30.4.19

Rosalía de Castro (Eu em meu leito de abrolhos)





Yo en mi lecho de abrojos,
tú en tu lecho de rosas y de plumas;
verdad dijo el que dijo que un abismo
media entre mi miseria y tu fortuna.
Mas yo no cambiaría
por tu lecho mi lecho,
pues rosas hay que manchan y emponzoñan,
y abrojos que a través de su aspereza
nos conducen al cielo.

Rosalía de Castro




Eu em meu leito de abrolhos,
tu em teu leito de penas e rosas;
verdade falou quem disse que
um abismo separa a minha miséria
da tua fortuna.
Mas eu não trocava
o meu leito pelo teu,
porque rosas há que empestam e mancham
e abrolhos que pela aspereza
nos conduzem ao céu.

(Trad. A.M.)

.

29.4.19

Andrés Trapiello (Widmung)





WIDMUNG



En silencio la casa.
Una lámpara en pie con su universo
pequeño y armonioso,
y en el balcón la luna con su peplo.

Peplo, una palabra culta
para vosotros, hijos.
¿No oís en el cristal de la ventana
la mariposa acometiendo ciega?

No le bastan la noche de verano
ni todas las estrellas.
Quiere también entrar,
coronar vuestras frentes y libar
en esas blancas manos
que el cansancio amoldó sobre el embozo,
mazapanes de un horno.

El ruiseñor se ha ido y la lechuza
de la vieja almazara ulula y piensa
con sílabas lejanas
para no despertar vuestro reposo.

Dormís, dormís, y vuestro padre al lado
va escribiendo estos versos,
e igual que la falena misteriosa,
golpea en el papel como en un vidrio
y en la poesía trata así de entrar,
como en la luz la noche.


Andrés Trapiello

[Turia]




Em silêncio a casa.
Uma lâmpada erguida com seu universo
pequeno e harmonioso,
e na varanda a lua com seu manto.

Manto, uma palavra culta
para vós, meus filhos.
Não ouvis no vidro da janela
a borboleta a bater, cega?

Não lhe bastam a noite de verão
nem as estrelas todas.
Quer também entrar,
coroar as vossa frontes e libar
nessas brancas mãos
que o cansaço moldou no lençol,
maçapães de um forno.

O rouxinol abalou e a coruja
do alambique ulula e pensa
com sílabas distantes
para não vos acordar do repouso.

Dormis, dormis, enquanto o vosso pai
vai escrevendo estes versos,
e tal como a borboleta
marra no papel como num vidro
e tenta assim entrar na poesia
como a noite na luz.

(Trad. A.M.)

28.4.19

Jaime Salazar Sampaio (Parábola)





PARÁBOLA



um homem era pobre e vendeu um braço.
continua sem dinheiro e agora é maneta.


JAIME SALAZAR SAMPAIO            
O Viajante Imóvel
Plátano Editora (1979)

.

26.4.19

Juan Gelman (A chave do gás)




LA LLAVE DEL GAS



La mujer del poeta está
condenada a leer o a escuchar los
versos del poeta que humean
recién sacados del alma. Y más:
la mujer del poeta
está condenada al poeta, a ése
que nunca sabe dónde
está la llave del gas y finge
que pregunta para saber
cuando sólo le importa preguntar
lo que no tiene respuesta.


Juan Gelman

[Apología de la luz]




A mulher do poeta está
condenada a ler ou escutar os
versos do poeta, mal arrancados
da alma, ainda a fumegar. Mais,
a mulher do poeta
está condenada ao poeta, esse tal
que nunca sabe onde está
a chave do gás e finge
que pergunta para saber,
quando lhe importa só perguntar
o que resposta não tem.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L.P.)


24.4.19

Sara Zapata (Lições que não vêm nos livros)





LECCIONES QUE NO SALEN EN LOS LIBROS



Estás aprendiendo a saltar a la pata coja,
a bucear con los ojos abiertos
en una piscina llena de peces
que hasta ayer yo no veía.
Me enseñas el arco iris
dentro de una pompa de jabón
y mientras yo te bajo la fiebre,
tú me quitas la tristeza
con esos donuts de plastilina
que tan ricos te salen.
Apenas sabes nada de esta vida,
pero sabes;
cómo borrar el agotamiento,
el hastío de ciertos días,
las preguntas sin respuesta
con uno de esos:
"Te quiero hasta el infinito".
Y así,
con tus conquistas diarias,
tu risa constante,
y ese quererme imperfecta,
voy clareando las sombras.
Regreso.
Vuelvo a ti,
cuando me pierdo.

