25.10.14

Francisco Rodrigues Lobo (Fermoso Tejo meu)





Fermoso Tejo meu, quão diferente
te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
o meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
eu não sei se serei quem dantes era.


Francisco Rodrigues Lobo

.

24.10.14

Claribel Alegría (Savoir faire)





SAVOIR FAIRE



Mi gato negro ignora
que va a morir un día
no se aferra a la vida
como yo
salta desde el tejado
ligero como el aire
se sube al tamarindo
arañándolo apenas
no lo amedrenta el paso de los puentes
ni el callejón oscuro
ni el pérfido alacrán
mi gato negro ama
a cuanta gata encuentra
no se deja atrapar
por un único amor
como lo hice yo.

Claribel Alegría



Meu gato preto ignora
que vai morrer um dia
não se agarra à vida
como eu
salta do telhado
leve como o vento
sobe ao tamarindo
e mal o arranha
não o amedronta a passagem das pontes
nem o beco escuro
nem o pérfido lacrau
meu gato preto ama
quantas gatas encontra
não se deixa apanhar
por um único amor
como eu como eu.

(Trad. A.M.)

.

23.10.14

Raul Brandão (Sagres)





O promontório é um punho nodoso, com dois dedos estendidos para o mar – a ponta de S. Vicente e a ponta de Sagres.

Nos dias sem sol, como o de hoje, os dedos parecem de ferro: apontam e subjugam-no.

Em frente o mar ilimitado; em baixo o abismo, a cem metros de altura.

Ventanias ásperas descarnam o morro cortado a pique, e no Inverno as vagas varrem-no de lado a lado.

Sagres é o cabo do mundo.

Levo os pés magoados de caminhar sobre pedregulhos azulados, num carreirinho, por entre lava atormentada.

Do passado restam cacos, o pre- sente é uma coisa fora da realidade, grande extensão deserta, pardacenta e encapelada, com pedraria a aflorar entre tufos lutuosos; vasto ossário abandonado onde as pedras são caveiras, as ervas cardos negros e os tojos só espinhos e algumas folhas de zinco.

O mar – é verdade, esquecia-o – mas o mar como imensidade e tragédia, e ao lado a gigantesca ponta de S. Vicente, só negrume e sombra.

Mar e céu, céu e mar, terra reduzida a torresmos, e o sentimento do ilimitado.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

.

Susana March (Obscuro amor)





OSCURO AMOR



Oscuro amor... Tu muerte es ya mi muerte.
Más allá de este mar, ¿qué extraña orilla
cobijará mi náufraga tristeza?
Me evadiré del viento
que transita en mi sangre,
sacudiré mis lágrimas
como las largas crines de un caballo salvaje.
Quiero partir contigo,
sin mí, por los senderos
extraños y remotos
por donde vas a ciegas, tropezando.
Te seguiré sin lástima y sin gloria,
mendiga de unos ojos,
de una voz, de una mano cercenada
en el umbral del sueño...

Te seguiré hasta allí donde tú acabas
para acabar contigo.

Susana March

[Vol de milana]



Obscuro amor... Tua morte é minha morte já.
Para além deste mar, que beira estranha
cobiçará minha náufraga tristeza?
Fugirei do vento
que percorre meu sangue,
sacudirei as lágrimas
como as longas crinas de um potro selvagem.
Quero partir contigo,
sem mim, pelos carreiros
estranhos e remotos
que fazes às cegas, aos tropeções.
Hei-de seguir-te sem pena e sem glória,
mendiga de uns olhos,
de uma voz, de uma mão cerceada
no portal do sonho...

Hei-de seguir-te até ali, onde tu acabas,
para contigo acabar.

(Trad. A.M.)


>>  Vol de milana (10p) / A media voz (30p)


.

22.10.14

Francisco Alvim (Quem fala)





QUEM FALA



Está de malas prontas?
Aproveite bastante
Leia jornais; não ouça rádio de jeito nenhum
Tudo de bom
Não volte nunca


Francisco Alvim

.

21.10.14

Chantal Maillard (Andava pelas costas da tua mão)





Anduve por el dorso de tu mano, confiada,
como quien anda en las colinas
seguro de que el viento existe,
de que la tierra es firme,
de la repetición eterna de las cosas.
Mas de repente tembló el universo:
llevaste la mano a tus labios
y bostezando abriste la noche
como una gruta cálida.

Llevabas diez mil siglos despertando
y el fuego ardía impaciente en tu boca.

Chantal Maillard



Andava pelas costas da tua mão, confiada,
como quem anda nos montes
seguro de que o vento existe,
de que a terra está firme,
da repetição eterna das coisas.
Mas de repente o universo tremeu:
levaste a mão aos lábios
e bocejando abriste a noite
como uma gruta cálida.

