30.10.18

Leopoldo Panero (Epitáfio)






EPITAFIO                           



Ha muerto
acribillado por los besos de sus hijos,
absuelto por los ojos más dulcemente azules
y con el corazón más tranquilo que otros días,
el poeta Leopoldo Panero,
que nació en la ciudad de Astorga
y maduró su vida bajo el silencio de una encina.
Que amó mucho,
bebió mucho y ahora,
vendados sus ojos,
espera la resurrección de la carne
aquí, bajo esta piedra.

Leopoldo Panero





Morreu
crivado de beijos dos filhos,
absolvido pelos mais doces olhos azuis
e com o coração mais tranquilo que noutros dias,
o poeta Leopoldo Panero,
que nasceu na cidade de Astorga
e sua vida levou à sombra do silêncio de uma azinheira.
Que amou muito,
bebeu muito e agora,
de olhos vendados,
espera a ressurreição da carne
aqui, sob esta pedra.

(Trad. A.M.)


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28.10.18

Juan Manuel Villalba (O silêncio)






O SILÊNCIO 



Vão caindo as folhas do silêncio,
que fica despido feito árvore,
inteiro, definido. Entra em casa
e toma as esquinas, os recantos
batidos pelo sol, trama de poeira
suspensa no ar. Para além da fundura
da tarde, o silêncio uiva de longe
como um lobo impossível na freguesia.
Inundou todo o espaço da casa,
sabendo agora que eu sou o inimigo.
E vence-me, sem ignorar a minha
humilhante rendição.

Juan Manuel Villalba

(Trad. A.M.)

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26.10.18

Mário de Carvalho (Arrepiar conversa)






(Arrepiar conversa)



Joel conseguiu perceber que a proximidade entre Eduarda e Jorge não constituía apenso do seu processo.

E assim como aqueles caminheiros que vão afoitos e alegres, numa manhã orvalhada, em que há libélulas e repipilam aves, e saltam uma vedação para ir colher lá longe, no meio do prado, a papoula brilhante que o enfeita, ao serem surpreendidos pelo feroz touro que, incomodado, já escarva o solo com a pata, baixando as hastes e levantando grumos de terra por todo o lado, se apressam a saltar de novo a vedação e se afastam do local, assobiando baixinho, ainda mal certos de que a vedação aguente a massa bruta em investida, assim, dizia eu, Joel Strosse resolveu arrepiar conversa.

MÁRIO DE CARVALHO
Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto
(1995)

24.10.18

Leopoldo Panero (Canção da beleza melhor)





CANCIÓN DE LA BELLEZA MEJOR



¿Tan alegre estás tú que te has quedado,
corazón, sin palabras?
¿Ya no sabes decir? ¿Hablar no sabes
como ayer? ¿Estás mudo
para siempre y en paz? ¿No ves los ojos
más dulces cada día que cantaste;
la frente un poco triste, levantada
pálidamente hacia el cabello leve
la cabeza de niña...?
¿No es mejor y más honda su belleza?
¿Tan alegre estás tú que te has quedado
ciego como al andar sobre la nieve?
¿No ves ya su hermosura? ¿No la sabes
decir? ¿Estás callado
para mejor soñar lo que has vivido?
¿No queda primavera entre tus huesos?
¡Oh vida retirada en lo más dulce!
¡Oh límite en penumbra, casi el alma!

Leopoldo Panero




Tão alegre estás tu que te ficaste,
coração, sem palavras?
Não sabes já que dizer? Falar
não sabes como ontem? Estás mudo
para sempre e em paz? Não vês os olhos
mais doces cada dia que cantaste;
a fronte um pouco triste, erguida
a cabeça de menina
palidamente para o cabelo leve...
Não está melhor e mais profunda sua beleza?
Tão alegre estás tu que ficaste cego
como a andar sobre a neve?
Não vês já sua beleza? Não a sabes
dizer? Estás calado
para melhor sonhar o que viveste?
Não te resta Primavera nos ossos?
Oh vida retirada no mais doce!
Oh limite em penumbra, a alma quase!