Sara Zapata



Andas a aprender a saltar ao pé-coxinho,
a mergulhar de olhos abertos
numa piscina cheia de peixes
que até ontem eu não via.
Mostras-me o arco-íris
numa bola de sabão
e enquanto eu te baixo a febre,
tu tiras-me a tristeza
com esses donuts de plasticina
que te saem tão bem.
Não sabes quase nada da vida,
mas sabes:
como apagar o cansaço,
o fastio de certos dias,
as perguntas sem resposta
com um daqueles ‘amo-te até ao infinito’.
E assim,
com tuas diárias conquistas,
teu riso constante,
e esse querer-me imperfeita,
vou aclarando as sombras.
Regresso.
A ti volvo,
quando me perco.

(Trad. A.M.)

.

22.4.19

Giuseppe Ungaretti (Destino)




DESTINO
(Mariano 14.7.1916)


Volti al travaglio
come una qualsiasi
fibra creata
perchè ci lamentiamo noi?

Giuseppe Ungaretti





Virados ao sofrer
como uma qualquer
fibra criada
porque nos queixamos nós?

(Trad. A.M.)

.

20.4.19

Josep M. Rodríguez (Início)




INÍCIO



A neve do telhado desfaz-se
pouco a pouco,
tal como a beleza da mulher que eu amo.
É tão escuro o seu canto à meia-noite
como imenso o silêncio no interior da pedra.
De pé,
em frente à minha casa,
o frio transforma-se em harmonia.
É tudo uma questão de ciclos.
O que agora parte,
voltará depois
para de novo partir.
É tudo uma questão de ciclos:
eu apenas escrevo círculos sobre o papel de neve.


Josep M. Rodríguez

(Trad. Manuel de Freitas)


18.4.19

Josefa Parra (Lá mudaste tu outra vez)




HAS CAMBIADO OTRA VEZ EL CURSO DE LOS RÍOS...



Has cambiado otra vez el curso de los ríos
y has hecho trasladarse todas las cordilleras
con sólo la mirada de tus ojos de escarcha
y el roce de tus dedos sobre los mapamundis.
Señor de los amores y de la geografía,
grandísimo truhán y Todopoderoso
inconsciente, ahora tienes que reescribir los libros
y en mi cuerpo desnudo
es tu deber marcar de nuevo las fronteras.


Josefa Parra Ramos





Lá mudaste tu outra vez o curso dos rios
e fizeste mover as cordilheiras
apenas com o golpe de teus olhos de geada
e o toque dos dedos sobre os mapas-mundi.
Senhor dos amores e da geografia,
grandecíssimo truão e Todo-poderoso
inconsciente, agora tens de reescrever os livros
e na minha pele nua
é teu dever marcar de novo as fronteiras.


(Trad. A.M.)


16.4.19

Safo (Ode do ciúme)




(ODE DO CIÚME)



Semelhante aos deuses me parece
o homem que diante de ti se senta,
e, tão doce, a tua voz escuta,

ou amoroso riso – que tanto agita
meu coração de súbito, pois basta ver-te
para que não atine com o que digo,

ou a língua se me torne inerte.
Um subtil fogo me arrepia a pele,
deixam de ver meus olhos, zunem-me os ouvidos,

o suor inunda-me o corpo de frio,
e tremendo toda, mais verde que as ervas,
julgo que a morte não pode já tardar.


SAFO
(trad. Eugénio A.)

_______________________________

Outra versão: Rua das Pretas (David M-F)
Outra ainda: O reduto (incl. glosa de Catulo, carme 51)

.

14.4.19

José María Parreño (Platão assegura)




Platón nos asegura que el tiempo es circular,
que volverá a afirmarlo, que esto mismo
ya lo ha repetido.
San Agustín refuta esta doctrina
en su Civitas Dei,
mas yo la creo.

Yo quiero creerla.
Porque aunque sea precisa mi vejez,
y otra vez
los océanos hirviendo bajo un sol inminente,
la plegaria ante el fuego,
Platón y la Escolástica, la muerte de mi padre...
con el asombro de la primera vez
te besaré en los labios.


José María Parreño





Platão assegura que o tempo é circular,
que voltará a afirmá-lo, que mesmo isto
já o repetiu.
Santo Agostinho refuta essa doutrina
na Civitas Dei,
mas eu creio nela.

