3.8.17

José María Parreño (Querer chegar a ser)





Querer llegar a ser
y para eso
lecturas viajes cuerpos
conseguir lo que no se posee
deshacerse de lo que nos estorba

pero al final
¿cantaremos mejor?
¿estaremos más cerca
de nuestro propio centro?

¿no sería mejor dejarse ir
como los días
tomar aquello a que alcanza la mano
abandonar lo que nos abandona?
¿saber que somos ya
sin mácula
sin falta
quienes somos?


José María Parreño




Querer chegar a ser
e para isso
leituras viagens corpos
conseguir o que não se tem
desfazer-se daquilo que nos estorva

mas a final
cantaremos melhor?
estaremos mais perto
do nosso próprio centro?

não seria melhor deixar-se ir
como os dias
tomar aquilo que a mão alcança
abandonar o que nos abandona?
saber que somos já
sem mácula
sem falha
quem somos?

(Trad. A.M.)

.

1.8.17

José María Fonollosa (Fifth Avenue)





FIFTH AVENUE



Me niego a hacer sonetos. Su estructura
-dos anchos ataúdes de cuartetos
y otros dos más delgados de tercetos-
los muestra adustos, serios de figura.

O semejan barrotes de una dura
prisión de endecasílabos sujetos
por rimas consonantes; obsoletos
modelos del rigor. ¿Poesía pura?

Mayormente son versos preparados
a medida del molde y presentados
con un burdo remedo de la música.

Abjuro de sonetos donde sobra
o falta espacio para expresar la obra
en su justa extensión, la exacta, la única.


José María Fonollosa

[Neorrabioso]





Recuso-me a fazer sonetos. Sua estrutura
– dois largos ataúdes de quartetos
e outros dois mais estreitos de tercetos –
mostra-os adustos, sérios de figura.

Ou semelham barrotes de uma dura
prisão de endecassílabos amarrados
por rimas consoantes; passados
modelos de rigor. Poesia pura?

Na maior parte são versos preparados
à medida do molde, apresentados
com um simples arremedo de música.

Abjuro de sonetos em que sobra
ou falta espaço para expressar a obra,
na sua justa extensão, a exacta, única.


(Trad. A.M.)

.

31.7.17

Efraín Huerta (Testamento cândido)





CANDOROSO TESTAMENTO



Ahora
Me
Cumplen
O
Me
Dejan
Como
Estatua

Efraín Huerta




Agora
ou me
cumprem
ou me
deixam
como
estátua


(Trad. A.M.)



>>  Poesi.as (70p) / A media voz (30p) / Wikipedia

.

30.7.17

Fernando Pessoa / A. Campos (Arre)





ARRE



Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.

Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!


Álvaro de Campos

[Assirio e Alvim]

.

29.7.17

José María Cumbreño (Coisas que me tiram do sério)





COSAS QUE ME SACAN DE QUICIO
                                                                             


Que en el supermercado sea yo la única 
que se ponga guantes para coger los tomates 
y la fruta.
Las espabiladas que intentan colarse.
Que el gilipollas de turno me pregunte si me ha gustado.
Tener que depilarme las axilas.
Ir a ducharme y que no haya agua.
Haberlo organizado todo y que mi jefe 
me desbarate los planes en un minuto.
Que algún imbécil me suelte lo de lo nuestro 
no puede ser porque eres mucha mujer para
mí y tú te mereces algo mejor.
La regla (cuando viene).
La regla (cuando no viene).
Estar continuamente a dieta y que ni se note. 
Los pelos en la bañera.
Los pelos en la cama.
Los pelos.
Seguir viviendo con mis padres.
Que un tío en la discoteca me pregunte la edad que tengo.
La cara que pone cuando se la digo.
Quemarme la lengua con el café.
El pestazo a tabaco en la ropa.
La resaca de los domingos por la mañana.
No acordarme de nada de lo que hice la noche anterior.
La talla de mis pantalones
Que todavía me salgan granos.
Mirarme al espejo y preguntarme para qué coño voy al gimnasio.
Salir siempre en las fotos con los ojos cerrados.
Estas tetazas que tengo.
Que los novios de mis amigas me las miren cuando ellas van al servicio.
Mi nombre.
Los cereales con fibra.
Los cereales bajos en calorías.
Que mi madre me repita cada dos por tres que, como me descuide, 
se me va a pasar el arroz.
Saber que encima tiene razón.
Las oposiciones.
Los anuncios de cremas contra la celulitis.
Cumplir años.
Ser incapaz de dejar de echar de menos al cabrón de Miguel.