(Trad. A.M.)




>>  A media voz (20p) / Poesi.as (21p) / Nodulo (perfil) / Wikipedia


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22.10.18

Javier Egea (Eram tempos bem duros)






Eran tiempos muy duros. No era fácil vivir.
Por eso madrugué por los despachos,
volví mañana, les expuse el caso
y conseguí un empleo para ella:
tras mirarla a los ojos -al menos eso dijo-
le entregaron la llave más preciada,
pusieron a su cargo el alumbrado.
Yo hice lo que pude, lo que en mi mano estaba,
y no la he vuelto a ver:
aquella misma noche me cortaron la luz.


Javier Egea





Eram tempos bem duros, viver não era fácil.
Por isso madruguei pelas repartições,
voltei dia seguinte, expus o caso
e consegui um emprego para ela.
Depois de a mirarem nos olhos - assim pelo menos disse ela -
entregaram-lhe a chave mais cobiçada
confiando-lhe o cargo da iluminação.
Eu fiz aquilo que pude, o que estava na minha mão,
e não tornei a vê-la:
nessa mesma noite cortaram-me a luz.

(Trad. A.M.)

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20.10.18

Camilo Pessanha (Branco e vermelho)






BRANCO E VERMELHO

                  

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento. 

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim! 

Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)

Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte. 

Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis. 

A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra. 

Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor... 

E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas! 

A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento. 

Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

Camilo Pessanha


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18.10.18

Eugenio Montejo (Meu amor)





MI AMOR




En otro cuerpo va mi amor por esta calle,
siento sus pasos debajo de la lluvia,
caminando, soñando, como en mí hace ya tiempo...
Hay ecos de mi voz en sus susurros,
puedo reconocerlos.
Tiene ahora una edad que era la mía,
una lámpara que se enciende al encontarnos.
Mi amor que se embellece con el mar de las horas,
mi amor en la terraza de un café
con un hibisco blanco entre las manos,
vestida a la usanza del nuevo milenio.
Mi amor que seguirá cuando me vaya,
con otra risa y otros ojos,
como una llama que dio un salto entre dos velas
y se quedó alumbrando el azul de la tierra.


Eugenio Montejo




Noutro corpo segue meu amor por esta rua,
sinto os seus passos sob a chuva,
caminhando, sonhando, como em mim há tempo...
Há ecos de minha voz nos seus sussurros,
posso reconhecê-los.
Tem agora uma idade que era a minha,
uma lâmpada que se acende ao encontrar-nos.
Meu amor que se adorna com o mar das horas,
meu amor na esplanada de um café
com um hibisco branco entre as mãos,
vestida à moda do novo milénio.
Meu amor que prosseguirá quando eu partir,
com outro riso e outros olhos,
como uma chama que deu um salto entre duas velas
e ficou iluminando o azul terreno.

(Trad. J.E.Simões)

[Luz & sombra]


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16.10.18

Estela Figueroa (Princípios de Fevereiro)





PRINCIPIOS DE FEBRERO



No.
El hermoso verano
no ha terminado aún.
Nos queda un mes para estarse en los patios
y descalzarnos
mientras charlamos
de esto y aquello
sin ton ni son.
Todavía habrá hombres de brazos tostados
en las calles
de la ciudad envuelta por la noche
brotada toda
como un lazo de amor.

No.
No me sostengas que no voy a caerme.
Sólo se caen las estrellas fugaces
y yo -te dije-
quiero permanecer.

Un hombre es bueno para una noche.
Cuando amanece es un reflejo dorado
sobre la cama donde se toma café.
Y es agradable el olor que deja.
Dura todo un día.
Pero no toda la vida.

Luego hay que descansar.
El libro de Kavafis y el de Pavese
sobre la mesa de luz.
Hay que aminorar la marcha.
Sentarse un rato a solas
en el sillón del patio.
Mujeres: tendríamos
que aprender de los gatos.
Cómo agradecen el tazón
que rebosa de leche!
Falta para el otoño.
Que nos encuentre intactas.
Sin habernos negado
a estas pasiones
que cada tanto
asaltan.