Eu quero crer.
Porque apesar da velhice,
dos oceanos fervendo debaixo do sol iminente,
apesar da prece diante do fogo,
de Platão e da Escolástica, da morte de meu pai...
com o mesmo assombro da vez primeira
hei-de beijar-te nos lábios.

(Trad. A.M.)

.

12.4.19

José María Fonollosa (West 10th Street)





WEST 10TH STREET



La esperé mucho tiempo. No sé cuánto.
No conté el sol, ni el viento, ni la nieve.
No contaba los días. Eran largos.

Supe que volvería. Y la esperé
para echarla de casa como a un perro.

Ahora la olvida todo. Yo, no puedo.


José María Fonollosa




Esperei-a muito tempo. Não sei quanto.
Não contei o sol, nem o vento, nem a neve.
Não contava os dias. Eram longos.

Soube que voltaria. E esperei-a
para pô-la como um cão fora de casa.

Agora esquece-a tudo. Eu, não posso.


(Trad. A.M.)

.

10.4.19

António Ramos Rosa (A festa do silêncio)




A FESTA DO SILÊNCIO



Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


António Ramos Rosa



8.4.19

José Luis Zuñiga (Tudo era triste então)




Todo era triste entonces, eso lo supe luego.
Íbamos al colegio con aquellos
pantalones tan cortos. En el patio, el recreo
era un parque temático pero sin luz eléctrica.
Bailábamos peonzas, jugábamos al clavo,
siempre al fútbol con balones de trapo.
Llovía sin parar, todos los días,
una lluvia tenaz, torpe, liviana, que empapaba la ropa,
los chalecos de lana que mi madre tejía.

Todo era triste entonces, pero yo lo ignoraba,
yo era un niño feliz a pesar de los curas.
Era normal que cada invierno dieran la vuelta a los abrigos,
y cada primavera una modista gorda cambiara a las camisas
los cuellos y los puños. Los amigos
-ya nos vamos muriendo- eran algo intocable.

Todo era triste entonces, eso lo supe luego.
Todo era triste entonces y sigue siendo triste,
lo malo es que ahora sé lo que antes no sabía
y siento un malestar tripas adentro
cuando pienso en los días felices de mi infancia.

No puedo ser feliz. No quiero
haber sido feliz. Sigue lloviendo
y ahora el agua me cala hasta los huesos.
No tengo en la cabeza más que muertes
de efectos especiales. Muchas veces
me despierto en la noche envuelto en nieblas
de traición o de olvido. Me tomo dos pastillas
y me vuelvo a dormir, y me regreso
al patio del colegio, allí están todos.


José Luis Zúñiga
[Ulises sin Joyce]





Tudo era triste então, soube-o depois.
Íamos para o colégio com aquelas calças
muito curtas. No pátio, o recreio
era um parque temático mas sem luz eléctrica.
Lançávamos piorras, jogávamos o prego,
futebol sempre com bolas de trapo.
Chovia sem parar, todos os dias,
uma chuva tenaz, torpe, leve, que encharcava a roupa,
os coletes de lã que minha mãe fazia.

Tudo era triste então, mas eu não sabia,
eu era uma criança feliz apesar dos padres.
Normalmente, viravam-se os sobretudos no Inverno
e na Primavera uma modista gorda virava nas camisas
os colarinhos e os punhos. Os amigos
- começamos já a morrer – eram algo de intocável.

Tudo era triste então, soube-o depois.
Tudo era triste então e continua a ser triste,
o mal é que agora sei o que antes não sabia
e sinto cá dentro um mal-estar
quando penso nos dias felizes da infância.

Não posso ser feliz. Não quero
ter sido feliz. Continua a chover
e agora a água entra-me até aos ossos.
Na cabeça não tenho senão mortes
de efeitos especiais. Muitas vezes
acordo de noite no meio de névoas
de traição ou esquecimento. Tomo duas pastilhas
e volto a dormir, e regresso
ao pátio do colégio, onde estão todos.

(Trad. A.M.)



6.4.19

José A. Ramírez Lozano (O silêncio)





EL SILENCIO



El silencio abastece
la soledad y da en las sombras
de comer a los peces.

Él nos guarda la casa
como el polvo, con esa
oscura mansedumbre
de la misericordia,
y vigila el olvido,
la virtud del aceite,
el filo de los verbos
con que nos castigamos.

El silencio se busca
para hacerse más hondo
en los desfiladeros del susurro,
en la desolación, allá
donde tampoco alcanzan las palabras
y el amor se cobija del acecho
de las profanaciones.


José A. Ramírez Lozano




O silêncio abastece
a solidão e dá de comer aos peixes
nas sombras do fundo.

