28.10.09

Antonio Machado (Conselhos)







CONSELHOS




Sabe esperar, aguarda que venha a maré
- como na costa um barco - e não te inquiete o partir.
Quem aguarda sabe que é sua a vitória;
porque a vida é longa e a arte um brinquedo.
E se a vida é curta
e o mar não chega à tua galera,
aguarda sem partires e espera sempre,
que a arte é longa e, ademais, não importa.




Antonio Machado



(Trad. A.M.)


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Cesário Verde (Contrariedades)







CONTRARIEDADES





Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.


Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.


Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.


Pobre esqueleto branco entre nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta à botica!
Mal ganha para sopas...


O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

(…)

Cesário Verde


Um verso (65)














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26.10.09

José Miguel Silva (Feios, porcos e maus)








FEIOS, PORCOS E MAUS




Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.


Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos — tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza em cima de tudo.


A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.




JOSÉ MIGUEL SILVA
Movimentos no Escuro
(2005)



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Juan Carlos Mestre (Parménides)








PARMÉNIDES





La verdad es una diosa que enseña el camino a los errantes.
Si debe ser necesaria la luz antes ha de no ser la noche.
El olvido es la presencia aparente de lo que aún existe.
La diosa habita el círculo de la benevolencia, es piadosa.
Lo femenino es la rueda de un carro, lo masculino la otra.
Yo soy dos semejanzas paralelas de amor, dos infinitos.
No sé si las yeguas piensan o padecen, dudo entonces.
¿Es más justo el que nace o el que no pudo ser?
Cuando me muera regresaré al todo de la nada. Estoy contento.



Juan Carlos Mestre







A verdade é uma deusa que ensina o caminho aos errantes.
Se há-de ser necessária a luz antes há-de não ser de noite.
O olvido é a presença aparente do que ainda não existe.
A deusa habita o círculo da benevolência, é piedosa.
O feminino é a roda de um carro, o masculino a outra.
Eu sou duas semelhanças paralelas de amor, dois infinitos.
Não sei se pensam ou padecem as éguas, então duvido.
É mais justo o que nasce ou o que não pôde ser?
Quando morrer hei-de voltar ao tudo do nada. Estou contente.


(Trad. A.M.)




Fontes: Juan Carlos Mestre (sítio pessoal / bio+poesia+galeria+ música) / A media voz (12p) / Wikipedia


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25.10.09

Ver (31)


Herberto Hélder (Sobre um poema)








SOBRE UM POEMA




Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Hélder



[Um buraco na sombra]


23.10.09

Enrique Vila-Matas (Estou cansada de ti)







(Estou cansada de ti, Hemingway...)





Nesse dia 25 de Agosto, a minha mulher e eu libertámos os nossos impulsos mais secretos, como se estivéssemos a libertar as caves do Ritz, libertámo-nos talvez demasiado.

Começámos por pedir dois daiquiris e, quando me animei um pouco, contei-lhe o choque militar de Malraux com Hemingway no Ritz.

“Estou cansada de ti, Hemingway”, disse-me de repente a minha mulher, filha e neta de militares.

E eu deveria ter-me lembrado nesse momento que nela pernoitava – o verbo mais adequado é precisamente este termo castrense, pernoitar – uma fobia sua do tipo militar, um ódio apenas nocturno e com álcool pelo meio, uma oculta mas séria aversão contra mim e sobretudo contra a minha mania de que alguém finalmente um dia, mesmo que seja sob a forma de mentira piedosa, me diga que me pareço fisicamente com Hemingway.

Mas não dei a devida importância àquele primeiro toque de agressividade.

Pedimos mais dois daiquiris e depois outros dois e a seguir mais dez, e eu passei a chamar aos daiquiris cocktails Malraux.

Soava bem, parecia-me que soava na perfeição: cocktails Malraux.

Mas já se tinha tornado tudo perigoso, como um gigantesco cocktail molotov.

De repente descobrimos que estávamos ali passava já da madrugada e, para o dizer em termos bem hemingwaianos, na outra margem e entre as árvores.

Rindo como felizes e verdadeiros palermas, as horas tinham-nos passado a voar e fazia-se-nos dia no bar.




- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 68.




António de Almeida Mattos (Te leio)








Te leio
poro a poro


e reescrevo
a golpes de cálamo


E ternura



António de Almeida Mattos


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22.10.09

Roque Dalton (Não te irrites, poeta)








NO TE PONGAS BRAVO, POETA





La vida paga sus cuentas con tu sangre
y tú sigues creyendo que eres un ruiseñor.


Cógele el cuello de una vez, desnúdala,
túmbala y haz en ella tu pelea de fuego,
rellénale la tripa majestuosa, préñala,
ponla a parir cien años por el corazón.


Pero con lindo modo, hermano,
con un gesto
propicio para la melancolía.



Roque Dalton






A vida paga as contas com teu sangue
e tu ainda pensas que és um rouxinol.


Agarra-lhe o pescoço duma vez, desnuda-a,
tomba-a e solta nela tua peleja de fogo,
enche-lhe a tripa majestosa, emprenha-a,
põe-na a parir cem anos pelo coração.


Mas com lindo modo, meu irmão,
com um gesto
propício à melancolia.


(Trad. A.M.)
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Manoel de Barros (Retrato quase apagado)








RETRATO QUASE APAGADO EM QUE SE PODE VER PERFEITAMENTE NADA





(I)


Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.





MANOEL DE BARROS
O Guardador de Águas



[Jornal-de-Poesia]




20.10.09

Silvia Ugidos (Possível auto-retrato)









POSIBLE AUTORRETRATO






Yo siempre quise ser una mujer de bien,
ser alguien de provecho, valiente, emprendedora,
mesurada en las fobias, estable en los afectos,
brillante en los estudios, por poner un ejemplo.


Yo siempre quise ser una mujer de bien
y tenerlos a todos felices y contentos,
a mis padres y amigos, a Fulano y a Mengano,
a Diestro y a Siniestro…


Pero hay alguien en mí que todo lo estropea,
que tuerce los caminos, equivoca las cosas,
desbarata mis planes, incumple mis promesas.
Alguien que pisa antes que yo sobre mis huellas.


En fin, visto lo visto, ya lo dicen mis padres:
“a este paso, hija mía, no llegarás a nada”.
Está bien, os lo debo, lo siento, lo confieso:
aludiendo a un anuncio, no soy como Farala.


Soñadora, insegura, mitómana, algo vaga,
con vocación de hormiga y verano de cigarra,
contradictoria y harta de conciliar extremos
en mi defensa alego


que siempre quise ser una mujer de bien
pero que en su defecto
soy, en el buen sentido de la palabra, mala.




Silvia Ugidos







Eu sempre quis ser uma mulher de bem,
alguém útil, excelente e resolvida,
contida nas fobias, estável nos afectos,
brilhante nos estudos, só para dar um exemplo.


Eu sempre quis ser uma mulher de bem
e fazer todos felizes e contentes,
a meus pais e amigos, a fulano e cicrano,
a um lado e a outro…


Mas há em mim alguém que tudo estropia,
que torce os caminhos, baralha as coisas,
desbarata-me os planos, incumpre-me as promessas.
Alguém que pisa antes de mim o meu próprio rasto.


Enfim, visto o dito, já dizem meus pais:
“por este andar, filha, não hás-de chegar a nada”.
Está bem, fico a dever, lamento, confesso:
não sou como Farala, a outra do anúncio.


Sonhadora, insegura, mitómana, um pouco vaga,
com vocação de formiga e verão de cigarra,
contraditória e sempre a conciliar extremos,
em minha defesa alego


que quis sempre ser uma mulher de bem
mas em vez disso sou antes,
no bom sentido da palavra, má.



(Trad. A.M.)
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19.10.09

Manuel António Pina (Completas)








COMPLETAS





A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.



E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.



Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.



Manuel António Pina


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Um verso (64)













Um verso de Ruy Belo
(Deus lhe fale na alma, já disse?):







A minha vida é hoje um sítio de silêncio.