José María Cumbreño





Que seja eu a única no supermercado 
a pôr luvas para tirar os tomates
e a fruta.
As presumidas que tentam encostar-se.
Que o palerma de serviço me pergunte se gostei.
O ter de depilar as axilas.
Ir para o duche e faltar a água.
Ter organizado tudo muito bem e o chefe
desfazer-me os planos num minuto.
Que um imbecil qualquer me jogue aquilo 
de que connosco não pode ser nada
porque tu és mulher de mais para mim
e mereces coisa melhor do que eu.
O período (quando aparece).
O período (quando não aparece).
Andar sempre a dieta e não se notar.
Os cabelos na banheira.
Os cabelos na cama.
Os cabelos.
Continuar a viver em casa dos pais.
Que um tipo na discoteca me pergunte pela idade.
A cara que faz ao receber a resposta.
Queimar-se-me a língua com o café.
O cheirete a tabaco na roupa.
A ressaca dos domingos de manhã.
Não lembrar nada do que fiz na noite anterior.
O tamanho das calças.
Que ainda me apareçam borbulhas.
Olhar-me no espelho e questionar para que raio ando no ginásio.
Ficar nas fotos sempre de olhos fechados.
Estas mamonas que tenho.
Que lhes deitem os olhos os noivos das minhas amigas
quando elas vão ao toalete.
O meu nome.
Os cereais com fibra.
Os cereais com poucas calorias.
Que minha mãe esteja sempre a dizer-me que o arroz vai 
ficar passado se eu me descuidar.
Saber que ela ainda por cima tem razão.
Os exames
Os anúncios de cremes para a celulite.
Fazer anos.
Sentir a falta que me faz o cabrão do Miguel.

(Trad. A.M.)


.

28.7.17

José Luis Zúñiga (Tua a luz)





TUYA ES LA LUZ



¡Qué insensatez acumular recuerdos
cuando es viva la luz!
Ante tu pecho erguido no hay ocaso,
amanece sin pausa un nuevo día,
presencia inacabable,
inagotable fuente de horas vivas,
regazo sugerido de futuros descansos.
Tuya es la luz, no hay nadie
que pueda arrebatarme la antigua claridad,
ningún recuerdo, ninguna hermosa historia
frente al irrefutable resplandor que hoy emanas,
precisamente hoy, hoy sobre todo,
mansa luz que se filtra
por cada poro de tu cuerpo adulto,
poderoso, a golpes de oleaje
cincelado. No cabe recordar,
sólo morir amando sorbo a sorbo.


José Luis Zuñiga






Que insensatez acumular lembranças
quando está viva a luz!
Ante o teu peito erguido não há ocaso,
amanhece sem pausa um novo dia,
presença inacabável,
inesgotável fonte de horas vivas,
colo sugerido de futuros descansos.
Tua a luz, ninguém poderá
arrebatar-me a antiga claridade,
nem lembrança, nem bela história,
frente ao resplendor que de ti emana hoje,
precisamente hoje, hoje sobretudo,
mansa luz coando-se
por cada poro de teu corpo adulto,
poderoso, cinzelado pelas ondas.
Nada de recordar, morrer sim
amando sorvo a sorvo.



(Trad. A.M.)

.

27.7.17

Eugénio de Andrade (Cantas. E fica a vida suspensa)





(II)

Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa teu canto
o silêncio é todo meu.


Eugénio de Andrade



.


