31.3.15

Leonard Cohen (Gostava de ler)





I'd like to read
one of the poems
that drove me into poetry
I can't remember one line
or where to look

The same thing
happened with money
girls and late evenings of talk

Where are the poems
that led me away
from everything I loved

to stand here
naked with the thought of finding thee

Leonard Cohen

[LC-Homepage]



Gostava de ler
um daqueles poemas
que me levaram à poesia
Nem um verso me lembra
nem onde foi

E o mesmo se passa
com o dinheiro as mulheres
e as noitadas de conversa

Onde vão os poemas
que me apartaram
de tudo o que amava

para sobrar aqui
nu com o sonho de Vos achar

(Trad. A.M.)

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30.3.15

Juan Manuel Roca (Diário da noite)





DIARIO DE LA NOCHE




A la hora en que el sueño se desliza
Como un ladrón por senderos de fieltro
Los poetas beben aguas rumorosas
Mientras hablan de la oscuridad,
De la oscura edad que nos circunda.
A la hora en que el tren tizna la luna
Y el ángel del burdel se abandona a su suerte,
La orquesta toca un aire lastimero.
Una yegua del color de los espejos
Se hunde en la noche agitando su cola de cometa.
¿Qué invisible jinete la galopa?

Juan Manuel Roca




À hora em que o sonho desliza
como um ladrão por carreiros de feltro
os poetas falam da escuridão,
esta escura idade que nos cerca.
À hora em que o comboio tisna a lua
e o anjo do bordel se entrega à sua sorte,
a orquestra toca uma ária chorosa.
Uma égua da cor dos espelhos
afunda-se na noite agitando o rabo de cometa.
Que cavaleiro invisível a montará?

(Trad. A.M.)

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29.3.15

Louise Glück (Nostos)





NOSTOS



There was an apple tree in the yard
- this would have been
forty years ago - behind,
only meadows. Drifts
of crocus in the damp grass.
I stood at that window:
late April. Spring
flowers in the neighbor's yard.
How many times, really, did the tree
flower on my birthday,
the exact day, not
before, not after? Substitution
of the immutable
for the shifting, the evolving.
Substitution of the image
for relentless earth. What
do I know of this place,
the role of the tree for decades
taken by a bonsai, voices
rising from the tennis courts.
Fields. Smell of the tall grass, new cut.
As one expects of a lyric poet.
We look at the world once, in childhood.
The rest is memory.

Louise Glück




Havia uma macieira no pátio
- há coisa talvez de quarenta anos -
para trás só campos. Ondas
de açafrão sobre a erva húmida.
Pus-me à janela, aí por fins de Abril,
a olhar no pátio do vizinho
as flores da Primavera.
Quantas vezes floresceu
a árvore no dia dos meus anos,
nesse dia exacto, não antes, nem depois?
Substituição do imutável por aquilo
que se transforma, pelo que evolui.
Substituição da imagem pela
terra implacável. O que sei eu
deste lugar, do papel desta árvore
tomada por um bonsai anos a fio,
vozes a vir dos campos de ténis.
Campos, o cheiro da erva alta, cortada de fresco.
Como se espera de um poeta lírico.
Olhamos o mundo uma vez, na infância.
O resto é lembrança.

(Trad. A.M.)


>>  Poetry Foundation (perfil+42p) / Poets (10p) / Wikipedia

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28.3.15

Antonio Gala (És ainda meu)






Aún eres mío, porque no te tuve.
Cuánto tardan, sin ti,
las olas en pasar...

Cuando el amor comienza, hay un momento
en que Dios se sorprende
de haber urdido algo tan hermoso.
Entonces, se inaugura
-entre el fulgor y el júbilo-
el mundo nuevamente,
y pedir lo imposible
no es pedir demasiado.

Fue a la vera del mar, a medianoche.
Supe que estaba Dios,
y que la arena y tú
y el mar y yo y la luna
éramos Dios. Y lo adoré.


Antonio Gala



És ainda meu, pois não te tive.
E como tardam, sem ti,
as ondas a passar...

Quando amor começa, há um instante
em que Deus se espanta
de urdir algo tão belo.
Então, entre o fulgor e o júbilo,
cria-se o mundo de novo,
e pedir o impossível
não é pedir demasiado.

Foi à beira do mar, à meia-noite.
Estava Deus lá,
e a areia e tu
e o mar e eu e a lua
éramos Deus. E adorei.


(Trad. A.M.)



>>  Antonio Gala (sítio of.) / Poetas andaluces (44p) / A media voz (41p) / Fundacion A.G. / Wikipedia

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27.3.15

José Miguel Silva (Tudo coisas mortais)





TUDO COISAS MORTAIS PARA A POESIA



A casa, o lume, o sono dobrado
do corpo feliz, a cesta de figos,
a curva do rio, a fotografia
no cimo do monte, a veracidade
das glicínias, o rosto da mãe,
a fava no bolo, o trunfo de copas,
o filme da tarde, a música nova,
o rasto da chuva por entre os pinheiros,
as aves que voltam, os dias que passam
perto de nós.


José Miguel Silva

[Arquivo de cabeceira]

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26.3.15

Alfredo Buxán (Enquanto puderes)





ENQUANTO PUDERES



Deixa que cada coisa, lentamente,
encontre seu amparo nas paredes
desta casa que começa a conhecer-te
pelo tom da voz e pelas pisadas
de pássaro na carpete, pela roupa
em seu canto à espera da madrugada,
pela penumbra cálida de um saxe
à meia-noite, pelo sono frágil também.
Cuida-a com tuas mãos cada dia
e escuta o que escreve em silêncio
cada objecto: nada é definitivo.
Agradece à idade este presente,
sê feliz sem deixar de ser tu mesmo
enquanto puderes. Lembra o medo
que passaste em tantos anos
de enganosa solidão. Lembra
tudo: o mar, o nome dos teus,
as mulheres e o cansaço infinito
de buscar uma luz por entre a bruma.
Não duvides mais, aceita que não é tarde
e que chegou a hora de um inventário
sossegado: tens aquilo que anelavas.
Talvez porque nada já necessitas
que se possa comprar com a mentira.
Não dês um passo atrás, não te rendas
nem renuncies tão pouco ao silêncio
que te trouxe, fiel, o primeiro verso
até à beira mesma desta casa
que começa - dá-lhe tempo - a ser tua.


ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)

(Trad. A.M.)


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25.3.15

Jorge de Sousa Braga (De novo o silêncio)





DE NOVO O SILÊNCIO



O silêncio é como se fosse água.
Daquela água pura da montanha
que se bebe directamente
pelo coração.


Jorge de Sousa Braga

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