4.4.18

José Emilio Pacheco (O olhar do outro)




LA MIRADA DEL OTRO



El pez en el acuario
mudo observa
el espacio que mide con su vuelo.
Del agua sólo sabe:
“esto es el mundo”.
De nosotros lo azoran los enigmas.
“¿Quiénes serán? Extraños prisioneros
de la Tierra y el aire.
Si vinieran aquí se asfixiarían.
“Los compadezco. Pobres animales
que dan vueltas eternas al vacío.
“Viven para ser vistos.
Son carnada
de un poderoso anzuelo inexplicable.
“Algún día
he de verlos inertes, boca arriba,
flotantes en la cima de su Nada”.


José Emilio Pacheco





O peixe no aquário
mudo observa
o espaço que mede com seu voo.
Da água apenas sabe:
“este é o mundo”.
De nós inquietam-no os enigmas:
“Quem serão? Estranhos prisioneiros
da Terra e do ar.
Aqui dentro asfixiavam.
“Tenho pena deles. Pobres animais
eternamente às voltas no vazio.
“Vivem para ser vistos.
Isco são
de um poderoso anzol inexplicável.
“um dia
hei-de vê-los inertes, de boca para cima,
flutuando em cima do seu Nada”.


(Trad. A.M.)

.

3.4.18

Ricardo Silvestrin (Cantei a poesia)






cantei a poesia
e ela ficou comigo
por um dia

agora que eu não vivo sem ela
me esnoba
só vem quando quer

ai, mulher difícil
se lhe dou bandeira
ela quer vinícius


Ricardo Silvestrin


 .

2.4.18

Jorge Teillier (O que importa é estar vivo)






(XXIII)


Lo que importa
es estar vivo
y entrar a la casa
en el desolado mediodía de la vida.

El río pasa recogiendo la calle polvorienta.
Los satélites artificiales pueden rodear la Tierra,
pero nada saben de ellos los bueyes enyugados a las carretas.

Es el mismo de otro siglo el gesto del campesino al
descargar un saco de trigo,
el polvillo de la molienda danza en el sol sin memoria,
escuchamos el trote de los ratones entre los sacos
dormidos en la bodega,
y el oculto resplandor de las cosas
tiene un secreto revelado por los aromos.

Escucho el pitazo del tren
cortando en dos al pueblo.
El pueblo donde pedí tres deseos al comer las primeras cerezas,
donde me regalaron una lámpara humilde que no he vuelto a hallar,
el pueblo que tenía unos pocos miles de habitantes cuando nací,
y fue fundado como un Fuerte
para defenderse de los mapuches
(todo eso era nuestro Far West).
El pueblo donde aún humean mantas junto a cocinas a leña,
y el invierno es la travesía de un tempestuoso océano.

Si me pidieran recordar
algo más allá de las calles donde di los primeros pasos
no sabría mucho que decir.

Creo que he estado en otros países.
He visto día a día en las ciudades vehículos iluminados
como trasatlánticos
llevar rostros fatigados de un matadero a otro.

«La vida es un pretexto para escribir dos o tres versos
cantantes y luminosos», escribió Alexander Block,
pero tal vez yo no sea de verdad un poeta.

Me amo a mí mismo tanto como a mi prójimo,
pero estoy dispuesto a desaparecer junto a todo mi prójimo.
Puedo rezar sin creer en Dios.
A las noticias del día
suelo preferir leer memorias de oscuros personajes de otras épocas
o contemplar los gorriones picoteando maravillas.
De nuevo alguien ve derrochar
los yuyos su oro al viento.

Alguien va a temer cada mañana que el sol no regrese,
alguien aprenderá a leer en diarios que anuncian
nuevas guerras,
alguien en la noche
va a tomar un carbón encendido para trazar círculos de fuego
que lo protejan de todo mal.

Quedaré solo en un bosque de pinos.

De pronto veré alzarse los muros al canto de los gallos.
Podré pronunciar mi verdadero nombre.
Las puertas del bosque se abrirán,
mi espacio será el mismo que el de las aves inmortales
que entran y salen de él,
y los hermanos desconocidos sabrán que ya pueden reemplazarme.