26.7.17

José Luis Hidalgo (Só tu e eu sabemos)





Sólo tú y yo sabemos la verdad de este mundo
 que día a día robamos a la muerte,
 que erigimos de nada tan solo con palabras
 humo  
 ceniza de un beso olvidado en tu frente.  
 Sólo tú y yo sabemos  
 fábulas como flautas  
 silencios como hormigas más o menos sonoras  
 y eso que se edifica lentamente en tus ojos  
 detrás de la vitrina o cristal de una lágrima  
 ese beso o latido  
 esa sonrisa o llama  
 de tener a la vida en la flor de los labios.


José Luis Hidalgo




Só tu e eu sabemos a verdade deste mundo
que roubamos à morte dia a dia,
que erguemos do nada só com palavras
fumo
cinza de um beijo esquecido na tua fronte.
Só tu e eu sabemos
fábulas como flautas
silêncios como formigas mais ou menos sonoras
e isso que se edifica lentamente em teus olhos
por trás da vitrina ou cristal de uma lágrima
esse beijo ou pulsar
esse sorriso ou chama
de ter a vida à flor dos lábios.


(Trad. A.M.)

.

25.7.17

José Luis García Martín (Versos escritos entre duas aulas)





VERSOS ESCRITOS ENTRE DUAS AULAS
NA CAFETERIA DA FACULDADE



Um abismo separa tua vida da minha.
Lá no fundo as águas do grande rio,
ao alto abutres que não param.
Cerro os olhos antes do grande salto,
do cego impulso para lado nenhum.
Quando os abro sorris-me
– Estavas há muito à espera? –
não sei se neste mundo ou no outro.


J.L. García Martín



(Trad. A.M.)

.

24.7.17

Daniel Filipe (Paisagem)





PAISAGEM



Ilha: pedaço de osso
à flor da pele do mar.
Esquírola viva, troço
de abóbada lunar.
Mar em azul inesperado.
Ilha, começo e fim do mundo
perpetuamente adiado
entre as algas do fundo.
Ilha, navio antes do oceano,
terra em pouso do sonho, rosto
de pedra com perfil humano,
ao vento sul exposto.


Daniel Filipe


>>  Escritas (8p) / Antonio Miranda (6p) / Wikipedia

.




23.7.17

José Hierro (Luz da tarde)





LUZ DE LA TARDE



Me da pena pensar que algún día querré ver de nuevo este espacio,
tornar a este instante.
Me da pena soñarme rompiendo mis alas
contra muros que se alzan e impiden que pueda volver a encontrarme.

Estas ramas en flor que palpitan y rompen alegres
la apariencia tranquila del aire,
esas hojas que mojan mis pies de crujiente hermosura,
el muchacho que guarda en su frente la luz de la tarde,
ese blanco pañuelo caído tal vez de unas manos,
cuando ya no esperaban que un beso de amor las rozase...

Me da pena mirar estas cosas, querer estas cosas, guardar estas cosas.
Me da pena soñarme volviendo a buscarlas, volviendo a buscarme,
poblando otra tarde como ésta de ramas que guarde en mi alma,
aprendiendo en mí mismo que un sueño no puede volver otra vez a soñarse.


José Hierro





Dá-me pena pensar que um dia hei-de querer ver de novo este espaço,
tornar a este instante.
Dá-me pena sonhar-me a quebrar as asas
contra os muros que me impedem de voltar a encontrar-me.

Estes ramos em flor que quebram de alegria
o ar tranquilo da tarde,
estas folhas que me molham os pés de beleza,
o moço que guarda na fronte a luz vespertina,
esse lenço branco caído acaso de umas mãos
que já não esperavam que um beijo de amor as tocasse...

Dá-me pena olhar para estas coisas, querê-las, guardar estas coisas.
Dá-me pena sonhar em voltar a buscá-las, em voltar a buscar-me,
povoando outra tarde como esta de ramos que guarde na alma,
aprendendo em mim mesmo que um sonho não pode voltar outra vez a sonhar-se.


(Trad. A.M.)

.

22.7.17

José Emilio Pacheco (O 'y')





LA “Y”



En los muros ruinosos de la capilla
florece el musgo pero no tanto
como las inscripciones: la selva
de iniciales talladas a navaja en la piedra
que, unida al tiempo, las devora y confunde.

