19.12.20

Ruy Belo (Um dia não muito longe)

 


UM DIA NÃO MUITO LONGE

 
Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?


Ruy Belo

.

17.12.20

Jorge Boccanera (Fiapos)

 


HILACHAS   

 

Es el silencio el guante de una voz?
¿Se podría tocar?
Recordaríamos el silencio de un día cualquiera
cuando niños?
¿Acaso vuela al ras del suelo?
El poeta que se llama a silencio, ¿va
voluntariamente o el silencio lo llama?
El que calla, ¿otorga?

Son respuestas que yo no puedo preguntar.
No le temo al silencio,
aun cuando se estrelle con sus alas de polvo en
mi ventana.
No da miedo escucharlo.
Tengo miedo de verlo.


Jorge Boccanera

 

 

Será o silêncio a luva duma voz?
Poderia tocar-se?
Recordaríamos o silêncio dum dia qualquer
em crianças?
Acaso voa à flor do chão?
O poeta que se chama ao silêncio vai
de boamente ou o silêncio o chama?
Quem cala, consente?

Eis respostas que eu não posso perguntar.
Não temo o silêncio
mesmo quando se estampa na minha janela
com suas asas de pó.
Não me dá medo escutá-lo,
tenho medo é de vê-lo.

(Trad. A.M.)

 .

16.12.20

Jorge Ampuero (Ruptura)

 



QUIEBRE            

 

 Tendido sobre la hierba
desolada del verano
pienso que nada
puede suceder
de repente
una gota
de lluvia
cae
y el mundo
tiembla. 

Jorge Ampuero 

[Jorge Ampuero]

 

 Estendido na erva
desolada do Verão
penso que nada
pode acontecer
de repente
uma gota
de chuva
cai
e o mundo
estremece. 

(Trad. A.M.)

 .


14.12.20

Paulo Leminski (Parada cardíaca)

 


PARADA CARDÍACA

 

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Paulo Leminski

 .

12.12.20

Joaquín Márquez (Encontro)

 



ENCUENTRO

 

Ibas posiblemente a alguna cita;
el pelo presuroso, los ojos ya llegados
—¿cómo hubieras podido reconocerme? Al verte
me sentí duplicada la memoria.
Fueron cuatro estaciones de metro; las que miden
Stalingrado y Chateau d’Eau —en el agua
se me perdió tu imagen, como siempre. Saliste
de aquel vagón de metro sin mirarme
y tus manos de música siguieron a tu lado
como gemelas tontas.
Comprendí que eras tú porque al instante
reconocí tu ausencia. Pasó todo
como en un mundo ajeno, como en el sueño de otro,
pero qué me importaba. Tú, vestida
de ti, sentada enfrente, en aquel metro de París estabas
repitiendo la historia. Si no me conociste
fue porque eras muy joven para aquellos recuerdos.

Joaquín Márquez

[Trianarts]

 

 

Ias decerto para algum encontro;
o cabelo apressado, os olhos já chegados
- como podias reconhecer-me? Ao ver-te
senti como que a memória duplicada.
Foram quatro estações de metro, entre
Stalingrado e Chateau d’Eau – na água
foi-se-me a tua imagem, como sempre.
Saíste
da carruagem sem me olhar
e tuas mãos de música continuaram a teu lado,
quais gémeas tontas.
Percebi que eras tu porque no mesmo instante
captei-te a ausência. Tudo aconteceu, diria,
num mundo alheio, como que no sonho de outrem,
mas que me importava? Tu, vestida
de ti, sentada em frente, nesse metro de Paris estavas
a repetir a história. Se não me conheceste
foi porque eras muito nova para tais lembranças.

(Trad. A.M.)

.

11.12.20

Joaquín Giannuzi (Notícias)

 



NOTÍCIAS

  

Cuando la comedia humana se pone movida
los periódicos
abundan en golpes de estado, huelgas generales,
crímenes, bodas, insurrecciones y muertes terribles.
Del basurero de la historia no colman la medida.
Sin embargo,
¿quién consagró estos factos?

Esta mañana el viento
golpeó en algunas ventanas.
Un hombre y un perro cruzaron la calle.
María reclinó la cabeza a las tres de la tarde.
Nadie contó estas verdades.