Debo enfrentar de nuevo al río.
Busco una moneda.
El río ha cambiado de color.
Veo sin temor
la canoa negra esperando en la orilla.


Jorge Teillier





O que importa
é estar vivo
e entrar em casa
no desolado meio-dia da vida.

O rio passa varrendo a rua poeirenta,
os satélites artificiais podem girar em volta da Terra,
mas os bois apostos aos carros nada sabem deles.

É o mesmo de outro século o gesto do agricultor
ao descarregar um saco de trigo,
a poalha da moenga dança no sol sem memória,
ouvem-se os ratos a correr por entre os sacos
adormecidos na adega
e o oculto resplendor das coisas
tem um segredo revelado pelas acácias.

Ouço o apito do comboio
cortando o povoado em dois.
Onde eu pedi três desejos ao comer as primeiras cerejas,
onde me deram uma lâmpada humilde que não voltei a achar,
uma vila com poucos milhares de habitantes quando eu nasci
e fundado inicialmente como Forte
para defesa contra os mapuches
(era assim como o nosso Faroeste).
A vila onde mantas ainda fumegam junto de fogões a lenha,
e o inverno é como que travessia de um tormentoso oceano.

Se me pedissem para lembrar
algo para além das ruas onde dei os primeiros passos
não teria muito para dizer.

Estive, creio, em outros países,
vi dia a dia nas cidades veículos iluminados
como transatlânticos
levar rostos fatigados de um matadouro para outro.

"A vida é um pretexto para escrever dois ou três versos
sonoros e luminosos", escreveu Alexander Block,
mas talvez eu não seja um verdadeiro poeta.

Amo-me a mim mesmo tanto como ao próximo,
mas estou pronto a desaparecer junto com ele.
Posso mesmo rezar sem acreditar em Deus.
Às notícias do dia costumo preferir
memórias de obscuras personagens de outras épocas
ou ver os pardais a bicar maravilhas.
De novo alguém vê as ervas
ao vento espalhando seu oiro.

Alguém vai temer de manhã que o sol não regresse,
alguém aprenderá a ler em jornais
que anunciam novas guerras,
alguém pela noite
vai pegar numa brasa para fazer círculos de fogo
para se proteger de todo o mal.

Ficarei sozinho no meio do pinhal.

E verei de repente erguerem-se os muros ao canto dos galos.
Poderei dizer meu nome verdadeiro,
e as portas do bosque se abrirão,
sendo meu espaço o mesmo das aves imortais
que nele entram e saem,
e os irmãos desconhecidos saberão que já podem suceder-me.

Tenho de enfrentar o rio de novo,
preparo uma moeda.
Mudou de cor o rio.
Sem temor vejo
a canoa negra, à espera, na margem.

(Trad. A.M.)

.

1.4.18

Jorge Luis Borges (Everness)





EVERNESS



Sólo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
Y cifra en Su profética memoria
Las lunas que serán y las que han sido.

Ya todo está. Los miles de reflejos
Que entre los dos crepúsculos del día
Tu rostro fue dejando en los espejos
Y los que irá dejando todavía.

Y todo es una parte del diverso
Cristal de esa memoria, el universo;
No tienen fin sus arduos corredores

Y las puertas se cierran a tu paso;
Sólo del otro lado del ocaso
Verás los Arquetipos y Esplendores.


Jorge Luis Borges





Só uma coisa não há, o esquecimento.
Deus, que poupa o metal, poupa a escória
E cifra em sua memória
As luas a vir e as que já foram.

Está tudo, os milhares de reflexos
Que entre os crepúsculos do dia
Teu rosto foi deixando nos espelhos
E aqueles que ainda há-de deixar.

E tudo é uma parte do diverso
Vidro dessa memória, o universo;
Não têm fim seus longos corredores

E as portas fecham-se quando passas;
Só do outro lado do ocaso
Verás Arquétipos e Esplendores.


(Trad. A.M.)


> Outras versões: Arquivo RS (R. Suttana) / Poesia Latina (H. Zanetti)

.