Guarda-nos a casa
tal como o pó, com essa
quieta mansidão
da misericórdia,
e vigia o esquecimento,
a virtude do óleo,
o fio dos verbos
com que nos castigamos.

O silêncio busca-se
para se fazer mais fundo
nos desfiladeiros do sussurro,
na desolação, lá
onde as palavras não alcançam
e o amor se abriga do assédio
das profanações.

(Trad. A.M.)

.

4.4.19

Ana Salomé (Ode do fim da paixão)




ODE DO FIM DA PAIXÃO



agora que a paixão se demoveu de ti
são poucas as notícias que te trago.

as palavras bem podem ser
pequenos papéis atirados ao chão.
se o vento as levantar é porque ainda
haverá um livro de poemas
nas pontas dos dedos a ferir o espaço
para um último batimento.

deixaste-me assim com a paixão rápida
o funeral e os pássaros nos ramos
a aprender asneiras e as marchas de séculos
anteriores. recusaste um coração
a cercania das mãos
a destapar o rosto oculto.

agora é tarde
os poemas são vedações de florestas
que não podem crescer mais.
sem árvores o vento não sopra
e é pouco o que chega até ti.


Ana Salomé

[Emma Gunst]

.



2.4.19

Juan Luis Panero (Tal como éramos)





TAL COMO ÉRAMOS



Ingrata la vejez, aburridos sus símbolos
- sin valor literario - demasiado previstos.
Sólo queda - cada día más rara - la sorpresa
de un inesperado momento redivivo,
como se hace un rato, mirando la televisión.
Una desgastada película de otro tiempo
- horrendo doblaje, relamidos colores-
la penetrante estupidez de los anuncios.
Sin embargo, él y ella - años después de separarse -
se encuentran en la puerta de un hotel,
en Nueva York, se reconocen, dicen alguna frase vulgar
y se separan, esta vez para siempre.
Repetida escena, banal la historia,
pero quizá, toda mi vida puede resumirse en esa imagen.
Melancolía de los sueños perdidos
- entre marcas de automóviles y detergentes -
en el cristal infinito de un insomne televisor nocturno.

Juan Luis Panero

[El almirante ruina]



Velhice ingrata, chatos seus símbolos
– sem valor literário – demasiado previsíveis.
Resta apenas – cada dia mais estranha – a surpresa
de um inesperado momento redivivo,
como acontece um instante, a ver televisão.
Um filme desgastado de outros tempos
– dobragem horrível, cores delambidas –
a penetrante estupidez dos anúncios.
Contudo, ele e ela – anos depois da separação –
encontram-se à porta de um hotel,
em Nova Iorque, trocam umas frases vulgares
e separam-se, desta vez para sempre.
Cena repetida, banal a história, mas talvez
a minha vida inteira possa resumir-se nessa imagem.
Melancolia dos sonhos perdidos
– por entre marcas de carros e detergentes –
no vidro infinito de uma insone televisão nocturna.

(Trad. A.M.)

31.3.19

Juan José Saer (O graal)





EL GRAAL



El mar destila incertidumbre,
la montaña perplejidad; y el propio
cuerpo no abandona, por nada
del mundo, su secreto. El viaje
se volvió errabundeo, y el aura
solitaria, retirándose,
nos transformó en manada.
En la llanura inmóvil
el cansancio nos visita:
todo esto podía haber sido
de esta manera o de alguna otra,
el tiempo hubiese preferido
correr para adelante o para atrás
y abstenerse de salir, indiferente,
la luna. Nos creeríamos perdidos,
si fuésemos capaces, todavía,
de distinguir un lugar.
La mirada rebota, espesa;
ni reconoce ni interroga.
Astillas turbias flotan
entre la sombra que amenaza.
Confusos, vacilamos:
salimos a buscar no sabemos qué
ya no nos acordamos bien cuándo.


Juan José Saer





O mar destila incerteza,
o monte perplexidade; e o próprio
corpo não abandona, por nada
deste mundo, seu segredo. A viagem
torna-se errância, e a aura
solitária, retirando-se,
transforma-nos em manada.
Na planura imóvel
visita-nos o cansaço:
tudo isto podia ser assim ou
de outro modo, quisesse o tempo
correr para diante ou para trás,
ou a lua, indiferente, resolver não sair.
Fossemos nós capazes, ainda,
de distinguir um lugar,
julgar-nos-íamos perdidos.
O olhar ressalta, espesso,
nem reconhece nem interroga.
Lascas turvas bóiam
por entre a sombra intranquila.
Vacilamos, confusos:
saímos em busca não sabemos de quê,
sem nos lembrarmos já muito bem quando.