Levavas dez mil séculos despertando
e o fogo ardia impaciente na tua boca.


(Trad. A.M.)

.

20.10.14

Raul Brandão (A caminho de Sagres)





Pela portinhola do comboio vou seguindo a paisagem de figueiras e de vinhas que desfila.

De um lado o céu doirado e violeta, do outro todo roxo.

Os nomes das estações têm um sabor a fruto maduro e exótico – Almancil, Nexe, Diogal, Marchil...

De quando em quando fixo um pormenor: uma mulher passa na estrada branca, entre oliveiras pulverulentas e fantasmas esbranquiçados de árvores, sentada no burrico, de guarda-sol aberto, e dando de mamar ao filho.

Terras de barro vermelho.

Grupos de figueiras anainhas estendem os braços pelo chão até ao mar, deixando cair na água os ramos vergados de fruto, que só amadurece com as branduras.

Uma ou outra casinha reluzindo de caiada: ao lado, e sempre, a nora de alcatruzes e um burrinho a movê-la entre as leves amendoeiras em fila, as oliveiras dum verde mais escuro e a alfarrobeira carregada de vagens negras pendentes.

A mesa de Deus está posta.

Estradas orladas de cactos imóveis como bronze, e a deslumbrante Fuzeta, com o seu zimbório entre árvores esguias.

Ao longe, e sempre, acompanha-me o mar, que mistura o seu hálito a esta luz vivíssima.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

.

César Simón (Despedida)





DESPEDIDA



He venido, ya lo comprendes bien, sólo por una tarde;
he venido a decirte que todo da lo mismo.
Vivir es finalmente un duro encuentro
en un lugar vacío.
Te contemplo. Estás muda, ahí arriba;
arriba, bajo el techo,
junto a la viga.
En esta habitación de los días remotos
te apareces,
en esa mancha en la pared,
alegre o triste, ya no importa mucho,
puesto que nada habremos de decirnos.
¿Te quise? Qué pregunta.
Y es que lo vano del presente,
su ingravidez,
la dispersión de tantos días
todo lo pone en duda: tú, yo mismo.
¿Y te guardo rencor?
Obvio es que no, con tales presupuestos.
La verdad es la suma
de un tiempo ya vencido.
A esa mancha, debajo de la viga,
no le guardo rencor, tampoco.
Ya digo, es más complejo
-y es peor, todavía.
Así pues, te contemplo, simplemente.
Estás ahí, sentada,
en ningún tiempo ya,
duende de mi extravío.
Y, si quisiera hablarte,
peor sería.
La palabra levanta mucho polvo.
En esta transparencia
donde el mundo se aclara,
no es que me encuentre bien,
pero respondo a propia lejanía.
He seguido viviendo.
Ya sabes: duro lecho.
Aquí todo empezó y concluye todo.
Adiós. Al menos, es verdad
que estás ahí, callada,
como todas las cosas,
como si nunca hubieran existido.

César Simón



Eu vim, estás a ver, só por uma tarde,
vim dizer-te que dá tudo no mesmo.
Viver é afinal um duro encontro
num lugar vazio.
Contemplo-te. Estás muda, aí em cima;
em cima, por baixo do telhado,
ao pé da viga.
Apareces neste quarto de dias remotos,
nessa mancha da parede,
alegre ou triste, importa pouco,
já que nada temos para dizer.
Amei-te? Olha que pergunta,
aliás o presente vão,
a sua falta de peso,
a dispersão dos dias,
tudo o põe em dúvida, tu, mesmo eu.
Se te tenho raiva?
Está visto, é claro que não.
A verdade é a suma
de um tempo corrido.
Essa mancha, por baixo da viga,
também não lhe tenho rancor.
Digo mesmo, é mais complicado
- e até pior, por sinal.
Por isso te contemplo, simplesmente.
Aí estás, sentada,
fora do tempo,
duende de perdição.
E pior seria,
se eu te quisesse falar,
pois levanta muito pó a palavra.
Nesta transparência
em que o mundo se aclara
não posso dizer que estou bem,
mas reajo perante a distância.
Continuei a viver.
Leito duro, sabes bem.
Adeus. Ao menos, estás aí,
em verdade, calada,
como todas as coisas,
como se nunca tivessem existido.

(Trad. A.M.)

.

19.10.14

Graça Pires (Na periferia da manhã)





Na periferia da manhã, levemente adiada,
improviso uma ilha.
Tão nua como páginas em branco.
E concedo-me o direito de esperar Ulisses.
A minha fronte marcada com palavras sem destino.


Graça Pires

.