Estela Figueroa




Não,
ainda não terminou
o belo Verão.
Sobra um mês para se ficar no pátio
e descalçar
enquanto falamos
disto e daquilo
sem tom nem som.
Haverá ainda homens de braços queimados
pelas ruas
da cidade que a noite envolve
como um laço de amor.

Não,
não me segures que eu não caio,
as estrelas cadentes é que caem
e eu quero, já te disse, permanecer.

Um homem é bom para uma noite,
quando vem o dia é um reflexo dourado
sobre a cama onde se toma o café.
E é agradável o cheiro que deixa,
dura um dia inteiro,
mas não a vida toda.

Depois há que descansar,
o livro de Kavafis e o de Pavese
na mesinha.
Há que reduzir a marcha,
sentar-se um pouco a sós
no cadeirão do pátio.
Nós, mulheres, devíamos
aprender com os gatos
- como agradecem o prato de leite
a transbordar!
Ainda falta para o Outono
- que nos venha achar intactas,
sem nos negarmos a essas paixões
que às vezes nos assaltam.

(Trad. A.M.)

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14.10.18

Leopoldo Castilla (O recanto)






EL RINCÓN



Se acuesta en el hueco del trinchante oscuro.
Visto desde ahí
el mueble parece un ataúd. El niño juega
a que ya se ha muerto.
O va a la cocina, a un rinconcito
y mira a las mujeres pelando choos
mientras cuentan historias de mayores
(esas bandadas de sentidos no lo alcanzan
pues él todavía no llegó al presente).

Mira a su madre. Si ella está allí, debe ser de este mundo.
Él, que viene de tan lejos, no tiene donde ir.
Juega a que está vivo
mientras arde, indefenso, el rincón
y más allá toda la tierra,
de vida
arde,
inocente,
alrededor de ese leve meteorito.


Leopoldo Castilla




Deita-se no vazio do escuro cortante.
Visto dali
o móvel parece um ataúde. A criança brinca
a ter morrido.
Ou vai à cozinha, a um canto
e olha para as mulheres a esfolhar milho
enquanto contam histórias dos antigos
(que não o atingem
pois ele ainda não chegou ao presente).

Olha para a mãe, se ela ali está, há-de ser
deste mundo.
Ele, vindo de tão longe, não tem aonde ir.
Brinca a estar vivo,
enquanto o recanto arde, indefeso,
o recanto e mais além a terra toda,
arde de vida,
inocente,
em volta desse leve meteorito.

(Trad. A.M.)

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12.10.18

Gil Vicente (Nós somos vida das gentes)






(Nós somos vida das gentes)


Sempre é morto quem do arado
há-de viver.

Nós somos vida das gentes,
e morte de nossas vidas;
a tiranos pacientes
que a unhas e a dentes
nos têm as almas roídas.
Pera que é parouvelar?
Que queira ser pecador
o lavrador,
não tem tempo nem lugar
nem somente d'alimpar
as gotas do seu suor.

N'ergueija bradam co'ele,
porque assoviou a um cão;
e logo excomunhão na pele,
o fidalgo, maçar nele,
atá o mais triste rascão.
Se não levam torta a mão,
não lhe acham nenhum dereito.
Muito atribulados são!
Cada um pela o vilão
per seu jeito.

Trago a prepósito isto,
perque veio a bem de fala.
Manifesto está e visto
que o bento Jesu Cristo
deve ser homem de gala.
E é rezão que nos valha
neste serão glorioso,
que é gram refúgio sem falha.
Isto me faz forçoso,
e não estou temeroso
nemigalha.


