28.8.15

Mário de Carvalho (A redução do vocabulário)





A redução do vocabulário nos últimos anos tem sido dramática.

Não apenas do vocabulário culto que, não há muito tempo, faria parte do dia-a-dia numa família medianamente instruída.

Mas daquele que transportava uma tradição ancestral.

Se hoje muitos jovens não conseguem perceber um provérbio, isso acontece não somente porque o mundo rural desapareceu, mas porque se tem destruído a memória e ocultado a espessura da História.

Uma das razões para ler é também a vontade de libertação, a expressão de um inconformismo que não aceita ficar encarcerado dentro dos limites do vocabulário básico. (p.230)


MÁRIO DE CARVALHO
Quem disser o contrário é porque tem razão
(2014)

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Juan Luis Panero (E de repente anoitece)





Y DE PRONTO ANOCHECE



Vivir es ver morir, envejecer es eso,
empalagoso, terco olor de muerte,
mientras repites, inútilmente, unas palabras,
cáscaras secas, cristal quebrado.
Ver morir a los otros, a aquellos,
pocos, que de verdad quisiste,
derrumbados, deshechos, como el final de este cigarrillo,
rostros y gestos, imágenes quemadas, arrugado papel.
Y verte morir a ti también,
removiendo frías cenizas, borrados perfiles,
disformes sueños, turbia memoria.
Vivir es ver morir y es frágil la materia
y todo se sabía y no había engaño,
pero carne y sangre, misterioso fluir,
quieren perseverar, afirmar lo imposible.
Copa vacía, tembloroso pulso, cenicero sucio,
en la luz nublada del atardecer.
Vivir es ver morir, nada se aprende,
todo es un despiadado sentimiento,
años, palabras, pieles, desgarrada ternura,
calor helado de la muerte.
Vivir es ver morir, nada nos protege,
nada tuvo su ayer, nada su mañana,
y de pronto anochece.


JUAN LUIS PANERO
Antes de que llegue la noche
(1985)

[Las cosas que hemos visto]




Viver é ver morrer, é isso envelhecer,
peganhento, tenaz odor de morte,
enquanto repetes, inutilmente, algumas palavras,
cascas ressequidas, vidro estalado.
Ver morrer os outros, esses,
poucos, que amaste de verdade,
derrubados, desfeitos, como o fim deste cigarro,
gestos e rostos, imagens queimadas,
amassado papel.
E ver-te morrer a ti também,
removendo frias cinzas, apagados perfis,
disformes sonhos, turva memória.
Viver é ver morrer e é frágil a matéria
e sabia-se tudo, não havia engano,
mas carne e sangue, misterioso fluxo,
teimam e perseveram, afirmam o impossível.
Copo vazio, pulso tremido, cinzeiro sujo,
na luz encoberta do entardecer.
Viver é ver morrer, nada se aprende,
tudo é um sentimento sem pena,
anos, palavras, peles, desgarrada ternura,
calor gelado da morte.
Viver é ver morrer, nada nos protege,
nada teve seu ontem, nada seu amanhã,
e de repente anoitece.

(Trad. A.M.)

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27.8.15

Albano Martins (Ainda te falta dizer isto)





Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.


Albano Martins

[Gato pingado]

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26.8.15

Valeria Pariso (Não sei em que língua me falam)





(III)

No sé en qué idioma me hablan.
Qué significa: si te parece paso.
Qué quiere decir: hay un café muy cerca.
En casos así,
tengo la pereza de un hipopótamo,
no me interesa averiguar y
entro en el silencio
como en un vestido.

Mi obsesión son las cosas por su nombre.


Valeria Pariso

[Emma Gunst]




Não sei em que língua me falam,
o que significa: se te parecer, passo.
o que quer dizer: há um café mesmo ao pé.
Em casos assim,
tenho a preguiça de um hipopótamo,
não quero saber e
entro no silêncio
como num vestido.

Minha obsessão são as coisas pelos seus nomes.


(Trad. A.M.)

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25.8.15

José Cardoso Pires (Capela de cornudos)






Para ele o clube da Rua do Touro não passava de uma capela de cornudos, e o velho, no seu andar carregado, parecia que investia contra esses lavradores de putas e de baralho.

Uma choldra, os do clube.

E o Afonsinho Pompadour também não lhes ficava atrás, era tão cornudo como eles.

Com a diferença de que cantava outro cantar porque, sendo de contra natura, marrava pelo traseiro e tinha os chifres no cu. (p.374)



JOSÉ CARDOSO PIRES
Alexandra Alpha
(1987)

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Juan Gelman (Coisa estranha)





ASUNTO RARO



Viendo a la gente andar, ponerse el traje
el vestido, la piel y la sonrisa
comer sobre los platos dulcemente
afanarse, correr, sufrir, dolerse
todo por un poquito de pan y de alegría,
viendo a la gente, digo, no hay derecho
a castigarle el hueso y la esperanza,
a ensuciarle los cantos, a oscurecerle el día,
viendo, sí,
cómo la gente llora en los rincones
más oscuros del alma y sin embargo
sabe reír y andar derecho,
viendo a la gente, bueno, viéndola
tener hijos y esperar y siempre
creer que van a mejorar las cosas
y viéndola pelear por sus riñones,
digo gente,
qué hermoso andar contigo
a descubrir la fuente de lo nuevo,
a arrancar la felicidad,
a traer el futuro sobre el lomo, hablar
familiarmente con el tiempo y saber
que acabaremos y de una buena vez por ser dichosos,
qué hermoso, digo gente, qué misterio
vivir tan castigado
y cantar y reír
¡qué asunto raro!

