5.7.10
Carlos Marzal (Chuva de Regent's Park)
LA LLUVIA EN REGENT'S PARK
Debe de estar lloviendo en Regent's Park
Y una suave neblina hará que se extravíe
la hierba en el perfil del horizonte,
los robles a lo lejos, las flores, los arriates.
Pausada, compasiva, descenderá la lluvia
hoy sobre el corazón de la ciudad,
su angustia, su estruendo,
sobre el mínimo infierno inabarcable
de cada pobre diablo.
Igual que aquella tarde en la que fui feliz,
igual que aquella lluvia
que me purificó, caritativa.
En las horas peores,
cuando el desierto avanza,
y no hay robles, ni hay hierba, cuando pienso
que no saldré jamás del laberinto,
y siento el alma sucia,
y el cuerpo, que se arrastra,
cobarde, entre la biografía,
la lluvia, en el recuerdo, me limpia, me acaricia,
me vuelve a hacer aún digno,
aún merecedor
de algún día de gloria de la vida.
La amable, la misericordiosa,
la dulce lluvia inglesa.
Carlos Marzal
Deve estar a chover em Regent’s Park
E uma suave neblina fará a erva
extraviar-se no fio do horizonte,
os carvalhos ao longe, as flores, os caminhos.
Pausada, compassiva, baixará hoje
a chuva no coração da cidade,
sua angústia, seu ruído,
sobre o mínimo inferno inabarcável
de cada pobre diabo.
Tal como naquela tarde em que fui feliz,
aquela chuva
que me purificou, caritativa.
Nas horas piores,
quando o deserto avança
e não há carvalhos, nem erva, quando penso
que jamais sairei do labirinto,
e sinto a alma suja
e o corpo que se arrasta,
cobarde, pela biografia,
a chuva, na lembrança, limpa-me, afaga-me,
volta a fazer-me digno,
merecedor ainda
de um dia de glória na vida.
A amável, a misericordiosa,
a doce chuva inglesa.
(Trad. A.M.)
>> A media voz (28p) / Cervantes (antologia+perfil crítico+ biblio)
.
4.7.10
Raymond Carver (O teu cão morre)
O TEU CÃO MORRE
é apanhado por uma carrinha.
encontra-lo na berma da estrada
e enterra-lo.
sentes-te mal.
sentes-te mal por ti,
mas sentes-te pior pela tua filha
porque era o seu animal de estimação
e adorava-o.
costumava cantarolar para ele
e deixava-o dormir na sua cama.
escreves um poema sobre isso.
chamas-lhe um poema para a tua filha,
fala sobre o cão atropelado pela carrinha,
sobre o modo como te ocupaste dele,
como o levaste para o bosque
e o enterraste fundo, bem fundo,
e o poema sai-te tão bem
que quase te alegras com o atropelamento
do pobre cão, ou não terias
escrito um poema tão bom.
então sentas-te a escrever
um poema sobre a escrita de um poema
sobre a morte desse cão,
porém enquanto escreves
ouves uma mulher a gritar
o teu nome, o teu primeiro nome,
ambas as sílabas,
e o teu coração pára.
passa um instante e voltas a escrever.
ela grita de novo.
perguntas até onde isto pode ir.
Raymond Carver
(Trad. L.P.)
[Do trapézio]
.
3.7.10
Joan Margarit (Professor Bonaventura)
PROFESOR BONAVENTURA BASSEGODA
Le recuerdo alto y grueso,
procaz, sentimental. Usted, entonces,
era una autoridad en Cimientos Profundos.
Inició siempre nuestra clase así:
«Señores, buenos días.
Hoy hace tantos años, tantos meses
y tantos días que murió mi hija».
Y solía secarse alguna lágrima.
Teníamos veinte años, más o menos,
y el hombre corpulento que usted era
llorando en plena clase,
nunca nos hizo sonreír.
¿Cuánto hace ya que usted no cuenta el tiempo?
