WHY THE CLOSET-MAN IS NEVER SAD



This is the house of the closet-man.
There are no rooms, just hallways and closets.
Things happen in rooms. He does not like things to happen…
Closets, you take things out of closets,
you put things into closets, and nothing happens…
Why do you have such a strange house?

I am the closet-man, I am either going or coming, and I am never sad.

But why do you have such a strange house?

I am never sad…


Russell Edson




Esta é a casa do homem-armário,
não tem quartos nem salas, só armários e corredores.
As coisas acontecem em salas, e ele não gosta que
as coisas aconteçam...
Armários, tiram-se coisas dos armários,
arrumam-se coisas nos armários, e não acontece nada...
Porque é que tens uma casa tão estranha?

Eu sou o homem-armário, estou sempre a ir e a vir,
e nunca estou triste.

Mas porque é que tens uma casa tão estranha?

Eu nunca estou triste...


(Trad. A.M.)

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19.1.15

Elder Silva (Instantes de hotel)

 




INSTANTES DE HOTEL



Cuelgo las medias
en el calefactor del cuarto
y así aún humeantes
dan un poco de pánico.
A la mañana ya estarán secas
y saldré con ellas
por calles de La Boca
y con ellas me sentaré
a escuchar a los mejores
poetas del continente
que prestigian este
workshop de invierno.

La poesía –no hay dudas-
mejora mucho con los pies
calientes.

Elder Silva

[Marcelo Leites]




Penduro as meias
no aquecedor do quarto
e de tanto fumegarem
até metem impressão.
De manhã estarão secas
para eu sair com elas
pelas ruas de La Boca
e me sentar depois
a ouvir os melhores
poetas do continente
que dão categoria
a este workshop de Inverno.

A poesia - não há dúvida -
é muito melhor com os pés
quentes.

(Trad. A.M.)


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