Letras borrosas, torpes, contrahechas.
A veces desahogos, insultos.
Pero invariablemente
las misteriosas iniciales unidas
por la “y” griega:
manos que acercan,
piernas que se entrelazan, la conjunción
copulativa, huella en el muro
de cópulas que fueron o no se realizaron.
Cómo saberlo

Porque la “y” del encuentro también simboliza
los caminos que se bifurcan: E.G.
encontró a F.D. Y se amaron.
¿Fueron “felices para siempre”?
Claro que no, tampoco importa demasiado.

Insisto: se amaron
una semana, un año o medio siglo.
Y al fin
la vida los separó o los desunió la muerte
(una de dos sin otra alternativa).

Dure una noche o siete lustros, ningún amor
termina felizmente (se sabe).
Pero aun la separación
no prevalecerá contra lo que juntos tuvieron.

Aunque M.A. haya perdido a T.H.
y P. se quede sin N.,
hubo el amor y ardió un instante y dejó
su humilde huella, aquí entre el musgo,
en este libro de piedra.


José Emilio Pacheco

[Escomberoides]





Nos muros da capela em ruínas
o musgo alastra, mas não tanto
como as inscrições, a selva
de iniciais marcadas à navalha na pedra,
que as devora e confunde, aliada ao tempo.

Letras confusas, desajeitadas, contrafeitas.
Às vezes desabafos, insultos.
Mas invariavelmente
as misteriosas iniciais unidas
pelo “y” grego,
mãos que acercam,
pernas que se enlaçam, a conjunção
copulativa, marca no muro
de cópulas que foram
ou não chegaram a ser.
Como sabê-lo?

Porque o “y” do encontro também simboliza
caminhos que se bifurcam: E.G.
encontrou F.D. E amaram-se.
Foram “felizes para sempre”?
Claro que não, nem isso importa muito.

Insisto, amaram-se
uma semana, um ano ou meio século.
E por fim
a vida separou-os ou desuniu-os a morte
(uma de duas, sem mais alternativa).

Dure uma noite ou sete lustros, nenhum amor
termina de modo feliz (é sabido).
Mas também a separação
não prevalecerá contra o que juntos tiveram.

Mesmo que M.A. tenha perdido T.H.
e P. fique sem N.,
houve amor e ardeu um instante e deixou
uma marca humilde, no meio do musgo,
neste livro de pedra.


(Trad. A.M.)

.


21.7.17

Charles Bukowski (Nossa curiosa posição)





OUR CURIOUS POSITION



Saroyan on his deathbed said,
"I thought I would never die. . . "

I know what he meant:
I think of myself forever
rolling a cart through a
supermarket
looking for onions, potatoes
and bread
while watching the misshapen
and droll ladies push
by.
I think of myself forever
driving the freeway
looking through a dirty
windshield with the radio tuned to
something I don't want
to hear.
I think of myself forever
tilted back in a
dentist's chair
mouth
crocodiled open
musing that
I'm in
Who's Who in America.
I think of myself forever
in a room with a depressed
and unhappy woman.
I think of myself forever
in the bathtub
farting underwater
watching the bubbles
and feeling proud.

but dead, no. . .
blood pin-pointed out of
the nostrils,
my head cracking across
the desk
my fingers grabbing at
darkspace...
impossible ...

I think of myself forever
sitting upon the edge
of the bed
in my shorts with
toenail clippers
cracking off
huge ugly chunks
of nail
as I smile
while my white cat
sits in the window
looking out over the
town
as the telephone rings...

in between the
punctuating
agonies
life is such a
gentle habit:
I understand what
Saroyan
meant:

I think of myself
forever walking down the
stairs
opening the door
walking to the
mailbox
and finding all that
advertising
which
I don't believe
either.