He pensado en nosotros y en usted,
hoy que soy una amarga sombra suya
porque mi hija, ahora hace dos meses,
tres días y seis horas
que tiene sus profundos cimientos en la muerte.
Joan Margarit
Lembro-me de si alto e grosso,
descontraído, sentimental. O senhor era, então,
uma autoridade em Cimentos Profundos.
Começava sempre assim a nossa aula:
“Meus senhores, bom dia.
Faz hoje tantos anos, tantos meses
e tantos dias que morreu a minha filha”.
E costumava enxugar uma lágrima.
Nós tínhamos vinte anos, mais ou menos,
e o homem corpulento que o senhor era,
a chorar em plena aula,
nunca nos fez sorrir.
Há quanto é que o senhor não conta o tempo?
Pensei em si e em nós,
hoje que eu sou uma amarga sombra sua
porque a minha filha, faz agora dois meses,
três dias e seis horas
que tem os seus profundos cimentos na morte.
(Trad. A.M.)
.
2.7.10
Mário Quintana (Arte poética)
ARTE POÉTICA
Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...
MARIO QUINTANA
Velório sem defunto
(1990)
.
Manuel Alegre (Canção com lágrimas e sol)
CANÇÃO COM LÁGRIMAS E SOL
Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.
Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.
Porque tu me disseste: quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
com Lisboa tão longe ó meu irmão de Maio
que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.
Que nunca mais dirás palavras sem importância
que tinham a importância de serem ditas por ti
que nunca mais farás as coisas importantes
que já não têm importância porque tu não voltas.
Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.
Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa viúva (com lágrimas com lágrimas)
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.
Manuel Alegre
>> Canção com lágrimas (Adriano Correia de Oliveira)
.
1.7.10
Javier Das (Poética)
POÉTICA
Escribo para mantenerme a flote,
para poder seguir caminando,
para incendiar mil noches.
Escribo por necesidad,
porque no sé hacer otra cosa
y porque no quiero aprender otra.
Javier Das
Escrevo para manter-me à tona,
para poder continuar a caminhar,
para incendiar mil noites.
Escrevo por necessidade,
porque não sei fazer outra coisa
e não quero aprender.
(Trad. A.M.)
.
Margaret Atwood (Tu dás dentro de mim)
YOU FIT INTO ME
You fit into me
like a hook into an eye
a fish hook
an open eye
Margaret Atwood
Tu dás dentro de mim
como um anzol dentro dum olho
um anzol de pesca
um olho aberto
(Trad. A.M.)
.
30.6.10
Jaime Gil de Biedma (Do ano mau)
DEL AÑO MALO
Diciembre es esta imagen
de la lluvia cayendo con rumor de tren,
con un olor difuso a carbonilla y campo.
Diciembre es un jardín, es una plaza
hundida en la ciudad,
al final de una noche,
y la visión en fuga de unos soportales.
Y los ojos inmensos
-tizones agrandados-
en la cara morena de una cría
temblando igual que un gorrión mojado.
En la mano sostiene unos zapatos rojos,
elegantes, flamantes como un pájaro exótico.
El cielo es negro y gris
y rosa en sus extremos,
la luz de las farolas un resto amarillento.
Bajo un golpe de lluvia, llorando, yo atravieso,
innoble como un trapo, mojado hasta los cuernos.
Jaime Gil de Biedma
[Marcelo Leites]
Dezembro é esta imagem
da chuva caindo com rumor de comboio,
um cheiro difuso a carvão e a campo.
Dezembro é um jardim, uma praça
afundada na cidade,
ao fim de uma noite,
a visão fugitiva de alguns portais.
E uns olhos imensos
- tições aumentados –
na cara morena de uma criança
a tremer como um pássaro molhado.
Segura na mão uns sapatos elegantes,
vermelhos, flamantes como um pássaro exótico.
O céu está negro e cinza,
rosado nos extremos,
a luz dos candeeiros um resto amarelado.
Debaixo de chuva grossa, atravesso,
chorando, ignóbil como um trapo,
molhado até aos cornos.