GIL VICENTE
Auto da Barca do Purgatório
(excerto)


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10.10.18

Gloria Fuertes (Carta a mim mesma)





CARTA A MI MISMA



Querida Glorita:
Hace mucho tiempo que no me gusta cómo estás,
deberías de ir a Dios y que hiciera un reconocimiento a fondo,
o que te recetara Sumanoentucabeza.
Esas bolsas que empiezas a tener bajo los ojos
pueden ser de llorar -como tú dices-
pero también síntoma de corazón.
Cuídate hija, por el bien de todos.
Sé que tienes miedo,
un miedo solo,
un tierno miedo,
miedo a que no….
¡ Alégrate Glorita
que quien amas te vive !


Gloria Fuertes





Querida Glorita:
Há muito que não me agrada o teu estado,
devias ir ter com Deus para te fazer um exame
ou receitar Sua-mão-por-cima-da-cabeça.
Esses papos que te começam a aparecer por baixo dos olhos
podem ser de chorar - como dizes -
mas também sintoma de coração.
Cuida-te filha, para o bem de todos.
Bem sei que tens medo,
um medo só,
um medo mole,
medo que não...
Alegra-te Glorita
que quem tu amas te vive!

(Trad. A.M.)

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8.10.18

Gloria Bosch (Intervenção)




INTERVENCIÓN



El amor coge el bisturí
y antes de marcharse
te hace una incisión en el alma.
Es su peculiar manera de decir adiós.


Gloria Bosch 





Pega no bisturi o amor
e antes de ir embora
faz-te uma incisão na alma.
É o seu modo de dizer adeus.


(Trad. A.M.)

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6.10.18

Mário de Carvalho (Lançar a escada)






(Lançar a escada) 



Entrou, lançou o saco para um canto, atirou-se para o sofá e foi contando das ruins contingências do caminho, dos autocarros sobrelotados, dum grupo de rufias provocadores no barco, do francês que falava pelos cotovelos, acrescentando drama e complicação onde não a tinha encontrado e captando descaradamente a benevolência de Jorge, neste particular bastante ingénuo.

Atentos como estais, já reparastes que Eduarda sub-repticiamente já tinha abandonado no trato o ‘senhor doutor’, passando a ‘doutor’, abrindo a progressão para o ‘você’, ou mesmo ‘o Jorge’ e, sabe-se lá, se ‘tu’.

A isto se chama, em linguagem popular, esperta para as estratégias, ‘lançar a escada’.



MÁRIO DE CARVALHO
Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto
(1995)


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4.10.18

Gisela Galimi (Carta astral)





CARTA ASTRAL



Ella no tiene la culpa
las constelaciones se alinearon pétreas
en su nacimiento.
No tiene la culpa piedra
de la rigidez del miedo.

Sus moléculas rocas
arman coraza
para protegerla.
Pero adentro,
un corazón de lava
le clava
la duda. 

Gisela Galimi





Ela não tem culpa
as constelações é que se alinharam
pétreas em seu nascimento.
Não tem a pedra culpa
da rigidez do medo.

Suas moléculas rochas
fazem couraça
para protegê-la.
Mas dentro
um coração de lava
crava-lhe
a dúvida.

(Trad. A.M.)

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2.10.18

Montanha (CA-2)





MONTANHA



Não duna
que o vento desfaz
       Antes montanha


(A.M.)

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30.9.18

Juan Manuel Villalba (Indignação)






INDIGNACIÓN
(fragmentos)


Los recuerdos son ruidos. Parecen caravanas
de furiosas motocicletas
que atronan los caminos comarcales
que cada cual asigna a su memoria.
Por culpa de la lírica estallaron
multitud de veranos inocentes.
Centenares de noches infinitas
se agotaron en vanas construcciones de versos
que sólo conseguían convertirse
en trazos que manchaban el papel.
Si entonas las palabras, ten cuidado.
Aunque no lo parezcan, son cuchillos
que vuelven a su antiguo lanzador.
Todo lo que perdimos está catalogado,
mantenido, aguardando en un mundo paralelo
que nada sabe de nosotros.
Nadie tiene el resguardo que recuperará
de la consigna todo lo extraviado.
Hay gente, objetos, sueños y animales
que una vez decidieron vivir su condición.