Charles Bukowski



Saroyan dizia no seu leito de morte
“eu nunca pensei que morria”...

e eu percebo-o,
vendo-me a mim mesmo para sempre
a puxar um carrinho
no supermercado
em busca de cebolas, batatas
e pão,
e a ver passar as matronas
 ao lado a empurrar.
Vejo-me a conduzir eternamente
pela estrada,
olhando pelo vidro sujo, com o rádio
sintonizado em algo que não queria escutar.
Vejo-me recostado para sempre
na cadeira do dentista
a boca aberta como um crocodilo,
a pensar que figuro na lista
dos mais importantes da América.
Vejo-me num quarto para sempre
com uma mulher deprimida, infeliz.
Vejo-me na banheira
 a puxar uns traques subaquáticos
e a contemplar as bolhas, orgulhoso.

Mas morto, não...
o sangue a espirrar-me
do nariz,
a cabeça a estoirar-me no escritório,
os meus dedos filados
no espaço negro,
impossível.

Vejo-me eternamente sentado
na beira da cama,
em calções,
a cortar as unhas dos pés
sorrindo
para o gato sentado na janela
a olhar para fora
enquanto o telefone toca...

Por entre agonias pontuais
é um hábito catita, a vida:
percebo o que Saroyan
queria dizer:

Vejo-me no tempo a descer
as escadas,
abrir a porta,
ir à caixa do correio
e topar com a tralha
da publicidade
em que tão pouco acredito.


(Trad. A.M.)

.

20.7.17

José Daniel Espejo (A máquina)





LA MÁQUINA



Nos perseguimos
para matarnos.
Esperamos el momento oportuno
para el golpe por sorpresa
la emboscada definitiva.
En la práctica esta guerra
se reduce a una larga
continua vigilancia. Lo peor
son las noches afilando cuchillos.


José Daniel Espejo




Para nos matarmos
nos perseguimos.
Esperamos o momento azado
para o ataque de surpresa,
a emboscada fatal.
Na prática, esta guerra
reduz-se a uma longa
contínua vigilância. O pior
são as noites a afiar as facas.

(Trad. A.M.)

.

19.7.17

José Corredor-Matheos (Que seja Primavera)





Que sea primavera
cuando escribas,
y el día, como hoy,
tenga un sol cuya luz
no proyecte más sombra
que la que dan las alas
de los pájaros.
Que tus pasos se alejen
más de ti,
y que cada palabra,
cada verso,
sean los que esperabas
y no acababan nunca
de llegar.
Y cuando estés muy lejos
y hayas dejado atrás
las dunas del desierto,
donde las flores vuelvan
a brotar,
no te importe seguir.


José Corredor-Matheos





Que seja Primavera
quando escreveres,
e o dia, como hoje,
tenha um sol cuja luz
não projecte mais sombra
que aquela que dão
as asas dos pássaros.
Que teus passos se afastem
mais de ti,
e cada palavra,
cada verso,
sejam os que esperavas
e nunca mais acabavam de vir.
E quando estiveres muito longe
e tiveres deixado para trás
as dunas do deserto,
onde as flores brotem de novo,
não te importe continuar.



(Trad. A.M.)

.

18.7.17

Camilo Pessanha (Imagens que passais pela retina)





Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!... 

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais? 

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos... 

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos. 



Camilo Pessanha

.

17.7.17

José Antonio Fernández Sánchez (Bem-aventurados)





BIENAVENTURADOS



Bienaventurado el latifundista,
suya será, también, la Tierra Prometida.
El dictador de las colonias de ultramar
pues su bigote merecerá el embalsamiento de los años.
Bienaventurado el político que escoge zapatos con cuña,
su voz será lo único que quede bajo el peso de una losa.
Bienaventurado el dios minúsculo
porque se rindió en el último peldaño, el caza recompensas,
suyo es el mérito de los salarios.
Bienaventurado el último poeta, bienaventurado sea, y alguna plaga reciba.
Los cierra sobres, siempre que den por terminada su huelga indefinida.
Y así se les sequen los labios, decía una maldición gitana.
Bienaventurado el lector que cree haber encontrado el doble sentido,
el marido juguetón que utiliza un puño americano.
Bienaventurado el cura de mi pueblo, famoso por sus blancas manos,
los empresarios paternalistas, por incumplir nueve Mandamientos.
Bienaventurado el consentidor de plegarias porque de él será
el privilegio del último suspiro, el saqueador de columnas,
también bienaventurado, inventor de los paraguas desechables.
Bienaventurado el pescador de aguas bravas, el cuerno del unicornio,
la figura de Buda en estado catatónico, el arlequín alegre,
bienaventurado el domador de mariposas, el carcelero que realiza horas extras,
 el listo y la lista, el amo de la casa, las casas sin cosas, los santos oficios.
Bienaventurado el marmolista, merecedor de los royalties de nuestros epitafios y amén.