31.3.18

Pedro da Silveira (Meditação sobre a eternidade)






MEDITAÇÃO SOBRE A ETERNIDADE



Das árvores que plantei
nenhuma já me pertence
e de quase todas nem comi
ou sequer vi os frutos.
Sempre soube que devemos morrer
E penso que é melhor
não se saber quando nem como.
E quanto ao que deixámos,
não se recorde de quem foi.
Que só assim somos eternos.


Pedro da Silveira


.

30.3.18

Jorge Boccanera (Suma)




SUMA


Los días no contaban para mí,
bastaba la palabra.
Yo escuchaba en cuclillas como alguna palabra
conversaba con otra.
No contaban los días.
Pero extravié palabras y los días me siguieron
de cerca con sus largos abrigos.
Yo iba mirando el suelo.
“Ese no cuenta el cuento”, vaticinaron unos.
Yo no escuchaba a nadie, yo contaba con ellas.
Los días fueron como trapos mojados en los pies.
Habité días feroces porque perdí palabras.
Eran contadas y eran, al fin, las que contaban.
El tiempo es implacable.
El que pierde palabras tiene los días contados.


Jorge Boccanera

[Triplo V]




Os dias para mim não contavam,
bastava a palavra.
Eu escutava de cócoras como uma palavra
conversava com outra.
Nem contavam os dias.
Mas extraviei palavras e os dias seguiram-me
de perto com seus longos abrigos.
E eu com os olhos no chão.
‘Esse não conta um conto’,
vaticinaram alguns.
Eu não escutava ninguém, eu contava com elas.
Os dias vinham como trapos molhados nos pés,
dias ferozes que eu habitei por perder palavras.
Contadas, as palavras, afinal eram elas que contavam.
Porque o tempo é implacável,
quem perde palavras tem os dias contados.

(Trad. A.M.)

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29.3.18

Jorge Ampuero (Crise)






CRISIS



El problema no es
la jaula o el pájaro
o el pájaro
dentro
de la jaula
el problema es
la jaula
dentro
del pájaro.

Jorge Ampuero

 .

27.3.18

Carlos de Oliveira (Amanhecer)





(Amanhecer)


O primeiro alvor da madrugada na janela do escritório, um começo de luz apenas, ainda por fixar no contorno do mundo.

Como a mulher se tivesse recusado a deixá-lo entrar no quarto, passara ali a noite, encolhido no meiple de couro, com a samarra pelas pernas.

Não conseguira adormecer, mas alcançara do excesso das palavras e do álcool um pouco de repouso.
No entanto doía-lhe a cabeça.

A boca seca, amarga.

Levantar-se e abrir a janela.

Uma golada de água, a pureza fria da madrugada.

A cinza da luz amontoava-se nas vidraças, mas não era possível prever se o dia chegaria ou não.

Quando começava a clarear um pouco mais, a lufada de sombra varria a cinza da janela.

Um desejo irreprimível de cheirar os campos molhados.

Beber água, passar os dedos na casca rugosa dum pinheiro, encharcar-se de orvalho. (XV)

CARLOS DE OLIVEIRA
Uma Abelha na Chuva
(1953)


.

25.3.18

Joaquín Giannuzi (Aniversário-II)






CUMPLEAÑOS



He cerrado la puerta de mi padre.
Finalmente lo supe, al amanecer
de este cumpleaños en que te sobrevivo.
Pero aún con la difícil respiración
al borde de la cama y sombrías
opciones por delante, puedo entender
que tú y todos los muertos han perdido
y que vivir es el único prestigio que cubre la tierra.
Entonces, todo lo que es está bien.
Por alguna razón me incorporo; jadeando,
vacío tu rostro hacia la pesada oscuridad
y tengo tu misma manera de torcer la boca
al paso de la puntada por el pecho anginoso.


Joaquín Giannuzi





Encostei a porta do meu pai.
E soube finalmente, no dealbar
deste aniversário em que te sobrevivo.
Mesmo respirando a custo, sentado
na beira da cama e com bem sombrias
opções pela frente, sou capaz de entender
aquilo que tu e os mortos todos perderam,
e que viver é o maior regalo que existe
à superfície da terra.
Por conseguinte, tudo o que é bem está.
Por alguma razão me endireito; a impar,
empurro o teu rosto para o escuro pesado
e tenho como tu o mesmo modo de torcer a cara,
picado pela pontada da angina do peito.