Todo lo que perdimos nos aguarda en un mundo
regido por la ley de la orfandad.
Todas las cosas que perdimos
nos conducen al fin a lo que somos
porque somos la resta de una suma imposible.

Juan Manuel Villalba




As lembranças são ruídos, como caravanas
de furiosas motorizadas
atroando os caminhos vicinais
que cada um traça na memória.
Por culpa da lírica explodiram
milhentos verões inocentes.
Centenas de noites sem fim
deram em vãs construções de versos,
meras linhas ou traços a manchar o papel.
Se usas as palavras, tem cautela,
que são punhais, embora não pareçam,
que se viram contra quem os atira.
Tudo o que perdemos está catalogado,
arquivado, à espera em um mundo paralelo
que nada sabe de nós.
Ninguém tem o abrigo que recuperará
da entrega tudo o que se extraviou.
Há gente, objectos, sonhos e animais
que a seu tempo decidiram viver a sua condição.

Tudo o que perdemos nos aguarda num mundo
regido pela lei da orfandade.
Todas as coisas que perdemos
nos conduzem a final àquilo que somos,
pois que somos só o resultado
de uma soma impossível.

(Trad. A.M.)



>>  Poetas siglo XXI (5p) / Father Gorgonzola (3p)


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28.9.18

Marilyn Contardi (Outono nas folhas)






OTOÑO EN LAS HOJAS



Miro las hojas
de la morera
a través
de la ventana

el otoño
ha descansado
en ellas
sin estrujarlas,

fueron sólo
caricias
de color.

Ni saben
que las miro
ni que entran
por los ojos
bellas
gráciles

que animan
todo el ser
hasta hacerle
sentir que es
una rama
llena de hojas,
doradas
entibiándose
al sol.


Marilyn Contardi
 



  



Olho as folhas
da amoreira
através da janela

o outono
pousou nelas
sem as amarrotar

nada mais
do que carícias
de cor.

Não sabem
que as observo
nem que me entram
pelos olhos
belas e
cheias de graça

que animam
qualquer ser
até lhe fazer
sentir que é
um ramo
cheio de folhas,
douradas,
aquecendo-se
ao sol.

(Trad. A.M.)


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26.9.18

Juan Bonilla (Metástase)





METÁSTASIS



Buena palabra para darle al perro
criminal del vecino, o al temible
jefe que nos amarga con sandeces,
pero qué rara nos resulta pronunciada
por la voz triturada de un amigo
con ojos excavados en un rostro
que no parece el suyo. Desde antiguo
sabe escoger la muerte sus pseudónimos.
Prefiere los eufónicos vocablos
alzados en tacones de prestigio
científico. Enciende un cigarrillo
mi amigo y yo contemplo el grano negro
que en su pulmón emite una sentencia
de muerte que otro grano en su garganta
o en su páncreas repite. Qué hago ahora
con mis ganas de celebrar el mundo.
Tres, cinco meses más, qué harías tú,
pregunta sin mirarme envuelto en humo.
Se vive dentro del visor del arma
arbitraría de un francotirador
apostado en quién sabe qué tejado,
el dedo preparado en el gatillo.
Camino por la calle soleada,
siento en la nuca la mirada torva
del francotirador que me asignaron.
Se vive dentro del visor de un arma
que será disparada por borrarte.
No le ahorres trabajo al asesino.