(Trad. A.M.)

29.3.19

Umberto Saba (A vida é tão amarga)





La vita è così amara,
il vino è così dolce;
perchè non dunque
bere?

Umberto Saba




A vida é tão amarga,
o vinho é tão doce...
Porque não pois
beber?

(Trad. A.M.)


.

27.3.19

Susana Benet (A luz)




LA LUZ


Es maestra la luz
cuando traspasa
la frágil consistencia
de las cosas
y muestra a nuestros ojos,
ensombrecidos,
la huella deslumbrante
de su vuelo,
su tersa claridad,
el último fulgor
donde arderemos
apenas un instante,
antes de que el tiempo,
con su certero soplo,
nos apague.

Susana Benet



É mestra a luz
a trespassar
a frágil consistência
das coisas
e mostrar a nossos olhos,
ensombrados,
a marca deslumbrante
de seu voo,
sua tersa claridade,
o último fulgor
onde arderemos
um instante só,
antes de o tempo,
com seu certeiro sopro,
nos apagar.

(Trad. A.M.)
.

25.3.19

Juan Carlos Mestre (E todos os livros cheios de palavras)




Y todos los libros llenos de palabras
y todos los calendarios llenos de días
y todos los ojos llenos de lágrimas
y llena de nubes la cabeza de todos los mares
y llenos de coronas y puntapiés todos los relojes de arena
y de jirafas molidas todos los pechos condecorados
y todas las manos llenas de verano y caracoles marinos
y todos los dormitorios llenos de manojos de explicaciones
y de pantalones disecados las sillas de todos los prostíbulos
y todos los huecos llenos de público
y todas las camas llenas de electrocutados
y todos los animales llenos de espíritu y pánico
y de feroces gritos los árboles de todos los aserraderos
y todos los tribunales llenos de testimonios
y todos los sueños llenos de sacacorchos
y llenas de chicas todas las estrellas
y todos los libros llenos de palabras
y todos los calendarios llenos de días
y todos los ojos llenos de lágrimas
y todas las peceras y todos los pupitres y todas las cenas íntimas
y todos los razonamientos llenos de indudables edificios
y toda la primavera llena de moscas y crisantemos
y llenas todas las iglesias y todos los calcetines y todas las peluquerías
y todas las mujeres llenas de gloria
y llenos también de gloria todos los hombres
y todas las perreras llenas de ángeles
y todas las llaves llenas de puertas
y todos los bazares llenos de ratones
y llenos de barrenderos todos los cuadros
y llenas de estiércol todas las escobas de la patria
y todas las cabezas llenas de radiografías e intríngulis
y llenas de luz todas las subestaciones eléctricas
y llenos de amor todos los manicomios
y todos los cementerios llenos de salvavidas

Juan Carlos Mestre




E todos os livros cheios de palavras
e todos os calendários cheios de dias
e todos os olhos cheios de lágrimas
e cheia de nuvens a cabeça de todos os mares
e cheios de coroas e pontapés todos os relógios de areia
e de girafas moídas todos os peitos condecorados
e todas as mãos cheias de verão e de caracóis marinhos
e todos os dormitórios cheios de molhos de explicações
e de calças dissecadas as cadeiras dos prostíbulos
e todos os buracos cheios de público
e todas as camas cheias de electrocutados
e todos os animais cheios de espírito e pânico
e de gritos ferozes as árvores das serrações
e os tribunais cheios de testemunhas
e todos os sonhos cheios de saca-rolhas
e cheias de miúdas todas as estrelas
e todos os livros cheios de palavras
e os calendários cheios de dias
e todos os olhos cheios de lágrimas
e todos os aquários e todas as carteiras e todas as cenas íntimas
e todos os discursos cheios de edifícios indubitáveis
e toda a primavera cheia de moscas e crisântemos
e cheias as igrejas e todas as peúgas e cabeleireiras
e todas as mulheres cheias de glória
e cheios também de glória os homens todos
e todos os canis cheios de anjos
e todas as chaves cheias de portas
e todos os bazares cheio de ratazanas
e cheios de vassouras todos os quadros
e cheias de esterco todas as escovas da pátria
e todas as cabeças cheias de radiografias
e cheias de luz as subestações eléctricas
e cheios de amor todos os manicómios
e os cemitérios cheios de salva-vidas.

(Trad. A.M.)