17.11.18

Mário de Carvalho (Não seria má ideia)




(Não seria má ideia)


Não consegui captar nada do que Jorge disse, mas acho que adivinhei pelas respostas.

Feitas as despedidas, mais um troçozito da ária do Papageno e o ‘controleiro’ voltou para a cama: ‘Quem era?’, bradou de lá a tia. ‘Nada de especial. Malta do Partido’, vozeirou Vitorino Nunes, já a fechar os olhos.

Ainda bem que ele não telefonou logo a seguir.

Eu lá teria que dar conta da diligência e isto ia parecer um romance de fio telefónico.


Não seria má ideia, para outra ocasião, mas, agora, a cadeia telefónica viria introduzir cadências repetitivas, tediosas e impedientes de eu contar o que estou ansioso por: a decidida e mui apessoada chegada de Eduarda Galvão à revista Reflex, nessa manhã.



MÁRIO DE CARVALHO
Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto
(1995)


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15.11.18

Videira (CA-3)





VIDEIRA



É o sangue da terra
que sobe no outono
às folhas da vide


(A.M.)

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13.11.18

Gonzalo Fragui (As mulheres e a guerra)





LAS MUJERES Y LA GUERRA



Lo máximo que se puede pedir
a una mujer hermosa
es una mirada

Lo demás se toma por asalto.


Gonzalo Fragui





O mais que se pode pedir
a uma mulher bela
é um olhar

O resto toma-se de assalto.

(Trad. A.M.)

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11.11.18

Gonzalo Rojas (Os dias vão tão depressa)




LOS DÍAS VAN TAN RÁPIDOS


Los días van tan rápidos en la corriente oscura
que toda salvación se me reduce apenas a respirar profundo
para que el aire dure en mis pulmones
una semana más, los días van tan rápidos
al invisible océano que ya no tengo sangre donde nadar seguro
y me voy convirtiendo en un pescado más, con mis espinas.

Vuelvo a mi origen, voy hacia mi origen, no me espera
nadie allá, voy corriendo a la materna hondura
donde termina el hueso, me voy a mi semilla,
porque está escrito que esto se cumpla en las estrellas
y en el pobre gusano que soy, con mis semanas
y los meses gozosos que espero todavía.

Uno está aquí y no sabe que ya no está, dan ganas de reírse
de haber entrado en este juego delirante,
pero el espejo cruel te lo descifra un día
y palideces y haces como que no lo crees,
como que no lo escuchas, mi hermano,
 y es tu propio sollozo allá en el fondo.

Si eres mujer te pones la máscara más bella
para engañarte, si eres varón pones más duro
el esqueleto, pero por dentro es otra cosa,
y no hay nada, no hay nadie, sino tú mismo en esto:
así es que lo mejor es ver claro el peligro.

Estemos preparados. Quedémonos desnudos
con lo que somos, pero quememos, no pudramos
lo que somos. Ardamos. Respiremos
sin miedo. Despertemos a la gran realidad
de estar naciendo ahora, y en la última hora.

GONZALO ROJAS
 Contra la muerte
(1964)





Tão velozes vão os dias na corrente escura
que a minha salvação reduz-se a respirar fundo
para o ar me durar nos pulmões
mais uma semana, vão os dias tão velozes
para o oceano invisível que eu já não tenho
sangue para nadar com segurança
e vou-me transformando em mais um peixe, com as espinhas.

Volto à origem, vou direito à minha origem,
ninguém me espera lá, vou correndo para o fundo materno
onde o osso termina, vou para a minha semente,
porque está escrito que isso se cumpra
nas estrelas e no pobre de mim, com minhas semanas
e os meses gozosos que espero ainda.

Aqui estamos e não sabemos que já não estamos,
dá vontade de rir entrar neste jogo delirante,
mas decifra-to o espelho cruel
e então empalideces, parece que não crês,
não escutas, meu irmão,
e é o teu próprio soluço lá no fundo.

Sendo mulher pões a máscara mais bela
para te enganar, sendo varão fazes o esqueleto
mais rijo, mas lá por dentro é outra coisa,
não há nada, nem ninguém, apenas tu mesmo,
por isso o melhor é ver o perigo, claramente.

Estejamos preparados. Fiquemos a nu
com o que somos, mas queimemos, não apodreçamos
o que somos. Ardamos. Respiremos sem medo.
Despertemos para o facto
de estarmos nascendo agora, e na última hora.

(Trad. A.M.)


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9.11.18

Alexandre O'Neill (Poema)




POEMA


Entre mim e o silêncio
vai a mesma distância
que vai de mim a mim mesmo
Entretanto,
vou construindo sistemas explicativos
do que fica entre mim e o silêncio

Alexandre O’Neill



[Colóquio-Letras, 198 (2018), 55]

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7.11.18

Francisca Aguirre (Testemunha de excepção)





TESTIGO DE EXCEPCIÓN


Un mar, un mar es lo que necesito.
 Un mar y no otra cosa, no otra cosa.
 Lo demás es pequeño, insuficiente, pobre.
 Un mar, un mar es lo que necesito.
 No una montaña, un río, un cielo.
 No. Nada, nada,
 únicamente un mar.
 Tampoco quiero flores, manos,
 ni un corazón que me consuele.
 No quiero un corazón
 a cambio de otro corazón.
 No quiero que me hablen de amor
 a cambio del amor.
 Yo sólo quiero un mar:
 yo sólo necesito un mar.
 Un agua de distancia,
 un agua que no escape,
 un agua misericordiosa
 en que lavar mi corazón
 y dejarlo a su orilla
 para que sea empujado por sus olas,
 lamido por su lengua de sal
 que cicatriza heridas.
 Un mar, un mar del que ser cómplice.
 Un mar al que contarle todo.
 Un mar, creedme, necesito un mar,
 un mar donde llorar a mares
 y que nadie lo note.

Francisca Aguirre




Um mar, um mar é o que eu preciso,
um mar e não outra coisa, não outra coisa.
O resto é pequeno, pobre, mesquinho.
Um mar, um mar é o que eu preciso,
não um monte, um rio, um céu.
Não, nada, nada,
só um mar.
Também não quero flores, nem mãos,
nem coração que me console,
não quero um coração
em troca de coração,
nem que me falem de amor
em troca de amor.
Eu só quero um mar,
só preciso de um mar,
água distante, piedosa,
para lavar o coração
e deixá-lo na beira,
empurrado pelas ondas,
lambido pela língua salgada
que cicatriza as feridas.
Um mar, um mar cúmplice,
para lhe contar tudo.
Um mar, vêde, preciso de um mar,
onde possa chorar um mar de lágrimas
sem ninguém reparar.
  
(Trad. A.M.)

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5.11.18

Flor Codagnone (Continuo ferida)






Sigo herida, castigada:
volvés siempre
a la geografía de mi memoria.


Flor Codagnone




Continuo ferida, castigada:
tu voltas sempre
à minha geografia da memória.

(Trad. A.M.)

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