Juan Bonilla

[Apología de la luz]







Bela palavra para dar ao filho da mãe
do cão do vizinho, ou ao temível
chefe que nos aborrece com merdices,
mas tão estranha nos parece pronunciada
pela voz triturada de um amigo
de olhos escavados num rosto
que não parece o dele. De há muito
sabe a morte escolher seus pseudónimos,
preferindo eufónicos vocábulos
com os saltos altos do prestígio
científico. Meu amigo acende
um cigarro e eu contemplo o grãozinho
negro que emite no seu pulmão uma sentença
de morte, que outro grão lhe repete na garganta
ou no pâncreas. O que é que eu faço agora
com minha vontade de celebrar o mundo?
Mais três meses, cinco, o que farias tu,
diz-me ele, sem me encarar, envolto em fumo?
Vivemos dentro do visor da arma
arbitrária de um franco-atirador
postado sabe-se lá em que telhado,
com o dedo preparado no gatilho.
Caminho pela rua soalheira,
sentindo na nuca o olhar turvo
do franco-atirador que me destinaram.
Vivemos dentro do visor de uma arma
que será disparada para nos apagar.
Não poupemos o trabalho ao assassino.

(Trad. A.M.)


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24.9.18

Antonio Cabrera (Amor fati)






AMOR FATI



El crepitar
de unas ramas de olivo
que se queman sin prisa tras la poda,
el ímpetu del pájaro en el cielo,
su timidez en el arbusto, el áspero
zarzal y la humareda
me están pidiendo
una confirmación, su debido registro
entre lo que sucede.
                                          Necesitan
el sí callado que he de darles
para poder hacer en su existencia
un hueco a mi existencia muda.
Comprendo que se trata
-como en el lazo entre la flor y el día-
de un destino recíproco,
de un mutuo ser en lo que es, sin más.
(Ninguna plenitud,
tampoco, aún, ninguna pérdida.)

Acepto estar aquí, y estar mirando
estas cosas sin cifra.
Acepto, juzgo, doy
al aire
el mismo aire
que me sustenta a mí.

Antonio Cabrera




O crepitar
de alguns ramos de oliveira
a queimar sem pressa depois da poda,
o ímpeto do pássaro no céu,
a sua timidez no arbusto, o áspero
silvado e a fumarada
como que me pedem
uma confirmação, o devido registo
no rol do que acontece.
                               Requerem
o sim calado que hei-de dar-lhes
em troca de um espaço para a
minha muda existência.
Compreendo tratar-se
 – tal como no laço entre a flor e o dia –
de um destino recíproco,
de um mútuo ser no que é, sem mais.
(Nenhuma plenitude,
mas também, por agora, nenhuma perda).

Aceito estar aqui, e estar a olhar
para estas coisas sem número.
Aceito, julgo, dou
ao ar
o próprio ar
que a mim me sustém.

(Trad. A.M.)


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22.9.18

Antonio Rivero Taravillo (O frigorífico)




EL FRIGORÍFICO



Nuestro diccionario no cuenta
con voz exacta para su sonido,
una onomatopeya que describa
este ruido que ahora
emite lamentándose.

Como tripas sonando
tras mala digestión o hambre de antiguo,
él, que guarda nuestra comida,
suelta la queja de un mamut
que duerme y sueña
en esa glaciación discreta
tras de la puerta blanca.

Solloza lastimero,
y te dan ganas
de darle unas pastillas
del cajón silencioso que hay al lado.

¿Qué nos quiere decir, tan gemebundo?
¿Por qué musita con sus labios yertos
en su intestino oscuro?

¿Nos reprenden la carne, las verduras,
por no estar presos, y seguir
a su costa nuestro destino
de estar afuera y vivos, escuchándolo?


Antonio Rivero Taravillo




O dicionário não tem
uma entrada exacta para aquele som,
uma onomatopeia que descreva
aquele ruído que está a fazer agora,
como queixando-se.

Quais tripas roncando
sobre uma má digestão ou fome antiga,
ele, guardião da nossa comida,
solta a queixa de um mamute
que dorme e sonha
nessa glaciação discreta
por trás da porta branca.

Soluça ressentido,
e até dá vontade
de lhe dar umas pastilhas
do gavetão silencioso que há do lado.

O que nos quer dizer, tão gemebundo?
Porque é que sussurra, de lábios hirtos,
nos seu escuro íntimo?

Repreendem-nos a carne, as verduras,
por não estarmos presos lá dentro, vivendo
nosso destino de estar fora e vivos, a ouvi-lo?

(Trad. A.M.)

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