(Trad. A.M.)
.
29.6.10
Manoel de Barros (Se achante)
SE ACHANTE
Era um caranguejo muito se achante.
Ele se achava idôneo para flor.
Passava por nossa casa
Sem nem olhar de lado.
Parece que estava montado num coche
de princesa.
Ia bem devagar
Conforme o protocolo
A fim de receber aplausos.
Muito achante demais.
Nem parou para comer goiaba.
(Acho que quem anda de coche não come
goiaba).
Ia como se fosse tomar posse de deputado.
Mas o coche quebrou
E o caranguejo voltou a ser idôneo para
mangue.
MANOEL DE BARROS
Compêndio para uso dos pássaros
(Poesia reunida 1937-2004)
Quasi Edições, 2007
.
Luís Miguel Nava (Sem outro intuito)
SEM OUTRO INTUITO
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
Luís Miguel Nava
.
28.6.10
Oliverio Girondo (Não me importa peva)
NO SE ME IMPORTA UN PITO
No se me importa un pito que las mujeres
tengan los senos como magnolias o como pasas de higo;
un cutis de durazno o de papel de lija.
Le doy una importancia igual a cero,
al hecho de que amanezcan con un aliento afrodisíaco
o con un aliento insecticida.
Soy perfectamente capaz de soportarles
una nariz que sacaría el primer premio
en una exposición de zanahorias;
¡pero eso sí! -y en esto soy irreductible- no les perdono,
bajo ningún pretexto, que no sepan volar.
Si no saben volar ¡pierden el tiempo las que pretendan seducirme!
Ésta fue -y no otra- la razón de que me enamorase,
tan locamente, de María Luisa.
¿Qué me importaban sus labios por entregas y sus encelos sulfurosos?
¿Qué me importaban sus extremidades de palmípedo
y sus miradas de pronóstico reservado?
¡María Luisa era una verdadera pluma!
Desde el amanecer volaba del dormitorio a la cocina,
volaba del comedor a la despensa.
Volando me preparaba el baño, la camisa.
Volando realizaba sus compras, sus quehaceres...
¡Con qué impaciencia yo esperaba que volviese, volando,
de algún paseo por los alrededores!
Allí lejos, perdido entre las nubes, un puntito rosado.
"¡María Luisa! ¡María Luisa!"... y a los pocos segundos,
ya me abrazaba con sus piernas de pluma,
para llevarme, volando, a cualquier parte.
Durante kilómetros de silencio planeábamos una caricia
que nos aproximaba al paraíso;
durante horas enteras nos anidábamos en una nube,
como dos ángeles, y de repente,
en tirabuzón, en hoja muerta,
el aterrizaje forzoso de un espasmo.
¡Qué delicia la de tener una mujer tan ligera...,
aunque nos haga ver, de vez en cuando, las estrellas!
¡Que voluptuosidad la de pasarse los días entre las nubes...
la de pasarse las noches de un solo vuelo!
Después de conocer una mujer etérea,
¿puede brindarnos alguna clase de atractivos una mujer terrestre?
¿Verdad que no hay diferencia sustancial
entre vivir con una vaca o con una mujer
que tenga las nalgas a setenta y ocho centímetros del suelo?
Yo, por lo menos, soy incapaz de comprender
la seducción de una mujer pedestre,
y por más empeño que ponga en concebirlo,
no me es posible ni tan siquiera imaginar
que pueda hacerse el amor más que volando.
Oliverio Girondo
Não me importa peva que as mulheres
tenham os seios como magnólias ou como passas de figo;
uma pele de ananás ou de papel de lixa.
Dou tanta importância como zero
a que elas amanheçam com hálito afrodisíaco
ou com hálito insecticida.
Sou perfeitamente capaz de suportar-lhes
um nariz que tiraria o primeiro prémio
numa exposição de cenouras;
mas isso sim – aqui sou irredutível – não lhes perdoo,
sob nenhum pretexto, que não saibam voar.