 No hay sucesos pequeños.
En el taller de mi esquina, cuando amanecía,
un obrero puso en marcha un motor.
Nadie habló de ese gesto oscuro.
Pero a partir de entonces
infinitas cosas se pusieron a funcionar a causa suya.
Así, de simple y rico,
y tan fecundo hacia distintas direcciones
el menor movimiento de tu mano.

Joaquín Giannuzzi

[Emma Gunst]

 

Quando a comédia humana se põe em movimento,
os jornais
abundam em golpes de estado, greves gerais,
crimes, bodas, insurreições e mortes terríveis.
Do monturo da história não enchem a medida.
E todavia,
quem é que consagrou estes factos?

Hoje de manhã o vento
embateu em algumas janelas.
Um homem e um cão atravessaram a rua.
Maria reclinou a cabeça eram três da tarde.
Ninguém contou estas verdades. 

Não há acontecimentos pequenos.
Na oficina da minha rua, ao amanhecer,
um operário pôs um motor a trabalhar.
Ninguém falou desse gesto obscuro.
Mas a partir daí inúmeras coisas
se puseram a funcionar por causa disso.
Assim também, tão rico e singelo,
e tão fecundo em consequências,
o mais leve movimento da tua mão.
 

(Trad. A.M.)

 .

9.12.20

Adélia Prado (A que não existe)

 



A QUE NÃO EXISTE

 

Meus pais morreram,
posso conferir na lápide,
nome, data e a inscrição: SAUDADES!
Não me consolo dizendo
'em minha lembrança permanecem vivos',
é pouco, é fraco, frustrante como o cometa
que ninguém viu passar.
De qualquer língua, a elementar gramática
declina e conjuga o tempo,
nos serve a vida em fatias,
a eternidade em postas.
Daí acharmos que se findam as coisas,
os espessos cabelos, os quase verdes olhos.
O que chamamos morte
é máscara do que não há.
Pois apenas repousa
o que não pulsa mais.


Adélia Prado

[Antonio Miranda]

 .

7.12.20

José Luis Piquero (Onda de roubos)

 


OLA DE ROBOS

 

 Mientras tú y yo dormimos
los ladrones están a la puerta de casa.
Tienen fantasías contigo:
te violarían ante mí si pudieran quedar impunes.
Ellos desean todo lo que tenemos,
pero nosotros no tenemos nada.
¿Tendré que contemplar cómo nos aniquilan?
Tal vez me peguen un tiro en la cabeza
y se lleven mi ordenador.
Contiene todos mis secretos, como tú misma. 

Vamos a echar todos los cerrojos,
vamos a hacernos compañía en el miedo. Los vecinos
también sueñan con hordas de asesinos thug
acechando en el jardín.
Y aún así seguiremos levantándonos cada mañana
y haciendo los mismos gestos:
¿Aún queda zumo de naranja, amor?
                                             Tenemos toda la pinta
de ir a morir cualquier día, y Dios sabe cómo
y lo que nos harán durante.
 

José Luis Piquero

[Caja de tormentas] 

 

Enquanto tu e eu dormimos
os ladrões estão à porta de casa.
Têm fantasias contigo,
violam-te na minha frente se puderem ficar impunes.
Eles querem tudo o que temos,
mas nós não temos nada.
Terei de nos ver a ser aniquilados?
Talvez me dêem um tiro na cabeça
e me levem o computador,
tem os meus segredos todos, até a ti.

Vamos correr os ferrolhos,
fazer-nos companhia no medo. Os vizinhos
também sonham com hordas de assassinos thug
espreitando no jardim.
E mesmo assim continuaremos a erguer-nos todas as manhãs
e a fazer os mesmos gestos:
Ainda há sumo de laranja, amor?
               Temos toda a pinta
de ir morrer qualquer dia, sabe Deus como
e o que nos farão até lá.


(Trad. A.M.)

.

6.12.20

Benjamín Prado (Mara)

 


MARA



Mara, fantasma azul de mis dieciséis años,
tú que fuiste una vez todo la que perdí
y la que nunca tuve.

Mara, labios de fruta,
igual que la vidriera monopoliza el sol,
te quedaste una tarde con mi vida.

Mara, almendra del mundo, yo acaricié tu piel,
supe que en ti empezaba un continente,
vi minas de oro,
                                  campos de fresas,
                                                                         arrecifes;
vi montañas y bosques donde vivir contigo.