(Trad. A.M.)

__________________

O poema já estava aqui: Aniversário
Mas nova tradução, ignorando a primeira por inadvertência, deu em novo resultado, diferente do anterior.

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23.3.18

Joan Margarit (Incitação à posteridade)






INCITACIÓN A LA POSTERIDAD




Si ya no puedes escribir ni amar,
y buscas un lugar para morir,
basta una habitación de hotel barato.
Manda que no te pasen los avisos,
paga dos noches por adelantado.
Mezclados con alcohol, has de servirte,
de Vesperax o Tofranil, tres gramos,
y, en caso de cianuro, sólo un cuarto.
Muerto de lujo, alcanzarás el rango
de poeta maldito.
Deja escrita una nota desolada.
Si es posible, un poema inacabado.
Al vacío escenario, para ti,
llegará un foco: la posteridad.



JOAN MARGARIT
Los motivos del lobo
(1993)







Se já não podes escrever nem amar,
e buscas um lugar para morrer,
basta um quarto dum hotel barato.
Diz para não te darem recados,
paga duas noites adiantadas.
Toma, misturado com álcool,
três gramas de Vesperax ou Tofranil,
e no caso de cianeto só um quarto.
Morto de luxo, atingirás a categoria
de poeta maldito.
Deixa escrita uma nota desolada,
se possível, um poema inacabado.
No vazio cenário, para ti,
aí está um foco: a posteridade.

(Trad. A.M.)

,

21.3.18

Miguel Martins (Quem acha)





Quem acha que a vida é para levar a sério
deve andar convencido de que a morte é a
brincar.


Miguel Martins

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19.3.18

Javier Salvago (Um pouco mais sábios)





UN POCO MÁS SABIOS,
UN POCO MÁS CIEGOS



Cuando uno ya no es joven, se convence
de que el diablo sabe más por viejo,
y admite que los años nos enseñan
a distinguir la realidad del sueño.
Y, acaso, no. Quizá la vida sólo
se nos muestra una vez —cuando tenemos
ojos para apreciarla— y luego vamos
olvidando su rostro y su secreto.


Javier Salvago




Quando já não somos jovens, pensamos
que o diabo é sabido por ser velho,
e julgamos que os anos ensinam
a distinguir a realidade do sonho.
E talvez não. A vida, porventura,
aparece-nos só uma vez - quando temos
olhos para apreciá-la; depois, vamos-lhe
esquecendo o rosto e o segredo.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L.P.)

.

18.3.18

Jaime Sabines (Da alegria)






DE LA ILUSIÓN



Escribiste en la tabla de mi corazón:
deseja.
Y yo anduve días y días
loco y aromado y triste.

Jaime Sabines




Escreveste-me na tábua do peito:
deseja.
E eu andei dias e dias
louco, fragrante e triste.

(Trad. A.M.)

.

17.3.18

Ana Margarida de Carvalho (A verdade magoa)




(A verdade magoa)


Nunca sabemos o que sabemos, onde começa a nossa recordação e acaba a dos outros, o que lembramos hoje é sempre o que da última vez lembrámos, são falsas todas as memórias.

E tudo se mistura, um sonho, um facto, uma recordação, vários pontos acrescentados que formam uma constelação defeituosa – tudo feito da mesma matéria, uma esponja, cheia de lapsos e interstícios, e às vezes quando se espreme sai uma gota a custo, outras, um jorro torrencial.

Eugénia não era pessoa de andar a pesar ovos de mosca em balança de aranha.

Entre a verdade e a verosimilhança, escolhia sem hesitar a verosimilhança.

Entre o que ocorrera e o que poderia ter ocorrido, optava pela segunda hipótese, tendo em conta que o excepcional encontra mais fácil e acolhedora morada na realidade do que na ficção, em que muito rapidamente ruem os alicerces do precário abrigo do que é apenas verosímil.

Além do mais, não valia a pena ocultar: a verdade magoa.

A verdade pode muito bem estar enganada.

É só uma questão de tempo.

E de a manter avisada.


ANA MARGARIDA CARVALHO
Que importa a fúria do mar
(2013)


.