Não sabendo voar, perdem o seu tempo as que quiserem seduzir-me!
Esta – e não outra – foi a razão de me apaixonar,
tão loucamente, por María Luísa.
Que me importavam seus lábios em fascículos e seus ciúmes sulfurosos?
Que me importavam suas extremidades de palmípede
e seus olhares de prognóstico reservado?
María Luísa era uma verdadeira pluma!
Logo de manhãzinha voava do quarto para a cozinha
e da sala para a despensa.
Voando, arranjava-me o banho e a camisa.
Voando, fazia as suas compras e restantes tarefas...
Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando,
de algum passeio pelas redondezas!
Lá longe, perdido entre as nuvens, um pontinho cor de rosa.
“María Luísa! María Luísa!”... e em poucos segundos
abraçava-me já com suas pernas de pluma,
para levar-me a voar a qualquer sítio.
Durante quilómetros de silêncio
planeávamos uma carícia
que nos levava ao paraíso;
horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem,
como dois anjos, e de repente
em saca-rolhas, em folha morta,
a aterragem forçada de um espasmo.
Que delícia ter uma mulher tão ligeira...
embora de vez em quando nos faça ver as estrelas!
Que volúpia passar o dia entre as nuvens...
e passar as noites de um voo!
Depois de conhecer uma mulher etérea,
pode ter algum atractivo uma mulher terrestre?
Não haverá deveras diferença de tomo
entre viver com uma vaca ou com uma mulher
com as nádegas a setenta e oito centímetros do chão?
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender
a sedução de uma mulher pedestre,
e por mais que me empenhe em concebê-lo
não consigo sequer imaginar
que se possa fazer amor senão a voar.
(Trad. A.M.)
>> Amediavoz (40p) / Poesi.as (83p) / Cervantes (tudo+algo)
.
José Miguel Silva (Já os pesadelos)
JÁ OS PESADELOS
Os sonhos dos homens assemelham-se entre si.
Já os pesadelos, cada um tem o seu.
Durante muitos anos eu fui hóspede do frio.
Enrolava cigarros para depois da chuva
e não tinha sonhos, somente pesadelos.
O mais recorrente era o do nevoeiro:
ninguém me via, era inútil mandar vir
uma caneca de cerveja, no café.
O meu dinheiro ninguém o aceitava,
ficava parado, fazia de mim um acumulador.
Como nunca saía de casa, não sabia falar
senão com mortos. Parecia-me magia
saber responder boa tarde como vai
à saudação dos vizinhos, pedir do vazio
ao homem do talho, perguntar as horas.
Tempos amargos esses, e hoje,
a mesma coisa, a mesma solidão.
Com a diferença de que sou mais forte agora,
vou à piscina duas vezes por semana,
escrevo poemas para não adormecer.
JOSÉ MIGUEL SILVA
Vista para um pátio
(2003)
.
27.6.10
Sophia de Mello Breyner Andresen (Este é o tempo)
ESTE É O TEMPO
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Mar Novo
(1958)
[Ecos e memórias]
>> É este o meu tempo (Antonio Orihuela)
.
Íker Biguri (Assim é a superfície)
assim é a superfície do meu coração
esquartelada, tem bichos e um arbusto
tivesse eu um coração como Deus manda
seria vermelho como um tomate
brilhante como um ferrari
e aguçado como um palito
mas a mim Deus não me dá ordens
era o que mais faltava!
esse velho verde que me deixe em paz
Íker Biguri
[Poejos]
(Trad. A.M.)
.
26.6.10
José Agostinho Baptista (Da nossa morte)
DA NOSSA MORTE
Agora é tarde.
Ninguém responde às cartas que escrevi e
atirei ao mar,
quando pensei que um dia serias como esse
marinheiro que num sonho antigo abençoava
o filho e depois partia nas asas do albatroz.
Agora é tarde.
Ninguém responde à sombria música dos meus
punhos golpeando a cadeira vazia, a mesa, as
folhas em branco onde uma única palavra se
aproxima,
manejando as suas armas -
três letras, três sinais de fogo.