Mara,
              tú fuiste el centro de mis ojos,
el corazón del mar,
                                         la llave de los días,
la mismo que la vela es el núcleo de la noche,
el eje de los vientos.

Mara,
            cómo juntar
tus diecisiete años y un cementerio oscuro,
lleno de cruces blancas clavadas en la luna.

Mara,
            cereza dulce,
                                       ecuador de las cosas,
tú encontraste la muerte cuando ibas a buscarme.

Mara abismo, Mara veneno rojo,
Mara jardín desierto,
rosa bella y terrible cortada de mi vida.

 

Benjamín Prado

 

 

Mara, fantasma azul dos meus dezasseis anos,
tu que uma vez foste tudo o que perdi e a que nunca tive.

Mara, lábios de fruta,
tal como a vidraça monopoliza o sol,
ficaste-me com a minha vida uma tarde.

Mara, amêndoa da vida, eu afaguei tua pele,
soube que um continente em ti começava,
vi minas de oiro,
               campos de fresas,
                                            recifes;
vi montanhas e bosques onde viver contigo.

Mara,
               tu foste a menina dos meus olhos,
o coração do mar,
                              a chave dos dias,
tal como a vela é o núcleo da noite,
a rosa dos ventos.

Mara,
               como juntar
teus dezassete anos e um escuro cemitério,
cheio de brancas cruzes cravadas na lua.

Mara,
               cereja doce,
                               equador das coisas,
tu encontraste a morte quando me procuravas.

Mara abismo, Mara veneno vermelho,
Mara deserto jardim,
rosa linda e terrível, arrancada à minha vida.


(Trad. A.M.)

.

4.12.20

Antonio Cicero (Huis clos)

 


HUIS CLOS

 

Da vida não se sai pela porta:
só pela janela. Não se sai
bem da vida como não se sai
bem de paixões jogatinas drogas.
E é porque sabemos disso e não
por temer viver depois da morte
em plagas de Dante Goya ou Bosh
(essas, doce príncipe, cá estão)
que tão raramente nos matamos
a tempo: por não considerarmos
as saídas disponíveis dignas
de nós, que, em meio a fezes e urina
sangue e dor, nascemos para lendas
mares amores mortes serenas.
 

Antonio Cicero

[Antonio Cicero]

 .


2.12.20

Ida Vitale (Resíduo)

 


RESIDUA 

 

Corta la vida o larga, todo
lo que vivimos se reduce
a un gris residuo en la memoria.
De los antiguos viajes quedan
las enigmáticas monedas
que pretenden valores falsos.
De la memoria sólo sube
un vago polvo y un perfume.
¿Acaso sea la poesía?

 
Ida Vitale

 

 

Curta ou longa a vida, tudo 
se reduz a um grãozinho
cinzento na memória.
Das antigas viagens ficam
as enigmáticas moedas
que fingem de valores falsos.
Da memória sobe apenas
uma poeira vaga, um perfume.
Será acaso a poesia?

 
(Trad. A.M.)

 


1.12.20

Eugenio Montejo (Se eu voltar algum dia)

 


Si vuelvo alguna vez
será por el canto de los pájaros.
No por los árboles que han de partir conmigo
o irán después a visitarme en el otoño,
ni por los ríos que, bajo tierra,
siguen hablándonos con sus voces más nítidas.
Si al fin regreso corpóreo o incorpóreo,
levitando en mí mismo,
aunque ya nada logre oír desde la ausencia,
sé que mi voz se hallará al lado de sus coros
y volveré, si he de volver, por ellos;
lo que fue vida en mí no cesará de celebrarse,
habitaré el más inocente de sus cantos.

 
Eugenio Montejo

 

 

Se eu voltar algum dia
será pelo canto dos pássaros.
Não pelas árvores que hão-de partir comigo
ou irão depois visitar-me no Outono,
não pelos rios que, por baixo da terra,
continuarão a falar-nos com suas vozes mais nítidas.
Se no fim regressar, corpóreo ou incorpóreo,
levitando em mim mesmo,
embora nada possa já ouvir na ausência,
sei que minha voz estará ao lado de seus coros,
e voltarei, se hei-de voltar, por eles;
o que foi vida em mim não deixará de celebrar-se,
e eu habitarei o mais inocente dos seus cantos.