Juan Gelman

[Miradas]




Vendo as pessoas passar, pôr fato
ou vestido, a pele e o sorriso
comer à mesa suavemente
afadigar-se, correr, sofrer ou dorir-se
tudo por um pouco de pão e alegria,
vendo as pessoas, dizia, não há direito
de lhes castigar o corpo e a esperança,
sujar-lhes os cantos e escurecer o dia,
vendo, sim,
como choram nos recantos
mais escuros da alma e todavia
sabem rir e andar direito,
vendo as pessoas, bem, vendo-as
ter filhos e esperar e crer
sempre que as coisas vão melhorar,
e vendo-as a batalhar pelo seu,
eu digo minha gente,
que belo andar convosco
e descobrir a fonte da novidade,
e perseguir a felicidade,
e carregar o futuro nas costas, falar
com o tempo familiarmente e saber
que acabaremos duma vez por ser felizes,
que belo, digo gente, que mistério
viver tão castigados
e cantar e rir
- que coisa estranha!

(Trad. A.M.)

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24.8.15

Affonso Romano de Sant'Anna (Os desaparecidos)





OS DESAPARECIDOS



De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
— mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.

Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
— desapareciam.


Affonso Romano de Sant’Anna

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23.8.15

Roger Wolfe (A verdade, por fim)





LA VERDAD, POR FIN



Todo el día
queriendo redactar este poema
y ahora no recuerdo
qué se supone
que tenía que decir.
Los buenos escritores —no hace falta
repetirlo— son aquellos
que saben siempre, exactamente,
cuándo no deben escribir.
Pero ése
evidentemente
no es mi caso.

Roger Wolfe




Todo o dia
a querer lavrar este poema
e agora não me lembro
o que é suposto
que tinha a dizer.
Os bons escritores – não é preciso
dizê-lo – são aqueles
que sabem sempre, exactamente,
quando não devem escrever.
Mas esse
evidentemente
não é o meu caso.

(Trad. A.M.)

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22.8.15

Aquilino Ribeiro (Caminhos Errados- Voc.)





CAMINHOS ERRADOS
(Vocabulário)


achavascada
acuar
afundir
agatanhar
aixe
alcriquete
alma de cântaro
anaçar
andilhas
arganaz
arribana
atafal
atrido
azoinar
azougue
balsa
barbela
barrela
bocada
boqueira
bornal
brasido
brejoeiro
brocha
bródio
cabanal
caçarreta
cachação
calondro
cambulhada
canada
cangalho
capelas dos olhos
capindó
carniça
carpanta
carro de anos
carujeira
carujo
cascaroleta
casquivana
caterva
catramugir
cavalarias altas
cerrado
chafariqueira
chamiça
charachina
charriscar
chichisbéu
cincar
clâmide
cômoro
correntão
corricar
corrilho
decrua
derrancada
desatupir
desensocar
donguinha
embuchar
enchouriçar
endrómina
engoiado
enguichar
enliçar
entanguido
entremetido
envolta
escoteiro
esforcalhar
esladroar
esparralhada
esparvonada
espertenida
espojadoiro
espora fita
esporteirar
estardiota
esterquilínio
estrambólica
fachoco
fas/nefas
festeiro
fidúcias
fina força
fonas
forjicada
franduna
fraqueira
frascário
freima
frenicoques
frescal
gabela
gaifona
galão
gambérria
gorgomilos
gorra
grabato
gromo
homem lige
igualha
infusa
ladro
lambisqueira
larica
larpão
latoeiro
leicenço
louceiro
macanjo
malhoada
maloio
mamposteiro
manata
maninho
mantença
marchante
mazorreiro
melgueira
momice
mormaceiro
muladar
muranho
nisga
pataqueiro
paveia
peguilho
pelangra
pernada
pesperro
pilho
pilordas
pincharolar
pionia
pitança
pontigo
pôr o ramo
pragana
quitar
rabiça
ralé
rascoa
rebentina
relambório
relego
relice
repitosca
retouçar
revessar
revolcar
ripanço
rocegada
rópia
rorejar
saltareco
sarambeque
serigaita
sincelo
sirga
soalheira
sobreposse
surrobeco
tabaqueiro
tábido
tagaté
taleigo
tanazes
taramela
tiborna
touceira
trancanaz
trangalhadanças
triaga
valhacoito
veniaga
zangarelhão
zanguizarra
zuca


Juan Carlos Mestre (Não me arrependo de nada)