José Antonio Fernández Sánchez






Bem-aventurado o latifundiário,
sua será também a Terra Prometida.
O ditador das colónias do ultramar
pois seu bigode será embalsamado pelos anos.
Bem-aventurado o político que escolhe sapatos de ponta,
restará apenas sua voz sob o peso do mármore.
Bem-aventurado o deus pequenino
porque se rendeu no último degrau, o caça-recompensas,
que seu é o mérito da paga.
Bem-aventurado o derradeiro poeta, bem-aventurado seja,
e que alguma chaga receba.
Os fechadores de envelopes, sempre que dêem por terminada a sua greve indefinida.
E que lhes fiquem secos os lábios, segundo a maldição dos ciganos.
Bem-aventurado o leitor que pensa ter achado o duplo sentido,
o marido brincalhão que usa um punho americano.
Bem-aventurado o padre lá da paróquia, mais as suas mãos delicadas,
e os empresários paternalistas, por incumprirem nove Mandamentos.
Bem-aventurado o pagador de promessas, porque dele será
o condão do último suspiro, o salteador de estradas,
bem-aventurado seja, inventor dos sombreiros descartáveis.
Bem-aventurado o pescador de águas bravas, o corno do unicórnio,
a figura do Buda em estado catatónico, o arlequim alegre,
bem-aventurado o domador de borboletas, o carcereiro que faz horas extra,
o pronto e a pronta, o dono da casa, as casas sem coisas, os santos ofícios.
Bem-aventurado o marmorista, credor das royalties de tanto epitáfio, amém.


(Trad. A.M.)


.

16.7.17

José Ángel Valente (A poesia)





LA POESÍA



Se fue en el viento,
volvió en el aire.

Le abrí en mi casa
la puerta grande.

Se fue en el viento.
Quedé anhelante.

Se fue en el viento,
volvió en el aire.

Me llevó adonde
no había nadie.

Se fue en el viento,
quedó en mi sangre.

Volvió en el aire.


José Ángel Valente




Foi-se no vento,
voltou pelo ar.

Abri-lhe em casa
a porta grande.

Foi-se no vento.
Fiquei anelante.

Foi-se no vento,
voltou pelo ar.

Levou-me aonde
não havia ninguém.

Foi-se no vento,
ficou em meu sangue.

Voltou pelo ar.



(Trad. A.M.)

.

15.7.17

Bocage (Já Bocage não sou)





Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;

Conheço agora já quão vã figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura.

Eu me arrependo; a língua quasi fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... a santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!. 



Bocage

.

14.7.17

José Alcaraz (O sol aparece)





SALE EL SOL



Sale el sol y el parque alumbra
otro niño al que se le escapa un globo.
Unos se fijan en lo alto que sube,
otros en el llanto del pequeño,
hay quien ve una metáfora de la vida
(hilo frágil que sujetamos
hasta el último instante).
Y yo, que venía a respirar,
siento vértigo por la altura del globo,
pena por las lágrimas del niño,
rabia por la vida, que nos exige
apretar fuerte los puños para sujetarla.


José Alcaraz






O sol aparece e o jardim ilumina-se,
outro miúdo com um balão a fugir-lhe.
Uns atentam no alto a que sobe,
outros no pranto do pequeno,
havendo quem veja ali uma metáfora da vida
(fio frágil que seguramos
até ao derradeiro momento).
E eu, que vinha só respirar,
tenho vertigens da altura do balão,
pena das lágrimas do miúdo,
raiva da vida, que nos obriga
a cerrar os punhos com força
para a segurar.


(Trad. A.M.)

.