 
(Trad. A.M.)

 .


29.11.20

Adília Lopes (Não gosto tanto de livros)

 



NÃO GOSTO TANTO DE LIVROS

  

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito de seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever. 

Adília Lopes

 .

27.11.20

Ángel Manuel Gómez Espada (Há vinte anos)

 


Hace veinte años el futuro era metalúrgico.
Desde luego, no era esta ciudad,
estas calles amarillas que fotografío,
estos cafés de debate y mercadillo.
Ni esta casa donde habito,
patrocinada por las repúblicas independientes de Ikea;
ni mi madre en una silla de ruedas,
viuda y con dos piernas como columnas jónicas;
ni mi hermano en el paro,
cosido a una incertidumbre
patrocinada por el Banco Santander;
ni los amigos tan lejos,
en los extrarradios de Europa.
Por supuesto, no entraba dentro de los planes
de aquel futuro siderúrgico y profiláctico
este trabajo que me abochorna y aletarga,
que se come mis memorias de domingo;
ni esta mascarilla que me proporciona
el oxígeno suficiente para seguir ejerciendo
el difícil arte del sueño;
ni una hermosa ahijada en Lyon
que enciende cualquier primavera
y que crece durante llamadas telefónicas.
Algunas certidumbres sí que estaban:
Lisboa, París, Roma, Pekín
y el dulce reencuentro con la nieve,
siempre bienvenida.
Pero de alguna manera tú sí estabas.
Comenzabas a mostrarte en aquella nebulosa,
a convertirte en lo que acabaste siendo:
esa melodía a la que uno siempre regresa,
como regresamos a Mozart o a Pessoa,
y que nos obliga a sentirnos cómodos
y en armonía con la vida,
por muy cenicienta que se nos presente,
agazapada entre nieblas y dudas.
Porque la vida es Luciano cantando Nessun Dorma
y no lo que asoma por los telediarios.
Es tu pure, o Principessa, Nella tua freda stanza,
y no caídas en las bolsas europeas,
cadáveres en Siria o Palestina,
matanzas en Boston o en Connecticut.
La vida es tu mano mostrándome el futuro,
semilla y certidumbre.

Ángel Manuel Gómez Espada

[Caja de tormentas]

 


Há vinte anos o futuro era metalúrgico.
Desde logo, não era esta cidade,
estas ruas amarelas que fotografo,
estes cafés de debate e de feira.
Nem esta casa onde moro,
patrocinada pelas repúblicas independentes da Ikea;
nem minha mãe numa cadeira de rodas,
viúva e com duas pernas como duas colunas jónicas;
nem meu irmão no desemprego,
abraçado a uma incerteza
patrocinada pelo Banco Santander;
nem os amigos tão longe,
na periferia da Europa.
Claro, não estava nos planos
daquele futuro siderúrgico e profilático
este trabalho que me aflige de calor e de sono
e que me come as lembranças de domingo;
nem esta máscara que me proporciona
o oxigénio bastante para continuar exercendo
a difícil arte do sonho;
nem uma bela afilhada em Lyon
que acende qualquer primavera
e que cresce durante as chamadas telefónicas.
Algumas certezas, sim, existiam:
Lisboa, Paris, Roma, Pequim
e o doce reencontro com a neve, sempre bem-vinda.
Mas de algum modo existias tu,
começavas a mostrar-te naquela nebulosa,
a converter-te no que acabaste por ser:
aquela melodia a que sempre se regressa,
como se regressa a Mozart e a Pessoa,
e que nos faz sentir-nos cómodos, de bem com a vida,
por muito cinzenta que se nos depare,
agachada entre névoas e dúvidas.
Porque a vida é Luciano cantando Nessun dorma
e não aquilo que se vê nos telejornais;
é tu pure, O principessa, Nella tua freda stanza,
e não as quedas nas bolsas europeias,
cadáveres na Síria ou na Palestina,
matanças em Boston ou no Connecticut.
A via é a tua mão a mostrar-me o futuro,
semente e certeza.


(Trad. A.M.)


>>  Hector Castilla (vários pp+info) / Monolito (entrevista) /  Enrique Falcó (vários pp+perfil) / Rua dos Anjos Pretos (blogue)

.