Agora é tarde.
Ninguém cala os tempestuosos rios no fundo
dos meus olhos,
quando penso nos vermes, nas viscosidades
que te procuram através do cetim.
José Agostinho Baptista
.
25.6.10
Blas de Otero (Deus nos livre dos livros maus)
DIOS NOS LIBRE DE LOS LIBROS MALOS
QUE DE LOS BUENOS YA ME LIBRARÉ YO
(En un homenaje a Gerardo Diego)
Para qué tantos libros, tantos papeles, tantas pamplinas.
Lo bonito es una pierna de mujer
—la izquierda a ser posible—,
un bosque bajo la lluvia, un buque norteamericano caído en manos del enemigo,
hay tanto que contemplar,
excepto la televisión,
cómo perder el tiempo en leer, pasar la página, cuidarse las anginas,
cuánto mejor callejear a la deriva,
esto sí que es un libro lo que se dice un libro de tamaño natural,
lleno de gente, tiendas, puestos de periódicos, casas en construcción
y otros versos.
Blas de Otero
[Cómo cantaba mayo]
Para quê tantos livros, tantos papéis e ninharias
O belo é uma perna de mulher
- a esquerda, se possível -
um bosque à chuva, um navio americano caído em mãos do inimigo,
há tanto para ver,
menos televisão,
como perder tempo a ler, virar a página, tratar as anginas,
muito melhor caminhar à deriva,
isso sim é que é um livro, como dizer, um livro em tamanho natural,
cheio de gente, lojas, quiosques, casas em construção
e outros versos.
(Trad. A.M.)
>> Fundación B.O. (tudo+algo) / A media voz (29p) / Arte poetica (19p) / Tinet (18p) /Poesi.as (13p)
.
João Miguel Fernandes Jorge (O comboio correio)
(31)
O comboio correio das 10 da noite partia da
minha terra para Lisboa. Fui tantas vezes
com o meu pai levar as cartas. Esperávamos
na gare. Se havia chuva ouvíamos o apito
quando passava à Granja vindo de Óbidos e
depois de correr o vale de S. Mamede.
O que mais me seduzia era o seu peso o negro
da máquina o movimento do êmbolo a nuvem de vapor
correndo toda a gare. Chegava entre videiras e
pântanos. O chefe da estação de
bandeirinha verde dava o sinal de entrada. Era
o intenso barulho os ferros da travagem
o bater das portas as carruagens verdes
enegrecidas, os castanhos wagons. Máquinas de carvão,
a diesel depois. O degrau de madeira ao
longo da carruagem, o romano nas portas I, II, e III.
Anos depois, já de mim se dizia «um homenzinho»
viajei nesse comboio das 10. Partia de
Coimbra, às cinco horas. Pelos campos do Mondego
a água, a matéria do ferro, confundi
com o caos. Reconheço neste comboio a forma
obscura, a intuição ridícula das imagens. A noite
corria de mistura com a triste lâmpada do
corredor, benefício do mistério, fogo fechado pela
trovoada sobre os campos do arroz, sobre o pinhal de Leiria.
Viajava em segunda. Vinha para casa no natal.
Eu tinha um emblema, vermelho e branco dos suíços,
na lapela do sobretudo. O meu irmão, as mãos
gretadas das frieiras sob umas luvas azuis. No
banco em frente,
uma professora de geografia rezava o terço
atenta à formação do espírito científico nascente.
Descolorido amor humano,
fornalha de comboio, coração das coisas a noite
corria fora e dentro da carruagem verde.
Meu pai estava na gare.
A longa fita de cabedal para fechar, abrir as
janelas. A rede onde pousava as malas.
Os corridos bancos de madeira ficavam na III.
Um guarda republicano cerrava todas as
noites sobre o azul do capote a portinhola.
O traço do comboio separa o céu da terra sob as estrelas
sob o limite da chama
a arte imita tanta vez a natureza.
João Miguel Fernandes Jorge
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