Ruy Belo

18.10.09

Joan Margarit (Princípios e finais)









PRINCIPIOS Y FINALES




Un tiempo fui una chica con futuro.
Podía leer a Horacio y a Virgilio en latín
y recitar a Keats completo de memoria.
Al entrar en sus cuevas, los adultos
me capturaron: comencé a parir
hijos de un hombre estúpido y creído.
Ahora cuando puedo lleno el vaso
y lloro al recordar algún verso de Keats.
Una no sabe, cuando es joven,
que no hay lugar alguno
donde poder quedarse para siempre.
Y le parece extraño si no llega
aquel o aquella en quien hallar descanso.
Una ignora, de joven, que los principios
no se parecen nunca a los finales.


Joan Margarit


[Noctambulario]







Em tempos fui uma rapariga de futuro.
Lia Horácio e Virgílio em latim
e recitava Keats completo de memória.
Ao entrar-lhes nas grutas, os adultos
prenderam-me: comecei a parir
filhos de um homem estúpido e acreditado.
Agora quando posso encho o copo
e choro ao recordar algum verso de Keats.
Não se sabe, quando se é jovem,
que não há lugar nenhum
onde se possa ficar para sempre.
E estranhamos se não chega
aquele ou aquela em quem acharmos repouso.
Ignoramos, quando jovens, que os princípios
jamais se parecem com os finais.


(Trad. A.M.)




Lugares: Joan Margarit (sítio pessoal/tudo+algo) / A media voz (36p) / Antologia Catalã / Wikipedia /
El coloquio de los perros (2007 - núm. monográfico)

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Fernando Pessoa / R. Reis (Para ser grande)







Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.


Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.


Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Ricardo Reis




Enrique Vila-Matas (Uma lésbica delambida)








(Uma lésbica delambida...)






Uma tarde de inverno, nas águas-furtadas, enquanto escrevia, pareceu-me que Elena Villena, um dos personagens de La asesina ilustrada, estava atrás de mim e ditava-me o que eu devia dizer sobre ela.

“Não sou lésbica”, ouvi-a dizer nitidamente.

Voltei-me e não a vi, mas dava a impressão de que acabava de se esfumar uma décima de segundo antes.

“Pois agora passas a ser lésbica o tempo todo”, disse-lhe.

Não se ouviu resposta.

Agradou-me saber que tinha autoridade suficiente para evitar a rebelião dos meus personagens, saber que não podia nem devia passar-se comigo o que acontecia a Unamuno em Niebla e que no colégio tantas vezes nos tinham contado.

E o que mais me agradava por ser escritor era a liberdade que alcançava na solidão das minhas águas-furtadas.

Uma liberdade bem alheia ao patriarcal e autoritário mundo familiar e político que deixara para trás em Barcelona.

Não me tinha convertido em escritor e num homem livre em Paris para que viesse uma delambida, ao fim e ao cabo inventada por mim, estragar-me tudo com os seus caprichos e ordens.



- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 58.


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16.10.09

Daniel Jonas (Pecado capital)







PECADO CAPITAL



A Vitória de Samotrácia
é mais ou menos a minha história
sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.


Daniel Jonas


[Poesia & Lda]


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Olhar (60)










Alcabideque
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(Condeixa)
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> hoje
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14.10.09

Leopoldo María Panero (A Belial)







A BELIAL




Cuando en el crespúsculo las ancianas sollozan,
acudes tú Belial
a borrar con una esponja de vino los pecados
Y a convertir en vino el pan dorado
el pan que dora el sufrimiento de los locos
el amargo pan de la muerte
y escucho tus pasos venir, venir a ayudarme
y respondes, tú solo respondes
a ese grito en la habitación a oscuras.




LEOPOLDO MARÍA PANERO
Guarida de un animal que no existe
Visor Libros, 2000



[Mal Situados]






Quando no crepúsculo as velhas soluçam
acorres tu Belial
a apagar os pecados com uma esponja de vinho
e a converter em vinho o pão dourado
o pão que doura o sofrimento dos loucos
o amargo pão da morte
e escuto a vir os teus passos, a vir ajudar-me
e respondes, só tu respondes
a esse grito no quarto às escuras.


(Trad. A.M.)


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