26.11.20

Rubén Darío (Tu és meu)

 


TÚ ERES MÍO, TÚ ERES MÍA



Niña hermosa que me humillas
con tus ojos grandes, bellos:
son para ellos, son para ellos
estas suaves redondillas.

Son dos soles, son dos llamas,
son la luz del claro día;
con su fuego, niña mía,
los corazones inflamas.

Y autores contemporáneos
dicen que hay ojos que prenden
ciertos chispazos que encienden
pistolas que rompen cráneos.

Rubén Darío

 

 

Nina formosa que me humilhas
com teus olhos grandes e belos:
são para eles, são para eles,
estas suaves redondilhas.

São dois sóis, duas chamas,
são a luz do claro dia;
com seu fogo, nina linda,
muitos corações inflamas.

E autores contemporâneos
dizem que há olhos que prendem,
certas faíscas que acendem,
pistolas que partem crâneos.


(Trad. A.M.)


>>  A media voz (35p) / A media voz 2 (60p)

.

24.11.20

Luís Miguel Nava (Basalto)


 


BASALTO

 

Agora que se o mar ainda
rebenta é por acção da memória, arrancam-me
basalto ao coração ondas fortíssimas.

Ainda o vejo às vezes por aí, olhamo-nos
então como se à boca
nos viesse o sabor do nosso próprio coração,
mas pouco há a dizer acerca disso.


Luís Miguel Nava

 .

22.11.20

Belén Reyes (A morte é ilegal)

 


LA MUERTE ES ILEGAL

 

La muerte es ilegal
Y nadie dice nada
Ni una denuncia, un grito
Ni un poema pancarta
Ni un juez que lo investigue
La vida es una estafa.
Nacemos sin permiso
Y crecemos sin ganas
Si soñamos nos duermen
Si sentimos nos talan
Somos sauces llorones
Arrastrando las lagrimas

Morirse es un delito
Nacer es una estafa
Y todos calladitos
Tragándonos el alma
Envejecer sin ruido
Sin molestar palmarla
A escondidas, solitos
Que los hijos trabajan
Que no pidan permisos
que aquí nunca se aparca
y el parking  vale caro

Solo soy una carga
quiero morirme ya
este fin de semana
cuando libran los hijos
no molestar, sin drama
irme de aquí, vergüenza
de enfermar, dar la lata
no salpicar dolor,
que me laven sin ganas
el culo dos extraños
mientras hablan del barsa.

La muerte es ilegal
Y nadie dice nada


Belén Reyes

 

 

A morte é ilegal
E ninguém diz nada

Nem uma denúncia, um grito
Nem um poema ou cartaz
Nem umjuiz que investigue
A vida é uma cilada.
Nascemos sem licença
E crescemos sem vontade
Se sonhamos adormecem-nos
Se sentimos nos calcam
Somos salgueiros chorões
A arrastar as lágrimas

Morrer é um delito
Nascer uma cilada
E todos caladinhos
A engolirmos a alma
Envelhecer sem barulho
Bater a bota, não incomodar
Sozinhos, escondidos
Que os filhos trabalham
Que não peçam dispensa
que aqui não se aparca
e o parque custa caro

Sou apenas um carrego
quero morrer aqui já
este fim de semana
na folga dos filhos
sem drama, não incomodar
ir-me daqui, vergonha
de adoecer, de chatear
não esparrinhar a dor
que lavem sem vontade
o cu dos estranhos
enquanto discutem a bola.

A morte é ilegal
E ninguém diz nada


(Trad. A.M.)

.

21.11.20

Joaquín Antonio Peñalosa (Embora seja noite)

 


AUNQUE ES DE NOCHE

 

No es mía la noche
de vasos rojos y de besos rojos.

 Ni siquiera la noche que amortaja
conciencia y ojos en el camposanto del sueño.

 Mía es la noche del suero
que eterniza la gota y el quejido

 La noche del asfalto del trailer
que soporta con café y con aspirinas.

 La noche de las redes que acechan
los jardines flotantes de los peces.

 La noche de los relâmpagos
que aluzan entre abismos
el paso de la mula y del indio.

La noche de vendimia de mujeres,
a elegir esclavas a precios razonables. 

Mía la noche con olor laboral de obrero;
si la fábrica para, para el universo,
¿y el obrero, qué? 