No me arrepiento de nada ni de nadie, la vida es un monólogo
entre la índole extinguida de una estrella y la natural semilla.
Mi alma crece silenciosa hacia un lugar incierto,
allí las fieras luctuosas, allí el sicario gótico y el infortunio ciego.
Brota el arco iris de los cálices que sostuvo Homero,
le brota su cuerno al fauno, el eco al precipicio, su luz al cielo.
Ésta es la frontera de mi vida, ésta la hora izquierda
exacta en el destino del corazón de un prófugo.
Yo iré donde tú vayas vida esquiva, en tempestad, de noche,
junto al fugitivo cazador de las lagunas, con el presidiario absuelto,
yo cruzaré los médanos con lumbre, yo abrasaré los remolinos ciegos.
He sido parcial con los vencidos, seguiré siendo parcial ante los muertos.
Recuerdo de mi infancia tres peligros,
recuerdo el mal, los ojos sin pretexto del maldito,
recuerdo el aire que había en las palabras,
recuerdo un sueño, su prodigio, recuerdo el asno blanco del lechero.
He vagado por ahí, irrevocable, alegre, desmedido,
he ofendido con voluntad a los jerarcas
y al atónito perpetuo en su torre de herrumbre.
Salgo de un lugar y voy a otro, me inspiran compasión las jaulas.
No soy distinto al péndulo en la cueva ni al nadador vendado,
mi mayor habilidad es la pereza de encontrarme con otros a menudo.
De lo mismo que me acusan yo me acuso, jamás mis amuletos me abandonan.
Siento ante la noche una curiosidad equívoca,
tengo ante lo súbito un poder magnético.
Hay un pretérito espectro que no olvido,
hay un rumor lejano del infierno,
hay un enigma hebreo junto al mito.
Mi cuadrilla es inhábil para todo, nada sabe.
Tengo un secreto según la estación del año,
un invariable encargo desde el primer aliento.
Me contradigo siempre, la certeza es la sombra de un delito.
De vez en cuando me asocio con proscritos,
encuentro a mi amigo en la revuelta, me hospedo en un lugar impenetrable.
Sé que existe en la belleza el bosque iluminado y la mujer mágica.
He oído la música del próspero océano y la ligera lluvia sobre el tambor de ébano,
he oído el tímpano y el arpa en las catedrales fúnebres,
la esquila del leproso y la irrevocable campana del jurista.
No he aprendido a sufrir, toda severidad es inhumana.
Yo era, yo fui lo que las manos de un padre ante la generación exhausta,
el encomendado a la mudez, el imprudente ileso.
Cada visión del hombre es una idea nueva que visita el mundo,
el silbato con que un cartero festeja la imitación de Dios.



JUAN CARLOS MESTRE
La tumba de Keats, 1999
(fragmento)




Não me arrependo de nada nem de ninguém, a vida é um monólogo
entre a índole extinta duma estrela e a semente natural.
Minha alma cresce silenciosa para um incerto lugar,
das lutuosas feras, do sicário gótico, do infortúnio cego.
Brota o arco íris dos cálices que Homero empunhou,
brota ao fauno o chifre, o eco ao precipício, a luz ao céu.
Esta a fronteira da minha vida, a hora esquerda
exacta no destino do coração dum desertor.
Eu irei onde tu fores, vida esquiva, de noite, na tempestade,
com o fugitivo caçador das lagoas, o presidiário isento,
eu atravessarei os médãos com lume, abrasarei os cegos remoinhos.
Fui parcial com os vencidos, sê-lo-ei com os mortos.
Três perigos recordo da minha infância,
recordo o mal, os olhos sem pretexto do maldito,
recordo o ar que havia nas palavras,
recordo um sonho, seu prodígio, o asno branco do leiteiro.
Andei por aí, irrevogável, alegre, desmedido,
ofendi com vontade os do mando
e o atónito perpétuo em sua torre de ferrugem.
Saio dum lugar para outro, cheio de compaixão pelas jaulas.
Não sou diferente do pêndulo na gruta, nem do nadador vendado,
minha perícia maior é a preguiça de me encontrar muito com os outros.
Eu me acuso daquilo mesmo que me acusam, nem largo jamais meus amuletos.
Sinto perante a noite uma curiosidade equívoca
e tenho perante o súbito um poder magnético.
Há um pretérito espectro que não esqueço,
um distante rumor do inferno,
um enigma hebreu junto ao mito.
Minha quadrilha é inábil para tudo, nada sabe.
Tenho um segredo segundo a estação do ano,
um encargo invariável desde o primeiro alento.
Contradigo-me sempre, a certeza é a sombra dum delito.
Ligo-me de vez em quando com proscritos,
encontro meu amigo na revolta, hospedo-me num lugar impenetrável.
Sei que existe na beleza o bosque iluminado e a mulher mágica.
Senti a música do próspero oceano, a leve chuva no tambor de ébano,
ouvi o tímpano e a harpa nas catedrais fúnebres,
o chocalho do leproso e o sino do jurista, irrevogável.
Não aprendi a sofrer, toda a severidade é desumana.
Eu era, eu fui as mãos de um pai ante a geração exausta,
o imprudente ileso, o encomendado à mudez.
Cada visão do homem é uma ideia nova visitando o mundo,
o assobio do carteiro a festejar a imitação de Deus.


(Trad. A.M.)

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