16.3.18

Jacob Iglesias (5-Setermbro-2008)





5 -SEPTIEMBRE-2008



Catorce años después,
cuanto queda de mi padre es una sucesión
de imágenes
inconexas, y cada vez más huecos,
y algunos recuerdos minuciosos,
sobre todo de aquellos últimos meses.
Me ha costado todos estos años aprender
que cuando la memoria se convierte
en un rastro que conduce a ninguna parte,
sólo puede aliviarnos
esta liturgia de acercarnos al cementerio,
limpiar de tierra y excrementos de pájaro
la lápida, maldecir que haya más líquenes
en la inscripción y arrancar los hierbajos
que han ido creciendo.
Atar luego a la cruz unas flores de plástico
y dejar tumbado en la tierra
un ramo de claveles. Y rezar,
sin devoción, pero por si acaso,
un padrenuestro
por la vida eterna en que él confiaba.


Jacob Iglesias





Catorze anos depois,
tudo o que resta de meu pai é uma sucessão
de imagens
desconexas, espaços vazios
e algumas lembranças minuciosas,
mais daqueles últimos meses.
Custou-me aprender nestes anos todos
que quando a memória se converte
num rasto que não leva a lado nenhum,
só nos alivia
esta liturgia de passar no cemitério,
limpar a lápide das cagadelas dos pássaros,
praguejar de haver mais líquenes
na inscrição e arrancar os argalhos
que foram crescendo.
Prender depois na cruz umas flores de plástico
e deixar na terra caído
um ramo de cravos. E rezar,
sem devoção, mas por cautela,
um padre-nosso
pela vida eterna em que ele confiava.

(Trad. A.M.)


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15.3.18

Mario Quintana (O tempo)






O TEMPO



A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
     Quando se vê, já são seis horas!
     Quando se vê, já é sexta-feira!
     Quando se vê, já é natal...
     Quando se vê, já terminou o ano...
     Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
     Quando se vê passaram 50 anos!
     Agora é tarde demais para ser reprovado...
     Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
     Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
     Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
     E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
     Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
     A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.


               Mario Quintana

               [Conto Brasileiro]


.

14.3.18

Gloria Fuertes (A vida é uma hora)






LA VIDA ES UNA HORA



La vida es una hora,
apenas te da tiempo a amarlo todo,
a verlo todo.
La vida sabe a musgo,
sabe a poco la vida si no tienes
más manos en las manos que te dieron.
Al final escogemos un lugar peligroso,
un pretil, una vía,
la punta de un puñal donde pasar la noche.

Gloria Fuertes






A vida é uma hora,
mal nos dá tempo de amar tudo,
de ver tudo.
A vida sabe a musgo,
sabe a pouco a vida se não tiveres
mais mãos nas mãos que te deram.
No fim escolhemos um sítio perigoso,
um parapeito, uma via,
a ponta de um punhal onde passar a noite.

(Trad. A.M.)


.

13.3.18

Fernando Luis Chivite (Anti-hino)






ANTIHIMNO



No les verás el rostro porque no tienen rostro
no escucharás que llegan ni música ni látigos
no sentirás la sangre debajo de tu ropa

no sentirás el odio la vergüenza siquiera
debajo de tu ropa.

Fernando Luis Chivite





Não lhes verás o rosto porque não têm rosto
não ouvirás nem música nem açoites
não sentirás o teu sangue por baixo da roupa

não sentirás o ódio sequer a vergonha
por baixo da roupa.

(Trad. A.M.)

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12.3.18

Carlos de Oliveira (Janela)






(Janela)