La noche rodante del metro
donde los sin-techo cabecean,
el mismo tabaco, la misma ruta.

Mía la noche de los barrotes,
prohibida la entrada a la luna y la justicia.
Tantos son los expertos de la noche,
tan pocos los centinelas del alba.


Joaquín Antonio Peñalosa

 

 

Não é minha a noite
de copos e beijos vermelhos.

Nem mesmo a noite que amortalha
olhos e consciência no cemitério do sonho.

Minha é a noite do soro
que eterniza a gota e o queixume.

A noite do asfalto do trailer
que vai com café e com aspirinas.

A noite das redes que envolvem
os jardins flutuantes dos peixes.

A noite dos relâmpagos
que alumiam por entre abismos
os passos da mula e do índio.

A noite de vindima das mulheres,
escolhendo escravas a bom preço.

Minha a noite com cheiro de operário;
parando a fábrica, pára o mundo todo,
e o operário, depois?

A noite circulante do metro,
onde cabeceiam os sem-abrigo,
o mesmo tabaco, a mesma rota.

Minha a noite dos barrotes,
entrada proibida na lua e na justiça.
Tantos são os especialistas da noite
e tão poucas as sentinelas da aurora.


(Trad. A.M.)

.

19.11.20

Jorge Sousa Braga (Dióspiros)



DIÓSPIROS




Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
muito depois

se deixam morder


Jorge Sousa Braga

[Acontecimentos]

___________________

Dióspiros:
Francisco Duarte Mangas / A.M.Pires Cabral

 .

17.11.20

Manuel Rico (Madrid, 11 Março)

 


MADRID: 11 DE MARZO

 

Marzo desnivelado por las cifras
del desaliento. Marzo de muerte,
triste marzo de trenes y extrarradios marchitos,
marzo de sueños rotos y niños deshabitados,
de pronombres sin nombre, de apellidos
quebrados y relojes sin hora, marzo de los teléfonos
enmudecidos.
Mi ciudad asolada. Mis tierras y mis trenes,
asolados, mis ojos y mis manos
y mis brazos,
asolados. Muerte sembrada bajo la luz
de un Madrid lateral
hecho de andenes periféricos, de seres menesterosos,
de mujeres crecidas en la sombra diaria
del tiempo inabarcable del trabajo,
de hombres cultivados
en el silencio anónimo de las factorías,
de humildes bachilleres y de párvulos,
de viejos azorados por noticias de muerte,
de bares conmovidos por la niebla y la sangre,
de juguetes sin niño,
de huérfanos sin ira,
de vacías acequias,
de fogatas sin lumbre.

Madrid de hospitales, de lutos y de marzo.
Capital de la niebla y del dolor. Ciudad de los estanques
del silencio.
Madrid desbaratado y mío. Madrid nuestro.
Como los muertos, nuestro.
Dueño de un mes de marzo
descolorido y turbio, pero nuestro.
Entre muertos y lágrimas,
es más nuestra y cercana la ciudad. También más triste.


Manuel Rico

 

 

 

Março desnivelado pelas cifras
do desalento. Março de morte,
triste Março de comboios e murchos arrabaldes,
Março de sonhos desfeitos e ninos desabitados,
de pronomes sem nome, de apelidos
quebrados e relógios sem hora, Março dos telefones
emudecidos.
Minha cidade assolada. Minhas terras e comboios,
assolados, meus olhos e minhas mãos
e meus braços,
assolados. Morte semeada
sob a  luz de um Madrid marginal
de plataformas periféricas,
de seres carecidos,
de mulheres crescidas na sombra diária
do tempo de trabalho,
de homens cultivados
no silêncio anónimo das fábricas,
de humildes bacharéis e arraia-miúda,
de velhos assustados por notícias de morte,
de bares comovidos pela névoa e sangue,
de brinquedos sem criança,
de órfãos sem ira,
de vazias levadas,
de fogueiras sem lume.

Madrid de hospitais, de lutos e de Março.
Capital da dor e da névoa. Cidade dos poços
do silêncio.
Madrid desbaratado e meu, Madrid nosso.
Como os mortos, nosso.
Dono de um mês de Março
descolorido e turvo, mas nosso.
Entre mortos e lágrimas,
é mais nossa e mais íntima a cidade.
Mais triste também.


(Trad. A.M.)

.