Uma cabaça de vinagre despejada, os resíduos ácidos que escorrem com dificuldade pelo interior do bojo até pingarem do gargalo, espessos, vagarosos; a mão na espuma que lhe azedava os lábios; boiar numa onda incerta de enjoo e ter sede de repente como se tivesse de repente uma dor; o orvalho da noite poisava-lhe na nuca; podia erguer a cabeça tombada para fora da janela, virar a cara para o céu e beber daquela frescura suspensa pelo espaço; voltou-se com dificuldade e a moinha da água bateu-lhe ao de leve na fronte, nas pálpebras fechadas, foi-se acumulando gota a gota, deslizou em seguida pela face, encarreirou nas asas do nariz, veio depositar-se-lhe ao canto dos lábios; abriu a boca e sorveu a humidade lentamente; de súbito, qualquer lembrança remota parecida com aquilo, dias de chuva, a cabeça fora da janela, a boca aberta a aparar as goteiras do telhado, um perfil de criança recortada ao longe; a cinza da morrinha embaciava a distância, o tempo, mas havia por baixo de tudo, ao fundo das coisas, esse fulgor inapagável, o seu próprio perfil de criança, e muito mais, uma ternura dispersa pela casa paterna, por campos e pessoas, por bichos e por estrelas; o coração talhado numa grande pureza já perdida, a alma ainda livre da condenação do fogo, o corpo onde não acordara ainda o medo à morte, porque lhe era fácil então estender-se para fora da janela e beber alegremente das goteiras.

Agora não. (XII)

CARLOS DE OLIVEIRA
Uma Abelha na Chuva
(1953)

.

11.3.18

Ernesto Pérez Vallejo (Eu chamo-me Ernesto)






Me llamo Ernesto.
Nadie me llama Ernesto.
Nadie me llama.

Nadie no es una persona.
Nadie es nada.
Cero.
Folio en blanco. 
Teléfono sin agenda.
Amor sin wifi.

He amado a casi todas las mujeres
que se han cruzado conmigo. 
Ellas no lo saben.
En su ignorancia salvo el ridículo.

Soy de los que se caen 
y hacen como que están buscando una moneda.
Prefiero que me tachen de pobre
que de vértigo.

Prefiero que me tachen.

Que nadie me llame.
Nadie de ella.

Ojalá fueras nadie.

Tú, que te crees Alma,
que te llamo Alma,
que te gritan rubia en los pasos de peatones,
que te silban a Vivaldi en la boca del metro.

Ojala yo fuera la boca de un metro.
Que tu boca estuviera a un metro de mi boca. 
Que entraras y salieras cada mañana
sin reconocer que mi lengua
te lame los lunes más pesados de la nuca.

Ojalá fuera lunes.
Y no me llamara Ernesto.
Y no amara a todas las mujeres
que se cruzan por mi vida.

Que hubiera una moneda tras la caída.
Que saliera cara. 
Tu cara.
Que pensaran todos que he tenido suerte
y no vértigo.

Y quedarme en el suelo
hasta que nadie me levante
y me llame por mi nombre.
Una vez.

Pero nadie de todo.
Del total y de rubia.
Y de Vivaldi
Y de boca de metro.
Y de Alma.
Sobre todo de Alma.

Ernesto Pérez Vallejo





Eu chamo-me Ernesto.
Ninguém me chama Ernesto.
Ninguém me chama.

Ninguém não é uma pessoa.
Ninguém é nada.
Zero.
Folha em branco.
Telefone sem agenda.
Amor sem wi-fi.

Amei quase as mulheres todas
que se cruzaram comigo.
Sem elas saberem,
no que me poupo ao ridículo.

Eu sou daqueles que caem
e fazem que estão à procura de uma moeda.
Prefiro que me acoimem de pobre
a que me acusem de vertigem.

Prefiro que me acoimem.

Que ninguém me chame.
Ninguém dela.

Quem dera tu fosses ninguém.

Tu, que te crês Alma,
que eu chamo Alma,
que os outros gritam loira nas passadeiras de peões,
que te assobiam Vivaldi na boca do metro.

Fosse eu a boca de um metro.
Ou tua boca estivesse a um metro da minha boca.
Ou tu entrasses e saísses de manhã
sem reconhecer-me a língua
a lamber-te as segundas mais pesadas da nuca.

Oxalá fosse segunda.
E eu não me chamasse Ernesto.
E não amasse as mulheres todas
que se me atravessam na via.

Que houvesse mesmo uma moeda quando caio.
E fosse cara.
A tua cara.
E todos pensassem que eu tive sorte, sim,
não vertigem.

E ficasse pelo chão
até ninguém me levantar
e me chamar pelo nome.
Uma vez.

Mas ninguém de todo.
De todos e da loira.
E de Vivaldi.
E da boca do metro.
E de Alma.
De Alma, sobretudo.


(Trad. A.M.)

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